Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Anabela Mota Ribeiro entrevista Pilar del Río - Público (15/11/2009)

"Pilar del Río - A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes"

(fotografia de Enric Vives-Rubio)


Aqui, link via jornal Público, em http://www.publico.pt/sup-publica/jornal/pilar-del-rio-a-sorte-e-sermos-os-dois-tao-transgressores--tao-rebeldes-18147924

Aqui, link via site da entrevistadora, em http://anabelamotaribeiro.pt/pilar-del-rio-85027


"Pilar del Río"
"Mesmo depois de ser Pilar Saramago, ela continuou a ser Pilar del Río. Mesmo depois de ter abdicado em favor do talento dele, do projecto dele, continuou a ter identidade própria, vida própria. Aparentemente vive em função dele. Mas não.
É certo que abandonou o seu projecto pessoal, aquele que existia até José, para se tornar a tradutora dele, a assistente dele. Sem custo? “O Nobel complicou um pouco as coisas. Foi um período tão agitado que não era possível conciliar tudo. Eu acompanhava-o sempre. Ele não podia ir à América sozinho, ou a outros sítios”.
Mas o Nobel foi década e meia depois de ela ter chegado. Tanto tardou em chegar, escreveu ele. Entretanto ela já tinha percebido que é habilidosa para a escrita, mas não talentosa. Que o talento é dele. Com maiúscula. Era jornalista. É. Trabalha ainda para uma rádio espanhola, escreve artigos eventuais. “A terceira entrevista que cancelei, para um jornal de domingo em Espanha, (uma delas foi com a Graça Machel), deu-me tanta raiva que deixei de as fazer. Talvez tenha feito uma a Norman Mailler, mas sem continuidade”.
Gere a máquina. Ocupa-se da Fundação. Levou-o para Lanzarote. Organiza as casas de Lisboa e Madrid. Agarra-lhe pelos colarinhos e não o deixa morrer, escreveu ele. Sorri e faz o jantar. Faz telefonemas. Dá-lhe espaço para trabalhar. Tratam-se por cariño. Mas também pelo nome próprio, muitas vezes.
Fala-se muito da influência de Pilar em Saramago. Não apenas na evidente influência na vida pessoal, mas no curso da carreira do escritor. Ela recusa a sua importância, reage de forma virulenta. De certo modo, reage como ele. São muito parecidos.
Foi isso que perceberam quando se conheceram. Tarde na vida dele, escreveu ele, e tão a tempo. Como adiante se diz, ela não tem ainda a idade que ele tinha quando a conheceu. Pilar tem quase 60 anos, tem ainda a vida pela frente. Há uma vida para trás. É dessa que se fala nesta entrevista. Com Caim por perto.


Lê-se em Caim: “Os tempos do jardim do éden (…) foram-se esfumando na memória até aparecerem como inventos não vividos, como algo que teria sido outra vida, outro ser, outro diferente destino”. No seu caso, há um destino anterior a Saramago.
Todos temos a sensação de experiências não vividas, de memórias que não são nossas, mas que fomos assumindo. Eu devo ter menos imaginação que isso... Não tenho a percepção de [ter tido] uma vida anterior. Creio que tudo se encaminhou para chegar a este ponto. Tenho um fio condutor, desde que nasci, em 1950.

Quem era essa que está para trás, e que não conhecemos, e que veio dar a esta que é agora, e que conhecemos?
A maioria das minhas colegas de escola cumpriu o seu destino profissional, com êxito ou normal; sobretudo cumpriu o seu destino de esposa burguesa, bem instalada, com filhos loiros. Desde cedo soube que isso não me interessava. Porque me parecia que o mundo era muitíssimo maior. Houve um momento em que o mais sublime que podia encontrar era a religião. Ser missionária, ajudar outras pessoas, outras civilizações, outras culturas. Depois cresci, descobri a literatura, percebi que o mundo tem presente, passado, futuro, e que tudo pode estar em nós. A ler, não tenho necessariamente que ir aos sítios, posso trazer outros mundos até mim. E sempre fui recusando a ideia da mamã burguesa, da dona de casa burguesa...

Porquê essa recusa tão veemente?
Entrei cedo para a política, para a militância, para o jornalismo, juntei-me à revolta estudantil. As razões da recusa: [a vida burguesa] parecia-me uma perspectiva curta. Sou a mais velha de 15 irmãos. Aprendi uma frase de Jesus Cristo: “Quem é a minha mãe? Quem são os meus irmãos?”. Nunca me atraíram os laços biológicos tanto como os laços humanos. Estar em contacto com as pessoas pelas afinidades.

Fale-me da relação com os seus 15 irmãos, com a sua família.
A minha mãe estava sempre grávida, e eu fui sempre uma segunda mãe. Ia à escola, apenas, fazer os exames, porque passava muito tempo em casa a ajudar. Mesmo durante a faculdade, tinha aulas à noite para poder estar de manhã em casa. A relação com a minha mãe era normal, cada uma com o seu espaço. Não éramos de mostrar carinho e afecto o tempo todo. Somos gente dura e asceta, mas com muita solidariedade. Quando alguém fica doente, tem 14 a cuidar de si. Quando a minha mãe morreu, fizemos-lhe uma festa enorme, com os melhores cantores, de rock, flamenco, tradicionais, Paço Ibañez... Todos vieram a essa festa-homenagem. Mantemos a casa tal como gostava. Sabemos que manter a casa é manter a união dos 15. Fazemo-lo para que a casa tenha vida permanente. Assim, a minha mãe, de alguma forma, continua viva.

Ela era verdadeiramente a matriarca? Ou o pai era a figura tutelar?
Ela era uma matriarca, mas era uma vítima. Vítima de maus-tratos. O meu pai era um fascista, um fanático religioso – tinha tudo de Franco. Era também uma vítima; apanhou o final da guerra, foi educado no nacional catolicismo. Era uma pessoa desprezível. Encheu-nos de medo do pecado, disto e daquilo. Com o meu pai não tínhamos relação nenhuma. Víamo-nos todos os dias, mas não tínhamos relação.

Existiu uma ambivalência de sentimentos? Houve um momento em que percebeu que ele era desprezível e simultaneamente digno de amor?
Eu não amava o meu pai. Um homem que faz 15 filhos a uma mulher não é respeitável! Ele respeitava Franco, respeitava o nacional catolicismo. Era respeitado pelo Franquismo, pela igreja. Tudo isto me parecia irracional, animalesco. A partir de determinado momento, deixámos de discutir. Se tinha que o ajudar em algum aspecto, económico ou outro, ajudava-o, mas nunca teve o meu carinho, nem o meu respeito.

Nem quando era pequena? Ele nunca foi para si o pai herói? O pai-Deus, bom, grande, omnisciente, omnipotente.
Nunca tive essa ideia. Pergunto-me como é possível que haja mulheres que continuam a sentir fascinação pela figura do pai. É a figura do impositor, do guerreiro, o depositário da autoridade divina e social. Eu rebelo-me contra isso, geneticamente e ideologicamente.

Quando se apaixonou por José, que deve ser mais ou menos da idade do seu pai...
É até um pouco mais velho! [risos]

…reconciliou-se um pouco com a figura paterna?
Não! Não procurei um pai. Não o procurei em José. Procurava, e encontrei, um homem.

Qual era o seu destino quando era pequena? Aquele que o seu pai e a sua mãe, ou a sociedade em que vivia, traçaram para si?
O meu pai e a minha mãe não tinham tempo. Isso é literatura barata de filho único – o que os pais querem [para nós]... O meu pai andava a ganhar a vida, e a minha mãe estava em casa a criar filhos. O meu pai fazia muitas coisas (até pilotar aviões), mas basicamente trabalhava em seguros. E nós estávamos loucos por ser maiores de idade e poder sair de casa. O meu destino de pequena era ser missionária. O que sempre quis foi partilhar.

Porque é que quis partilhar por essa via?
Porque era católica. Depois dei um salto do catolicismo e da caridade para a solidariedade. Sou comunista. Sou uma militante que põe a sua inteligência e a sua capacidade de trabalho em função de ideias, que julgo serem aquelas que favorecem quem mais necessita.

Chegou a ser freira?
Cheguei a fazer votos privados. A igreja tem institutos seculares e ordens religiosas; a diferença entre uns e outros é que uns têm votos públicos, como as ordens das carmelitas ou dos jesuítas, e outros têm votos privados; a instituição teresiana, de que fazia parte, tem votos privados.

Porque é que decidiu por esses e não pelos públicos?
Porque era a escola onde eu andava, as pessoas que conhecia. Eram extraordinariamente modernas, não eram nada mágicas. Não se podia ser teresiana sem curso universitário. Não era importante estar com hábito de freira, o importante era o contributo que se dava. Reconhecia-se uma pessoa como cristã por ser muito boa, sólida, amável, que servia os outros. Segui o Concílio do Vaticano II com paixão, porque nessa escola seguia-se a modernização, a mudança, a fraternidade universal, o encontro com as outras religiões. A reflexão sobre Deus não ocupava muito tempo, o importante era o que estávamos a fazer.

Era isso que a atraía?
Sim. Trabalhávamos em função do outro, sem beatice nenhuma. Deixámos de levar véu para ir à missa: púnhamo-nos diante de Deus, às claras, tal como somos, sem nos encobrirmos.

Porque é que, havendo essa rejeição do que se vivia em casa, desses valores, não recusou do catolicismo?
Distinguia claramente. Uma coisa era Franco... (bem, o meu pai e Franco eram a mesma coisa); a religião era outra coisa. Por muito que Franco fosse com pompa à missa, eu não vinculava a religião e a mensagem do evangelho a Franco. O meu pai era o poder, era Franco, não era Jesus Cristo.

Quando é que se distanciou da igreja católica, ou de Cristo?
Bem, eu próxima de Cristo não estive nunca, nunca tomei café com ele! Não houve uma ruptura. Li a certa altura no evangelho: “Amai o próximo, tal como Eu amei”. O que penso é que nos amamos uns aos outros porque sim, independentemente de que nos amem ou não. É uma evolução natural, como o crescer das unhas. Mas é um senhor com quem gostaria de conversar, e ele também gostaria de conversar comigo. Há coisas nele de que não gosto, e com certeza há coisas em mim de que não gosta. Parece-me ser uma pessoa interessante, mais interessante que Maomé, que São Tomás de Aquino, que o Papa. Tal como Santa Teresa me parece mais interessante do que o Papa.

Santa Teresa?
Uma mulher forte que enfrentou o mundo, que lutou com reis, com a autoridade. Que escrevia como escrevia. Eu sonhava com fazer coisas. E continuo a ter o mesmo sonho: continuo a acreditar que tenho a vida pela frente, mesmo com 60 anos. Surpreende-me pensar no que ainda posso fazer. Não tinha sonhos de grandeza nem de heroicidade, tinha sonhos de servir. Continuo a cumpri-los. É uma vida banal.

É uma heroicidade no dia-a-dia?
Não é heroicidade. Quando se é a mais velha de 15 irmãos, é preciso fazer comida e camas, aprender a descascar batatas muito rápido, cozinhar rápido, a pôr a mesa, a levantar a mesa... Um dos poucos caprichos que tive na vida foi fazer umas aulas de teatro na faculdade. Adorei poder representar e ser outra pessoa.

Era uma pessoa discreta? Estava tão ocupada a organizar a vida dos outros que achava que ninguém olhava para si?
Continuo a achar que ninguém repara em mim. Continuo a sentir que sou invisível. Somos um clã de invisíveis, e estou na vanguarda desse clã... Em miúda era reconhecida pela capacidade de organização, as pessoas depositavam confiança em mim, votavam em mim na faculdade e no trabalho, quando organizávamos os sindicatos. Somos o que fizemos de nós mesmos – “levantados do chão”, como diria Saramago. Nós próprios, com as nossas leituras, as nossas emoções, quando escolhemos uma vida em detrimento de outra, quando optamos por uma forma de comportar-nos, de vestir-nos, somos fruto de nós mesmos, não dos nossos pais.

Não tinha a noção de ser bonita?
Não. Às pessoas da minha geração, não nos interessava se éramos altas ou baixas, gordas ou magras. Não sou capaz de dizer que tamanho vestia quando era adolescente.

Isso era considerado frívolo? E havia o Franquismo para combater…
Não fazia parte das nossas conversas. Quando casei pela primeira vez, ou quando me divorciei, não queria ser observada por alguém que eu não observasse também. Não queria ser um objecto de desejo. Fui consciente disse na maturidade. Quando me divorciei, vesti-me como uma freira. Vivi muito tempo com roupas largas, compridas. As minhas amigas, hoje, dizem-me que estou irreconhecível, se visto umas calças mais justas... Se visse tudo o que tenho em Lanzarote…, é como roupa de freira, hábitos. Eu podia estar com quem quisesse, ter namorados, fazer o que quisesse, mas tinha que ser mútuo.

Olharem para si, cobiçarem-na sexualmente, sem a sua conivência, era sentido como uma usurpação?
Sim. Incomodava-me profundamente. Era uma agressão ir na rua e ouvir um piropo. Era um problema, porque ficava como uma fera, e respondia... Mas porque é que tenho que ir na rua e ouvir alguém dizer “guapa!” ou “tia buena”?

Fez votos privados. A que é que estava obrigada? Viveu em comunidade?
Vivi em apartamentos, com as teresianas. Antes de acabar o curso, saí. Não por vontade própria, mas porque elas me disseram que eu não era feliz. Respondi que não era feliz, mas que viria a ser – “Quem é feliz?, isso é uma concepção burguesa...”. Estava empenhada em viver uma vida que não era a minha.

O que é que elas perceberam que ainda não tinha percebido? O que era isso de “não ser feliz”?
Era demasiado insubmissa, no fundo era isso. Aceitava com a razão, mas saía-me sempre a rebeldia. Não sou uma pessoa cómoda numa comunidade que precisa de ter as suas regras de submissão. Aperceberam-se que existia um conflito que mais tarde ou mais cedo iria estalar. E por isso, com amizade, disseram-me que aquilo não era para mim.

Nesses anos da faculdade, chegou a pensar em ser escritora?
Eu escrevia muito, mas o destino fez com que perdesse tudo o que tinha escrito.

Era bom?
Era adolescente. Certas coisas não estavam mal, escrevia melhor nessa altura que agora (entretanto veio o jornalismo e estragou-me). Mas não pensava em escrever romances; escrevia porque gostava. Como quem escreve um diário, ou como quem escreve contos, poemas.

José nunca chegou a ler nada desse tempo?
Não, porque os perdi numa mudança. Tinha coisas interessantes, coisas que não eram minhas. Tinha um conto de Montalbán de que gostava muito, dedicado ao meu filho.

Apesar de recusar a vida burguesa, da mulher casada com dois ou três filhos, preferencialmente loiros, a verdade é que chegou a casar e a ter um filho.
Não éramos um casal burguês. O filho era loiro, a genética tratou disso. Fui cobarde; podia ter vivido a minha vida de acordo com as minhas regras, e não o fiz para não dar um desgosto à minha mãe. A minha mãe seria a vítima da conversa insidiosa do meu pai... “Vês? A viver em pecado!” Consegui convencer o meu companheiro a casar, inclusive pela igreja, baptizámos o nosso filho.

Como viveu, no fim da adolescência, com todo esse processo, a descoberta do corpo e da sexualidade?
Não fazia parte da minha vida. Falávamos do amor romântico, se um fulanito tinha olhado para nós, ou se tínhamos ido ao cinema com alguém que nos tinha dado a mão.

Quando é que se descobriu como mulher?
Que era uma mulher, sabia desde que tinha três ou quatro anos, e me punha num banquinho e engomava. A descoberta da sexualidade, foi tardíssima. Uma vez, falando com um amigo, estávamos a comentar as “primeiras vezes”; quando chegou a minha vez disse: “Filho da puta do Franco!”. Vivíamos numa sociedade tão opressiva... Nos dois primeiros anos da faculdade, que falasse de se ter deitado com alguém, havia em Granada, um rapaz. Em Sevilha, tive uma amiga que era casada e que teve um amante; pediu-me que a ajudasse, dizendo que estava comigo... Aquilo fascinava-me, parecia coisa de livros, não era vida real.

O sexo, o corpo, de que ainda não tínhamos falado, parecia estar ausente da sua vida de todos os dias, mas é uma coisa essencial.
Não naquele tempo. Naquele tempo que fazíamos? Saíamos ao fim-de-semana, passeávamos rua acima, rua abaixo, não fumávamos, não bebíamos, sentávamo-nos nas portas das casas, líamos fragmentos de livros, tínhamos conversas sobre política. Tinha 20 anos quando descobri uma pizzaria, e parecia-me uma coisa perniciosa. Era outra vida, vínhamos de uma guerra, de duas guerras (mundial e civil).

De uma guerra fratricida. Como se em cada família houvesse um Abel e um Caim.
Na minha família eram todos Abel. Comecei a saber dos horrores que aconteciam com a gente de esquerda somente quando cheguei à faculdade.

Lê-se na obra de Saramago: “É como se fossem duas pessoas, Ninguém é uma só pessoa, tu, Caim, és também Abel”. Quando é que descobriu o Caim que há em si?
Em mim não há nenhum Caim. Nunca vou matar um irmão. Não vou matar um ser humano tal como não vou matar uma formiga, ou mosca, ou barata. Creio que José tem muito [dessa ambivalência], e por isso escreveu O Homem Duplicado. Os escritores têm essa espécie de esquizofrenia, que os leva a criar tantos personagens e mundos distintos. Eu não sou nada criadora. Posso ser, rotundamente, o Sancho Pança.

Nunca identificou em si um lado mais odioso, mais maldoso...
Ai sim, posso ser muito má, mas não é Caim. Abel era explosivo. Não tenho a pulsão fratricida, da vingança, da culpa. Posso ter zangas, gente que desprezo profundamente (os imorais, gente que põe os seus interesses antes do bem comum, gente que vive a invejar).

Consegue imaginar como leria este livro aos 20 anos?
Se tivesse 20 anos isto parecer-me-ia terrível... Não o livro. A história de Caim. Porque lhe parece que tenho tanto ódio à figura paternal? Só pelo meu pai?, serei eu assim tão tonta? Eu vi os outros pais, e os outros pais da literatura. Acha que alguma vez, como cristã, entendi que um pai mandasse o Seu filho sacrificar-se por toda a Humanidade, até morrer, em tortura e sofrimento, na cruz? “Era um acto de amor.”? Mas porque não veio Ele, porque não veio o pai? “São todos um.” Mas quem sofria era Cristo, na sua humanidade! Mesmo sendo freira e cristã, a figura de Deus Pai nunca me pareceu nada, nada simpática.

A sua simpatia era pela Virgem Mãe?
Não, a história da virgem e de virgindade dá-me muito que pensar.

Então quem é a figura referencial?
Cristo.

Encarnava a bondade e os valores que perseguia, a solidariedade...
Exactamente, e a rebelião contra a hipocrisia, contra o mercado e os mercadores, contra as instituições.

A minha pergunta era se o livro não a revoltaria, como hoje revolta os católicos que o lêem.
Li algumas coisas nessa altura que eram consideradas heréticas, e não me revoltaria porque o entenderia como uma leitura de outro ser humano. Acha que fico ofendida por Marx dizer que “A religião é o ópio do povo”? Em muitas civilizações e muitas culturas, é. Noutras, não. Todas as generalizações são injustas. Eu teria lido este livro com muitíssimo prazer, porque está bem escrito. Tal como li com imenso prazer livros de autores cuja linha de pensamento não coincide com a minha.

Quando tinha 36 anos e se deu o encontro com Saramago, já estava distante do catolicismo?
Sim.

O afastamento do catolicismo teve que ver com a aproximação ao comunismo? Quando é que se deu?
Durante a faculdade, nos meus vinte anos. Quando morreu Franco, tinha vinte e cinco anos, era militante, estava na clandestinidade.

Comemorou?
Não. Foi dito publicamente que tinha estado numa reunião a brindar com champagne. Mas não brindei. Estava grávida e o cheiro do álcool causava-me umas náuseas insuportáveis. Fiquei contente, pareceu-me fantástico que tivesse morrido esse senhor, e sobretudo que tivesse morrido o regime.

Cerca de dez anos mais tarde, pôs-se a caminho de Lisboa para conhecer o autor de uns livros que a tinham impressionado. Havia dentro de si o desejo de ser admirada por aquele homem que tanto admirava?
Sabe, os jornalistas desmistificam muito a figura humana. Eu já tinha conhecido muita gente, gente admirável. (Durante muitos anos fiz informação política. No outro dia em Itália contei que conheci o Aldo Moro). A época da mistificação já tinha passado. Para nós, [jornalistas], as pessoas são material de trabalho.

O que isso quer dizer também é que era pouco carente. Não precisava que aquele que admirava a confirmasse, a estimasse, quisesse a sua opinião.
Não, não, não. Ponto número um: não vinha ver Saramago. Vinha seguir os passos de Ricardo Reis e a linguagem de Ricardo Reis.

Conte a história da viagem.
Éramos catorze, mas à última da hora, toda a gente foi caindo. Estava tão decepcionada que um deles disse: “Não te preocupes, eu levo-te!”. Para mim era importantíssimo, já estava divorciada, tinha deixado o meu filho num sítio para poder vir, e de repente, um “não”… Quisemos ficar no Hotel Bragança, vimos que era uma casa de putas, e fomos para o Hotel Mundial.

Foi do Pessoa que foi ter a Saramago. Realmente não lhe interessava Saramago?
O amigo com quem vim perguntou-me: “Se não te interessa o escritor, por que lhe telefonaste?” Porque gosto de agradecer aos escritores. Tenho essa norma: as cartas são para responder, assim como os emails, e os livros são para agradecer. Como tinha oportunidade de chegar a Saramago, disse que vinha e que gostaria de o cumprimentar. Não era tanto para o conhecer, mas sim para lhe agradecer o prazer que me tinha proporcionado. Nunca o tinha visto, foi tudo por telefone. Combinámos ver-nos, tomámos um café, fomos visitar a campa de Fernando Pessoa, eu vinha com o meu Livro do Desassossego, e pronto. Não havia nada de mitomania, havia maturidade profissional.

Quando é que percebeu que a sua vida tinha mudado por causa do encontro com José?
Quando nos encontrámos. No dia seguinte telefonou-me para pedir a minha morada. Na época tinha um meio-namorado, e quando cheguei a Espanha disse-lhe que já não o queria ver mais. Fiquei livre, sem relações, sem amante. Sabia que algo ia acontecer. E aconteceu. Uns meses depois, José chegou, sem que tivesse havido uma carta, uma comunicação, nada. Apareceu em Sevilha. Eu sabia que ia aparecer, mais tarde ou mais cedo.

Como é que sabia?
Sabia. E de Junho a Novembro, que foi quando chegou o José, não houve mais ninguém na minha vida. Ninguém se podia aproximar. Eu estava à espera dele.

Porque é que a impressionou tanto?
Não me impressionou. Éramos tão parecidos, partilhávamos tanta coisa que era impossível que não as compartilhássemos. Não o conhecia pelas duas horas que passei com ele, conhecia-o pelo que escrevia.

O que é que conhecia? Nesses meses, continuou a procurá-lo a partir do que ele escrevia?
Não podia. Em espanhol apenas estavam traduzidos dois livros, o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando nos conhecemos ele estava a escrever A Jangada de Pedra. Está lá descrito o nosso encontro: de outra maneira, noutro sítio, mas há uma mulher, e de repente ele sabe que é aquela a mulher, que tem de ser. Ele sabe que algo se passou, e ela sabe, não se verbaliza, mas ambos preparam as suas vidas.

Não tem ainda a idade que ele tinha quando a conheceu. Saramago tinha 63, Pilar 36. Existe uma grande diferença de idade entre os dois; não sentiu isso nunca como uma dificuldade?
Não. A idade está no bilhete de identidade, em nenhum outro sítio. Ele tinha todas as idades, tal como eu tenho todas as idades. Num momento determinado podemos ser crianças e noutro momento dois adultos cansados.

No livro, Caim diz a Lilith que conheceu o futuro. “Era num presente que me encontrava, o que havia sido futuro tinha deixado de o ser, o amanhã era agora”. É uma espécie de ubiquidade: estar em diferentes idades, em diferentes tempos.
Pode ser outro presente, mas tudo é sempre presente. Caim está sempre com o seu burro, com a sua história, sempre na sua conversa com Deus, em distintos momentos.

Outra das ideias centrais no livro é a do desentendimento com Deus. O episódio da Torre de Babel é elucidativo a esse respeito. Pode falar dos seus desentendimentos com Deus, com José, consigo própria?
O desentendimento entre Deus e Caim foi porque cada um tinha um projecto distinto. Deus queria uma coisa inumana, e os homens queriam coisas humanas. Com José não há desentendimento, porque queremos o mesmo. E comigo mesma, tenho muitos desentendimentos, mas aprendi a superá-los cada dia, a organizar as minhas contradições, a dar-lhes forma. Para isso, pode parecer infantil…, mas serviu-me escrever muito. Para clarificar.

Ainda Caim: “Faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos, e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem.” Foi uma bênção terem encontrado as palavras que dissessem quem são?
Encontrar as palavras, vamos encontrando todos os dias. A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes, e termos tanta força vital que não nos cansamos nunca de começar. E se no dia anterior houve uma história disparatada, ou chunga, ou feia, no dia seguinte começa-se de novo. Não há nem filhos, nem pátria, nem rei, nem partido, que nos obrigue a estar juntos. Alcançámos, em todos estes anos, 20 e tal, um nível de liberdade que nos permite dizer todas estas coisas, enfrentar o que seja, e estar juntos porque queremos começar juntos. Isso é que é ser livre, para ficar e para ir. Não há uma única convenção social que nos ate. Não temos uma “puta atadura” pequeno-burguesa. Quem tem uma mente pequena não entende a nossa história, banaliza-a.

Como assim?
“A jornalista!”, “o Nobel­!”, “a jovenzinha que faz reviver o senhor velhote!”, “o velho é seu pai...!”

Pelos anos fora, por que é que não quis escrever? Porque o escritor é ele, o seu marido?
O meu projecto não passa por escrever. A educação em pequena, como missionária, era no sentido de dar a conhecer, de ajudar. E continua a ser essa: dar a conhecer a outros. Quero ser uma ponte para outros, não quero escrever o meu livrito. Quero colaborar para que as grandes obras continuem por aí, se recuperem, tenham este presente.

Nunca teve inveja por não ter aquele talento?
Não, eu tenho o meu. Não tenho o talento da escrita. Tenho a habilidade. Tenho outras coisas: sei cozinhar, sei sintetizar...

Estou a ouvir a menina que percebeu que era mulher quando a puseram a passar a ferro com três ou quatro anos…
Mas é verdade, eu adoro cozinhar! Parece-me uma arte maravilhosa. Tenho outras habilidades, não podemos ter tudo.

Foi essencial para a conquista do Nobel?
Não!

É uma ideia enraizada: a de que sem o talento organizativo da mulher que primeiro difundiu Saramago em todo o mundo hispânico, e o pôs na rota certa, o génio criativo não seria suficiente. Como é que assiste a esta lenda?
Com vergonha da estupidez e da imbecilidade de quem a diz e repete até à exaustão. Sou uma jornalista espanhola, Espanha não influencia nada, não sou agente literária de Saramago. Posso ter sido importante na vida pessoal de Saramago, mas não na literária. Saramago recebeu o Nobel porque escreveu um livro que mereceu a aprovação dos 18 membros da academia sueca, que todos os anos valorizam a produção, que discutem, e não são sensíveis a pressões, a campanhas de marketing, e muito menos ao que diga uma jornalista, duas ou três ou cinco. Os membros da academia podem enganar-se, e já se enganaram algumas vezes, mas não é o caso de Saramago.

Como é que tem assistido à polémica que envolve Caim?
Estes colunistas de merda, tão jovens, submissos, obsoletos, em vez de pensarem: “Um tipo com 86 anos que enfrenta Deus, que enfrenta a sociedade… Que sorte ter um homem com esta capacidade de rebeldia!”, perguntam: “Quem é? Quem escreve? Não gosto!”. Estou indignada, de ver o pouco livre que são os jovens, o quão convencionais são, o quão cansados estão. Estão assustados porque José tocou um livro sagrado. Mas quem disse que o livro é sagrado? Que mentes tão pequenas julgam a obra pública. Não conseguem ver a grandeza nem de uma ponte nem de um ser humano. Têm uns óculos que lhes deve dar para verem o tamanho do seu pénis... pequenino.

Saramago faz-lhe constantes dedicatórias: “À Pilar, que não deixou que eu morresse.” “A Pilar, todos os dias.” “A Pilar, que não havia nascido, e tanto tardou em chegar.” “A Pilar, minha casa.” A de Caim diz: “A Pilar, como se dissesse água.” Que acha que quer dizer?
Parece-me que água é água. Uma coisa clara, e, quem sabe, necessária. Mas que sei eu?, fiquei tão perplexa, e tive um problema para traduzir... “A Pilar, como si diciera agua.” Ou “... como dice agua”.

Se escrevesse, que dedicatória faria para José?
Sou tão discreta, tão dura, tão arisca... Imagina em casa dos meus pais, 15, a beijarem-se todas as noites e todas as manhãs? “Eu já te dei um beijinho a ti? E a ti?!”

Já assisti a manifestações de carinho entre si e José. É uma relação ternurenta, há um toque de mão, um beijo na cara...
Sim, mas mais da parte do José que da minha. Se tivesse que fazer uma dedicatória, seria “Para José, meu amigo.” Porquê “meu amigo”? Porque me parece ser o maior valor, mais que amante. Os amantes vão e vêm das nossas vidas. Os pais, vão e vêm, e por vezes nem vêm. Os irmãos, são estupendos, mas cada um tem organizada a sua própria história. Os que ficam sempre são os amigos. A amizade é o que mais defendo, acima do amor."

(Publicada originalmente no Público em 2009)

Crítica literária, de Ursula K Le Guin, no "The Guardian" ao "Ensaio sobre a Cegueira" (15/04/2006)

(cartaz do filme "Blindness", baseado na obra "Ensaio sobre a Cegueira")

Recupero a crítica literária, de Ursula K Le Guin, no "The Guardian" ao "Ensaio sobre a Cegueira" (15/04/2006).
Destaco, das suas palavras, o assombro com que foi confrontada ao ler esta obra de Saramago. 
Para primeira impressão, confessa-se assustada, ao que, não se dando por vencida, aborda outros livros do escritor, para o entender, para o enquadrar e perceber a sua posição perante a mensagem a transmitir.

(Ursula K Le Guin, aqui pequena biografia, via Wikipédia, 


"Some years ago a reliable friend told me I should read José Saramago's Blindness. Faced with pages of run-on sentences and unparagraphed dialogue without quotation marks, I soon quit, snarling about literary affectations. Later I tried again, went further, and quit because I was scared. Blindness is a frightening book. Before I'd let an author of such evident power give me the horrors, he'd have to earn my trust. So I went back to the earlier novels and put myself through a course of Saramago.

It's hard not to gallop through prose that uses commas instead of full stops, but once I learned to slow down, the rewards piled up: his sound, sweet humour, his startling imagination, his admirable dogs and lovers, the subtle, honest workings of his mind. Here indeed was a novelist worthy of a reader's trust. So at last I could read his great book - or his greatest until its sequel.

Accepting his Nobel prize, Saramago, calling himself "the apprentice", said: "The apprentice thought, 'we are blind', and he sat down and wrote Blindness to remind those who might read it that we pervert reason when we humiliate life, that human dignity is insulted every day by the powerful of our world, that the universal lie has replaced the plural truths, that man stopped respecting himself when he lost the respect due to his fellow-creatures."

This, on the face of it, is an odd description of Blindness, for in that book it is powerless people who insult human dignity - ordinary people, terrified at finding themselves and everyone else blind, everything out of control. Some behave with stupid, selfish brutality, sauve qui peut. The group of men who seize power in an asylum and use and abuse the weaker inmates have indeed abandoned self-respect and human decency: they are a microcosm of the corruption of power. But the truly powerful of our world don't even appear in Blindness. Seeing is all about them: the perverters of reason, the universal liars. It is about government gone wrong.

Very evidently Saramago's novels are not simple parables. It would be rash to "explain" what all the people (but one) in the first book were blind to, or what it is that the citizens of Seeing see. What's clear is that they're the same people, it's the same city, a few years later: one book illuminates the other in ways I can only begin to glimpse.

The story begins with those ordinary citizens, who not so long ago regained their sight and their tranquil day-to-day lives, doing something that seems quite unconnected with vision or lack of it. It is voting day, and 83% of them, after not going to the polls at all in the morning, go in the late afternoon and cast a blank ballot.

We see the dismay of bureaucrats, the excitement of journalists, the hysteria of the government, and the mild non-response of the citizens, who, when asked how they voted, refuse to say, reminding the questioner that the question is illegal. The satire is at first quite funny, and I thought it was going to be a light, Voltairean tale.

Turning in a blank ballot is a signal unfamiliar to most Britons and Americans, who aren't yet used to living under a government that has made voting meaningless. In a functioning democracy, one can consider not voting a lazy protest liable to play into the hands of the party in power (as when low Labour turn-out allowed Margaret Thatcher's re-elections, and Democratic apathy secured both elections of George W Bush). It comes hard to me to admit that a vote is not in itself an act of power, and I was at first blind to the point Saramago's non-voting voters are making. I began to see it at last, when the minister of defence announces that what the country is facing is terrorism.

Other ministers oppose him but he gets what he wants - a state of emergency, then the exodus of the government, by night, from the capital city, which is declared to be under siege. A bomb is exploded (by terrorists, of course, as the media report), killing quite a few people. An attempted evacuation of the 17% of voters who marked their ballots ends in failure, as the government forgets to tell the troops blocking all the roads to let the refugees through. The so-called terrorists in the city, still mild and peaceable, help the refugees carry back upstairs all they tried to take with them - the tea service, the silver platter, the painting, grandpa ...

The humour is still tender but the tone darkens, tension rises. Characters, individuals, begin to come to the fore - all nameless except a dog, Constant, the dog of tears from Blindness. The ministers jockey horribly for power. A superintendent of police is sent into the city to find the woman who did not go blind when everyone else did four years ago, sought as the link between the "plague of white blindness and the plague of blank ballots". The superintendent becomes our viewpoint and mediator; we begin to see as he begins to see. He brings us to the woman, the gentle light-bearer of the first book. But where that story began with an awful darkness that slowly opened into light, this one goes right down into the dark.

José Saramago will be 84 this year. He has written a novel that says more about the days we are living in than any book I have read. He writes with wit, with heartbreaking dignity, and with the simplicity of a great artist in full control of his art. Let us listen to a true elder of our people, a man of tears, a man of wisdom."

Ursula K Le Guin

"Ensaio sobre a Cegueira" - «E se nós fossemos todos cegos?»

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” - epígrafe da obra
As formas várias de olhar, as formas de ver, o que se observa e o que se repara.
Intuir, absorver informação, interpretar e desenvolver a capacidade de interagir com o mundo que nos rodeia. 
Esta obra, é, se assim se pode dizer, uma grande "porrada", naquilo a que se chama a consciência humana. Encerra em si, e abre, ao mesmo tempo, para o mundo, uma explanação sobre a evolução do ser humano. 
A cegueira que se espalha numa manifestação de epidemia galopante, coloca várias questões apresentadas em patamares diferentes. Podemos observar a questão da precariedade pessoal, quando confrontados com uma deficiência ou diminuição das capacidades individuais; a questão da solidariedade da população, nos seus diferentes planos ou relações. o "eu e o tu", o "eu e o nós", o "nós e os outros"; a intervenção das instituições que garantem e governam as sociedades perante o caos. 
Todos estes níveis de observação, foram colocados dentro de uma enorme metáfora, esquematizados de forma densamente pragmática, tendo em conta, aquilo que é a evolução do ser humano e a sua histórica incapacidade de evoluir em humanidade, num contexto global, que se pretende evoluído e (utopicamente) geradora de todas as condições e princípios básicos com que se deve reger a humanidade.
Esta epidemia, a "cegueira branca", talvez a maior limitação que o ser humano possa sofrer, aqui enquadrada num contexto de massas, de população  afectada, fará descer a "unidade", o conjunto de afectados pela mesma doença, ao seu próprio inferno - a falta de dignidade na perspectiva individual potenciada pelo caos do grupo. 
Saramago, recorre a este "castigo", para demonstrar que a lucidez de espírito dos que vêm, está afectada pela incapacidade do homem gerar e criar valores, como a humanidade, a urbanidade, a bondade, e que, adormecidos sobre o seu próprio egoísmo, perante uma brutal calamidade são obrigados a descer ao nível mais baixo da sua dignidade.
Neste patamar, onde os homens são equivalentes a todo e a qualquer animal, que sobrevive pelo instinto mais básico e primitivo, surge em contraponto com o caos, a imagem da esperança - a imagem do "cão das lágrimas" que lambe o sofrimento da "mulher do médico" e lhe transmite algum conforto.

Quem deverá ler esta obra?
Qual o público leitor alvo?
Homens e mulheres, que conseguem olhar para as atrocidades do mundo, como que, se de um reality show tratasse.

Cuidado... a cegueira... vive e sobrevive, neste pasto, neste caldo de humanidade... 

(o cão que lambe as lágrimas que escorrem
pela face da "mulher do médico")



(...) "Há muitas formas de cegueira. Estamos a falar de cegueiras metafóricas e não de cegueiras reais. Uma forma de cegueira é não querer compreender, é levantar uma barreira para que as coisas de fora não nos venham agredir e há uma infinidade de formas de ser cego. Vamos imaginar que uma pessoa não é cega... e quando diz que não se quer chatear até parece alguém que está consciente do passado do mundo e, simplesmente, não quer que o mundo o aborreça. Essa pessoa não se dá conta que essa é a sua cegueira." (...)

em, "Uma longa viagem com José Saramago"
João Céu e Silva
Porto Editora, página 85




domingo, 14 de dezembro de 2014

Sugestão de Leitura - Revista Digital "Blimunda" n.º 3 (08/2012) - com especial atenção a Jorge Amado

(Capa da revista)

Destaques
"Jorge Amado, cem anos de vida vivida"
"Diário de viagem de Pilar", dos Cadernos de Lanzarote, vol. IV
"Jorge Amado, Vivo", texto de José Saramago
"Livro infantil e promoção da leitura", sugestões
Dois textos sobre a personagem canina 
"O cão, personagem dor romances de José Saramago", por Helena Vaz Duarte
“Entra, chegaste à tua casa”, por Pilar del Río


Pode ser descarregada, gratuitamente para leitura e guardar, aqui

Sinopse
"Não se comemora o centenário de um escritor, celebram-se os cem anos de vida de um ser humano que a qualquer momento pode aparecer numa esquina, com uma camisa branca, ou talvez de flores, com um gesto tão aberto que nele podem continuar a refugiar-se gerações de pessoas, com uma incorruptível amizade, a mesma que o fez cruzar um século sempre acompanhado, tão confortável na sua pele como na sua relação com outros, sempre seus semelhantes. Porque Jorge Amado era dessa estirpe “graças a Deus”, como diria Zélia Gattai quando se definiu a si mesma como anarquista por influência divina.

Jorge Amado e José Saramago poderiam ter tido uma relação mais dilatada no tempo. Teria bastado que Saramago desse o pequeno passo que o aproximaria do grande escritor brasileiro num tempo em que o mundo era jovem, mas o sentido do respeito devido ao mestre levou a que o português seguisse o seu caminho e esperasse que um dia, talvez, acontecesse o que tivesse de acontecer. E assim foi. Saramago não se mostrou perante Jorge Amado de mãos vazias, quando chegou à sua presença e amizade levava – simbolicamente, claro – uns quantos livros que justificavam que ambos se encontrassem e se tratassem por tu. Puderam fazê-lo, fizeram-no e profundamente, porque se a relação entre o escritor da Bahía e o do Ribatejo não abarcou mais de uma década, foi suficientemente intensa para que se contassem medos e projetos, sonhos por realizar, aventuras que ficariam por viver e outras bebidas até à última gota. Os dois escritores conversaram sobre política e paixões, dificuldades e logros, por vezes com picardia, por vezes com uma seriedade quase doutoral que rematavam com uma gargalhada, e daquelas conversas ficam ecos que alguns amigos de vez em quando recompõem aos pedaços. Que pena que a grande Zelia Gattai não esteja aqui para documentar, com a sua prosa fresca e lúcida, aqueles encontros na Bahía, em Paris, Roma, Madrid e Lisboa, aquelas viagens pela Galiza ou pelo norte de Itália, aqueles projetos de contruir pontes sobre rios e mares, sobre oceanos, talvez entre planetas se ali existir o cheiro a canela, que é o cheiro da vida que eles tanto amaram, os três, Jorge e Zélia, José.

Começa agora o ano de Brasil-Portugal. A Fundação José Saramago entra em pleno nesta aproximação porque nasceu também para isso. Celebrar os anos de Jorge Amado no seu dia, no seu mês, é o primeiro passo. Depois virão outras atividades em que se irá contando que os seres humanos não passam, ficam, são imortais enquanto haja quem os recorde e festeje. Com dignidade, lucidez e emoção.

No enterro de José Saramago recordou-se Jorge Amado, o momento em que o avião em que o casal Amado-Gattai viajava teve de fazer uma aterragem de emergência. Então, Jorge, que tinha pânico de voar, pôs-se a pedir aos gritos o jornal, ante o espanto de Zelia: “Mas Jorge, vamos morrer e tu pões-te a pedir o jornal?” “Queres que morra sem saber o que passa no mundo?”, foi a resposta do marido. Pois se no enterro de José Saramago se recordou esse facto para dizer que no mundo, segundo os jornais, o que se havia passado era que tinha morrido um homem bom, um imprescindível, hoje pode acrescentar-se que os meios de comunicação, as livrarias, as bibliotecas contam nestes dias de agosto que um grande escritor está em festa de aniversário e nós com ele. Que não se foi, por isso, contrariando o jornal mexicano La Jornada que escrveu em manchete quando o escritor do Brasil morreu “Adiós, Amado”, hoje, na Fundação José Saramago o que dizemos, e connosco os que visitam a exposição e leem os seus livros é “Olá, Amado”."




sábado, 13 de dezembro de 2014

"Don't lose Yourself" de Laura Veirs, música inspirada na obra "Ensaio sobre a Cegueira"

Laura Veirs
Álbum -  "Saltbreakers"
Música - "Don't Lose Yourself"

(Laura Veirs)


(... ) "As questões sociais também fazem parte do repertório de Laura Veirs, que interpretou um tema sobre «todas as guerras», mas que no palco do Alquimista dedicou às circunstâncias do último conflito no Iraque. As problemáticas da civilização humana têm eco nos livros de José Saramago. Fã confessa da literatura do escritor, em especial da obra "Ensaio sobre a Cegueira", a songwriter afirmou que pretende escrever uma canção com passagens do livro, como aquela que citou de uma tradução em inglês: "Don't Lose Yourself". (...)

Don't Lose Yourself - Letra Original
I felt my vocal chords weakening
I felt my concave thoughts
I felt my voluntary blindness
For staring straight into the sun
The romantic air of your eye patch
Called me across the room
I clung there and danced with you silent
Admired your divine tattoos

We slept in the shadow of a cedar tree
We made love on the rising tide
We smelled the perfume of the waxing moon
We dreamt of all the friendships kind
We touched the blood of the black cat
We pet the mammoth dog of tears
In the flickering light we were laughing
Necessity conquers fear

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Dreaming we were stones in black stillness
Dreaming of the death of the sun
Waking to a world of white blindness
Painted eyes of the holy ones
The death of the word was upon us
And the discipline of the wind
We see less and less all the time, dear
Just look at this mess we are in

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Staring at the entrance to the mine
I prayed for your wounds to close
Tiger ointment and a cosmic collision
And the crucifixion of the rose

Don't lose yourself, don't lose yourself
Don't lose yourself, don't lose yourself
Don't lose yourself, don't lose yourself
Don't lose yourself, don't lose yourself

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Don't Lose Yourself (Tradução)
Eu senti minhas cordas vocais enfraquecendo
Eu senti meus pensamentos côncavos
Eu senti minha cegueira voluntária
Por olhar diretamente para o sol
O ar romântico do seu olhar
Me chamou pela sala
Eu fui até você e dançamos em silêncio
Admirei suas tatuagens divinas

Nós dormimos na sombra de um cedro
Fizemos amor com a subida da maré
Sentimos o perfume da lua de cera
Sonhamos com todos os tipos de amizade
Tocamos no sangue do gato preto
Nós acariciamos o cão mamute com lágrimas
Na luz tremulante nós estávamos rindo
A necessidade vence o medo

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Sonhando nós somos pedras em um silêncio negro
Sonhando com a morte do sol
Acordando para um mundo de cegueira branca
Olhos pintados daqueles que são sagrados
A morte do mundo estava sob nós
E a disciplina do vento
Nós vemos menos e menos todo o tempo, querido
Apenas olhe para essa bagunça em que estamos

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Parados na entrada da mina
Eu rezei para as suas feridas fecharem
Pomada de tigre e uma colisão cósmica
E a crucificação da rosa

Não se perca, não se perca
Não se perca, não se perca
Não se perca, não se perca
Não se perca, não se perca

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Citador #20 ... a morte resignada que se deixa vencer pelo amor (As Intermitências da Morte)

Citador #20
... a morte resignada que se deixa vencer pelo amor



(Iluminura, o belo e a morte, agarrar a vida, enfrentar a morte, várias interpretações

(...) "A passagem difícil foi transporta sem que ele se tivesse apercebido da proeza que havido cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher. Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metido entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma implacável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou o homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."

em, "As Intermitências da Morte"
Caminho
Página 213 e 214

Documentário "Levantado do Chão" - do regresso a Lavre e a gesta dos "Mau-Tempo"

Documentário exibido na RTP, baseado na obra e vida de José Saramago, prémio Nobel da Literatura de 1998, "Levantado do Chão" de seu nome.
O regresso à terra, Lavre, de onde José Saramago revisita a Azinhaga e os seus avós maternos; as palavras dos que com ele, durante um ano, deu vida às gerações "Mau-Tempo", e que estes, por sua sorte, deram corpo a uma das obras centrais que retrata o Alentejo da lutas pelo trabalho, pela miserável jorna, pelo pão...
Fica para a história, como um lúcido e coerente registo bibliográfico de Saramago.  

(Aqui, link via Youtube, em https://www.youtube.com/watch?v=wwzwDzTw0_g)

"Documentário inédito sobre a vida e obra do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. No dia em que se assinalam os dez anos da atribuição do primeiro Prémio Nobel da Literatura da Língua Portuguesa, a RTP exibe um documentário que retrata o percurso singular do escritor José Saramago, que se afirma "pessimista pela razão, optimista pela vontade". Durante quase um ano, uma equipe da RTP reconstitui os pontos cardeais em que a vida e obra de Saramago se fundem, num trabalho que aborda a história do escritor português mais lido e conhecido do mundo. Mais do que uma biografia, este documentário pretende dar a conhecer ao grande público os momentos decisivos da vida de um homem que aos cinquenta e três anos não era ainda escritor. Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago imigrou para Lisboa com dois anos.

Grande parte da sua vida decorreu na capital, que serve de cenário a alguns dos seus romances. Mas durante a adolescência, foram muitas e prolongadas as suas estadias na aldeia natal, Azinhaga, Golegã, que o marcou para toda a vida. Ficou célebre, o discurso que Saramago proferiu há dez anos na entrega do prémio Nobel, evocando com emoção os avós Jerómino e Josefa, que dormiam com porcos na cama, única forma de sobreviverem todos. José Saramago frequentou o liceu e a escola industrial mas, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir os estudos. É um homem "Levantado do Chão", título de uma das suas obras, e título escolhido também, para este documentário. O seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico e neste trabalho reencontramos a oficina dessa época assim como ex-colegas de ofício."


(...) "Sobem os senhores do latifúndio ao outeiro para que o sol só a eles aqueça, tosco sonho sonhou João Mau-Tempo, pois não têm os senhores rosto e o outeiro nome, mas é assim de ciência certa quando João Mau-Tempo acorda, e assim que readormece, vai uma procissão de senhores e ele à frente moendo com o enxadão as raízes do mato, a abrir caminho à bela companhia, arreda os tojos com as mãos, já o sangue lhe corre, e os senhores do latifúndio vêm conversando e rindo, são generosos e pacientes quando ele se atrasa na arroteia, ficam à espera, não maltratam nem chamam a guarda, ficam só à espera e enquanto esperam fazem piqueniques, e ele tira forças do coração e lança a enxada, agora sim, raspa a terra e corta as raízes, já é um homem, e dali de cima, da encosta do outeiro, vê passarem camionetas com um letreiro em que se diz Sobras de Portugal, destinando-se a Espanha, para os vermelhos nem a ponta dum corno, para os outros, os santos, os puros, os que me defendem a mim, João Mau-Tempo de meu nome e proveito, do perigo de cair no inferno, abaixo e morra, e agora vem atrás de mim um senhor a cavalo, e o cavalo, é a única coisa que neste sonho sei, chama-se Bom-Tempo, afinal os cavalos têm uma vida longa, Acorda João, que são horas, isto diz a mulher, e no entanto ainda é noite fechada." (...)

em, "Levantado do Chão"
Caminho, 10.ª edição
Página 96 e 97



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância" - Texto de Adelino Gomes (Público, 12/11/2006)

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância"

Texto de Adelino Gomes, publicado no jornal Público, em 12 de Novembro de 2006

Aqui, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/o-homem-a--quem-roubaram--as-oliveiras--da-infancia-106925



"Vamos! Vamos!", diz, poucos minutos após a primeira paragem.
Foi ele quem chamou a atenção para a curva do rio. Um carro desviara-se da estrada principal. Preparamo-nos para esclarecer as razões da inusitada incursão de um casal entre uma e a outra estreita margens, mas o escritor Nobel mostra-se impaciente. Tem pressa de chegar à Azinhaga, a terra onde nasceu. 
O que vê, porém, à medida que avança o carro - no qual viajam, além dele próprio, José Saramago, a mulher, Pilar, o fotógrafo espanhol Jose Manuel Navia e este jornalista do PÚBLICO - deixa-o inconformado. 
- Aqui havia oliveiras - começa por constatar. - Roubaram-me as minhas oliveiras! - protesta, por várias vezes, à medida que desfila aos nossos olhos a interminável, monótona paisagem, nua de árvores.
- Olhem para estes campos [de milho transgénico]. Aceitaram as indemnizações que a CEE ofereceu e agora temos isto, tudo igual...
Iniciámos a peregrinação a pé pela aldeia. Quase nenhuma emoção perante o lugar em que outrora se ergueu a casa natal. Está guardada para mais à frente, no que resta da casa que foi dos avós maternos.
Pilar acha que deve comprar o espaço. Não parece ser essa a sua ideia
Desfia recordações para o fotógrafo espanhol, que pretende ilustrar, com imagens desta peregrinação, o texto que a revista de domingo do El Pais lhe vai dedicar, na série com grandes escritores mundiais deste Verão de 2001. 
Os locais gostam de lembrar que a aldeia, administrativamente situada no concelho da Golegã, tem foral desde D. Sancho II e que é a mesma a que, antes da fundação de Portugal, chamavam Santa Maria do Almonda. Características edificações na rua principal constituem a prova de que ali se ergueram, a partir do século XII, palácios, solares, igrejas e capelas, o mesmo será dizer, "ali se foi construindo um país". 

(Estátua de José Saramago, na Azinhaga)


A Azinhaga foi, nos célebres concursos salazaristas de António Ferro, a "aldeia mais portuguesa do Ribatejo". O contacto com os toiros, nas fainas do campo, fez da raça de maiorais desta terra "de lezírias e espargais", pelo saber, os mais famosos campinos das terras da Borda d"Água, diz uma nota do rancho folclórico "Os Campinos da Azinhaga", lida durante a breve paragem para almoço.
Não foi para estas divagações, contudo, que José Saramago se deslocou de Lisboa. Sobe, e nós com ele, ao campanário da igreja. Dá um beijo a uma prima, encontrada na rua. Ruma ao Paul do Boquilobo, para onde gostava de ir, em longas viagens de dias, e para onde - torna-se claro nos gestos, nas recordações, na insistência em ir até onde o carro pode chegar - não se importava nada de partir agora mesmo em nova aventura. Boquilobo, oferecida, depois da crise de 1385 por D. João I a João das Regras com a legenda "Melhor lhe dera se melhor houvera".
Passados cinco anos, estas recordações tomam a forma de livro - As Pequenas Memórias (Editorial Caminho) - que aqui mesmo vai ser lançado, em cerimónia de ressonância internacional, na próxima quinta-feira, 16, num regresso simbólico aos lugares da infância e adolescência do escritor, na aldeia ribatejana. 
Casas, oliveiras, arbustos, dois rios, um pântano. Que importa que deles só restem os dois últimos? Que tenha desaparecido sob um monte de escombros a casa que foi a pobríssima morada dos avós maternos de quem os leitores já sabem os nomes, desde o discurso de aceitação do Nobel da literatura, em 1998 (Josefa e Jerónimo se chamam, este último, analfabeto, "o mais sábio dos homens" que Saramago conheceu)? Que importam os estragos do prémio da CEE sobre os olivais desaparecidos?
A cada instante, José levantará as paredes da casa branca, plantará as oliveiras, fechará o postigo da porta e a cancela do quintal e dirá: "Avó, vou por aí dar uma volta", e ouvi-la-á responder: "Vai, vai", meterá "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge", pegará num pau para qualquer mau encontro canino e partirá para uma das quatro partes em que o universo se dividia então para a criança "melancólica", para o adolescente "contemplativo e não raro triste" que era ele: o rio, "os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado", a mata de tramagueiras, faias, freixos e chopos que ladeia o Tejo, um pouco à frente da confluência com o Almonda, ou o Paul do Boquilobo, "um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso". 
Tudo nítido setenta anos depois - paisagem, gentes, afectos -, numa revisitação através do "poder reconstrutor da memória". E da literatura. 

Adelino Gomes

Citador #19 ... em "A Caverna" - Cipriano Algor e o "segredo da abelha"

Citador #19
Cipriano Algor e o suposto "segredo da abelha"


(...) "E quando isso acontece, que fazem, perguntou Cipriano Algor por perguntar, ao que o subchefe respondeu em tom condescendente, Meu caro senhor, suponho que não está à espera que eu lhe vá descobrir aqui o segredo da abelha, Sempre ouvi que o segredo da abelha não existe, que é uma mistificação, um falso mistério, uma fábula que ficou por inventar, um conto que podia ter sido e não foi, Tem razão, o segredo da abelha não existe, mas nós conhecem-lo. Cipriano Algor retraiu-se como se tivesse sido vítima de uma agressão inesperada. O subchefe sorria, insistia complacente que a ideia era boa, mesmo muito boa, que ficava à espera da primeira entrega e que depois já lhe daria notícias. Oprimido, sob uma inquietante impressão de ameaça, Cipriano Algor entrou na furgoneta e saiu do subterrâneo." (...)

em, "A Caverna"
Caminho
Páginas 239 e 240

"Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens", de Pedro Fernandes (Revista 7faces)

Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens, de Pedro Fernandes de Oliveira Neto (encarte para a edição especial Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago)

Aqui, o link para consulta, em http://www.revistasetefaces.com/2012/07/blog-post_22.html



Género
Ensaio

Capa
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
102

Outras informações
O catálogo inclui entrevista exclusiva com o professor Horácio Costa e inéditos de José Saramago

Descrição
Não foi de heterônimos como Pessoa, que foi único em cada um dos vários, mas disse ser a soma de todas as suas personagens. Não alçou a qualidade de Super-Camões, como Pessoa ao encontrar Portugal para encontrar a língua, Mensagem, mas sucede e ladeia Camões, e sucede e ladeia Pessoa, como escritor, que se sentiu responsável pela sua língua, por pensar o destino do povo Português, lançando jangada de pedra ao mar, assumindo o posto de Ricardo Reis, a vagar por Portugal, a procurar quê de povo, a encontrar quê de gente, ao enxergar todos cegos, e entregar a uma mulher, a mulher do médico, olhos para vê o que não se via e coragem, coragem de um povo que levantado do chão, cumpre o seu destino de ser filho, e filho, pai, de pai, avô, numa ciranda de povo, que se é continuidade e se é continuísmo, como foi continuidade e continuísmo de um avô analfabeto e criador de porcos, fiel ao seu ofício a cumprir destino, como certo oleiro que ver recusado pelo centro a matéria de trabalho de suas mãos, mãos que também, ao correr teclas, postaram um não reescrevendo a história da presença moura em Lisboa, postando imagens, certo de que, se pintura, há o momento em que não comporta mais pinceladas, mas se palavras, podem prolongar-se ao infinito, lição de manual, de pintura, de caligrafia, de viagem que pela geografia dos mitos, das crenças, da geografia, viagem do viajante que passeia aqui e acolá, a ermo, armado de humor, armado de ironia, por temas, e por espaços quando viajante às margens do Douro vê que a mistura das águas e o ir e vir dos peixes não responde a fronteiras, fronteiras que pode haver entre si e si mesmo, quando duplicado, cópia de si mesmo, no tempo que viu todas as reproduções desfazer o insubstituível, e que não calou caderno porque nele expôs pensamentos acerca das pessoas e das coisas pelos anos, observador de Lanzarote, que antes de lá está e por razão de lá ir, contou de Cristo e o Evangelho, e na barca presenciou entre o Deus pai e o Cristo filho a conversa de todos os tempos enquanto Caim viajava tempos por sina e imposição deste mesmo Deus, pois este nome, José, de este também outro nome, Saramago, que fez da escrita, da devoção à língua, do senso de ser português, e de ser português, ser Camões, ser Pessoa, ser Portugal, que cumpriu seu destino de achar o mundo em caravelas, procurou levar Portugal a cumprir seu destino pela língua em palavras, fiou ser estes todos os nomes.

Gustavo Leite Sobral

"Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago" de Pedro Fernandes (Revista 7faces)

7faces - Caderno-revista de poesia . Edição especial. Julho de 2011. "Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago".

Aqui, o link, em http://www.revistasetefaces.com/2012/07/7faces-caderno-revista-de-poesia_22.html

Organização
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Conselho editorial para esta edição
Profa. Dra. Aurora Gedra R. Alvarez (Universidade Presbiteriana Mackenzie), Prof. Dr. Carlos Reis (Universidade Aberta de Lisboa), Profa. Dra. Conceição Flores (UnP), Prof. Dr. José Rodrigues de Paiva (UFPE), Prof. Dr. Gerson Luiz Roani (UFU), Profa. Dra. Maria Edileuza da Costa (UERN), Prof. Dr. Márcio de Lima Dantas (UFRN), Prof. Dr. Márcio Muniz (UFFS), Prof. Dr. Miguel Alberto Koleff (Universidad Católica de Córdoba)

Páginas
232

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Carlos Reis, Fernando J. B. Martinho, José Rodrigues de Paiva, Sandra Ferreira, Jorge Valentim, Lucas Antunes Oliveira, Rosidelma Pereira Fraga, Maria Elena Legaz, Hilda Orquídea Hartmann Lontra, Elielson Antônio Sgarbi, Luciana Stegagno Picchio, Soares Feitosa, José Saramago, Horácio Costa


Encarte
Encartado a esta edição foi publicado o ensaio "Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens", de Pedro Fernandes de Oliveira Neto.



Descrição
Depois de publicado Terra do pecado, em 1947, seu primeiro romance, José Saramago passaria um intervalo de quase vinte anos sem publicar nenhum outro livro. O que não quer dizer que o escritor durante todo esse tempo não tenha escrito. Do contrário. Inéditos expostos em A consistência dos sonhos, exposição organizada pelo curador espanhol Fernando Gómez Aguilera, deu contas de que nesse período Saramago foi tão polígrafo quanto no período no qual se consagra escritor. Esboço de poemas, contos, romances inacabados, resenhas, crônicas, peças de teatro, enfim, uma leva de materiais escritos que dão contas de um Saramago que buscava, em todos os territórios da escrita, um lugar próprio. E o encontrou. Tardiamente, como romancista. Mais precisamente em 1980, com o romance Levantado do chão. Antes, porém, depois do longo verão das publicações, a 'reestreia' se dá em 1966, e vem através de um gênero no qual o autor nunca será reconhecido pelo tal: a poesia.Entretanto, da extensa obra deixada por José Saramago que temos conhecimento, convém sublinhar que, também a poesia, se constitui num naco significativo no âmbito do conjunto completo da sua produção literária. Para efeito, citem-se: Os poemas possíveis - o referido livro de 'reestreia' literária do escritor, publicado naquela que, à época, foi a mais importante coleção de poesia portuguesa, a coleção Poetas de Hoje;Provavelmente alegria, em 1970; e O ano de 1993, publicado em 1975, que é o que podemos chamar de sua assinatura oficial ao fim da produção no gênero. Fruto de uma “fabricação poética” (para usar os termos do próprio escritor em entrevista a Carlos Reis, 1998), todo esse material seria revisto mais tarde por Saramago e republicado não só com um certo número de rasuras, mas também com um certo número de emendas. Entendendo que, antes de ser espaço-prólogo de escrita, isto é, de ensaio para composição da obra que se estende pós-poesia, a obra poética de José Saramago tem, coerentemente, um significado para o quadro da poesia portuguesa contemporânea e, consequentemente, na produção literária do escritor. Trata-se, no entanto, de uma das zonas de criação do escritor menos explorada ou pelo menos ainda não estudada com profundidade, seja pela crítica brasileira, seja pela crítica estrangeira. A concepção e a elaboração desse número especial do Caderno-revista 7faces pretende chamar atenção para esta parte da obra de José Saramago e pretende ser um espaço para um diálogo acerca desse material poético do escritor português e recebe textos que, no seu âmbito, se propõem a discutir a poesia e aspectos concernentes à poesia do escritor. A ideia dessa edição nasce ainda em junho de 2010. Ao longo desse período uma série de ações foi realizada, dentre as quais, cito a inauguração do espaço Um caderno para Saramago, a realização do concurso Uma página para Saramago, a realização dos cursos Um universo de José Saramago - paisagens e Diagnósticos do presente em José Saramago, Chico Buarque e Jorge Reis-Sá. Esta edição que o leitor tem agora em mãos é, pois, fruto de um esforço de longa data e coletivo e, antes de ser um trabalho de leitura para uma face menos escura da literatura saramaguiana, uma homenagem que tem por interesse perpetuar uma obra que foi e é um acontecimento relevante para o universo das literaturas em expressão portuguesa.

Pedro Fernandes
caderno-revista 7faces

Aqui, o link, em http://www.revistasetefaces.com/2012/07/7faces-caderno-revista-de-poesia_22.html


José Saramago (a pretexto de "A Viagem do Elefante") - Entrevista de Anabela Mota Ribeiro

Aqui, o link da entrevista original, no site da autora,
em, http://anabelamotaribeiro.pt/jose-saramago-a-pretexto-de-a-viagem-do-122930

"José Saramago (a pretexto de "A Viagem do Elefante")

José Saramago num sábado à tarde. Sala aquecida, luz fria de um Inverno que ainda não é, chilreio de meninos que passam no bairro. Talvez de alguns pássaros, também. Ele parece ser maior do que a casa; melhor, as pernas parecem não caber no sofá, no espaço disponível. Troca-as, destroca-as, o joelho sempre erguido e pontiagudo. Tem ainda a imponência de um gigante. Mas agora seco, delgado – como o avô Jerónimo – o cabelo ralo, um fio de voz. De muitas palavras – ao contrário do avô Jerónimo. Nessa tarde, Saramago foi assim.
Ganhou peso, tem uma espécie de protuberânciazinha no lugar da barriga. Há um ano julgou que morria. Pensou que não avançaria nas 40 páginas já escritas. Avançou. Ganhou peso. Ou, como Saramago diria, porque é muito ordenado no pensamento, ganhou peso, avançou. Chegou ao seu destino. Escreveu “A Viagem do Elefante”.
Saramago empenhou na escrita do livro a sua palavra e a sua vida – como se pode ler. Por agora, o destino é esse. Depois, não pode ser outro senão a morte. Conversa com um homem lúcido.
O livro relata a viagem de um elefante, presente de casamento do rei Dom João III e Dona Catarina a Maximiliano de Áustria, de Lisboa a Viena. É uma “visita sentimental de um bruto paquiderme”, que passa por Valladolid, o mar, Génova, as montanhas; Viena, por fim. Passa por lobos e desfiladeiros, aldeias curiosas, em ambiente de campanha. Atravessa a Igreja Católica sedenta de um milagre e as lutas internas com o luteranismo. O condutor do elefante não é aquele que conduz a história – esse papel fica para o narrador. Tem um nome indiano que significa branco. E o elefante, quem é? E para onde vai, além de Viena?


Começamos pelo livro: “A ressurreição, afinal, estava sobretudo, dependente da livre vontade de lázaro e não dos poderes milagrosos, por muito sublimes que fossem, do nazareno. Se lázaro ressuscitou foi porque lhe falaram com bons modos, tão simples quanto isso”. Na sua doença, foi você que quis viver ou foi Pilar que lhe falou com bons modos?
Eu não lhe podia falar com maus modos. Nem tinha forças. E ela muito menos. Comunicávamos com as frases que eu conseguia arrumar na minha cabeça, entre o cá e o lá em que me encontrei numa fase – demasiado longa, para meu gosto. Salvar-me, transformou-se no objectivo e desejo de todos os meus amigos, e, no caso de Pilar, numa obsessão. Enfim, escapei. Dizer que lhe devo a vida… Devo-lhe a vida a ela, aos médicos, a toda a gente que me manteve à tona, e também devo a vida a mim mesmo.

Antes disso, estava entre a consciência e a inconsciência?
Tenho a memória de que qualquer coisa na minha cabeça entrava em deriva, e eu deixava-me ir. Não era ir atrás dos pensamentos, porque, em rigor, não posso dizer que estava pensando. No quarto, já com largos períodos de consciência total, ficava por vezes numa espécie de limbo. E eu via isso. Era como se fosse um ecrã. A comparação maior é o céu negro com quatro estrelas. Mas no meu caso não eram estrelas. Eram simplesmente quatro pontos brancos, dispostos em quadrilátero, não regular. Era para mim claríssimo, e defenderia essa ideia contra quem fosse, que eu era aquele quadrilátero.

Como se se visse de fora?
Sim. Esta complicadíssima experiência teve outro efeito: usamos uma linguagem que não é sempre a mesma, que vai variando consoante os tempos que vivemos. Somos um armazém de sedimentos, ou extractos linguísticos. São os que usámos e retivemos nos diferentes períodos da nossa vida. Claro que quando estava na aldeia, na minha adolescência, tinha uma linguagem, não só da época como do lugar. E ficou cá. Quando a minha vida mudou, em Lisboa, e aos 24 anos publico um livro, já era outra pessoa, outra linguagem, outro modo de entender as coisas.

No livro, dois personagens mudam de nome. O condutor do elefante passa de Subhro a Fritz e o elefante de Salomão a Solimão. Como se uma palavra diferente dissesse respeito a uma outra identidade.
Exacto. O que é que aconteceu durante a minha doença? É que a ordem destes sedimentos alterou-se. Encontro-me diante de uma evidência, que demonstraria com o próprio livro. Este livro está escrito de uma maneira que é simultaneamente moderna e quase arcaica. Algumas coisas que estavam lá no fundo, nessa revolução interior de extractos linguísticos, passaram à superfície. Na hora de escrever o livro apresentaram-se-me construções frásicas, certas utilizações de verbos, palavras que não recordava ter usado nos últimos 40 anos.

É pela palavra que nos fazemos, que nos criamos, que nos salvamos.
Não temos outra coisa. É que não temos outra coisa. Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso. Se eu digo: estou pensando, e me perguntar: “em quê?”, a minha resposta só pode ser com palavras. Não posso tirar o pensamento da cabeça e pô-lo em cima da mesa: aqui está o que eu estava pensando.

O livro anterior a este é um livro de memórias, em que se volta, sobretudo, para a infância – um sedimento muito antigo, onde as palavras eram outras. O inconsciente tê-lo-á guinado para aquele lado? Como é que passa de um livro ao outro?
O livro d’ “As Pequenas Memórias” é escrito com linguagem que uso hoje. No caso d’ “A Viagem do Elefante” é como se houvesse outra mão que me guiasse. Para que eu aceitasse, recebesse e utilizasse palavras e expressões. O que mais caracteriza este livro é o tom narrativo, o modo de narrar. O narrador é um personagem numa história que não é sua. Sempre defendi a ideia de que o narrador não existe. Neste livro resolvo a questão – pelo menos resolvo-a para mim, que é a única coisa que importa. Passando a considerar-me autor sim, mas autor-narrador, não dissociado. Assumo tudo.

É o narrador-autor, aquele que conduz a viagem. Mas está também nas outras personagens? No cornaca (aquele que guia o elefante), no comandante (que se pode imaginar ser um alter-ego seu), no elefante.
Provavelmente estou em todas as personagens. Os dados históricos comprovados que se referem à viagem deste elefante cabem numa página, e ainda sobra. Portanto, este livro é um livro de invenção. As personagens históricas, o arquiduque, a arquiduquesa, D. João III, a Rainha Catarina, vejo-os mais como comparsas – embora estes últimos tenham um papel, o que têm para dizer tem importância no contexto do livro. O resto, o capitão de cavalaria, os austríacos, toda a gente que se vai encontrando pelo caminho, são produto da imaginação. Eu não seria o arquiduque, embora certas manifestações poderia aceitar como minhas. A arquiduquesa é uma sombra que passa, destinada a parir 16 vezes. E temos o elefante.

É fácil olhar para ele como metáfora da própria vida.
É. Não há nada que o elefante faça que possa ser interpretado como consequência de um pensamento seu.

Diz, aliás, ao longo do livro, que não se pode saber o que o elefante pensa.
Ele não tem palavras, não usa palavras. Se os elefantes pensam, eu não sei como é que pensam. Se nem sei muito bem como é que pensa o meu cérebro… O Torga, nos “Bichos”, que são uns contos magníficos, antropomorfizou tudo – aqueles bichos pensam. Eu não queria isso. Queria que o meu elefante fosse levado de Lisboa a Viena como um animal que não sabe onde o levam, que não tem nenhuma ideia de qual possa ser o seu destino e que vai andando, porque outros o levam, e também vão andando. Realmente, é um pouco como a vida. O que dá sentido a este livro é o final – o final da vida deste animal, Salomão. Como tinha que acontecer, esfolam-no. A pele é oferecida pelo arquiduque a um conde qualquer.

E há aquele detalhe medonho: de usarem as patas para pôr bengalas e bastões. As mesmas patas que poderiam ter produzido um milagre, no miolo do livro.
Sem isso, provavelmente o livro não existiria. A viagem do elefante, a autêntica viagem, é o que o leva a isso. As suas pernas andaram milhares de quilómetros, estiveram na Índia antes de o trazerem para Lisboa, serviram-no. E essas mesmas pernas são cortadas e transformadas irrisoriamente num recipiente para pôr as bengalas, os guarda-chuvas, as sombrinhas. Esse é o destino do elefante que faz essa viagem, com episódios épicos, e que acabou ali. A epígrafe do livro acompanha isto: “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Claro que em termos latos, aquilo que nos espera é sempre a mesma coisa: a morte. Neste caso, não é só a morte, é o destino final. Caricato. Disseram-me que até há pouco tempo, essas patas ainda estavam no lugar onde tinham sido postas.

Escreve na primeira parte do livro: “É a lei da vida: triunfo e olvido”. Perguntam o que vai acontecer ao elefante, e a resposta é: vão dar-lhe umas palmadas – que nós diríamos nas costas - vai haver muita gente nas ruas, e depois esquecem-se dele. Consigo, também vai ser assim?
Inevitavelmente. Não vale a pena que tenhamos ilusões. Pode não acontecer em 50 anos, e talvez em 100 anos ainda haja quem me leia. Depois passo a ser um nome. Um nome que algum excêntrico vai ler e conhecerá. Quem é que, no momento em que estamos aqui a conversar, está a ler o Camões? – para além dos que tenham de lê-lo por obrigação. Quem é que está a ler o Gil Vicente, Dom Francisco Manuel de Melo, ou Padre António Vieira? Quem é que tem paciência para ler sermões, mesmo que eles sejam um esplendor?

Desde quando tem a noção de que a sua vida será também triunfo e olvido?
Desde sempre. Este pendor relativizante começou por mim mesmo. Depois do “Ensaio sobre a Cegueira”, disse que se pudesse ser recordado por alguma coisa no futuro, que me recordassem como o criador do Cão das Lágrimas. Já vê que é pedir bastante pouco… Ninguém escreve para o futuro, ao contrário do que se julga. Somos pessoas do presente que escrevemos para o presente. Também pode acontecer que os livros deixem de ser livros e que o nome do autor continue como uma referência.

Abrimos uma chaveta para dizer: José Saramago, aquele que inventou o Cão das Lágrimas, escritor, comunista. Pensamos nas palavras cardeais do seu universo: ironia, compaixão, imaginação.
Acabamos por converter-nos em conceitos. Já não temos existência, mas continuamos a existir – naquilo que deixamos, nas ideias que as pessoas desse tempo, do futuro, têm sobre aquilo que deixamos, e que podem não coincidir com as nossas. Mas sobre isso não podemos nada, já não estamos cá. De qualquer forma, o olvido está garantido, mesmo que não seja total. Uma das coisas que me dá uma satisfação íntima… O meu avô morreu em 1948, a minha avó viveu ainda uns bons anos mais. Aí, o processo de esquecimento começava exactamente no momento em que cada um deles morreu. Dá-me uma satisfação que talvez nem saiba exprimir o facto de ter-lhes dado uma vida.

Ao recordá-los, ao nomeá-los.
Eu não deixei que morressem. O nome deles nunca mais seria citado, nunca mais se falaria nisso. A família está reduzida a quase nada: estou eu, a minha filha, um vago primo que talvez ainda os recorde. Estavam condenados a desaparecer já. Escrevi sobre eles. E em qualquer parte do mundo, alguém que se interesse por aquilo que faço, já sabe que tem que aguentar com os meus avós.

Citou o seu avô no discurso que fez na Academia Sueca e apontou-o como o homem mais sábio que conheceu.
Foi o princípio da minha conferência. E aí deixo o nome deles: Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha. Falar deles nestes termos pode levar a uma certa idealização. E sim, servindo-me deles como personagens literários, idealizei-os. Mas não imaginem que eram extraordinários: eram pessoas comuns.

Eram analfabetos. Porque é que ele era para si o homem mais sábio que conheceu?
Porque eu era garoto. Era um homem alto, seco, delgado, de poucas palavras. Olhava para ele, não como se fosse o super-homem, ou um anjo caído do céu, porque era um homem, um camponês, não conhecia uma letra; contudo, como não tinha outros mestres, além dos da escola primária, aquele, sem que alguma vez lhe tivesse chamado isso, foi um mestre de vida. O próprio não sabia que era mestre, eu próprio não sabia que era seu discípulo; simplesmente vivíamos juntos na mesma casa. É possível que haja aqui muita elaboração mental. Mesmo que assim seja, no centro da questão está…

O amor.
Também. Eles não eram muito carinhosos. Não tinham tempo nem tinham sido educados para a expressão do afecto. Já muito tinham em que pensar – tendo comido ao almoço, se tinham comida ao jantar. Chamemos-lhe o momento mágico da infância para resolver esta questão – que não fica nada resolvida, claro.

Um pouco como o narrador-Saramago que resolve no livro uma coisa por elipse, com um plof!
Imagine se eu tivesse que resolver o processo… assim não: plof, e já está!

Falei de imaginação, lucidez, ironia, compaixão, que comummente se dizem ser os pilares da sua narrativa. Quando recuperou da doença, temeu ter perdido alguma destas faculdades?
Não. No que tem que ver com ironia e humor, nos diálogos que mantinha com os médicos usava uma ironia por vezes agressiva. A Pilar olhava para mim com os olhos esbugalhados; não era a dizer como é que eu me atrevia – estávamos a falar de igual para igual; mas afinal de contas estava muito vivo na minha cabeça. O corpo, estava um desastre, os pulmões encharcados, a perder peso a cada hora que passava, até aos 51 quilos com que saí do hospital. A prova de que não devo ter perdido nada do que era meu antes está no próprio livro.

Mas isso só percebeu na escrita do livro? Quando partiu para ele, tinha uma insegurança de algum tipo?
O livro foi escrito em duas fases. A primeira desde Fevereiro do ano passado até ao Verão, em que escrevi umas 40 páginas. Depois o meu estado agravou-se e o estado em que me encontrava tirou-me o apetite de escrever. E nisto passaram-se meses. No fim de Outubro, fui quatro dias a Buenos Aires – um autêntico disparate. Praticamente não comi. A certa altura meteu-se-me na cabeça que queria maçãs assadas. Mas é impossível encontrar na Argentina maçãs para assar e alguém que as saiba assar. Vim de lá muito mal e fui para uma clínica em Madrid, onde me fizeram uns quantos exames. Não acertaram com o diagnóstico. Fomos para Lanzarote. Aí entro na rampa e começo a deslizar para o fundo. Não tive uma dor, não posso dizer que sofri, dá mesmo a impressão que não estava lá. O meu estado era de tal ordem que no hospital tiveram dúvidas em aceitar-me. Porque não queriam que morresse no hospital deles! [riso] Se eu queria morrer, que fosse morrer noutro sítio! Aí a Pilar armou-se em Joana D’Arc e convenceu-os de que não podiam fazer isso, e revelaram-se pessoas e médicos extraordinários.

Esteve três meses no hospital. Quando voltou a casa, de quanto tempo precisou até voltar a escrever?
Eu era uma sombra. As minhas pernas eram incapazes de suster-me, agora imagine andar… Vinte e quatro horas depois já estava sentado à mesa a trabalhar.

Porque é que escrever foi indispensável?
Aquele trabalho tinha sido interrompido. Durante o tempo em que estive doente cheguei a dizer à Pilar: “Não sei se vou conseguir acabar o livro”. A Pilar, falando com os médicos, chegou a dizer-lhes: “Garantam-lhe a vida por mais três meses para que ele possa terminar o livro”. Há que dizer que três meses não bastariam.

A Pilar sabe pedir… Sabe falar com bons modos…
Sabe, sabe. A Pilar, se quer alguma coisa, é irresistível! [riso] Essa dedicatória que pus, “a Pilar que me agarrou pela gola do casaco e não me deixou cair ao poço” [na verdade, o que está escrito no livro é: “A Pilar, que não deixou que eu morresse”], figuradamente é isso.

Curiosamente, a palavra pilar aparece no livro uma única vez, para dizer “pilar da fé”. Um pilar é algo que nos sustém. É o pilar da sua vida?
Foi, tem sido, e espero que continue a ser o meu pilar. Além de ser intimamente a minha Pilar, é também o meu pilar.

Voltemos à necessidade de 24 horas depois estar a trabalhar. Era uma forma de manter-se vivo?
Vivo estava eu. Não era o corpo que queria escrever, era a cabeça. Essa ideia – não sei se vou conseguir acabar o livro – continuava cá dentro. A primeira coisa que fiz foi rever tudo o que estava escrito. E corrigir. Se me pergunta: tinha cabeça para correcções? Tinha cabeça para o que fosse. Quando cheguei ao fim dessas correcções, engatei a história, e terminei o livro no dia 12 de Agosto.

É um livro muito luminoso. É surpreendente, sabendo de onde vem…
Embora a mim não me surpreenda. Tenho uma capacidade de distanciamento muito, muito grande. E neste caso, um distanciamento em relação ao doente que tinha sido, ao convalescente que continuava a ser. Não reflecti: posso ou não posso escrever. Já se veria se podia. Abri o computador, procurei o que estava há meses parado, numa certa palavra, e recomecei sem dramatismos. Detesto dramatismos. Detesto aquilo que os escritores cultivam muito: a relação dramática com a escrita.

Porque é que detesta esse dramatismo?
 Porque acho que é falso.

Fala como se o que faz fosse simplesmente um ofício.
Escrever é um trabalho. Da mesma maneira que um médico, o que faz, é um trabalho. Essas histórias em volta da página branca, o horror da página branca…

No seu passado de editor ou jornalista estava em contacto directo com as palavras; mas era para si um ofício diferente.
Não é a mesma coisa estar no Diário de Lisboa, e escrever o editorial, ou no Diário de Notícias, e escrever os meus apontamentos; mas não difere muito. Num caso e noutro estou a usar as palavras, e as palavras de um romance são as mesmas, vêm do mesmo depósito de palavras. Quando eu era um escritor que ninguém conhecia já pensava: isto é um trabalho. Eu poderia ter as melhores ideias para livros, as inspirações mais fulgurantes, mas tenho que as pôr no papel. Pode acontecer, e acontece, que aquilo que eu julgava fulgurante afinal não o é tanto.

Isso é trabalhar a forma.
Quem trabalha a forma trabalha o conteúdo, quem trabalha o conteúdo trabalha a forma. Comparo o trabalho ao computador com o trabalho do oleiro. O oleiro agarra num bocado de barro, põe-no no torno, o torno gira e ele começa a trabalhar o barro até chegar à forma que quer. Há qualquer coisa de artesanal com o trabalho no computador.

Não teve dificuldade em retomar o fio, em engatar, como disse?
Nenhuma. Não tem virtude nenhuma. É simplesmente uma maneira de ser. Você está a ver a excelente ocasião que perdi para fazer do reatamento do meu trabalho um drama, uma angústia, uma ânsia, e agora como é que vai ser?, vou ser capaz?

Nunca foi um angustiado, pois não?
Nunca, nunca, nunca, nunca. E ainda bem. Tive os meus momentos de abatimento, mas entrar em depressão, nunca entrei.

O que é que o segurou? O que é que fez com que nunca caísse em depressão?
Já não o pensava há muitíssimos anos, e é simplesmente uma frase, mas é como se houvesse dentro de mim uma parte intocada. Ali não entra nada. E que se traduz numa certa serenidade, que se acentuou com a doença. Se alguma coisa pude aproveitar dela foi este sentimento de extrema serenidade. Passei pelos momentos maus e bons que todas as vidas têm, mas nunca perdi esta…, não quero chamar-lhe segurança de mim mesmo... É um pouco como o olho do furacão: em redor é morte e destruição, mas ali o vento não sopra.

Essa noção, de ter essa parte intocada, tem-na desde quando?
Desde que é possível ter consciência de uma coisa como esta. Pode ter sido aos 30 anos – ponhamos assim. Mas quando tive consciência, percebi que já antes era assim.

Que auto-estima tinha esse homem que está para trás? O homem que foi na primeira parte da sua vida. Isso que descreve, parece ser uma coisa por sua conta, autónoma.
De certo modo. Eu tinha 18 ou 19 anos e tinha um grupo de amigos – como éramos cinco, chamávamo-nos Pentágono! E um dia conversando sobre umas quantas coisas sérias – o que é que era a vida? – disse esta frase que recordo tal qual e que me ficou para toda a vida: “Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter”. Na boca de um rapaz, nos anos 40, uma frase como esta parece reflectir um fatalismo radical. Fala-me de auto-estima: creio que sempre a tive e que esta frase pode ser interpretada nesse sentido. Como nunca fiz projecto de carreira, como nunca fui uma pessoa ambiciosa, como na minha vida não houve cálculo, realmente não fiz nada para que as coisas acontecessem. A não ser o trabalho que tinha de fazer a cada momento.

Fez todos os trabalhos com o mesmo empenho?
Fazia o melhor que sabia e podia, quer fosse na oficina de serralharia onde comecei, quer nas actividades que vieram depois. Vou contar-lhe uma coisa: o Nataniel Costa era o director editorial da Estúdios Cor. Encontrávamo-nos no Café Chiado. Eu não tinha quaisquer credenciais. Tinha os meus amigos, os tais do Pentágono – portanto, ficava numa mesa à parte. E ouvia os outros, os Abelairas, essa gente, ali reunida. Passado tempo, o Nataniel entra na carreira diplomática e falou comigo. Seguimos juntos pelo passeio, em direcção à Brasileira. “Queria perguntar-lhe se está disposto a ocupar o meu lugar na editora enquanto eu estiver ausente, e depois logo se verá”. Porque me dizia aquilo a mim? “Não faltam pessoas a quem poderia ter falado; mas não tenho a certeza de que não aproveitassem essa circunstância para me apunhalarem pelas costas”. Isto é dos momentos mais importantes da minha vida. Alguém que não tinha sido pago para isso nem tinha razões afectivas para o fazer, disse o que disse.

Além de confiarem na sua lealdade, foi o início de um período, em que foi editor.
É como se pudesse dizer-me: tenho razão em ter feito a minha vida como a fiz até hoje. Durante anos escrevíamo-nos, trocávamos ideias e sempre nos entendemos sem o mínimo atrito, nunca houve roçadura de pele.

A imaginação, a ironia, a compaixão estão para o autor como a moral, a coerência, o comunismo estão para o homem? Contaminam-se, e são do mesmo?
São, são. Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito. É isso. Mais recentemente converti isto na declaração: o comunismo é um estado de espírito. Dois camaradas atacaram isto, em nome do materialismo dialéctico. Não entenderam.

Voltando ao livro, há momentos de provação. Como quando a caravana enfrenta o desfiladeiro ou os lobos. O que há numa situação e noutra é o medo. Não sei da sua relação com o medo.
Nunca me encontrei em situações em que o medo se desencadeasse fora do meu domínio. Pondo esta salvaguarda, não me considero uma pessoa medrosa. Também não sou um exemplo de valentia – nunca fui posto à prova. Vamos à experiência mais recente, a doença. O medo da morte, que é um medo tão comum, nunca tive. A probabilidade de morrer era alta. Talvez não tenha tido medo por causa da costela fatalista que tenho – o que tiver de ser, será.

É evidente que o elefante não pode sucumbir aos lobos, ou cair no desfiladeiro – ou seja, nas partes menos boas.
Se transportar isso para a vida, é uma forma de optimismo. E que liga com aquela frase dos 19 anos.

Escreve para ser amado? Escrever é uma forma de ser amado?
Pode ser entendido assim. O Gabriel García Márquez dizia que escrevia para que gostassem dele. É possível. É mais exacto dizer que a gente escreve porque não quer morrer. Ser amado pelo outro não está na nossa mão; podemos escrever para que isso aconteça, e depois acontecerá ou não. Já que temos que morrer, que alguma coisa fique. Não é imortalidade – isso seria um disparate; é um reconhecimento por algum tempo mais.


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Gosta do filme?
Gosto muito. Tinha gostado da primeira vez que o vi, mas de uma forma mitigada. Porque as condições de projecção do cinema S. Jorge eram más. Não vi o filme em Cannes; não estava em condições de fazer uma viagem dessas e andar por lá. Na antestreia, vi uma nova versão, com uma nova montagem. O Fernando [Meirelles] e eu tínhamos conversado, tinha-lhe dado a minha opinião. Na montagem que fez restituiu ao filme algo que lhe tinha retirado – violência. O filme é acusado de ser violento. A minha resposta é que não é mais violento do que as séries que nos entram diariamente em casa para consumo das famílias.

O livro é mais violento do que o filme.
Muito mais violento. A Julianne Moore é um portento, como todos os outros. Fiquei surpreendido pela escolha do Gael para chefe da camarata dos malvados; está um pouco histérico, mas faz um bom papel. A montagem é perfeita. A imagem é eloquente. Uma coerência dramática perfeitamente conseguida.

Tem uma cena preferida?
Há uma cena que me impressiona muitíssimo: quando as mulheres vão para a camarata dos outros cegos. Passam em fila indiana, uma atrás das outras, cabisbaixas, em direcção ao martírio. Pareceu-me que, no fundo, a história da mulher, no mundo, na História, estava ali.

Lembra-se quando começou a sua relação com o cinema?
Devia ter seis anos. Morávamos na Mouraria. Perto havia o Salão Lisboa, a que chamávamos O Piolho. Foi aí que comecei a ir ao cinema, com um rapaz mais velho do que eu que vivia na mesma casa, o Félix. (Era no tempo em que se alugavam partes de casa). Vi as coisas mais disparatadas, filmes de terror, um filme em que aparecia um leproso com um capuz… O outro cinema onde ia, mais tarde, era o Animatógrafo. Giríssimo, pequeno, com uma espécie de grade que separava uma plateia da outra. Foi aí que vi uma parelha de cómicos suecos, que eram conhecidos à francesa por Pat & Patachon. Garanto-lhe que se tenho conhecimento que aparecem aí os filmes do Pat & Patachon, vou a correr!"


Publicado originalmente no Público em 2008

María Pagés na reflexão de José Saramago


"Utopía" de María Pagés

"It is known that María Pagés lives in the genius of dance, and as such we proclaim it. But there is more to this woman; she dances and by doing that, she moves everything that surrounds her. 

Nor the sky nor the earth is the same after María Pagés has danced."

(José Saramago)