Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Diálogos #1: O Amor em José Saramago - Trabalho do site NotaTerapia (10/01/2016)

Pode ser consultado e lido aqui
em http://notaterapia.com.br/2016/01/10/dialogos-1-o-amor-em-jose-saramago/

"Diálogos #1: O Amor em José Saramago" em 10 de Janeiro de 2016

De Luiz António Ribeiro e Luisa Bertrami D'Angelo 

"Hoje começamos no NotaTerapia um novo projeto: “Diálogos”. Nele, nós criadores do site, Luiz Antonio Ribeiro e Luisa Bertrami D’Angelo vamos fazer aquilo que o nome já diz: dialogar sobre um tema literário ou sobre qualquer tema que vier em nossa mente, for do nosso interesse e acharmos que tem a ver com a página. Ele funciona da seguinte forma, toda semana um de nós propõe um tema e escreve umas linhas sobre ele, então envia para a outra pessoa que lê e complementa também com algumas frases. Assim, vamos aos poucos construindo nosso diálogo ao redor do tema que escolhemos. O mais interessante, nos parece, é que podemos nos aproximar da arte da forma mais potente possível: abrindo um diálogo em direção ao outro, naquilo que podemos tocar e ser tocados pelo objeto artístico. Esperamos de coração que vocês gostem!

O primeiro tema foi escolhido por mim e é o amor em José Saramago, partindo inicialmente da obra Todos os Nomes. Confira:



LUIZ – Eu queria começar essa nossa série falando da ideia de amor em José Saramago. Conforme fui lendo as obras do autor, percebi que seu pensamento de esquerda estava muito presente: havia nas obras uma ordem coletivista do mundo. Vemos isso em Ensaio Sobre a Cegueira, A Jangada de Pedra, Ensaio sobre a Lucidez, entre outras. Apesar disso, dentre elas uma diferente apareceu: Todos os Nomes. Eu percebi de cara que, em Todos os Nomes, havia um indivíduo, o Sr. José e que toda a trajetória da obra era a de um homem diante de sua primeira paixão. Mesmo que ainda sem nome, sem face – um alguém coletivo na multidão – havia um sujeito, sozinho, de um lado e do outro, o amor. Estava nascendo pra mim a ideia de amor do Saramago. Você também percebeu isso?

LUISA – Sim, sem dúvida! Todos os nomes é, com certeza, um livro de amor. Não só pelo fato de o Sr. José ir atrás de qualquer coisa que o leve àquela mulher, mas também (e principalmente) por como ele despende toda a sua existência para isso. Não que o amor seja um dar-se incondicional ao outro, mas é que o Sr. José se deixa ser totalmente atravessado por esse desejo de encontrá-la e, nisso, se disponibiliza para vivenciar de maneira extremamente potente tudo que sente e vive nessa busca. O fato de esta mulher ser uma mulher comum, ao contrário de todas as pessoas famosas e inacessíveis que ele tanto admirou, também me soa como algo muito belo, como se dissesse um pouco do tanto que o amor não é algo transcendente, mas, pelo contrário, é algo do mundo…

LUIZ – E será que é isso que move ele? um “anônimo desconhecido”? Alguém capaz de conter um mistério que a gente precisa desvendar? Talvez o amor seja isso, igual da “Ideia de amor” do Agamben: a gente quer se aproximar e tocar o outro, mas sem revelar sua face, talvez tocar o outro para mantê-lo estranho e inacessível. Acho que o Sr. José até então não havia descoberto essa força: a burocracia, o mundo do “mesmo” era tudo que lhe era apresentado, e a partir do pequeno crime (quem há de negar que o amor é uma espécie de crime?) muitos outros seriam cometido. Acho que há também uma relação estreita com a morte, né? Você que leu o Intermitências da Morte consegue ver alguma ligação entre o amor e morte em ambas as obras? 

LUISA – Olha… não sei se vejo uma relação entre o amor e a morte. Ou melhor: há, sim, uma relação entre as duas coisas na medida em que, indo além do que você disse, o amor não é só uma espécie de crime, mas uma espécie de morte, ainda que simbólica, já que morre o que éramos antes do encontro amoroso pra nascer uma outra coisa, que agora foi atravessada pelo amor (e é certo que essa outra coisa nasce apenas para, num próximo instante, morrer e ser outra… eterno devir). Mas, voltando, vejo talvez com mais clareza uma aproximação entre morte e afeto – e afeto aqui é (por incrível que pareça) mais do que amor. As mortes de Saramago são povoadas de afetos – intensidades, potências (mortes povoadas de vida?). Em As Intermitências da Morte, ninguém mais morre em Portugal. Até que a morte resolve voltar a matar, mas há esse sujeito que, mesmo depois de muitas investidas dela, cisma em não morrer. E a morte se aproxima deste sujeito, ela quer conhecê-lo e entender porque sempre acontece algo que não o deixa morrer. Este encontro é cheio de afetos – como devem ser todos os encontros… E é muito bonito, pois a aproximação dele e da morte, que deveria ser algo totalmente assombroso, é o que possibilita a vida e novas trocas afetivas…

LUIZ – Então, acho que chegamos nisso como semelhança e diferença: “E a morte se aproxima deste sujeito, ela quer conhecê-lo e entender porque sempre acontece algo que não o deixa morrer.” No caso de Todos os Nomes é a mulher que não permite que o Sr. José encontre-a simplesmente porque…o encontro não é importante, não faz nenhuma diferença encontrar ou não encontrar. A relação está toda na busca, no caminho, no trajeto, o encontro dos dois seria só mais um anti-clímax da burocracia da vida comum. É aí que está a questão, eu acho, diante da morte só é possível o encontro. A morte é este encontro do limite, da linha máxima que não pode ser transposta. A vida, ao contrário, não serve aos encontros, serve as buscas, aos trajetos, a errância – caminho de quem erra pelo mundo. Talvez o que mova a vida não seja o amor, mas como dissemos lá em cima “a ideia de amor”, aquilo que, na busca, mantém a vida desconhecida, o mistério. O afeto é um dos efeitos da vida: na morte encontra seu limite. E como entender a busca do Sr. José por essa “escuridão”, ao contrário da clareza da sua vida anterior? 

LUISA – Vou tentar reformular um pouco a minha concepção do encontro: o encontro não é o ato ou o momento de encontrar, mas todo o caminho percorrido, todo esse entre, toda essa errância…. encontro como o encontro entre nossas intensidades e as intensidades do mundo. Concordo, então, que se o Sr. José simplesmente “encontrasse” a mulher, seria apenas a burocracia agindo outra vez. Mas ele a encontra (aí no sentido que disse anteriormente) mesmo sem “encontrar” com ela. Fica claro? Não é o encontro face-a-face, mas o encontro dos afetos que passam por ele vindos da própria ideia de encontrá-la, vindos da busca (linhas que se cruzam). E se é certo que a morte é a linha máxima que encerra a vida, não é por isso que não é possível ter vida na morte: para mim, as trocas que se estabelecem entre o homem que não morre e a morte são exatamente isso: a possibilidade de criar (e portanto afetar, ser afetado) mesmo diante da morte. Porque como toda linha, a linha da morte também pode ser dobrada. O mesmo no caso do Sr. José: quais as chances de encontrar a tal mulher, que ele nunca viu nem ouviu falar nem sequer sabe da existência dele? Ainda assim, há nele essa potência que leva a essa busca… A “escuridão” na qual ele entra por causa de sua busca poderia parecer absurda, já que antes havia clareza. Por que percorrer essa ideia maluca, se há a vida, calma, tranquila e acolhedora? Acho que essa é a maior lição que Sr. José nos dá: a de que a Vida não é essa vida da clareza, com v minúsculo, mas o caminho pela escuridão, que é onde podemos realmente inventar, criar e viver…

LUIZ – Acho que é exatamente isso: um lançar-se ao nada ou, como diz Nietzsche, dançar a beira do abismo. É interessante como Saramago precisa construir isso em todos os detalhes: as conversar com a senhora do rés do chão, aquele cemitério com o número das lápides trocadas, aquela noite dentro da escola, as conversas com ele próprio em casa, olhando pro teto. Tudo converge para a mesma coisa, uma busca do escuro. Sr. José perguntava: onde está meu escuro? E sua resposta era sempre: Preciso procurar. E só na procura ele acha. A cena final do livro – que não vou contar aqui – é isso. O encontro com a vida, com a coragem. Uma coragem da vida que abarca tudo mesmo que este tudo esteja nesta sombra, nesta escuridão. É por isso que Todos os Nomes pra mim junta o melhor de Saramago: a capacidade de olhar o mundo no que ele tem de ser violento contra os corpos – seja ele quais forem – ao mesmo tempo em que mostra uma coragem, um possibilidade de encantamento do mundo. E quando a gente encanta o mundo, nada fica igual: tudo já é outro.

LUISA – Perfeito! Saramago nos mostra que a vida é possibilidade, é busca e criação. E talvez essa percepção também nos aproxime mais do que falávamos no começo, sobre o que é o amor pra ele."

Peça de teatro "A Noite" baseado na obra de José Saramago


Recuperação de programa de apresentação da peça de teatro "A Noite"


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Protocolo de colaboração entre a Fundação José Saramago e a UNIA Universidad Internacional de Andalucía

A noticia pode ser consultada e lida, aqui
em http://www.unia.es/servicio-de-comunicacion-e-informacion/la-unia-y-la-fundacion-jose-saramago-acuerdan-desarrollar-lineas-de-trabajo-conjunto



"La UNIA y la Fundación José Saramago acuerdan desarrollar líneas de trabajo conjunto
El rector de la Universidad Internacional de Andalucía (UNIA), Eugenio Domínguez Vilches, ha mantenido un encuentro en Lisboa con la directora de la Fundación José Saramago, Pilar del Río, los pasados días 7 y 8 de enero. La finalidad del mismo ha sido la de establecer lazos de relación entre dicha institución y la UNIA para desarrollar lineas de trabajo conjunto en la difusión de la obra del nobel portugués y de su pensamiento, mediante la celebración de cursos, encuentros y jornadas, y la edición de publicaciones, entre otras acciones.

En otra sesión de trabajo se procedió a avanzar en el proyecto "Declaración de Deberes Humanos", que desde hace unos meses impulsa la Fundación José Saramago, con el apoyo de Naciones Unidas (ONU), y que ya ha tenido una sesión inaugural en México,

La Fundación ha solicitado colaboración institucional a la Universidad Internacional de Andalucía y, a tal efecto, ha presentado los documentos y trabajos desarrollados hasta el momento durante el transcurso de esta sesión celebrada también en la capital portiguesa, a la que, además de los responsables de ambas instituciones, asistieron Sami Nair y Manuel Torres, colaborador y vicerrector de la UNIA, respectivamente; la decana de la Facultad de Derecho de la Universidad Nova de Lisboa, el escritor portugues Castro Caldas, y otros profesores de las universidades de Lisboa y Évora, y del Centro de Estudios Sociales de la Univeridad de Coimbra.

Asimismo, se acordó celebrar una próxima jornada de trabajo en el Campus La Cartuja de la UNIA en Sevilla, en el próximo mes de marzo, para avanzar el documento final de la Declaración, que será presentado al secretario general de la ONU."

Banda sonora do filme documentário "José e Pilar" Noiserv

Informação postada pela banda, aqui
em https://www.facebook.com/noiserv/posts/10153817733316678?fref=nf

"Olá Olá!
Há uns meses, tinha ficado esgotada a versão em CD da banda sonora do filme José and Pilar, da qual faz parte a música Palco do Tempo e uma série de outras músicas minhas.
Finalmente, para quem tenha interesse, já se encontra de novo disponível através do site em baixo !
Beijinhos e Abraços a todos!"


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sobre a tese de doutoramento de Horácio Costa - "Cadernos de Lanzarote - Diário II" (22 de Abril de 1994)

"Cadernos de Lanzarote - Diário II"
22 de Abril de 1994

"Todo o dia a ler a tese de doutoramento de Horácio Costa, da Universidade de Yale: José Saramago: o período formativo. Notável, simplesmente. Pela primeira vez alguém deixa de lado a relativa facilidade de análise dos livros que publiquei a partir de Levantado do Chão para atrever-se a penetrar no quase indevassado pequeno bosque do que escrevi antes, não esquecendo mesmo Terra do Pecado, esse primeiro e cândido romance que teria saído a público com o título A Viúva se não fosse o malogrado Manuel Rodrigues, editor da Minerva, que benevolamente me acolhera na sua casa, ter decidido que tal título não era suficientemente comercial... Lendo hoje o estudo minucioso e perspicaz de Horácio Costa, foi todo o passado que se desenhou e reergueu diante de mim. Senti-me de repente muito velho (atenção, velho de tempo, não de vida) e pensei sem nenhuma originalidade: «Quanto caminho andado.» "

in, Caminho
Página 96 


(Capa da edição ESGOTADA - Caminho)

domingo, 10 de janeiro de 2016

"A compreensão segundo Saramago" palavras sobre fotos de Sebastião Salgado (Brasil, 2001)

As palavras podem ser escutadas através deste clip de video do YouTube, aqui 

Ensaio audiovisual sobre fotos de Sebastião Salgado e narrativa de José Saramago.
Áudio original extraído do documentário "Janela da Alma" de João Jardim e Walter 
Carvalho (Brasil, 2001).

Trilha incidental: Hélio Delmiro ('Emotiva')
Adaptação e montagem: Pedro Bersi (SC Brasil)

"Eu não quero dizer que cada um é conforme nasce - não vou a esse ponto.

Mas, talvez devêssemos ponderar por que algumas pessoas resistem ao comportamento digamos universal -- o modo de comportasse mais geral - e outras não? 

Por que algumas pessoas mantêm uma atitude crítica em relação às coisas?

Por que algumas pessoas acham que não é por fato das coisas serem novas 
ou modernas que elas são necessariamente boas? 

Isto não é defender o antigo... é simplesmente considerar que não tem nenhuma razão para acreditar que no momento em que estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer - as de agora e as que vão ter efeitos no futuro - são as únicas e as melhores que poderiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. 

Não tenho qualquer razão para isso, pelo contrário, tenho muitas razões 
que me dizem que nos tomamos por um caminho errado." 

Por José Saramago

Apresentação do filme "Ensaio sobre a Cegueira" - José Saramago surpreendeu locutores do RCP


Pequeno testemunho do acontecimento, aqui via YouTube

Programa Janela Aberta, de Aurélio Gomes no RCP Rádio Clube Português  

Revisitamos a edição #20 de Janeiro de 2014 - Blimunda, revista digital sempre presente

(Capa da edição #20 - Janeiro de 2014)

Sinopse da edição, via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-20-janeiro-2014/

"A Blimunda de janeiro chega com um conjunto de novas secções e rubricas. No corpo central da revista um texto de Sara Figueiredo Costa traça o percurso de diferentes Almanaques, esses “livrinhos para o ano todo”, e visita-se Platero e eu, obra de Juan Ramón Jiménez que agora comemora o primeiro centenário, e que José Saramago acolheu na sua Jangada de Pedra.

Novidade na Blimunda, é a secção sobre Cinema, de responsabilidade de João Monteiro, cofundador do Cineclube de Terror de Lisboa e um dos programadores do MOTELx, que aqui dá continuidade do trabalho que tem sido desenvolvido por este festival ao longo destes anos, principalmente ao nível do cinema português. A secção Cinema terá uma periodicidade bimestral nas páginas da Blimunda.

Na secção infantil e juvenil, Andreia Brites conversa com Eduardo Filipe, um dos responsáveis pela ILUSTRARTE, Bienal Internacional de Ilustração que em 2014 está a viver a sua 6.ª edição. Inaugurada a 16 de janeiro, a ILUSTRARTE apresenta até abril o melhor que se faz na ilustração internacional, numa exposição que está patente no Museu da Electricidade. A acompanhar esta conversa, apresentam-se os trabalhos de 15 ilustradores que integram esta mostra.

A fechar, como habitualmente, a Saramaguiana regressa a 2005 e à participação de José Saramago no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Também presente nesta secção, uma análise à nova edição de A Maior Flor do Mundo, texto de José Saramago que conheceu no final de 2013 uma nova edição com ilustrações de André Letria.

Às restantes rubricas que compõem a Blimunda em todos os meses, juntam-se a partir de janeiro, a Estante, local de acolhimento de 8 livros recentemente editados, e o Dicionário de Literatura Infantil e Juvenil, que de A a Z trará entradas escritas por escritores, ilustradores, editores, professores.

No início de 2014, a Blimunda deseja a todos os seus leitores Boas Leituras!"

"O leitor não lê o romance, lê o romancista" - Cadernos de Lanzarote Diário II (27/02/1994)


"Pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor. O romance é uma mascara que oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê o romance, lê o romancista."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 60 (27 de Fevereiro de 1994)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"A Crucificação de Cristo" de Albrecht Dürer interpretado no primeiro capítulo de "O Evangelho segundo Jesus Cristo"



("A Crucificação de Cristo" - Albrecht Dürer)

O primeiro capitulo da obra de José Saramago é uma minuciosa análise e interpretação do quadro do pintor Albrecht Dürer. (Nuremberga, 21/05/1471 - 06/04/1528)

Por sugestão da Prof.ª Maria Leiria, Coordenadora da "Comunidade de Leitores Ler Saramago", enquadrada no âmbito das actividades da Fundação José Saramago, compilei espacialmente a imagem com aproximação às palavras de José Saramago.

"O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar "(...)

-.-

(...) "Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão." (...)


-.-

(...) "Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar. Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias" (...) 


-.-

(...) "ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico. De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios" (...)


-.-

(...) "Maria Madalena, se ela é, ampara, e parece que vai beijar,num gesto de compaixão intraduzível por palavras, a mão doutra mulher, esta sim, caída por terra, como desamparada de forças ou ferida de morte. O seu nome também é Maria, segunda na ordem de apresentação, mas, sem dúvida, primeiríssima na importância, se algo significa o lugar central que ocupa na região inferior da composição. Tirando o rosto lacrimoso e as mãos desfalecidas, nada se lhe alcança a ver do corpo, coberto pelas pregas múltiplas do manto e da túnica, cingida na cintura por um cordão cuja aspereza se adivinha. É mais idosa do que a outra Maria, e esta é uma boa razão, provavelmente, mas não a única, para que a sua auréola tenha um desenho mais complexo" (...) 
"Reclinada sobre o seu lado esquerdo, Maria, mãe de Jesus, esse mesmo a quem acabamos de aludir, apoia o antebraço na coxa de uma outra mulher, também ajoelhada" (...)


-.-

(...) "também Maria de seu nome, e afinal, apesar de não lhe podermos ver nem fantasiar o decote, talvez verdadeira Madalena. Tal como a primeira desta trindade de mulheres, mostra os longos cabelos soltos, caídos pelas costas, mas estes têm todo o ar de serem louros, se não foi pura casualidade a diferença do traço, mais leve neste caso e deixando espaços vazios no sentido das madeixas, o que, obviamente, serviu ao gravador para aclarar o tom geral da cabeleira representada. Com tais razões não pretendemos afirmar que Maria Madalena tivesse sido, de facto, loura, apenas nos estamos conformando com a corrente de opinião maioritária que insiste em ver nas louras, tanto as de natureza como as de tinta, os mais eficazes instrumentos de pecado e perdição. Tendo sido Maria Madalena, como é geralmente sabido, tão pecadora mulher, perdida como as que mais o foram, teria também de ser loura para não desmentir as convicções, em bem e em mal adquiridas, de metade do género humano. Não é, porém, por parecer esta terceira Maria, em comparação com a outra, mais clara na tez e no tom do cabelo, que insinuamos e propomos, contra as arrasadoras evidências de um decote profundo e de um peito que se exibe, ser ela a Madalena. Outra prova, esta fortíssima, robustece e afirma a identificação, e vem a ser que a dita mulher, ainda que um pouco amparando, com distraída mão, a extenuada mãe de Jesus, levanta, sim, para o alto o olhar, e este olhar, que é de autêntico e arrebatado amor, ascende com tal força que parece levar consigo o corpo todo, todo o seu ser carnal, como uma irradiante auréola capaz de fazer empalidecer o halo que já lhe está rodeando a cabeça e reduzindo pensamentos e emoções. Apenas uma mulher que tivesse amado tanto quanto imaginamos que Maria Madalena amou poderia olhar desta maneira, com o que, derradeiramente, fica feita a prova de ser ela esta, só esta, e nenhuma outra, excluída portanto a que ao lado se encontra" (...)


-.-

(...) "Maria quarta, de pé, meio levantadas as mãos, em piedosa demonstração, mas de olhar vago, fazendo companhia, neste lado da gravura, a um homem novo" (...) 


-.-

(...) "a um homem novo, pouco mais que adolescente, que de modo amaneirado a perna esquerda flecte, assim, pelo joelho, enquanto a mão direita, aberta, exibe, numa atitude afectada e teatral, o grupo de mulheres a quem coube representar, no chão, a acção dramática. Este personagem, tão novinho, com o seu cabelo aos cachos e o lábio trémulo, é João." (...)


-.-

(...) "Tal como José de Arimateia, também esconde com o corpo o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos, levanta ao ar um segundo homem nu" (...) 


-.-

(...) "um segundo homem nu atado e pregado como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento agónico, ainda tem valor para mostrar-nos um rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para a terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte e ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza." (...) 


-.-

(...) "Por cima dele, também chorando e clamando como o sol que em frente está, vemos a lua em figura de mulher, com uma incongruente argola a enfeitar-lhe a orelha" (...) 


-.-

(...) "Este sol e esta lua iluminam por igual a terra, mas a luz ambiente é circular, sem sombras, por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte" (...)


-.-

(...) "por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte ao fundo, torres e muralhas, uma ponte levadiça sobre um fosso onde brilha água, umas empenas góticas, e lá por trás, no testo duma última colina, as asas paradas de um moinho" (...)


-.-

(...) "Cá mais perto, pela ilusão da perspectiva, quatro cavaleiros de elmo, lança e armadura fazem voltear as montadas em alardes de alta escola, mas os seus gestos sugerem que chegaram ao fim da exibição, estão saudando, por assim dizer, um público invisível." (...)


-.-

(...) "A mesma impressão de final de festa é dada por aquele soldado de infantaria que já dá um passo para retirar-se, levando, suspenso da mão direita, o que, a esta distância, parece um pano, mas que também pode ser manto ou túnica" (...)


-.-

(...) "Por cima destas vulgaridades de milícia e de cidade muralhada pairam quatro anjos, sendo dois dos de corpo inteiro, que choram, e protestam, e se lastimam, não assim um deles, de perfil grave, absorto no trabalho de recolher numa taça, até à última gota, o jorro de sangue que sai do lado direito do Crucificado." (...) 


-.-

(...) "Neste lugar, a que chamam Gólgota" (...) 
"este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores." (...) 


-.-

(...) "É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena" (...) 


-.-

(...) "Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos, o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judeus, e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas." (...) 


-.-

(...) "Não goza Jesus de um descanso para os pés, como o têm os ladrões" (...) 


-.-

(...) "todo o peso do seu corpo estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para o manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe da ferida do peito, como já foi dito." (...)


-.-

(...) "Entre as duas cunhas que firmam a cruz a prumo, como ela introduzidas numa escura fenda do chão, ferida da terra não mais incurável que qualquer sepultura de homem, está um crânio, e também uma tíbia e uma omoplata, mas o crânio é que nos importa, porque é isso o que Gólgota significa, crânio, não parece ser uma palavra o mesmo que a outra, mas alguma diferença lhes notaríamos se em vez de escrever crânio e Gólgota escrevêssemos gólgota e Crânio." (...)
"Mas também há quem afirme que este é o próprio crânio de Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar, condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra, seu único paraíso possível e para sempre perdido." (...)


-.-

(...) "Lá atrás, no mesmo campo onde os cavaleiros executam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. Leva na mão esquerda um balde e uma cana na mão direita. Na extremidade da cana deve haver uma esponja, é difícil ver daqui, e o balde, quase apostaríamos, contém água com vinagre. Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava. Vai-se embora, não fica até ao fim, fez o que podia para aliviar as securas mortais dos três condenados, e não fez diferença entre Jesus e os Ladrões, pela simples razão de que tudo isto são coisas da terra, que vão ficar na terra, e delas se faz a única história possível." 
(Fim do primeiro capítulo)



in, "O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho, 1991
Páginas 13 a 20

Entrevista ao académico Horácio Costa que revisita a obra de José Saramago (Univesp TV)

(...)"Lendo hoje o estudo minucioso e perspicaz de Horácio Costa, foi todo o passado que se desenhou e reergueu diante de mim. Senti-me de repente muito velho 
(atenção, velho de tempo, não de vida) e pensei sem nenhuma originalidade: 
«Quanto caminho andado.» "
José Saramago, 22 de Abril de 1994

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Transmitido na UnivespTV
Programa "Literatura Fundamental"
Entrevistador Ederson Granetto

Sinopse do programa
"Programa sobre o vencedor do prêmio Nobel de Literatura e 1998 José Saramago, que focaliza principalmente o livro Memorial do Convento, publicado em 1982. Ederson Granetto entrevista o poeta, tradutor, critico literário e professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, José Horácio Costa, pesquisador da obra de Saramago, que produziu uma tese sobre o período formativo do autor português. José Horácio Costa recebeu o prêmio Jabuti de 2014 pelo seu livro de poesias Bernini."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O «eu lógico» e o «eu intuitivo» (24/02/1994)

"O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 
Parece haver em mim como uma balança interior, um padrão aferidor que me tem permitido vigiar, de uma maneira a que chamaria intuitiva, a «economia» dos por-menores narrativos. Em princípio, o «eu lógico» não recusa nenhuma possibilidade, mas o «eu intuitivo» rege-se por umas leis próprias que o outro aprendeu a respeitar, mesmo quando tem relutância em obedecer-lhes. Evidentemente, não há aqui nenhuma ciência, salvo se este aspecto tão particular do meu trabalho se nutre de uma outra espécie de ciência, involuntária, infusa, inlocalizável, que, mero prático que sou, me limito a seguir, como quem se vai apercebendo da mudança das estações sem nada saber de equinócios e solstícios." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 57 (24/02/1994)

O olhar da artista plástica Isa Silva... uma outra (generosa) forma de ver Saramago

Trago a divulgação da artista plástica Isa Silva e suas incursões pelas artes.

No seu site, em http://www.isasilva.com/entrada.html, temos acesso à retrospectiva do que tem sido a sua obra. Multifacetada, tal como refere na sua apresentação: 
" Frequentei a Escola de Artes de António Arroio onde nasceu o amor pela escrita.
Na minha segunda vida (como gosto de salientar) redescobri a fotografia, o desenho, a pintura e fortaleci a minha relação com a escrita.
Conjugo estas quatro paixões com a minha actividade de designer gráfica."

Aqui deixo imagem do seu olhar sobre José Saramago.
Mais info nos endereços assinalados

http://www.isasilva.com/shop/T-sf-j-saramago-tela.html



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Comunidade de Leitores Ler Saramago - Programa do 1.º Trimestre de 2016

Mais três livros de José #Saramago para ler e discutir na 
Comunidade de Leitores que a Fundação José Saramago acolhe. 
Aqui fica o programa para o primeiro trimestre de 2016.

Ver Informação de Contactos ou através da Fundação José Saramago

Sobre a técnica narrativa em José Saramago, pelo próprio (15/02/1994)

(...) "Regresso a um tema recorrente. Todas as características da minha técnica narrativa actual (eu preferiria dizer: do meu estilo) provêm de um princípio básico segundo o qual todo o dito se destina a ser ouvido. Quero com isto significar que é como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvi-das. Ora, o narrador oral não usa pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras. Certas tendências, que reconheço e confirmo (estruturas barrocas, oratória circular, simetria de elementos), suponho que me vêm de uma certa ideia de um discurso oral tomado como música. Pergunto-me mesmo se não haverá mais do que uma simples coincidência entre o carácter inorganizado e fragmentário do discurso falado de hoje e as expressões «mínimas» de certa música contemporânea..." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 49 (15/02/1994)

"Memorial do Convento" pela Éter Produção Cultural, no Palácio Nacional de Mafra (Uma sessão por mês até Junho)


Apresentação da peça de teatro, baseada na obra de José Saramago, o "Memorial do Convento"
Informação Éter Produção Cultural, via página do Facebook, em https://www.facebook.com/EterProducaoCultural/?fref=ts

Mais informações sobre a actividade da Éter Produção Cultural, aqui no link

"Sessões 18h
9 Janeiro, 6 Fevereiro, 5 Março, 2 Abril, 7 Maio e 4 Junho. 

Em 2016 voltamos a apresentar ao público geral o espectáculo MEMORIAL DO CONVENTO, de José Saramago. 
Em cena desde 2007 o público escolar e desde 2008 para o público geral, este espectáculo já foi assistido por mais de 180 mil pessoas. Se ainda não viu, venha assistir num dos dias acima mencionados. 

RESERVAS (ver abaixo)

Sinopse:
Unidos por um amor maravilhoso, Blimunda e Baltasar reúnem-se a Padre Bartolomeu de Gusmão e ao seu sonho de voar. A Passarola, máquina voadora, misto de barco e de pássaro, nasce do saber científico de Padre Bartolomeu, da força de trabalho de Baltasar e dos poderes de Blimunda recolhendo as vontades humanas (“as nuvens fechadas”) que alimentarão a máquina e a farão voar. A história encantada, que revolucionou a literatura portuguesa, do nascimento de um convento no século XVIII.
Na presente adaptação dramatúrgica, a relação dinâmica entre os cinco atores, a música original e os espaços cénicos dão vida a dezassete personagens e a momentos essenciais de Memorial do Convento.



Ficha Técnica:
Texto: José Saramago 
Adaptação Dramatúrgica:
Filomena Oliveira e Miguel Real 
Encenação: Filomena Oliveira

Orgânica sonora e Música original:
David Martins 
Voz: Andreia João 
Piano: Sandra Nunes 

Interpretação: 
Blimunda: Leonor Cabral | Rita Fernandes | Rute Lizardo | Susana Branco
Baltasar: Pedro Oliveira | Pedro Vieira | Sérgio Moura Afonso 
Pde Bartolomeu de Gusmão: João Brás | Paulo Campos dos Reis | Rogério Jacques 
Camareiro, Pai Sete-Sóis, Arquitecto, Manuel Milho, etc.: João Mais | Miguel Simões 
Camareiro, D. Joao V, Scarlatti, Zé Pequeno, etc.: Filipe Araújo | João de Brito | Ricardo Soares

Desenho de Luz: Carlos Arroja 
Operação Luz/Som: Carlos Arroja | David Martins Pedro Moreira | Nuno Gomes | Bruno Oliveira 
Criação e adaptação do espaço cénico: 
Carlos Arroja | Vitor Fernandez 
Guarda-Roupa e Adereços: 
Éter | Câmara dos Ofícios 
Fotografia: 
André Rabaça | Edgar d’Oliveira | Filipa Vieira 
Frente de Sala: 
Filipa Vieira | Inês Oliveira Martins | Raquel Mattos 

Produção: ÉTER-Produção Cultural

RESERVAS/INFORMAÇÕES 
ÉTER: book@virtualeter.com | 911 906 778
TICKETLINE: Ligue 1820 (24 horas) | A partir do Estrangeiro ligue +351 21 794 14 00
LOCAIS DE VENDA: Palácio Nacional de Mafra, www.ticketline.sapo.pt, Fnac, Worten, El Corte Inglés , C. C. Dolce Vita, Casino Lisboa, Galerias Campo Pequeno, Ag. Abreu, A.B.E.P., MMM Ticket e C. c. Mundicenter, Fórum Aveiro, U-Ticketline, C.C.B, Time Out Mercado da Ribeira, Shopping Cidade do Porto, Lojas NOTE, SuperCor – Supermercados e ASK ME Lisboa

"A Jangada de Pedra" no top dos mais vendidos em Dezembro de 1986 (Recorte jornal "O Diário")

in Jornal "O Diário"
Dezembro 1986

Inquéritos e dicas... Escolhas de Saramago para o Público e Expresso (05/04/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, páginas 85 e 86



5 de Abril de 1994

"Mal refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25 de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades representativas dos mais variados sectores e quadrantes da vida nacional» a escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de Otelo foi Saraiva de Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Cavaco Silva. E a Joaquim Vieira, que me pedira 125 palavras sobre as circunstâncias em que recebi «a notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais marcantes do período que se seguiu, até finais de 1975», dei-lhe rigorosamente as palavras pedi-das, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a polícia não se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a saber depois que a minha prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o primeiro número "livre" da revista.» E rematei: «Não esquecerei o Primeiro de Maio, nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MFA em Tancos, nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei o Alentejo nem a Cintura Industrial. Não esquecerei o que então chamámos Esperança.» 
Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para encher papel." 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - João Amaral e o álbum BD baseado em "A Viagem do Elefante"

No post anterior, dei destaque ao artista plástico José Santa-Bárbara pela criação e estilização das personagens do "Memorial do Convento"; agora sob o mesmo titulo "Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original", trago João Amaral que publicou (2014) o álbum de Banda Desenhada baseado na obra "A Viagem do Elefante".
Quem leu o original de José Saramago (2008) e depois teve a feliz oportunidade de passar pela experiência de conhecer os traços, as pranchas, o volume das personagens e paisagens de enquadramento, por certo, sentirá uma fusão do que foi lido e depois percepcionado na Banda Desenhada. Está lá o espírito do autor, a sua (de ambos) ironia, a cumplicidade e as formas das palavras.
Esta obra está incluída no PNL Plano Nacional de Leitura, e pode ser adquirida através da Porto Editora (http://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/a-viagem-do-elefante-bd?id=16006645), ou da loja situada na Fundação José Saramago, e em qualquer boa livraria.
E assim o artista plástico acrescenta algo à obra original.

João Amaral apresentando a obra na Fundação José Saramago

Aqui entrevista de apresentação da obra, via "Casa das Artes e Conhecimentos"
Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Sinopse de apresentação da entrevista
"A propósito da adaptação da Viagem do Elefante da obra de José Saramago, prémio Nobel da Literatura, para banda desenhada, aqui se reúnem em conversa Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira.
Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, dispensa apresentações, João Amaral é o autor da BD e João Caldeira o fundador da Casa das Artes e Conhecimentos.
A Obra de Saramago e as suas múltiplas adaptações, bem como o valor dessas adaptações e o lugar que ocupam, é dos assuntos abordados.
A Viagem do Elefante e as suas mensagens profundas, é um tópico de destaque nesta conversa.
Uma conversa que irá revelar um pouco mais sobre esta obra inserida no mundo de Saramago.
Um apontamento realizado na Fundação José Saramago."

Referências:
Pilar del Río (Presidenta da Fundação José Saramago): http://www.josesaramago.org
João Amaral (Autor do álbum): http://joaocamaral.blogspot.pt
João Caldeira Monsanto (Casa das Artes e Conhecimentos): http://www.arteseconhecimentos.com

(Capa da obra)


Alguma imagens da obra






Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - José Santa-Bárbara "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento"

É unânime afirmar-se que só as grandes obras literárias merecem ser adaptadas em outros formatos.
Seja no teatro ou cinema, banda desenhada ou pinturas. O "Memorial do Convento" foi publicado em 1982 e já teve 54 edições, a última das quais em 2014 pela Porto Editora, e traduzido para um número de países que torna a obra com carácter universal (http://www.josesaramago.org/memorial-do-convento-1982/)
Aqui recupero e destaca-se a obra do artista plástico José Santa-Bárbara, "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento" que o Professor Carlos Reis, também estudioso da obra de José Saramago, deu especial destaque e relevo.
Das suas palavras e que podem ser consultadas no site "Figuras da Ficção", em https://figurasdaficcao.wordpress.com/category/jose-santa-barbara/ deixo com a devida referência ao autor o seguinte:

(Capa do catálogo Vontades)

«A 19 de agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento.
O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro medium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como o catálogo a testemunha: trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com uso de diferentes técnicas e predominância do óleo  e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos recorrem ao pastel, com uma exceção (uma aguarela). A feição geral das obras  revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática.

Um dos episódios mais importantes da obra - O desfazer do jejum de Blimunda

Trata-se, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, “A ara de Cheleiros”, “Infanta gatinhando”, “Os fazedores do capricho” e sobretudo  “Os passatempos d’El-Rei”. Para além disso, o pintor fixou-se em temas e em contextos que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição, a construção da passarola voadora. Aqueles componentes ideológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado de D. João V, que a História, digamos, oficial fixou com o cognome de Magnânimo.

Ilustração do Rei Dom João V

Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise de um diálogo  desenvolvido em função da triangulação História-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor quem nota que Saramago “deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha, Baltasar Mateus, Blimunda”; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: “Torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo…”

Baltasar Mateus o Sete-Sóis e Blimunda a Sete-Luas

 Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: “Aqui fica a minha «leitura» d’aquilo que para mim é a verdadeira História” (Santa-Bárbara, 2001: [4]). Como quem diz (repare-se nas aspas): há uma «leitura» outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a “verdadeira História” requer a questionação (ideológica, bem entendido) da versão oficial que uma outra História tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento.  Ilustrações do cabeçalho:   pormenores de quadros de Vontades). - 28/12/2012 

Baltasar Mateus