Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Recuperação de texto "Apresentação do catálogo da exposição de João Hogan" (Beja 1983) - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (19/03/1995)

19 de Março (de 1995)
"Mexendo em antigos papéis, veio-me às mãos a apresentação que, vai em doze anos, escrevi para o catálogo duma exposição de João Hogan. Reli-a, sorri de algumas ingenuidades, mas achei que não era justo fazê-la regressar à obscuridade do gavetão donde tinha saí-do, sem lhe dar a oportunidade de submeter-se a outros juízos que não tivessem sido os meus, evidentemente suspeitos de parcialidade, ou os de Hogan, que nunca me disse o que pensou do palavreado. Por isso, aqui fica:

"Hogan: retrospectiva" Beja, 1983 - (Dimensões 61 x 43 cm) 
Promoção da Câmara Municipal de Beja; Associação de Municípios de Distrito de Beja

«Sobre o cavalete, o pintor colocou uma tela branca. Olha-a como a um espelho. A tela é aquele único espelho que não pode reflectir a imagem do que está diante de si, daquilo que com ele se confronta. A tela só mostrará a imagem do que apenas noutro lugar é encontrável. É isso a pintura. A pintura não está no espelho branco e opaco que é a tela. A pintura não está, sequer, no mundo que, por todos os lados, rodeia tela, cavalete e pintor. A pintura está, inteira, na cabeça do pintor. Ao pintar, o pintor não vê o mundo, vê a representação dele na memória que dele tem. A pintura é, em suma, a representação duma memória. 
«João Hogan, pintor, está na sua oficina. São quatro paredes apertadas, um casulo minúsculo de silêncio, fechado por sua vez num claustro antigo. Os quadros encostam-se uns aos outros, esteiam-se como placas geológicas, descem do tecto como severos jardins suspensos, formam um labirinto de três dimensões, porventura inextricável. Não faltariam, ao correr da comparação, outras analogias: é o bruxo na sua caverna, é o criador criando universos novos para emendar os antigos, é Fausto convocando os espíritos. Afinal, é só, e basta, João Hogan, pintor. Move-se devagar, tranquilo, no reduzido espaço desafogado que ainda lhe resta, todos o seus passos e atitudes são rigorosos, precisos, nenhuma exuberância, a palavra breve, se tem de a dizer, o sorriso sossegadamente irónico, de mansa ironia, porque a si mesmo primeiramente se terá julgado, e, tendo-o feito, compreendeu que não precisava doutro tribunal nenn doutro réu. A isto se chama, às vezes, sabedoria. 
«Fala-se facilmente da sabedoria do filósofo, do sábio, do escritor, não se fala da sabedoria do pintor. E, contudo, um artista como este, que parece estar trabalhando desde o princípio do mundo, transporta, no gesto que mesmo antes de chegar à tela ou ao papel é já traço e cor, um acúmulo de experiências, um saber que transcende a simples técnica que tem de haver no desenhar e no pintar, para se localizar nas camadas pro-fundas onde o inconsciente pessoal e colectivo a todo o momento está procurando as formas e as vozes da sua expressão possível. A pintura, como Leonardo da Vinci disse um dia, é realmente coisa mental. 

João Hogan, Paisagem, 1964, óleo sobre tela, 81 x 100 cm
Via http://quadrogiz.blogspot.pt/2013_10_01_archive.html

«Mas, em João Hogan, a expressão dessas vozes e dessas formas percorre caminhos que o levam, simultaneamente, a procurar reproduzir o sentido máximo das coisas (ou a máxima concentração do sentido que têm) e o despojamento de todo o sentido (ou o instante primitivo, se não o primitivo olhar, em que as coisas não têm mais sentido que serem-no). São dois extremos que se tocam, é uma contradição aparente. Tentarei ser mais claro. 
«De toda a obra de João Hogan escolho uma das suas paisagens de subúrbio ou um amontoado de pedras, aí onde não se divisa um vulto humano, um mero rasto de passagem, excepto, talvez, por aqui e além, o afloramento impreciso de uma cor, de um volume, acaso já obra das mãos, acaso ainda acidente natural. Em rigor, tal paisagem não existe na realidade. O pintor, como foi dito já, representa no quadro a memória, agora reelaborada pela consciência, duma memória de paisagem. Vemos colinas redondas, cobertas de verde não de verdura, vemos penhascais cortados de planos não de pedreiras. Entendamo-nos: não é de paisagem que estamos tratando aqui, mas de pintura, não ' o pareci-do que devemos procurar, mas o profundo. João Hogan não se oferece para guiar o contemplador o quadro a um certo arrabalde de Lisboa, o que João Hogan propõe é um lugar de pintura. Qualquer coincidência entre isto e aquilo será sempre fortuita e irrelevante. 

João Hogan, Sem título, 1972, óleo sobre tela, 130 x 180 cm

«Ora, esta paisagem, que justamente é confluência de memórias, espaço de reunião cumulativa, foco de sugestões e apelos - esta paisagem vem a definir-se em síntese essencial por via de um processo selectivo que precisamente faz da verdura a cor verde e da pedreira corte e plano. Então, e é aqui que reside a resolvida contradição entre os pontos de partida e o ponto de chegada, é quando o quadro aparentemente menos diz que mais exprime, e a paisagem surge diante dos nossos olhos como se ninguém a tivesse visto antes, como se fosse nosso o primeiro olhar que a encontra e nesse mesmo acto a mostra. A arte de João Hogan é, como por uma espécie de prodígio inesperado, a arte do primeiro olhar. 
«Pelo seu próprio, natural caminho, Hogan atinge, duplamente, a raiz da pintura e a raiz do ser. O mundo em que nos introduz está, quase sempre, desabitado. Mas é um mundo em expectativa, um mundo que espera os seus homens, ou porque eles ainda não nasceram, ou porque dele foram retirados. Porém, não esqueçamos que diante desta paisagem solitária esteve o homem que a criou. Foi dele o primeiro olhar. Cabe-nos a nós olhar agora, para podermos ver o que ele viu já: os homens que habitarão, por direito, este lugar. De pintura, como foi dito. De vida, como se acrescenta. Que tudo é o mesmo.»

No conjunto, não está mal. E a propósito: como pintaria João Hogan. se ainda fosse vivo, esta ilha de Lanzarote?"
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 70 a 73


Breve biografia, via WikiPédia, aqui
"De ascendência irlandesa, era neto do aguarelista Ricardo Hogan e sobrinho do pintor Álvaro Navarro Hogan.
Entre 1930 e 1939 trabalha numa oficina de marcenaria; entretanto inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que abandona ao fim de apenas um ano letivo, para continuar, em 1937, os estudos com Frederico Ayres e Mário Augusto na SNBA. Apresentará a sua obra publicamente pela primeira vez em 1942, na Exposição de Arte Moderna do SPN, Lisboa.
Está representado em diversas coleções e museus, nomeadamente no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, no Museu do Chiado e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Foi sócio fundador da Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, em Lisboa, onde dirigiu diversos cursos de gravura, tendo um papel importante na formação das gerações mais novas (muitos dos actuais gravadores de Portugal foram seus alunos).

Sobre Sofía Gandarias, a pintora que retratou José Saramago - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (19/08/1995)

Informação sobre a pintora Sofía Gandarias - http://gandarias.es/

19 de Agosto (de 1995)

"Com o título de O Rosto e o Espelho ou a Pintura como Memória, escrevi hoje para o catálogo da exposição que Sofía Gandarias vai apresentar em Lisboa o seguinte breve texto, por onde se verá que ainda não pude libertar-me completamente dos cegos do Ensaio e que certas ideias do Manual se mantêm constantes: 

Título "Saramago" - Técnica Oleo sobre lienzo y arena
Año 1995 - Medidas 162x130 cm

«O pintor está diante do espelho, não de viés ou a três-quartos, conforme se queira designar a posição em que costuma colocar-se quando decide escolher-se a si mesmo para modelo. A tela é o espelho, é sobre o espelho que as tintas irão ser estendidas. O pintor desenha com rigor de cartógrafo o contorno da sua imagem. Como se ele fosse uma fronteira, um limite, converte-se em seu próprio prisioneiro. A mão que pinta mover-se-se-á continuamente entre os dois rostos, o real e o reflectido, mas não terá lugar na pintura. A mão que pinta não pode pintar-se a si própria no acto de pintar. É indiferente que o pintor comece a pintar-se no espelho pela boca ou pelo nariz, pela testa ou pelo queixo, mas deve ter o cuidado supremo de não principiar pelos olhos porque então deixaria de ver. O espelho, neste caso, mudaria de lugar. O pintor pintará com precisão o que vê sobre aquilo que vê, com tanta precisão que tenha de perguntar-se mil vezes, durante o trabalho, se o que está a ver é já pintura, ou será apenas, ainda, a sua imagem no espelho. Correrá portanto o risco de ter de continuar a pintar-se infinitamente, salvo se, por não ter podido suportar mais a perplexidade, a angústia, resolveu correr o risco maior de pintar enfim os olhos sobre os olhos, perdendo assim, quem sabe, o conhecimento do seu próprio rosto, transformado num plano sem cor nem forma que será necessário pintar outra vez. De memória. 
«As telas de Sofía Gandarias são estes espelhos pintados, de onde se retirou, recomposta, a sua imagem, ou onde, oculta, ainda se mantém, talvez sob uma camada de luz dourada ou de sombra nocturna, para entregar ao uso da memória o espaço e a profundidade que lhe convêm. Não importa que sejam retratos ou naturezas-mortas: estas pinturas são sempre lugares de memória. De uma memória visual, obviamente, como se espera de qualquer pintor, mas também de uma memória cultural complexa e riquíssima, o que já é muito menos comum num tempo como o nosso, em que os olhares, quer o do quotidiano, quer o da arte, parecem satisfazer-se com discorrer simplesmente pela superfície das coisas, sem se darem conta da contradição em que se encontram, em confronto com um olhar científico moderno que transferiu o seu campo principal de trabalho para o não visível, seja ele o astronómico ou o subatómico. 
«Para Sofía Gandarias, um retrato nunca é só um retrato. Algumas vezes parecerá que ela se propôs contar-nos uma história, relatar-nos uma vida, quando, por exemplo, rodeia o seu retratado de elementos figurativos cuja função, ou intenção, se há-de supor alegórica, como um hieróglifo cuja decifração mais ou menos rápida irá depender do grau de conhecimento das respectivas chaves por parte do observador. É transparente, por exemplo, o significado da presença da pirâmide maia no retrato de Octavio Paz, ou o de uma Melina Mercuri atada ao Pártenon, é-o muito menos o de Graham Green olhando por uma janela com as vidraças partidas, ou o de Juan Rulfo amarrado às tumbas de Comala. Encarada deste ponto de vista, a pintura de Sofía Gandarias, com independência do seu altíssimo mérito artístico e da sua evidente qualidade técnica, poderia ser entendida como um exercício literário para iniciados capazes de organizar os símbolos mostrados, e portanto completar, em nível próprio, a enigmática proposta do quadro. Tratar-se-ia de uma consideração flagrantemente redutora, em todo o caso absolvida pelo próprio imediatismo da leitura, se a pintura de Sofía Gandarias não fosse o que, de modo superior, é: a singularidade de uma memória de relação. 

Título "Pessoa" - Técnica Oleo sobre lienzo
Año 1995 - Medidas 195x130 cm

«De dupla relação, acrescentarei. A do retratado e da sua circunstância, exposta na distribuição dos elementos pictóricos secundários do quadro, e em que naturalmente se apreciarão questões como a semelhança, a pertinência, a concatenação plástica; e outra, a meu ver não menos importante, que é a relação cultural que Sofía Gandarias, a pintora, mas sobretudo a pessoa desse nome, mantém com a circunstância vivencial e intelectual dos seus retratados. Aqui trata-se claramente de pintura, mas trata-se também da expressão intensíssima de uma memória cultural particular. Mais do que simplesmente pintar retratos de figuras ditas públicas, o que Sofía Gandarias faz é convocar um por um os habitantes da sua memória e da sua cultura, aqueles a quem ela própria chama "as presenças", transportando-os para uma tela onde terão o privilégio de serem muito mais do que retratos, porque serão os sinais, as marcas, as cicatrizes, as luzes e as sombras do seu mundo interior. 
«Há melancolia nesta pintura. A melancolia de nos sabermos fugazes, transitórios, pequenos corpos cadentes que se apagam quando mal começaram a brilhar. O fundo quase sempre escuro dos quadros de Sofía Gandarias é uma noite, os rostos e os símbolos que como satélites os rodeiam são apenas os nosso pálidos e humanos fulgores. O mundo é o que somos, e esta pintura um dos seus sentidos.» 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 142 a 145 (19 de Agosto de 1995)

Título "Año de Nacimiento de Ricardo Reis" 
Técnica Óleo, arena y polvo de mármol
Año 1995 - Medidas 230x200 cm.



Sofía Gandarias, faleceu dia 23 de Janeiro de 2016, em Madrid
"Sofia era uma amiga antiga de Portugal, do Centro Nacional de Cultura, de Helena e Alberto Vaz da Silva, de Yehudi Menuhin. Há cerca de um ano esteve connosco com seu marido Enrique Barón Crespo cheia de entusiasmo e de projetos, com a ideia de poder trazer-nos a Portugal algumas das suas obras emblemáticas. Em casa de Francisco Balsemão foi uma noite plena de sonhos e de futuro. Em si a literatura e a pintura estavam intimamente ligadas. Trabalhou intensamente até nos deixar e em Sevilha (no Espaço Santa Clara) é possível visitar uma extraordinária exposição de 28 telas que assinala os quatro séculos da morte de Miguel de Cervantes - «Coloquio de Perros». O conto é uma extraordinária metáfora humana. Quis que tudo ficasse pronto e conseguiu, apesar da doença. Sofia era determinada e persistente. A vida era um bem sagrado. Deixa-nos esse extraordinário exemplo. Amiga de José Saramago e de Pilar del Rio, o autor de «Memorial do Convento» definiu as suas telas como «espelhos pintados». É a defesa da dignidade humana que está sempre presente, invocando Kafka, o holocausto, a memória de Velasquez, a lembrança do seu País Basco e de Guernica… O carácter sombrio de muitas das suas telas é um grito de alerta, um apelo humaníssimo, para que não se esqueça a barbárie! 
Sofia Gandarias fica na nossa memória como uma mulher de fibra e de sensibilidade, de amizade e afetos! Ao Enrique e ao Alejandro enviamos a expressão mais funda da nossa amizade e solidariedade! Sofia continua connosco." 
Guilherme d’Oliveira Martins

domingo, 14 de fevereiro de 2016

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"In Nomine Dei" Centro Andaluz de Teatro - Sevilha (Dezembro de 2007) e recuperação de entrevista com Azio Corghi (Público 14/07/2001)

Vídeo de apresentação, pode ser visualizada via YouTube, aqui

Vídeo de apresentação da peça de teatro "In Nomine Dei", 
representada no Centro Andaluz de Teatro - Sevilha, em Dezembro de 2007.
Direcção de José Carlos Plaza, em colaboração com o Teatro Nacional Dona Maria II.


Crónica de Cristina Fernandes para o jornal "Público" (14/07/2001), pode ser consultada aqui, 
em https://www.publico.pt/noticias/jornal/o-som-das-letras-159817

"A ópera "Divara-Água e Sangue", baseada no drama teatral "In Nomine Dei", de José Saramago, estreia em Portugal. Razão para uma conversa com Azio Corghi, o compositor que se deixou fascinar pela forma como o escritor habita a História e que tentou recriar a sua obra através dos sons.

Dez anos depois de "Blimunda", a ópera de Azio Corghi (n. 1937) baseada no romance "Memorial do Convento", de José Saramago, o público português terá finalmente a oportunidade de conhecer a segunda colaboração entre o compositor italiano e o Nobel português. "Divara-Água e Sangue", a partir do drama teatral "In Nomine Dei" terá a sua primeira apresentação na próxima terça-feira, dia 17, no Teatro Camões, em Lisboa, numa nova encenação assinada por Christop Nel. A produção original teve a sua estreia no Städtische Bühnen de Münster em Outubro de 1993, por ocasião do aniversário dos 1200 anos daquela cidade alemã, e resultou da encomenda de uma obra musical apropriada à ocasião e que evocasse acontecimentos históricos, neste caso as sangrentas lutas entre protestantes, católicos e anabaptistas ocorridas nos inícios do século XVI. Depois deste projecto, a união artística entre Corghi e Saramago tem-se mantido em obras de menores dimensões, como a cantata "Lázaro", inspirada em "Evangelho Segundo Jesus Cristo", já estreada no São Carlos, ou "Sotto l'Ombra", para voz recitante e conjunto instrumental, que será apresentada na próxima edição italiana do festival Sete Sóis, Sete Luas, assinalando o aniversário de José Saramago, no dia 17 de Novembro. 

Qual foi o seu primeiro contacto com a obra de José Saramago?
Foi em 1984 através de "Memorial do Convento", pouco depois de este ter sido traduzido e publicado em Itália, com grande sucesso. Senti-me muito identificado com Saramago, com as suas ideias, a sua visão do mundo, a sua grande humanidade, a sua relação com a vida e com a história... A História com "H" maiúsculo e a história com "h" minúsculo. Depois da leitura, tive uma espécie de iluminação: a de também poder habitar a História através da música. Consegui contactar com Saramago e ele acedeu a que o livro fosse convertido num libreto, com Blimunda no centro da trama. Foi a nossa primeira colaboração. A obra estreou no Scala de Milão e foi depois apresentada em Lisboa.O projecto "Divara" nasceu nessa noite, em Lisboa...Exactamente. Nasceu de uma conversa entre mim, José Saramago, Mimma Guastoni (directora da editora Ricordi) e o maestro Will Humburg. Humburg tinha sido recentemente nomeado director da orquestra de Münster. Aproximavam-se as comemorações dos 1200 anos da cidade e a ideia de uma nova ópera para integrar o programa das comemorações surgiu de imediato. Poucos meses depois, Saramago e eu fomos convidados a ir a Münster para ver a cidade e o seu museu. Nessa ocasião, tivemos a ideia de encontrar um argumento de raízes históricas e optámos pelo sanguinário episódio da luta entre protestantes, cristãos e anabaptistas. Estávamos em 1991 e não tínhamos ainda consciência de como este tema era actual. Em 1993, quando a ópera foi estreada, tinha entretanto começado a guerra na ex-Jugoslávia. Creio que a actualidade do tema contribuiu muito para o sucesso de "Divara", que foi reposta em vários teatros: no Festival Ferrara Musica, em Catânia, novamente na Alemanha... Vê-la por fim chegar a Lisboa é uma grande honra - sobretudo poder ver a ópera numa nova produção, o que para um compositor contemporâneo é muito raro e difícil. Estou muito curioso por ver o trabalho de Christop Nel. Na conversa que tive com ele, fiquei fascinado com a sua leitura. É uma leitura mais psicológica, bastante próxima das teses de Saramago do ponto de vista dramatúrgico. 

Qual a razão da substituição do título original do livro, "In Nomine Dei", por "Divara"?
A rainha Divara é uma personagem com pouco peso na história de Münster, mas nós tornámo-la importante. Saramago substituiu o seu eu narrativo pelos olhos desta mulher que vê toda esta violência, os jogos de poder, a destruição, a guerra, a imposição de uma ideologia. Tal como em "Blimunda", tratava-se de habitar a História através de uma personagem feminina, que diz grandes verdades. É muito significativa a frase que ela profere antes de morrer: "Senhor, quando dirigirás directamente a palavra a nós mulheres em vez de falares através da boca dos profetas?" Esta ideia é também um ponto de referência em Saramago. É sempre uma personagem feminina que pode ver... Como Blimunda em "Memorial do Convento", ou Madalena em "Evangelho segundo Jesus Cristo". 

A escrita de Saramago sugeriu-lhe uma linguagem ou um estilo musical próprio?
Um dos aspectos que mais me fascinam em Saramago é a sua forma de habitar a História. Tentei também habitá-la com música, através da utilização de referências de outros tempos, de outros séculos. Uma das personagens que concebi - não sei se o encenador a irá manter...- é a do compositor Franz Liszt. Liszt usou um coral dos anabaptistas na sua monumental Fantasia para órgão ["Ad nos, ad salutarem undam"] e fez uma grande composição sobre o tema. Na minha ópera este tema insere-se em simultâneo com outros corais luteranos, mas também com referências irónicas a outras épocas, por exemplo, a "Don Giovanni" de Mozart, ou a "História do Soldado", de Stravinski. Utilizei estes temas como se fossem pedaços de História, tal como o faz Saramago. Por outro lado, a escrita de Saramago tem um fluir contínuo. Este sugeriu-me uma linguagem musical que fizesse uso de temas que se sobrepõem e que caracterizam as personagens. Não são propriamente "Leitmotivs" wagnerianos, mas estão em constante devir. É também uma linguagem que flui e que me permitiu afastar-me do tipo de ópera que escrevi antes, que tinha uma estrutura com formas fechadas, mais à italiana. No caso de "Divara", optei por um estilo de derivação expressionista, ligado a um teatro muito forte, no qual a palavra tem um papel determinante. 

Tanto em "Divara" como em "Blimunda", não existem apenas cantores, mas também actores. Que critério usou para seleccionar as personagens que falam e as personagens que cantam?
Depois da estreia, muitos jornais escreveram: "As mulheres cantam, os homens falam." Os homens estão todos absorvidos pelas lutas de poder e por isso falam. As mulheres estão submetidas à violência. Para reagir, para exprimir a sua solidariedade, conseguem comunicar mais e melhor através do canto. Divara é a personagem que canta sempre. Só fala no fim, quando está prestes a morrer. No final, enquanto os homens se massacram, ressurgem todas as mulheres que sofreram, e cantam em conjunto: a mulher que reincarna Giuditta - que pensa matar o bispo, mas que afinal é morta - , a última mulher de Jan Van Leiden que é assassinada pelo marido diante de todos, a mãe que viu morrer os filhos... É uma ópera feita de guerra, poder, violência. As mulheres conseguem encontrar uma força de vida que provém da sua solidariedade. Há também uma forte denúncia desta violência. Divara é a única que não renuncia a nenhuma das suas ideias. É morta e torturada, mas não renuncia. 

Qual o papel da electrónica em "Divara"?
É muito importante. Por um lado, permite a utilização de microfones de modo a escutar-se bem as vozes dos actores em qualquer espaço. Por outro, permite usar novos movimentos de som no espaço em conjunto com a orquestra. A sua concretização dá-se em conjunto com a direcção do maestro. É um processo muito complexo, que necessita de muitos técnicos e músicos para a sua realização. Cinco anos depois de Blimunda a tecnologia tinha avançado muito, sobretudo no domínio da electrónica ao vivo, com a criação de sequenciadores que podem funcionar bem com os gestos do maestro e que me permitiram um trabalho mais apurado. 

A sua obra musical combina a mais avançada tecnologia com as referências ao passado. Como compositor, como encara a dualidade entre tradição e inovação?
Vivemos na era da globalização, da comunicação veloz, num mundo que muitos apelidam de "pós-moderno". Tudo o que acontece pode ser imediatamente conhecido noutro lado. A nossa cultura é continuamente posta em confronto com outras culturas, com outras visões do mundo. Tal como Saramago na sua escrita, penso que a minha forma de abordar a linguagem musical está bastante longe daquilo que há anos se chamava "coerência linguística". Ou seja: está longe da convicção de que a evolução da linguagem musical resultava de uma série de mutações que tendiam para o novo, para o que nunca se tinha feito antes. Hoje, isso não é possível. Há muita coisa nova, mas a inovação nas questões de linguagem já não pode colocar-se nos mesmos moldes dos anos posteriores a Darmstadt. Um som novo não significa nada fora de um contexto linguístico ou fora do uso que se lhe quer dar para comunicar. Hoje fala-se em contaminação, em relações com outras culturas. Nos EUA, isto é possível porque as culturas coexistem, convivem umas com as outras. Na Europa, é muito diferente, temos fortes raízes culturais com as quais devemos fazer a nossa história. Há que encontrar soluções de comunicação também no campo da música. Foi por este motivo que escolhi o teatro musical, porque esta é já uma forma contaminada, com vários géneros artísticos dentro. Sou um homem do meu tempo, a minha ambição é comunicar."

"Embargo" António Ferreira: no fim do mundo com Saramago

O trailer de apresentação pode ver visualizado, via YouTube, aqui
em https://www.youtube.com/watch?v=xqcDGZkojGc



Sinopse
"A partir da obra homónima de José Saramago, Nuno é um homem que trabalha numa roulotte de bifanas, mas que inventou uma máquina que promete revolucionar a indústria do calçado - um digitalizador de pés. No meio de um embargo petrolífero e deparando-se com uma estranha dificuldade, Nuno tenta obstinadamente vender a máquina, obcecado por um sucesso que o fará descurar algumas das coisas essenciais da sua vida. Quando Nuno fica estranhamente enclausurado no seu próprio carro e perde uma oportunidade única de finalmente produzir o seu invento, vê subitamente a sua vida embargada… 

Realização: António Ferreira
Produção: PERSONA NON GRATA PICTURES
Co-Produção: Vaca Films (Espanha), Diler e Associados (Brasil), Sofá Filmes (Portugal)
Produtores: Tathiani Sacilotto e António Ferreira 
Produtores Associados: Borja Pena, Emma Lustres, Diler Trindade.
Elenco: Filipe Costa, Cláudia Carvalho, Pedro Diogo, Fernando Taborda, José Raposo, Miguel Lança, Eloy Monteiro.
Argumento: Tiago Sousa, a partir da obra homónima de José Saramago
Fotografia: Paulo Castilho
Música Original: Luís Pedro Madeira 
Produção Executiva: Tathiani Sacilotto
Financiamento: ICA, IBERMEDIA e Ministério da Cultura
CPB N. 11013658
M/12 
83 min - Portugal/Espanha/Brasil 2010 

Crónica de Sérgio Andrade, jornal "Público" (25/02/2010), pode ser consultada e lida, aqui
"Embargo" é Saramago feito cinema muito antes de o potencial cinematográfico do autor de "Ensaio sobre a Cegueira" se ter tornado evidente. António Ferreira foi o primeiro a vê-lo: "Embargo" tem antestreia quarta-feira, no Fantasporto
Ainda o Nobel da Literatura para José Saramago era uma miragem, e com ele o salto na notoriedade internacional que viria a justificar a atenção do cinema pela sua obra - com as adaptações de "Jangada de Pedra" (2000), de Georges Sluizer, e "Ensaio sobre a Cegueira" (2008), de Fernando Meireles -, e já um jovem estudante de cinema de Coimbra achava que as histórias do escritor português davam um filme.
António Ferreira (n. Coimbra, 1970) tinha 23 anos, acabara de entrar na Escola de Cinema em Lisboa, e ficara fascinado com a leitura do "Evangelho Segundo Jesus Cristo". "Gostei muito do livro, e comecei a ler quase tudo o que havia do Saramago", recorda. Entre essas leituras, houve um conto da compilação "Objecto Quase" (1978), "Embargo", que lhe despertou um irresistível desejo de cinema: "Sempre achei que o Saramago tem uma escrita muito cinematográfica, os seus livros provocam-nos imagens muito fortes". E, de uma forma que agora admite ter sido um pouco "naïve", decidiu mesmo começar a filmar essa história numa curta-metragem. Fez algumas sequências, mas depressa as arrumou no baú dos projectos adiados que normalmente se acumulam nessa idade.
Década e meia depois, "Embargo" aí está, crescido para uma longa-metragem - a segunda na carreira do realizador de "Esquece Tudo o que te Disse" (2002) -, que vai ter antestreia na próxima semana no Fantasporto (sessão no dia 3 de Março, às 21h, no pequeno auditório do Rivoli). "Curiosamente, reencontrei há pouco tempo algumas das cenas que fiz na altura, e onde não há nada que se aproveite - na verdade, é mesmo horrível!", confessa António Ferreira, contente, apesar de tudo, por assim ter provas materiais da sua admiração pré-Nobel pela obra do escritor. Aliás, está mesmo a pensar incluir essas sequências no "making of" do filme, o que permitirá documentar a evolução da abordagem que fez do conto de "Objecto Quase".
Saramago escreveu "Embargo" a pretexto da grave crise petrolífera mundial de 1973, na sequência da guerra israelo-árabe do Yom Kippur. O escritor dramatiza a dependência do homem perante o automóvel, símbolo de uma civilização que o seu construtor deixou de conseguir dominar.
"É uma metáfora da nossa sociedade, da nossa dependência das máquinas", sintetiza António Ferreira. A crise provocada em Portugal, em Junho de 2008, pelo bloqueio dos camionistas levou o realizador a aperceber-se, uma vez mais, da actualidade da "mensagem" de Saramago. "Nessa altura, pude assistir, um pouco, àquilo que ele escrevia no seu conto: em tão poucos dias, por causa de um bloqueio decidido por um grupo de pessoas, a nossa sociedade pareceu desmoronar-se", diz António Ferreira, lembrando-se de como então viu em Coimbra os supermercados a ficarem de prateleiras vazias. "Era uma espécie de aviso: de um momento para o outro tudo o que temos por seguro pode colapsar", diz, realçando a nossa fragilidade - um tema caro, aliás, à obra de Saramago.
Foi essa mensagem que António Ferreira quis manter no seu filme, cujo argumento foi escrito por Tiago Sousa (com quem já tinha também trabalhado em "Esquece Tudo o que te Disse"), mas sem qualquer contacto pessoal com o autor de "Caim" - "Propus a participação dele, mas percebi logo que ele não tinha tempo para estas coisas", diz o realizador.
A passagem da curta à longa-metragem - e posta de parte a experiência de há década e meia, quando António Ferreira se limitara a "ilustrar passagens do conto" - obrigou os autores a "criar uma história nova, mas partindo dos pressupostos" do curto conto de Saramago.
"Mad Max à portuguesa"
"Embargo", o filme, começa com uma sequência tintada de cores gastas pelo tempo, num lugar e numa época indefinidos, num mundo esvaziado de pessoas e com as bombas de gasolina esgotadas - "uma espécie de Mad Max à portuguesa", diz o autor. O guarda-roupa das personagens e um velho Opel Kadett transportam-nos para a década de 70, mas o aparecimento de um computador, um "scanner" e um telemóvel, do mesmo modo que a associação da pop anos 60 com a música tecno, vêm baralhar a datação. "O filme, como não é passado nem presente, só pode ser futuro", o que torna a mensagem ainda mais inquietante. Com esta indefinição, o realizador quis também evitar o risco de ver os espectadores a procurarem a verosimilhança dos adereços, lançando-os antes para "um mundo suspenso de um embargo" em que um homem (Filipe Costa, actor e músico) se vê de um momento para o outro literalmente presa do seu carro e da voracidade deste pela gasolina que cada vez é mais escassa.
No conto de Saramago, o homem sobrevive à morte do automóvel. No filme, António Ferreira quis preservar essa ideia de "libertação", mas não vai revelar o epílogo desta história fantástica, por razões óbvias. 
"Embargo", como a primeira longa-metragem e as curtas que depois realizou - "Respirar (Debaixo de Água)", 2000; "Humanos - A Vida em Variações" (2006) e "Deus Não Quis" (2007) -, é uma produção da ZED Filmes, sediada em Coimbra, cidade a que António Ferreira regressou e onde se fixou depois de ter vivido em Lisboa, Paris e Berlim. 
"É uma escolha natural filmar em Coimbra. Temos lá a produtora, é lá que temos desenvolvido a maior parte do nosso trabalho", diz, fazendo notar não ter nenhuma preocupação em fazer "manifesto" por um qualquer cinema de país real. "Não trabalhamos em Coimbra para sermos contra Lisboa, nem contra nada. Se amanhã tiver uma história que se passe em Lisboa, irei filmá-la lá, sem problema nenhum". Mas é em Coimbra que se sente em casa: "Conheço os sítios, sei a quem tenho de telefonar para arranjar aquilo de que preciso", explica o realizador, que à volta da ZED Filmes, constituída há uma década, reúne uma equipa que nos últimos anos expandiu a sua actividade para a produção de documentários, videoclips, filmes institucionais e publicidade.
"Embargo" expressa, por outro lado, o cruzamento que os filmes de António Ferreira sempre fazem com o teatro e com a música também "made in" Coimbra. Exemplo disso é o actor protagonista, Filipe Costa, músico dos Sean Riley & the Slowriders, que já passou pelos Bunnyranch, e que o realizador considera ter sido "uma escolha acertada", decidida "logo à primeira". O autor da música é Luís Pedro Madeira, que já tinha também musicado "Esquece Tudo o que te Disse" e integrou outra banda local, os Belle Chase Hotel. "É tudo um ambiente familiar", resume António Ferreira, que gosta de transportar essa atmosfera para o "plateau", onde normalmente trabalha sem grandes preocupações de pré-planificação.
O realizador espera que a estreia de "Embargo" no Fantasporto ajude ao lançamento nacional do filme, que deverá chegar ao circuito comercial depois do Verão - com distribuição também assumida pelo próprio.
Na calha, tem já dois novos projectos: fazer a adaptação de um livro de Rosa Lobato de Faria, "A Trança de Inês" - "é a história de Pedro e Inês situada em três momentos históricos também indefinidos, entre o passado, o presente e o futuro" -, ou avançar com um argumento original, "A Bela América", no qual está a trabalhar desde que terminou "Esquece Tudo o que te Disse". Mas mais pormenores sobre estes projectos ficam sob embargo.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Texto de José Saramago "Intimidad" com música de Lucrecia Dalt e voz de Ainara Pardal (via RTVE

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Publicação original via página da RTVE, aqui em
http://www.rtve.es/m/alacarta/videos/palabra-voyeur/jose-saramago-intimidad/2865742/?media=tve

Sinopse
"Nuestro voyeur esta semana te quiere invitar a vivir y disfrutar de la poesía como nunca antes lo has hecho. Tarea que resulta sencilla cuando se escoge a uno de los más grandes autores de todos los tiempos, el escritor José Saramago. Viaja con nosotros a través de sus palabras y déjate llevar por el ritmo y la belleza que se esconde en cada verso de nuestra nueva entrega voyeur."

Título: "Intimidad"
Autor: José Saramago
Música: Lucrecia Dalt
Voz: Ainara Pardal

"Intimidad"

"En el corazón de la mina más secreta,
En el interior del fruto más distante,
En la vibración de la nota más discreta,
En la caracola espiral y resonante,
En la capa más densa de pintura,
En la vena que en el cuerpo más nos sonde,
En la palabra que diga más blandura,
En la raíz que más baje, más esconda,
En el silencio más hondo de esta pausa,
Donde la vida se hizo eternidad,
Busco tu mano y descifro la causa
De querer y no creer, final, intimidad."


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Reflexão sobre o passado e presente - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (24/02/1995)

(Fotografia do filme documentário "José e Pilar"
A equipa de Miguel Gonçalves Mendes e José Saramago)

24 de Fevereiro (de 1995)
Para mim, filosoficamente (se posso ter a pretensão de usar tal palavra), o presente não existe. Só o tempo passado é tempo reconhecível - o tempo que vem, porque vai, não se detém, não fica presente. Portanto, para o escritor que eu sou, não se trata de «recuperar» o passado, e muito menos de querer fazer dele lição do presente. O presente vivido (e apenas ele, do ponto de vista humano, é tempo de facto) apresenta-se unificado ao nosso entendimento, simultaneamente completo e em crescimento contínuo. Desse tempo que assim se vai acumulando é que somos o produto infalível, não de um inapreensível presente." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 52 e 53 (24 de Fevereiro de 1995)
  

"Ergo uma Rosa"... poema musicado e dançado com leitura de José Saramago

Pode ser visualizado através do YouTube, aqui

"Espuma das Palavras" de Rui Santos - Uma revisitação sobre alguns traços da obra de Saramago

(Capa da edição "Espuma das Palavras")

Género - Poesia

Capa e ilustrações de Diane Sbardelotto

Pode ser consultado e descarregado gratuitamente, aqui



Sobre o opúsculo
“Espuma das palavras traz a relevo o exercício da força imaginativa do escritor como produto da relação com os acontecimentos de sua própria vida, das leituras e da aproximação que mantém com os principais temas de seu tempo” (Pedro Fernandes)

"OutrArte" Oficina de Teatro da Escola Secundária Carlos Amarante - "Um Ensaio Sobre a Cegueira"


A adaptação da obra e demais referências podem ser visualizadas via YouTube, aqui 


Oficina de Teatro da Escola Secundária Carlos Amarante.



"Verde. Amarelo. Vermelho. Verde. Amare­lo. Vermelho. Uma mulher fica cega na passadeira de uma rua de uma cidade sem nome. A epidemia - a cegueira branca - alastra-se. Os infetados são isolados e colocados em quarentena numas camaratas onde os instintos primários vêm ao de cima. Torna-se difícil controlar as emoções. «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». E o que o espetador é chamado a ver é a desagregação da decência humana em que deixa de haver distinção entre homens e animais. Estaremos todos cegos, cegos que, vendo, não vêem?" (por Deolinda Mendes)


Uma Adaptação da Obra "Ensaio sobre a Cegueira" De José Saramago.

Ficha Técnica:

Encenação e dramaturgia: Maíra Ribeiro

Assistência De Encenação: Deolinda Mendes, Vânia Silva, Afonso Alves e Natacha Branquinho

Desenho de Luz: Maíra Ribeiro e Deolinda Mendes.

Som e Mixagem de músicas: Maíra Ribeiro, Rocco Scolozzi e Ricardo Bernardino.

Vídeo: David Araújo

Elenco: Afonso Alves, Ana Alexandra Pereira, Ana Neri, Ângela Gomes, Bruno Gonçalves, Cátia Carvalho, Christelle Rocha, Cristiana Ramos, Francini Abdoul Hak, Giulia Santos, Joana Azevedo, Joana Soares, Luís Melo, Maria João Barbosa, Mariana Gomes, Marta Dainovich, Natacha Branquinho, Olga Fokt, Rita Pereira, Rita Rebouta, Rita Vilaça, Sara Nunes, Vânia Ferreira e Vítor Teixiera.

A edição n.3 da Revista de Estudos Saramaguianos está online.

(Capa da edição n.º 3)

A presente edição, tal como as anteriores, pode ser descarregada gratuitamente, aqui

Sinopse de apresentação
"Em 2015, a comunidade acadêmica perdeu o professor Cláudio Capuano; do leitor da obra de José Saramago, sobre a qual escreveu “Tudo que trago são papéis: história, escrita e ironia no teatro de José Saramago”, reproduzimos (em memória) um estudo seu sobre o papel feminino na obra dramatúrgica do escritor português. Na passagem dos 400 anos sem Miguel de Cervantes, esta edição também reproduz um estudo comparado entre sua obra clássica “Dom Quixote” e “A jangada de pedra”, da professora Joanna Courteau, da Iowa State University. O texto é seguido de um caderno de notas manuscritas de Saramago sobre a criação do romance ora lido. Completam a edição os textos do chileno José Enrique Finol, dos argentinos Jimena Bracamonte e Ariel Gómez Ponce, do espanhol José Joaquín Parra Bañón, do português António José Borges e dos brasileiros Ciro Leandro Costa da Fonsêca, José Rosamilton de Lima, Hugo Leonardo Prata e Edmundo de Drummond Alves Junior. São dois volumes - um em língua portuguesa, outro em língua espanhola - disponíveis gratuitamente na web através do site http://www.estudossaramaguianos.com/"

"ÍNDICE
9 - Apresentação

11 - As semióticas do nome: identidade e anonimato na obra de José Saramago
de José Enrique Finol

33 - Os penitentes de Saramago
de Ciro da Fonsêca e José de Lima

45 - Vozes femininas no teatro de José Saramago
de Cláudio Sá Capuano

59 - Um elefante que cala, um humano que se interroga: 
José Saramago en(tre) a fronteira da comunicação animal e a linguagem humana
Jimena Bracamonte e Ariel Ponce

79 - Dom Quixote e A jangada de pedra: o mundo transformado
de Joanna Couteau

87 - Cadernos de notas manuscritas de José Saramago para 
composição do romance "A Jangada de Pedra"

125 - Arquitetura de Todos os nomes. Geometria e atmosfera do conservadorismo geral
de José Joaquín Bañón

149 - Saramago por Saramago
de António José Borges

165 As intermitências da morte em José Saramago: análise do discurso e os conceitos sobre velho, velhice e envelhecimento
de Hugo Prata e Edmundo Alves Junior"



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Sobre a pintora Teresa Magalhães


(Acrílico sobre tela, 2000)

"As cores de Teresa Magalhães, tal como sou capaz de vê-las, 
ou segundo o que nelas julgo perceber, não têm nome. 
E mesmo que o tivessem não é isso que me importa. 
O que me importa, sim, é sentir nelas aquilo a que, provavelmente sem 
qualquer originalidade, chamarei uma instabilidade contínua do sentido".
José Saramago

Mais informações sobre a pintora Teresa Magalhães, aqui



Texto de José Saramago para apresentação de exposição

"Quando Rimbaud, no seu célebre soneto Voyelles, disse que o A era noir, não disse que era negro, quando disse que o E era blanc, não disse que era branco, quando disse que o I era rouge, não disse que era vermelho, quando disse que o U era vert, não disse que era verde, e quando finalmente disse que o O era bleu, não disse que era azul. Se o som de cada uma delas, pronunciada no francês que ele falava, suscitou no seu espírito a correspondência de uma cor diferente em cada caso, e supondo que em tudo isto houve algo mais que um artifício gratuito ou não foi o mero resultado de uma exigência simplesmente determinada pela métrica do verso, então teremos de concluir que o A dito em português nunca seria negro, nem branco o E, nem vermelho o I, nem azul o O, nem verde o U. Quer isto dizer que nem as vogais têm para toda a gente as cores supostamente sugeridas pelo som que produzem, nem as palavras são, elas próprias, as cores que convencionalmente expressam. Rouge só é vermelho no dicionário, aquelas duas sílabas não dizem o mesmo que estas três. É possível que a maioria dos pintores não perca tempo com dilucidações deste tipo, que mais lhes parecerão pueris exercícios de retórica, mas creio que não me equivocarei demasiado se disser que, para eles, os nomes das cores só têm utilidade na hora de ir comprar as tintas... O que depois se passa é outra coisa.

Penso em tudo isto enquanto contemplo as pinturas de Teresa Magalhães, mas não me detenho a interrogá-las sobre se têm alguma relação, directa ou indirecta, imediata ou evocativa, com as sugestões cromáticas consequentes da pronunciação das cinco vogais em português ou em francês. Pela simples razão de que as cores de Teresa Magalhães, tal como sou capaz de vê-las, ou segundo o que nelas julgo perceber, não têm nome. E mesmo que o tivessem não é isso que me importa. O que me importa, sim, é sentir nelas aquilo a que, provavelmente sem qualquer originalidade, chamarei uma instabilidade contínua do sentido. Contra a evidência material e visual de que, ao mesmo tempo, elas são o que vejo e estão onde as vejo (o francês de Rimbaud não daria para mais que dizer elles sont e elles sont...), afigura-se-me que cada uma destas pinturas foi imobilizada de repente, travada num instante preciso de um processo de transformação sucessiva e multiforme, tal como o caleidoscópio que fazemos girar nas nossas mãos e que, com motivo ou sem ele, abandonámos com uma certa ordenação de formas e cores, até que um novo movimento de rotação venha desordenar a imagem e reordená-la outra vez, para novamente desfazer o que, em potência, será sempre uma ordem ameaçada pela instabilidade. Estou certo de que se pudesse tomar uma destas tábuas nas minhas mãos e a rodasse a um lado ou a outro, outra imagem imediatamente surgiria, as mesmas cores, as mesmas formas, mas uma nova pintura. O mundo como caleidoscópio, o sentido como movimento, eis o que julgo ver na pintura de Teresa Magalhães. É certo que os escritores, em geral, sabem pouco destas coisas, Que a este seja perdoada a intromissão abusiva, é a minha esperança. De todo modo, por muito que isso custe a Rimbaud, o O nunca foi azul..."

"Cátedra Libre José Saramago" - "José Saramago: Primeiros escritos" pela Faculdad de Lenguas da Universidad Nacional de Córdoba da Argentina

Apresentação sumária do conteúdo da Cátedra



Asignatura: CATEDRA LIBRE JOSE SARAMAGO
Profesor: Titular: Dr. Miguel Alberto Koleff

Régimen de cursado: Anual
Carga horaria semanal
Los textos se leen en el idioma original o en idioma español si hay traducciones accesibles.
Docentes Invitados en 2016:
Prof. Clara Ryfenholz (Facultad de Lenguas, UNC)
Prof. Alejandra Britos (Facultad de Lenguas, UNC)
Lic. Ximena Rodríguez (Facultad de Lenguas, UNC)
Lic. Marisa Piehl (UNLaR)
Lic. Graciela Perrén (UNLaR)
Lic. Victoria Ferrara (UNLaR)

CRONOGRAMA TENTATIVO
Presentación de José Saramago y de la propuesta 2016
Análisis de Deste mundo e do outro (1971)
Análisis de A bagagem do viajante (1973)
Análisis de As opiniões que o DL teve (1974)
Análisis de O ano de 1993(1975)
Análisis de Os apontamentos (1976)
Análisis de Manual de pintura e caligrafia (1977)
Análisis de Objecto Quase (1978)
Evaluación


"Sobre rostos e mãos" Texto inserido em os "Cadernos de Lanzarote Diário III" (22/01/1995)

(Fotografia de João Francisco Vilhena)

"Sobre rostos e mãos:
Há quem fotografe rostos procurando nos seus traços o caminho para um espírito que se crê habitar por detrás deles; há quem se contente em captar a superfície plana e óbvia de uma beleza ou de uma fealdade inexplicáveis em si mesmas; há quem aceite deixar-se surpreender pela fotografia que fez, tal como espera que venha a surpreender-se o observador dela. Além de uma imagem, que será então o rosto para o fotógrafo? Um discurso, uma voz, uma pluralidade de discursos e de vozes? Expressivos até à fronteira do inefável, os rostos são o que mais facilmente mostramos e o que mais frequentemente ocultamos. Os rostos só são verdadeiramente autênticos quando desprevenidos: o medo, a cólera, um impulso que não pôde vigiar-se, exprimem a verdade total de um rosto. Em situações não extremas, o rosto é quase sempre, e só, um certo rosto referido a uma certa situação. E por isso que ele é capaz de revestir-se tão facilmente de expressões úteis, simulando um sentimento que não experimenta, uma emoção quando o pulso se mantém firme e o coração sossegado, um interesse quando está indiferente. Ou o contrário. 
Sendo, sem dúvida, instrumentos da vontade, da necessidade ou do desejo, as mãos são, não obstante, incomparavelmente mais livres que o rosto. Compomos a expressão da cara, não guiamos a expressão das mãos, e, se em alguma ocasião o tentamos, não tarda que recuperem o seu autónomo modo de ser, contradizendo muitas vezes, sem que nos dêmos conta, o que o rosto, artificiosamente, quer fazer acreditar. Dizem os antropólogos que a elas, em grande parte, devemos o cérebro que temos. Não custa nada a crer que assim seja, tão fácil é saber o que um cérebro é, só por olhar o que fazem as mãos."
In, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 25 e 26 (22 de Janeiro de 1995) 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

"Hemos llegado al fin de una civilización" - Entrevista ao "El País" de Javier García (19/11/2000)

Entrevista de Javier García, realizada em Lisboa (19 de Novembro de 2000)
Pode ser consultada e lida aqui
em http://elpais.com/diario/2000/11/19/cultura/974588401_850215.html

"Hemos llegado al fin de una civilización"  
Con su nueva novela, 'La caverna', el Nobel portugués culmina su "trilogía involuntaria"

El Nobel de Literatura José Saramago iniciará mañana una gira por tierras lusas para presentar su novela La caverna, que salió a la venta en Portugal el pasado día 16, fecha en que el escritor comunista cumplió 78 años. Basado en el mito de la caverna de Platón, Saramago concluye así su "trilogía involuntaria", tras el Ensayo sobre la ceguera y Todos los nombres (Alfaguara). El Nobel viajará después a Angola, Mozambique y Brasil, hasta que el 31 de diciembre el libro pueda ser adquirido en España. Su "agotadora" presentación tiene como objetivo no sólo vender libros: "El editor y el autor quieren el contacto directo con los lectores. Queremos transmitir lo que pienso. Pensamos que tiene una utilidad cívica, y yo acepto esa responsabilidad".

(Capa de apresentação do dossier sobre José Saramago
elaborado pelo "El País")

A sus 78 años, José Saramago no ha abdicado de sus más profundas convicciones. Su nueva novela, La caverna (editorial Caminho en portugués y Alfaguara en español), es un grito de rebeldía contra un mundo que considera cada día más injusto. El Nobel portugués, afincado en Lanzarote, afirma que estamos ante el fin de una civilización. "Todos los días desaparecen especies animales, vegetales, idiomas, oficios... Los ricos son cada día más ricos, y los pobres más pobres. Cada día hay una minoría que sabe más y una mayoría que sabe menos. La ignorancia se está expandiendo de forma aterradora. Tenemos un grave problema en la redistribución de la riqueza. La explotación ha alcanzado una exquisitez diabólica. Las multinacionales dominarán el mundo". Ante la indiferencia y la apatía sobre el futuro, Saramago reclama la conciencia crítica, la capacidad de indignación y el inconformismo.

Pregunta. ¿Sólo vemos las sombras de la realidad?
Respuesta. No sé si las sombras o las imágenes nos ocultan la realidad. Eso se puede debatir infinitamente, pero estamos perdiendo la capacidad crítica de lo que pasa en el mundo. De ahí surge el que parezca que estamos encerrados en la caverna de Platón. Nosotros no confundimos una cosa con la otra, pero estamos abandonando nuestra responsabilidad de pensar, de actuar. Nos hemos convertido en seres inertes sin capacidad de indignación, del inconformismo y la protesta que nos caracterizó durante muchos años.

P. No confundimos, pero estamos mediatizados por las imágenes, por la publicidad.
R. ¡Un bombardeo! Hemos llegado al punto de inventar un concepto que no tiene ningún sentido: la realidad virtual. Es un disparate. Lo real no es virtual y lo virtual no es real. Esa realidad virtual se está imponiendo de tal forma que los niños se implantan esas gafas en la cabeza y se mantendrán atados a esa realidad sin darse cuenta de lo que está pasando realmente. ¡Es más! Ya hay mucha gente que sin esas gafas está viviendo en otro mundo como si el mundo real no existiera.

P. Han pasado más de 2.000 años desde Platón. ¿Es un fracaso de esta civilización?
R. No lo sé. La humanidad fue siempre un caleidoscopio de culturas, de diversidad, que, desgraciadamente, se va estrechando cada día. Ya no se encuentra nada nuevo. Creo que esta civilización ha terminado y vamos a entrar en una mentalidad muy distinta. No sé si mejor o peor. La que teníamos tampoco era muy buena. Hemos llegado al final de una civilización y la que viene no me gusta. Pero los que tendrían que pronunciarse, sobre todo, son los jóvenes.

P. ¿Estamos dominados por el poder económico?
R. Completamente. El poder económico ha suplantado al poder político, a la cultura. Norman Mailer ha declarado que Clinton será el último presidente de los Estados Unidos porque, a partir de ahora, las corporaciones, es decir, las multinacionales, no necesitarán intermediarios políticos y dominarán el mundo. Ellas inventarán los políticos y los sistemas que les convienen. La política será una herramienta más del sistema, del mercado. El neoliberalismo, a mi juicio, es un nuevo totalitarismo, disfrazado de democracia y manteniendo las apariencias.

P. ¿Cómo? En el sentido de convertir al individuo en una pieza más de su maquinaria.
R. Y lo controla hasta puntos inimaginables. Las profecías de Orwell se han cumplido. La privacidad se acabó. El espionaje se ha instalado en la vida social con tanta dulzura que nadie se da cuenta. Las comunicaciones están controladas... Y más. Llamas a un teléfono para pedir una información y sale una música, luego una máquina. No has recibido aún nada, pero te están cobrando la llamada desde el primer segundo. Y nadie protesta. Vivimos en un mundo donde la explotación ha alcanzado fórmulas de una exquisitez mefistofélica, diabólica.

P. Se estrecha la cultura y se ensanchan las desigualdades.
R. No sólo las desigualdades entre ricos y pobres, sino entre los que saben mucho y los que saben poco, y cada vez saben menos. La ignorancia se está expandiendo en el mundo de una forma aterradora. Hay una minoría que lo sabe todo y lo controla todo y una mayoría que sabe poco y cada vez sabe peor lo que cree saber. La educación, desde la escuela hasta la Universidad, es un desastre, es una fábrica de producir ignorantes. En el fondo es un problema de redistribución de la riqueza.

P. ¿La caverna es un grito de rebeldía?
R. Y la constatación de una evidencia. El centro comercial es un símbolo de ese nuevo mundo del que hablo. Pero hay otro pequeño mundo que desaparece. El de las pequeñas industrias o el artesanado. Todos los días desaparecen especies animales, vegetales, idiomas, profesiones, oficios. Está claro que todo muere, pero hay gente que tiene derecho a vivir, a construir su propia felicidad, y son eliminados. Pierden la batalla por la supervivencia, pero ellos mismos ya no soportan vivir bajo las reglas del sistema. Se marchan como vencidos, pero con dignidad, diciendo que no quieren ese mundo.

P. Es una visión fatalista. ¿No hay una puerta a la esperanza?
R. No creo. La puerta que se abre y nunca estuvo cerrada es la relación de afecto y ternura entre los personajes. Son una piña de humanidad. En ese sentido, sí. De todas formas, no me gusta mucho eso de la esperanza. Me parece que es algo que siempre estamos posponiendo. Debemos ser conscientes de lo que pasa e intervenir. Quieren que no hagamos preguntas y que no discutamos bajo la amenaza del despido, de perder a tu familia. Ése es el nuevo totalitarismo. Y me impresiona la indiferencia de la gente.

P. ¿Una insurrección ética, civil?
R. Es fácil decirlo, pero no sé cómo se hace. Acabo por entender que la gente no se mueva. No es el miedo antiguo a la policía, a la tortura o a la cárcel, que todavía existe en muchos lugares, sino el miedo a la inseguridad, al desempleo. Y ese miedo ¡paraliza! Hay formas de miedo que te rebelan, pero éste paraliza.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

"A Casa" em Tías - Lanzarote... Uma casa feita de livros

(O relógio parado nas 4 horas e a estatueta)

Mais informação, pode ser consultada aqui
em http://acasajosesaramago.com/pt-pt/a-casa/

“Uma casa feita de livros”: assim definiu José Saramago a vivenda em que passou a maior parte dos seus últimos 18 anos. Construída de raiz para as necessidades de duas famílias, a Saramago-Del Río por um lado, por outro a Pérez-Fígares-Del Río, cúmplices no projecto arquitectónico e na vida. Assim, cruzado o portão de entrada, um pequeno pátio dá acesso às duas vivendas e às zonas comuns. Defronte está a porta da casa de José Saramago."

"Sobre a fotografia" texto inserido em os "Cadernos de Lanzarote Diário III" (21/01/1995)

(Fotografia de Marcelo Buainain)


"Sobre a fotografia: 
As mãos levantam a câmara fotográfica à altura dos olhos e o mundo desaparece. Rápido ou lento, segundo o grau de urgência ou de provocação da imagem que vai ser captada, o movimento das mãos respondeu a um estímulo visual. Agora, por trás do visor, o olho fará reaparecer, não o mundo, mas um fragmento dele, o pouco que pode caber num rectângulo cujos lados, como lâminas insensíveis, talham e cerceiam o corpo da realidade. Naquele derradeiro e ínfimo instante que precede o disparo da objectiva, e como se ao longo das linhas que imperativamente limitam o visor existisse uma rede de microscópicas condutas, o mundo exterior ainda procurará penetrar no espaço que lhe foi retirado, para nele deixar um sinal da sua obliterada dimensão. Fragmento de um todo ou da sua aparência, cada fotografia, por sua vez, é fragmento de fragmentos, e, por um movimento de aproximação e expansão em todas as direcções, ao mesmo tempo que pelo movimento contrário de conversão ao ponto de resolução que finalmente é, torna-se, na imagem única que apresenta, leitura múltipla do mundo. Mas isso só mais tarde nos será mostrado, quando a imagem apreendida tiver passado, revelada, ao papel. Então saberemos verdadeiramente o que havíamos visto quando e onde apenas julgávamos não ter feito mais do que olhar. 
Espalhamos as fotografias diante de nós, dispomo-las por temas, assuntos, afinidades, queremos que umas façam perguntas e outras respondam, desejaríamos que contassem uma história, mesmo que breve, mesmo que não viéssemos a conhecer-lhe o fim. Mas parece ser do natural das imagens, ainda quando colhidas de um mesmo objecto e num período mínimo de tempo, resistirem a perder a sua identidade: cada uma delas quererá ser, por supostas e exclusivas virtudes suas, o alfa e o ómega, não só da compreensão de si mesma mas também de todas as decifrações possíveis do espaço invisível que a rodeia, dessa ausência representada pela brancura das margens. O que a fotografia não pode mostrar é precisamente o que emprestaria sentido de realidade ao que estiver mostrando. Por isso talvez seja correcto afirmar que o olho que vê a fotografia, justamente por ser fotografia o que vê, não é o mesmo, ainda que o mesmo seja, que olhou e viu uma parte do mundo para fotografá-la."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 24 e 25 (21 de Janeiro de 1995) 

sábado, 6 de fevereiro de 2016

"O Leitor volta sempre" - Texto dedicado ao grupo da “Comunidade de Leitores Ler Saramago”

"O Viajante volta já.
Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já." 
(Caminho, 11.ª edição, página 387)

Texto dedicado ao grupo da “Comunidade de Leitores Ler Saramago”
O “Leitor” volta sempre.

O “Leitor” tem de voltar sempre. A leitura nunca pode acabar. Os leitores sim, esses acabam, e mesmo assim serão recordados por outros aquém dedicaram as suas leituras.

Quando o “Leitor” se sentou na sua poltrona, e disse em murmúrio de lábios semicerrados: «Que deverei ler mais se já li tudo!?», bem sabia que não era assim. O fim de uma leitura é somente o início de outra.

Poderemos já ter lido uma montanha de livros, mas será sempre uma ínfima parte de um todo incalculável. É preciso ler o que já foi lido, ler uma e outra vez. Ler agora o que se leu ontem, ler de dia o que se leu de noite, ler em casa e depois na rua, na praia ou no campo, debaixo de uma árvore ou num banco de jardim. Ler num lado e mudar para outro.

É preciso ler e voltar aos parágrafos lidos à pressa e que mal entendemos, ver as anotações e procurar as palavras estranhas, ou digamos, mais complicadas.

 É preciso voltar aos livros já lidos há muito tempo, repeti-los e cumprimentar de novo as suas personagens. Sim, cumprimentar, eles são gente dentro de livros como dizia José Saramago.

É preciso recomeçar a leitura. Sempre. O “Leitor” volta sempre.

Lido por Ódin Santos

Este texto é baseado no último parágrafo do livro “Viagem a Portugal” (página 387), onde José Saramago escreveu “O Viajante volta já” (06/02/2016)

"A Maior Flor e Outras Histórias Segundo José" pela companhia Teatro Art'Imagem

Informação da exibição, hoje no Cine-Teatro Garrett - Póvoa de Varzim (06/02/2016), via Rádio Ondaviva, aqui
"Este sábado à noite, há teatro para ver no Cine-Teatro Garrett Póvoa de Varzim e logo uma peça baseada numa obra José Saramago, mais propriamente o texto “A maior flor do Mundo”. Em bom rigor, o trabalho da Companhia Teatro Art’Imagem inclui outros escritos do prémio Nobel que permitem, refere a promoção do espetáculo, conhecer a humanidade que o escritor deixou como legado para a “procura de um mundo diferente, melhor”. A peça tem a encenação de José Leitão, a interpretação de Daniela Pêgo e Flávio Hamilton e o valor das entradas oscila entre os três euros e meio e os sete euros. O pano sobe às 10 da noite."

Pode ser visualizado aqui, via YouTube

"Vídeo de promoção do espectáculo 
"A Maior Flor do Mundo e Outras Histórias Segundo José",
baseado na obra de José Saramago, com dramaturgia e encenação de José Leitão
e interpretação de Daniela Pêgo e Pedro Carvalho."