Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"José e Pilar" Fragmentos I - Exibido na Fundação José Saramago "18 de junho, 6 anos vivendo José Saramago"

Pode ser visualizado através do YouTUbe, aqui

"Seis anos depois da morte de José Saramago, apresentamos o primeiro volume de Fragmentos de «José e Pilar», um conjunto de inéditos das 240 horas de filmagem captadas pela equipa do realizador Miguel Gonçalves Mendes."

Já disponível a edição #49 da revista digital "Blimunda" - Para descarregar, ler e consultar gratuitamente

Capa da edição #49 - Junho de 2016

Pode ser descarregada aqui, via página da Fundação José Saramago,

Sinopse da edição
"Há quatro anos, numa tentativa de preencher um pouco o enorme vazio deixado pela ausência de José Saramago, nasceu a revista Blimunda. Desde aquele 18 de junho de 2012, oferecemos mensalmente aos nossos leitores uma publicação que tem os livros como protagonistas, mas que também dá destaque a muitos outros assuntos que envolvem a cultura, não só em Portugal mas também em muitos outros países.

Nos 49 números já editados, a revista viajou para lugares como Bogotá, Macau, Xalapa, Barcelona, Madrid, Segóvia, Lanzarote, Ponta Delgada e Cidade do México. Abordou assuntos tão diversos como música, futebol, dança, fotografia, artes plásticas, exposições, viagens, cinema. Nas suas páginas dedicou-se espaço a grandes nomes da literatura universal como Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Jorge Amado, Clarice Lispector, Günter Grass, Herberto Helder, Eduardo Galeano, Miguel de Cervantes, Fernando Pessoa, Alberto Manguel, Mempo Giardinelli, Sophia de Mello Breyner e Agustina Bessa Luís. As novas gerações tiveram lugar de destaque ao longo destes quatro anos. Entre muitas e muitos outros, tivemos connosco Bruno Vieira Amaral, Matilde Campilho, Juan Gabriel Vásquez, Andrea del Fuego, Ricardo Araújo Pereira, Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz, Julián Fuks, Ondjaki e Sérgio Rodrigues. A Blimunda foi também espaço para conversas com fotógrafos, editores, realizadores, ilustradores, críticos literários, investigadores e personalidades das mais variadas áreas numa perspetiva de construção de um mosaico da cultura do passado e do presente.

Desde o número 1 a revista reserva uma secção especial, a Saramaguiana, ao escritor que, entre tantas outras personagens, criou a protagonista de Memorial do Convento. Blimunda, a valente e encantadora mulher que colecionava vontades e via o interior das pessoas, tornou-se também revista.

Nesta edição comemorativa, que chega no dia em que passam seis anos sobre a morte de José Saramago, publica-se uma entrevista, inédita em português, que Pilar del Río, companheira e tradutora de José Saramago, fez ao escritor no ano 2000, e também o artigo José Saramago, editor de Raul Brandão?, de Vasco Rosa. Do Brasil a revista traz ilustrações de Sama e outros artistas que se posicionam contra a destituição da presidenta Dilma Rousseff e contrários ao governo de Michel Temer. A também brasileira Marina Colasanti conversa com a Blimunda sobre a sua longa e destacada trajectória pelo universo do livro infantil. A Blimunda visitou ainda a biblioteca de Laborinho Lúcio e o escritório da editora D. Quixote. A escritora Andréa Zamorano publica um conto breve na secção A Casa de Andréa.

Quatro anos depois, a revista Blimunda continua viva e com projectos para o futuro. Aos que a fazem todos os meses (Andreia Brites, Ricardo Viel, Sara Figueiredo Costa, Jorge Silva, Silvadesigners) e a todos os que connosco têm colaborado, os nossos parabéns e o nosso obrigado!"

O editorial da edição de 4 anos da Blimunda

domingo, 19 de junho de 2016

Momentos da homenagem "18 de junho, 6 anos vivendo José Saramago"


Aline Frazão interpreta música do seu álbum "Insular"
"O homem que queria um barco", baseado na obra de José Saramago "Conto da Ilha Desconhecida"

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui

Presidenta Pilar del Río, apresentou em castelhano extracto de um 
capítulo inédito da obra "Jangada de Pedra", que faz parte da edição espanhola

Pedro Lamares, deu voz à "Jangada de Pedra"

Apresentação de imagens inéditas do filme documentário "José e Pilar"

A Oliveira que nos acolhe à chegada da Fundação José Saramago
"Casa dos Bicos" em Lisboa

"Nos seis anos da partida de José Saramago" do professor Carlos Reis

O presente texto, pode ser recuperado e consultado, através do site "Figuras da Ficção" do professor Carlos Reis, aqui
em https://figurasdaficcao.wordpress.com/2016/06/18/a-personagem-segundo-saramago/
Palavras proferidas no elogio fúnebre (20/06/2010) 

"Nos seis anos da partida de José Saramago" - Professor Carlos Reis

"Das personagens de José Saramago, magistral inventor de ficções que ecoam no quotidiano palpável das nossas vidas, bem podemos dizer que são mestres do escritor e nossos mestres, sempre que nas suas ações, nos seus rostos e nas suas palavras reencontramos a sabedoria de homens e de mulheres legitimados pela  autonomia e pela incondicional possibilidade que a  ficção lhes confere; homens e mulheres chamados Baltasar e Blimunda, Ricardo Reis e Bartolomeu Lourenço, Raimundo Silva e José,  Maria Sara e Oriana, Lídia e Maria de Magdala, Joana Carda e Cipriano Algor,  o elefante Salomão e o seu cornaca, Tertuliano Máximo Afonso e António Claro,  sua cópia exata e duplicada – ou vice-versa.   E mesmo quando o nome não está lá – como em Ensaio sobre a Cegueira e em Ensaio sobre a Lucidez – é a sua omissão, como falso anonimato,  que alegoricamente projeta  os homens e as mulheres da  ficção sobre o mundo real em que revemos dramas e conflitos ficcionais identificados como  nossos e porventura com os nossos nomes.  Citando um título conhecido: identificados com Todos os Nomes que no nosso mundo se encontram; ou ainda, lembrando palavras do escritor, no discurso de Estocolmo: “Não escritos, todos os nossos nomes estão lá.”  
José Santa-Bárbara, "Os fazedores do capricho"

São estas figuras e outras mais (sem esquecer um cão chamado Constante), com nome inscrito ou sem ele, que nos provocam  (provocare: chamar para fora),  ao mesmo tempo que nos  propõem sentidos que os transcendem e que nos transcendem, sob o signo do poder subversivo da linguagem. É esse poder que José Saramago invoca, quando um  minúsculo e redondo vocábulo – um simples não – suscita a  reconstrução histórica  de um universo afinal fragilizado por esse poder subversivo; e é ainda em clave de subversão que o romancista enuncia a alegoria da fratura e da deriva, engenhosa indagação ficcional do destino ibérico; ou a metáfora do regresso e do reencontro com a pátria, sentidos camonianos mas também, à sua maneira,  pessoanos; ou a imagem do coletivo e do seu poder redentor, no termo de  um processo histórico  que conduz à libertação dos levantados do chão; ou a imagem da construção e a sugestão ascensional que a confirma, quando se ergue  o convento que a vontade real idealizara, ao mesmo tempo que a passarola voa; ou a representação da cegueira coletiva em que se surpreende uma condição humana degradada na repulsiva violência do seu egoísmo. Isso tudo e também o árduo trajeto da existência humana, a dissolução da identidade, a contestação da ortodoxia religiosa, a celebração da rebeldia, a revisão da palavra bíblica, a questionação da culpa ou a  denúncia da arbitrariedade divina."
(Extrato do elogio fúnebre; Lisboa, 20 de junho de 2010)

O
Post do Facebook, 18/06/2016

sábado, 18 de junho de 2016

Filme documentário "Um humanista por acaso escritor" está hoje disponível on-line

Pode ser visualizado aqui via página do Facebook "Um humanista por acaso escritor", 
em https://www.facebook.com/umhumanistaporacasoescritor/?fref=nf



"Para lembrar os seis anos de morte do escritor José Saramago, ao longo das próximas 24 horas, você poderá assistir, curtir, compartilhar, comentar, chorar, alegrar, sentir, enfim, viver um pouco do que foi produzir e ficar por perto desses entrevistados que fizeram tudo isso ser possível. Um humanista por acaso escritor - que trata do lado humanista do português prêmio Nobel de literatura - está no ar!"

Link do vídeo, aqui


"6 anos sem José Saramago com o escritor presente, revisitando da sua obra" Texto enviado ao jornal Expresso para publicação na secção "Cartas"

Para o Expresso remeto esta carta e peço publicação

6 anos sem José Saramago com o escritor presente, revisitando da sua obra

Fará dia 18 de Junho seis anos em que se assinala a data da morte de José Saramago. Escritor genial e humanista sempre agitador da consciência mundial, criador de um estilo literário inconfundível que deixou marca na história de literatura escrita em língua portuguesa. 

Não é possível dissociar o criador de Blimunda e Baltasar (Memorial do Convento), da Mulher do Médico e do Cão das Lágrimas (Ensaio sobre a Cegueira), da família Mau-Tempo (Levantado do Chão) - entre tantas outras personagens -, do seu sentido de denunciador e activista social em diversas partes do mundo onde os direitos humanos e do meio ambiente estavam a ser atacados, e que ainda hoje se manifestam sob agressão constante. Assim foi, por exemplo conjuntamente com o fotógrafo Sebastião Salgado na defesa da causa do Movimento Sem Terra, na sua voz apelando à libertação do povo palestiniano ou no apoio à luta da activista Aminatou Haidar pela causa Saharaui.

Passam seis anos, e José Saramago é uma das principais figuras portuguesas que interessa fazer esquecer por parte das “cúpulas institucionais”; por ser incómodo nas verdades cruas e expostas nas suas metáforas que se perpetuam em centenas de reedições das suas obras por todo o mundo e em todas as línguas, e também porque foi (é) brilhante e genial na forma como investido de escritor não se demitiu de ser um valoroso agente de desassossego. 

Vivemos mergulhados num autêntico "Ensaio sobre a Cegueira", que se repete no "Ensaio sobre a Lucidez" a que muitos apetece partir numa "Jangada de Pedra", ou seguir na rota da "Viagem do Elefante", porque as coisas que vivemos não são "Deste Mundo e do Outro".
Quando chegará de novo "A Noite" para que "Os Poemas Possíveis" possam ser de novo musicados?
Às vezes, sinto-me acabado de ser "Levantado do Chão", extenuado depois de uma "Viagem a Portugal", onde "Os Apontamentos" recolhidos são peças soltas de uma passarola construída por um padre alucinado que vive num suposto estado de "Provavelmente Alegria".
"O Ano da Morte de Ricardo Reis" em que este, sendo "O Homem Duplicado" de Pessoa, viveu nas suas "Pequenas Memórias" as "Intermitências da Morte", dentro de uma obscura "Caverna" em que este país se tornou, desde a famosa "História do Cerco de Lisboa".
Os censores andam aí, com a cara destapada ou com uma simples capa vestida, gritam e bramem aos céus "In Nomine Dei", "In Nomine Dei"!!! Também estes, em busca de outra interpretação do "Evangelho Segundo Jesus Cristo" já estão alertados porque "Caim" foi marcado para sempre, e não dará outra oportunidade à "Segunda Vida de Francisco de Assis".
Nesta "Terra do Pecado", onde falta a bondade ao homem, procuramos uma nova luz de esperança e que essa possa chegar sob o signo da "Maior Flor do Mundo". "Que Farei com este Livro", onde constam todas as evangélicas atrocidades cometidas em nome de deuses, por homens raivosos cegos de razão, esses a quem lhes faltou sempre um "Manual de Pintura e Caligrafia" com os nobres valores inscritos para a humanidade.

Rui Mesquita dos Santos
(05/06/2016)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Novas aquisições - Recuperação de revistas fora de circulação


"LER Livros & Leitores" - Inverno de 1999 / #44 - "As notas escritas de José Saramago)
"LER Livros & Leitores" - Novembro de 2008 / #74 - Sobre a "Viagem do Elefante"
"o escritor" da APE - Dezembro de 1998 / #11/12


"Un Cuento para José" de Joan Morales Alcudia


Quando se assinalam os 6 anos da morte de José Saramago, recupero o conto da autoria de Joan Morales Alcudia, (Barcelona, Espanha), intitulado "Un Cuento para José" (2015).
O autor reconhecido estudioso da obra de José Saramago, tem publicado diversas matérias, nomeadamente o livro "Saramago por José Saramago", da Editorial El Páramo (2013).
Mais informação sobre o autor, aqui

Joan Morales Alcudia e José Saramago (Universidad Menéndez Pelayo, Agosto 2000)

"Un Cuento para José" 
Pode ser descarregado aqui, 

A José y Pilar, por regalarme su tiempo

"La vida, esa misma vida que había creado el Universo junto a Siete lunas y a Cuatro soles para que brillasen eternamente, hizo que en aquella radiante tarde del mes de junio, ambos anduviesen enredados en una misma nube. El cielo, que jamás había asistido a un espectáculo tan extraordinario, contemplaba para entonces los rostros de ambos planetas tomando sin proponérselo lo más invisible y bello. El crepúsculo- si es que realmente todavía se le podía continuar llamando de ese modo - dibujaba sus últimas pinceladas tiñendo de rojo los paisajes.

El sol que se ha unido con su luna, la luna que se ha unido con su sol; amándose, sintiendo el frío, el calor, el miedo, la duda, la sombra de la expectativa- la del uno, la del otro, la del otro con la de la una, la de la una con la del otro- aturdidos en el asombro más efímero y cotidiano ¡cuán idénticos no eran ambos en sus respectivas incertidumbres!

“No tengo palabras”- le había dicho momentos antes Siete lunas: “No necesito de tus palabras, me basta con tu presencia”- le había respondido Cuatro soles: “Siento frío, abrázame: tengo miedo, mucho miedo. Haz que tus rayos aniquilen mis temores”. “Sabes bien que no puedo hacerlo”- dijo él.
“¿Entonces?”. “No tengo respuestas… acaso sólo tenga que preguntas”. “Entonces, ofréceme todos tus interrogantes, Cuatro soles” - le pidió Siete lunas. “Está bien: sabes lo mucho que te necesito…pero no tengo certezas. Desconozco hasta qué punto convergerán nuestras órbitas, nuestras trayectorias, nuestros destinos- si prefieres tal palabra-, pero, acaso y, a pesar de todo: ¿no crees que sería muy hermoso si nos dejásemos llevar? ¿No crees que sería muy bonito tratar de aprender a convivir con la incertidumbre aceptando que hay un riesgo? Por lo que a mí respecta, sabes bien que no me faltará jamás ilusión para ello… ni paciencia, como que tampoco” - añadió Cuatro soles en un último destello.

Siete lunas se aproximó a uno de sus rayos. Callada, en silencio. Contemplaba un gran vacío desde el agujero más profundo del firmamento - o, al menos, eso le pareció a Siete lunas. Sus ojos, los de él, desarbolados, definitivamente ahogados en la presencia de Siete lunas, reclamaban cuanto antes la necesidad de una brasa de oscuridad para difuminar sus temores tanto o más que ella necesitaba de todas y cada una de sus confirmaciones para disipar definitivamente su particular ramillete de angustias- o tal vez fuese lo mismo planteándolo al revés. Él ¡la quería tanto! “No sabes lo duro que resulta querer dar lo mejor de ti y no tener una luna con la que compartirlo: Es…es… horroroso… ¡horroroso!”- dijo Cuatro soles apagando las palabras: “Te quiero, Siete lunas: te quiero muchísimo”. “No digas eso, Cuatro soles: Tengo miedo, miedo de no cubrir tus expectativas” “¿Y quién no lo tiene viviendo en el Universo?- le respondió él. “No sabes lo que me alegra” “Lo sé: me basta con asomarme a los luceros que contemplas cada noche”. Un mar de zafiros blancos enlazaba ya sus órbitas.

“No hace falta que sigas regalándome más palabras ¡no te imaginas cómo me gustaría saber utilizar las mías con tanta profundidad!”- le confesó ella: “Ssshh, calla, calla… no sigas…por favor, no sigas… No digas nada: tu silencio es un bien igual de valioso”- dijo él, para añadir: “ me basta con saberte cerca de mí, con sentir el latir de tu corazón, la franqueza de tu sonrisa, esa nobleza tan hermosa, la luz de tu pelo alborotado”

“¡Para, para! vas a hacer que me ruborice”- replicó Siete lunas. “Acércate, quiero sentir tu frío; esa luz que yo no tengo”- le respondió Cuatro soles. “Tengo miedo a defraudarte, Cuatro soles; mucho miedo” “No temas, acércate: te necesito para vivir tanto o más que a mi propio…”- y aquí, iba a decir corazón, cuando su condición planetaria le aconsejó mejor usar la palabra núcleo: “Hasta ahora, sólo he vivido de sueños”- agregó él. “¿Y?” “Que con tu presencia siento que ya no voy a necesitarlos por el resto de mis días. Déjame ver tu otra cara, permíteme que ilumine todos tus rincones. Déjame que descubra tus facetas más oscuras. Déjame entrar en ti con las llaves de mi brillo. Por favor, déjame estar a tu lado. Necesito descubrirte con caricias y con besos” “Me asustas: necesito tiempo” “¿Acaso no te basta con toda la eternidad? Pídeme que pare el tiempo si es eso lo que deseas: sabes que por ti lo haría. ¿A las cuatro va bien? Bien sabes que soy incapaz de hacerte daño: Me lo impide mi propia fragilidad. Quiero orbitar a tu lado. “Pero tú…-dijo Siete lunas… ¡no me conoces!” “Lo sé, ¿y tú, acaso te conoces a ti misma?” “No quisiera hacerte daño”- dijo ella: “Más daño me harías si no me dejaras intentarlo”- sentenció él. Y añadió: “Pero si has de clavarme un puñal de mentiras en el futuro, hazlo ahora con tu lado oscuro… y olvídame sin más: Siempre he sentido una gran atracción por los planetas sinceros….¡y tu lo eres!”

Siete lunas parecía desear alejarse por momentos. Sin embargo, como si estuviesen predestinados a ello, sus orbitas, volvieron a cruzarse de nuevo.

“¿Sabes? Tengo un lado muy oscuro….” “Y yo todo el tiempo del mundo para tratar de comprenderlo” “Lo digo en serio, Cuatro soles” “Te quiero” “¿Con mis zonas oscuras, incluidas?”- dijo ella: “Por supuesto, no sería quererte si no fuese de ese modo. Lo cierto es que, sin ellas, no serías más que una parte de la luna y no una luna entera, ¡una mentira cochina, vamos!- esto último tan sólo lo pensó- y yo, como podrás comprender, como que lo que quiero es una luna completa. Para partes, me basta con un trozo de sandía”. Siete lunas sonrió: “Me encanta lo bien que explicas lo celestial yendo hasta lo terrenal” “¿Sabes?- dijo uno de sus más brillantes rayos amarillos: A veces tengo la sensación de que todo esto no es más que una ilusión”. Ella le escuchaba en un silencio casi reverencial: “A veces me preguntas qué quedará de nosotros cuando explosionemos” “¿Puedes ofrecerme respuesta?, contestó un tanto extrañada Siete lunas. “Lo sabes igual que yo: poco, muy poco- por cierto, como a todos los planetas -: polvo, gases. Y con ellos, volarán también las dudas, los miedos, las quimeras, los sueños, los anhelos, las desesperaciones, las alegrías, los llantos. Apagarnos, colapsarnos, e irnos. Es ley galáctica, ley del Universo.

Para entonces, aquellos fantásticos sueños que se habían fusionado en el preciso momento en el que Cuatro soles acarició con un rayo de luz a Siete lunas, dieron paso a una explosión de alegría en la conciencia de que, ni que fuese por unos instantes, ambos podrían tender ciertos puentes como planetas: “¿Me dejas ser tu laurel?” “Y tú, ¿me permitirías que te elevase con mi pico?”. 

Aquella madrugada, la Tierra, engalanó todos y cada uno de los confines del cielo con auroras boreales."

© Joan Morales Alcúdia

"18 de junho, seis anos depois, vivendo José Saramago" - "José e Pilar" Entrevista com o diretor Miguel Gonçalves Mendes

O vídeo pode ser visualizado, via YouTube, aqui

"O diretor português Miguel Gonçalves Mendes fala sobre o documentário "José e Pilar", feito a partir de registros dos últimos quatro anos de vida do escritor José Saramago ao lado de sua esposa, a jornalista espanhola Pilar del Río."


"Nesta entrevista o realizador Miguel Gonçalves Mendes fala sobre "José e Pilar" e conta da dificuldade que foi transformar 230 horas de filmagens em um filme de duas horas. No sábado veremos cerca de 15 minutos de cenas inéditas do documentário."

Via página do Facebook da Fundação José Saramago


quinta-feira, 16 de junho de 2016

"Homenaje a Saramago" pelo grupo parlamentar Podemos - A Casa em Tías - Lanzarote

"Este próximo sábado, 18 de junio, parlamentarias y parlamentarios de Podemos, rendiremos homenaje al maestro José Saramago. 
Será en su casa, recorreremos su vivienda, el lugar donde en los últimos 19 años escribió todos sus libros, desde el "Ensayo sobre la ceguera" hasta el último e inacabado "Alabardas", pasearemos por su jardín, tomaremos café en la cocina, para acabar en la Biblioteca, donde leeremos pequeños fragmentos de su obra, aquellos que por alguna razón nos parecen más significativos, o simplemente nos impactaron más. 
Será a partir de las 10.30"


Mais informações via página do Facebook "A Casa José Saramago", aqui


quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Rever, repensar, reescrever." - Manuscrito de página de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984)

"Rever, repensar, reescrever."
“O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984)


"Saramago, José, 1922-2010
O ano da morte de Ricardo Reis : romance / José Saramago
1983; [4], 365 f. ; 30 x 21 cm;

Dactiloscrito a preto com emendas autógrafas a esferográfica azul e preta. - No canto superior direito da 1.ª folha do texto, uma nota autógrafa, riscada: «Rever, repensar, reescrever». - Tem como suporte folhas lisas A4, com numeração de [1] a 365 (correspondentes ao número de páginas do romance); inclui mais três folhas: folha de rosto, tábua de publicações e epígrafes; nos versos das folhas 39 e 341, fragmentos de texto dactiloscrito, um deles riscado e, no verso da folha 216, cálculos aritméticos. - Versão muito próxima da editada (Caminho, 1984), embora esta última não contemple todas as emendas deste documento e introduza outras alterações. (BNP N45/11)"

Pode ser consultado aqui, via página da Biblioteca Nacional

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira publicado em "O Mirante" (13/06/2016)

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira
Publicado em "O Mirante" (13/06/2016), e pode ser recuperado aqui
em http://omirante.pt/cartas-do-brasil/2016-06-13-Revisao-de-texto-uma-penitencia

"O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente. Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa."

"O paulista Monteiro Lobato (1882-1948) não foi apenas um grande escritor, foi também um editor pioneiro no Brasil com a Cia. Editora Nacional, portanto, uma autoridade em matéria de livros, dominando desde a concepção do texto até o produto acabado na prateleira. Invoco sua figura para falar da coisa mais banal e nem por isso menos dramática quando se trata de escrever e publicar: o erro de revisão. Duas semanas atrás quase perdi o sono ao deixar sair aqui uma crônica com quatro sacis gritantes – quatro erros de digitação que o paginador Fábio Oliveira, assim que solicitado, me fez o imenso favor de eliminar. Falando certa vez a respeito dessa tragédia também conhecida como gralha ou pastel e que, no seu tempo, ainda se chamava erro tipográfico, Lobato assim se manifestou: “A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar”.

Se é assim com o livro, produto de elaboração demorada que comumente é lido e relido muitas vezes e por muitos olhos antes de ser impresso, o que dizer do texto jornalístico, que hoje se escreve e se publica quase simultaneamente no meio digital? Embora em geral curto, o texto de jornal nem por isso está menos sujeito ao acúmulo de gralhas. Algum tempo atrás, ao falar da obrigação de rever a própria escrita em sua coluna em O Globo, Elio Gaspari empregou o advérbio perfeito ao dizer que lera e relera aquele trabalho “piedosamente” antes de autorizar sua publicação. O termo supõe a ideia de penitência, daí sua exatidão, porque se o trabalho de escrever pode ser penoso ou gratificante, rever o próprio texto é sempre uma penitência. E uma penitência cada vez mais inevitável, já que a figura do revisor parece fadada a desaparecer das redações, se é que já não desapareceu.

E não é somente grande pena que esse animal indispensável esteja em risco de extinção, o seu fim seria também a consumação de uma eterna injustiça, porque injustiçado ele tem sido desde sempre. Falo com a autoridade de quem já reviu muito texto alheio durante muito tempo. O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente.

Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa. Tendo passado uma vida inteira num trabalho apagado e obscuro, um belo dia Raimundo Silva resolve acrescentar uma simples palavra – “não” – ao texto que está a revisar, e com isso muda completamente os rumos de toda uma história. Bem feito."


terça-feira, 14 de junho de 2016

"Nem preciso de Deus" - Entrevista de Alexandra Lucas Coelho publicada no suplemento Mil Folhas (jornal Público - 11/11/2000)

A fotografia da capa desta edição, foi posta em destaque na página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui em https://www.facebook.com/fjsaramago/?fref=nf

"A capa do saudoso suplemento Mil Folhas do jornal Público de 11 de novembro de 2000, onde se publicava uma entrevista dada por José Saramago a Alexandra Lucas Coelho por altura da publicação de "A Caverna".
A ilustração da capa é de André Letria." - Fundação José Saramago

A entrevista pode ser consultada e recuperada, aqui
Publicada no suplemento Mil Folhas (jornal Público - 11/11/2000)

"Nem preciso de Deus" - Alexandra Lucas Coelho

"O primeiro romance de Saramago pós-Nobel não chega a ter matéria de incómodo. Talvez no próximo, "A Viagem do Elefante", regresse à insurreição com que fala, por exemplo, de Deus.

Só por ordem médica o Nobel José Saramago desistiria de viajar. E como aos quase 78 anos (cumpridos no próximo dia 16) continua seco e saudável, entre Nova Iorque e Santiago do Chile deu um pulo a Lisboa esta semana. Os 50 mil exemplares do seu novo romance acabavam de ser impressos, a tempo de chegarem dia 15 às livrarias, e havia que acertar os pormenores do lançamento nacional e internacional - directos pela Internet, digressões por Espanha, etc. 
Sendo que a ideia de "A Caverna" já vem de antes do Nobel, ao fim de três anos e de umas tantas voltas ao mundo, eis finalmente o romance - afinal escrito em apenas seis meses, os primeiros de 2000. Um recorde pessoal de quem queria mesmo acabar antes do fim do século. "A única pressão era essa, escrevi-o no mesmo estado de espírito dos anteriores. Não tinha que provar que era capaz de fazer outro livro." 
De resto, o próximo, entre uma digressão e outra - "não consigo dizer que não" - já tem nome: "A Viagem do Elefante", a ser escrito logo que Saramago termine duas encomendas menos morosas: uma história policial, para o Brasil, e o prefácio de um volume da Bíblia, a sair em Itália. 
Na Alegoria da Caverna segundo Saramago, uma família de oleiros representa o exterior humano e artesanal de um Centro (nunca se escreve comercial, mas o autor tem-lo dito) com muralhas altas e janelas que não se podem abrir (para evitar suicídios incómodos). 
Estamos longe da intensidade (e da ideia) de um "Ensaio Sobre a Cegueira", a obra que abre, diz o autor, a "trilogia involuntária" que "A Caverna" vem fechar - no meio está "Todos os Nomes" -, constituindo uma "espécie de visão do estado da humanidade". 

PÚBLICO - "A Caverna" não é propriamente uma descida aos infernos. Em relação ao "Ensaio Sobre a Cegueira", em que o autor nos coloca dentro do horror, aqui estamos sempre de fora, e quando entramos, saímos logo, como os protagonistas, aliás. 
JOSÉ SARAMAGO - Saiem, mas sabem que o que faziam [a olaria] já não serve a ninguém e que o futuro é incerto. Essa saída faz-se pelo amor, duplamente, o de Marçal e Marta, o de Cipriano e Isaura. O amor construído a pouco e pouco, que tem medo de ser. Mas é efectivamente um livro cheio de ternura.

Que tempo e lugar tinha na cabeça?
Pode ser o nosso tempo. Não houve nenhuma catástrofe nuclear nem ecológica. Aquele rio está podre, mas não faltam rios podres... o lugar concreto que tinha na cabeça é a minha própria aldeia [Azinhaga, concelho da Golegã], o rio da minha aldeia que cheira mal que tresanda... com as fábricas que despejam todas as imundíces. E há esse mundo que se extingue, que tem como paradigma a olaria.

Em vez do Centro, da Caverna, o autor opta por detalhar aquela vida artesanal, aquela humanidade arcaica.
Foi talvez a própria história que o determinou. Dei-me conta que havia qualquer coisa ali que se destingue do "Ensaio...", de "Todos os Nomes".

Como se a sua visão amarga e pessimista se tivesse suavizado?
Não, não penso melhor do mundo do que quando escrevi o "Ensaio...", nem haveria razões para isso. Digamos que aquela gente merecia outro tratamento. É uma espécie de piedade, que não é auto-comiseração, mas piedade pelo ser humano, que é tão frágil. Mas o autor tem a consciência de que nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como agora. Acho que o Platão escreveu o livro sétimo da "República" para nós. É que as pessoas estão tão contentes de ser aquilo que são... E sem querer chocar ninguém, estão a ser tão pouca coisa que não creio que seja "A Caverna" que os vai iluminar, provavelmente necessitariam de um choque mais violento, um choque com os seus próprios interesses. Vivemos em plena egonia, é o egonismo não só dos que têm, mas dos que fazem de conta que são ricos. Andamos no fingimento.

Na disputa de poder interno, o PCP é um partido como os outros

A ilusão da Caverna. E qual é a alternativa?
O caminho da participação, da indignação, uma insurreição ética. Os partidos políticos, particularmente os de esquerda, deveriam meter os seus programas numa gaveta e pôr na mesa e na prática uma coisa tão simples como a carta dos direitos humanos.

Nessa lista incluía o PCP?
Evidentemente.

É o seu partido, ultimamente rasgado por debates internos que têm a ver com liberdades tão básicas como a de expressão.
O que está em debate no PCP é que há uns que se anunciam assim e outros que se anunciam assado e, como é normal em qualquer partido, uns pretendem retirar os outros para ocuparem o seu lugar. Nesse plano, o da disputa do poder interno, o PCP é um partido como outro qualquer. Mas não está a acontecer nada de extraordinário, tudo isto se passou noutros partidos comunistas. As coisas vivem, têm um tempo, corrompem-se, fragmentam-se. O unanismo não é possível. Costumo dizer que não deixo o meu partido sobre a condição de que o meu partido não me deixe a mim.

O partido deixá-lo significa o quê?
Deixar o partido de ser o que é, aquilo que me fez entrar nele. Mas não vejo outro onde pudesse estar. Se o partido me deixar, não vale a pena virem-me com cantos de sereia. Se houver essa mudança, que pode acontecer, não me verão noutro. O PCP nem sempre me tratou bem, mas não vale a pena levantar agora a crosta das feridas.

Porque estão saradas?
Saradas estão, mas esquecidas não.

Há uma pergunta, que calculo que para si seja particularmente incómoda, que tem a ver com o livro de Carlos Brito.
Qual livro de Carlos Brito?

O livro que a sua editora, a Caminho, recusou e que foi publicado agora na Campo das Letras.
Nada a dizer. Não sei nada. Não conheço a história.

Sente-se longe, Portugal não é a sua casa?
Não é a minha casa mas é o meu país. Sinto-me um português... pago os meus impostos aqui, se isso interessa a alguém... o que me dói é que esta terra tenha deixado de sonhar.

Imagina-se a voltar?
Creio que não. Mas mesmo lá [em Lanzarote], as coisas não são tão fáceis. Agora estão a chegar às Canárias clandestinos de África, e desenvolvem-se movimentos racistas, xenófobos, contra os quais protestei. E no outro dia, em Las Palmas, houve uma manifestação em que se gritava: "Saramago vai-te embora!".

E o senhor vai?
Não. Mas eu venho cá quase todos os meses, e sou apenas um dos muitos que vivem longe... o Jorge de Sena estava longe, o Rodrigues Miguéis também, o Eduardo Lourenço está longe, e alguns eventualmente não estão longe porque não podem, ou não encontraram razão para isso. Eu não faço tanta falta, e a que faço satisfaço-a escrevendo, em português.

O que está a escrever?
Vou escrever um prefácio para um dos livros da Bíblia, uma edição italiana, em volumes. Para uma colecção da Companhia das Letras, brasileira, vou fazer uma história policial com uma figura literária, escolhi o Alexandre Dumas. Há ainda "O Livro das Recordações", que afinal se chamará "O Livro da Lembrança", tenho que voltar aos "Cadernos de Lanzarote", que só interrompi para que não fosse um relato contínuo de viagens. E nestes últimos dias, em Lanzarote, apareceu-me uma ideia para um romance, "A Viagem do Elefante". Não quero dizer mais que o título.

"Não tenho nenhuma relação com Deus"

A propósito da Bíblia, a sua relação com Deus...
Não tenho nenhuma relação com Deus! Tenho uma relação com um texto que se chama Bíblia.

A sua tranquilidade é tanta que consiga dizer isso assim?
Total, total. Vivo tão tranquilamente com a Bíblia, como vivo com o Corão, com os Vedas, com o Talmude... são obras humanas! A Bíblia levou quatro mil anos a escrever! Se se considera legítimo, não havendo provas, que se diga que Deus existe, também se deve considerar legítimo que se diga que não. Há coisas que para mim são básicas: as religiões nunca serviram para aproximar as pessoas, pelo contrário; matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino, e assim se tem feito; se há guerras absurdas são as religiosas; se amanhã um Deus - porque se houver Deus é um único - tiver que chamar toda esta gente para lhe pedir contas, vai encontrar-se com milhares de religiões, sub-religiões, seitas, etc. E o que é que ele vai fazer? Premiar uns quantos que sejam católicos e islamistas e castigar os outros? Tudo quanto se passe em nome de Deus é pura farsa, puro engano, pura mentira, ninguém pode falar em nome de Deus, se Deus existe, não disse a ninguém nada. Não disse. Para mim não existe Deus.

E como é que se pensa na morte?
É enquanto estamos vivos que devemos pensar na morte. Qual é a diferença de pensar na morte crendo ou não crendo?

Para um crente a morte não é o fim.
Mas porque é que a morte não é o fim, se tudo tem que ter um fim? Tem algum sentido, numa galáxia tão imensa, que Deus tenha posta a sua suprema obra aqui?!!! Num planeta que tem uma história, que tem uma bola de fogo, que tem ainda fogo dentro? A vida é uma operação química de todos os dias e foi assim que começou. O milagre, a coisa genial, é que fomos capazes de inventar tudo. Até fomos capazes de inventar Deus. O que é que há fora da minha cabeça? Na minha cabeça pode estar Deus, pode estar o Diabo. Aqui [aponta para a cabeça] é que está o bem, o mal, a justiça, conceitos que transporto, aqui! E note que não sou má pessoa, nem preciso de Deus para ser boa pessoa, tentar, pelo menos. E não me tenho dado mal." 

"Catorze de Junho" poema declamado e inserido na obra de Luis Pastor "Nesta Esquina do Tempo"

Pode ser escutado, aqui via YouTube, pela voz de José Saramago

Catorze de Junho

"Cerremos esta porta.
Devagar. devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos,
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como num barco no mar, ou o pão na mesa,
Ou rumuroso leito.
Não se afastou o temo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo." 

(in Poesia Completa, Alfaguara, pág. 636-637)

O poema "Catorze de Junho" é declamado nesta obra de Luis Pastor

"Fundação José Saramago abre hoje na Casa dos Bicos para desassossegar" - Foi assim que Isabel Coutinho do jornal "Público" noticiou o evento (13/06/2012)

A Presidenta Pilar del Río e António Costa, na altura Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Fotografia de Enric Vives-Rubio

Foi assim que Isabel Coutinho do jornal "Público" noticiou o evento (13/06/2012)
O artigo pode ser aqui recuperado,
em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/fundacao-jose-saramago-abre-hoje-na-casa-dos-bicos-para-desassossegar-1550126

"Fundação José Saramago abre hoje na Casa dos Bicos para desassossegar"  

"Uma exposição dedicada à obra e à vida do Nobel da Literatura português, parte da sua biblioteca pessoal e a do amigo Vasco Gonçalves podem ser visitadas na Casa dos Bicos. Saramago está sempre presente.

As luvas brancas que Pilar del Río traz calçadas enquanto arruma a biblioteca na Casa dos Bicos, em Lisboa, foram usadas por José Saramago numa cerimónia honoris causa. Nestes dias têm ajudado a presidenta da Fundação Saramago a transportar caixas, pendurar quadros e organizar papéis neste edifício quinhentista da Rua dos Bacalhoeiros, que durante os próximos seis anos vai albergar a sede da instituição fundada pelo Nobel da literatura português. 

"Saramago usou-as durante uma cerimónia de um doutoramento honoris causa. Espero que a universidade não se importe... Ele não se importaria, porque estão a ser usadas para a sua obra", diz a viúva do escritor durante uma vista de jornalistas à casa que, em 2008, foi cedida à Fundação Saramago pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) por dez anos. Ali decorrem os últimos preparativos para a abertura ao público, marcada para hoje.

A cerimónia oficial de inauguração realiza-se às 11h30, com a participação do presidente da CML, António Costa. Por constrangimentos de espaço, é destinada apenas a convidados e à comunicação social, mas a Fundação José Saramago abrirá as portas ao público à tarde, entre as 14h e as 16h. 

Na cerimónia será apresentado um vídeo em que o autor de "História do Cerco de Lisboa" fala dos objectivos da fundação. Além dos discursos oficiais, falará o espanhol Fernando Gómez Aguilera, comissário da exposição "José Saramago. A Semente e os Frutos", que ocupa o primeiro andar da nova Casa dos Bicos, cujas obras de readaptação foram feitas pela dupla de arquitectos Manuel Vicente e João Santa-Rita.

A Casa dos Bicos, que tem uma importante jazida arqueológica a nível subterrâneo, abrirá todos os dias úteis das 10h às 18h e, aos sábados, das 10h às 14h. Em Junho, a entrada é grátis, depois passa a ser paga: o bilhete custará três euros para os portugueses e "entre cinco e seis euros" para os estrangeiros. A fundação vai viver dos direitos de autor da obra do escritor, que morreu a 18 de Junho de 2010, e do trabalho que se for fazendo nesta instituição, que assume como norma de conduta, nas suas actividades, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e que tem por missão dar particular atenção aos problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta. 

"Não temos qualquer outro apoio oficial e os tempos estão difíceis para conseguir mecenato. Por isso, o público vai ter de pagar entrada", explica Pilar del Río.

Parte da biblioteca pessoal de Saramago está agora guardada neste edifício, e será possível aceder ao resto dos seus livros (o essencial continua na sua biblioteca em Lanzarote), a partir de equipamento electrónico. A Casa dos Bicos tem ainda disponíveis áreas de trabalho para investigadores que estejam a estudar e a organizar o espólio. No terceiro andar, além da biblioteca e do auditório existe um espaço dedicado ao político e ex-primeiro-ministro português Vasco Gonçalves (1922-2005). 

A presidenta da fundação explica ao PÚBLICO que não irão existir outros espaços "porque José Saramago já não está cá para decidir, e também não caberiam mais". Saramago e Vasco Gonçalves eram amigos e o escritor respeitava muito o político e não queria que a sua biblioteca se dispersasse depois da sua morte. "Colaboraram juntos algum tempo, e José considerava-o um ser humano de uma qualidade extraordinária. Ele não queria que a biblioteca de Vasco Gonçalves - ainda por cima são os seus livros anotados - se dispersasse por respeito a um homem fundamental na revolução democrática e que foi muito mal interpretado por interesses muito concretos", afirma Pilar del Río.

No primeiro andar, Ana Saramago Matos, neta do escritor, está ocupada com os acabamentos da exposição "José Saramago: a Semente e os Frutos", que hoje abre ao público e que nasce da mostra "A Consistência dos Sonhos", que em 2008 esteve no Palácio de Ajuda em Lisboa, e também teve a curadoria de Fernando Gómez Aguilera, presidente da Fundação César Manrique, em Lanzarote. Essa exposição foi agora adaptada e ajustada ao espaço de exposições da Casa dos Bicos. A Semente retrata o início do percurso literário de Saramago, desde as suas origens na aldeia ribatejana da Azinhaga, com a evocação dos avós Josefa e Jerónimo, passando pelos anos de escrita jornalística e de militância cívica e política. 

A máscara de Beethoven

José Saramago costumava dizer que não se pode fazer nada sem se ter lido. Por isso a exposição inicia-se com as traduções que fez ao longo da sua vida, entre as quais a da obra "Ana Karenine". Os "frutos" referidos no título da exposição estão patentes nos manuscritos, nos livros em diferentes línguas e na consagração trazida pelo Nobel de 1998. A máscara branca de Beethoven de que se fala em Claraboia (Caminho) está pendurada na parede. Quando tinha vinte e tal anos, José Saramago passou por uma montra e viu uma máscara de Beethoven e não a comprou porque era cara. "O que é incrível é que aos setenta e tal anos Saramago foi a Bona, à cidade natal de Beethoven, encontrou a tal máscara e comprou-a", conta Pilar aos jornalistas entre as vitrinas com cadernos de notas, agendas em que o escritor organizava o dia-a-dia, cartas e fotografias com amigos de todo o mundo. Pode ver-se ainda a reconstituição do primeiro escritório onde Saramago escreveu, que era também um dos núcleos da exposição na Ajuda, e há equipamento de áudio com entrevistas, discursos e ainda vídeos. Tal como acontece na casa-museu em Lanzarote, a Casa dos Bicos tem uma loja onde os visitantes podem comprar livros de José Saramago em várias línguas e artigos com a marca da instituição.

A Fundação Saramago na Casa dos Bicos quer ser um centro emissor de ideias, debates, polémicas. "José Saramago dizia que escrevia para desassossegar. Nós estamos aqui para desassossegar também. Aquilo que as pessoas têm de encontrar aqui, e que temos de ser capazes de lhes dar, é o espírito de Saramago: nos papéis ou nos objectos que vão ver, mas também na dinâmica de trabalho e na programação que se faz", conclui Pilar del Río.

Notícia corrigida no dia 14/06 às 12h32, A Casa dos Bicos é um edifício quinhentista e não seiscentista

segunda-feira, 13 de junho de 2016

4.º Aniversário da abertura da Casa dos Bicos

A "Declaração de Princípios", pode ser consultada, na página da Fundação José Saramago, aqui

Declaração de Princípios

"Os objectivos da Fundação José Saramago, nesta data criada, estão enunciados com toda a clareza nas disposições estatutárias pelas quais deverá reger-se. Não têm, portanto, que ser repetidos aqui em Declaração de Princípios. Contudo, pareceu-me apropriado, na circunstância, expressar de modo pessoal umas quantas vontades (ou desejos) que em nada contradizem os referidos objectivos, antes os poderão enquadrar num todo harmonioso e familiarmente reconhecível. Não me dou como exemplo a ninguém, porém, revendo a minha vida, distingo, ora firme, ora trémula, uma linha contínua de passos que não projectei, mas que, de maneira consciente ou não tanto, me fizeram perceber que nenhuma outra poderia servir-me, ao mesmo tempo que se me ia tornando cada vez mais claro que uma das minha obrigações vitais seria servi-la eu a ela. Ter conhecido Pilar, viver ao seu lado, só viria confirmar-me que tal direcção era a correcta, tanto para o escritor como para o homem. A direcção dos grandes valores, sim, mas também a direcção das pequenas e comuns acções que deles decorrem no quotidiano e que lhes darão a melhor validez das experiências adquiridas e das aprendizagens que não cessam. O paradoxo da existência humana está em morrer-se em cada dia um pouco mais, mas que esse dia é, também, uma herança de vida legada ao futuro, que o futuro, longo ou breve seja ele, deverá assumir e fazer frutificar. Nem por vocação, nem por opção nasceu a Fundação José Saramago para contemplar o umbigo do autor.

Sendo assim, entre a vontade e o desejo, eis as minhas propostas:

a ) Que a Fundação José Saramago assuma, nas suas actividades, como norma de conduta, tanto na letra como no espírito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em Nova Iorque no dia 10 de Dezembro de 1948.

b) Que todas as acções da Fundação José Saramago sejam orientadas à luz deste documento que, embora longe da perfeição, é, ainda assim, para quem se decidir a aplicá-lo nas diversas práticas e necessidades da vida, como uma bússola, a qual, mesmo não sabendo traçar o caminho, sempre aponta o Norte.

c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo.

Bem sei que, por si só, a Fundação José Saramago não poderá resolver nenhum destes problemas, mas deverá trabalhar como se para isso tivesse nascido.

Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo.

Lisboa, 29 de Junho de 2007

José Saramago"




"A Noite", de José Saramago, na Feira do Livro de Lisboa - IELT-FSCH com Pilar del Río (26/05/2013)



"29ª sessão da comunidade de leitores das paisagens literárias de Lisboa
Fabula Urbis, Carmo Gergorio
IELT - FCSH, Ana Isabel Queiroz
Fundação José Saramago, Pilar del Rio
Grupo de teatro Vigilambulo Caolho, Júlio Mesquita 

26 de Maio 2013 na Feira do Livro, Lisboa.
filmado e editado por Miguel Queiroz Martinho"

"A Noite", de José Saramago, na Feira do Livro de Lisboa, onde aqui se pode ver o registo vídeo da 29ª sessão da Comunidade de Leitores de Paisagens Literárias de Lisboa realizada no 26 de Maio (2013), na Feira do Livro de Lisboa, com a participação da Fundação José Saramago e do Grupo de teatro Vigilâmbulo Caolho. Filmado e editado por Miguel Queiroz Martinho."

Informação via página da IELT (Instituto de Estudos de Literatura Tradicional) da FCSH (Facultada de Ciências Socias e Humanas) de Universidade Nova de Lisboa, aqui 

Fotografia de José Saramago caminhando pelos passeios da
Feira do Livro de Lisboa 
(não foi possível identificar a data e o autor da fotografia)

"¿Por qué leer a José Saramago?" artigo de opinião de Gonzalo Mas publicado no "Confidencial" (Managua, Nicarágua - 10/9/2013)

Artigo de opinião de Gonzalo Mas, publicado no "Confidencial" (Managua, Nicarágua - 10/9/2013)
Pode ser recuperado e consultado aqui,
em http://confidencial.com.ni/archivos/articulo/13730/iquest-por-que-leer-a-jose-saramagon

"¿Por qué leer a José Saramago?"

"Saramago fue un idealista que defendió sus ideas con solidez hasta el último día de su vida

El día 18 de Junio del 2010 escribí un artículo que nunca publiqué. Empezaba así: “Yo estoy en contra de la muerte, la considero de mal gusto. Quiero aprovechar el espacio que me brinda este periódico para  dejar claro que, a partir de ahora, todos aquellos a los que aprecie o admire que  incurran en ella, pasarán a formar parte de mi lista negra. Para su información, mi lista negra es un papel en blanco con el nombre de José Saramago escrito en él…” El día 18 de Junio del 2010  estaba rabioso y triste. Ese día moría Saramago, uno de mis escritores favoritos.

El primer libro de Saramago que leí fue “La Caverna”: Es la historia de Cipriano Algor, un alfarero de 64 años quien mantiene un estilo de vida tradicional y ve cómo la sociedad que le rodea evoluciona demasiado rápido mientras él, incapaz de adaptarse, se siente relegado.

“La balsa de piedra” es la historia, casi surrealista, de cómo la Península Ibérica un buen día se desprende del continente europeo y comienza a navegar hacia el medio del océano atlántico. El texto explica cómo una serie de personajes que nada tienen que ver los unos con los otros viven atónitos ese viaje alucinante.

Estas dos novelas inmediatamente me capturaron por el personalísimo estilo musical de sus infinitas frases y por lo entrañable de los personajes descritos en ellas.

Después leí “El evangelio según Jesucristo”. Su temática era a la vez tradicional y novedosa: El libro narra la vida de Jesucristo enfocada desde un ángulo diferente, dando especial importancia a los personajes de San José y al de María Magdalena (respectivamente el padre y la mujer de Jesucristo). La narración parecía apoyar la teoría de que la Iglesia había tratado de eclipsar la figura de María Magdalena dando una exagerada importancia a la figura de la Virgen María. ¿Por qué? Porque para la clásica iglesia, la presencia de una prostituta como la Magdalena, incomodaba. De la misma forma, incomodaba la figura de San José: Recordemos que Cristo es hijo de Dios. Demasiado José podría confundir a los feligreses. Según Saramago, para la iglesia era necesario relegar a José a un segundo plano.

Estas lecturas me hicieron caer irremediablemente a los pies del escritor portugués. Tanto es así que empecé a estudiar la lengua lusa: Quería poder leer sus libros en su idioma original. Durante cuatro años asistí a cinco horas semanales de portugués… El problema es que Saramago, como el gran escritor que era, hacía uso de una infinita variedad de vocabulario que me hacía imposible comprender completamente sus textos. Y yo no estaba dispuesto a perderme ni un ápice, ninguna sutileza del significado de sus libros.

Por otro lado, la ventaja que tenían las traducciones de Saramago al español era que él (perfectamente bilingüe en portugués y español) las supervisaba personalmente. Además, y sobre todo, la persona que llevaba a cabo esas traducciones era su esposa, la periodista Pilar del Rio: La calidad de esas traducciones parecía asegurada.

Tras la publicación de “El evangelio según Jesucristo” Saramago decidió dejar Portugal: El país, profundamente católico, no encajó bien las ideas expuestas en esa novela y Saramago decidió abandonarlo. Se fue a las Islas Canarias, en concreto a Lanzarote.

Las Canarias son unas islas hermosas. Me llamó la atención que, una vez, un compañero de trabajo las definiera como “América Latina en el primer mundo”. En cualquier caso, hace unos años fui a pasar unas vacaciones a Lanzarote. Allí acudí a la que fue la  casa de José Saramago durante los últimos años de su vida (su hogar había sido convertido en museo recientemente). Pudimos ver la hermosa casa donde él escribió muchas de sus novelas, su extensísima biblioteca y hasta la cama en la que pasó sus últimas horas.

La simpática guía que nos acompañaba nos llevó por fin a la cocina de la casa. ¿Adivinen a quien nos encontramos nada más abrir la puerta? Preparando café estaba la mismísima Pilar del Río, la mujer de Saramago, su traductora, su compañera (“Me he hecho un poco de pis de la emoción”, fue todo lo que alcancé a susurrar a mi acompañante).

Pilar del Río nos invitó a sentarnos en su mesa y compartir con ella un café. Nos explicó que Saramago siempre se quejaba de lo malo que era el café en España y que solo bebía café importado de Portugal hecho por la cafetera de la que salía el café que estábamos tomando en ese momento. (“Seguro que Saramago hubiera apreciado un buen café nicaragüense”, pensé).

Lo entrañable de los personajes, su estilo personalísimo e inigualable, la musicalidad de sus textos… Podría estar enumerando miles de motivos por los cuales les recomiendo vivamente leer a José Saramago. Pero quizás lo que más apreciaba de él era esa tendencia constante suya a ponerse del lado de los desfavorecidos, de los oprimidos. Saramago fue un idealista férreo que defendió sus ideas de izquierda con solidez hasta el último día de su vida.

Pasada la indignación inicial que su muerte provocó solo cabe, hoy, decirle una cosa: Te echamos de menos."

4.º Aniversário da abertura da Casa dos Bicos - FJS - Retrospectiva dos dias que antecederam a inauguração


Retrospectiva dos dias que antecederam a inauguração da "Casa dos Bicos", 
sede actual da Fundação José Saramago

Faltam 5 dias 

Faltam 4 dias 

Faltam 3 dias

Faltam 2 dias 

Falta 1 dia

Inauguração 

"Foram muitas as personalidades que se juntaram dia 13 de junho para a inauguração do espaço da Fundação José Saramago na Casa dos Bicos. Um novo "centro cultural", como desejou Saramago, está a partir de agora aberto ao público e à cidade."


domingo, 12 de junho de 2016

Crónica "Cataclismo, ou talvez não" (25/5/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica "Cataclismo, ou talvez não" publicada no "Diário de Lisboa", sobre a capacidade do ser humano não providenciar a sustentabilidade dos recursos naturais do planeta.
Na "Declaração de Princípios" da Fundação José Saramago, e sendo este um assunto de enorme preocupação para José Saramago, pelo seu punho deixou escrito na alínea c), "Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo." (29/06/2007)
Na leitura das crónicas, "está lá tudo".
Rui Santos

José Saramago acompanhado de Betinho e Sebastião Salgado - Rio de Janeiro, 1997

"Cataclismo, ou talvez não"
(25 de maio de 1972)

"De vez em quando, e com uma regularidade que poderia levar a acreditar em revezamento premeditado, surgem vozes de alarme contra a rapidez com que se vão consumindo as reservas naturais do planeta, agravada por aquilo a que passou a chamar-se, maltusinamente, «explosão demográfica». Em regra, tais declarações são proferidas por autoridades competentes, não vezes adornadas pelo toque superlativo de um Prémio Nobel.
Veio agora o Dr. Dennis Gabor, cientista inglês distinguido com aquele prémio, avisar-nos de que a humanidade poderá ter apenas mais quarenta anos de vida, se a explosão demográfica não cessar. E que «no ano 2010, a Terra será tão paupérrima que nem os fertilizantes serão suficientes para evitar o descalabro». Sugere pois que se inicie o cultivo de plâncton, «em vez de se destruir essa extraordinária riqueza por meio da poluição». 
É possível que o Dr. Gabor tenha razão, que a tenham todos quantos, cientistas ou apenas profetas, andam pelo mundo nesta nova cruzada apocalíptica, a anunciar o fim dos tempos. Talvez haja, de facto, gente a mais, e a poluição, em todas as suas formas, ganha certamente proporções de cataclismo. Quanto aos recursos da Terra, se nos lembrarmos de que nada se pode tirar donde não haja, não custa a acreditar que se caminha para uma pauperização das fontes de energia e de subsistência que permitiram, até agora, melhor ou pior, a vida dos homens. 
Resta saber, porém, se o remédio está, como disse o Dr. Gabor, em «fazer congregar a evolução da ciência inteiramente em novas conceções biológicas», o que pode significar uma forma de planificação eugenística para «poupar a humanidade a uma crise de crescimento desmesurado». Tudo se passaria, se não interpretamos mal, como se o número de habitantes da Terra tivesse de ser cientificamente controlado em cada geração de acordo com os alimentos disponíveis, algo como o que sempre aconteceu entre as espécies animais, que têm de sofrer passivamente as flutuações da pitança e de resignar-se à redução a níveis viáveis quando a sua própria «explosão demográfica» venha a tornar-se insuportável. 
Mas o homem é o ser racional entre todos os seres que constituem a população animal da Terra. Pela razão que em si habita, libertou-se da sujeição cega à natureza e afeiçoou-a às suas necessidades. Errou muitas vezes, emendou-se e insistiu no caminho, e hoje, vivida uma história de milénios, acha-se, ao que parece, diante da possibilidade de desaparecer da face da Terra, não, como chegou a imaginar-se, através do desastre nuclear, do envenenamento radiativo, mas simplesmente, absurdamente, porque comeu tudo quanto havia para comer, ao mesmo tempo que sujava a mesa e a toalha... 
Importa pois saber (se, como se presume, não há nenhuma entidade demoníaca friamente apostada em fazer-nos desaparecer do mundo...) em que mãos se encontram de facto os destinos da humanidade. Já hoje centenas de milhões de seres humanos não comem quanto deveriam, embora os alimentos existentes bastassem para tal, se fossem produzidos e distribuídos em estrito acordo com as necessidades da humanidade. Estes males só poderão agravar-se com o aumento da população e com o desperdício das riquezas naturais, mas isto não há de significar que a «recessão demográfica» por alguns desejada se faça em termos de discriminação entre povos ricos e pobres. Pelo princípio dos vasos comunicantes, o lado «cheio» tende preencher o lado «vazio», porventura esvaziado para que isso mesmo aconteça... 

in "As opiniões que o DL teve"
25/05/1972

(NR: Bold meu)

sábado, 11 de junho de 2016

Crónica "A resistência renegada" (9/3/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica publicada no "Diário de Lisboa", crítica sobre a forma como o esquecimento propositado de alguns, semeiam o branqueamento dos factos e atrocidades cometidas contra o ser humano, ou o paradigma de que se reveste a reescrita da história.
Rui Santos 

Fotografia de 1983 - Marcha pela Paz

"A resistência renegada"
9 de março de 1972

"Nas épocas de convulsão, de crise continuada, os homens dividem-se por categorias de comportamento: aqueles que vivem acima da sua própria cabeça e aqueles que vivem abaixo dos seus próprios pés. Se há uma guerra e um país é ocupado, os primeiros são os resistentes, os segundos os colaboracionistas. A massa que flutua entre estes dois extremos tem como característica principal a passividade, mas mesmo esta se partilha entre a resistência e a colaboração. Donde se concluirá, se a interpretação não é forçada, que a neutralidade é impossível e contrária à própria natureza humana, para abusar uma vez mais desta cansada expressão... 
A última guerra (referimo-nos à que ocorreu entre 1939 e 1945, não à guerra de hoje ou de ontem, aqui ou além) pôs em confronto ou ao lado dos exércitos nacionais um outro exército, sem uniformes e às vezes sem armas, que passou à História com o nome comum e heróico de Resistência. Não é exagerado dizer-se que este exército e as razões da sua existência e ação não se extinguiram nunca. Desde o fim da guerra (daquela) sempre tem havido quem ocupe e quem resista... 
Julgar-se-ia, porém, que quando a morte passasse a rasoira niveladora, deitando definitivamente os que de pé se batiam contra ou a favor da humanidade, quando o tempo assentasse as cinzas sobre as cinzas - julgar-se-ia, dizemos, que só aos vivos e ao futuro competisse a próxima luta e que aos mortos coubesse apenas a função de exemplo, para edificação das gerações. Parece, contudo, que não é assim. Os vivos lutam numa frente tão ampla que chegam a combater contra os mortos, e o que temos diante dos olhos é também uma necromaquia - se a palavra existe... Que se há de pensar, por exemplo, diante desta notícia assustadora vinda de Roma: «No cemitério de Milão foram arrancadas placas dos túmulos dos resistentes mortos pela libertação da Itália.» 
Sítios que julgaríamos serem lugares de meditação, fontes de coragem, surgem subitamente como alvo de um ódio irracional que contra as próprias pedras inertes se encarniça. Os homens que são pó debaixo daquelas pedras viraram as costas à tranquilidade, à segurança, à própria vida, porque para eles a pátria havia sido algo de concreto e realmente vital, e não um conceito abstrato, vazio de sentido, sem raízes nem sol por cima delas. E é talvez a força do seu testemunho silencioso que está desencadeando o furor daquele perigo que se suporia extinto ou, quando muito, adormecido por longo tempo. Agora se vê que a fera se move, que tenta uma vez mais a conquista do mundo, em nome dos mesmos princípios básicos da sua doutrina. 
Em Milão, arrancam-se pedras com os nomes de homens que lutaram pela liberdade da Itália, a troco de coisa nenhuma. Em Washington, os membros do Partido Nazi Norte-Americano passeiam-se fardados, levando à frente o seu Führer particular e vão defender os racistas brancos, que nós julgámos terem todas as condições para se defenderem a si próprios... O dragão ensaia as forças, afia as unhas, tateia à procura de pontos fracos - e a História avisa-nos de que este é somente o primeiro passo. Outros se seguirão, numa espécie de engendramento contínuo de violências, se estes sintomas não forem rigorosamente interpretados. Se o mundo que hoje laboriosamente acede à democracia não se opuser com firmeza ao alastrar do Grande Mal." 

in "As opiniões que o DL teve"
09/03/1972

(NR: Bold meu)