Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 7 de dezembro de 2014

Citador #18 ... da fealdade segundo o cão Achado, em "A Caverna"

Citador #18
... da fealdade segundo o cão Achado
"A Caverna"
Caminho, página 143



(...) "embora deva observar-se que esta opinião não a formulou o Achado, isso de feio e bonito são coisas que não existem para ele, os cânones de beleza são ideias humanas, Mesmo que fosses o mais feio dos homens, diria o cão Achado do seu dono se falasse, a tua fealdade não teria nenhum sentido para mim, só te estranharia realmente se passasses a ter outro cheiro ou passasses doutra maneira a mão pela minha cabeça." (...) 

A Porto Editora lança a 55.ª edição do "Memorial do Convento"

(Caligrafia da capa por José Mattoso)

Aqui, o link da editora, 

«Um romance histórico inovador. Personagem principal, o Convento de Mafra. O escritor aparta-se da descrição engessada, privilegiando a caracterização de uma época. Segue o estilo: "Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra... Era uma vez a gente que construiu esse convento... Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes... Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido". Tudo, "era uma vez...". Logo a começar por "D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa a até hoje ainda não emprenhou (...). Depois, a sobressair, essa espantosa personagem, Blimunda, ao encontro de Baltasar. Milhares de léguas andou Blimundo, e o romance correu mundo, na escrita e na ópera (numa adaptação do compositor italiano Azio Corghi). Para a nossa memória ficam essas duas personagens inesquecíveis, um Sete Sóis e o outro Sete Luas, a passearem o seu amor pelo Portugal violento e inquisitorial dos tristes tempos do rei D. João V.» (Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998).

(Fotografia de José Saramago, nas imediações do Convento de Mafra)


Aqui, link da notícia, em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=749930

«Memorial do Convento», de José Saramago (Porto Editora)
A Porto Editora continua a lançar as obras de José Saramago, com novas capas e novas revisões. O mais recente livro desta nova etapa é “Memorial do Convento”, um dos livros mais marcantes da carreira do Prémio Nobel da Literatura, em 1998. Desta vez, cabe ao historiador José Mattoso “assinar” a caligrafia da capa (recorde-se que todos os títulos das obras editadas são assinadas por grandes figuras da literatura e da cultura portuguesa, além de amigos de Saramago). Editado em 1982 (já vai na sua 55.º edição, a primeira na Porto Editora), “Memorial do Convento” apresenta como nenhum outro o equilíbrio entre a História, a ficção e o imaginário. É verdade que Blimunda (que tem a aptidão de ver o interior das pessoas aquando em jejum) e Baltazar (ex-militar que perdeu uma mão) assumem os papéis principais do livro, mas não podemos ficar indiferentes, por exemplo, ao Padre Bartolomeu de Gusmão (que abençoa o amor infiel de Baltazar e Blimunda), mas também ao povo, faminto devido aos caprichos de um Rei e de uma Igreja que não olham a meios para alcançarem os seus desejos, muitas vezes irreais. Um livro absolutamente obrigatório!

Apresentação do Cd-Livro do espectáculo "A Viagem do Elefante" - Acert Tondela

CD-Livro do espectáculo A Viagem do Elefante
"14 canções do espectáculo A Viagem do Elefante", do Trigo Limpo - Teatro ACERT, a partir do conto de José Saramago. 
Luis Pastor e A Cor da Língua, na ACERT, Tondela

Aqui link, http://issuu.com/acert/docs/14cancoesve_issuu-2



"A Viagem do Elefante"

Espectáculo teatral de rua, do Trigo Limpo - Teatro ACERT, em coprodução musical com Flor de Jara (Espanha) e parceria da Fundação José Saramago

APÓS A DIGRESSÃO DE SUCESSO EM 2013, O ANO DE 2014 É MARCADO PELA VIAGEM DE SALOMÃO POR VISEU DÃO LAFÕES

Ver o site de 'a viagem do elefante'

SEMPRE CHEGAMOS AO SÍTIO AONDE NOS ESPERAM[1]

Foi este o pulsar afetivo que gerou no Trigo Limpo teatro ACERT a ideia da montagem teatral do conto de José Saramago. Primeiro, a paixão compartilhada pela leitura. Depois, as visões encantatórias que faziam de cada momento lido um momento teatral. Tudo mexia. Os personagens passaram a conviver connosco e a segredarem-nos intenções de saírem do conto para lhes darmos vida. O elefante Salomão povoava-nos sonhos e dava-nos carícias de uma humanidade singular. Agigantá-lo seria um justo merecimento. José Saramago semeava em nós o prazer duma aventura imaginosa e arrojada. Tão somente o escutámos: “As pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas”.[2]

Assim sucede quando a literatura, sem mais pretensão que ser literatura, se converte em expressão de vida. A partir desse momento, será já, para sempre, por obra e graça da vida dos leitores, grande literatura, destinada a fortalecer, com audácia, a experiência da liberdade humana e da expressão criadora, essa vontade lúcida que tanto ajuda a sonhar e a construir a realidade desejada.[3]

O QUE DÁ O VERDADEIRO SENTIDO AO ENCONTRO É A BUSCA E QUE É PRECISO ANDAR MUITO PARA ALCANÇAR O QUE ESTÁ PERTO[4]

Caminhos de partilha se impuseram. Convidados, Luis Pastor e Flor de Jara, entraram na aventura afetuosa e generosamente. O cantautor criou com José Saramago “Nesta Esquina do Tempo”, livro/disco em que musicou os seus poemas e que encerra com a voz do nosso escritor. Deitou mãos à guitarra e a sua voz encantou-nos nesta nova viagem.
Delicadamente, contámos o sonho a Pilar del Río que se encantou, maravilhando-nos com sua generosidade. Cumpria-se mais um momento onírico: “Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós”.[5]

Escrevê-lo [A Viagem do Elefante] não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. Não obstante, sete meses depois, Saramago, restabelecido e com novas energias, pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem, ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa.[6]

“FISICAMENTE, HABITAMOS UM ESPAÇO, MAS, SENTIMENTALMENTE, SOMOS HABITADOS POR UMA MEMÓRIA …” [7]

A adaptação dramatúrgica não dispensa a leitura integral do conto “A Viagem do Elefante”. Procurou-se encontrar os trilhos que, literariamente, respeitassem a bússola do itinerário de Salomão, evidenciassem as tensões que, teatralmente, exprimissem a riqueza dos personagens e os momentos mais salientes da aventura transfronteiriça. O paquidermísmo humano e a humanização afetuosa do Salomãozinho, cruzam a narrativa teatral assimilada do texto literário de José Saramago que se caracteriza pelo “humor irreverente, a ironia distanciadora, a compaixão, o humanismo cético e a ternura”, contrabalançada com “a mesquinhez, os inconvenientes próprios do caminho e o desconsolo provocado pelos poderes terrenos e divinos”.[8] Contra factos tão literários, que argumentos restam ao teatro? Somente navegar na narrativa, bem como devolver ao palco os diálogos já tão magnificamente elaborados e o carácter ficcional das situações que, estando a viver nas páginas do livro, pertencem ao imaginário daqueles que, na leitura, assumem a encenação singular que a sua fantasia reclama. Por isso, estamos confrontados não com público desprevenido, mas, em muitos casos, com guardadores de memórias do que leram. Encenadores duma fílmica leitura. Mediadores zelosos que querem identificar a leitura na visão teatral que lhes é proposta.

Mas não será excessivo, sem embargo, observar que onde poderia parecer que há pouco de Saramago, aqui se encontra todo ele, o mais relevante, a palavra descoberta, sem alardes nem arranjos, sem argumentos nem propósitos que não sejam habitar o centro da língua portuguesa e, uma vez mais, dar a sua versão heterodoxa e complementar da História a partir de ressurreições marginais imaginadas, de uma vontade humanista, de substituir a crónica pela invenção e forçar a alteração da perspectiva acomodada.[9]

[1] José Saramago, A Viagem do Elefante,
[2] idem, O Evangelho Segundo Jesus Cristo,
[3] Jornal de Letras, Artes e Ideias, Testemunho de Fernando Gomez Aguilera sobre obra literária de Saramago, 5/11/08,
[4] José Saramago, Todos os Nomes,
[5] Idem, ibidem,                                  
[6] Mensagem de Pilar del Rio, José Saramago terminou um novo livro. Chama-se A viagem do elefante.
[7] José Saramago, Palavras para uma cidade
[8] Fernando Gomez Aguilera, “Testemunho de sobre obra literária de Saramago”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 5/11/08
[9] Idem, ibidem

INICIOU A GRAVAÇÃO DO LIVRO/CD " A VIAGEM DO ELEFANTE"
A LOUCURA CONTINUA!



"A VIAGEM DO ELEFANTE" POR VISEU DÃO LAFÕES
Um Roteiro em 2014
Lançamento do Livro

Um espetáculo, uma viagem, um território.

Apresentação integrada no 20º FINTA - Festival Internacional Teatro ACERT

A propósito da circulação do espectáculo “A Viagem do Elefante” criado pelo Trigo Limpo teatro ACERT e promovida pela Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, é apresentado o livro/roteiro “A viagem do elefante por Viseu Dão Lafões”.
Mais do que um trabalho sobre o eespectáculo é um trabalho sobre o território e o que dele se destacou ao longo desta digressão. Um apelo à visita guiada por um elefante indiano. Um guia por locais habitados por gente boa, com recursos únicos, memórias e identidades que se cruzaram na passagem do elefante Salomão por cada terra. Um território que faça cumprir, citando José Saramago, que “No interior de cada país está o seu destino”.

Quatro criadores (dois fotógrafos, Carlos Teles e Ricardo Chaves, e dois jornalistas, Sara Figueiredo Costa e Ricardo Viel) que acompanharam toda a digressão, mostram-nos o que de melhor descobriram em cada local, apelando ao visitante para que descubra por si um território diverso, rico, estimulante. Um território cheio de sinais de enorme vitalidade, que ousou, demonstrar a cultura como ferramenta essencial de desenvolvimento. Uma comunidade que assumiu, com ousadia, apostar na criação artística como projecto comum aos catorze municípios que a integram. Um território que deixa marcas em quem o visita e que tem como “primeiro cidadão em comum” o elefante Salomão.

O projeto não se confinou às apresentações nem se esgotou numa digressão teatral. A riqueza do processo, nas suas vertentes sociológicas, turísticas e de desenvolvimento regional mereceram, desde o primeiro instante, uma atenção particular.

Uma obra pioneira, reflexo de um projecto pioneiro, que tenta demonstrar a importância de fazer/ pensar diferente em áreas como o trabalho colaborativo, o turismo, o desenvolvimento local e comunitário e das práticas artísticas descentralizadas com repercussões na valorização dos territórios e das suas gentes.

Assim, esta edição literária e fotográfica não é o diário de bordo do eespectáculo“A Viagem do Elefante”. É sim um cicerone que dá conta duma experiência integradora, dando visibilidade aos locais e suas riquezas materiais e imateriais de forma singular. Esta edição desvia se propositadamente do sentido do habitual guia turístico, uma vez que é o Elefante Salomão que ficcionalmente corporiza cumulativamente o papel de viajante e do residente. Com as devidas ressalvas, a opinião de José Saramago na sua “Viagem a Portugal” está subjacente ao que se pretende:

“História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjectividades e objectividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, confirmação e surpresa.”

Aqui o link, http://www.acert.pt/programacao/registo.php?id=795



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Site LiteraturaBR dá destaque à "Revista de Estudos Saramaguianos"

O site "Literatura BR", dá um amplo destaque à "Revista de Estudos Saramaguianos", apresentada no passado dia 15 de Novembro de 2014, na sede da Fundação José Saramago, num evento com palestra de Pedro Fernandes e Carlos Reis

Aqui o link, do destaque dado pela Fundação José Saramago, em http://www.josesaramago.org/nasce-revista-academica-de-estudos-saramaguianos/


"O que é a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS

É notável que desde o final dos anos 1980 a produção acadêmica em torno da obra de José Saramago, até então quase inexistente, tem se avolumado numa proporção sem limite calculável. Entretanto, uma rápida busca nos arquivos de universidades, em revistas acadêmicas, em eventos organizados, nos coloca sempre diante de uma quantidade surpreende de estudos e abordagens diversos.

A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS quer, assim ser um espaço em torno desse interesse em manter vivo o legado construído pela literatura saramaguiana; trata-se de uma revista acadêmica, com tiragem semestral, gratuita e eletrônica cuja proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra de José Saramago. Seu objetivo é o de fortalecer os estudos, intercambiar pesquisas e dar a conhecer as diversas possibilidades de leituras em torno da obra do escritor português.

A primeira edição teve uma tiragem impressa pela Editora Patuá apresentada em dois volumes distintos: um em língua portuguesa e outro em língua espanhola, as duas línguas em que circularão os textos publicados na revista.

A parceria editorial é dada entre investigadores da obra de José Saramago de Brasil, representado pelo professor Pedro Fernandes (mentor da ideia), Argentina, pelo professor Miguel Koleff e Portugal, pela Fundação José Saramago.


De onde vem a ideia de sua criação

A ideia não nasceu ao acaso e nem se construiu sozinha. Ela é esforço de uma coletividade. A proposta que começou a ser costurada pelo professor Pedro Fernandes na noite de vigília quando lhe veio, de fato, a consciência da partida Saramago naquele 18 de junho de 2010 e lembra ser este também um produto do “que assumiu de si para com os livros do escritor português que estavam à sua frente naquela ocasião”; “a profissão de fé”, segundo ele próprio chama foi “baseada tarefa de todo crítico, que é a de dar a conhecer, pela via mais simples, o esforço de outros homens cujo desejo é sempre o de dizer sobre eles e o mundo onde estão”.

Ele e Miguel Koleff, editores da ideia, compreendem e desenvolvem no texto de apresentação da primeira edição para a REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS que “a tarefa de todo estudioso da literatura é irmanar-se com a obra não para catar louros de glória, mas para continuar a exercer as revisões sempre necessárias, hoje mais que sempre, de um extenso, ardoroso e mais complexo itinerário, o de humanização – esse que vimos construindo entre erros e acertos desde quando assumimos a consciência sobre o mundo e demos por inaugurado o império da razão”.

Pedro Fernandes é pesquisador da obra de José Saramago desde o curso de Licenciatura em Letras, quando conheceu o trabalho do escritor português através da leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo. Tem quase oito anos que se dedica a investigação da literatura saramaguiana. Autor da ideia confessou-a ao professor Miguel Koleff, também há muito um leitor e dedicado estudioso da obra de Saramago, com organização de trabalhos de ampla significação para a fortuna crítica do escritor como o Diccionario de Personajes Saramguianos e a coleção Apuntes Saramaguianos a partir de um grupo de pesquisa dedicado à obra do Prêmio Nobel. Juntos, a ideia foi levada ao encontro de Pilar del Río, quem, desde que tomou contato mais concreto com a proposta, em novembro de 2013, se manteve atenta ao andamento da edição ora publicada e abriu, como presidenta da Fundação José Saramago,  todo apoio com tudo que estivesse ao seu alcance.

Dados sobre a primeira edição

A REVISTA teve uma primeira apresentação no âmbito de abertura pelas celebrações do Dia do Desassossego, data pensada pela Fundação José Saramago, que este ano integra a lembrança pelo 92º aniversário do escritor. A edição reúne ensaios de pesquisadores de Brasil, Portugal e Argentina. Cada autor, à sua maneira, abre-se para algum elemento da obra literária saramaguiana, de modo a elucidar o itinerário multifacetado como é o da literatura de Saramago. Aí estão textos de Ana Paula Arnaut, Carlos Reis, Teresa Cristina Cerdeira, Conceição Flores,
Fabiana Takahashi, Salma Ferraz, Miguel Koleff, Maria Victoria Ferrara,
Pedro Fernandes e Lílian Lopondo.

Boa parte dos nomes que escrevem para esta primeira edição integra como corpo científico para a REVISTA composto ainda por professores e pesquisadores de várias instituições brasileiras, portuguesas e estrangeiras (conforme se pode ler no próximo item). Esta edição, portanto, apresenta-se com nomes de convidados, a demarcarem um ponto de partida. A edição por vir deverá manter essa estrutura até que o periódico ganhe a projeção para a recepção voluntária de ensaios e recensões críticas.

Os dois volumes reúnem ainda imagens de José Saramago do período de escrita de Claraboia, fac-similar de páginas de Claraboia e de materiais para a escrita de O ano da morte de Ricardo Reis. O volume em língua portuguesa, além desses arquivos, recebe um conjunto inédito de telas da exposição “O feminino na escrita de José Saramago”, produzida pela artista plástica Lena Gal a partir da obra de Saramago e do livro de Pedro Fernandes, Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago.

Informações

Site: http://www.estudossaramaguianos.com/
Facebook: https://www.facebook.com/saramaguianos/
Twitter: @saramaguianos

http://www.literaturabr.com/2014/12/revista-de-estudos-saramaguianos.html


"Claraboia" uma nova vida depois de esquecido...

cla·ra·bói·a |clà| 
substantivo feminino
1. Parte envidraçada de um telhado para entrar claridade.Ver imagem
2. Fresta ou óculo numa parede para passagem da claridade ou do ar.
3. Poço para ventilação de mina, túnel, etc.

"claraboia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/claraboia 



"Skylight" de José Saramago
Traduzido por Margaret Jull Costa
Editora, Houghton Mifflin Harcourt, 299 páginas



No site www.bustle.com, é apresentada uma elogiosa critica ao livro "Skylight" - tradução do original "Claraboia", obra datada de 1953. 
A "Claraboia", fica marcado pelo seu "tardio nascimento", publicada a titulo póstumo - em 2011, contrapondo, com a data da realização, em 1953. 
Após a publicação de "Terra do Pecado" em 1947, que inicialmente foi apresentado ao editor com o titulo "A Viúva"; esta segunda obra ficou marcada pelo silêncio da editora, perdido o rasto... esquicida, supostamente para sempre. 
Sob o nome de "Honorato", pseudónimo de José Saramago, terá sido entregue por um amigo, que tentou a sua publicação, através de conhecidos, na editora ENP (Empresa Nacional de Publicidade), de onde, mergulhado num silêncio profundo e num esquecimento de décadas - conhecemos agora a sua história - virá a renascer do pó das catacumbas de um qualquer depósito, quando na década de 80, José Saramago, recebe por parte do Diário de Notícias, a informação da descoberta e recuperação do original, com um pretensioso convite à sua publicação.
A carga simbólica destes acontecimentos, e a nobre decisão tomada pelos herdeiros de José Saramago, no que toca à sua publicação, coloca esta obra no seu devido lugar, que a ordem cronológica da bibliografia assim o obriga, e que, nós os leitores, temos a obrigação de lhe dar a vida que durante décadas não teve.
A vida e a luz do livro, analogia com o titulo, "Claraboia", enquanto elemento concebido para deixar passar a luz, o sol, o que está para lá de, o pulsar do outro lado, merece todo o destaque. Recuperado e cheio de vitalidade, há que desfrutá-lo... 


Laura Creste, neste apontamento, escolhe seis obras para serem lidas "ao lado de uma lareira".

Aqui, fica o link para o artigo completo, em http://www.bustle.com/articles/50632-december-2014s-best-books-6-titles-perfect-for-you-to-read-right-next-to-the-fireplace

"December is an ideal time for settling in with a thick read. A well-picked book is essential whether you’re in for a long plane ride home for the holidays and you need a distraction, or your extended family has gotten into a political debate after a few glasses of wine, and you need to exit to the living room to read by the light of the Christmas tree to avoid them. (No, just me? Moving on.)
There are quite a few good books released this month — things for fans of history, for instance, plus a new Murakami (!) — but if I have to play favorites, I’d say I’m most excited about Ali Smith’s How to Be Both. It’s actually two books in one (a double-gift if you want to give it!) in a complicated genre-bending sort of way. 
Early December is also a time to worry about finding the perfect gift. I’m sure you’ll be gifting books, but make sure you don’t forget about giving something to yourself, too, to keep you entertained throughout the dreary winter. The ones on this list are a great place to start.
Here’s a reading list that’ll get you through the holidays:

"Skylight" by José Saramago (translated by Margaret Jull Costa)

There’s a great story associated with the creation of this book, Portugusese novelist José Saramago’s first. The book was nearly lost forever when the author sent it to a publishing house in Lisbon in 1953 and never heard back. When the publishing house was changing offices more than three decades later, they found the manuscript of Skylight in a drawer. At this point, Saramago was well-established in the Lisbon literati and he proudly refused their belated offer to publish it. After his death, however, his estate felt that the public deserved a chanced to read the book.
Saramago’s Skylight is an artful depiction of the every day, and the unknown interiors of the people with whom we live. In the novel, husband and wife are miserable mysteries to each other more often than not, and sisterly love is fraught with unsaid drama. A kept woman entertains her patron, though she’s tired of him; a woman married to a cheating husband wins their battle of wills with her absolute scorn; an aunt endeavors to find out what secrets her nieces are keeping from her. With an omniscient narrator presiding over the neighbors in a small apartment building, the reader catches a glimpse into the surprising ways our lives are interwoven with the people around us. Saramago makes a convincing case for the power of proximity as the strongest force in a relationship.
This first book is understandably less polished than Saramago’s later works, but it’s fascinating to see the germ of his theories about love and how people should, above all, be decent to one another here in their earliest forms. He was compelled by the same themes his entire life, and now Saramago fans can discover Skylight like an entryway to the past."


O San Francisco Gate, apresenta a menção ao livro, acompanhando uma pequena biografia de José Saramago

Aqui, o link, 

"Skylight" by José Saramago: review
By Porter Shreve

"After the Portuguese writer José Saramago published his first novel, “Land of Sin,” in 1947, he spent the next several years working on a new book, “Skylight.” But when he delivered his only copy of the manuscript in 1953, his publisher failed to get back to him. Dispirited by this seeming rejection, Saramago dedicated most of his 30s and early 40s to journalism and didn’t write another novel until the 1970s. He brought out a book every year or two thereafter, breaking through with the international best-seller “Baltasar and Blimunda.”
In 1989, the publisher that had held on to “Skylight” for decades contacted the now-famous writer, saying they had unearthed the manuscript after losing it in a move and wanted to publish it. Still not over the slight, Saramago retrieved the novel but refused the offer. He won a Nobel Prize in Literature in 1998 and died in 2010, and only now has his widow, Pilar del Río, decided to publish “the book lost and found in time.”
“Skylight” is a masterwork of characterization, place and point of view. As del Río notes in her preface, it anticipates the complex female characters and many of the prototypes that would appear in Saramago’s later work, “that whole tribe of silent men, free, solitary beings who need to find love in order, however briefly, to break out of their focused, introverted way of being in the world.” The place is an apartment block in a middle-class Lisbon neighborhood soon after World War II during the Salazar dictatorship. The book falls into the small but vibrant category of fiction set in urban buildings whose inhabitants form a cross section of society, a category that includes Emile Zola’s “Pot Luck,” Gloria Naylor’s “The Women of Brewster Place,” Manil Suri’s “The Death of Vishnu” and Alaa Al Aswani’s “The Yacoubian Building.”
At first, the point of view moves like a camera, beginning in the ground-floor apartment of the cobbler Silvestre and his wife, Mariana, on a day they realize they’ll need to take in a boarder to make ends meet. We drift up to the second floor to the seamstress Isaura, who, along with her sister Adriana, barely manages to pay rent on the flat they share with their mother and aunt. Another downstairs neighbor, Justina, appears at their door to complain about the clacking of the sewing machine because it’s interrupting the sleep of her husband, Caetano, an irascible second-shift Linotype operator. On the way back to her apartment, Justina overhears other neighbors, Anselmo and Rosália.
We move to Rosália’s flat, where she’s arguing with her 19-year-old daughter, Claudhina, who has decided to stay home from work on account of a headache. We follow Claudhina downstairs to borrow the phone of the one well-off resident of the block, Dona Lídia, a kept woman who spends her days reading novels and awaiting the thrice-weekly arrival of Paulino Morais. “She knew that the only thing that bound him to her was her body, and so she took every opportunity to show it off, especially now, when her body was still young and shapely.”
Having established each character’s situation, Saramago limits the point of view of the rest of the chapters to individual apartments and the private crises taking place within them. As the focus tightens, the drama intensifies: Silvestre and Mariana’s boarder, Abel, has misled them about his past and turns out to be a mysterious drifter. One insomniac night, repressed, love-starved Isaura finds herself making an advance on her own sister. Caetano’s wandering eye leads Justina to confront him about the women whose photos he carries in his wallet, igniting a series of increasingly unsettling events. And Dona Lídia will live to regret introducing younger, prettier Claudhina to her lover, the man who pays her rent.
The events that fill “Skylight” — adultery, incest, physical, sexual and emotional abuse — are shocking on reflection but within the pages emerge so clearly out of the characters’ loneliness, frustration, longing and misery as to seem inevitable. Perhaps Saramago’s early publisher shelved the manuscript out of fear that Portugal under fascism wasn’t ready for it. But just as he writes toward the end, “At last the day had come when all secrets would be revealed,” it was only a matter of time before a work of such extraordinary honesty and perception would make its way into the world.
Porter Shreve’s fourth novel, “The End of the Book,” was published earlier this year. E-mail: books@sfchronicle.com
Skylight
By José Saramago; translated from the Portuguese by Margaret Jull Costa"



Noiserv - "Palco do Tempo" música do filme "José & Pilar"






Noiserv - "Palco do Tempo"
Música do filme documentário "José & Pilar"

"Deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade. E um pouco de tudo das tantas coisas que fizeram José Saramago e Pilar del Río é o que vemos em José e Pilar, o filme de Miguel Gonçalves Mendes."


José Saramago, um homem com música e musicalidade dentro de si...

(um homem com música e musicalidade dentro de si...)


“Naquele tempo eu ia à ópera sem pagar. Um porteiro simpático do Teatro Nacional de São Carlos, bom amigo de meu pai, fazia-me sinal para entrar quando faltavam dois ou três minutos para começar a função e os espectadores pagantes já tinham ocupado os seus lugares. Excitado, nervoso, subia rapidamente as íngremes escadas que levavam ao último andar, aonde chegava com o coração a saltar-me da boca. (A porta que o benévolo guardião fiscalizava não dava acesso à plateia nem aos camarotes, era só para espectadores pouco abonados, os que tinham que contentar-se com as torrinhas, que assim se chama aos camarotes de última ordem, e com o galinheiro, cujo nome já está a dizer tudo.) Como eu era um dos que não deixavam sequer um centavo na bilheteira, o meu lugar tinha de ser o galinheiro, se é que, chegando no último segundo, ainda lá encontrava um sítio para me sentar... Por diabólico castigo, exceptuando os pouquíssimos espectadores que se apertavam na primeira fila, ninguém conseguia ver dali o palco por inteiro. A culpa tinha-o o enorme camarote real (presidencial depois da República) que, começando à altura dos camarotes de primeira ordem, trepava pelo teatro acima, quase alcançando o tecto, onde, praticamente, pairávamos. Quando os cantores, cumprindo as marcações de cena, se deslocavam para o lado escondido, era como se tivessem passado para a outra face da lua. Ouvíamos-lhes as vozes (os entendidos afirmavam que a melhor acústica do São Carlos era a do galinheiro...), mas tínhamos de esperar pacientemente que a continuação do enredo trouxesse outra vez os artistas à nesga de palco visível de onde estávamos. Encimando o camarote presidencial e dificultando ainda mais a visão, havia (e lá continua) uma grande e sumptuosa coroa real, de talha dourada, símbolo que sobrou das monarquias passadas, agora reduzida a mero adorno figurativo. Com propriedade e com rigor, porém, o que víamos não era a coroa na sua plenitude aparente, a que oferecia a sua magnificência e o seu esplendor aos espectadores privilegiados dos camarotes e da plateia. Nós, os do galinheiro, tínhamos de contentar-nos com o reverso dela, a parte de trás, o outro lado, numa palavra, a ausência. Sim, a ausência. Ou porque tinha querido poupar algum dinheiro em madeira e em folha de ouro, ou porque acharam que as pessoas que viriam a sentar-se ali não eram merecedoras de mais consideração, a coroa do Teatro nacional de São Carlos não é uma coroa completa, é três quartos de coroa, ou ainda menos. Lá dentro, amparando a real estrutura, viam-se naquele tempo uns sarrafos mal aplainados, fixados com pregos torcidos, muito pó, teias de aranha, alguma vingativa e republicana ponta de cigarro. Como se alguém, nesses distantes e ingénuos dias, tivesse acendido a luz que haveria de iluminar-me a existência, compreendi que o ponto de vista do galinheiro é indispensável se realmente quisermos conhecer a coroa.”

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Citador #17 - Quadra datada de 1940

Citador #17
Quadra datada de 1940,
Dedicada a Ilda Reis, sua primeira esposa
Esta quadra foi gravada num prato decorativo, em forma de coração, que um seu vizinho, pintor numa fábrica de cerâmica, fez a pedido de José Saramago.

"Cautela, que ninguém ouça
O segredo que te digo:
Dou-te um coração de louça
Porque o meu anda contigo"

Teatro Art'Imagem apresenta "A Maior Flor e outras Histórias segundo José"


Via Fundação José Saramago
"De 2 a 7 de dezembro, no Fórum da Maia, o grupo Teatro Art´Imagem 
apresenta o espectáculo "A maior flor e outras histórias segundo José" 
Mais informações em: www.teatroartimagem.org



«Havia uma aldeia e um menino (ou uma menina?).
Havia também os avós com quem a menina (menino?) vivia, mais os vizinhos.
Um dia sai o menino (menina?) pelos fundos do quintal e toca a andar, toca a andar.
Caminhou, caminhou, correu, correu, parou, parou...
Até que chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinha ( sozinho?).
– Vou ou não vou?
Foi!
À descoberta de si, à descoberta do mundo.»

Inspirado na obra de José Saramago e tendo como base de trabalho dramatúrgico o seu livro para crianças “A Maior Flor do Mundo”, o Teatro Art´Imagem apresenta uma peça de teatro para ser vista por adultos e crianças em conjunto. Uma boa oportunidade para homenagear e divulgar o autor e a sua obra, na esteira do Teatro Art´Imagem cujo lema tem sido apresentar os grandes autores e textos da literatura universal, transformando-os em teatro. 
Acrescentando outros textos que vão desde “Pequenas Memórias” aos contos “Deste Mundo e do Outro”, dos “Cadernos de Lanzarote” aos “Poemas Possíveis” e ao Discurso de aceitação do Prémio Nobel, ao aparecimento de personagens literárias inesquecíveis do universo do autor, como o par Blimunda e Baltazar, os Sete Sóis e Sete Luas, do “Memorial do Convento”, a Mulher do Médico e o Cão das Lágrimas, de “O Ensaio Sobre a Cegueira”, até às criaturas reais, mais ou menos fantasiadas, que povoaram a sua infância, como os seus avós Jerónimo e Josefa e outros familiares, bem como as recordações do que era viver, trabalhar e brincar na aldeia de Azinhaga do Ribatejo, ao despertar dos primeiros amor. Dois actores, uma mulher e um homem, interpretam e representam em palco e na plateia, as palavras e acções escritas e descritas pelo autor, ganhando estas outra dimensão artística de comunicação e partilha. Há corpos em presença, olhos que se cruzam, pessoas de corpo presente, membros que se tocam, vozes que se ouvem, respirações e tempos comuns entre espectadores e artistas, acção dramática, movimento e vida em misturando-se teatro e literatura, palavras e actos, deambulação e realidade, sentimentos, medos e perguntas, recordações e memórias. Em palco toda a humanidade que Saramago descreve e defende nos seus romances e na sua própria vida, à procura de um mundo diferente, melhor.



Ficha artística e técnica

» Inspirado na Obra de José Saramago 
» Dramaturgia e encenação José Leitão 
» Interpretação Daniela Pêgo e Flávio Hamilton
» Pintura Agostinho Santos
» Música Alfredo Teixeira
» Cenário Fátima Maio, José Leitão e José Lopes 
» Figurinos e adereços Fátima Maio
» Apoio ao movimento Renato Vieira e Ana Lígia
» Desenho de Luz Leunam Ordep
» Operação Técnica Sandra Sousa

» Produção Sofia Leal

Classificação Etária: M/6
Duração Aproximada: 50m

104ª Criação do Teatro Art'Imagem - 2014



Data e local de apresentação

Estreia: 28 de Maio de 2014 e temporada até 7 de Junho de 2014, no Teatro do Campo Alegre, Porto.



Sugestão de Leitura "José Saramago: Tudo, Provavelmente são Ficções; Mas a Literatura é Vida" de Eula Pinheiro



"José Saramago: tudo, provavelmente, são ficções; mas a literatura é vida" 
Eula Pinheiro
Musa Editora - 2012

A sugestão de leitura, que aqui apresento, é uma obra da autoria da Dra. Eula Carvalho Pinheiro, académica e entusiasta estudiosa sobre a temática "Saramaguiana". A Presidenta, da Fundação José Saramago (onde a obra se apresenta à venda), Pilar del Río, prefacia o livro, de onde considera que: -  "Eula Carvalho, que escreveu um livro indispensável para os que amam a obra de Saramago, ou seja, ao autor que construiu a realidade à base de ficções que nos fortalecem e dignificam."

Sandra Dias, do site http://canelaehortela.com, apresentou o livro desta forma:
"Eula Carvalho Pinheiro investiga esta viagem de Saramago, dialoga com o autor para descobrir que talvez ele não tivesse razão quando fez da sua obra um antes e um depois, parece dizer-lhe que todas as suas ficções, toda a sua vida, são a descrição da pedra porque ela é a matéria mais sólida da qual se ergue a realidade que somos. As ficções e os seres humanos que as lemos. Disto trata Eula Carvalho, que escreveu um livro indispensável para os que amam a obra de Saramago, ou seja, ao autor que construiu a realidade à base de ficções que nos fortalecem e dignificam.
Estas são as palavras de Pilar del Río no prefácio do livro de Eula Carvalho Pinheiro José Saramago: tudo, provavelmente, são ficções; mas a literatura é vida, editado pela Musa Editora e disponível agora na Fundação José Saramago.
Segundo as palavras da autora em entrevista ao jornal Tribuna de Minas na altura do lançamento do livro no Brasil, em Dezembro de 2012. “O meu compromisso é mostrar a coerência de José”.  Nesta obra, feita no âmbito do mestrado concluído em 1993, Eula Pinheiro debruça-se sobre sete livros de José Saramago, entre o Manual de Pintura e Caligrafia e a História do Cerco de Lisboa. Embora Evangelho segundo Jesus Cristo tenha surgido entretanto, Eula não considerou esse livro por ter sido publicado muito próximo da conclusão do estudo. Como sublinha na introdução, dois factos essenciais ocorreram entretanto – o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, e a morte do escritor, em 2010.
Em Agosto de 2010, a investigadora conheceu Pilar del Río no Brasil e desde então deslocou-se várias vezes a Portugal e também a Lanzarote. Desenvolve actualmente um trabalho de doutoramento sobre a obra não ficcional de José Saramago.
Domingos Lobo, responsável pelo posfácio, escreve que “Há nesta iinterpretação de Eula Carvalho Pinheiro, nesta certeza certa que só a literatura inscreve em nossos imaginários, uma releitura sagaz e oportuna sobre os objectos, os eixos estruturantes da bagagem metafórica e intáctica de José Saramago: ler este mundo sem preconceitos, descomplexadamente, eis o que faz a autora neste brilhante livro. Apetece voar de novo, atrelado a esta análise, feita de rigor e objectividade, pelos textos de Saramago e redescobrir neles, com redobrado prazer, as determinantes que este estudo configura e expressa.”
A obra, editada pela Musa Editora, foi lançada no mercado brasileiro em Dezembro de 2012 e está agora disponível na loja da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos... " (9 de Maio de 2013)




(imagem da sessão de apresentação da obra, 
"José Saramago: tudo, provavelmente, são ficções; mas a literatura é vida"
na sede da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos)

A Musa Editora, que publicou o livro, apresenta a autora e o livro, assim:
"José Saramago: tudo, provavelmente, são ficções; mas a literatura é vida analisa a primeira fase da obra saramaguiana, a fase “estátua”: do romance Manual de pintura e caligrafia à História do Cerco de Lisboa. Para Pilar Del Río é “livro indispensável para os que amam a obra de Saramago, ou seja, ao autor que construiu a realidade à base de ficções que nos fortalecem e dignificam.”

Sumário da obra:
Prefácio Pilar del Río | Apresentação Eula Pinheiro

Traçando um caminho
Manual de Pintura e Caligrafia: ponto de partida
O diálogo com a literatura
“Todos os caminhos portugueses vão dar a Camões”
“O poeta é um fingidor”: o jogo intertextual e o texto como construção
O diálogo com a Bíblia
O diálogo com a tradição oral
Saramago conversa com Saramago
História do Cerco de Lisboa: “toda a verdade é ficção” .

Posfácio Domingos Lobo | Bibliografia | Lista de obras de José Saramago e abreviaturas | Caderno de fotos (em cores)

Eula Pinheiro, a autora

Eula Carvalho Pinheiro nasceu em Paraíba do Sul, RJ. Graduou-se em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora –UFJF, Mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Há 27 anos lê a obra de José Saramago. É, no momento, investigadora de doutoramento em Lisboa: acolhida pela Fundação José Saramago. Cursa o doutoramento na Universidade Nova de Lisboa. Colabora com a Fundação José Saramago com o objetivo e a vontade de levar adiante o estudo da obra saramaguiana e sua consequente divulgação a todas as pessoas que desejarem conhecer a escrita e a vida de José Saramago."



O "Estadão" publicou a crónica sobre esta matéria e que o site da Musa Editora, reproduz. Aqui, o respectivo link, do através site da editora.

"Eula Pinheiro não transformou a dissertação de mestrado que fez sobre a obra de José Saramago em livro assim que a apresentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1993. Tampouco aproveitou o fato de seu objeto de estudo ter conquistado o Prêmio Camões em 1995 ou o Nobel em 1998. A morte dele em 2010 também não a fez apertar o passo. E não foi por falta de editora.
Ana Cândida ainda trabalhava em uma grande casa em meados dos anos 90 quando conheceu o trabalho de Eula. Gostou tanto que resolveu guardar para a Musa, sua editora que começava a caminhar, a ideia de publicá-lo. Mas também não o fez.
O ano de 2011 foi decisivo para que esse projeto saísse da gaveta e abrisse espaço para uma série de outras ideias que a pesquisadora pretende colocar em prática quando estiver reestabelecida em Lisboa, cidade onde passou a maior parte do ano passado e que foi responsável pela mudança do vento.
Foi nesse período que ela pode se aproximar de Pilar Del Río, a viúva de José Saramago, e conviver com as pessoas que o cercavam. Participou de importantes momentos relacionados à memória dele: a abertura da biblioteca da casa de Lanzarote, a pré-estreia de José e Pilar no Rio e a deposição de suas cinzas na oliveira da Casa dos Bicos, que abrigará a Fundação Saramago, em Lisboa. Toda essa dedicação está para ser recompensada com uma mesinha com vista para o Tejo nessa mesma fundação.
Enquanto isso não acontece, Eula se ocupa com a edição de José Saramago - Tudo, Provavelmente, São Ficções; Mas a Literatura É Vida, prevista para abril. No bairro de Perdizes, em São Paulo, editora e autora se encontram na nova sede da Musa para discutir o projeto gráfico e selecionar as imagens. Eula trouxe muitas fotografias de Portugal – das viagens que fez pelas rotas saramaguianas e dos eventos de que participou. Elas devem vir em um caderno e serão alternadas com citações dos romances estudados. A capa foi feita por Raquel Matsushita a partir da tela O Dia Seguinte, do artista plástico português Júlio César – ele também um fã de Saramago.

Há 26 anos acompanhando a trajetória do escritor, a pesquisadora analisou, em sua dissertação transformada agora em livro, os cinco primeiros romances publicados no Brasil - Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra e História do Cerco de Lisboa -, e a edição portuguesa de Manual de Pintura e Caligrafia, livro que só seria lançado no País às vésperas da defesa da tese. Outro romance chegou ao País quando Eula concluía o trabalho, mas acabou ficando de fora: O Evangelho Segundo Jesus Cristo, um dos mais polêmicos dele.
Essas sete obras pertencem à fase que o próprio autor chamou de estátua. O que veio depois pertence à fase pedra, ou universal. “José Saramago, sendo já autor de uma vasta obra, deu-se conta de que até O Evangelho Segundo Jesus Cristo tinha estado empenhado em descobrir a estátua, mas que a partir de Ensaio Sobre a Cegueira o seu interesse era outro, tratava-se de descrever a pedra de que a estátua é feita”, escreve Pilar no prefácio.
Eula explica: “A fase estátua é o trabalho com a pedra, ou seja, a abordagem de temas locais e particulares. Memorial do Convento conta a história da construção do convento de Mafra no século 18. Levantado do Chão aborda toda a problemática de um país agrícola na ditadura do século 20. Depois vem Jangada de Pedra e a questão do iberismo. Já em O Ano da Morte de Ricardo Reis, o tema é Fernando Pessoa”. Nas obras posteriores, ele trabalha com a pedra, que é a essência da estátua. “Mas no fim tudo foi pedra porque ele sempre falou do homem”, reavalia.
A ideia da divisão de sua obra em fases não é muito difundida no Brasil, analisa a autora. Saramago usou a expressão pela primeira vez em um discurso que fez em Turim. Improvisada, essa fala foi transcrita em Portugal para voltar a Turim, para as mãos da artista Luciana Stegagno Picchio, que produziu 126 exemplares da peça A Estátua e a Pedra."


"No dia 29 de Junho comemorou-se o 4.º aniversário da Fundação José Saramago com uma leitura pública do livro "Palavras para José Saramago", que recolhe os textos publicados por todo o mundo nos dias que se seguiram à morte de José Saramago. - Leitura de Eula Pinheiro"


"O percurso da leitura feito por Eula não foi totalmente cronológico. “Eu havia lido do Levantado até História do Cerco de Lisboa e pensei que se o Manual de Pintura e Caligrafia trouxesse as respostas às perguntas que estava a fazer-me, fecharia o meu trabalho. Ali, vi que ele já antecipava questões que viria a tratar até a última linha escrita, e conclui minha tese.” O livro que clareou as ideias da pesquisadora é de 1976 e foi o primeiro da nova fase de Saramago, que já tinha lançado, em 1947, Terra do Pecado.
O escritor Domingos Lobo destaca, no posfácio, a análise que Eula faz desse romance antigo, “um dos menos amados de Saramago”, e o que nele encontra: o jogo intertextual e com as derivantes da sabedoria popular, a tradição oral, as componentes metonímicas, a herança dos campos semânticos, o sentido humano da literatura e a sua ligação com as outras artes, o mágico e o fantástico e o sentido de que toda a verdade é ficção. A memória do ouvido e do vivido, o cotidiano das pessoas comuns e os pequenos acontecimentos já estão nesse primeiro livro e serão vistos nos seguintes.
“A metáfora que fiz em 1990, que foi algo de bastante vanguarda pelo que disseram depois, foi a da construção. Coloquei o Manual de Pintura e Caligrafia como alicerce, os quatro outros romances como paredes e numa laje, com a possibilidade de novas paredes, o História do Cerco de Lisboa. Deixei isso preparado. Claraboia completou a casa”, diz referindo-se ao romance escrito por Saramago aos 30 anos e que só foi publicado em 2011.
Com seu livro lançado e divulgado, Eula mergulha em outros projetos. As rotas saramaguianas, por exemplo, que começou a percorrer no ano passado, devem virar livros infantis em que a autora mostrará os cenários onde Saramago situa suas histórias. E o doutorado, sobre a obra não ficcional do escritor, deve ser transferido da PUC do Rio para alguma universidade lisboeta. O título provisório é O Intelectual se Levanta no Silêncio do Mundo para Intervir na Realidade."

De Eula Pinheiro, pode também ser consultada, outra matéria de estudo e análise, neste caso sobre a obra "Ensaio sobre a Cegueira", na Revista Blimunda (edição digital), de Fevereiro de 2014 - N.º 21
Páginas 60 a 69



Ensaio "Da Justiça à Democracia, passando pelos Sinos" no FSM de Porto Alegre (Fevereiro de 2003)

DA JUSTIÇA À DEMOCRACIA, PASSANDO PELOS SINOS
Por José Saramago (Fevereiro de 2003, Fórum Social Mundial de Porto Alegre)

(Texto gentilmente cedido, pela Dra. Eula Carvalho Pinheiro, 
académica e estudiosa da temática "Saramagiana")


"Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século 16) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido… Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo…

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aqueles trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização econômica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes…

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor."

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Presidenta, a Fundação... Pilar del Río unificadora

"Presidenta"


"Este texto cerra meio ano de trabalho. Outros trabalhos e anos sucederão a estes se os fados assim quiserem. Hoje, por coincidência dia do seu aniversário, o meu tema é Pilar. Nada de surpreendente para quem quiser recordar o que sobre ela tenho dito e escrito em já quase um quarto de século que levamos juntos. Desta vez, porém, quero deixar constância, e supremamente o quero, do que ela significa para mim, não tanto por ser a mulher a quem amo (porque isso são contas do nosso rosário privado), mas porque graças à sua inteligência, à sua capacidade criativa, à sua sensibilidade, e também à sua tenacidade, a vida deste escritor pôde ter sido, mais do que a de um autor de razoável êxito, a de uma contínua ascensão humana. Faltava, mas isso não podia imaginá-lo eu, a idealização e a concretização de algo que ultrapassasse a esfera da actividade profissional ou que dela pudesse apresentar-se como seu prolongamento natural. Foi assim que nasceu a Fundação, obra em tudo e por tudo obra de Pilar e cujo futuro não é concebível, aos meus olhos, sem a sua presença, sem a sua acção, sem o seu génio particular. Deixo nas suas mãos o destino da obra que criou, o seu progresso, o seu desenvolvimento. Ninguém o mereceria mais, nem sequer de longe. A Fundação é um espelho em que nos contemplamos os dois, mas a mão que o sustém, a mão firme que o sustém, é a de Pilar. A ela me confio como a qualquer outra pessoa não seria capaz. Quase me apetece dizer: este é o meu testamento. Não nos assustemos, porém, não vou morrer, a Presidenta não mo permitiria. Já lhe devi a vida uma vez, agora é a vida da Fundação que ela deverá proteger e defender. Contra tudo e contra todos. Sem piedade, se necessário for."

Aqui link, via Caderno, em http://caderno.josesaramago.org/31612.html

José Saramago... visão sobre diversos conceitos


... tenho muitas razões para achar que tomámos o caminho errado ...

Aqui, link via Youtube, em https://www.youtube.com/watch?v=EyOcrtCwekM

Citador #16 ... não seremos todos descartáveis... em "A Caverna"

Citador #16
... não seremos todos descartáveis... em "A Caverna"



(...) Depois, falando lentamente, como se tivesse de arrastar atrás de si cada palavra, disse, Desculpa-me, não queria ofender-te, não queria ser desagradável contigo, às vezes não o posso evitar, parece ser mais forte do que eu, e não vale a pena que me perguntes porquê, não te responderia, ou dir-te-ia mentiras, mas há razões, se as procurarmos encontramo-las sempre, razões para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo não sendo as certas, são os tempos que mudam, são os velhos que em cada hora envelhecem um dia, é o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais do que isso." (...)

em, "A Caverna"
Caminho, 2000
Páginas 106 e 107

Palavras de Cipriano Algor, para Marçal Gacho, seu genro. 
Um acabado de descer à terra, outro com o sonho de subir ao topo do centro.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Crónica "Cada vez mais sós" numa visão sobre a sustentabilidade do planeta Terra

"c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo."

Citação constante na Declaração de Princípios, da Fundação José Saramago,
em, http://www.josesaramago.org/declaracao-de-principios/

Considero a crónica "Cada vez mais sós", como sendo, talvez, uma das mais importantes peças literárias de José Saramago, assumindo uma característica unificadora, e ao mesmo tempo, demonstrativa dos seus pensamentos e preocupações.
Neste texto, aflora superficialmente o seu gosto pela ciência e cultura cientifica, ao mesmo tempo, em que assume a reflexão filosófica, com a constatação do isolamento do planeta Terra, como único local habitável, ao ponto de nos deixar sozinhos num imenso e inatingível universo, do qual não se conhecem os seus limites. Por outro lado, também, carrega num dos elementos chave do seu pensamento - o ser humano - poderá(?), o homem ser capaz de assumir a responsabilidade de preservar e fazer perdurar o legado único deste planeta, ou seja, a "vida"? Remata a crónica, com a descrença em relação à indiferença humana, perpetuada no egoísmo que colectivamente está imbuída, demonstrando na realidade o paradigma em que se encerra. O homem, enquanto agente consumidor ávido por defeito e destruidor dos seus recursos naturais, ainda não tomou consciência de que a sua conduta poderá num futuro, levar à sua própria extinção.   
Esta crónica é, como assumia linhas atrás, unificadora e demonstrativa de grande parte do pensamento que José Saramago, nos terá deixado, num tom urgente e carregado de algum dramatismo.
Visionário ou apenas demasiado atento à realidade, neste mundo que no final da década de sessenta, altura em que esta crónica foi publicada no jornal A Capital, ainda não estaria em "cima da mesa" dos governantes, assuntos que por estes "dias", embora politicamente adiados, fazem parte da banalidade das nossas vidas. Hoje, convivemos pacificamente com o degelo irrevogável das calotes glaciares, com a destruição da camada do ozono, com o ataque das petrolíferas na exploração de petróleo em locais da natureza protegidos, com a massificação das desflorestações da florestas, com a extinção em massas de muitas espécies de animais... com, com, com... um sem número de agressões, para as quais José Saramago foi activista através das suas palavras.
Na "Declaração de Princípios" pela qual a Fundação José Saramago, segue o seu "norte", ficou perpetuado este seu valor estruturante para a humanidade. Mas, como é referido, pela indiferença humana em relação aos princípios mais básicos e fundamentais para a espécie humana - "quem vier atrás que feche a porta..."   



"Cada vez mais sós"


"Venho por este meio pedir desculpa aos meus três leitores. Há tempos escrevi neste mesmo lugar uma crónica a que chamei "Um Azul para Marte". Era uma pequena utopia, um breve exercício de imaginação -  mas era também um amargo relance de olhos para os materiais que constituem isto a que chamamos civilização terrestre. Afinal, o Planeta Vermelho, o tal dos canais misteriosos, o que inspirou a Bradbury essas "Crónicas Marcianas", parece estar tão morto como a lua. Dizem-no as fotografias: aquelas crateras tornaram-se, para nós, sinónimo de aridez, desolação, abandono. Esperemos que ao menos haja por lá algum vento, para que o planeta não esteja tão sozinho.
Sozinhos estamos nós, pelos vistos. O sistema solar já não dá grandes esperanças. Júpiter é mole, fluído, não tem consistência para suportar as duras passadas do homem; em Saturno, a temperatura anda pelos cento e cinquenta graus negativos, há metana e amónia, gases nada aconselháveis para pulmões humanos; em Mercúrio, o chumbo estaria sempre derretido no lado voltado para o sol; Úrano e Neptuno são tão frios que os gases familiares só poderão encontrar-se em estado líquido; de Plutão, basta que se diga que é de quatro mil milhões e meio de quilómetros a sua menos distância em relação ao sol; de Vénus parece não haver também muito a esperar; e Marte é a nossa mais recente desilusão.
De maneira que estamos sozinhos. À roda do Sol anda uma coroa de planetas cuja única pedra preciosa - esmeralda, rubi, diamante - é a terra. O resto são poeiras, fornalhas, vórtices de gelo. E aqui, onda e vida foi possível (com poeiras também, algumas fornalhas, gelo que baste), não achámos nada melhor do que inventar processos de igualar em aridez, desolação e abandono, os planetas companheiros. E tão empenhados parecemos nisto que já não nos é impossível abrir vastos poços atómicos, obedecendo ao estilo paisagístico da lua, e agora de Marte: uma espécie de lugar-comum da orografia: a cratera.
Deste meu modesto buraco (perdoe o leitor, mas tudo são buracos, poços, crateras), acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta visa são dois dias, quem vier atrás que feche a porta - mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazia infinito de morte, escuridão e malogro.
Aceitemos que estamos sozinhos. Aceitemo-lo sem desespero. Neste lado da galáxia, num insignificante sistema solar, eis a nossa pátria. Povoam-na três biliões de pessoas, outros satélites vivos que talvez não possam subsistir fora dele. Aceitemos então que estamos sozinho, e, a partir daí, façamos a nova descoberta de que estamos acompanhados - uns pelo outros. Quando pusermos os olhos no céu estrelado, com a furiosa vontade de lá chegar, mesmo que seja para encontrar o que não é para nós, mesmo que tenhamos de resignar-nos à humilde certeza de que, em muitos casos, uma vida não bastará para fazer a viagem - quando pusermos os olhos no céu, repito, não esqueçamos que os pés assentam na terra e que é sobre esta terra que o destino do homem (esse nó misterioso que queremos desatar) tem de cumprir-se. Por uma simples razão de humanidade."

Cróníca originalmente publicada no jornal A Capital, entre 1968 e 1969

em, "Deste Mundo e do Outro - Crónicas"
Caminho
3.ª edição, páginas 215 a 217



Informação sobre as referidas "Crónicas Marcianas" de Ray Bradbury
Aqui, via Wikipédia, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônicas_Marcianas

"Crônicas Marcianas (no original "The Martian Chronicles") é um livro de contos de ficção científica de 1950, de autoria do escritor estadunidense Ray Bradbury (222 páginas – Editora Doubleday), cujo tema recorrente é a colonização de Marte por humanos com problemas e eventualmente vindos de uma Terra sob a iminência de ser devastada pela Guerra Atômica. Há também conflitos entre aborígenes marcianos com os novos colonizadores. O estilo do livro varia de contos a novela episódica, com histórias de Bradbury originariamente publicadas nos anos de 1940 em revistas de ficção científica. Bradbury mencionou Sherwood Anderson e As Vinhas da Ira de John Steinbeck como influências na estrutura do livro. A obra é similar em sua estrutura a outro livro de contos de Bradbury, chamado The Illustrated Man, que também usa uma história para ligar várias outras entrelaçadas.
Como na “Série da Fundação” de Isaac Asimov, As crônicas marcianas seguem uma “história futura”. Assim, os contos quando reunidos seriam capítulos de uma narrativa maior. O livro é dividido em três partes, pontuadas por duas catástofres: a extinção recente dos marcianos e os paralelos com a iminente extinção da raça humana. A primeira parte (período de janeiro a abril de 2000) detalha as tentativas dos terrestres de explorarem Marte. Na história-chave "—And the Moon be Still as Bright" (-E a Lua ainda brilha) é revelado que a Quarta Exploração descobriu o perecimento dos marcianos por uma praga causada por germes trazidos por uma das explorações anteriores. A segunda parte (dezembro de 2001—novembro de 2005) é quando os terrestres colonizam o desértico planeta e ocasionalmente fazem contato com poucos marcianos sobreviventes. Mas os colonizadores estão mais preocupados em transformarem o planeta em uma segunda Terra. Contudo, com a ameaça de guerra na Terra, a maioria volta ao lar. Com a guerra nuclear, o contato entre Marte e Terra é interrompido. Na terceira parte (dezembro de 2005—outubro de 2026) há os efeitos do pós-guerra e os poucos sobreviventes humanos se tornando os novos marcianos, fazendo uma ponte com "—And the Moon be Still as Bright" e com isso havendo um retorno ao começo.
Na edição de 1997 as datas avançaram em 31 anos (o período agora seria de 2030 a 2057), inclui o conto "The Fire Balloons" e substitui "Way in the Middle of the Air" por um conto de 1952 chamado "The Wilderness", datado de maio de 2034 (equivalente a maio de 2003 na primeira cronologia)."