Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?" Conferência referida em "Cadernos de Lanzarote Diário II" (15/08/1994)

15 de Agosto de 1994
"Edmonton, no estado canadiano de Alberta, XIV Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada, que nos últimos três anos tem sido presidida pela Maria Alzira Seixo. Encontra-se aqui reunida, a par de uma multidão de caras desconhecidas - os congressistas passam de quinhentos -, a fina flor dos especialistas destas matérias em todo o mundo. O tema promete: «Literatura e diversidade: línguas, culturas, sociedades.» Ao princípio, havia sido também prevista a participação da escritora canadiana Margaret Atwood, mas afinal sou o único escritor presente. Tinham-me informado de que falaria amanhã, porém, o programa definitivo arrumou-me para hoje, na segunda sessão plenária. Li a minha conferência - Entre o narrado omnisciente e o monólogo interior: será necessário regressar ao autor? -, desenvolvimento de um ensaio que há tempos publiquei na revista francesa "Quai Voltaire". Não me engano nem engano se disser que saiu bastante bem. Os aplausos foram generosos, mas mais importantes do que eles foram as perguntas no fim: para concordar ou para discordar, os académicos decidiram tomar a sério a exposição simples de umas quantas opiniões produzidas por um escritor em domínio habitualmente reservado a «técnicos». Foi durante esse período de perguntas, já esgotado o primeiro efeito da sempre providencial adrenalina, que, bruscamente, me caiu em cima todo o cansaço dá viagem. Lá consegui aguentar-me. A apresentação, feita por Wladimir Krysinski, da Universidade de Montréal, que conheci em Viterbo, foi-o em tais termos que me fizeram pensar enquanto ele ia falando: «Ah, se o que tu dizes fosse verdade!...»" 
in, Cadernos de Lanzarote Diário II
Caminho, páginas 176 e 177



A conferência a que José Saramago faz referência nesta entrada para o seu "caderno", pode ser lida e consultada, aqui via página da Fundação José Saramago, 
em http://www.josesaramago.org/entre-o-narrador-omnisciente-e-o-monologo-interior-deveremos-voltar-ao-autor/

"Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?"

"Frequentemente, quando se fala das causas do êxito brilhante ou do fracasso estrepitoso de um homem, há logo alguém que repete uma frase irritante, que o uso acabou por tornar clássica: «Cherchez la femme». O que com ela se quer dizer, provavelmente, é que o homem, tanto no melhor como no pior, não é nada sem uma mulher – a mulher. Deste ponto de vista, entregue a si próprio, o homem seria, pois, a imagem da mais perfeita inocência.

(Entre parênteses, não recordo ter ouvido alguma vez as palavras que fariam contraponto a estas quando fosse preciso procurar as causas do fracasso ou do êxito de uma mulher: não se diz nunca «cherchez  l’homme». Significa isto, talvez, que as mulheres conseguem governar-se sempre  melhor que os homens para chegar ao triunfo, ou, pelo contrário, para lamber e curar sozinhas as suas feridas, as feridas do corpo e da alma que a vida vai prodigalizando à esquerda e à direita. Parêntese fechado. Prossigo).

Certamente porque sempre necessito ir buscar o que se encontre a montante, e na fonte, se possível, para compreender o rio que me corre diante dos olhos, e sobretudo, confesso-o, para poder encontrar o meu pequeno caminho na floresta (para mim absolutamente virgem…) dos temas propostos ao Congresso, esmiucei, palavra por palavra, por assim dizer, os enunciados das diferentes áreas de trabalho que vos esperam aqui: literatura e identidade; influências estrangeiras e internas; géneros literários, língua, e cultura; literatura e outras formas de expressão cultural; estudos regionais; métodos e paradigmas da literatura comparada e da diversidade cultural.

Em parte alguma encontrei eu a palavra autor . Estranho caso, pensei. Então disse comigo mesmo: «Eles (vós) que falem do que os autores, muito ou pouco conhecidos, tornados em literatura, fizeram. Quanto a mim, talvez me seja possível encontrar alguma coisa para dizer sobre o que o autor  é.» Eis-me aqui, portanto, sozinho com o meu tema, em rigor sozinho comigo mesmo.

Começo por um esclarecimento que considero importante. Pelo menos do que posso alcançar ser minha intenção consciente, suponho que não existe outra, a interrogação posta no começo desta breve conferência – «Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?» – não é gratuita nem quer ser polémica.

Em primeiro lugar não é gratuita porque pretende enfrentar-se, sem virar a cara e sem qualquer precaução retórica prévia, com as minhas próprias dúvidas e perplexidades acerca da verdadeira identidade da minha voz narrativa, essa voz que, nos livros que tenho escrito, veicula o que eu creio ser, finalmente, e em todos os casos e circunstâncias, o simples ensamento do autor que sou, desta pessoa que sou, do seu pensamento próprio ou, ai de mim, o pensamento de tantas outras, por mim tomado para satisfação das minhas necessidades de narrador.

Não é polémica também essa liminar interrogação – apesar de conter já, na sua própria formulação, um reconhecimento implícito de mais ou menos evidentes debilidades conceptuais – porque não tenciona, com aquela falsa distracção de quem simula pensar noutra coisa, escapar às dificuldades do assunto, segundo o conhecido método de deslocar o debate para um terreno mais favorável.

Se proponho esta alternativa, que coloca frente a frente, por um lado, as técnicas mais ou menos elaboradas e já correntemente usadas do «monólogo interior» e, por outro lado, as técnicas do «narrador omnisciente», muito mais ingénuas, universalmente e desde sempre utilizadas, é porque penso, no fim de contas, que todos os processos narrativos, já inventados ou futuros, não têm e não terão nunca senão um objectivo: constituírem-se, cada um deles e todos juntos, como meios de pesquisa e de expressão que aspiram à globalidade. E que estes processos não são mais do que instrumentos que o autor vai usar, sucessivamente ou de modo complexo, com um único objectivo também, o de exprimir o  seu próprio pensamento. Escusado seria dizer que quando digo «pensamento» estou  a considerar também as impressões, as sensações, as emoções, os sonhos, que tudo isto são «visões» de um mundo exterior e de um mundo interior sem as quais o que chamamos «pensamento» se tornaria, pelo menos assim o creio, inoperante. O «narrador omnisciente», o autêntico, comporta-se, em minha opinião, como um deus que não se contentasse com saber tudo quanto se passou e vai passando: ele conhece, desde o primeiro facto, desde a primeira sensação, desde a primeira ideia, tudo o que a ideia, o facto ou a sensação irão ter como consequências próximas e distantes, espaciais ou temporais. Ele organizará o seu discurso, se posso permitir-me tal comparação, como o condutor duma quadriga que deverá não só segurar as rédeas e vigiar as reacções dos cavalos aos seus estímulos como também manter-se atento às eventuais irregularidades do caminho, ao itinerário que deverá seguir e aos sinais reveladores que lhe vão sendo transmitidos por uma máquina ainda mais frágil do que parece. Essa máquina, será preciso dizê-lo?, é a máquina do relato, jamais estável, jamais percorrendo uma linha recta, a todo o momento em risco de desviar-se, de tornar-se noutra coisa.

Qualquer, querendo, poderá adornar estas coisas a seu gosto, mas, na verdade, o que nós fazemos, em geral, nós os que  escrevemos, é resumível em duas simples palavras: contar histórias. Também é possível dizer – seguramente alguém o disse já – que os romancistas, os dramaturgos, e mesmo os poetas, existem para contar a história daqueles que não são nem virão a ser poetas, dramaturgos, ou romancistas. Talvez isto seja certo, quem sou eu para refutar, embora não consiga deixar de pensar que há nessa presunção alguma vaidade intelectual em demasia. Indo um pouco mais longe, o que verdadeiramente creio é que o romancista, o dramaturgo, o poeta, contam, não unicamente, claro está, mas sobretudo, a sua própria história pessoal, o que, em todo o caso, não é o mesmo que afirmar que um dia decidiram ser escritores somente para nos contar, de caso pensado e com o indispensável impudor, as suas pequenas vidas…

Em meu parecer, cada palavra é, em si mesma, uma história. As palavras que pronunciamos, entre o momento em que deixamos a cama, de manhã, e aquele em que a ela regressamos quando a noite chega, e também as palavras dos sonhos, ou aquelas que os sonhos tentaram descrever – constituem uma história, ao mesmo tempo racional e louca, contínua ou fragmentária, e podem, como tal e em todo o momento, ser organizadas e articuladas em história, escrita ou não. Porque, ainda que não escrevamos, vivemos todo o tempo como uma personagem, sim, como uma personagem, a história que estamos a ser.

Tudo isto, não o esqueçamos, será contado pelo escritor com uma dupla intenção, que é ora clara ora oculta: evidente e visível, em primeiro lugar, porque é preciso que a história que conta seja «reconhecida» como tal, passo a passo, pelo leitor, mas também, em segundo lugar, como se  ela estivesse dissimulada por trás da imediatidade do que chamamos consciência, com vista a ampliar e acentuar os efeitos de ressonância que dessa dissimulação possam resultar.

Esse contador de histórias é, não o esqueçamos também, em todas as  circunstâncias, um mistificador, um mistificador impenitente, de alguma maneira sem desculpa, salvo a do seu génio, se teve  essa extraordinária sorte no momento da repartição cósmica das graças… Conta sempre as mesmas histórias, sabendo bem que elas não são mais do que umas quantas palavras postas umas atrás das outras, suspensas em equilíbrio instável, frágeis, sempre sob a vertigem do não-sentido que as atrai, já livres ou conservando ainda um  resto de organização, para esse fantasma imundo que sempre está à espreita, o caos que ameaça constantemente todos os nossos códigos, cuja chave, a cada momento, corre o risco de perder-se.

Contudo, devemos ter presente que,  do mesmo modo que as verdades puras não existem, também não existem as puras mentiras. Porque se toda a verdade leva consigo inevitavelmente uma parte de mentira, nenhuma mentira é tão mentirosa que não veicule, ela também, uma parte de verdade. A mentira conterá pois duas verdades: a sua própria, elementar, digamos, a verdade da sua própria contradição («Se eu sou mentiroso e o digo, estou a dizer uma verdade»), e a outra verdade de que ela acabará, voluntariamente ou involuntariamente, por tornar-se veículo, comporte ou não esta verdade, por sua vez, uma parte de mentira. Cada uma destas forças faz mover sucessivamente, como numa engrenagem,  a força que é sua negação. Não conheço outro movimento perpétuo…

Ora projectando uma aparência de verdade ora torcendo sobre a verdade duma aparência, vamos pela vida contando histórias. No entanto, e aqui entro finalmente no cerne do meu tema, a história que, segundo creio, deveria interessar mais ao leitor, e ao contrário do que parece ser a própria evidência material do texto, não deveria ser aquela que aparentemente lhe está a ser proposta pelo relato que ele se prepara para ler. Como é possível? Que quero dizer com isto? Passarei a explicar-me. Um livro não está feito somente de personagens, de acontecimentos, de peripécias, de surpresas, de efeitos de estilo, de demonstrações ginásticas duma técnica. Um livro é, acima de tudo, aquilo que nele possa ser encontrado e nele possa ser identificado como sendo o autor, o seu autor. Pergunto-me mesmo se o que determina o leitor a ler não será uma secreta e inconfessada esperança de descobrir no interior do livro – mais do que a história que lhe vai ser contada e que ele normalmente espera num estado de espírito similar à obediência –, a pessoa invisível, omnipresente também, diga-se o que se disser, do autor. Tal como o entendo, o romance é uma máscara que esconde e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. O leitor não lê o romance, lê o romancista. O que não equivale a dizer que o leitor deva entregar-se a uma operação de detective ou de geólogo, procurando pistas ou sondando camadas tectónicas, ao fundo das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, se encontraria 
escondido o autor…  

Muito pelo contrário: o autor está ali no livro, o autor é o livro, mesmo quando o livro não consegue ser todo o autor. Mão foi simplesmente para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece-me, até, que ele não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem faltar ao respeito que é devido ao autor de Bouvard et Pécuchet, poder-se-ia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: faltou a Flaubert 
acrescentar que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de  todas as condições e idades, nela viviam, porque a imagem e o espírito, o sangue e a  carne de tudo isto tiveram de passar, inteiros, por um só homem: Gustave Flaubert, isto é, o autor. Emma Bovary é Gustave Flaubert porque sem ele seria coisa nenhuma. E se me é permitida agora a presunção de pronunciar outro nome depois de ter mencionado o do autor de  L’éducation sentimentale, diria que também eu, ainda que tão pouca coisa, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e que em  O Evangelho segundo Jesus Cristo  não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão.

O que nós sempre contamos, afinal, é a nossa própria história, não a história da nossa vida, aquela a que chamamos biográfica, mas essa outra que dificilmente saberíamos contar em nosso próprio nome, não tanto porque nos desse demasiada vergonha ou nos trouxesse demasiado orgulho, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para poder ser  dito em palavras, fossem elas milhares, e porque o que faz de nós geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que por aí não encontraríamos nada de novo que pudesse comover esse outro grande e pequeno ser que o leitor é.

Talvez seja por estas razões e outras semelhantes que certos autores, entre os quais julgo poder incluir-me, privilegiam nas histórias que contam, não a história que vivem ou viveram, mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser mentiras.  Essa é a única história que poderemos honestamente contar porque, em verdade, não conhecemos outra.

E então? Deveremos realmente regressar ao autor? Sim, em minha opinião, sim, mas atenção, não ao autor, como tal, desligado, como hoje demasiado o vemos, do seu ser social e ético. Receio bem que as  palavras que vou dizer vos soem como antiguidades fora de moda, mas o que proponho aqui é uma espécie de reconciliação, é o regresso apaixonado à concreta figura de homem ou de mulher que está por trás dos livros, e sem a qual, sem essa figura concreta, a literatura simplesmente não existiria. São essa mulher e esse homem que sobretudo me interessam, não para que me digam como foi que escreveram as suas grandes ou pequenas obras (o mais provável é não o saberem eles próprios), não para que aperfeiçoem a minha educação e me guiem com as suas lições (eles são, quase sempre, os primeiros a não segui-las), mas muito simplesmente para que me digam  quem são nesta sociedade que  nós somos, eles, eu, todos nós. O que peço é que eles estejam aí todos os dias, visíveis, sobretudo audíveis, como cidadãos deste presente que é o nosso, mesmo se, como escritores, crêem estar trabalhando para o futuro.

O problema, se verdadeiramente existe, se não é mais do que um fruto tardio e pouco atraente da minha imaginação, não reside no suposto facto da extinção das causas de teor social, ideológico ou político que, com resultados estéticos tão variáveis como foram as intenções, conduziram a literatura, num determinado momento, àquilo a que se chamou, com evidente espírito redutor, o comprometimento. O problema, se quereis que me exprima duma maneira mais directa e sem rodeios, é que o escritor, 
hoje, em geral, recusa qualquer comprometimento, salvo evidentemente o que ele chama, se é bastante franco para declará-lo, o comprometimento pessoal e exclusivo com a sua obra. Atrever-me-ei mesmo a dizer que muitas teorizações que nos rodeiam, quantas delas belas e inteligentes, acabam, mesmo não sendo esse o seu objectivo, por se constituir como escapatórias intelectuais, maneiras diversas de esconder, aos nossos próprios olhos, a má consciência e o mal-estar profundo de um grupo de pessoas – nós, os escritores – que depois de terem presumido, durante muito tempo, de serem o farol da humanidade, acrescentam agora, à irredutível escuridão do acto criador (sabíeis que escrevemos no escuro?), as trevas da renúncia e da abdicação cívica. Entendemos como normal que, depois da sua morte, o escritor seja julgado segundo aquilo que fez. Mas, enquanto ele aí está, presente, vivo, permiti que vos diga que temos também o direito de julgá-lo segundo o que é."

José Saramago 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

“Euschistus (Mitripus) saramagoi”, uma nova espécie de insecto descoberta pelo investigador Filipe Michels Bianchi

Informação via página da Fundação José Saramago, aqui

"O investigador brasileiro Filipe Michels Bianchi, mestre e doutorando em Biologia Animal na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, nomeou com o nome de José Saramago uma das mais recentes descobertas na identificação de percevejos. “Euschistus (Mitripus) saramagoi” passa, assim, a fazer parte dos compêndios de Zoologia pelas mãos da equipa de Bianchi, Alana Cioato e Jocelia Grazia.

A descoberta foi publicada como artigo científico na revista Zootaxa, no passado dia 27 de Novembro.

Fotografia — retirada do artigo científico “New species of Euschistus (Euschistus) from Jamaica, Euschistus (Mitripus) and Ladeaschistus from southern South America (Hemiptera: Heteroptera: Pentatomidae: Pentatominae)” da referida revista."

Aqui mais informação cientifica do investigador Filipe Michels Bianchi, aqui

Blimunda revista digital edição #44 - Janeiro de 2016



A edição pode ser descarregada e lida, aqui via página da Fundação José Saramago,

"Como alteram as novas tecnologias o acesso aos bens culturais e informativos? Esta pergunta preside a grande parte do conteúdo da edição # 44 da Blimunda.

O jornalismo atual passa por uma transformação, relacionada com a crise económica, mas também com o fim de um modelo que o obriga a reinventar-se. A revista deste mês debruça-se sobre esta questão e ouve alguns jornalistas no Brasil, em Espanha e em Portugal a fim de conhecer novos projetos e tentar apontar pistas para o futuro dos jornalistas e do jornalismo.

A integração das novas tecnologias, em especial dos media sociais, na educação formal ainda é um desafio para os educadores. A possibilidade de utilização de algumas novas ferramentas para promover a leitura é o assunto da secção Infantil e Juvenil da revista.

Em Lisboa, a Blimunda visitou a mostra dedicada a Ruy Duarte de Carvalho, escritor, cineasta e antropólogo nascido em Angola em 1941 (e falecido em 2010), e conversou com Marta Lança, investigadora em Estudos Artísticos e uma das responsáveis pela curadoria da exposição patente na Galeria Quadrum, em Lisboa.

Na secção dedicada ao cinema, o tema é o Rock, ou mais especificamente o “rockcumentário”, género que nos últimos anos tem ganho espaço no grande ecrã.

Na Saramaguiana, duas pesquisadoras da Universidade de Évora, Aline Ferreira e Helena Ferreira, propõem uma leitura de O Anjo, quadro de Paula Rego, como Blimunda, personagem de José Saramago do romance Memorial do Convento.

Como habitualmente, os restantes conteúdos da Blimunda têm como destino as secções permanentes da revista: Estante, Leitura do Mês, Rodapé e Dicionário.

A começar 2016, o desejo de sempre, boas leituras!"


Terceiro volume de Obras Completas de José Saramago na Companhia das Letras

"Terceiro volume de Obras Completas de José Saramago na Companhia das Letras

Acaba de ser lançado, com a chancela da editora brasileira Companhia das Letras, o terceiro volume de Obras Completas de José Saramago. 
Este volume inclui as obras “O Evangelho segundo Jesus Cristo“, “A Jangada de Pedra“, “História do Cerco de Lisboa“, “Todos os Nomes” e “Objeto Quase“.

Informação pode ser consultada, via página da Fundação José Saramago, aqui


"A capa é da autoria de Alceu Chiesorin Nunes, 
também responsável pelo projeto gráfico juntamente com Bruno Romão."

Filme documentário "José e Pilar" será apresentado no Festival Literário de Tóquio 2016


No dia 5 de Março no âmbito do Festival Literário de Tóquio 2016,
 será exibido José e Pilar com o apoio da Embaixada Portuguesa.


(Cartaz do evento)

Álbum BD de João Amaral "A Viagem do Elefante" editado na Turquia - O Salomão e seu cornaca seguem viagem...

Capa da obra de João Amaral, edição turca da editora Kirmizi Kedi, 
o álbum de BD baseado na obra de José Saramago - "A Viagem do Elefante"

Aqui a primeira edição estrangeira desta obra, e que esperamos possa ser publicada em todas as "paragens" deste planeta. 


Aqui as palavras do anuncio através do autor,

"É com imensa satisfação que deixo aqui duas imagens da minha adaptação para banda desenhada de A Viagem do Elefante, baseado na obra homónima de José Saramago, na sua edição em turco. A Turquia torna-se assim o primeiro país estrangeiro a editar uma obra minha, o que obviamente me deixa bastante feliz. Quanto às imagens fazem parte da promoção da editora turca, Kirmizi Kedi."

Fundação José Saramago - Visita

Pode ser visualizado via YouTube, aqui 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Reflexão sobre o mundo e sua paz podre - "Cadernos de Lanzarote Diário II" (3 de Julho de 1994)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, página 148

3 de Julho de 1994
"Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade do Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Se dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer» Sem dúvida, mas não desta maneira." 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Revista Espacio/Espaço Escrito, #9/10 - Texto de Saramago sobre Goytisolo (Cadernos de Lanzarote Diário II) 27/05/1994

(Capa da edição)


27 de Maio
"Com mais de um ano de atraso, saiu finalmente o número 9/10 da revista Espacio/Espaço Escrito, de Badajoz, que Ángel Campos Pámpano, seu director, resolveu dedicar a Juan Goytisolo, e, generosamente, também a mim. Por ideia de Angel Campos, cada um dos agraciados escreveu um texto de apresentação do outro, o que, com outra gente, poderia descambar numa hipócrita e ridícula troca de galhardetes. Eis o que escrevi sobre Goytisolo: 

Carlos Fuentes, José Saramago e Juan Goytisolo 
em Santillana del Mar / EFE (12/06/2007)

«Foi há quase trinta anos, precisamente em Novembro de 1964, que Juan Goytisolo se deu a conhecer aos leitores portugueses, em especial aqueles que só pela facilidade relativa de uma tradução podiam aceder à literatura espanhola de então. Numa colecção - a "Contemporânea" - que já levava cinquenta e nove volumes publicados, de autores portugueses e estrangeiros, aparecia, pela primeira vez, o nome de um romancista espanhol, que o editor apresentava como pertencente "à notável geração realista dos 50, substancialmente crítica, antifascista e liquidadora de mitos". Era o livro "Duelo en el paraíso", traduzido, adequadamente, para "Luto no Paraíso". Não me recordo agora, nem tenho ao meu alcance maneira de o confirmar, se mais livros de Juan Goytisolo foram depois publicados por esse ou outros editores. O que, sim, sei, é que, após a leitura de Luto no Paraíso, perdi durante muitos anos o rasto literário de Goytisolo. Quando, mais tarde, em virtude de razões que não vêm ao caso, fui levado a conhecer de perto a actualidade cultural espanhola, reencontrei, inevitavelmente, o autor que havia perdido, o qual, entretanto, tinha vindo a construir uma obra ampla e poderosa, caracterizada por sucessivas rupturas, tanto temáticas como estilísticas, e eticamente marcada por uma implacável revisão axiológica. Não foi pequeno nem fácil o trabalho de colocar-me mais ou menos em dia com a obra do recuperado autor: apenas posso dizer que estou perfeitamente inteirado da diversidade de níveis de percepção que tal obra em si mesma, impõe e logo exige do leitor. 

Carlos Fuentes, José Saramago e Juan Goytisolo 
em Santillana del Mar (12/06/2007)

«Um dia, não recordo quando nem onde, coincidi com Juan Goytisolo em um desses encontros ou congressos, aonde, e talvez com demasiada frequência, por mal dos nossos pecados, nos deixamos levar. Alguém nos apresentou, uma dessas apresentações fugidias, formais, que para nada servem. A verdadeira apresentação foi por nossa própria conta que a fizemos, de cada vez que circunstâncias semelhantes voltaram a reunir-nos. Não temos conversado muito, Juan Goytisolo e eu, mas mantemos desde há alguns anos, ora falando do estrado ora ouvindo na plateia, um diálogo que só aparentemente se interrompe, reconhecendo-nos mutuamente, nessa peculiar conversa nossa, a par de diferenças e divergências acaso irresolúveis, uma comunhão de sentimentos e ideias dificilmente traduzível por palavras (digo a comunhão, não os sentimentos e ideias, que para esses sempre palavras se achariam), mas que eu designaria, sem nenhuma pretensão de rigor, por uma consciência muito clara, e não raro dolorosa, da responsabilidade de cada ser humano perante si próprio e perante a sociedade, tomada esta, não como uma abstracção cómoda, mas na sua realidade concreta de conjunto de indivíduos e de pessoas. Por isto, e o muito que ficará por explicar, direi que vim a reencontrar Juan Goytisolo quando mais precisava dele, quando mais precisava de sentir-me acompanhado, mesmo de longe, mesmo com longos intervalos, por uma voz fraterna e justa.» 

in, "Cadernos de Lazarote - Diário II"
Caminho, Páginas 127 a 129 (27/05/1994)




José Saramago... um viajante


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Diálogos #1: O Amor em José Saramago - Trabalho do site NotaTerapia (10/01/2016)

Pode ser consultado e lido aqui
em http://notaterapia.com.br/2016/01/10/dialogos-1-o-amor-em-jose-saramago/

"Diálogos #1: O Amor em José Saramago" em 10 de Janeiro de 2016

De Luiz António Ribeiro e Luisa Bertrami D'Angelo 

"Hoje começamos no NotaTerapia um novo projeto: “Diálogos”. Nele, nós criadores do site, Luiz Antonio Ribeiro e Luisa Bertrami D’Angelo vamos fazer aquilo que o nome já diz: dialogar sobre um tema literário ou sobre qualquer tema que vier em nossa mente, for do nosso interesse e acharmos que tem a ver com a página. Ele funciona da seguinte forma, toda semana um de nós propõe um tema e escreve umas linhas sobre ele, então envia para a outra pessoa que lê e complementa também com algumas frases. Assim, vamos aos poucos construindo nosso diálogo ao redor do tema que escolhemos. O mais interessante, nos parece, é que podemos nos aproximar da arte da forma mais potente possível: abrindo um diálogo em direção ao outro, naquilo que podemos tocar e ser tocados pelo objeto artístico. Esperamos de coração que vocês gostem!

O primeiro tema foi escolhido por mim e é o amor em José Saramago, partindo inicialmente da obra Todos os Nomes. Confira:



LUIZ – Eu queria começar essa nossa série falando da ideia de amor em José Saramago. Conforme fui lendo as obras do autor, percebi que seu pensamento de esquerda estava muito presente: havia nas obras uma ordem coletivista do mundo. Vemos isso em Ensaio Sobre a Cegueira, A Jangada de Pedra, Ensaio sobre a Lucidez, entre outras. Apesar disso, dentre elas uma diferente apareceu: Todos os Nomes. Eu percebi de cara que, em Todos os Nomes, havia um indivíduo, o Sr. José e que toda a trajetória da obra era a de um homem diante de sua primeira paixão. Mesmo que ainda sem nome, sem face – um alguém coletivo na multidão – havia um sujeito, sozinho, de um lado e do outro, o amor. Estava nascendo pra mim a ideia de amor do Saramago. Você também percebeu isso?

LUISA – Sim, sem dúvida! Todos os nomes é, com certeza, um livro de amor. Não só pelo fato de o Sr. José ir atrás de qualquer coisa que o leve àquela mulher, mas também (e principalmente) por como ele despende toda a sua existência para isso. Não que o amor seja um dar-se incondicional ao outro, mas é que o Sr. José se deixa ser totalmente atravessado por esse desejo de encontrá-la e, nisso, se disponibiliza para vivenciar de maneira extremamente potente tudo que sente e vive nessa busca. O fato de esta mulher ser uma mulher comum, ao contrário de todas as pessoas famosas e inacessíveis que ele tanto admirou, também me soa como algo muito belo, como se dissesse um pouco do tanto que o amor não é algo transcendente, mas, pelo contrário, é algo do mundo…

LUIZ – E será que é isso que move ele? um “anônimo desconhecido”? Alguém capaz de conter um mistério que a gente precisa desvendar? Talvez o amor seja isso, igual da “Ideia de amor” do Agamben: a gente quer se aproximar e tocar o outro, mas sem revelar sua face, talvez tocar o outro para mantê-lo estranho e inacessível. Acho que o Sr. José até então não havia descoberto essa força: a burocracia, o mundo do “mesmo” era tudo que lhe era apresentado, e a partir do pequeno crime (quem há de negar que o amor é uma espécie de crime?) muitos outros seriam cometido. Acho que há também uma relação estreita com a morte, né? Você que leu o Intermitências da Morte consegue ver alguma ligação entre o amor e morte em ambas as obras? 

LUISA – Olha… não sei se vejo uma relação entre o amor e a morte. Ou melhor: há, sim, uma relação entre as duas coisas na medida em que, indo além do que você disse, o amor não é só uma espécie de crime, mas uma espécie de morte, ainda que simbólica, já que morre o que éramos antes do encontro amoroso pra nascer uma outra coisa, que agora foi atravessada pelo amor (e é certo que essa outra coisa nasce apenas para, num próximo instante, morrer e ser outra… eterno devir). Mas, voltando, vejo talvez com mais clareza uma aproximação entre morte e afeto – e afeto aqui é (por incrível que pareça) mais do que amor. As mortes de Saramago são povoadas de afetos – intensidades, potências (mortes povoadas de vida?). Em As Intermitências da Morte, ninguém mais morre em Portugal. Até que a morte resolve voltar a matar, mas há esse sujeito que, mesmo depois de muitas investidas dela, cisma em não morrer. E a morte se aproxima deste sujeito, ela quer conhecê-lo e entender porque sempre acontece algo que não o deixa morrer. Este encontro é cheio de afetos – como devem ser todos os encontros… E é muito bonito, pois a aproximação dele e da morte, que deveria ser algo totalmente assombroso, é o que possibilita a vida e novas trocas afetivas…

LUIZ – Então, acho que chegamos nisso como semelhança e diferença: “E a morte se aproxima deste sujeito, ela quer conhecê-lo e entender porque sempre acontece algo que não o deixa morrer.” No caso de Todos os Nomes é a mulher que não permite que o Sr. José encontre-a simplesmente porque…o encontro não é importante, não faz nenhuma diferença encontrar ou não encontrar. A relação está toda na busca, no caminho, no trajeto, o encontro dos dois seria só mais um anti-clímax da burocracia da vida comum. É aí que está a questão, eu acho, diante da morte só é possível o encontro. A morte é este encontro do limite, da linha máxima que não pode ser transposta. A vida, ao contrário, não serve aos encontros, serve as buscas, aos trajetos, a errância – caminho de quem erra pelo mundo. Talvez o que mova a vida não seja o amor, mas como dissemos lá em cima “a ideia de amor”, aquilo que, na busca, mantém a vida desconhecida, o mistério. O afeto é um dos efeitos da vida: na morte encontra seu limite. E como entender a busca do Sr. José por essa “escuridão”, ao contrário da clareza da sua vida anterior? 

LUISA – Vou tentar reformular um pouco a minha concepção do encontro: o encontro não é o ato ou o momento de encontrar, mas todo o caminho percorrido, todo esse entre, toda essa errância…. encontro como o encontro entre nossas intensidades e as intensidades do mundo. Concordo, então, que se o Sr. José simplesmente “encontrasse” a mulher, seria apenas a burocracia agindo outra vez. Mas ele a encontra (aí no sentido que disse anteriormente) mesmo sem “encontrar” com ela. Fica claro? Não é o encontro face-a-face, mas o encontro dos afetos que passam por ele vindos da própria ideia de encontrá-la, vindos da busca (linhas que se cruzam). E se é certo que a morte é a linha máxima que encerra a vida, não é por isso que não é possível ter vida na morte: para mim, as trocas que se estabelecem entre o homem que não morre e a morte são exatamente isso: a possibilidade de criar (e portanto afetar, ser afetado) mesmo diante da morte. Porque como toda linha, a linha da morte também pode ser dobrada. O mesmo no caso do Sr. José: quais as chances de encontrar a tal mulher, que ele nunca viu nem ouviu falar nem sequer sabe da existência dele? Ainda assim, há nele essa potência que leva a essa busca… A “escuridão” na qual ele entra por causa de sua busca poderia parecer absurda, já que antes havia clareza. Por que percorrer essa ideia maluca, se há a vida, calma, tranquila e acolhedora? Acho que essa é a maior lição que Sr. José nos dá: a de que a Vida não é essa vida da clareza, com v minúsculo, mas o caminho pela escuridão, que é onde podemos realmente inventar, criar e viver…

LUIZ – Acho que é exatamente isso: um lançar-se ao nada ou, como diz Nietzsche, dançar a beira do abismo. É interessante como Saramago precisa construir isso em todos os detalhes: as conversar com a senhora do rés do chão, aquele cemitério com o número das lápides trocadas, aquela noite dentro da escola, as conversas com ele próprio em casa, olhando pro teto. Tudo converge para a mesma coisa, uma busca do escuro. Sr. José perguntava: onde está meu escuro? E sua resposta era sempre: Preciso procurar. E só na procura ele acha. A cena final do livro – que não vou contar aqui – é isso. O encontro com a vida, com a coragem. Uma coragem da vida que abarca tudo mesmo que este tudo esteja nesta sombra, nesta escuridão. É por isso que Todos os Nomes pra mim junta o melhor de Saramago: a capacidade de olhar o mundo no que ele tem de ser violento contra os corpos – seja ele quais forem – ao mesmo tempo em que mostra uma coragem, um possibilidade de encantamento do mundo. E quando a gente encanta o mundo, nada fica igual: tudo já é outro.

LUISA – Perfeito! Saramago nos mostra que a vida é possibilidade, é busca e criação. E talvez essa percepção também nos aproxime mais do que falávamos no começo, sobre o que é o amor pra ele."

Peça de teatro "A Noite" baseado na obra de José Saramago


Recuperação de programa de apresentação da peça de teatro "A Noite"


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Protocolo de colaboração entre a Fundação José Saramago e a UNIA Universidad Internacional de Andalucía

A noticia pode ser consultada e lida, aqui
em http://www.unia.es/servicio-de-comunicacion-e-informacion/la-unia-y-la-fundacion-jose-saramago-acuerdan-desarrollar-lineas-de-trabajo-conjunto



"La UNIA y la Fundación José Saramago acuerdan desarrollar líneas de trabajo conjunto
El rector de la Universidad Internacional de Andalucía (UNIA), Eugenio Domínguez Vilches, ha mantenido un encuentro en Lisboa con la directora de la Fundación José Saramago, Pilar del Río, los pasados días 7 y 8 de enero. La finalidad del mismo ha sido la de establecer lazos de relación entre dicha institución y la UNIA para desarrollar lineas de trabajo conjunto en la difusión de la obra del nobel portugués y de su pensamiento, mediante la celebración de cursos, encuentros y jornadas, y la edición de publicaciones, entre otras acciones.

En otra sesión de trabajo se procedió a avanzar en el proyecto "Declaración de Deberes Humanos", que desde hace unos meses impulsa la Fundación José Saramago, con el apoyo de Naciones Unidas (ONU), y que ya ha tenido una sesión inaugural en México,

La Fundación ha solicitado colaboración institucional a la Universidad Internacional de Andalucía y, a tal efecto, ha presentado los documentos y trabajos desarrollados hasta el momento durante el transcurso de esta sesión celebrada también en la capital portiguesa, a la que, además de los responsables de ambas instituciones, asistieron Sami Nair y Manuel Torres, colaborador y vicerrector de la UNIA, respectivamente; la decana de la Facultad de Derecho de la Universidad Nova de Lisboa, el escritor portugues Castro Caldas, y otros profesores de las universidades de Lisboa y Évora, y del Centro de Estudios Sociales de la Univeridad de Coimbra.

Asimismo, se acordó celebrar una próxima jornada de trabajo en el Campus La Cartuja de la UNIA en Sevilla, en el próximo mes de marzo, para avanzar el documento final de la Declaración, que será presentado al secretario general de la ONU."

Banda sonora do filme documentário "José e Pilar" Noiserv

Informação postada pela banda, aqui
em https://www.facebook.com/noiserv/posts/10153817733316678?fref=nf

"Olá Olá!
Há uns meses, tinha ficado esgotada a versão em CD da banda sonora do filme José and Pilar, da qual faz parte a música Palco do Tempo e uma série de outras músicas minhas.
Finalmente, para quem tenha interesse, já se encontra de novo disponível através do site em baixo !
Beijinhos e Abraços a todos!"


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sobre a tese de doutoramento de Horácio Costa - "Cadernos de Lanzarote - Diário II" (22 de Abril de 1994)

"Cadernos de Lanzarote - Diário II"
22 de Abril de 1994

"Todo o dia a ler a tese de doutoramento de Horácio Costa, da Universidade de Yale: José Saramago: o período formativo. Notável, simplesmente. Pela primeira vez alguém deixa de lado a relativa facilidade de análise dos livros que publiquei a partir de Levantado do Chão para atrever-se a penetrar no quase indevassado pequeno bosque do que escrevi antes, não esquecendo mesmo Terra do Pecado, esse primeiro e cândido romance que teria saído a público com o título A Viúva se não fosse o malogrado Manuel Rodrigues, editor da Minerva, que benevolamente me acolhera na sua casa, ter decidido que tal título não era suficientemente comercial... Lendo hoje o estudo minucioso e perspicaz de Horácio Costa, foi todo o passado que se desenhou e reergueu diante de mim. Senti-me de repente muito velho (atenção, velho de tempo, não de vida) e pensei sem nenhuma originalidade: «Quanto caminho andado.» "

in, Caminho
Página 96 


(Capa da edição ESGOTADA - Caminho)

domingo, 10 de janeiro de 2016

"A compreensão segundo Saramago" palavras sobre fotos de Sebastião Salgado (Brasil, 2001)

As palavras podem ser escutadas através deste clip de video do YouTube, aqui 

Ensaio audiovisual sobre fotos de Sebastião Salgado e narrativa de José Saramago.
Áudio original extraído do documentário "Janela da Alma" de João Jardim e Walter 
Carvalho (Brasil, 2001).

Trilha incidental: Hélio Delmiro ('Emotiva')
Adaptação e montagem: Pedro Bersi (SC Brasil)

"Eu não quero dizer que cada um é conforme nasce - não vou a esse ponto.

Mas, talvez devêssemos ponderar por que algumas pessoas resistem ao comportamento digamos universal -- o modo de comportasse mais geral - e outras não? 

Por que algumas pessoas mantêm uma atitude crítica em relação às coisas?

Por que algumas pessoas acham que não é por fato das coisas serem novas 
ou modernas que elas são necessariamente boas? 

Isto não é defender o antigo... é simplesmente considerar que não tem nenhuma razão para acreditar que no momento em que estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer - as de agora e as que vão ter efeitos no futuro - são as únicas e as melhores que poderiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. 

Não tenho qualquer razão para isso, pelo contrário, tenho muitas razões 
que me dizem que nos tomamos por um caminho errado." 

Por José Saramago

Apresentação do filme "Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago surpreendeu locutores do RCP


Pequeno testemunho do acontecimento, aqui via YouTube

Programa Janela Aberta, de Aurélio Gomes no RCP Rádio Clube Português  

Revisitamos a edição #20 de Janeiro de 2014 - Blimunda, revista digital sempre presente

(Capa da edição #20 - Janeiro de 2014)

Sinopse da edição, via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-20-janeiro-2014/

"A Blimunda de janeiro chega com um conjunto de novas secções e rubricas. No corpo central da revista um texto de Sara Figueiredo Costa traça o percurso de diferentes Almanaques, esses “livrinhos para o ano todo”, e visita-se Platero e eu, obra de Juan Ramón Jiménez que agora comemora o primeiro centenário, e que José Saramago acolheu na sua Jangada de Pedra.

Novidade na Blimunda, é a secção sobre Cinema, de responsabilidade de João Monteiro, cofundador do Cineclube de Terror de Lisboa e um dos programadores do MOTELx, que aqui dá continuidade do trabalho que tem sido desenvolvido por este festival ao longo destes anos, principalmente ao nível do cinema português. A secção Cinema terá uma periodicidade bimestral nas páginas da Blimunda.

Na secção infantil e juvenil, Andreia Brites conversa com Eduardo Filipe, um dos responsáveis pela ILUSTRARTE, Bienal Internacional de Ilustração que em 2014 está a viver a sua 6.ª edição. Inaugurada a 16 de janeiro, a ILUSTRARTE apresenta até abril o melhor que se faz na ilustração internacional, numa exposição que está patente no Museu da Electricidade. A acompanhar esta conversa, apresentam-se os trabalhos de 15 ilustradores que integram esta mostra.

A fechar, como habitualmente, a Saramaguiana regressa a 2005 e à participação de José Saramago no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Também presente nesta secção, uma análise à nova edição de A Maior Flor do Mundo, texto de José Saramago que conheceu no final de 2013 uma nova edição com ilustrações de André Letria.

Às restantes rubricas que compõem a Blimunda em todos os meses, juntam-se a partir de janeiro, a Estante, local de acolhimento de 8 livros recentemente editados, e o Dicionário de Literatura Infantil e Juvenil, que de A a Z trará entradas escritas por escritores, ilustradores, editores, professores.

No início de 2014, a Blimunda deseja a todos os seus leitores Boas Leituras!"

"O leitor não lê o romance, lê o romancista" - Cadernos de Lanzarote Diário II (27/02/1994)


"Pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor. O romance é uma mascara que oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê o romance, lê o romancista."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 60 (27 de Fevereiro de 1994)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"A Crucificação de Cristo" de Albrecht Dürer interpretado no primeiro capítulo de "O Evangelho segundo Jesus Cristo"



("A Crucificação de Cristo" - Albrecht Dürer)

O primeiro capitulo da obra de José Saramago é uma minuciosa análise e interpretação do quadro do pintor Albrecht Dürer. (Nuremberga, 21/05/1471 - 06/04/1528)

Por sugestão da Prof.ª Maria Leiria, Coordenadora da "Comunidade de Leitores Ler Saramago", enquadrada no âmbito das actividades da Fundação José Saramago, compilei espacialmente a imagem com aproximação às palavras de José Saramago.

"O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar "(...)

-.-

(...) "Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão." (...)


-.-

(...) "Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar. Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias" (...) 


-.-

(...) "ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico. De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios" (...)


-.-

(...) "Maria Madalena, se ela é, ampara, e parece que vai beijar,num gesto de compaixão intraduzível por palavras, a mão doutra mulher, esta sim, caída por terra, como desamparada de forças ou ferida de morte. O seu nome também é Maria, segunda na ordem de apresentação, mas, sem dúvida, primeiríssima na importância, se algo significa o lugar central que ocupa na região inferior da composição. Tirando o rosto lacrimoso e as mãos desfalecidas, nada se lhe alcança a ver do corpo, coberto pelas pregas múltiplas do manto e da túnica, cingida na cintura por um cordão cuja aspereza se adivinha. É mais idosa do que a outra Maria, e esta é uma boa razão, provavelmente, mas não a única, para que a sua auréola tenha um desenho mais complexo" (...) 
"Reclinada sobre o seu lado esquerdo, Maria, mãe de Jesus, esse mesmo a quem acabamos de aludir, apoia o antebraço na coxa de uma outra mulher, também ajoelhada" (...)


-.-

(...) "também Maria de seu nome, e afinal, apesar de não lhe podermos ver nem fantasiar o decote, talvez verdadeira Madalena. Tal como a primeira desta trindade de mulheres, mostra os longos cabelos soltos, caídos pelas costas, mas estes têm todo o ar de serem louros, se não foi pura casualidade a diferença do traço, mais leve neste caso e deixando espaços vazios no sentido das madeixas, o que, obviamente, serviu ao gravador para aclarar o tom geral da cabeleira representada. Com tais razões não pretendemos afirmar que Maria Madalena tivesse sido, de facto, loura, apenas nos estamos conformando com a corrente de opinião maioritária que insiste em ver nas louras, tanto as de natureza como as de tinta, os mais eficazes instrumentos de pecado e perdição. Tendo sido Maria Madalena, como é geralmente sabido, tão pecadora mulher, perdida como as que mais o foram, teria também de ser loura para não desmentir as convicções, em bem e em mal adquiridas, de metade do género humano. Não é, porém, por parecer esta terceira Maria, em comparação com a outra, mais clara na tez e no tom do cabelo, que insinuamos e propomos, contra as arrasadoras evidências de um decote profundo e de um peito que se exibe, ser ela a Madalena. Outra prova, esta fortíssima, robustece e afirma a identificação, e vem a ser que a dita mulher, ainda que um pouco amparando, com distraída mão, a extenuada mãe de Jesus, levanta, sim, para o alto o olhar, e este olhar, que é de autêntico e arrebatado amor, ascende com tal força que parece levar consigo o corpo todo, todo o seu ser carnal, como uma irradiante auréola capaz de fazer empalidecer o halo que já lhe está rodeando a cabeça e reduzindo pensamentos e emoções. Apenas uma mulher que tivesse amado tanto quanto imaginamos que Maria Madalena amou poderia olhar desta maneira, com o que, derradeiramente, fica feita a prova de ser ela esta, só esta, e nenhuma outra, excluída portanto a que ao lado se encontra" (...)


-.-

(...) "Maria quarta, de pé, meio levantadas as mãos, em piedosa demonstração, mas de olhar vago, fazendo companhia, neste lado da gravura, a um homem novo" (...) 


-.-

(...) "a um homem novo, pouco mais que adolescente, que de modo amaneirado a perna esquerda flecte, assim, pelo joelho, enquanto a mão direita, aberta, exibe, numa atitude afectada e teatral, o grupo de mulheres a quem coube representar, no chão, a acção dramática. Este personagem, tão novinho, com o seu cabelo aos cachos e o lábio trémulo, é João." (...)


-.-

(...) "Tal como José de Arimateia, também esconde com o corpo o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos, levanta ao ar um segundo homem nu" (...) 


-.-

(...) "um segundo homem nu atado e pregado como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento agónico, ainda tem valor para mostrar-nos um rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para a terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte e ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza." (...) 


-.-

(...) "Por cima dele, também chorando e clamando como o sol que em frente está, vemos a lua em figura de mulher, com uma incongruente argola a enfeitar-lhe a orelha" (...) 


-.-

(...) "Este sol e esta lua iluminam por igual a terra, mas a luz ambiente é circular, sem sombras, por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte" (...)


-.-

(...) "por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte ao fundo, torres e muralhas, uma ponte levadiça sobre um fosso onde brilha água, umas empenas góticas, e lá por trás, no testo duma última colina, as asas paradas de um moinho" (...)


-.-

(...) "Cá mais perto, pela ilusão da perspectiva, quatro cavaleiros de elmo, lança e armadura fazem voltear as montadas em alardes de alta escola, mas os seus gestos sugerem que chegaram ao fim da exibição, estão saudando, por assim dizer, um público invisível." (...)


-.-

(...) "A mesma impressão de final de festa é dada por aquele soldado de infantaria que já dá um passo para retirar-se, levando, suspenso da mão direita, o que, a esta distância, parece um pano, mas que também pode ser manto ou túnica" (...)


-.-

(...) "Por cima destas vulgaridades de milícia e de cidade muralhada pairam quatro anjos, sendo dois dos de corpo inteiro, que choram, e protestam, e se lastimam, não assim um deles, de perfil grave, absorto no trabalho de recolher numa taça, até à última gota, o jorro de sangue que sai do lado direito do Crucificado." (...) 


-.-

(...) "Neste lugar, a que chamam Gólgota" (...) 
"este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores." (...) 


-.-

(...) "É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena" (...) 


-.-

(...) "Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos, o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judeus, e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas." (...) 


-.-

(...) "Não goza Jesus de um descanso para os pés, como o têm os ladrões" (...) 


-.-

(...) "todo o peso do seu corpo estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para o manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe da ferida do peito, como já foi dito." (...)


-.-

(...) "Entre as duas cunhas que firmam a cruz a prumo, como ela introduzidas numa escura fenda do chão, ferida da terra não mais incurável que qualquer sepultura de homem, está um crânio, e também uma tíbia e uma omoplata, mas o crânio é que nos importa, porque é isso o que Gólgota significa, crânio, não parece ser uma palavra o mesmo que a outra, mas alguma diferença lhes notaríamos se em vez de escrever crânio e Gólgota escrevêssemos gólgota e Crânio." (...)
"Mas também há quem afirme que este é o próprio crânio de Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar, condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra, seu único paraíso possível e para sempre perdido." (...)


-.-

(...) "Lá atrás, no mesmo campo onde os cavaleiros executam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. Leva na mão esquerda um balde e uma cana na mão direita. Na extremidade da cana deve haver uma esponja, é difícil ver daqui, e o balde, quase apostaríamos, contém água com vinagre. Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava. Vai-se embora, não fica até ao fim, fez o que podia para aliviar as securas mortais dos três condenados, e não fez diferença entre Jesus e os Ladrões, pela simples razão de que tudo isto são coisas da terra, que vão ficar na terra, e delas se faz a única história possível." 
(Fim do primeiro capítulo)



in, "O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho, 1991
Páginas 13 a 20

Entrevista ao académico Horácio Costa que revisita a obra de José Saramago (Univesp TV)

(...)"Lendo hoje o estudo minucioso e perspicaz de Horácio Costa, foi todo o passado que se desenhou e reergueu diante de mim. Senti-me de repente muito velho 
(atenção, velho de tempo, não de vida) e pensei sem nenhuma originalidade: 
«Quanto caminho andado.» "
José Saramago, 22 de Abril de 1994

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Transmitido na UnivespTV
Programa "Literatura Fundamental"
Entrevistador Ederson Granetto

Sinopse do programa
"Programa sobre o vencedor do prêmio Nobel de Literatura e 1998 José Saramago, que focaliza principalmente o livro Memorial do Convento, publicado em 1982. Ederson Granetto entrevista o poeta, tradutor, critico literário e professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, José Horácio Costa, pesquisador da obra de Saramago, que produziu uma tese sobre o período formativo do autor português. José Horácio Costa recebeu o prêmio Jabuti de 2014 pelo seu livro de poesias Bernini."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O «eu lógico» e o «eu intuitivo» (24/02/1994)

"O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 
Parece haver em mim como uma balança interior, um padrão aferidor que me tem permitido vigiar, de uma maneira a que chamaria intuitiva, a «economia» dos por-menores narrativos. Em princípio, o «eu lógico» não recusa nenhuma possibilidade, mas o «eu intuitivo» rege-se por umas leis próprias que o outro aprendeu a respeitar, mesmo quando tem relutância em obedecer-lhes. Evidentemente, não há aqui nenhuma ciência, salvo se este aspecto tão particular do meu trabalho se nutre de uma outra espécie de ciência, involuntária, infusa, inlocalizável, que, mero prático que sou, me limito a seguir, como quem se vai apercebendo da mudança das estações sem nada saber de equinócios e solstícios." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 57 (24/02/1994)

O olhar da artista plástica Isa Silva... uma outra (generosa) forma de ver Saramago

Trago a divulgação da artista plástica Isa Silva e suas incursões pelas artes.

No seu site, em http://www.isasilva.com/entrada.html, temos acesso à retrospectiva do que tem sido a sua obra. Multifacetada, tal como refere na sua apresentação: 
" Frequentei a Escola de Artes de António Arroio onde nasceu o amor pela escrita.
Na minha segunda vida (como gosto de salientar) redescobri a fotografia, o desenho, a pintura e fortaleci a minha relação com a escrita.
Conjugo estas quatro paixões com a minha actividade de designer gráfica."

Aqui deixo imagem do seu olhar sobre José Saramago.
Mais info nos endereços assinalados

http://www.isasilva.com/shop/T-sf-j-saramago-tela.html