Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Ernesto Sampaio entrevista José Saramago a propósito do lançamento de "Levantado do Chão" (Diário de Lisboa / Março de 1980)

35 anos do lançamento da obra "Levantado do Chão"
Via Fundação José Saramago, em,

Entrevista de José Saramago ao Diário de Lisboa, em Março de 1980

“José Saramago, escritor, poeta, jornalista: aí o temos na nossa frente, simples, claro, frontal, para quem escrever é ‘aproximar-se da vida´”, escreve Ernesto Sampaio na introdução da entrevista que fez ao autor de Levantado do Chão, em março de 1980, dias depois do livro ser lançado. Nessa conversa publicada pelo Diário de Lisboa, José Saramago fala sobre o processo de escrita do romance, das dificuldades formais que teve que enfrentar, sobre o Alentejo e sobre as expectativas em relação ao livro que acabava de publicar: “(…) não posso deixar de exprimir um outro voto, mais egoísta: que mesmo nessa altura, graças a algum valor literário que hoje tenha e então conserve, ainda o Levantado do Chão seja lido.” Leia a seguir a entrevista:



35 anos da publicação de "Levantado do Chão" - Caricatura de Efrén via Revista Proceso 1998 / México




A Fundação José Saramago, através da sua página, na secção "Memória", apresenta a caricatura "metafórica" de Saramago como que levitando.
Nos 35 anos da publicação de "Levantado do Chão", aqui continuamos a dar destaque a estes pequenos grandes detalhes que também fazem parte da vida da obra.

"Uma caricatura de José Saramago ‘levantado do chão’

Em 1998, a revista mexicana Proceso preparou um dossier especial sobre José Saramago logo após o anúncio da atribuição do Prémio Nobel. Além de textos sobre o escritor e uma entrevista com Pilar del Río, o jornal publicou uma caricatura assinada pelo desenhista Efrén, que viu José Saramago “alzado del suelo”, título dado a Levantado do Chão na primeira tradução para o espanhol (posteriormente o título foi alterado para Levantado del suelo). A secção Memória recupera a simpática caricatura feita pelo artista mexicano."


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Revista Blimunda #9 - Fevereiro 2013 - Edição digital


Pode ser lida, consultada e descarregada gratuitamente, aqui 

Sinopse do #9, via site da Fundação José Saramago

"Quando foi criada, em 2007, a Fundação José Saramago assumiu como um dos seus objectivos a defesa e promoção da cultura nas suas mais diversas formas. O número de Fevereiro da Blimunda, que agora se publica, junta este objectivo a outro, também enunciado na Declaração de Princípios lavrada por José Saramago, o de recuperar autores, figuras da cultura que com o passar dos anos foram caindo numa zona de sombra que os afasta do contacto com o mundo. Por isso este número é dedicado a Michel Giacometti, uma das figuras fundamentais na recuperação do património cultural português.
Para o dossier organizado por Sara Figueiredo Costa contou-se com a colaboração de quatro figuras do panorama musical que, acompanhados de fotografias cedidas pelo Museu da Música Portuguesa, traçam um percurso pelos caminhos trilhados por Giacometti.
Mas a Blimunda está atenta ao futuro, e o futuro passa, segundo algumas opiniões, pelo digital. Acompanhou-se a primeira edição do Congresso ABC da Edição Digital, organizado pela Nave Especial, que junta a editora Pato Lógico à Biodroid, e publicam-se duas entrevistas a André Letria e Gemma Lluch realizadas por Andreia Brites.
A Saramaguiana, ponto de encontro mensal para os leitores de José Saramago, traz um texto de Augusto Rodrigues, Professor da Universidade de Brasília, lido no Congresso Sinfo Saramago, que teve lugar em Lisboa e que terá continuação nos próximos meses.

Boa leitura."

I Encontro Leitores de José Saramago "A Jangada de Pedra" - Faro


I Encontro Leitores de José Saramago
"A Jangada de Pedra"

Dia 28 de Março de 2015
Um dia passado entre "Saramaguianos"
entre Huelva e Faro

Mais informação aqui em https://aulajosesaramago.wordpress.com/

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Citador #28 sobre os silêncios da natureza... "Viagem a Portugal"

Citador #28
... sobre os silêncios da natureza...
em "Viagem a Portugal"
Caminho, 11.ª edição, página 53 e 54


(Serra do Marão, ou a "Casa Grande")

(...) "Não há limites para o silêncio. Debaixo destas pedras, o viajante retira-se do mundo. Vai ali à Pré-História e volta já, cinco mil anos lá para trás, que homens terão levantado à força de braço esta pesadíssima laje, desbastada e aperfeiçoada como uma calote, e que falas se falaram deixado dela, que mortos aqui foram deitados. O viajante senta-se no chão arenoso, colhe entre dois dedos em tenro caule que nasceu junto de um esteio, e, curvando a cabeça, ouvem enfim o seu próprio coração. " (...)


"Lanzarote — A Janela de Saramago" de João Francisco Vilhena (via "Arte Photographica"

Post e Link original via blog "Arte Photographica"
em http://artephotographica.blogspot.pt/2014/06/saramago.html

(Fotografia de João Francisco Vilhena)


"E Saramago tornou-se paisagem"
(revista 2, Público, 11.05.2014)

Como quer que me vista?
— De preto.
— De preto, João?
— Sim.
[silêncio, como quem diz “o fotógrafo é louco!”]
— Mas pretos já são os vulcões… Bom, está bem.
E José Saramago vestiu-se de preto para a objectiva de João Francisco Vilhena. O fotógrafo não queria que o escritor se destacasse na paisagem, queria que se confundisse com ela, que se perdesse nela. E partiram, em passeio, para a zona do Parque Nacional de Timanfaya, Lanzarote, onde quase tudo é vulcânico. Faltavam poucos dias para Saramago receber o Prémio Nobel da Literatura em Estocolmo (10 de Dezembro de 1998). Esse mega-acontecimento podia ser um peso a vergar a fotografia e a condicionar o olhar do fotógrafo ao culto da personalidade. Nas imagens que ficaram dessa sessão, fotógrafo e fotografado parecem conscientes disso. Dão-nos a simbiose. Dão-nos a terra crestada, a poeira e a solidão. E parece que tentam fugir ao brilho das salas douradas que se avizinha.
Nesse dia incerto de Novembro, meteram-se a caminho dialogando, às vezes com uma câmara fotográfica à mistura, numa tentativa de captar um homem na paisagem e nunca um escritor galardoado com a mais alta distinção da sua arte, um nome que aparece nas capas de milhões de livros. Um homem na paisagem e “nas mãos de um fotógrafo”, tão-só (e tão difícil).
Depois dessa caminhada fotográfica, trabalho que viria a ser exposto em Estocolmo por ocasião da entrega do prémio, João Francisco Vilhena sentiu que a ligação que tinha presenciado entre Saramago e a terra que adoptou como sua era de tal maneira forte que decidiu voltar. Queria aprofundar uma reflexão que mostrasse como um homem se pode fundir com o espaço, como pode entendê-lo, desafiá-lo. Respeitá-lo. A “inquietação” aumentou de ano para ano. O fotógrafo sentiu que alguma coisa tinha ficado por fazer. Queria mais. Mas aquele momento fotográfico não voltou a repetir-se (na verdade, nenhum momento fotográfico volta a repetir-se).
Já depois da morte do escritor, em 2010, João Francisco Vilhena voltou, agora com um guia, os Cadernos de Lanzarote, os cinco diários que José Saramago escreveu entre 1993 e 1995 e onde foi anotando as suas reflexões sobre o quotidiano na ilha, sobre a vida, a morte e o amor. Neste regresso, o fotógrafo experimentou o vazio, apenas preenchido pelas palavras deixadas pelo escritor. “Senti-me a fazer uma viagem no tempo com ele através das paisagens da ilha, através do que escreveu sobre Lanzarote. Rever os mesmos lugares onde estive com Saramago foi violento e dei-me conta da sua ausência de uma forma muito profunda.”
O desafio maior passou por encontrar inspiração nas palavras e, ao mesmo tempo, não ficar prisioneiro delas, sobretudo por terem sido escritas por alguém com o peso de um Nobel. “Não quis fazer um exercício mimético ou de simples ilustração dos escritos. Quis dar a força de uma relação e de um ambiente muito particular, que levou alguém a expor-se em termos sentimentais de uma forma absoluta e fantástica.”
A relação que José Saramago tinha com Lanzarote era profunda. E João Francisco Vilhena compreendeu-a através das fotografias que captou, antes e depois do seu desaparecimento. “Saramago tornou-se paisagem através da sua vivência na ilha. Os habitantes relacionam Saramago com a ilha. São um”, diz o fotógrafo, que ontem apresentou em Matosinhos o livro Lanzarote — A Janela de Saramago (Porto Editora). Na Galeria Municipal, por ocasião do festival LeV — Literatura em Viagem, pode ver-se uma exposição com as fotografias que dão corpo ao livro. Nesta obra, João Francisco Vilhena pensou cada página como se fosse única, onde “há momentos em que as palavras são um sussurro e outras em que são um grito”. Como as paisagens fotográficas e o escritor que nelas habitam.

(a exposição Lanzarote — A Janela de Saramago, pode ser vista actualmente no Instituto Camões, em Lisboa)

(Fotografia João Francisco Vilhena)

"Saramago, a vaidade justificável" texto de Miguel Sanches Neto (05/06/1999)


(Fotografia de João Francisco Vilhena 
Exposição Lanzarote — A Janela de Saramago)

Texto pode ser consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/msanches29.html

"Saramago, a vaidade justificável" de Miguel Sanches Neto
em "Gazeta do Povo" (05/06/1999)

"Um diário é um cômodo íntimo de uma casa. Nele, encontramos o autor em suas roupas domésticas, vivendo como o comum dos mortais. O que impera é o acontecimento miúdo, as pequenas vaidades, as alegrias cotidianas, os prazeres de ver a vida que passa, as indignações, etc. Quando o diário é escrito por uma grande personalidade, a estes móveis mais inexpressivos são acrescentados outros: a sua participação em grandes acontecimentos, sua concepção de mundo e os eventos dos bastidores da vida pública por ele vivida. É, invariavelmente, a parte interna da casa, as intimidades do edifício, com suas manchas de bolor e com sua decoração, que encontramos na leitura dos textos nascidos sob este rótulo.
O leitor de diários está sempre atrás das grandezas e das fraquezas de quem escreve e sempre será possível encontrá-las nesta categoria de texto em que sobressai um eu. Acusar um autor de ser ególatra é algo que não diz absolutamente nada, servindo apenas para depor contra a inteligência de quem faz tal afirmação. Todo diário é, em sua essência, um culto do eu e, portanto, todo autor de diários é um cultor de si mesmo. O que varia é o grau de presença do eu, uns são mais e outros menos ególatras, e natureza desta presença, algumas são justificáveis pelas questões que suscitam.
Quem procura tais textos deve portanto saber que o que ele encontrará é um discurso do eu, que pode vir mais velado, como quando um viajante mostra uma paisagem ou fala de questões sociais. Mas o eu, neste caso, não está ausente, apenas oculto. São suas as opiniões e seu o olhar. Até esconder o eu não é mais do que chamar a atenção para ele.
No diário tudo é vaidade. Quem escreve é vaidoso por levar a sua vida a sério, por dar-lhe importância ao ponto de escancará-la ao público. E quem o lê também é vaidoso, porque no fundo quer se ver no diário. Mesmo que não seja conhecido do autor, ele quer se reconhecer na vida privada deste. Depois que começou a transcrever cartas em seus diários, cujo segundo volume da edição brasileira acaba de ser lançado (Cadernos de Lanzarote II, Cia. das Letras, 1999), José Saramago passou a receber um número muito maior de missivas, como fica sugerido pela recorrência delas no volume em questão. Também deve ter aumentado a freqüência de visitas à sua casa e de convites para participar de eventos. Pois são estas as matérias do diário, espaço da vaidade por excelência. O próprio artigo que escrevo não deixa de ser movido pela vaidade de freqüentar a sua casa, de ocupar-lhe um mínimo espaço.
Isso posto, acabemos com as acusações ao autor. Saramago é tão vaidoso quanto quem o lê. Ponto final. Abramos outro parágrafo.
Por baixo desta matéria mais mundana e perecível pode ou não haver uma base sólida. É isso que deve definir a relevância de um diário. Assim, a imprescindibilidade dos Cadernos de Lanzarote II se localiza em duas questões axiais, pelo menos para este crítico. A primeira é a sua proposta de um retorno ao autor. A segunda é a história (que geralmente fica no mais completo segredo) do nascimento da ficção, da sua fase pré-natal.
Durante as longas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, a literatura sofreu uma aceleração do movimento de tecnicização que tem acompanhado a modernidade. Nunca, como nesta segunda metade do século, ser moderno significou de forma tão primária investir, em todos os sentidos, em aparatos tecnicamente sofisticados. A estética, na arte, acabou ocupando o mesmo espaço que os objetos eletrônicos têm em nossa vida. O homem viu-se reduzido a um ser perplexo em meio a coisas que roubaram o seu lugar, condenando-o ao exílio. Que isso tenha acontecido no mundo material já é algo assustador, mas que a mesma coisa tenha se manifestado no mundo da cultura é que me desespera. Tanto na crítica (entregue ao estudo de questiúnculas técnicas), quanto na filosofia (perdida em conceitos vagos) e nas artes (que enaltecem o domínio dos instrumentos), o homem passou a ser uma figura dispensável.
No território específico de Saramago - a ficção -, o centro das atenções foi transferido para o narrador, ou seja, para um lugar técnico da narrativa. A obra, dentro desta visão distorcida, ganha relevância quando há a construção aprimorada de um narrador. O livro, portanto, passa a valer pelos recursos que convoca e não pelas verdades humanas condensadas nas trajetórias de seus personagens. Quando a figura do narrador se sobrepõe, o autor perde espaço - o que é o mesmo que dizer: o homem deixa de ser relevante. "O problema está, mais cruamente, em que o escritor, regra geral, deixou de comprometer-se com o cidadão, e que muitas das teorizações em que se foi deixando envolver acabaram por constituir-se como escapatórias intelectuais, modos de disfarçar, aos seus próprios olhos, a má consciência e o mal-estar deste grupo de pessoas - os escritores – que, depois de terem se considerado a si mesmas como farol e guia do mundo, acrescentaram agora à escuridão intrínseca de todo o ato criador as trevas da renúncia e da abdicação cívicas"(p.118).
Vendo neste culto do narrador uma escapatória intelectual, Saramago propõe que a literatura dê maior visibilidade às pessoas. Só isto já seria mais do que suficiente para justificar os seus diários. O diário revela o homem Saramago, não como o reverso do escritor, mas como o homem/escritor, este ser indissociável. Ele não vê o escritor como um personagem, como uma criação intelectual, e sim como um ser vivo que adquire estatuto literário. Assim, o literário é um estado decorrente e revelador do real e não um mascaramento deste. Poderíamos até arriscar a dizer que não há diferença significativa entre os Cadernos de Lanzarote e os demais títulos do autor. Todos estão a serviço do homem. Este movimento de retorno ao autor é o mesmo movimento que buscou dar espessor humano tanto para a história (Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa) como para o personagem de ficção criado por Fernando Pessoa (O ano da morte de Ricardo Reis). Neste livro, Ricardo Reis sai do mundo da literatura (onde se caracteriza por um programático abstencionismo) e penetra no mundo dos homens, para morrer como tal. Ele, ser sem corpo, se solidariza com a sofredora espécie humana. Alguém devia estudar as relações entre este romance e o filme Asas do desejo, de Wim Wenders.
Seus diários revelam ainda a precedência do humano no processo de gestação de seu mais recente romance: Todos os nomes, uma parábola sobre a imortalidade conquistada historicamente através da capacidade que o homem tem (e que muitas vezes acaba obliterada) de manter vivas, através da memória, pessoas que já se foram. Toda a busca do personagem de Todos os nomes, o escriturário José, um ser de essência autobiográfica, surgiu de um fato vivido por Saramago. Ele passou a desentranhar dos arquivos informações sobre um irmão morto no início da infância. O interesse pelo irmão deu origem a uma parábola (de caráter histórico e não religioso - que fique bem claro) em que ele propõe o interesse irrestrito por todos os seres humanos. Está aí não só a gênese da literatura de Saramago como também a razão de seu sucesso. Num período em que a maioria escreve a partir de uma concepção literária e artificiosa, ele se vale de suas vivências mais profundas, criando uma obra que encanta pela autenticidade.
É preciso ler os Cadernos de Lanzarote II perseguindo estas discussões e não atrás de exemplos de vaidade. Comecei este artigo dizendo que um diário é um cômodo íntimo de uma casa. A vasta produtividade do autor faz com que ele acolha muita coisa, transformando os cadernos numa espécie de quarto de despejo. No futuro, quando boa parte dos temas envelhecer, será preciso organizar este quarto, deixando apenas os móveis indispensáveis."

Este texto é publicado, respeitando o original do autor


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

"Viagem a Portugal" 1981 - «É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»

«É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»

«De Nordeste a Noroeste, caminhos que vão dar às “Meninas de Castro Laboreiro”, à “História do soldado José Jorge” ou ao Monte Evereste de Lanhoso. Depois, as “Terras baixas, vizinhas do mar”. Encontramos nelas “Um Castelo para Hamlet”, e descobre-se que nem todas as ruínas são romanas. Viaja-se ainda pelas “brandas beiras de pedra”, com as “novas tentações do demónio” e “o fantasma de José Júnior”. Um convite, entretanto, a parar em todo o lado, entre Mondego e Sado, para observar “artes da água e do fogo” ou as chaminés e laranjais. E um passeio pela “grande e ardente terra de Alentejo”. Aí, “a noite em que o mundo começou”; aí, “uma flor da rosa”; aí, onde “é proíbido destruir os ninhos”. E mais o sol, o pão seco e o pão mole do Algarve, com “o português tal qual se fala”. “Pelos caminhos de Portugal / Eu vi tantas coisas lindas vi o mundo sem igual”, canta o cancioneiro popular, e assim faz Saramago, com a diferença essencial que a qualidade da sua escrita está bastantes furos acima. Uma viagem, se não pelo Portugal profundo, pelo menos por uma forma profunda de ver Portugal.»

Via Fundação José Saramago, em http://www.josesaramago.org/viagem-portugal-1981/

Capa da edição "Viagem a Portugal" - Circulo de Leitores (1981)

Fotografias. 
Saramago foi a palavra escrita e lida,
foi a palavra dita e ouvida,
Saramago é a fotografia e a imagem,
é o ver, olhar e reparar,
o ousar e transgredir,
o inquieto, a inquietude e a inquietação,
o desassossego, o desassossegado, o desassossegar,
e a bondade,
sim a bondade que falta ao ser humano...


José Saramago na Póvoa de Varzim após o lançamento de "Viagens a Portugal" em 1981
Foto Luís Severo - JN

José Saramago passeando pela Calçada da Estrela, em Lisboa, em Maio de 1990
Foto António Aguiar - JN

O escritor em reunião do Partido Comunista Português, no Hotel Altis, Lisboa, em Março de 1995
Foto Bruno Peres - JN

Saramago nasceu em Azinhaga, no Ribatejo, no seio de uma família humilde
Foto Adelino Meireles - JN

José Saramago, engraxando os sapatos, em Agosto de 1992 - Foto António Aguiar - JN

O romancista em visita ao Diário de Notícias, em 1998, onde foi director-adjunto 
Foto Alexandra Silva -  JN

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Pedro Granato - Blecaute LUX 18.11.2010 (José & Pilar)



Para ouvir via YouTube, em https://www.youtube.com/watch?v=Z4LNuwzsqfE&feature=related

... bem vindo ao circo do espectáculo...

Música "Blecaute" 
ao vivo no LUX 
interpretada por Pedro Granato 
acompanhado por Tempus - Quarteto de Cordas, 
dia 18 de Novembro, 
no concerto de apresentação da banda sonora do documentário José & Pilar.

Camané - "Sem Deus nem Senhor"LUX 18.11.2010 (José & Pilar)



Para ouvir, via https://www.youtube.com/watch?v=Ndz1nnK7L6k&feature=related

Música "Sem Deus nem Senhor" 
ao vivo no LUX 
interpretada por Camané 
acompanhado Filipe Raposo, 
dia 18 de Novembro, 
no concerto de apresentação da banda sonora do documentário José & Pilar.

Pedro Gonçalves - Agenda LUX 18.11.2010 (José & Pilar) - Palavras de Pilar del Río




... passou a noite, com uma luz ténue, rodeado dos seus livros...


"José e Pilar" ... uma eterna história de amor pelas palavras do enamorado José Saramago


"E como eu lhe disse:
De vez em quando,
quando te lembrares de mim,
põe uma florzinha em cima da pedra,
para eu pensar que ainda,
que ainda,
que ainda estou a ser recordado"

"A Praça" Crónica publicada no "Jornal do Fundão" e compilada em "A Bagagem do Viajante" (3/10/1971)


Inserida no livro de crónicas "A Bagagem do Viajante" 
Caminho (4.ª edição) Páginas 131 a 133

 "A Praça"

"Juntavam-se na praça ao domingo; chovesse ou fizesse sol. Punham uma camisa lavada, as calças de cotim menos remendadas, as botas ensebadas de fresco, quando não os sapatos de tromba larga, que nenhuma pomada conseguia pôr a brilhar. O colete era indispensável, ou a jaqueta, quando as posses lá chegavam. Na cabeça, o chapéu preto, mole, ou o barrete de igual cor. Verde só para os campinos, o pessoal da praça era gente de pé e nas mãos de todos eles o pau, símbolo de virilidade e poder, instrumento de ataque e defesa, atravessado no caminho dos ombros, como o ramo horizontal duma cruz onde sobrepostos os braços descansavam. 
Reuniam-se em grupos enquanto os feitores não chegavam. Davam rápidos cachações nos garotos que brincavam ao bate-e-foge e assim cortavam os diálogos espaçados, as meias frases que transportavam os temas principais da conversa: o trabalho, o patrão que se esperava, o último desvirgamento, o provável preço da jorna. Os mais velhos encostavam-se ao pau, fazendo da mão esquerda um ninho que lhes protegia o sovaco, e assim ficavam horas numa conversa lenta, interrompida por intervalos na taberna. Os mais novos bebiam menos, floreavam o pau em jeito de corte, quando as raparigas, sempre aos grupos, de braço dado, atravessavam a praça numa provocação sorridente e um pouco sonsa. Nessas ocasiões se faziam grandes jogos de olhares mal disfarçados, que vinham firmar namoros incipientes, ou pôr ideias de casamento nos rapazes. 
Em épocas certas do ano, alguns moços deixavam a aldeia. Era a tropa. Só alguns não voltavam. Quase todos, passado o tempo do serviço, retomavam a enxada, a gadanha e a pá de valar – e continuavam a reunir-se na praça ao domingo, mais velhos, sacudindo os próprios filhos, enquanto esperavam que viesse propor-lhes a jorna, segundo a fórmula tradicional: tantos mil réis e um litro de vinho. Encorreavam-se-lhes os rostos, os cabelos embranqueciam e rareavam, ali na praça, debaixo dos plátanos e ao pé da bomba, rodeados pelas mesmas casas baixas. Nem sempre havia trabalho. E outras vezes havia, mas os homens não o queriam. Os feitores subiam a jorna até onde estavam autorizados: era uma guerra, ora ganha, ora perdida. Até hoje. 

Juntam-se na praça ao domingo pela manhã e ali ficam durante algumas horas. Falam baixinho, como quem não quer incomodar nem sequer as pedras. Têm uma linguagem incompreensível, em que de vez em quando parece aflorar uma palavra conhecida, que logo se perde numa cascata dispersa de sons raros. Em todo o circuito da praça, as lojas mostram as portas fechadas, e a estátua que está ao meio, aquela que representa o poeta, parece uma ruína morta, alheia aos homens que a rodeiam. Estes vestem quase todos de escuro. Alguns são belos. Altos, delgados, têm feições finas e melancólicas. Outros parecem contrafeitos, torcidos como plantas do deserto que muito tivessem procurado a água. 
A placa central da praça pertence-lhes. Os habitantes da cidade passam de longe, a fingir que não reparam, olhando para o lado, como quem não pode ser natural ou não se habituou ainda a sê-lo. Olham gulosamente e à socapa as raras mulheres dos homens da praça. O cheiro do trópico, o segredo das ilhas, perturba um pouco o cinismo inábil do branco. E elas, as mulheres, quase todas novíssimas raparigas, são belas sem exceção, de olhos alagados e veludosos, e quando conversam com os homens da sua raça sorriem muito. Talvez não sejam alegres, mas sabem o que é alegria. Os companheiros são mais graves: andam lentamente de um modo ondulante, como quem ainda sente nos quadris o roçar do capim e das plantações. 
Durante horas, a praça fica coalhada de homens estranhos. Para ali se transportou o largo de terra calcada pelos pés de gerações, uma espécie de porto de salvamento onde se colhem notícias da ilha e dos companheiros. Dali irão ao trabalho da semana seguinte com o contentamento de se saberem juntos. 

Um largo da província, uma praça de Lisboa: a mesma necessidade de espaço livre e aberto, onde os homens possam falar e reconhecerem-se uns aos outros. Onde possam contar-se, saber quantos são e quanto valem, onde os nomes não sejam palavras mortas mas antes se colem em rostos vivos. Onde as mãos fraternalmente pousem nos ombros dos amigos, ou afaguem devagar o rosto da mulher escolhida e que nos escolheu, sejam eles do outro lado do rio ou do outro lado do mar."

Esta é uma crónica de José Saramago publicada no Jornal do Fundão, a 3 de Outubro de 1971, e republicada a 1 de Agosto de 2013. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

José Saramago recorda a sua visita ao Chile (Nov. 2007) e o massacre de Iquique



"Actuación en vivo del mítico grupo Qilapayún, 
cantando la cantata Santa Maria de Iquique. Año 2006. 
Tema que rememora la matanza de 3600 obreros pampinos, en diciembre de 1907."

Cantata Popular de Santa Maria de Iquique

O presente texto/post foi publicado em 3 de Abril de 2009, no livro/blog "O Caderno 2".
Pode ser consultada a inserção, via página em http://caderno.josesaramago.org/34129.html

"Santa Maria de Iquique"

"Santa Maria é o nome da escola, por isso supõe-se que a santa propriamente dita, a do céu, não interveio no assunto como, em princípio, a estaria obrigando a sua potestade. O nome do lugar é Iquique, um porto de mar então importante no norte do Chile, numa região rica em salitre, essa mistura de nitrato de sódio e nitrato de potássio directamente criada no inferno, como de certeza pensariam os milhares de homens, tanto do Chile como dos países limítrofes, que na sua extracção trabalhavam. Estamos em 1907. Inevitável como o destino porque essa é a lógica soberana do capital, a impiedosa sobre-exploração da força de trabalho dessa pobre gente acabou por atingir extremos insuportáveis. A greve foi a resposta natural. Dos povoados mineiros nas montanhas começaram a descer, primeiro centenas, logo milhares de trabalhadores que se concentraram na escola Santa Maria, em Iquique. Depois de vários dias em que os grevistas tentaram, sem resultado, negociar, as autoridades governamentais, pressionadas pelos capitalistas estrangeiros, decidiram pôr fim de qualquer maneira ao conflito. No dia 21 de Dezembro, mais de 3000 pessoas, não só mineiros, mas também velhos, mulheres e crianças, foram criminosamente chacinadas pelas forças militares convocadas para a repressão. Ao Chile não têm faltado páginas negras. Esta foi uma das mais trágicas, e das mais absurdas também.Décadas mais tarde, o compositor chileno Luis Advis, um músico autodidacta de enorme talento, compõe e escreve a Cantata de Santa Maria de Iquique para o grupo Quilapayun. Apresentada ao público nos primeiros anos de 70, a Cantata de Santa Maria é, ainda hoje, um dos mais altos expoentes da Nova Canção Chilena e de grande parte da América do Sul. Tenho-a aqui em DVD, noventa minutos guiados por esse mágico instrumento que é a flauta andina e pelas magníficas vozes dos componentes do grupo. Também lá apareço. Poucos dias antes da minha entrada no hospital, em Novembro de 2007, vieram aqui para que eu gravasse uma declaração. Aviso já que não sou o José Saramago, mas o seu fantasma. Não há outras imagens tão chocantes de mim nesse período. Quase me apetece pedir que as eliminem, mas o vivido, vivido está e não se deve negar. De todo o modo, ao lado daqueles 3000 mortos, a modéstia aconselha a moderar as expansões de uma pena pessoal. Fiquemos por aqui. 
P.S. Não é fácil encontrar no mercado a Cantata de Santa Maria de Iquique. Se a alguém tiver interessado o que acabei de escrever, ao ponto de querer compartilhar estes sentimentos, dirija-se ao produtor executivo Carlos Belmonte, cuja direcção electrónica é c.belmonte@accionvisual.com. Espero que mo agradeçam."

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

No data do nascimento de Charles Darwin recupera-se o post "Perdão para Darwin?" do livro/blog "O Caderno"

No dia em que se comemora a data de nascimento de Charles Darwin, aqui se relembra um post/texto sobre o mesmo.


Pode ser lido online aqui, via página da Fundação José Saramago,
em http://caderno.josesaramago.org/1406.html


"Perdão para Darwin?"

"Uma boa notícia, dirão os leitores ingénuos, supondo que, depois de tantos desenganos, ainda os haja por aí. A Igreja Anglicana, essa versão britânica de um catolicismo instituído, no tempo de Henrique VIII, como religião oficial do reino, anunciou uma importante decisão: pedir perdão a Charles Darwin, agora que se comemoram duzentos anos do seu nascimento, pelo mal com que o tratou após a publicação da Origem das Espécies e, sobretudo, depois da Descendência do Homem. Nada tenho contra os pedidos de perdão que ocorrem quase todos os dias por uma razão ou outra, a não ser pôr em dúvida a sua utilidade. Mesmo que Darwin estivesse vivo e disposto a mostrar-se benevolente, dizendo “Sim, perdoo”, a generosa palavra não poderia apagar um só insulto, uma só calúnia, um só desprezo dos muitos que lhe caíram em cima. O único que daqui tiraria benefício seria a Igreja Anglicana, que veria aumentado, sem despesas, o seu capital de boa consciência. Ainda assim, agradeça-se-lhe o arrependimento, mesmo tardio, que talvez estimule o papa Bento XVI, agora embarcado numa manobra diplomática em relação ao laicismo, a pedir perdão a Galileu Galilei e a Giordano Bruno, em particular a este, cristãmente torturado, com muita caridade, até à própria fogueira onde foi queimado.Este pedido de perdão da Igreja Anglicana não vai agradar nada aos criacionistas norte-americanos. Fingirão indiferença, mas é evidente que se trata de uma contrariedade para os seus planos. Para aqueles republicanos que, como a sua candidata à vice-presidência, arvoram a bandeira dessa aberração pseudo-científica chamada criacionismo."

José Saramago (17 de Setembro de 2008)

em O Caderno
Caminho, 2.ª edição



Mais informação biográfica sobre o cientista
em http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

"Charles Robert Darwin, (12 de fevereiro de 1809 — Downe, Kent, 19 de Abril de 1882) foi um naturalista britânico que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da selecção natural e sexual. Esta teoria culminou no que é, agora, considerado o paradigma central para explicação de diversos fenómenos na biologia. Foi laureado com a medalha Wollaston concedida pela Sociedade Geológica de Londres, em 1859.

Darwin começou a se interessar por história natural na universidade enquanto era estudante de Medicina e, depois, Teologia. A sua viagem de cinco anos a bordo do brigue HMS Beagle e escritos posteriores trouxeram-lhe reconhecimento como geólogo e fama como escritor. Suas observações da natureza levaram-no ao estudo da diversificação das espécies e, em 1838, ao desenvolvimento da teoria da Selecção Natural. Consciente de que outros antes dele tinham sido severamente punidos por sugerir ideias como aquela, ele as confiou apenas a amigos próximos e continuou a sua pesquisa tentando antecipar possíveis objecções. Contudo, a informação de que Alfred Russel Wallace tinha desenvolvido uma ideia similar forçou a publicação conjunta das suas teorias em 1858.

Em seu livro de 1859, "A Origem das Espécies" (do original, em inglês, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), ele introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio de seleção natural. Esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza. Ele ingressou na Royal Society e continuou a sua pesquisa, escrevendo uma série de livros sobre plantas e animais, incluindo a espécie humana, notavelmente "A descendência do Homem e Seleção em relação ao Sexo" (The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, 1871) e "A Expressão da Emoção em Homens e Animais" (The Expression of the Emotions in Man and Animals, 1872).

Em reconhecimento à importância do seu trabalho, Darwin foi enterrado na Abadia de Westminster, próximo a Charles Lyell, William Herschel e Isaac Newton. Foi uma das cinco pessoas não ligadas à família real inglesa a ter um funeral de Estado no século XIX."

67 razões para ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis"...


1. Vapor Highland Brigade faz escala em Lisboa

2. 16 anos depois regressa do Rio de Janeiro - Hotel Bragança

3. Visita túmulo de FPessoa no cemitério dos Prazeres

4. Lídia ...
 
5. Lisboa debaixo de chuva e vento... uma constante

6. Passagem de ano 1/1/1936, meia noite e meia hora; Lídia sobe ao quarto; depois Fernando Pessoa sentado no sofá, abraçaram-se, fazem promessas de novos encontros para colocar o diálogo em dia

7. Lídia e Ricardo Reis dormem juntos

8. A forçada ida ao Dona Maria e as apresentações a Marcenda e seu pai Dr. Sampaio

9. Depois do teatro aparece de novo Fernando Pessoa e mais tarde Lídia

10. Ricardo Reis conversa longamente com Marcenda na ausência do Dr. Sampaio

11. Jantam os três na mesma mesa

12. Primeiros mixericos de "sunânbulismo" pelos corredores numa alusão às incursões de Lídia no quarto de Ricardo Reis

13. Leitura de "conspiração" de Tomé Vieira

14. Por curiosidade Ricardo Reis assiste ao cortejo fúnebre do "mouraria" assassinado por José Rola, tal ajuntamento é o exemplo das piores profissões em desfile

15. Encontros vários com Pessoa

16. As esquerdas ganham as eleições em Espanha vêm famílias fugidas

17. Estado febril e o aconchego e cuidados de Lídia

18. Ofício da PVDE e o boato corre depressa no hotel

19. Dr. Sampaio evita o contacto... Marcenda deixa bilhete por debaixo da porta do quarto de Ricardo Reis... encontro amanhã no Alto de Santa Catarina

20. Pessoa aparece, falam, Ricardo Reis pede-lhe que não esteja presente porque Marcenda estará a chegar... esta pede desculpa pelo pai, deixa morada para saber de novidades do interrogatório. .. afinal de contas Pessoa manteve-se invisível para Ricardo Reis

21. Interrogatório que não o era mas Ricardo Reis assim entendeu. O Doutor-Adjunto e o subalterno Victor (este amigo do gerente do hotel Bragança) deixaram passar em claro alguma ríspidez de Ricardo Reis. Entretanto descansado envia carta para Coimbra.

22. Pondera deixar o Bragança. Continua o mau tempo por Lisboa



23. Aluga casa no Alto de Santa Catarina perto do local onde se encontrou com Marcenda às escondidas

24. A despedida do hotel Bragança e a mudança para a casa nova.... os 2 velhos no jardim do Alto de Santa Catarina são uma constante

25. Lídia aparece de surpresa. Virá fazer a faxina. Marcenda estará para chegar. A melancolia de um homem sem nada para fazer.

26. A semana de ansiedade. O serviço de Lídia. A vizinhança alcoviteira. As novas rotinas.

27. Marcenda aparece de surpresa. O beijo apaixonado.

28. Ricardo Reis entra lentamente ao serviço... arranjou um lugar de médico em substituição

29. As estranhas ideologias fascistas na Europa e os "bodos" pela mediocridade nacional

30. Fernando Pessoa que não tem dado sinal


31. Troca de correspondência com Marcenda... recebe um subscrito violeta... relutância em abrir para saber as novas... paralelo no futuro com As Intermitências da Morte (a cor, coincidência??)

32. A visita de Fernando Pessoa

33. A PVDE através do agente Victor rondando a porta

34. Ricardo Reis lê a Fernando Pessoa as novidades do mundo e de Portugal... os mortos perdem a capacidade de ler, debatem a novidade de Portugal e Alemanha utilizarem o divino como avalista político

35. Episódio com Lídia que volta para a faxina semanal... a tentativa de um acto sexual falhado por incapacidade de Ricardo Reis lhe poder responder... a rispidez deste e a tristeza de Lídia

36. Ricardo Reis recebe a visita de Marcenda no consultório... há desejo reprimido. Um inesperado pedido de casamento prontamente recusado... e "um dia" na despedida

37. Outra carta violeta chegada de Coimbra.... esta matando e acabando o que não poderia ter começado.... "não responda"

38. Continuam os ecos perigosos das guerras... Addis-Abeba arde... 

39. Visitas de Lídia, teorização sobre a duplicidade da mulher a dias e da amante

40. Apanha no Rossio comboio a caminho de Fátima... por conversas com Marcenda, Fátima seria para o Dr. Sampaio uma última esperança para a maleita da filha

41. Os caminhos e as gentes a caminho de Fátima, os milagres que não aconteceram, a impressão que Ricardo Reis ganha pela inadaptação àquele lugar e ao que representa

42. O regresso a Lisboa, as visitas de Lídia e Fernando Pessoa... este apercebe-se que o hálito a cebola estará nas imediações da sua casa... sinónimo de contínua vigilância do agente Victor e da PVDE. Perde o lugar no consultório. Equaciona voltar ao Brasil

43. Fernando Pessoa e Ricardo Reis abordam o Estado e contestam Salazar. Episódio do anúncio de António Ferro e do simulacro de um "ataque aéreo ao Rossio por inimigo desconhecido"

44. As aparições de Fernando Pessoa cada vez mais espaçadas ... passam 6 meses da morte... o esquecimento... o medo de se perder

45. Ricardo Reis sem consultório e pouca vontade de exercer deixa-se levar pela preguiça dos dias... dorme ... dorme

46. Dia da Raça. Fernando Pessoa apercebe-se que sobre Camões não escreveu... inveja?


47. Lídia confessa a Ricardo Reis o atraso de 10 dias... Virá filho de pai incógnito? 

48. Ricardo Reis e Fernando Pessoa em nova visita abordam os vários heterónimos, a estátuas que são retiradas e a questão do filho indesejado

49. Espanha e as revoltas, Franco... abordagem à ingenuidade que paira sobre as ilusões criadas à volta da Mocidade Portuguesa e a Juventude Hitleriana

50. Fernando Pessoa que não tem aparecido. Ricardo Reis vai aos Prazeres. 4371 é onde se dirige

51. General Milan d'Astray a caminho da guerra em Espanha estará de passagem por a Lisboa, isto inquieta Ricardo Reis ao ponto de procurar Fernando Pessoa

52. O contínuo desleixo de Ricardo Reis. O pequeno rádio para ouvir as novas. Os espanhóis exilados no hotel Bragança e nos Estoris que retornam a uma Espanha com novos poderes e governos nacionalistas

53. Ricardo Reis e a voz dos jornais. Lídia e a voz do irmão comunista

54. Badajoz rendeu-se. A praça de touros será palco da vingança... o cheiro e imagem de sangue dos milicianos prisioneiros corre numa arena de outras lides

55. Franco tomará Madrid para erradicar o mal do comunismo e marxismo. Em Portugal organizam-se demonstrações de nacionalismo em comícios contra esses males dos vermelhos.

56. Ricardo Reis vai ao comício no Campo Pequeno por curiosidade e por alguma convicção. Estão lá os de Itália, Alemanha e Espanha. O comício apela à criação de uma legião cívica... terá camisa verde para não copiar os seus iguais da Europa.

57 . Lídia há muito que não aparece. Ricardo Reis está num contínuo estado de desleixo... passa os dias a dormir... escreveu uma carta a Marcenda que a rasgou ... mas seguiu um verso para a posta restante de forma anónima...

58. Lídia apareceu... desespero dela... o irmão irá no Afonso de Albuquerque e outros barcos para uma suposta revolta... tem medo... nem o peso de carregar um filho de homem que não o quererá como um pai quer a um filho lhe afronta tanto como a vida do irmão... desespero...

59. Ricardo Reis descerá à beira do rio... vê os hipotéticos futuros revoltosos barcos em hora de almoço... vê passar o zepellin Hindemburgo que vem largar correspondência para que algum navio a leve para a América do Sul... Victor aparece de surpresa e Ricardo Reis depois de dizer que "estava a observar os barcos e o rio", seguiu caminho como se fugisse do agente do cheiro a cebola

60. Tiros vindos dos barcos. A revolução? RR vem para a rua e afinal é o ataque vem Forte de Almada que disparam contra os barcos... e do Forte do Duque... o Afonso de Albuquerque e Dão são atingidos... rendem-se...


61. Ricardo Reis refugia-se em casa.... chora desalmadamente... "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"...

62. Ricardo Reis levanta da cama e apronta-se... segue em direcção ao hotel Bragança... a Pimenta e ao gerente Salvador perguntará por Lídia... não estando só poderia estar em socorro ou de novidades do seu irmão revoltoso...

63. O jornal do dia seguinte dá notícia da morte de doze marinheiros, feridos e outros presos. Daniel Martins, irmão de Lídia morreu...

64. À noite Pessoa apareceu... sentaram-se e assim ficaram... o inevitável anúncio... os nove meses de transição que Fernando Pessoa tinha falado passaram... "não nos tornaremos a ver"

65. Ricardo Reis levanta-se, pega no livro que nunca conseguira ler, aquele que não devolveu da viagem de regresso no Highland... "the god of the labyrinth"... então vamos disse... não conseguirá ler é a primeira virtude que perde com a morte... deixo o mundo aliviado de um enigma

66. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis

67. Aqui onde o mar se acabou e a terra espera.

Epígrafe "Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa" José Saramago

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"Levantado do Chão" Palavras de José Saramago quando recebeu o Prémio Cidade de Lisboa (1982)



Via página da Fundação José Saramago, no seu espaço "Memória", a propósito dos 35 anos do lançamento da obra "Levantado do Chão", aqui em

"Palavras de José Saramago ao receber o Prémio Cidade de Lisboa

Em Junho de 1982, José Saramago recebeu no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa o “Prémio Cidade de Lisboa”, galardão que lhe foi atribuído pela obra “Levantado do Chão”. A seguir o discurso proferido pelo escritor na altura."


João Alexandre Barbosa escreve sobre José Saramago "Até os limites da realidade" 06/12/1998)

Um texto do académico João Alexandre Barbosa

Pode ser lido e consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1jab.html

"Até os limites da realidade" (publicado em 06/12/1998)

"Vejo agora que venho lendo a obra de José Saramago há muito tempo. A prova está na mistura de edições em que tenho os seus textos publicados por duas ou três editoras portuguesas e, a partir de uma certa época, a brasileira Companhia das Letras, que, para quem lê no Brasil, seguindo aquilo que é feito, do lado de Portugal, pela Editorial Caminho, veio dar uma certa ordem no caos editorial que costumam sofrer os escritores de língua portuguesa. 
E por aí se vê que, embora tenha começado como romancista desde 1947 com "Terra do Pecado", publicado pela Editorial Minerva, somente em 1977, com "Manual de Pintura e Caligrafia, da Edição Moraes, assume a identidade de romancista que, para o público mais amplo, atinge a sua plenitude com a publicação, em 1982 e já pela Caminho, do "Memorial do Convento". Duas consequências para a reflexão: durante 30 anos entregou-se ao jornalismo e à poesia (de que dão notícias os livros "A Bagagem do Viajante", "Os Apontamentos" e "Os Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria" e "O Ano de 1993", respectivamente) e somente há 21 anos vem escrevendo os romances que lhe conferem, sem qualquer sombra de dúvida, a posição de um dos melhores prosadores de língua portuguesa deste século que vamos terminando -e, para dizer a verdade, o plural só está aí pela existência anterior de João Guimarães Rosa. São dez romances: além dos já citados "Terra do Pecado", "Manual de Pintura e Caligrafia" e "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Jangada de Pedra", "A História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes". E não é muito difícil estabelecer, desde logo, uma marca narrativa que, por assim dizer, articula a variedade ficcional de cada um: a presença forte de um narrador, quase sempre no limiar da dicção autobiográfica, que busca fixar, no patamar mais objetivo da história e da realidade circunstancial, as dissonâncias das experiências subjetivas de que a linguagem tem dificuldades em dar conta.
Neste sentido, o chamado romance histórico sofre, com Saramago, um desvio fundamental: a história circunstancial não lhe serve apenas para alimentar a imaginação, mas esta, por meio de pequenos e substanciais erros de leitura, como vai estar explícito naquele "não" introduzido pelo revisor de "A História do Cerco de Lisboa", cria uma complexidade de maior realidade, pois inclui no real histórico as dissonâncias da própria linguagem que é utilizada para a sua apreensão. O que, por outro lado, permite ou mesmo imanta a presença contínua de uma desconfiança de base para com os dados históricos, freqüentemente embaralhados pelo imaginário da linguagem. E como este, no caso de um romancista, está constituído, sobretudo, pelas fontes próprias da tradição narrativa, o chamado romance histórico, em Saramago, inclui necessariamente, e de modo solidário, a história do próprio gênero. Por isso, é possível dizer que, na esteira do que há de mais inovador na narrativa moderna e pós-moderna, o romance de Saramago é uma prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções operadas pela imaginação ficcional.
Quando, portanto, o próprio Saramago apontava Pessoa, Borges e Kafka como, para ele, os mais importantes escritores do século, estava sinalizando para aquilo de que a sua própria obra dá testemunho, isto é, quer para a multiplicidade de vozes ficcionais que está em Pessoa, quer para a realidade da ficção, como está em Borges, quer para a precisão do sonho e do imaginário de Kafka, tudo, no entanto, por assim dizer, sob a tensão de uma consciência dilacerante da linguagem. Veja-se, por exemplo, o modo pelo qual, no seu último romance, "Todos os Nomes", transmite ao leitor lugares e tarefas que constituem o espaço da grande sala da Conservatória Geral do Registro Civil e que serve de pórtico à narrativa:
"A disposição dos lugares na sala acata naturalmente as precedências hierárquicas, mas sendo, como se esperaria, harmoniosa deste ponto de vista, também o é do ponto de vista geométrico, o que serve para provar que não existe nenhuma insanável contradição entre estética e autoridade. A primeira linha de mesas, paralela ao balcão, é ocupada pelos oito auxiliares de escrita a quem compete atender ao público. Atrás dela, igualmente centrada em relação ao eixo mediano que, partindo da porta, se perde lá no fundo, nos confins escuros do edifício, há uma linha de quatro mesas. Estas pertencem aos oficiais. A seguir a eles vêem-se os subchefes, e estes são dois. Finalmente, isolado, sozinho, como tinha de ser, o conservador, a quem chamam chefe no trato cotidiano.
A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo
a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca. A contínua agitação dos oito da frente, que tão depressa se sentam como se levantam, sempre às corridas da mesa para o balcão, do balcão para os ficheiros, dos ficheiros para o arquivo, repetindo sem descanso estas e outras sequências e combinações perante a indiferença dos superiores, tanto imediatos como afastados, é um factor indispensável para a compreensão de como foram possíveis e lamentavelmente fáceis de cometer os abusos, as irregularidades e as falsificações que constituem a matéria central deste relato".
Eis, portanto, um traço estilístico de Saramago em sua essência:
os dados da realidade objetiva são expostos até os seus últimos limites, não obstante as interferências irônicas, para que então possa surgir o elemento de dissonância que se introduz pela movimentação final do trecho citado e que é sua decorrente: o erro, o abuso, a irregularidade ou a falsificação que transformam a rasura do nome num motivo de procura pelo nome que é o romance e que por aí faz o leitor retornar, mesmo que não o saiba, às fontes primordiais do gênero narrativo. Mas a busca pelo nome, que é também a da identidade, tudo envolve, desde aquele que busca até o objeto que se busca e, por isso, a história se confunde com as histórias individuais, sejam as do personagem Sr. José, sejam as deste romance que dialoga com as suas origens. Nascimento e morte, fichas hierárquicas da Conservatória, diapasões pelos quais se mede o pulsar da realidade, é o espaço e o tempo que são alterados e renomeados pela presença do erro que somente o imaginário da ficção foi capaz de provocar."


* João Alexandre Barbosa é professor aposentado de teoria literária da USP. Autor, entre outros, de "A Biblioteca Imaginária" (Ateliê Editorial).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)

Ópera "Lucia de Lamermoor" de Donizetti, pronuncio de desgraça?

(...) "A entrada na sala foi unanimemente festejada com sorrisos e pequenas vénias de cabeça. Salvador, esquecido de agravos ou diplomaticamente fingidor, abriu de par em par as portas envidraçadas, à frente passaram Ricardo Reis e Marcenda, como devia ser, é ele o convidado, aqui onde nós estamos não se consegue perceber o que a telefonia toca, muito daria que pensar a coincidência se fosse a marcha nupcial de Lohengrin, ou a de Mendelssohn, ou a menos célebre, talvez por ser tocada antes de uma desgraça, a da Lucia de Lamermoor, de Donizetti." (...)

em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição (página 131)


Breve trecho ópera que pode ser vista via YouTube

"Dame Joan Sutherland performing 'Eccola!' (The Mad Scene) 
from Donizetti's Lucia di Lammermoor 
in the Australian Opera's - 1986 
production at the Sydney Opera House."

Breve informação via Wikipédia

"Lucia di Lammermoor é uma ópera em 3 atos de Gaetano Donizetti, com libreto de Salvatore Cammarano, baseada no romance "The Bride of Lammermoor" (A Noiva de Lammermoor), de Walter Scott. Juntamente com Don Pasquale e L'Elisir d'Amore, é uma das óperas mais representadas de Donizetti na atualidade. A sua estreia ocorreu no Teatro San Carlo em 26 de setembro de 1835.

Sinopse
Ato I
Jardins do castelo da família Lammermoor. Normanno, capitão da guarda do castelo, acompanhado de outros serviçais, está procurando um intruso. Ele conta logo a Enrico Ashton de Lammermoor que suspeita que tal intruso é Edgardo de Ravenswood, de uma família inimiga, que vem ao castelo para encontrar-se com Lucia, sua irmã mais nova. Ao descobrir que Normanno estava certo, Enrico dispõe-se a acabar de uma vez com a relação entre ambos.
Diante de uma fonte, na entrada próxima ao castelo, está Lucia, esperando por Edgardo. Lucia explica a Alisa, sua serviçal, que viu o fantasma de uma menina assassinada nesse mesmo lugar por um ciumento ancestral da família Ravenswood - a mesma de Edgardo. Alisa vê nisso um mau pressentimento e alerta Lucia para que desista do romance. Edgardo aparece e explica que vai à França, em missão política, acreditando poder selar a paz com Enrico e casar-se com Lucia. E, diante das dúvidas da aceitação ou não por parte de Enrico, trocam alianças selando o compromisso.

Ato II
Dentro dos aposentos de Lorde Enrico, acontecem os preparativos para o casamento arranjado de Lucia e Arturo Bucklaw. Enrico, preocupado com a reação de Lucia, forja uma carta supostamente escrita por Edgardo dizendo que ele já a esqueceu e está casado. Raimondo, o capelão, tenta convencer Lucia a esquecer Edgardo pelo bem de sua família.
Tem início a cerimônia nupcial. Arturo e Lucia, contrariada, assinam o contrato nupcial. Edgardo aparece de súbito e ameaça os presentes. Raimondo mostra a Edgardo o contrato nupcial e este, irritado, faz com que Lucia se desfaça dos anéis de compromisso. E é forçado a se retirar do castelo.

Ato III
Enrico e Edgardo marcam um duelo. Dentro do castelo, Raimondo noticia que Lucia assassinou Arturo cravando-lhe um punhal durante a noite de núpcias. Fora de si, Lucia se imagina na noite de núpcias com Edgardo e roga-lhe perdão pela traição. Lucia chegara à loucura.
Amanhece, e atrás do cemitério dos Ravenswood, Enrico e Edgardo se encontram para o duelo. Surge uma procissão lamentando a morte de Lucia (não é explícita a causa - se Lucia foi condenada à execução, suicidou-se ou adoeceu). Dobram os sinos anunciando a morte e Edgardo, que não suporta a idéia de vê-la morta, suicida-se com uma punhalada no peito."

Richard Eder (The New York Times) apresenta a obra "Todos os Nomes" (04/10/2000)

Na obra de João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago" (Porto Editora, página 295), é recuperada o espanto pela orientação política de Saramago, muito escrutinada nestas referências. Na tradução, inserida em rodapé, o crítico Richard Eder do "The New York Times" refere: «Que o Sr. Saramago seja comunista - comunista muitíssimo raro porque é um grande escritor em todos os sentidos - é provavelmente significativo. É certo que não há nada ideologicamente programado na sua ficção, mas as suas personagens populares conseguem prevalecer sobre aquilo que as oprime. É mais importante o facto de ser ateu (decididamente um ateu católico romano, com problemas frequentes com a igreja)».
Esta análise resume em grande parte a envergadura transversal que atravessa toda a obra do escritor. A bandeira política ou a religiosa, não é imposta pelo autor como trâmite ou veículo da mensagem, antes porém, uma manifestação natural da vida que as suas personagens assumem. José Saramago, comunista para espanto dos críticos, ateu transgressor com confrontos contra os edifícios e estruturas organizacionais da igreja, manifestou-se como um elemento social, inquieto e sempre desassossegado, confuso e visceralmente crítico pela tamanha falta de bondade e justiça no mundo.
Mostra-se de particular importância, observar e enquadrar na análise da sua obra, estes testemunhos críticos, que permitem criar/justificar uma zona de distância e independência de Saramago enquanto escritor, e que por tal arte foi distinguido ao mais alto nível literário, do seu outro Saramago, enquanto agente social e gerador das suas ideias e filosofia de vida.

Miguel de Azevedo     

"Todos os Nomes", 1997, aqui capa do "Circulo de Leitores"


Sinopse apresentada no site da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/todos-os-nomes/

"1997 - O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro."


"All the Names" tradução de Margaret Jull Costa - Harcourt - 238 páginas


No "The New York Times, Richard Eder, apresenta a crítica à obra "Todos os Nomes" (All the Names), na secção "Books of the Times".

A peça crítica pode ser lida e consultada aqui,
em http://www.nytimes.com/2000/10/04/books/books-of-the-times-rising-out-of-dust-a-glimmer-of-hope.html

"Rising Out of Dust, a Glimmer of Hope"

"The dismal registry where Senhor Jose works is a labyrinth of choked passageways lined with soaring banks of files, dusty and draped in cobwebs. They contain, in one wing of the dank building, the birth and marriage records of Portugal's living. In the other wing, whose outer wall needs periodically to be extended, are the yellowing records of the dead.

''The fate of all paper, from the moment it leaves the factory, is to begin to grow old,'' observes Senhor Jose, the downtrodden and upward-persisting protagonist of Jose Saramago's ''All the Names.'' It is an early hint of connection between the registry and the human condition. The faint perfume of rose and chrysanthemum that drifts through, evoked by what is written on the paper, is another signal.

An infrangible bureaucratic hierarchy runs the place. At the bottom are the clerks, furiously active as they fill out the forms and file or transfer them. Over them are the senior clerks, spared by their subordinates' efforts from any such grueling labor. Above these are the deputies, more leisured still; and finally, the registrar himself. He is a grand personage who arrives long after the others, who never touches a file, whose sporadic orders filter down through the ranks and who, to all appearances, does nothing but think and frown.

Like the maze of Kafka's ''Castle'' and the disembodied machineries of ''The Trial,'' the registry is a mythical embodiment of the human spirit, entrapped. Mr. Saramago, a recent Nobel Prize winner, is Portuguese, though, not Central European. Fog, not bleakness, regulates his lighting.

There is a blurring effect in his great novel-parables; a kind of mercy. His protagonists are caught as Kafka's are caught, but not permanently. It is not that they escape from the web but that the web loses itself.

That Mr. Saramago is a Communist -- the very rare Communist who in all senses is a great writer -- is probably significant. Certainly there is nothing ideologically programmed in his fiction, but his little people, unlike K. or Joseph K., manage to prevail over what binds them. That he is an atheist is more important (a decidedly Latin Catholic atheist, frequently in trouble with the Church).

His various versions of God -- the registrar in ''All the Names,'' actual God in ''The Gospel According to Jesus Christ'' -- are tested, rebuked and sometimes persuaded by his lowly heroes. Jesus, in fact, in ''The Gospel''; and here, the clerk Senhor Jose. Middle-aged and solitary, Jose can't accept a humanity defined by the bare facts entered on the files. This meekly servile man sneaks into the registry at night to borrow certain cards and take them back to his shabby apartment next door. He enters them in a scrapbook of newspaper clippings about the 100 most famous Portuguese (something of a numbers stretch, he admits). It is a way of expanding the pinched definitions -- only this is life, only this is death -- in the registry's universe.

Then one night he finds he has picked up the birth, marriage and divorce file card of an unknown woman by mistake. There are no clippings to work a surrogate enlargement. Only life can do it. In fear and trembling, at comically heroic cost, this mouse grows wings and teeth (both chafe) and ventures out into the world to find her.

It is the beginning of a quest worthy of Don Quixote. Senhor Jose lacks a horse; he must use his own spindly shanks and once in a while, when it is raining especially hard, and at unaffordable expense, a taxi. His Dulcinea is worse than romantically enhanced; when he finally tracks her down, she is dead -- depressively, by her own hand.

Yet the quest is the opposite of depressive. Oddly, and in a fashion too complex to expound here (but recognizable to those familiar with Mr. Saramago's brand of secular and hard-earned miracles) it succeeds, transforming in practical ways those it touches.

Senhor Jose goes to the address listed in the last entry on his quarry's card, at the time of her divorce years earlier. He questions an old neighbor who had known her from childhood. Lives spill out: the neighbor had carried on an affair with the woman's father. She gives him the location of the school the woman attended as a girl.

The search grows mythical while remaining entirely down-to-earth and modestly absurd. Senhor Jose buys lard, a towel and a glass cutter. At night, in pouring rain, he uses them to cut a hole in a window and break into the school. He spends a miserable, soggy night and day -- it is the weekend -- searching for her files. He helps himself to the contents of the school refrigerator and takes naps in the director's office.

All he comes away with is a half-dozen yearly reports, each with its photograph. Nothing is conclusive, nor is his further search: talking with shopkeepers, her parents and, finally, visiting the cemetery where she was buried after her suicide just days before.

His travels alternate with erratic appearances at his job. Strangely, his absences, meticulously noted, are not rebuked. To the contrary, the icy registrar takes an increasingly solicitous interest in his clerk, sending medicine, food and a doctor when he catches cold. The reason remains hidden; it is revealed in a final two pages that instead of closing the story, open it out.

''All the Names'' is a lesser work than some of Mr. Saramago's others: ''Gospel,'' ''The Stone Raft,'' ''Blindness'' and ''The History of the Siege of Lisbon.'' It is closest to the last. There, a modest proofreader reverses not just an oppressive bureaucracy but history itself, and finds love with a resplendent live woman instead of an elusive dead one. Here and in the other books there is an audacity and energy in the governing conceit that ''All the Names,'' occasionally as dusty as its registry, doesn't quite manage.

Mr. Saramago's unpunctuated sentences, bundling together a statement, an objection, a qualification and a digression, need a lot of narrative detonation to keep them moving. The quieter ''Names'' bogs dozily down from time to time; periodically roused, though, by the lilting surprises of this intensely mischievous and intensely humane writer."