Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 19 de março de 2016

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites" - Adelino Gomes entrevista José Saramago (Público - 27/05/2002)

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites"
Adelino Gomes entrevista José Saramago - Público (27/05/2002)

A entrevista pode ser recuperada e consultada, aqui
em, http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/entrevistaAnoMorteRicardo.htm

"O livro está editado em 22 países. Em Portugal, vendeu quase 100 mil exemplares. Para muitos leitores, é o melhor romance de José Saramago. O autor acha que com ele tocou "o tecto". E chegou a Pilar, a jornalista espanhola, hoje sua mulher. Com o PÚBLICO, chegaram hoje às bancas mais 90 mil exemplares, no segundo livro da colecção Mil Folhas, vendido juntamente com o jornal a 5 euros.

José Saramago, 79 anos, acabara de regressar a casa, na ilha de Lanzarote, após mais uma das longas viagens e respectivo cortejo de compromissos que a concessão do Nobel só veio aumentar. As datas das próximas passagens por Portugal não coincidem com os prazos editoriais. Na impossibilidade de uma entrevista frente a frente, combina-se uma sessão de perguntas e respostas via Internet. Com direito a "repique", por parte do entrevistador. O tema é o livro que hoje o PÚBLICO distribui aos seus leitores. Mas Saramago aceita uma digressão pela polémica israelo-palestiniana, em que se envolveu após ter invocado Auschwitz quando se encontrava em Ramallah.


Contou, em mais do que uma ocasião, que o título "O Ano da Morte de Ricardo Reis" lhe surgiu num hotel, em Berlim. Pode especificar?
Passaram mais de 20 anos, não recordo o nome do hotel, se alguma vez o fixei. E não se tratou de um congresso, mas de um grupo viajante, daqueles que a Associação de Amizade Portugal-RDA organizava. Calhou-me ser o "porta-voz" da delegação, o que significou ter a meu cargo os discursos de agradecimento em todos os lugares e instituições que visitámos. Foi no final de um desses dias que a "coisa" aconteceu. Tinha visto em Lisboa um filme ("Anno Domini" não sei quantos, não recordo o nome do realizador) e, não sei porquê, ele veio-me à memória quando entrei no quarto do hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tinha publicado poucos meses antes "Levantado do Chão" e esta era a primeira ideia que me surgia para um novo livro. A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

É verdade que lhe acontece muitas vezes ter o título antes de escrever uma única palavra do livro?
Quase sempre. O Memorial esteve para chamar-se simplesmente "O Convento", mas como Agustina Bessa-Luís tinha publicado "O Mosteiro", achei que devia arredondar o título para não parecer que andava a inspirar-me em títulos alheios. Quanto a romances que começaram pelo título, são eles, por exemplo, "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "A Caverna" e este em que estou a trabalhar, "O Homem Duplicado".

Mas para aparecer um título deve haver antes uma ideia geral para a qual ele remete. Por exemplo, "Todos os Nomes" tem relação com uma busca de dados que andava a fazer sobre o seu irmão Francisco de Sousa, morto aos dois anos.
Alguns títulos, de facto, propõem imediatamente o que chama "uma ideia geral" da história. Não é, porém, o caso de "Todos os Nomes", que me apareceu num avião que me levava a Brasília. Já íamos a pouca altura, eu olhava a paisagem lá em baixo e de repente saltaram-me dentro da cabeça aquelas três palavras. Perguntei a mim mesmo que diabo quereria aquilo dizer e pensei que, tendo escrito um romance - "Ensaio sobre a Cegueira" - em que nenhuma personagem tem nome, poderia agora tentar outro em que apareceriam "todos os nomes". Uma espécie de contraponto. A ligação à busca de dados sobre o meu irmão Francisco em que andava empenhado deu-se algum tempo depois. Estava em Amherst, no estado norte-americano de Massachusetts, hospedado em casa do professor José Ornelas, e foi aí que se me desenhou na mente a história do funcionário do Registo Civil.

E quanto a "O Ano da Morte de Ricardo Reis"? Andava às voltas com Pessoa? 
Directamente, não andava às voltas com o Fernando Pessoa, mas todos nos lembramos que por aqueles anos (cinquentenário da morte, centenário do nascimento) era o Pessoa que andava às voltas connosco...

Começou a escrever o livro logo a seguir? Quanto tempo lhe levou? Esse tempo foi superior ou inferior ao normal? 
O Ricardo Reis teve de aguardar na fila que eu me livrasse do "Memorial", sobrou-lhe portanto a espera para chegar maduro ao momento de principiar a ser escrito. Creio que o trabalho de escrita não me ocupou mais de nove meses. Aliás, é esse, pouco mais ou menos, o tempo de que necessito para pôr um romance em pé.

Como concilia as exigências da editora (e dos leitores) com os eventuais caprichos da inspiração?
A minha relação com a Editorial Caminho não é desse tipo. Eles respeitam o meu trabalho, eu respeito o trabalho deles. Os prazos fixo-os eu a mim mesmo, não eles. E se alguma vez me atrasei na entrega de um original, foram bastante compreensivos para aceitar sem reserva as razões por que isso tivesse sucedido. Quanto aos leitores, não têm eles mais remédio que esperar pacientemente. Ou impacientemente, o que será melhor ainda...

Qual foi o livro que lhe levou mais tempo a escrever?
Talvez "História do Cerco de Lisboa".

E o de mais rápida elaboração?
"A Caverna".

Lembra-se do seu primeiro contacto com o heterónimo de Fernando Pessoa Ricardo Reis?
Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa.

Um espectador da vida, Ricardo Reis é, talvez de todos, o heterónimo com o qual José Saramago se identificará menos. Porquê então este privilégio que lhe concede ao fazê-lo "herói" do seu livro?
Quando mais tarde avancei no conhecimento de toda aquela "gente" - foi muito importante para mim a antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, cuja segunda edição, a que tenho, saiu em 1945 - e sobretudo comecei a penetrar mais profundamente no espírito do Reis, achei-me diante de algo que quase por instinto rechaçava, aquela sua ideia de que a sabedoria consiste em contentar-se cada um com o espectáculo do mundo... Pensava já então, e continuo a pensá-lo, que se a alguém o espectáculo do mundo contenta, ao menos que tenha a decência de não chamar sabedoria a essa atitude. Direi que "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele... Foi portanto para resolver o choque entre uma admiração sem limites e uma rejeição sem limites que escrevi o romance.

O próprio Fernando Pessoa pode dizer-se que esteve nos antípodas daquilo que José Saramago defende. Tanto no seu percurso pessoal como nas intervenções que ele foi fazendo na vida cultural e política do país. A sua admiração por Pessoa faz esse "distinguo"?
Todos sabemos que Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram. Mas realmente é difícil suportar com serenidade certas afirmações suas, como aquela de que a escravatura, afinal, não era um sistema assim tão mau...

Já agora, o mesmo quanto ao Padre António Vieira, cultor da língua, defensor dos índios e visionário do Quinto Império?
Provavelmente, para o Padre António Vieira, as visões de um Quinto Império não passaram de uma manha política (digo "manha" no melhor sentido da palavra), hoje sem particular significado, salvo para alguns "iluminados" que ainda imaginem por aí grandiosos futuros para Portugal. Quanto ao Quinto Império pessoano, esse era puro teatro. Não se vê que diabo de espiritualidade "futurante" poderia ter ele encontrado na modorrenta Lisboa dos anos 30...

Da sua lista de autores preferidos, constam outros escritores em que o fascínio pela obra literária não acompanhe a admiração pela pessoa? Pode especificar?
Falando de autores portugueses, confesso que não consigo ler aqueles a quem ao mesmo tempo não estime e respeite como pessoas. Sou menos exigente se se trata de autores estrangeiros.

Tem consciência de que esse é o "drama" de numerosos fãs da sua obra, que não o acompanham nas suas opções políticas e a quem nalguns casos essas opções repugnam até?
Se me lêem apesar de as minhas opções políticas lhes repugnarem (outra coisa seria se lhes repugnasse a pessoa que as tem), então o "drama" não é assim tão grande...

Alguma vez pensou em moderar a sua militância no terreno, de forma a alargar ainda mais a base de apoio literário de que goza no mundo, sobretudo a partir do Prémio Nobel?
A minha base de apoio literário nasceu simplesmente daquilo que escrevo, não de uma estratégia de autor ou de uma dosagem de ingredientes narrativos supostamente "abrangentes", para usar um termo do calão político. Moderar aquilo a que chama "a minha militância no terreno" para alargar ainda mais a dita base de apoio seria um cálculo indigno. Quem me quiser, terá de aceitar-me tal qual sou. Quanto aos outros, que vivam tão bem sem mim como eu vivo sem eles.

Disse uma vez numa entrevista: "Eu estou nos meus livros." Como explica que numerosos leitores (como se viu agora em Israel) adiram aos seus livros entusiasticamente mas reajam tão fortemente a posições políticas públicas suas?
Alguns críticos literários de Israel disseram que eu escrevi "Ensaio sobre a Cegueira" pensando no Holocausto e era voz corrente que um dos meus livros, suponho que o mesmo, havia sido lá escrito... Nada disto era verdade, simplesmente era o lado imaginário de uma relação privilegiada entre leitores e autor que se estabeleceu em Israel e que nunca alimentei de caso pensado. De certa maneira, consideravam-me um deles. Mesmo que para isso tivessem de saltar por cima de alguma interpelação minha, como aquela que sobre o conflito israelo-palestino se pode ler no "Evangelho segundo Jesus Cristo" (pp. 210-211 da edição portuguesa) e cuja parte final aqui deixo: "Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba." Nestas últimas palavras ("lho reconheçamos") está o nó da questão: Israel não reconhece o direito dos palestinos a viverem na sua própria terra, mas os judeus que leram aquilo fizeram de conta que não era nada com eles...

Acha que a sua opinião sobre a situação palestiniana vale a perda de milhares de leitores israelitas dos seus livros?
Ai de mim se quando vou dizer ou escrever alguma coisa começasse por pensar se com isso irei vender mais ou vender menos livros... Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

Não o impressiona o argumento daqueles que lembraram que os seus leitores se encontram em Israel e não na Palestina?
É um argumento estúpido e mesquinho, que denuncia uma mentalidade de avaro. A Israel não falta dinheiro para comprar livros, mas eu não me vendo a quem compre os meus, seja quem for e onde quer que esteja. Em todo o caso, que não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Já agora, tendo em conta o seu recente artigo "Das pedras de David aos tanques de Golias" (na imprensa internacional e no PÚBLICO de 03-05-02): reconhece que foi excessiva a comparação histórica que fez com a situação que prevalecia em Ramallah durante o cerco israelita? 
O meu artigo não retira nada às declarações que fiz em Ramallah. É simplesmente outra visão do problema. Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar. E se ainda há por aí quem tenha dúvidas, que consulte o "plano de paz" que Sharon levou a Bush para aprovação. Nele se contempla o reconhecimento de um Estado palestino sem capacidade militar e com o território reduzido, em que se criarão zonas de segurança para separar fisicamente israelitas e palestinos. O "plano" prevê um acantonamento permanente de tropas nos territórios palestinos, grades, vedações electrificadas e portas de acesso, como as que actualmente separam Gaza de Israel. Não é preciso ser um lince de inteligência para perceber que a aplicação de um tal "plano de paz" transformará definitivamente o chamado território palestino num enorme campo de concentração...

Voltando ao livro. Que métodos seguiu para reconstituir o ambiente de Lisboa naquele período (segunda metade dos anos 30), para além da consulta de jornais da época, abundantemente citados? Foi aos locais para melhor os descrever (Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, etc.)?
Apesar de ter apenas 13 anos em 1936, a minha lembrança do ambiente geral da cidade naquela época mantém-se bastante viva. Essa lembrança foi o pano de fundo de que me servi para fazer representar as minhas personagens. Mas, tal como refere, a substância dos factos colhi-a nos jornais, principalmente "O Século", pelas características populares que sempre o distinguiram: enquanto o "Diário de Notícias" afirmava ser o jornal de maior tiragem, "O Século" desforrava-se dizendo ser o de maior circulação... Não só visitei o Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, como escolhi o quarto - o 201 - em que iria alojar-se Ricardo Reis. Aos Prazeres fui também, claro. O resto teve de resolvê-lo a imaginação.

E quanto às personagens? Por exemplo as duas mulheres, Lídia e Marcenda, sendo figuras literárias [das "Odes" de Ricardo Reis], onde foi buscar o corpo e os tiques que lhes deu?
Marcenda não é uma "personagem literária" de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra aparece na ode "Saudoso já deste Verão que vejo" designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a carácter com a "minha" personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas...

O lançamento deste livro pelo PÚBLICO vai fazê-lo chegar a muita gente que de outra forma não o leria. Tendo em conta que entre os seus novos leitores se deverão encontrar muitos estudantes, que leituras lhes aconselharia a fazer para melhor compreenderem a história?
A leitura que eu próprio fiz, a da imprensa da época. Aprende-se muito a ler jornais 50 anos depois de terem sido publicados...

Foram vários os prémios atribuídos a "O Ano da Morte...". Qual a importância de que se revestiu, para si e para a sua "carreira", ter sido o Prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico "The Independent", num ano, 1992, em que concorriam, entre outros, livros de Gunter Grass e de Ismail Kandaré?
É fácil de imaginar se se souber que eu trabalhava nos Estúdios Cor quando esta editora, no princípio dos anos 60, publicou "O Tambor" de Gunter Grass. A publicação de "Terra do Pecado", em 1947, não tinha feito de mim um escritor, e "Os Poemas Possíveis" só seriam publicados em 1966. Literariamente, portanto, não existia. Ganhei em 1990 o prémio de "The Independent" em competição com Grass e, como se isto não fosse bastante, dão-me o Nobel antes de o darem a ele. É caso para dizer que não há justiça neste mundo...

Refere-se muitas vezes, nos "Cadernos de Lanzarote", à grande quantidade de leitores que tomam a iniciativa de lhe escrever ou de o interpelar de viva voz sobre os livros que escreve. Qual o lugar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nas preferências confessadas dos seus leitores?
Não faltam leitores que consideram ser "O Ano da Morte de Ricardo Reis" o meu melhor romance, mas não se me peça que concorde com eles, uma vez que iria contrariar aqueles outros leitores que, por razões não menos pertinentes, defendem outras preferências.

Qual o lugar dele na sua lista pessoal da obra escrita até agora? Porquê?
Apenas direi que nada poderia consolar-me se por alguma arte diabólica o "Ricardo Reis" desaparecesse da minha bibliografia. Não sei se é ele o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto. E toquei algo mais, se se me permite uma nota pessoal: foi "O Ano da Morte de Ricardo Reis" que nos juntou. Refiro-me a Pilar, claro está...


Frases

Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro.

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele...

Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram.

Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

(...) Não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar.

Não sei se ["O Ano da Morte de Ricardo Reis"] é o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto.

Charla de José Saramago - "Encuentros en la Caja" en Espacio Cultural de la Obra Social de CajaCanarias (03/08/2007)

Charla de José Saramago dentro del ciclo "Encuentros en la Caja", 
celebrado el 3 de Agosto de 2007 en el Espacio Cultural de la Obra Social de CajaCanarias.

Pode ser assistido, via YouTube, aqui


sexta-feira, 18 de março de 2016

José Santa-Bárbara e Graça Morais, dois artistas plásticos assinando novas edições de obras de José Saramago

A Silvadesigners tem a responsabilidade de criar as capas das edições da obra de José Saramago, que estão a ser republicadas pela Porto Editora. 
Depois das famosas capas amarelas da Caminho, as edições da Porto Editora são contempladas com um detalhe que acrescenta valor estético a cada obra. Trata-se da escrita manuscrita pelo punho de diversas personalidades, de elevadíssimo valor enquanto criadores das artes e reflexões filosóficas produzidas sobre a condição do ser humano e a sociedade em que vivemos.

Mais informação, através do site da Silvadesigners, aqui

As obras já apresentadas


A Viagem do Elefante, Mário de Carvalho 
A Caverna, Eduardo Lourenço 
A Noite, Armando Baptista-Bastos 
As Pequenas Memórias, Gonçalo M. Tavares 
Ensaio sobre a Lucidez, Dulce Maria Cardoso
Manual de Pintura e Caligrafia, Júlio Pomar 
O Homem Duplicado, Lídia Jorge
As Intermitências da Morte, Valter Hugo Mãe
História do Cerco de Lisboa, Álvaro Siza Vieira 
Os Apontamentos, Maria do Céu Guerra 
Levantado do Chão, Mia Couto
Poemas Possíveis, Almeida Faria 
Provavelmente Alegria, Nuno Júdice
Que farei com este livro?, Carlos do Carmo
Ensaio sobre a Cegueira, Chico Buarque

A captação do momento que servirá para a concepção das capas

 José Santa-Bárbara


Graça Morais

"Clausura del Aula José Saramago" - Clube de Leitura da Biblioteca Providencial de Huelva (Junho de 2014)

A professora e investigadora Maria Leiria, também responsável e dinamizadora 
da "Comunidade de Leitores Ler Saramago", 
aqui em trabalho de acompanhamento e esclarecimento dos ilustres visitantes

Do blog "La mar de libros - El blog de los clubes de lectura de la Biblioteca Provincial de Huelva", recupero informação onde os membros da turma da "Aula José Saramago" que visitaram Lisboa e a Fundação José Saramago, deixaram seu testemunho. 

A leitura é também viagem, convívio entre leitores e partilha das suas experiências.
Assim se perpetua a vida dos autores. 

Informação pode ser recuperada e consultada, aqui


""El pasado fin de semana 7 y 8 de junio, miembros del Aula José Saramago de las bibliotecas Vicente Campinas de VRSA y de la biblioteca provincial de Huelva realizaron un viaje a Lisboa al objeto de clausurar el Aula que se ha venido desarrollando desde el pasado mes de octubre en ambas bibliotecas y que tiene como finalidad conocer la obra y el pensamiento de este escritor.

Al igual que el pasado año en la sede de la Fundación José Saramago fueron recibidos por la presidenta de la misma Pilar del Río, que les dio la bienvenida para posteriormente hacerles entrega del diploma acreditativo de su participación en la mencionada Aula. 

Una vez concluida la visita a la Fundación, los miembros del Aula recorrieron las calles del barrio lisboeta de la Mouraria, donde habitó de pequeño José Saramago, acompañados por María Leiria, colaboradora de la Fundación y gran conocedora…"

Fotografia de grupo

Citador #47 - Sobre a origem do "Levantado do Chão" (Extracto de entrevista realizada por Inês Pedrosa a José Saramago) - JL #227 (10/11/1986)

"Muitas vezes me interrogo sobre o que teria sido a minha vida se não tivesse havido o 25 de Novembro. É verdade que nessa altura já tinha escrito alguns livros, mas, com esses, não ocuparia qualquer espaço nos manuais de literatura. Também não sei bem que espaço irei ocupar com estes… Mas houve qualquer coisa de decisivo, que foi a situação em que de repente me achei, sem emprego nem esperança de o conseguir. O verão quente de 1975 tinha-me queimado totalmente. Então tomei a grande decisão, que não foi uma decisão dramática: “Ou escreves agora, ou decides já que nunca serás escritor”. De tal forma que, em março de 1976, estava a caminho do Alentejo, onde passei dois meses a recolher material para o Levantado do chão. Agora, finalmente, tenho o direito de ser apenas escritor, 24 horas sobre 24 horas."

Extracto de entrevista realizada por Inês Pedrosa a José Saramago 
“José Saramago: ‘A Península Ibérica nunca esteve ligada à Europa’”
in, Jornal de Letras, Artes e Ideias - Edição n.º 227 (10/16 de Novembro de 1986)

Imagem postada no blog "Cais do Olhar", que pode ser consultada, aqui 

A imagem refere-se à famosa secção "Diálogos Confidenciais", 
que Inês Pedrosa manteve no Jornal de Letras

quinta-feira, 17 de março de 2016

Enquanto na chega a edição de Março da "Revista Blimunda" recuperamos o n.º 10 de 2013

Capa da edição #10 - Março de 2013

A edição #10 da revista pode ser consultada e descarregada, aqui
em http://blimunda.josesaramago.org/2013/03/20/blimunda-10-marco-2013/

Sinopse da edição
"A Blimunda 10, de março de 2013, destaca no seu dossier de capa a edição deste ano das Correntes d’Escritas, com uma reportagem, entrevistas e um texto de Maria do Rosário Pedreira, muito bem acompanhados por fotografias de Urbano Tavares Rodrigues e pelas ilustrações de João Fazenda. A secção dedicada ao infantil e juvenil centra-se no centenário do nascimento de Ilse Losa, com depoimentos de Álvaro Magalhães, José António Gomes, Manuela Bacelar e Ana Cristina Vasconcelos, para além da reprodução fac-símile de um texto da autora, publicado em 1948 na revista Vértice. Por fim, um texto de Mário de Carvalho sobre Aquilino Ribeiro, quando se assinalam 50 anos sobre a sua morte, e as palavras de José Saramago sobre Ensaio sobre a Lucidez, ditas em Bogotá, em 2004.
Um número feliz da Blimunda."

"Rio: um saber feito de (quase) nada" Republicado em 17/02/1996 nos "Cadernos de Lanzarote Diário IV"

Segundo José Saramago, este artigo tinha sido publicado anteriormente e recuperado para publicação nos "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (Caminho, páginas 73 a 77 (17/02/1996)

"Rio: um saber feito de (quase) nada"

"Aqui há muitos anos, um conhecido escritor francês, cujo nome agora mesmo resiste a sair-me dos arquivos da memória, proferiu, de caso pensado ou por súbito impulso de alma, quando o barco em que ia se aproximava do Rio de Janeiro (isto foi no tempo das viagens marítimas), uma daquelas frases que logo se vão tornar históricas, género «um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade». Mais discreto, o literato viajante, demonstrando, na ocasião, uma modéstia que nada tinha de francesa, exprimiu o seu deslumbramento pela voz da humildade e da gratidão: «Nunca pensei que os meus olhos valessem tanto», disse ele. O gesto seguinte, porém, não o registou a história, teria sido ajoelhar-se no convés e dar graças a quem inventou os olhos e as paisagens.

Viajei ao Brasil, pela primeira vez, salvo erro, em 1982, levando comigo uns olhos que já tinham nascido cansados e a recordação de muita outra paisagem vista. Cheguei de avião ao Rio, com nuvens baixas, levaram-me do aeroporto à cidade, pelo meio de um trânsito convulsivo, mas pude perceber, de relance, a massa formidável do Pão de Açúcar, e, quase sem saber como, achei-me no hotel. Em Copacabana, claro está.

Betinho, José Saramago e Sebastião Salgado em 1997, no Brasil 
(Fotografia: Leandro Aversa / Globo)

Suponho que terá sido por aí que começaram os meus desencontros com o Rio de Janeiro. Nas viagens que entretanto tive oportunidade de fazer, e não foram elas poucas se levarmos em conta os apenas oito anos passados, sempre me instalei, ou, para ser exacto, me instalaram, naquela correnteza de palaces e areias, sítio de regalo para turistas, sem dúvida, porém, se não parece mal dizê-lo, impróprio para viajantes. E como essas minhas viagens eram invariavelmente breves (o tempo de um congresso, o tempo de um lançamento editorial), ainda mal chegara, já regressava, ou corria a outros lugares brasileiros, que viria a conhecer tão mal como estava conhecendo o Rio. Da paisagem, apesar de tudo, acreditava ter luzes suficientes, ali estavam as montanhas, as florestas, o mar, mas a cidade desorientava-me, dividida, como está, em três ou quatro partes que se comunicam por túneis, de modo que me via a sair de uma e a entrar em outra sem perceber onde tinha acontecido o momento da passagem ou quando havia cruzado, por assim dizer, uma linha de fronteira. Perguntavam-me os meus amigos se já tinha subido ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado, que isso me ajudaria a ter uma ideia da topografia geral da cidade, e eu, fiel ao princípio de que um viajante que se respeite não sobe à Torre Eiffel (como até hoje nunca subi), respondia-lhes que contava vir a compreender o Rio de Janeiro um dia desses, sem recorrer à facilidade de paisanas ascensões.

Por fim, não aguentei mais. O Rio de Janeiro estava a tornar-se para mim numa nova Setúbal, essa onde sempre me perco e onde sou incapaz de encontrar uma rota que me leve a porto seguro. Desdenhei o Pão de Açúcar, por achar que só me ofereceria uma visão muito incompleta do objectivo, e subi ao Corcovado, aprendendo, de caminho, que aquela florinha cor-de-lacre que aparecia por todo o lado, ao longo da estrada, tem o nome de Maria-Sem-Vergonha, palavras que dizem tudo sobre a espécie de intrometida que é. Chegado, enfim, ao alto, pude perceber, num estado de plena adesão dos olhos e do espírito, o que queria dizer o tal francês agradecido. Mas como uma beleza destas é rigorosamente intraduzível em palavras (se eu escrever verde, por exemplo, de que verde estou a falar? e vale? e montanha?), deitei as minhas vistas para a disposição da cidade no terreno, localizei os acidentes orográficos perfurados pelos túneis, tracei mentalmente as vias de comunicação, pus nomes nos bairros, situei as praias, identifiquei as montanhas encavaladas ao redor, inventariei as favelas e áreas de luxo ? o Rio de Janeiro deixava de ser uma cidade para tornar-se num mapa plano, lógico, organizado, perfeito. Compreendera tudo, aprendera tudo.

Bastou-me regressar ao nível do mar e a Copacabana para começar a desaprender, mas o meu desenho mental, com a ajuda de um mapa turístico finalmente útil, ainda tinha sentido bastante para evitar que me visse a mim mesmo como o menino perdido na mata e sem o seu cão Piloto. Mas, ai de mim, nunca diremos demasiadas vezes que o óptimo é inimigo do bom. Veio um dia, uma outra viagem, em que subi de helicóptero, por ares e ventos, sobrevoei tudo, desde Jacarepaguá ao Fundão, girei ao redor do Senhor Cristo do Corcovado como anjo zumbidor enviado do céu para perguntar-lhe, olhos nos olhos, se realmente acreditava que valesse a pena continuar ali, pairei sobre o Pão de Açúcar e soube como ele é do lado do mar, tomei a altura dos arranha-céus, fiz levantar as cabeças dos banhistas na praia, desde o Leme a Ipanema, e quando dei por mim tinha perdido outra vez o Rio de Janeiro. Vistos assim do ar, os planos confundiam-se, a inclinação dos vales era perturbada pela inclinação do próprio aparelho, a montanha parecia escorregar e cair, os edifícios tornavam-se construções expressionistas, cenários de Metropolis, as favelas confundiam-se com os bairros ricos que estão defronte, a cidade transformava-se em caleidoscópio, variável até ao infinito. Depois disto, descer não é regressar, mas recomeçar.

Confessado fica aqui, pois, que mal conheço o Rio de Janeiro. Porém, não é ao helicóptero que lanço as culpas. Culpa tem-na (mas inocente culpa) quem me pôs em hotéis de Copacabana, culpa tem-na esta minha vida que só me leva das universidades às livrarias, das sessões de autógrafos às recepções, das conferências às entrevistas, das mesas-redondas aos jantares de circunstância. Um dia, um amigo brasileiro disse-me que é possível viver no Brasil como se o Brasil não existisse. Basta ter os meios para criar um casulo, uma redoma, viver lá dentro e fechar os olhos ao resto. Acho que, no Brasil, também tenho vivido numa redoma. E contudo, se calhar, até nem conheço tão mal assim o Rio de Janeiro. Mas das pessoas, do povo que lá vive, se quiser ser sincero, só saberei dizer que lhes chamam cariocas."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, páginas 73 a 77 (17/02/1996)

terça-feira, 15 de março de 2016

"Uma visão sobre o artista" Artistas Plásticos e outras artes - José Santa-Barbara - Lena Gal - João Amaral - Violant - Minela Reis - Isa Silva - Odeith

O "cão das lágrimas" de José Santa-Bárbara


"A Viagem do Elefante" de João Amaral


"Mulheres Marias" de Lena Gal


"A Existência da Memória" de Minela Reis


Graffiti de Odeith


Violant


"Square Faces" de Isa Silva







Espectáculo "Quem quer ser Saramago" - Produção "Andante Associação Artística"

Todas informações deste espectáculo e demais actividades, podem ser consultadas, aqui

16 de Março
Feira do Livro de Arganil - Espaço multiusos da Cerâmica Arganilense
 15:00 – 16:00 e 21:00 – 22:00

18 de Março
Lousã - Cine-Teatro
10:30 – 11:30

13 de Abril
Escola Secundária Seomara da Costa Primo - Amadora
15:30 – 16:30 e 21:00 – 22:00

22 de Abril
Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen - Loulé
21:30 – 22:30

19 de Novembro
Fórum Cultural de Alcochete - Alcochete
21:30 – 22:30


"Sinopse de apresentação"
"60 minutos
Alunos do ensino secundário e público em geral.
"A grande e decisiva arma é a ignorância. É bom que eles nada saibam, nem ler, nem escrever, nem contar, nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso" 
JS in Levantado do Chão

Promo de apresentação, via YouTube, aqui


Agora, mais do que nunca, as palavras de José Saramago ajudam-nos a compreender, a lutar e a ultrapassar os tempos conturbados em que vivemos.

Quem quer ser Saramago?

Como num jogo somos levados através do universo da escrita de José Saramago, com avanços e recuos, ultrapassando uma dificuldade aqui, fazendo uma descoberta ali.

Quem quer ser Saramago?

Uma viagem contra a crueldade, a humilhação e a mentira, guiada pela “Voz” e pela obra do único Nobel da literatura em língua portuguesa, com destino a um mundo mais digno, justo e verdadeiro."







"Cadernos de Lanzarote - Diário IV" José Saramago e Pilar del Río em viagem pelo Brasil ("Diário de viagem de Pilar)


Post dedicado a Pilar del Río na data do seu aniversário

"Viagem ao Brasil - Prémio Camões"

Dia 26 de Janeiro de 1996, José Saramago apresenta os agradecimentos pela atribuição do Prémio Camões, em discurso perante o presidente do Brasil - Fernando Henrique Cardoso. 

Dia 27 de Janeiro de 1996, os "Cadernos de Lanzarote - Diário IV" abrem espaço ao "Diário de viagem de Pilar"


27 de Janeiro de 1996
"De noites doces todos temos experiência. Agora, noites doces propriamente ditas, sem metáforas nem segundos sentidos, não devem ser tão frequentes assim, uma vez que nem toda a gente adormece com um bombom na boca." (...) "Nunca um bombom durou tanto nem uma noite foi tão doce. Propriamente falando."


28 de Janeiro de 1996
"A outra Brasília existe e hoje conhecemo-la." (...) "Eric Nepomuceno e Marta, sua mulher, levaram-nos a almoçar na margem de um lago que me tinha esquecido haver ali." (...) "À noite, Maria Lúcia Verdi (...) reuniu em sua casa um grupo de amigos do mundo da cultura e da política cultural, incluindo o ministro. Ceia amável com surpresa no fim: Roberto Correa, um músico amigo de Maria Lúcia, compositor e investigador de sons indígenas e populares, ofereceu um recital (...)


29 de Janeiro de 1996
"A manhã foi dedicada por José Saramago a atender os meios do comunicação social, que queriam saber do Prémio Camões tanto como do Ensaio sobre a Cegueira" (...) "Ao meio-dia, almoço em casa dos embaixadores portugueses, Maria Fernanda e Pedro Ribeiro Meneses." (...) "Emocionada" (...) À noite, palestra no Centro Cultural da Embaixada, um salão grande que se encheu para conversar sobre literatura. José falou de Camões, quando ele, conforme o conta em Que Farei com Este Livro?, tentava publicar Os Lusíadas, com tantos trabalhos como pouca fortuna." (...)  


30 de Janeiro de 1996
Dia da entrega do Prémio Camões. Tanta gente ilustre e amiga.
(...) "A sala estava cheia de ilustres. Ilustres do mundo da cultura" (...) "Foi uma cerimónia de palavras." (...) "Depois da cerimónia, simpaticamente, o presidente ofereceu um almoço de confraternização que resultou interessante." (...) "um dia de glória bendita, no sentido que damos em Andaluzia a esta expressão: de bonança acolhedora, de amigos felizes que compartilham a mesma alegria e o mesmo anseio de expressar ideias e sentimentos num idioma comum que os une e singulariza, que os torna irrepetíveis, necessários e úteis." (...) 


31 de Janeiro de 1996
"Viajámos para São Paulo deixando atrás amigos que se multiplicaram em atenções." (...) "Esta noite paulista foi para falar da Europa e de Portugal. No auditório do Museu de Arte de São Paulo, uma conferência para explicar as dificuldades (e os motivos delas) que Portugal teve ao longo do tempo da história para acertar o seu relógio com o tempo." (...)


1 de Fevereiro de 1996
"Se se quiser sobreviver em Salvador da Bahia, o melhor é não ir jantar com Caetano Veloso, porque até as pedras das rua , como se não fossem suficientes as multidões (benditas multidões) que as povoam, querem saudá-lo." (...) 


2 de Fevereiro de 1996
(...) "Iemanjá é o nome da deusa do mar. Todos os anos, no seu dia, os pescadores, os habitantes de Salvador lhe entregam presentes" (...) Ao cair da tarde, forma-se uma procissão de barcos que, ordenadamente, navegam até um ponto determinado, mar dentro, onde se realizar a oferenda" (...) Seguimos a festa no terraço de Caetano Veloso" (...)


3 de Fevereiro de 1996
(...) "Assim são as coisas nesta parte do mundo, onde o importante não é o que se vende e o que se compra, mas sim sabermo-nos vivos, ao menos por hoje, donos absolutos do tempo" (...) "A casa do Rio Vermelho, que começou por ser o cenário onde se desenrolaria parte da vida dos protagonistas Zélia e Jorge, erigiu-se em estrela de si mesma, estrela de carácter" (...) "Rodeia-a uma pequena selva domesticada, minúscula se a compararmos com a Amazónia, mas imensa para os nossos europeus e surpreendidos olhos." (...) "A Fundação Jorge Amado está no Pelourinho, zona de Salvador considerada património da Humanidade pela UNESCO, paisagem dos livros de Amado." (...) "Almoçámos perto do Pelourinho, na Casa de Dadá, um dos restaurantes preferidos dos nossos amigos" (...) "O dia terminou em Santo Amaro, onde, como diziam os autocolantes que as pessoas levavam e que conservamos, «vi e ouvi Caetano em Santo Amaro»." (...)


4 de Fevereiro de 1996
"Custa-nos deixar a Bahia" (...) "O Rio de Janeiro recebeu-nos com uma chuva de Verão, dessas implacáveis que aparecem e desaparecem sem aviso prévio" (...) "O serão deste domingo estava reservado para outro encontro de velhos amigos, admirados companheiros de letra de José. Chico Buarque foi o anfitrião da noite, que começou em sua casa e terminou num restaurante italiano, onde, pelo mimo com que o tratam, é cliente principal, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro e Berenice, Eric Nepomuceno e Martha, Luiz e Lili, eram os outros comensais, reunidos por umas letras que tantas vezes separam e que são tão poderosas quando criam laços de amizade." (...) "De regresso a Copacabana passámos por Ipanema" (...)


5 de Fevereiro de 1996
"José, como escritor e Prémio Luís de Camões, era o convidado de honra da inauguração oficial de um edifício destinado a altos fins: o Palácio do Livro." (...) "Pela tardinha, nos jardins da Biblioteca Nacional, palestra de José" (...)


6 de Fevereiro de 1996
(...) O último acto público de José era uma conferência nas instalações de O Globo, que de manhã havia publicado uma entrevista ilustrada com uma fotografia da cabeça de José, maior que o tamanho natural. Quase teve um desmaio quando a viu O título da conferência era «O Escritor perante o Racismo»." (...)


7 de Fevereiro de 1996
"Foi uma sorte ter o Ministério da Cultura reservado lugares para viajar para Madrid às 7 da noite" (...) "No almoço do consulado tinha estado, nem mais nem menos, Oscar Niemeyer, com quem José se encontra algumas vezes, mas sempre de maneira rápida e superficial" (...) "A caminho do aeroporto voltou a cair o dilúvio. chuva como cataratas" (...) "Na verdade, uma parte de nós já tinha ficado no Brasil, A outra parte também se a chuva tivesse ajudado..."

Discurso perante o presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso pela atribuição do Prémio Camões (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 26/01/1996)

26 de Janeiro (de 1996)
"Mais uma obrigação cumprida à última hora, como em tantas outras ocasiões tem sucedido: desta vez, as palavras com que irei agradecer ao presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, a entrega do Prémio Luís de Camões. Em casos destes, as conveniências aconselham um discurso «politicamente correcto», sem surpresas, um discurso que cumpra o horário, pare em todas as estações, e sobretudo não descarrile. Pensei, contudo, que uma viagem tão longa e um acto previsivelmente tão solene mereciam um grãozinho de fantasia irreverente - e a oração saiu assim: 

«Senhor Presidente, permitir-me-á que reserve para o fim as palavras formais de agradecimento, não porque elas não sejam devidas já, mas porque terei de agradecer-lhe, nessa altura, por esperançosa antecipação, muitíssimo mais (imagine!) que a honra que nos deu, a minha Mulher e a mim, ao convidar-nos a vir ao Brasil, eu, para receber das suas mãos o Prémio Luís de Camões, ela, porque aonde vai um, vai o outro. 
«Desde que cheguei à idade do entendimento, ando a ouvir dizer, com encorajadora insistência, que Brasil e Portugal são dois países irmãos, de sangues cruzados e linfas misturadas, e muita história de ida e volta. Quando aqui há uns anos demos por que a pena inconstante e vária de Fernando Pessoa tinha escrito aquilo de ser a pátria dele a língua portuguesa, e, portanto, por extensão, a de todos nós, acredito que os mais idealistas desta costa e da outra, das africanas também, terão pensado que se encontrava ali a chave mágica, graças à qual acederíamos a possibilidades mais fraternas e frutuosas de encontro e de diálogo. Se a língua portuguesa era realmente pátria, então era a pátria de quantos pensavam, falavam e escreviam português, logo, afinidade de espírito e sensibilidade, bandeira e pregão de todos. Se algo faltasse ainda a essa nova pátria para ser pátria geral, que não desesperássemos, porque o tempo resolveria os problemas, e todo o mais nos havia de vir por acréscimo. Entretanto, trataríamos de convencer-nos, a nós próprios e às gerações, repetindo, até à náusea, que a nossa pátria é mesmo a língua portuguesa. Pobre e sofredora pátria essa, digo eu, tão mal ensinada, tão real aprendida, inçada grotescamente de estrangeirismos inúteis, instrumento que já parece em risco de perder a necessidade e a serventia! 
«Talvez que uma língua partilhada, a nossa ou outra qualquer, com Pessoa ou sem Pessoa para proclamá-lo, possa vir a constituir-se, de facto, em uma certa forma de pátria. Mas, então, aquilo que estivesse a faltar-lhe para ser pátria suficiente, não só nunca lhe viria por simples acréscimo como seria isso, precisamente, o que iria dar-lhe o verdadeiro sentido. Di-lo-ei em palavras directas e sem retórica: interesses comuns, objectivos comuns, trabalho em comum. Os nossos registos históricos de nascimento continuam a demonstrar que somos parentes, mas as páginas das respectivas biografias colectivas estão cheias de mal-entendidos, de indiferenças, de mútuas desqualificações, de mesquinhos egoísmos, de muita conversa e pouca obra. 
«Senhor Presidente, não creio que, ao convidar-me a vir ao Brasil receber o Prémio Luís de Camões, a sua intenção tenha sido apenas a de estabelecer, diplomaticamente, um princípio de alternância que, em verdade, já estava tardando. Quero antes pensar que este acto solene significa, no seu espírito, o primeiro movimento de uma mudança de estilo e de acção nas relações culturais entre os países a que chamamos de língua oficial portuguesa. Quero pensar que, num futuro próximo, já que não poderá ser imediato, todos esses países - Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Portugal -, consoante as disponibilidades humanas e financeiras de cada um, possam elaborar e pôr em funcionamento um plano de trabalho conjunto, atento, naturalmente, às circunstâncias e exigências nacionais, mas visando, com um espírito generoso e aberto, a preservação equilibrada e a difusão eficaz da língua portuguesa no mundo, mas também, e sobretudo, no próprio interior dos países que a falam, os nossos. 
«Era nisto que eu pensava, Senhor Presidente, quando comecei por dizer que teria de agradecer-lhe, por antecipação, muito mais que a honra de receber das suas mãos o Prémio Luís de Camões. Como escritor, como cidadão pedestre, peço-lhe que toque o alarme, e que ele se ouça por cima dos mares e das fronteiras. Afinal, talvez Fernando Pessoa tenha tido razão antes de tempo: foram tantas as coisas que ele anunciou para o futuro, que bem pode ser fosse esta uma delas. E não necessito lembrar que nós, os que falamos português, estamos a ser, neste momento, precisamente, um dos futuros de Pessoa... 
«Senhor Presidente, chegou a vez dos outros agradecimentos. Que vão resumir-se, por a mais não poder alcançar a minha eloquência, em cinco palavras: obriga-do, de todo o coração.» 

Não imagino como irá ser recebida em Brasília uma prosa assim. Mas desejaria que, conhecida ela, nunca mais os políticos de cá e de lá nos azoinassem os ouvidos com o nariz-de-cera pessoano de que a nossa pátria é a língua portuguesa... E se o que escrevi não merece tanta consideração, então que se dêem ao trabalho de ler o que realmente se encontra no Livro do Desassossego: 

«Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentido patriotico. Minha pátria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. 
«Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto regio, pela qual é senhora e rainha.» 

Se não me engano na interpretação, a única coisa de que daqui se poderá concluir é que Fernando Pessoa estaria hoje contra o acordo ortográfico... 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, páginas 31 a 34 (26/01/1996)

Exposição da artista plástica Lena Gal "Mulheres de Saramago" de 5/4 a 19/4 no "Espaço Arte" em Lisboa

"Espaço Arte" Publicações Europa-América
Avenida Marquês de Tomar, 1B - 1050-152 LISBOA
Telefone: 213 563 791

Exposição patente de dia 5 de Abril até dia 19 de Abril


Sinopse de Apresentação da Exposição
"Ao ler o livro “Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago,” de  Pedro Fernandes de Oliveira Neto e  estar em contato com parte significativa da obra do escritor português, entrei  na essência e senti um elo forte  entre as personagens saramaguianas e a minha linguagem plástica, entre a minha pintura feminina e as mulheres reais da minha própria história de vida. Identifiquei a mesma força, os silêncios os sentidos do olhar, a intuição, o amor, a sensualidade, a denúncia de casos de violência e do assédio sexual, a cumplicidade feminina  do despertar para a consciência do ser mulher, e deixei-me guiar  pelo meu interior, pelo sentir este foco feminino, pelo envolvimento emocional e pelos momentos de ansiedade  para, num trabalho criativo, pela forma, pela cor e pelo simbolismo dar rosto  a mulheres como Blimunda, a mulher do médico entre outras mulheres/personagens tão fortes tão sábias como tantas mulheres da vida real que encarnam o arquétipo da Grande Mãe que pinto; mulheres que temos na nossa vida, desde a mãe, a amiga, a irmã. Pintar estas mulheres foi contatar momentos que senti mágicos e de muitas emoções."

“Na pintura de Lena Gal encontro, a procura da plenitude do feminino, …” 
de Raquel Pinto, in “Estudo (análise semiótica “Simbologia na pintura de Lena Gal - Ao encontro do mito Universal da Terra Mãe


"Estou inventando mulheres ou talvez, 
outra forma de ser mulher"
José Saramago

De Pedro Fernandes sobre a obra da artista plástica Lena Gal, torna-se indispensável ler e estudar o texto "A pintura de Lena em diálogo com o feminino na literatura de José Saramago" aqui  

"Uma rápida visita ao currículo de Lena Gal nos colocará diante de algumas exposições cuja matéria está pautada no feminino e suas representações, tais como Mulheres, terramãe e O feminino insular. É do catálogo que compõe a primeira exposição que li a tela “As xamãs” num diálogo tão próximo e tão forte com uma cena de Memorial do convento, de José Saramago. Foi esse contato que me pôs em contato com sua arte; Lena sempre muito solícita não hesitou, na ocasião, em ceder esse trabalho para compor a capa de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago, um extenso ensaio publicado em 2012 cujo interesse é de lançar alguma luz, por parca que seja, sobre o tema da representação do feminino na obra saramaguiana.
O contato com o ensaio e, logo depois com a literatura do Prêmio Nobel produziu na artista o desejo de estreitar esse diálogo a princípio individual de alguns temas de sua pintura. Esses dois encontros fez nascer na artista a necessidade de ir ao que ela chama de essência da representação a título de enformar e avivar o traço entre as representações produzidas pela literatura e as lidas pelo ensaio. Nessa zona de interstícios, a linguagem plástica ainda se alimenta do próprio movimento subjetivo da artista e se confunde com sua história da arte e a vida. Lena Gal, como tenho designado, tentou debruçar-se no interstício a fim de produzir o que ela própria designou pelo título de O feminino na escrita de José Saramago."

Lena Gal - "Mulheres Marias" 116x89

"Há no título desse conjunto de pinturas ao menos duas questões que quero apresentá-las nestas notas: uma delas diz respeito a humildade da própria artista em designar seu exercício imagético e imaginativo como representação da escrita. De certa maneira, a pintura e a literatura são duas formas bastante aproximadas de representação; apenas que uma pinta com palavras o que a outra pinta com tintas. Essa é uma observação viva na própria literatura de José Saramago, mais especificamente, nas reflexões costuradas pelo pintor de retratos H. em Manual de pintura e caligrafia. Tomado pela repetição da técnica da arte de eternizar rostos, H. tentará se desenvencilhar da mesmice, ensaiando-se através da escrita. O exercício de Lena Gal, embora não seja ela uma pintora de retratos, é o contrário. Sair do emaranhado de palavras para dizê-las com tinta e pincel. 

Outra é não deixar-se ficar acima da representação maior que lhe move à pintura: a obra de José Saramago. Tenta com o escritor, numa tomada de posição que não é nem de esconder-se à sua sombra nem a de elevá-lo a um pedestal de glória que, creio, ele próprio não gostaria porque sempre me pareceu alguém dado à simplicidade e não chegado à vaidade que corrói muita das existências de alguns grandes nomes, vai tentar dar luz a esse inventário de outras formas de ser mulher. É quando vem em boa hora, uma frase do próprio Saramago recolhida em As palavras de Saramago por Fernando Gómez Aguilera – “Estou inventando mulheres, ou talvez, outra forma de ser mulher”.

Para Lena Gal, este trabalho é exercício de inspiração. E é exercício de outra forma de ser mulher. Os silêncios, os sentidos do olhar, o amor, a intuição, a sensualidade, a violência sobre o corpo da mulher, o assédio sexual, a cumplicidade feminina, o despertar para a consciência do ser mulher são tornadas tonalidades para as formas extraídas do negro das palavras para o colorido das telas. O feminino na escrita de José Saramago é um caudal de sensações. A artista plástica busca pelo seu interior trazer à superfície emoções, alegrias, tristezas, materializando-se em texturas e cores diversas os sentimentos ora nascidos em ora provocados por personagens como Blimunda, de Memorial do convento ou a mulher do médico, de Ensaio sobre a cegueira – dois dos romances mais significativos da bibliografia saramaguiana e pontos centrais na leitura proposta em Retratos."

Lena Gal - "Humilhação dolorosa" 130x97

"Como exercício de recriação artística, coloca na mesma cena personagens que, no plano dos romances nunca tiveram a oportunidade de se conhecer, mas permanecem irmanadas no sentimento sobre o mundo; penso para o caso em telas em que se apresentam Blimunda, a mãe e a rainha D. Maria Ana Josefa. Ou se aproxima de cenas há muito já representadas por outros artistas e introduz
nelas novas forças de sentido: é assim com a cena da crucificação de Jesus Cristo inspirada d’O evangelho segundo Jesus Cristo ou com outra figura para Lilith. Ou reconstrói personas e cenas da narrativa saramaguiana. Além de cenas d’O evangelho, ficamos diante de cenas de Memorial do convento como a incansável busca da mãe de Blimunda pela filha e o diálogo costurado pelas formas do olhar; o encontro de Blimunda com Baltazar sendo queimado num auto-de-fé e a recuperação de sua vontade. Ou de Ensaio sobre a cegueira: a cena de assassinato do cego mal da camarata; do cão que lambe as lágrimas da mulher do médico; o estupro de uma das mulheres na camarata dos cegos maus; o banho das mulheres. 

O feminino na escrita de José Saramago, portanto, refaz por outra via que não a da palavra, as imagens sobre o feminino sugeridas pela escrita do romancista, escrita que, para além do Manual de pintura e caligrafia conversou igualmente com as artes plásticas – penso na abertura d’O evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo, quando o narrador reconstrói a cena pintada por Albrecht Dürer
ou mesmo a plasticidade oferecida pela própria narrativa. À sua maneira, a obra se reinventa, vai logrando outras possibilidades de ser vista e de ser lida.

Como redigi para o catálogo que acompanha a exposição e para outro texto a ser publicado em breve também acompanhado por telas da artista plástica, Lena desvela um duplo manto de sentidos. Não é apenas sobre o meu discurso produzido pela leitura da obra saramaguiana; é a aproximação simultânea de três formas de interpretação, a dela própria, a do escritor e a do ensaísta. Cada tela desnuda num inventário muito próprio das imagens, um imaginário que se inscreve numa zona brumosa não captável pelo verniz da palavra; isso num mesmo instante em que se alimenta dessa seiva que contorna os sentidos e é matéria nutritiva para as imagens desenhadas pelo escritor português capaz de produzir retratos únicos para a mulher. Um apelo, portanto, aos sentidos da visão, esta que tanto foi exercitada pelo próprio Saramago para rever o que nos cerca."

De Pedro Fernandes, académico e estudioso da temática saramaguiana, aqui 

O link geral do projecto em http://letrasinversoreverso.blogspot.pt/

Consultar também o projecto da revista de "Estudos Saramaguianos", aqui em http://www.estudossaramaguianos.com/


Espectáculo "Levantei-me do Chão" A partir de Levantado do Chão de José Saramago - Criação de Carlos Marques

Toda a informação pode ser consultada, através do site 

O projecto de Carlos Marques, também se encontra disponível via Facebook, aqui

(Capa do trabalho)

Agenda 2016 
– 10 Março | Coimbra – TAGV
– 30 Março | Lisboa “Levantei-me do chão – Lado B” Lançamento do CD “Levantei-me do Chão, Vínil) Fundação José Saramago
– de 7 a 17 Abril | Lisboa (Quarta a Sábado 21:30 e Domingos às 16) Teatro Meridional
– 17 e 18 Junho  | Évora  – Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

Equipa Artística
Carlos Marques Criador, Composição Músical e Actor
Susana Cecílio Apoio à criação
Nuno Borda de Água Dispositivo cénico
João Bastos Composição Músical
Rodolfo Pimenta Vídeo
Susana Malhão Designer Gráfica
Produção durante o processo de criação Candela Varas
ALGURES, Colectivo de Criação 

"Este espectáculo é um manifesto poético e efémero sobre o “Levantado do Chão”, um solo fragmentado, portátil e maleável (capaz de se adaptar a vários espaços e públicos).

Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade.

Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto.

Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado.

Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar."

Promo #1 - aqui via YouTube

"Se no primeiro espectáculo em torno da obra, reflectimos sobre o estado da nossa democracia, neste reflectiremos sobre a condição humana. A metáfora da pedra e da estátua que Saramago usou para descrever as duas fases da sua criação literária adapta-se na perfeição ao que será agora o nosso objecto artístico: se na primeira fase enquanto escritor, na qual se inclui “Levantado do Chão”, o autor descreve a superfície da pedra, numa segunda fase após “Evangelho Segundo Jesus Cristo” há uma tentativa de descrever o interior da pedra, ou seja existe a ambição de alcançar um entendimento do interior do ser humano, filosoficamente falando.

O propósito é levar estas reflexões em torno das palavras de Saramago a muitos lugares, conseguir criar um objecto que comunique com as diversas comunidades onde se inscreve.

Saramago um dia afirmou, numa entrevista conduzida por Ernesto Sampaio, que se imaginava “a contar este Levantado do Chão a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados (…) e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova. É maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.” Levantado do chão é um livro para ser contado e cantado em voz alta, bem alta!!

Este é um solo de um contador de histórias que gosta de estar ali. Um solo de um músico de intervenção. Um solo de actor que se inquieta com o estado das coisas. Este é um trabalho de uma equipa séria e divertida.

Este é um regresso a uma casa onde tudo foi intenso. Uma casa que foi abandonada e que está fechada apanhando pó. Uma casa cheia de utopias – até parece uma palavra distante. Quando era miúdo agarrava na guitarra e tocava as músicas do Zeca, do Fausto e do Godinho com aquele desejo ter vivido aqueles tempos. E questionava-me se naquela altura eu teria tido a lucidez para me aperceber para saber de que lado da trincheira devia estar."

Promo #2 - aqui via YouTube

"E agora? Falemos do agora. Será que entretanto entaiparam a casa que não tinha muros no jardim? Será que em cada instante sabemos de que lado da trincheira estamos. Será que conseguimos sempre pensar pela nossa cabeça? Será que estamos sempre certos e centrados nas nossas opções? Será que existe esse questionamento, ou essa vontade?

Em situações delicadas politicamente vamos sempre lá atrás buscar os hits das lutas passadas para tentar galvanizar uma massa (conformada) que não tem curiosidade de saber para onde nos estão a puxar. Trazemos para o presente essas músicas porque nos identificamos ou, talvez, porque já são património de uma união em épocas difíceis/vitoriosas – é mais fácil assim, dirão uns.

Mas dessa forma não se banalizarão as épocas, a luta e a própria música? E será que as lutas de hoje são as mesmas de então? Seremos nós como os nossos pais?

Serão precisas novas músicas e mais do que isso novos heróis artistas nestes tempos confusos. Não que queira inscrever o meu nome como herói – talvez em sonhos gostasse dessa ideia, mas não fui talhado para isso -, apenas vou fazendo a minha parte. Porém, talvez a arte devesse ter essa função. Essa inscrição! Talvez seja necessário que ela perca tudo… que ela passe por uma carestia! Talvez para sermos heróis tenhamos de estar ainda mais F**** já me faltam as palavras. Primeiro temos de fazer o que não queremos para depois fazermos o que realmente queremos? Que mundo queremos afinal?

Parafraseando Fausto Bordalo Dias “a ditadura proletária já morreu, mas nasceu a ditadura dos mercados.” E se eu tivesse a oportunidade de conhecer estes tais senhores dos mercados apenas lhes poderia dizer: A MINHA GUITARRA É CONSTANTE E ROSNA! É tempo de levantar do chão!"

"A Caverna" - J.J. Armas Marcelo entrevista José Saramago (TVE2 - 10/01/2001)

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui

Juan Jesús ("Juan José") Armas Marcelo entrevista a José de Sousa Saramago 
(Premio Nobel de Literatura en 1998) con motivo de la publicación de su libro “La Caverna”.
Emitido el miércoles 10 de enero de 2001.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Luis Pastor a Saramago - "En balsa de piedra" - Orquestra Athanor / Auditório Pilar Bardem em Rivas


Pode ser visualizado via YouTube, aqui


Tomada de posição conjunta da UNIA e Fundação José Saramago sobre a crise dos refugiados

Declaración del grupo de trabajo UNIA-Fundación Saramago 
"ante la gravedad de la situación de los refugiados en el Mediterráneo"

Grupo de Trabalho

"Pedimos la elaboración de una política europea común de asilo, basada en la solidaridad y la gestión humana de la demanda migratoria"

El grupo de trabajo conformado por responsables de la Fundación José Saramago y la Universidad Internacional de Andalucía (UNIA) se ha reunido en Sevilla, contando con la participación del rector de la UNIA, Eugenio Domínguez Vilches, la presidenta y el director de la Fundación, Pilar del Río y Sergio Letria, respectivamente; el vicerrector de la UNIA Manuel Torres; el polítólogo y profesor invitado de la UNIA Sami Naïr; el catedrático emérito de la Universidad de Sevilla Javier Pérez Royo; el escritor Sealtiel Alatriste, y los investigadores y profesores de las universidades portuguesas de Coimbra, Lusofona y Évora: Manuel Carvalho da Silva, Jose Castro Caldas y Manuel Branco.

Dicho grupo ha acordado realizar una declaración "ante la gravedad de la situación de los refugiados en el Mediterráneo", que se adjunta a continuación y de forma íntegra: 

"Ante la situación trágica de los refugiados en Oriente medio, Africa y Europa; nosotros, el grupo de trabajo de la UNIA-Fundación Saramago para la redacción de la carta de los Deberes y obligaciones de los seres humanos, reunidos en Sevilla; pedimos, tanto a los Estados nacionales como a las autoridades europeas, respetar el espíritu y la letra de los convenios internacionales vigentes sobre esta materia.

Hay que cumplir con la Convención de Ginebra sobre el derecho de asilo, con la directriz del procedimiento de 2005, 85-CE, así como de la Carta de Derechos fundamentales de la Unión Europea (UE), art. 19; que prohíbe las expulsiones colectivas; todos documentos adoptados por la UE y que protegen el respeto de la dignidad de los refugiados.

Pedimos la elaboración de una política europea común de asilo, basada en la solidaridad y la gestión humana de la demanda migratoria".