Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 10 de junho de 2015

"A formação do escritor José Saramago" - Um livro decisivo: "Levantado do Chão" por Manuel Gusmão - Revista "O Militante"

"A formação do escritor José Saramago" - Um livro decisivo: "Levantado do Chão" por Manuel Gusmão 
Revista "O Militante" (edição n.º 308 - Set./Out. 2010)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://www.omilitante.pcp.pt/pt/308/Cultura/502A-formação-do-escritor-José-Saramago---Um-livro-decisivo-Levantado-do-Chão.htm


Artigo de Manuel Gusmão

"No prefácio que escreveu para a edição de Uma família do Alentejo, de João Domingos Serra, José Saramago diz de si mesmo enquanto escritor por alturas de 1975: «Era esse o tempo em que não tendo feito até aí mais que uns quantos  poemas e umas quantas crónicas, obra limpa sem dúvida, mas mais do que modesta, tinha começado a dar voltas a uma ideia ambiciosa, nada menos imagine-se, que uma história sobre o campo e quem lá trabalha e malvive.»
Começa por pensar utilizar como lugar dos acontecimentos uma quinta onde dormira uma noite quando fora com seu tio Manuel vender os porcos a Santarém. O projecto esvai-se e ele continua a matutar num romance para o qual não tinha nem história nem personagens. Recorda que também se lembrou da Azinhaga, aldeia onde nasceu, mas a ideia também não durou, «reteve-me uma espécie de pudor que ainda hoje nem a mim próprio sou capaz  de explicar». 

«E, vai daí, estava eu neste era não era, andava lavrando, deu-se o 25 de Novembro».  O jornal de que fora sub-director foi fechado, o pessoal mandado para casa com uma indemnização à excepção dele e, nessa situação, toma duas decisões. A  primeira, de não procurar emprego e a segunda «perguntar para o Lavre se haveria por lá uma cama onde dormir e um canto para trabalhar num livro que pensava escrever». 

Essas duas decisões são efectivamente decisivas, desculpem-me o pleonasmo. Quero eu dizer que elas vão ter consequências, mesmo que não imediatamente.

Uma vez instalado em Lavre, continua Saramago, «o meu plano de trabalho era simples. Antes de mais, conhecer a vila e os seus arredores, a ribeira, a ponte em ruínas a que atribuíam uma origem romana, mas que foi construída no séc. XVI, a represa e o moinho, enfim pôr as mãos em cima das coisas como me habituei a dizer, depois descobrir aqueles que dariam conteúdo e substância ao futuro livro, na maior parte camponeses de vida revolucionária obscura. Mas com um cabedal único de experiências. Encontrei-os, falei com eles, gravei bobinas e bobinas de conversações […]. Esses homens tinham nome, rosto, rugas da idade e do contínuo esforço, as mãos como cepos, diria Raul Brandão. Chamavam-se uns, que eram do Lavre, outros de Montemor, João Besuga […], António Joaquim Cabecinha, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António Catarro, José Francisco Curraleira, e outros, João Machado. Herculano António Redondo, Mariana Amália Besuga, Maria Saraiva, Ernesto Pinto Ângelo…».

Estamos perante uma enumeração de nomes daqueles que vamos encontrar em vários romances de José Saramago. Esse gesto narrativo – uma lista de nomes – é uma reprodução em espelho desta enumeração, ou talvez possamos dizer que esta lista aqui é que imita as listas que surgem nesses romances. Seja como for, esta lista, aqui, exibe o seu significado de uma forma clara: (a) a lista é uma homenagem àqueles de quem é dito o nome; (b) os nomes representam a multidão, que muitas vezes supomos sem nome, anónima, das personagens do livro que será Levantado do Chão; mas são também aqui, e este é um ponto importante, (c) uma espécie de co-autores do romance, como se fossem participantes do coro ou da voz coral que conta a história.

A lista termina com o nome de João Domingos Serra, o autor desse pequeno livro, que José Saramago resolve editar. No prefácio, que temos vindo a citar, o autor escreve: 

«Com o caderno debaixo do braço corri para o meu refúgio e pus-me a ler, com a ideia de ir copiando à mão as passagens mais interessantes, mas rapidamente compreendi que nem uma só daquelas palavras poderia perder-se. Não terminei a leitura. Meti uma folha de papel na máquina e comecei a trasladar, com todos os seus pontos e vírgulas, incluindo algum erro de ortografia, o escrito de João Serra. Tinha enfim livro. Anda tive de esperar três anos para que a história amadurecesse na minha cabeça, mas o Levantado do Chão começou a ser escrito nesse dia, quando contraí uma dívida que nunca poderei pagar.» (itálicos meus)

O que é que o escritor nos diz com estas palavras? Ele diz-nos do impacto ou da comoção (movimento da emoção) nele, provocada pela leitura do livro de João Serra. A ideia de que nenhuma palavra desse texto se deve perder não leva obviamente Levantado do Chão a repetir palavra a palavra o texto do camponês, mas leva este romance a guardar a memória desse outro livro, a amplificá-lo e a ecoá-lo, em suma a homenageá-lo.

Como perceber que Saramago, lendo o livro do camponês, diga «Tinha enfim livro», referindo-se a Levantado do Chão, que, entretanto, ainda demorará três anos a amadurecer? É que, no livro de João Serra, Saramago encontra uma fonte do seu livro, um testemunho que autentifica a sua narrativa, é como se o escritor erudito tornasse seu personagem-herói o narrador popular e tomasse o seu ritmo, os sentidos do seu contar.

Entre o momento em que começa a ser escrito (presumivelmente em 1976) – o que coincide com o começo da trasladação, à maquina de escrever, do texto de João Bonifácio Serra) – e a data de publicação de Levantado do Chão vão três a quatro anos, em que Saramago publica, nomeadamente, um romance (Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977), um livro de contos (Objecto Quase, de 1978) e um texto sobre «O Ouvido», espécie de descrição da tapeçaria «La dame à la licorne», que integra uma obra colectiva, Poética dos Cinco Sentidos, de 1979. Podemos considerar todos esses textos como textos em que o autor está em processo de formação; como se no seu corpo certa tensão muscular o preparasse para um salto. Como se José Saramago ainda não soubesse exactamente para onde vai, mas tacteasse, na superfície da rocha, a passagem por onde irá passar. Estes três livros formarão, com O ano de 1993, parte fundamental das obras de formação do escritor José Saramago.

Manual de Pintura e Caligrafia é um romance que conta a história de alguém que pinta retratos e se questiona sobre esse seu ofício e medita sobre essa prática obrigada a uma relação semelhança entre o retrato e o retratado. O romance termina por uma mudança de vida e na reflexão sobre a arte, por um encontro amoroso e pela chegada do 25 de Abril.

Objecto Quase começa com um conto, «Cadeira», que conta minuciosamente a queda da cadeira que arrasta consigo Salazar.

O Ouvido procede a um entrelaçamento de dois movimentos de sentido: por um lado, uma tentativa de descrição do sons que se ouviriam numa tapeçaria que figura o ouvido, por outro, uma narrativa do trabalho que desenhou e depois teceu a tapeçaria.

Ao trabalhar sobre o ouvido, Saramago vai ao encontro ou à descoberta  daquilo que ele próprio dirá ser a auralidade da sua escrita e o seu tom conversacional.

Em Levantado do Chão, Saramago encontra decisivamente (para a sua obra a vir) o tom dialogal e de conversa da sua narração. É como se ele, o autor-narrador, não estivesse sozinho a contar, como se as suas personagens pudessem partilhar a narração entre elas e com ele. Este efeito estilístico tem na sua base um tipo de frase pela qual reconhecemos os textos de Saramago.

Repare-se no último parágrafo do primeiro capítulo:    

«Madre de tetas grossas para grandes e ávidas bocas, matriz, terra dividida do maior para o grande, ou mais de gosto ajuntada do grande para o maior, por compra dizemos ou aliança, ou de roubo esperto, ou crime estreme, herança dos avós e meu bom pai, em glória estejam. Levou séculos para chegar a isto, quem duvidará de que assim vai ficar até à consumação dos séculos?

E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não registada na escritura, Almas mortas, ou ainda vivas? A sabedoria de Deus, amados filhos é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio. Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira.» 

Em casos extremos, essa frase é formada por vários segmentos dos quais varia o emissor. Aqui, em relação ao segundo parágrafo transcrito, formado por várias frases, podemos dizer que é a voz do narrador que começa por expor uma interrogação, uma dúvida e uma suspeita – quem é?/almas mortas, ou ainda vivas?/embora não registada na escritura. A seguir, o narrador como que se retrai e quem fala é um intermediário de Deus, um padre ou a própria instituição. A Igreja – A sabedoria de Deus, amados filhos, é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos – que é em parte corrigida pelo latifúndio, cuja palavra o narrador regista – Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio – Até que o narrador retoma a palavra naquilo que percebemos ser a promessa  de um contar alternativo à escritura que não fala daquelas gentes que parece terem vindo com a terra. O facto de ser dada a palavra à Igreja e ao Latifúndio e o modo como a usam constituem uma operação retórica que ironiza sobre esses «falantes» e lhes opõe um dizer diferente. Levantado do Chão será uma história do latifúndio, alternativa à que o latifúndio de si conta e para si deseja. Podemos pois dizer que o texto de Saramago, Levantado do Chão, é um texto de ficção que preenche uma lacuna da historiografia oficial ou da história contada pelos vencedores, pela classe dominante.

Podemos ainda dizer que Levantado do Chão é, simultaneamente, o último livro do período de formação do escritor José Saramago e o primeiro livro da sua maturidade.

Para esta sua dupla condição contribuem as características que já apontei e que recapitulo agora:

(1) A história contada nos seus romances aparece sempre como o preenchimento de uma lacuna num texto que tem funções de autoridade.

O Memorial do Convento conta a história da construção do Convento de Mafra, mas tal como em Levantado do Chão os protagonistas dessa construção são os trabalhadores braçais que não são nomeados pela escritura, ou seja, pela historiografia oficial. Uma confirmação disto pode ser fornecida pelo facto de andar também por Mafra uma personagem Mau-Tempo (Julião). As regras e as convenções de verosimilhança, o próprio contrato de leitura negociado entre o leitor e o texto indicam que este é um antepassado da família Mau-Tempo de Levantado do Chão. Eis uma parte da sua apresentação aos seus companheiros que transportam a pedra: O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo e vim trabalhar para Mafra por causa das grandes fomes de que padece a minha província. […] Este pequeno jogo que consiste em trazer para um romance posterior e uma distância de dois séculos antes uma personagem de um operário, é coincidente ou solidário com a estratégia de contar de outra maneira. Neste caso concreto, num romance que começa com o problema da sucessão dinástica, este aparecimento de Julião Mau-Tempo indica ao leitor que os trabalhadores, mesmo os mais humildes também têm antepassados, também vêm numa linhagem mesmo que silenciada e ignorada.

(2) Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, que é anunciado como o próximo romance, nas primeiras edições de Objecto Quase e Levantado do Chão, trabalham com o mesmo tipo de frase, que permite meter, no interior de uma frase ou de um parágrafo, um diálogo ou um conflito verbal.

Esta transformação da pontuação visa um efeito não apenas de diálogo, mas dialéctico ou dialógico. Uma vírgula seguida de uma palavra com letra inicial em maiúscula indica geralmente que se mudou de fonte da fala no interior de uma frase. No caso dos parágrafos, como vimos acima, são os próprios segmentos frásicos que produzem esse efeito.

Esta é a maneira como Saramago nos mostra a socialidade ou o carácter radicalmente social da linguagem humana.



(3) Os dois traços anteriores convergem com um terceiro também já enunciado acima que é a apresentação por vezes de listas de nomes dispostos por ordem alfabética, que se destinam a retirar do anonimato esses nomes e ao mesmo tempo sublinham nessa ordem o seu carácter artificial e residual, porque os nomes dos construtores são inúmeros.

Em Memorial do Convento, para além dos (7) nomes daqueles (sete) que num momento de descanso se apresentam uns aos outros – O meu nome é Francisco Marques, nasci em Cheleiros […], O meu nome é José Pequeno […]; Chamo-me Joaquim da Rocha, nasci no termo de Pombal […]; O meu nome é Manuel Milho, venho dos campos de Santarém […];  O meu nome é João Anes, vim do Porto […]; o meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo […]; o meu nome é Baltasar Mateus, todos me conhecem por Sete-Sóis […] – há ainda mais duas listas: 

Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, e Pedros, e talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem, vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende. Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcelino, Nicanor, Onofre, Paulo; Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra por cada um, para ficarem todos representados.

A lista que apresenta os nomes próprios na forma do plural é uma amostra e dá, por esse plural aplicado a um nome, uma ideia da quantidade de homens arrolados.

Depois e na sequência daquela vem então uma outra lista que apresenta um nome por cada letra do alfabeto. O carácter arbitrário do alfabeto dá a esta lista por ordem alfabética a possibilidade de representar todos os homens portadores de nomes com aquelas letras iniciais. Inscritos num livro que lhes vai sobreviver, ficam assim imortalizados. E poderíamos dizer que em momentos como este a ficção cumpre uma função alternativa à da historiografia oficial, com a sua glorificação dos reis e dos generais, em suma, dos mais poderosos.

A formação do escritor José Saramago está quase completa e ele entrou decididamente na sua maturidade de autor. Mas talvez possamos ir um pouco mais longe. Sabendo nós que o tempo e designadamente o tempo histórico não é linear talvez se possa compreender que eu sugira que há um livro ainda importante para esta formação que se vai sobretudo traduzir em romances. Esse livro, que é publicado em 1981, entre Levantado do Chão (1980) e Memorial do Convento (1982), chama-se Viagem a Portugal.

Este livro de viagens na sua terra ajuda a estabelecer a ponte entre os dois romances e mostra como a escrita de José Saramago representa na ficção uma história do povo trabalhador português, uma história denegada e recalcada, uma histórica que, entretanto, atesta a sua caminhada persistente até à sua emancipação."

Texto de José Saramago "Do canto ao romance, do romance ao canto" - 16/09/2009

O professor Carlos Reis, na sua obra agora reeditada, "Diálogos com José Saramago" - Porto Editora, à página 142, lança a seguinte pergunta ao escritor.
«Quero voltar à questão do tempo, mas só num seu aspecto particular, ao qual chego em função de um texto seu intitulado «Do canto ao romance, do romance ao canto», em que fala no tempo peculiar do romance (...). Este tempo descrito como labirinto, é o tempo de muitas personagens?»

Pode ser lido e consultado via página da Fundação José Saramago, aqui

(Pilar e Saramago)


"Do canto ao romance, do romance ao canto"

"É conhecido o caso de um moço, habilidoso de nascença, que, sem nunca ter recebido lições de belas-artes nem aprendido de mestres particulares, e não dispondo de outra ferramenta que um canivete, era capaz de transformar em pouco tempo um toco de madeira bruta no mais perfeito e acabado urso de que rezariam histórias da escultura se o objectivo delas fosse ocuparem-se de talentos místicos. Invariavelmente, a gente da terra maravilhava-se com a  rapidez e o jeito apurado, e, também invariavelmente, o rapaz respondia às curiosidades: «Não tem nenhuma dificuldade. Agarro no bocado de madeira e fico a olhar para ele até ver o urso. Depois, é só tirar o que está a mais.»

O nosso escultor dava-nos assim, de uma vez só, duas lições magníficas: a da modéstia e a da generosidade. Revelava-nos sem disfarce nem engano o seu segredo de oficina e ensinava-nos como deveríamos proceder para criar um urso: olhar para onde ele não está e, apenas com o olhar, obrigá-lo a aparecer.

Mas, ai de mim, não há perversidade  pior que a dos ingénuos. Este amável moço, tão prestante em explicar-nos  como fez, não permite que lhe saia da boca uma única palavra sobre  como se faz. Não duvidamos de que o urso ali esteja, mas entre a figura do animal e as nossas inábeis mãos existe uma muralha de madeira fechada, com nós duríssimos, veios intratáveis, traiçoeiras maciezas da fibra: é por de mais evidente que se necessitará muito engenho e muita  arte para abrir um caminho e fazer dele avenida por onde possa alongar-se, enfim comprazido, um olhar fruidor. A arte, afinal de contas, não é fácil, o rapaz dos ursos esteve a divertir-se à nossa custa.

Contudo, imprudente seria o céptico que se atrevesse a jurar que no interior de ada bocado de madeira não se encontra um urso à nossa espera. Está ali, e sempre há-de estar. Ainda que não consigamos vê-lo distintamente, pelo menos seremos capazes de adivinhá-lo, de intuí-lo, aparece-nos ao longe como  uma luz instável e lenta, um vago luzeiro que, por assim dizer, não chegasse a iluminar-se a si mesmo.

E é aqui, num súbito relance, que descubro que não é de ursos que se trata, mas de um tema, exactamente este que vos trouxe: «Do canto ao romance, do romance ao canto». Creio distinguir-lhe e identificar-lhe os contornos, tornar-se-lhe nítido e preciso o vulto, chego a acreditar que me bastará estender a mão e agarrá-lo, mas no momento em que vou exclamar, triunfante: «Minhas senhoras e meus senhores, eis o urso», verifico que tudo não foi mais que ilusão e ludíbrio, e apenas tenho para mostrar isto que vêem aqui, um tronco cortado, um cepo, uma raiz torta, um assunto à procura da sua porta de entrada. E outra vez a luz recomeça a pulsar, como um coração implorando: «Tirem-me daqui.»

Disse: «Do canto ao romance» – e esse percurso, essa viagem por espaços, mundos e tempos, desde os poemas homéricos a Marcel Proust, ou James Joyce, ou Franz Kafka, passando pelas Mil e Uma Noites, pelas epopeias indianas, pelas parábolas dos livros sagrados, pelo Cântico dos Cânticos, pelas fábulas milésicas, pelo Asno de Ouro, pelas canções de gesta, pelas sagas islandesas, pelos ciclos de Roldão, da Demanda do Graal, de Alexandre, de Robin Hood, pelo Roman de la rose e pelo Roman de Renart, por Gargântua, pelo Decameron, por Amadis de Gaula, por Don Quixote, e também por Gulliver e Robinson, Werther e Tom Jones, por Ivanhoe, Cinq-Mars e Os Três Mosqueteiros, pela Nossa Senhora de Paris, pela Comédia Humana, pelas Almas Monas, pela Guerra e Paz, pelos Irmãos Karamazov, pela Cartuxa de Parma, pela Montanha Mágica, até aqui, até aos dias de hoje, essa viagem relata-se e explica-se por si mesma, começou um dia, em voz e em grito, à sombra de uma árvore, ou no interior  de uma gruta, ou num acampamento de nómadas à luz das estrelas, ou na praça pública, ou no mercado, e depois houve alguém que escreveu, e a seguir alguém que escreveu sobre o que antes tinha sido escrito, infinitamente repetindo, infinitamente variando, escrevendo, lendo, escrevendo, lendo…

Pouco importará a mais do que provável incoincidência com a realidade histórica entre esta visão lírica de narrativas entoadas em melopeia e uma escritura organizada e disciplinada, respeitadora de regras, preceitos e normas, e, fatalmente, de sistemas convencionais que nunca o são menos pelo facto inelutável de serem transitórios  e portanto substituíveis por outros sistemas, estes, por sua vez, condenados, mais cedo ou mais tarde, a idênticos processos de mudança. A evocação que aí deixei serviu-me somente para ilustrar, do modo mais persuasivo de que fui capaz, a primeira parte do título que dei a estas breves linhas: «Do canto ao romance», e, para os fins que tenho em vista, tão bem servia esta como outra qualquer. A dificuldade viria sempre depois. Precisamente agora.

Digo: «Do romance ao canto» – e nesta  altura deveria demonstrar, ou pelo menos propor-vos como uma hipótese plausível, que o género literário a que damos o nome de romance, havendo chegado na nossa época ao final do arco de círculo que, tal imaginário pêndulo, traçou através dos tempos, estaria regressando pelo caminho por onde veio, até reencontrar o canto primordial, donde recomeçaria a viagem, porventura com um novo impulso que lhe  permitiria galgar, em direcção ao futuro, mais uns quantos séculos ou milénios. Algo como dois passos para trás e três para diante…

Não sou tão desprovido de senso comum.  Dinâmica e cinética são programas de diferente foro do conhecimento, e a literatura, se repete infinitamente, como já foi dito, também infinitamente varia, como foi dito  já. Posto o que, chegados a este ponto, é irresistível recordar aquele célebre Pierre Menard, autor de um Quixote  idêntico ao de Cervantes, segundo nos explica Jorge Luis Borges nas suas  Ficciones,  o qual Pierre Menard, tendo repetido, palavra por palavra, a obra do imortal «Manco de Lepanto» (assim designam a Cervantes quando não se quer repetir-lhe o nome, destino a que Camões escapou, pois ninguém, até hoje, se atreveu a chamar-lhe «Zarolho de Ceuta»), muitas vezes está a dizer coisas diferentes, não mais que por serem diferentes os modos de as entender neste século XXI em que estamos e naquele século XVII em que nunca estaremos. Porém, este mesmo exemplo nos mostra, derradeiramente, que qualquer repetição exacta é impossível. Naquela sua viagem de retorno às origens, ao outro extremo do arco de círculo, o pêndulo iria supostamente reencontrando e reconhecendo, passo a passo, a identidade  romanesca perceptível nas narrações que conhecemos do passado, ao mesmo tempo que iria deixando atrás de si o rasto de uma alteridade coincidente, se uma tão grosseira contradição em termos (se é alteridade, não é coincidente) pudesse ser admitida. É claro que foi pelos meus próprios passos que me meti no beco sem saída em que de repente me encontro. De facto, se ao romance não é permitido fazer nenhum percurso inverso, se Pierre Menard, quando fiel e escrupulosamente copiou o Quixote, acabou por escrever outro livro, como conseguiríamos nós alcançar novamente o anto, o desejado canto, e, se sim lá chegássemos, de que canto seriam capazes as nossas bocas de hoje, ainda que as palavras fossem iguais e igual a música? Os homéridas já não têm lugar neste mundo, o  tempo é, de todas as coisas, a única que não é recuperável. Que nos resta, então? Como iremos inventar o canto novo, esse a que me está obrigando a segunda parte do meu título? E com que direito me proporia eu, se é de facto essa a minha intenção, anunciar o advento de uma nova era, literariamente falando, claro está, sem cuidar de saber se isso agradaria a quem tivesse de vivê-la? Trazer Homero aos nossos dias, homerizar o romance, terá algum sentido?

Estas perguntas, em si mesmas, e pela ordem por que as apresentei, não são inocentes. Permitem-me, enfim, trocar o geral pelo particular, penetrando no único universo de que posso falar com a legitimidade que dá um conhecimento de causa, isto é, o meu próprio e pequeno universo, o do romance que faço, o seu porquê, o seu como e o seu para quê.

Em primeiro lugar, consideremos a relação do autor com o tempo. Não este em que agora estamos, não aquele outro que foi o do escritor enquanto trabalhou no seu livro, mas sim o tempo contido e encerrado no romance, e que também não é o das horas e dias que levará a ser lido, ou uma referência temporal implícita no discurso ficcional, e menos ainda o tempo explicitado fora da narrativa, por exemplo, no título que ela recebeu, casos de Cem Anos de Solidão ou de Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher.  Falo, sim, de um tempo poético, feito  de ritmos, de suspensões, um tempo simultaneamente linear e labiríntico, instável, movediço, um tempo dotado de leis próprias, um fluxo verbal que transporta uma duração e que uma duração por sua vez transporta, fluindo e refluindo como uma maré entre dois continentes. Este, repito, é o tempo poético, pertence à recitação e ao canto, aproveita todas as possibilidades expressivas do andamento, do compasso, da coloratura, é melismático ou silábico, longo, breve, instantâneo. De um tempo assim percebido foi meu desejo e minha ambição que se alimentassem as ficções que inventei, consciente de que vou querendo, mais e mais, aproximar-me da estrutura de um poema que, sendo pura expansão, se mantivesse fisicamente coerente.

Afirmam músicos e musicólogos que uma  sinfonia, hoje, é algo impossível, como, na mesma linha de ideias, o seria  também esculpir um capitel coríntio. Obviamente, qualquer pessoa, se dotada de suficiente habilidade, poderá contrariar tal interdição de princípio, compondo, de facto, a sinfonia,  ou esculpindo, de facto, o capitel: o que dificilmente poderá é levar-nos a acreditar que, ao fazê-lo, esteve a responder a uma necessidade autêntica, tanto no plano da criação como no plano da fruição. Ora, quem sabe se não teremos  também nós de enfrentar a gravíssima responsabilidade de aplicar ao romance uma  sentença igual, afirmando, por exemplo, que também ele se tornou impossível nas suas formas paradigmáticas, prolongadas até hoje com mínimas variações, só raramente  radicais e sempre assimiladas e integradas no corpo tópico, o que tem permitido, com a graça de Deus e a bênção dos editores, que continuemos, muitos de nós, a escrever romances como comporíamos sinfonias brahmsianas ou talharíamos capitéis coríntios.
Mas este mesmo romance, que assim parecia estar condenando, contém já em si, nos seus diversos e actuais avatares, a possibilidade de se transformar num espaço literário (propositadamente digo espaço, e não género) capaz de acolher, como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio, e também da ciência e da filosofia, tornando-se expressão de um conhecimento, de uma
sabedoria, de uma cosmovisão, como o  foram, no seu tempo, os poemas da antiguidade clássica.

Porventura estarei caindo em erro, se recordarmos a crescente e parece que irreversível especialização, já quase microscópica, do homem. Porém, não é impossível que essa mesma especialização, por força de algum mecanismo interior de compensação, e talvez por uma instintiva necessidade de sobrevivência e equilíbrio psicológico, nos leve a procurar uma nova vertigem do geral em oposição às aparentes seguranças do particular. Literariamente, porque só de literatura estamos falando aqui, talvez o romance possa restituir-nos essa suprema vertigem, o alto e extático canto de uma humanidade que ainda não foi capaz, até hoje, de conciliar-se com a sua própria face.

E assim concluo. Manejando o meu canivete rombo, aparei e escavei o bocado de madeira que aqui vos trouxe. Juro-vos que via o urso antes, via-o perfeitamente. Juro-vos que continuo a vê-lo agora. Mas não tenho a certeza – culpa minha – de que o vejais vós. O mais provável foi ter-me  saído um ornitorrinco, esse mamífero desajeitado, com bico de pato, feito de peças soltas doutros animais, desconforme, bicho fantástico – ainda que não tanto  como o ser humano. Este que nós somos quando escrevemos romances, ou os lemos. Interminavelmente."

José Saramago
16 Setembro de 2009  

sábado, 6 de junho de 2015

"José & Pilar" O filme documentário



Sinopse
"A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo – ou, pelo menos, em torná-lo melhor.

José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, “tudo pode ser contado doutra maneira”.

Mais informação aqui

FICHA TÉCNICA E EQUIPA

TÍTULO: “José e Pilar”

GÉNERO: Longa-metragem documental

DURAÇÃO: 125’

SUPORTE: HDV 16x9

IDIOMA ORIGINAL: Português / Castelhano

PRODUÇÃO: JumpCut (Portugal)

CO-PRODUÇÃO: EL DESEO (Espanha) e O2 Filmes (Brasil)

PRODUTOR ASSOCIADO: Abel Ribeiro Chaves / OPTEC, Lda

TELEVISÕES ASSOCIADAS: SIC (Portugal), YLE (Finlândia), SVT (Suécia)

EQUIPA


REALIZAÇÃO: Miguel Gonçalves Mendes (Portugal)

PRODUTORES: Agustín Almodóvar / Bel Berlinck / Esther García / Fernando Meirelles / Miguel Gonçalves Mendes 

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Daniel Neves (Portugal)

MONTAGEM: Cláudia Rita Oliveira (Portugal)

SOM:  Olivier Blanc, Adriana Bolito, Bárbara Álvarez Plá, Hugo Alves

MISTURA: Alessandro Laroca e Armando Torres Jr. (Brasil)

FOTOGRAFIA DE CENA: Susana Paiva (Portugal)

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Ana Jordão/ Daniela Siragusa (Portugal)




Relembramos a edição #13 da Revista Digital "Blimunda" - Junho 2013

(Capa da edição #13 - Junho 2013)

No mês em que se assinalam os cinco anos da morte de José Saramago, várias iniciativas serão realizadas para homenagear o homem e o escritos.

Aqui recorda-se a edição de Junho de 2013.

Para ler e descarregar gratuitamente, aqui

"A Blimunda comemora neste mês de Junho o seu primeiro aniversário!

E se Junho é mês de Festas de Lisboa, as sardinhas que desde há dez anos lhe servem de imagem não podiam deixar de marcar presença nas páginas da revista.

Neste número, destaque para o humor com uma entrevista de Sara Figueiredo Costa a Ricardo Araújo Pereira, humorista, cronista, recentemente distinguido com o Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores. Também no mesmo dossier um retrato do colectivo Mongolia, responsável por uma edição regular de um jornal de humor em que as notícias ditas sérias não deixam de ter o seu espaço.

No infantil e juvenil, uma viagem de Andreia Brites pelo trabalho que Miguel Horta, mediador de leitura, escritor, pintor, contador de histórias, realiza nas prisões portuguesas desde há vários anos, com uma paragem obrigatória no Estabelecimento Prisional de Guimarães, palco das Novas Memórias do Cárcere.

Ainda nesta secção, destaque para o livro Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida, para a coleção Pássaro Livre (Livros Horizonte) e para uma selecção de novidades que viram a luz do dia na última edição da Feira do Livro de Lisboa.

A fechar o número do primeiro aniversário da Blimunda, damos voz a José Saramago e a Eduardo Lourenço em dois textos sobre este nome que a revista da Fundação José Saramago escolheu como seu. E como Junho é mês de viagens, uma visita ao projeto que o ACERT tem em mãos, o da adaptação teatral do romance de José Saramago, A Viagem do Elefante.

No fim deste primeiro ano de publicações regulares da Blimunda, uma palavra de agradecimento a todos os que com ela têm colaborado, afirmando esta publicação como um espaço vivo, um espaço de cultura abrangente, atento à realidade dos nossos dias.

A todos, o nosso obrigado!"

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Fundação José Saramago - "Nos 5 anos da morte de José Saramago" - Programação


A Fundação José Saramago, convida.
Aqui, para consulta em 

"No dia 18 de Junho passam cinco anos sobre a morte de José Saramago. Para assinalar a data, a Fundação José Saramago preparou uma programação intensa que inclui entrada gratuita à Casa dos Bicos, uma exposição, sessão de cinema, um recital, entre outras actividades."



"Jornada de portas abertas na Fundação José Saramago. Cada visitante receberá um exemplar do discurso do Nobel de 10 de dezembro de 1998 e será convidado a fazer uma foto com os “óculos” do escritor, para ver o mundo com pelas suas lentes. Estão todos convidados."



Cartazes e informação alusiva à data.


domingo, 31 de maio de 2015

"Inventário" a poesia de José Saramago cantada por João Afonso


"Inventário"

"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

José Saramago
em, "Os Poemas Possíveis"
Porto Editora, página 143

Post no blog/Livro "O Caderno 2" sobre os índio da reserva "Raposa do Sol" (30/03/2009)


Pode ser consultado e lido aqui,
em http://caderno.josesaramago.org/33103.html


"Raposa do Sol"
"Lá de longe em longe o dia amanhece diferente. Que o digam os índios da reserva indígena da Raposa do Sol no Estado de Roraima, ao norte do Brasil, a quem o Supremo Tribunal Federal acaba de reconhecer e confirmar definitivamente o seu direito à plena posse e ao uso pleno dos mil quilómetros quadrados de superfície da reserva. A sentença não deixa qualquer margem a dúvidas: os não índios devem sair imediatamente da Raposa do Sol, assim como as empresas arrozeiras que durante anos invadiram o território e nele se instalaram abusivamente. Já em 2005 o presidente Lula havia decidido a entrega da reserva aos indígenas e a saída das empresas arrozeiras, mas as autoridades do Estado de Roraima, favoráveis aos arrozeiros, recorreram ao Supremo Tribunal por considerarem inconstitucional o decreto presidencial. Quatro anos depois o Supremo decide a questão e põe uma definitiva pedra sobre o assunto. Nem tudo, porém, são rosas neste idílico quadro. Afinal, a luta de classes, tão discutida em épocas relativamente recentes e que parecia haver sido condenada ao caixote do lixo da História, existe mesmo. Com esta visão unilateral que temos, nós, os europeus, dos problemas sociais da América Latino, tendemos a ver unanimidades onde elas não existem nem existiram nunca. Na Raposa do Sol, os índios endinheirados, que também lá os há, fizeram causa comum com os não índios e com as empresas arrozeiras. A festa foi dos outros, dos pobres.

Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?"
(30 de Março de 2009)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Dispostos em cruz" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor


Musicado por Luis Pastor, do álbum "Nesta Esquina do Tempo"

Poema de José Saramago, em "Provavelmente Alegria"
Caminho, 3.ª Edição, páginas 90 e 91

«Dispostos em cruz»

Dispostos em cruz desfeitos em cruz
em cada caminho três portas fechadas
um vento de faca um resto de luz
o espanto da morte nas águas cortadas

Um corpo estendido um ramo de frutos
um travo na boca da boca do outro
o branco dos olhos o negro dos lutos
o grito o relincho e o dente do potro

As feridas do vento as portas abertas
os cantos da boda no ventre macio
as notas do canto nas linhas incertas
e o lago do sangue ao largo do rio

O céu descoberto da nuvem da chuva
e o grande arco-íris na gota de esperma
o espelho e a espada o dedo e a luva
e a rosa florida na borda na berma

E a luz que se expande no pino do Verão
e o corpo encontrado no corpo disperso
e a força do punho na palma da mão
e o espanto da vida na forma do verso

Resenha da obra "Alabardas, Alabardas, Espingadas, Espingardas" no blog "Literar"

Via página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui
em https://www.facebook.com/fjsaramago?fref=nf

«Uma crítica a "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas" publicada pelo blog Literar, do Brasil: "Pode parecer estranho publicar um livro incompleto, mas essa é justamente a graça de toda a obra de Saramago: o futuro está aí para ser escrito, todos os dias, o tempo todo."»



Link do blog "Literar" (Brasil), aqui em http://www.literar.com.br/
Link da resenha da obra, via blog "Literar", aqui para consulta e leitura 
em http://www.literar.com.br/alabardas-alabardas/


«Na minha cabeça, algumas pessoas são imortais. Eu sei, eu sei: a vida tem etapas, e morrer faz parte desse processo natural. Racionalmente, eu sei (mas vai dizer isso para aquela parte de mim que espera que Manuel Bandeira, Ariano Suassuna e Gabriel García Marquez estejam sempre por aqui). Para minha felicidade completa, minha teoria às vezes se prova certa. Mais de três anos após deixar milhares de órfãos pelo mundo, José Saramago volta a bater na minha porta com Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. O que eu poderia fazer senão tirar a tranca do portão e convidá-lo para um chá com bolachas?

Alabardas, Alabardas… é o último romance escrito por Saramago, com um porém: o escritor se foi antes que pudesse terminá-lo. Na verdade, o que temos nas páginas publicadas pela Companhia das Letras são os três capítulos iniciais da obra, acompanhados de anotações feitas por José sobre o caminho que pretendia seguir daí para frente. Parece pouco, né? E em certo ponto, é mesmo. É pouco porque as palavras de Saramago tem o efeito de te abraçar com força logo nos primeiros parágrafos. Depois de conhecer seus personagens, é difícil aceitar que não vamos acompanhá-los até o final de suas jornadas. Por outro lado, o romance cumpre o papel essencial de um livro: colocar a imaginação para trabalhar a todo vapor. Se não há final, há páginas e páginas em branco para que novos destinos surjam na cabeça de quem lê.


O livro nos introduz a Artur Paz Semedo, trabalhador de uma indústria armamentista e defensor da arte da guerra, e sua ex-mulher Felícia, uma pacifista convicta que acabou rompendo seu casamento por não acreditar na ideologia do marido. Em um livro sobre a Guerra Civil Espanhola, Artur lê um trecho que lhe chama a atenção: em determinado local, funcionários do setor de armas sabotaram materiais que seriam usados na guerra. Impulsionado por esse fato, ele decide pesquisar, dentro da empresa que trabalha, os históricos referentes a essa época e tentar descobrir se algo similar se passou também por lá.

Além dos três capítulos, o livro traz ilustrações incríveis de Günter Grass, alemão ganhador do Nobel de literatura, e três ensaios sobre a obra de Saramago. Escritos por Fernando Gómez Aguilera, Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano, os textos formam um complemento importante para entender a importância dessas últimas páginas de um dos maiores escritores que o mundo conheceu. Pode parecer estranho publicar um livro incompleto, mas essa é justamente a graça de toda a obra de Saramago: o futuro está aí para ser escrito, todos os dias, o tempo todo.

Se eu precisasse tirar uma única lição de toda a obra de José Saramago, seria: o mundo é feito de pessoas. Pessoas que pensam, se relacionam e comunicam. Pessoas que não tem ideia de todo o potencial que se esconde por trás de seus dia-a-dia monótonos. Pessoas que desconhecem a mágica por trás de suas histórias mundanas e seus relacionamentos. Por isso, não, eu não acho estranho ler seu último livro e nunca saber como ele termina. Afinal, Saramago me ensinou a ver além, a enxergar mais do que se vê.



Com Alabardas, Alabardas… Saramago entrou na minha casa, deixou o casaco no cabineiro, provou do chá e pediu por uma colher de açúcar, mas teve que ir embora antes dos biscoitos saírem do forno. Fica tranquilo, Saramago, seu lugar na mesa vai estar sempre separado – e eu mando fazer um pacote especial com as guloseimas ainda quentinhas. Palavra de amigo. ;)»
Luiz Marcatto

"A Casa José Saramago" de Tías Lanzarote lança a iniciativa "TODOS SOMOS SARAMAGO" - 18/06/2015 (5 anos)



Via página do Facebook, aqui 

"Faltan solo 3 semanas para recordar a José Saramago en el homenaje TODOS SOMOS SARAMAGO. ¡Esperamos vuestros vídeos y colaboraciones!

¿Nos ayudáis a difundirlo?
El próximo mes (jueves 18 de junio) se cumplen 5 años sin José ‪#‎Saramago‬. 5 años de ausencia en los que su memoria y su literatura se nos hacen más necesarias que nunca. Desde A Casa hemos pensado hacerle un homenaje libre y abierto a todos sus lectores y amigos. Para ello os invitamos a grabar un vídeo corto (con una cámara de móvil o webcam servirá), de no más de 3 minutos, recitando, cantando o interpretando algún poema o estrofa que os guste de cualquiera de sus libros, y nos los hagáis llegar a nuestro correo: acasajosesaramago@gmail.com

TODOS SOMOS SARAMAGO

No próximo mês (quinta-feira 18 de junho ) reuniu-se cinco anos sem José Saramago. 5 anos de ausência em sua memória e sua literatura nos tornamos mais necessário do que nunca . De A Casa nós tê-lo pensado um tributo gratuita e aberta a todos os leitores e amigos. Para este fim, nós convidamos você para gravar um vídeo curto ( com uma câmera de celular ou webcam irá fazer) , não superior a três minutos, recitando, cantando ou tocando um poema ou verso você gosta de alguns de seus livros, e todos nós devemos fazer chegar nosso e-mail : acasajosesaramago@gmail.com

TODOS SOMOS SARAMAGO"

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Palavras trocadas" inspiradas em algumas obras de José Saramago


"Palavras Trocadas"

... vivemos num autêntico "Ensaio sobre a Cegueira", 
que se repete num "Ensaio sobre a Lucidez"
... a alguns apetece partir numa "Jangada de Pedra", 
ou seguir na "Viagem do Elefante", 
porque as coisas que vivemos não são "Deste Mundo e do Outro".
Quando chegará de novo "A Noite", 
para que "Os Poemas Possíveis" possam ser de novo musicados?
Às vezes, sinto-me acabado de ser "Levantado do Chão", 
extenuado depois de uma "Viagem a Portugal", 
onde "Os Apontamentos" recolhidos, são peças soltas de uma passarola construída por um padre alucinado que vive num suposto estado de "Provavelmente Alegria". 
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", que este, sendo "O Homem Duplicado" de Pessoa, 
viveu nas suas "Pequenas Memórias" 
as "Intermitências da Morte", 
dentro da "Caverna" em que este país se tornou, 
desde a famosa "História do Cerco de Lisboa".
Os censores andam aí, com a cara destapada ou com uma simples capa vestida, 
gritam e bramem aos céus "In Nomine Dei", "In Nomine Dei"!!!
... talvez em busca de outro "Evangelho Segundo Jesus Cristo"
... mas tenham atenção, que "Caim" marcado para sempre, 
dará outra oportunidade tal qual se tratasse de uma "Segunda Vida de Francisco de Assis".
Nesta "Terra do Pecado", onde falta a bondade ao homem, 
procuramos uma nova luz de esperança 
e que essa possa chegar sob o signo da "Maior Flor do Mundo".
"Que Farei com este Livro", 
onde constam todas as evangélicas atrocidades cometidas em nome de deuses, 
por homens raivosos e cegos de razão e moral... 
esses a quem lhe faltou sempre um "Manual de Pintura e Caligrafia" 
com os valores inscritos para a humanidade...

Miguel de Azevedo


domingo, 24 de maio de 2015

Post "Tristeza" do Blog/Livro "Caderno 2" de 20 de Agosto de 2009

Pode ser consultado e lido, aqui 
em http://caderno.josesaramago.org/58856.html

"Tristeza"
"Uma irresistível e já automática associação de ideias faz-me sempre recordar a Melancolia de Dürer quando penso na obra de Eduardo Lourenço. Se o Só de António Nobre é o livro mais triste que alguma vez se escreveu em Portugal, faltava-nos quem sobre essa tristeza reflectisse e meditasse. Veio Eduardo Lourenço e explicou-nos quem somos e porque o somos. Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los." (20 de Agosto de 2009)

em "Caderno 2"
Caminho

(Pintura de Albrecht Durer)

Blimunda Revista Digital - Relembramos a edição #24 Maio de 2014... agora que a #36 foi lançada

(Capa da edição 24 - Maio de 2014)

Em Maio de 2015. conhecida a presente edição, relembramos o #24. 
Via Fundação José Saramago, aqui

Sinopse da edição
"Num dos seus romances, José Saramago faz a Península Ibérica viajar, como se fosse uma “jangada de pedra”. Nesta edição de maio, a Blimunda convida os seus leitores a empreender viagens para vários sítios: a Lanzarote, para conhecer melhor o livro de fotos de João Francisco Vilhena sobre a ilha de Saramago; a Lisboa, que recebeu mais uma edição do Festival da Máscara Ibérica; ao Brasil de Zuenir Ventura e Luis Fernando Veríssimo e à sua visão sobre o 25 de abril; até ao universo mágico de João Lizardo ou o assustador cinema de Tobe Hooper.

Já quase no fecho da revista chegou-nos a notícia de que, graças ao trabalho do atelier Silvadesigners, a Blimunda foi distinguida com o prémio prata na categoria de Design Editorial/Publicações Periódicas no XVI Festival do Clube de Criativos de Portugal. A distinção alegra-nos e motiva-nos ainda mais na tarefa de mensalmente produzir conteúdos culturais que despertem o interesse dos nossos leitores.

Boas leituras e até junho, mês em que a Blimunda, cheia de novidades, completa dois anos."

Citador #38 ... do tempo do Sr. José, em "Todos os Nomes"

Citador #38
... do tempo do Sr. José
"Todos os Nomes"
Caminho, páginas 46 e 47

(Capa da edição italiana de 1997)

(...) «O tempo pusera-se a contar os dias desde o princípio, agora usando a tábua da multiplicação para recuperar o atraso, e com tanto acerto o fez que o Sr. José já tinha outra vez cinquenta anos quando chegou a casa. Quanto à criança lacrimosa, essa só estava uma hora mais velha, o que demonstra que o tempo, ainda que os relógios queira convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente.» (...)

sábado, 23 de maio de 2015

Aprsentação da peça de teatro "A Maior Flor e Outras Histórias Segundo José" - dia 23/05 na Fundação José Saramago



Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/2305-apresentacao-de-a-maior-flor-e-outras-historias-segundo-jose/

"Mais sobre a obra:
Inspirado na obra de José Saramago e tendo como base de trabalho dramatúrgico o seu livro A Maior Flor do Mundo, o Teatro Art´Imagem apresenta uma peça de teatro para ser vista por adultos e crianças em conjunto. Uma boa oportunidade para homenagear e divulgar o autor e a sua obra, na esteira do Teatro Art´Imagem cujo lema tem sido apresentar os grandes autores e textos da literatura universal, transformando-os em teatro.

Acrescentando outros textos que vão desde As Pequenas Memórias aos contos Deste Mundo e do Outro, dos Cadernos de Lanzarote aos Poemas Possíveis e ao Discurso de aceitação do Prémio Nobel, ao aparecimento de personagens literárias inesquecíveis do universo do autor, como o par Blimunda e Baltazar, os Sete Sóis e Sete Luas, do Memorial do Convento, a Mulher do Médico e o Cão das Lágrimas, de O Ensaio Sobre a Cegueira, até às criaturas reais, mais ou menos fantasiadas, que povoaram a sua infância, como os seus avós Jerónimo e Josefa e outros familiares, bem como as recordações do que era viver, trabalhar e brincar na aldeia de Azinhaga do Ribatejo, ao despertar dos primeiros amores. Dois actores, uma mulher e um homem, interpretam e representam em palco e na plateia, as palavras e acções escritas e descritas pelo autor, ganhando estas outra dimensão artística de comunicação e partilha. Há corpos em presença, olhos que se cruzam, pessoas de corpo presente, membros que se tocam, vozes que se ouvem, respirações e tempos comuns entre espectadores e artistas, acção dramática, movimento e vida em misturando-se teatro e literatura, palavras e actos, deambulação e realidade, sentimentos, medos e perguntas, recordações e memórias. Em palco toda a humanidade que Saramago descreve e defende nos seus romances e na sua própria vida, à procura de um mundo diferente, melhor."



Aqui via Teatro Art'Imagem, aqui 

"A MAIOR FLOR E OUTRAS HISTÓRIAS SEGUNDO JOSÉ"

«Havia uma aldeia e um menino (ou uma menina?).
Havia também os avós com quem a menina (menino?) vivia, mais os vizinhos.
Um dia sai o menino (menina?) pelos fundos do quintal e toca a andar, toca a andar.
Caminhou, caminhou, correu, correu, parou, parou...
Até que chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinha ( sozinho?).
– Vou ou não vou?
Foi!
À descoberta de si, à descoberta do mundo.»

Inspirado na obra de José Saramago e tendo como base de trabalho dramatúrgico o seu livro para crianças “A Maior Flor do Mundo”, o Teatro Art´Imagem apresenta uma peça de teatro para ser vista por adultos e crianças em conjunto. Uma boa oportunidade para homenagear e divulgar o autor e a sua obra, na esteira do Teatro Art´Imagem cujo lema tem sido apresentar os grandes autores e textos da literatura universal, transformando-os em teatro. 
Acrescentando outros textos que vão desde “Pequenas Memórias” aos contos “Deste Mundo e do Outro”, dos “Cadernos de Lanzarote” aos “Poemas Possíveis” e ao Discurso de aceitação do Prémio Nobel, ao aparecimento de personagens literárias inesquecíveis do universo do autor, como o par Blimunda e Baltazar, os Sete Sóis e Sete Luas, do “Memorial do Convento”, a Mulher do Médico e o Cão das Lágrimas, de “O Ensaio Sobre a Cegueira”, até às criaturas reais, mais ou menos fantasiadas, que povoaram a sua infância, como os seus avós Jerónimo e Josefa e outros familiares, bem como as recordações do que era viver, trabalhar e brincar na aldeia de Azinhaga do Ribatejo, ao despertar dos primeiros amor. Dois actores, uma mulher e um homem, interpretam e representam em palco e na plateia, as palavras e acções escritas e descritas pelo autor, ganhando estas outra dimensão artística de comunicação e partilha. Há corpos em presença, olhos que se cruzam, pessoas de corpo presente, membros que se tocam, vozes que se ouvem, respirações e tempos comuns entre espectadores e artistas, acção dramática, movimento e vida em misturando-se teatro e literatura, palavras e actos, deambulação e realidade, sentimentos, medos e perguntas, recordações e memórias. Em palco toda a humanidade que Saramago descreve e defende nos seus romances e na sua própria vida, à procura de um mundo diferente, melhor.

Ficha artística e técnica

» Inspirado na Obra de José Saramago 
» Dramaturgia e encenação José Leitão 
» Interpretação Daniela Pêgo e Flávio Hamilton
» Pintura Agostinho Santos
» Música Alfredo Teixeira
» Cenário Fátima Maio, José Leitão e José Lopes 
» Figurinos e adereços Fátima Maio
» Apoio ao movimento Renato Vieira e Ana Lígia
» Desenho de Luz Leunam Ordep
» Operação Técnica Sandra Sousa

» Produção Sofia Leal

Classificação Etária: M/6
Duração Aproximada: 50m

104ª Criação do Teatro Art'Imagem - 2014

terça-feira, 19 de maio de 2015

Blimunda #36 - Maio de 2015 - Revista Digital para descarregar gratuitamente



Pode ser lida e descarregada, via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-36-maio-2015/

Sinopse
"O número 36 da revista Blimunda arranca com uma revelação. Em Junho realizar-se-á no México um encontro entre académicos, intelectuais e pensadores de várias nacionalidades para colocar em marcha um desafio lançado por José Saramago: a criação de uma Carta dos Deveres Humanos. É sobre essa iniciativa que o editorial da revista se debruça.

Mais adiante, a Blimunda desembarca em Matosinhos para acompanhar o LeV – Festival Literatura em Viagem, de lá trazendo histórias contadas por Sara Figueiredo Costa e imagens de Pedro Loureiro.

Na secção cinema, o Capitão Falcão, “o primeiro super-herói português”, entra na mira de João Monteiro, que coloca o irreverente filme que acaba de chegar aos cinemas de Portugal em diálogo com um outro filme, A Revolução de Maio, de António Lopes Ribeiro, de 1937.

Colaboram nesta edição da revista o jornalista Fernando Alves, com um texto sobre o livro que narra a digressão do elefante Salomão e do Trigo Limpo Teatro ACERT, de Tondela, por terras de Dão Lafões, e também a professora Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, que na secção Saramaguiana analisa o livro Diálogos com José Saramago, de Carlos Reis, agora reeditado.

Para a secção Infantil e Juvenil, Andreia Brites preparou uma seleção de novidades literárias que serão lançadas no final do mês na Feira do Livro de Lisboa.
Boas leituras, e até Junho, mês do terceiro aniversário da Blimunda e dos cinco anos da morte de José Saramago, a quem dedicaremos grande parte da próxima edição desta nossa e vossa Blimunda."

domingo, 17 de maio de 2015

«Todos os Nomes» de José Saramago ... do Sr. José e o início




(...) «O verbete é de uma mulher de trinta e seis anos, nascida naquela mesma cidade, e dele constam dois averbamentos, um de casamento, outro de divórcio. Como este verbete há de certeza centenas no ficheiro, senão milhares, portanto não se compreende por que estará o Sr. José a olhar para ele com uma expressão tão estranha, que à primeira vista parece atenta, mas que é também vaga e inquieta, possivelmente é este o modo de olhar de quem, aos poucos, se desejo nem recusa, se vai desprendendo de algo e ainda não vê aonde poderá deitar a mão para tornar a segurar-se.» (...)

em "Todos os Nomes"
Caminho, página 37


domingo, 10 de maio de 2015

"O último tiro" publicado em "Rascunho jornal de literatura do Brasil" sobre a obra "Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas"

"O último tiro" de Ovídio Poli Junior

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-ultimo-tiro/


"Em seu inacabado e póstumo romance, 
José Saramago combate o universo sombrio da indústria armamentista"

"O silêncio é a mais poderosa das armas, parece insinuar o narrador criado por José Saramago a propósito de Felícia, ativista com ideais pacifistas e ex-mulher de Artur Paz Semedo, funcionário de uma indústria de armas. Esse é o núcleo em torno do qual o autor constrói a última narrativa que nos deixou — Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas.
Artur Paz Semedo é um homem comum, cumpridor de suas obrigações na chefia do setor de contabilidade de armas leves e munições da Belona S. A. Igual a meu pai, que foi contador em uma pequena indústria têxtil, ele passa os dias encenando a rotina universal da profissão: a organização meticulosa, o cálculo das faturas, a precisão dos apontamentos, o rame-rame dos papéis, a regularidade dos registros, a segurança fria e confortável proporcionada pelos números.
O protagonista é uma espécie de Bartleby, o escrivão de Herman Melville, só que possuidor de alguma determinação e iniciativa. Não questiona os seus superiores e tem certo orgulho do renome da empresa e de trabalhar em seu ofício. É discretamente ambicioso e sonha em chefiar o setor de armamentos pesados da empresa:
Os efeitos psicológicos desta entranhada e não satisfeita ambição intensificam-se até à ansiedade nas ocasiões em que a administração da fábrica apresenta novos modelos e leva os empregados a visitar o campo de provas, herança de uma época em que o alcance das armas era muito menor e agora impraticável para qualquer exercício de tiro. Contemplar aquelas reluzentes peças de artilharia de variados calibres, aqueles canhões antiaéreos, aquelas metralhadoras pesadas, aqueles morteiros de goela aberta para o céu, aqueles torpedos, aquelas cargas de profundidade, aquelas lançadeiras de mísseis (…), era o maior prazer que a vida lhe podia oferecer.
Em seu último romance, inacabado e publicado postumamente, Saramago nos leva a refletir sobre os descaminhos do mundo moderno escarafunchando o universo sombrio da indústria armamentista. Mais que isso, nos leva a refletir sobre a microfísica do poder, o dever de consciência escondido sob a capa da indiferença e do conformismo burocrático.
O título da obra, extraído de uma tragicomédia de Gil Vicente (Exortação da guerra), soa como uma espécie de reverberação a demarcar a insistência humana na destruição sempre renovada dos semelhantes e na construção de instrumentos letais: alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Soa também de forma irônica, pois sabemos que nas guerras modernas não se matam homens como antigamente, os mísseis e obuses tornando a morte cada vez mais distante e impessoal, quase científica em sua pretensão cirúrgica.
Indústria da morte
Nos três capítulos que Saramago nos deixou, não há cenas de combate e a guerra não aparece em sua face mais cruel. O que o escritor quer mostrar são os bastidores dessa indústria da morte, ou, mais precisamente, a responsabilidade humana no interior desse universo: o administrador que herdou o empreendimento familiar, a secretária que de forma calculada estende o tempo de espera dos que procuram a direção da empresa, os funcionários do arquivo vivendo como toupeiras nos subterrâneos da Belona S. A.
Mais que isso, Saramago mostra como os personagens se desvencilham dos dramas de consciência que o seu trabalho poderia desencadear. A naturalidade desse processo é aterradora: “Nada que outra pessoa não pudesse fazer”, diz Artur Paz Semedo ao administrador. É nesse terreno insípido que nasce a indiferença e se assentam os pilares sobre os quais o nazismo, o fascismo, o stalinismo e as ditaduras de toda espécie se sustentam.
Contra esse silêncio se insurge Saramago em seu derradeiro escrito, a palavra e o pensamento fazendo frente à barbárie perpetrada pelas guerras. A certa altura da narrativa, incomodado ao assistir a um filme dos anos 30 e saber que operários de Milão haviam sido fuzilados por terem sabotado obuses, Artur Paz Semedo é autorizado a investigar os arquivos da Belona S. A. relativos ao período da guerra civil espanhola.
Vale destacar a forma pela qual o narrador retrata os subterrâneos em que se localiza o arquivo da fábrica onde está enterrado o passado ignoto da empresa. É magistral a caracterização dos personagens que vivem na cave: Arsénio e Sesinando, chefe e assistente, passam os dias em meio a prateleiras carregadas de caixas de papelão cultivando uma relação de distanciamento respeitoso, feito de pequenos gestos e códigos, vicejando entre os dois uma fina e precisa hierarquia, sempre presente, minúscula, indelével. Saramago parece pagar um tributo a Kafka nesse capítulo, compondo um cenário a um só tempo sufocante e respeitoso não bastasse o jogo onomástico contido na designação do chefe da seção (arsênio | arsenal).
Há no livro algumas anotações de trabalho feitas por Saramago durante a escritura da narrativa, que indicam possíveis caminhos para a trama. Como se trata de obra inconclusa, ficamos a nos perguntar se o personagem ficará ou não angustiado ao questionar a finalidade dos artefatos produzidos pela fábrica, se sofrerá consequências ao tomar contato com alguma informação mais contundente que comprometa a empresa ou seus dirigentes ou se vai aquietar-se diante daquilo que porventura descobrir.
O livro vem acompanhado de três ensaios que abordam aspectos da narrativa interrompida e da obra de Saramago.
O primeiro ensaio, do escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera, explora a habilidade do autor português em refletir sobre a banalização do mal.
O escritor e jornalista italiano Roberto Saviano (autor de Gomorra) explora correlações entre a encruzilhada em que parece meter-se o pacato personagem de Saramago e casos de perseguição a jornalistas em várias partes do mundo por investigarem o tráfico de drogas e o comércio de armas.
Já o antropólogo e cientista político brasileiro Luiz Eduardo Soares mostra como a interrupção da redação da narrativa pela morte do autor instaura uma espécie de jogo de espelhos durante a leitura:
Eis o autor diante de nós, imprescindível, evocando, involuntariamente, sua falta por meio do narrador que se esquiva, mas acena e promete, e de novo põe-se a retirar-se, estendendo ainda um pouco o fio de voz, numa emocionante e hipnótica coreografia em espiral, até o abismo.
As ilustrações são do escritor Günter Graas e foram extraídas de uma obra publicada em 2013 na Alemanha — os traços negros e cinzas instauram um diálogo intenso com a narrativa, a paisagem sombria e desolada devastada pela guerra.
Ao que parece as gravuras do romancista alemão não foram feitas especialmente para o livro, mas isso não tem importância: poderiam muito bem retratar o morticínio atual em que o mundo se lança na África, no Oriente Médio e em outras latitudes."

"Ovídio Poli Junior, é escritor e doutor em literatura brasileira pela USP. Ministra oficinas de criação literária e mora em Paraty (RJ). É curador da Off Flip das Letras e editor do Selo Off Flip."

Manifesto "Não ao Desemprego" publicado no livro/blog "Caderno" (10 de Novembro de 2009)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/61468.html

"Não ao Desemprego"
"Diante das manifestações que se estão preparando em toda a Europa, de protesto contra o desemprego, escrevi, a pedido de um grupo de sindicalistas, o texto que a seguir se reproduz.
Não ao Desemprego
A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos fóruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimento, quer dizer, o seu trabalho.Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas. 
José Saramago
a 10 de Novembro de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2015

"Homem novo" post do blog/livro "Caderno"

Faz hoje 6 anos que José Saramago, colocou na roda livre da internet este post, intitulado "Homem Novo". (no livro "O Caderno 2" e no blog "Caderno")
6 anos depois, não sei se a esperança num homem socialmente pacífico e mais evoluído, não seja mais do que uma urgente miragem. 
José Saramago, infelizmente, antecipava-se ao tempo que viria. O nosso futuro foi sempre o seu presente.
José Saramago com a resistente e activista Saharaui Aminatou Haidar
Na morte de Saramago deixou estas palavras 
“El mundo entero es pobre sin José Saramago”

Pode ser consultado e lido aqui 
em http://caderno.josesaramago.org/39728.html

"Homem novo"
"Culturalmente, é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves intervalos de paz para a preparação das guerras futuras. Mas foi sempre em nome da paz que todas as guerras foram declaradas. É sempre para que amanhã vivam pacificamente os filhos que hoje são sacrificados os pais…

Isto se diz, isto se escreve, isto se faz acreditar, por saber-se que o homem, ainda que historicamente educado para a guerra, transporta no seu espírito um permanente anseio de paz. Daí que ela seja usada muitas vezes como meio de chantagem moral por aqueles que querem a guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, jura-se, sim, que se faz a guerra pela paz. Por isso todos os dias e em todas as partes do mundo continua a ser possível partirem homens para a guerra, continua a ser possível ir ela destruí-los nas suas próprias casas.

Falei de cultura. Porventura serei mais claro se falar de revolução cultural, embora saibamos que se trata de uma expressão desgastada, muitas vezes perdida em projectos que a desnaturaram, consumida em contradições, extraviada em aventuras que acabaram por servir interesses que lhe eram radicalmente contrários. No entanto, essas agitações nem sempre foram vãs. Abriram-se espaços, alargaram-se horizontes, ainda que me pareça que já é mais do que tempo de compreender e proclamar que a única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo." (Quinta-feira, 7 de Maio de 2009)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A morte, a mulher morte, a mulher... "As Intermitências da Morte"


(...) «A morte, porém, esta que se fez mulher, tira da bolsa uns óculos escuros e com eles defende os seus olhos agora humanos dos perigos de um oftalmia mais do que provável em quem ainda terá de habituar-se às refulgências de uma manhã de verão.» (...) Página 190

(...) «Então, apareceu o violoncelista, Ao vê-la, estacou, chegou mesmo a esboçar um movimento de recuo, como se vista de perto, a mulher fosse outra cousa que mulher, algo de outra esfera, de outro mundo, da face oculta da lua.» (...) Página 199

(...) «Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta cor violeta. (...) A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras.» (...) Página 214

"As Intermitências da Morte"
Caminho, 1.ª edição

sábado, 2 de maio de 2015

Pedro Gonçalves - "A Pilar até ao último instante" - banda sonora do filme"José & Pilar"


Banda Sonora do filme "José e Pilar" interpretada pela orquestra do Algarve.

Pedro Gonçalves
"A Pilar até ao último instante"

Noiserv - "A Viagem do Elefante", da banda sonora do filme "José & Pilar"


Banda Sonora do filme "José e Pilar" interpretada pela orquestra do Algarve.

Noiserv
"A Viagem do Elefante"

"Carlos Paredes", evocação do mestre da guitarra portuguesa no livro/blog "O Caderno 2"

(Via YouTube, para ser assistido aqui, 

Evocação de José Saramago, a um dos maiores mestres da guitarra portuguesa.
Para ser lido aqui, 

"Carlos Paredes"
"Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam sempre abertas." (18 de Agosto de 2009)