Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Para o magazine espanhol El Semanal, uma abordagem sobre fotografias que retratam a "marcha sobre Munique" de Hitler (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 15/07/1996)

15 de Julho (de 1996)

"El Semanal, um magazine dominical que vem sendo distribuído por uns quantos jornais espanhóis que, suponho eu, não dispõem de meios para produzir os seus próprios suplementos, propôs a alguns escritores que escrevessem um comentário de três páginas sobre fotografias que eles mesmos escolheriam de um largo conjunto de imagens célebres, desde os dias de Niepce e Daguerre até este tempo em que estamos. A minha escolha foi rápida e o comentário, pensado e repensado, veio a dar no que segue: 

«No dia 8 de Novembro de 1923, um antigo cabo do exército bávaro, chamado Adolfo Hitler, entrou na sala subterrânea da Cervejaria Bürgerbrãu, onde a flor da burguesia "bem pensante" de Munique se encontrava reunida para discutir a situação política - e disparou um tiro de pistola para o tecto. Desde a invenção das armas de fogo, não é raro que apareça um tiro a substituir as palavras (quer as de quem tinha falta de outros argumentos quer as de quem simplesmente deixara de os ter porque a bala lhe levara a vida), mas este Hitler sabia já, pela experiência ganha como agitador desde que em 1919, por indicação dos militares, ingressou no Partido Operário Alemão, quanto podem valer os discursos capazes de despertar nos auditores a ambição, a sede de domínio ou o desejo de desforra. Não tinha precisado de ler em Shakespeare a fala de Marco António aos Romanos para conhecer a arte oratória de levar consciências ao engano: neste caso nem tanto era preciso, pois não fez mais do que convencer os burgueses de Munique de que ele, Adolfo Hitler, era o homem que o destino escolhera para salvar a Alemanha, cujos interesses e necessidades, tal como os entendia a burguesia, eram em tudo coincidentes com os dela própria. Arrebatando com a inflamada arenga uma assembleia que ao princípio se lhe mostrara contrária, Hitler anunciou a nomeação de "um novo governo nacional alemão", proclamou que assumia a sua presidência, e, certamente inspirado pelo exemplo da marcha dos fascistas italianos sobre Roma, propôs a imediata preparação, "a fim de salvar o povo da Alemanha", de uma marcha sobre Berlim, "essa Babilónia de iniquidades", disse. E terminou profetizando: "Amanhã, ou haverá um governo nacional alemão, ou seremos cadáveres os que aqui estamos." 
«Como, não obstante o entusiasmo, os novos aliados não deram à ideia da "marcha sobre Berlim" um apoio suficiente, Hitler decidiu substituí-la por uma "marcha sobre Munique", ou, com mais exactidão (visto que em Munique já estavam...), um desfile armado até ao Feldherrnhalle, o chamado "santuário dos generais". Certo de ter do seu lado a maioria da população da cidade e apostando na fragilidade da obediência das forças militares ao governo, Hitler lançou o seu golpe de Estado. A esperança de triunfo não durou mais que poucos minutos. Quando a manifestação já se aproximava do Feldherrnhalle, na Kõnigplatz, um pequeno destacamento de polícia cortou-lhe o caminho. Apanhada de surpresa quando estava convencida de ter a vitória ao alcance da mão, a tropa nacional-socialista debandou, deixando atrás de si catorze mortos. Hitler, que havia fugido sem glória do local do combate, foi detido dois dias depois. Julgado em Fevereiro do ano seguinte por um tribunal que notoriamente simpatizava com os seus projectos políticos, foi condenado a cinco anos de prisão por delito de alta traição, com perspectiva de suspensão da pena passados seis meses. Viria a ser amnistiado em Dezembro de 1924. No castelo de Landsberg, que foi o seu cárcere, Hitler escreveu a primeira parte de Mein Kampf. 
«Passaram treze anos sobre estes acontecimentos: estamos agora em Novembro de 1936, e Adolfo Hitler é, desde 1933, único amo e senhor na Alemanha. Exceptuando a sombra incómoda da vitória da Frente Popular em França, no mês de Maio, e, três meses antes, a da Frente Popular em Espanha, entretanto já a braços com o levantamento franquista, a Europa só tem motivos de satisfação para dar ao fascismo em geral e a Hitler em particular: no princípio de Março, as tropas alemãs entram na Renânia, desmilitarizada desde o fim da Primeira Guerra Mundial; três semanas mais tarde, no mesmo mês, as eleições para o Reichstag, cuidadosamente preparadas, dão 98,8% dos votos aos nacionais-socialistas; em 11 de Abril, em Portugal, o governo de Salazar cria a Mocidade Portuguesa, organização para a juventude, segundo os modelos fascistas; em Maio, Mussolini proclama o Imperium; em 17 de Junho, Heinrich Himmler é nomeado chefe das polícias alemãs; em 27 de Junho, o ex-comunista Jacques Doriot funda o Partido Popular Francês, que, denominando-se a si mesmo "partido da paz", apoia a Alemanha nazi; em 4 de Julho, a Sociedade das Nações levanta as sanções que haviam sido aplicadas à Itália em consequência da invasão da Etiópia; em 11 de Julho conclui-se um acordo de amizade entre a Alemanha e a Áustria; em 30 de Setembro, Salazar cria a Legião Portuguesa, milícia paramilitar fascista; em Outubro, o catolicismo austríaco impõe-se como regime monolítico e autoritário; em 24 de Outubro, a Alemanha reconhece de jure o império italiano; em 1 de Novembro, Mussolini emprega pela primeira vez a expressão "Eixo Berlim-Roma". Faltam poucos dias para que o governo de Franco seja reconhecido pela Alemanha e pela Itália, apenas alguns mais para que a Alemanha e o Japão assinem o pacto anti-Komintern. A Segunda Guerra Mundial está cada vez mais perto. 
«É um Hitler triunfante que nesta fotografia vemos desfilar com o seu séquito. Leva as mãos cruzadas à altura do cinturão do uniforme, postura sua que voltaremos a ver muitas vezes e que nenhum dos que o seguem se atreve a imitar. O cenário, com as estranhas chaminés fumegando, poderia pertencer a uma ópera wagneriana, poderia ser, por exemplo, a forja de Alberich no Ouro do Reno, mas se Adolfo Hitler, para dar maior solenidade à comemoração do 13.° aniversário da "marcha sobre Munique", mandou que tocasse uma orquestra, a música só poderá ter sido a que, no final da mesma ópera, acompanha a entrada dos deuses no Valhala. Na realidade, todos estes homens se crêem deuses. Já não andam à conquista do poder, têm-no, usam-no sem limites, o mundo só existe para os servir. Há treze anos, quando daqui saíram para forçar os generais bávaros - o que vemos na fotografia é a fábrica de cerveja Bürgerbrãu... -, um simples destacamento de polícia foi capaz de desbaratá-los. Hoje são donos de um exército, são donos de um povo inteiro - e preparam a guerra. 
«Poderia ser uma ópera de Wagner, poderia ser também um cenário de Blade Runner, e os que marcham um bando de criminosos. Foram um bando de criminosos.» 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 172 a 176 (15 de Julho de 1996)

Montagens cénicas de algumas capas das obras de José Saramago

"A Viagem do Elefante", a estatueta que simboliza a oferenda do rei D. João III ao seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria. Pelo caminho seguem viagem o elefante Salomão e o seu cornaca Subhru 


"A Caverna", acompanhado das peças de barro e tintas para dar vida às formas, tal qual na olaria Algor, Cipriano Algor e sua filha Marta, tentaram responder aos sinais da modernidade impostos pelo Centro Comercial  


"A Bagagem do Viajante", e os mapas que auxiliam o viajante na sua descoberta e orientação por novos caminhos. Obra do início da década de 70 do século passado e que compila pequenas crónicas e histórias


"Viagem a Portugal", o mapa de Portugal; obra que junta a identificação de monumentos históricos nos lugares mais improváveis do país
 

"História do Cerco de Lisboa", a espada dos Cruzados e a marca que Raimundo Silva deixa na revisão de uma obra, ao substituir o sim pelo "Não" na ajuda dos Cruzados às tropas portuguesas capitaneadas por Dom Afonso Henriques ao tomarem de assalto a cidade de Lisboa aos mouros


"A Maior Flor do Mundo", "O Silêncio da Água" e "O Conto da Ilha Desconhecida", obras acompanhadas de pequenos símbolos infantis e que remetem estas obras para o imaginário das histórias para os mais novos 


"As Pequenas Memórias" e a marioneta; obra autobiográfica que nos remete para a vida de José Saramago até aos seus quinze anos


"O Homem Duplicado" e o espelho; a acção de Tertuliano Máximo Afonso na busca do seu duplicado, Daniel Santa-Clara (António Claro), descoberto através do visionamento de um filme 


"Manual de Pintura e Caligrafia", "A Noite" e "Levantado do Chão" com os cravos depositados, símbolo da revolução de Abril e que nos remetem para a acção de libertação 


"Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas" e as réplicas de armas usadas ao longos dos tempos, e que aqui remetem para a obra inacabada de José Saramago, como grito de alerta contra a indústria que alimenta as guerras e conflitos bélicos 


"As Intermitências da Morte", a caveira e a máscara; quando "no dia seguinte ninguém morreu" a morte torna-se figura central da acção até no limite do imaginável se apaixona por um modesto violoncelista


"Levantado do Chão" e o selo da livraria A das Artes (de Joaquim Gonçalves, Sines - Alentejo) e a espiga; a luta de várias gerações da família Mau-Tempo, a fome e a luta dos trabalhadores camponeses no Alentejo senhorial e latifundiário

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Sobre a fotografia" publicado em os "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (26/04/1996)



26 de Abril (de 1996)
"Sobre a fotografia: 
Não há nenhum motivo para sorrirmos ao ciclope, ao monstro de um só olho que é a câmara fotográfica. E, apesar disso, nunca estamos tão desarmados como diante duma objectiva. Ao princípio cremos poder enganá-la, ou porque fechámos o rosto e endurecemos o olhar, ou porque simulámos a expressão que a memória do espelho nos disse ser a mais favorável. Nesse momento começa uma luta entre a paciência do fotógrafo e a resistência de quem se lhe opõe. A paciência do fotógrafo é infinita, a resistência de quem está a ser fotografado acabará sempre por quebrar-se. Cada disparo do obturador atinge um ponto vital das defesas, aos poucos a muralha vai sendo derrubada, até que, por fim, as verdades que por trás dela se escondiam começam a aparecer, não ainda as verdades todas, mas uns quantos fragmentos delas, e também o medo do fotografado de que o processo continue até à exaustão de si mesmo. Em geral, não se chega tão longe. Piedoso, o fotógrafo pára no último instante, detém o fotografado quando ele já vai a cair no abismo, e tudo mais ou menos se recompõe. Mais ou menos. Mal refeito do susto, o fotografado suspira julgando-se livre, enquanto o fotógrafo se afasta a pensar nos bocadinhos de alma que leva dentro da caixa, como o pescador à linha vai contando os peixes que roubou ao cardume."
in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 123 e 124

Conferência de apresentação e lançamento da obra "Caim" na Culturgest (30/10/2009)

Pode ser recuperado e visualizado, via YouTube, aqui

“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, 
nem ele nos entende a nós , 
nem nós o entendemos a ele .” 
José Saramago

domingo, 10 de abril de 2016

Juan José Tamayo "Saramago: Deus, Silêncio do Universo" - Revista Blimunda (edição #1)

Artigo de Juan José Tamayo - "Saramago: Deus, Silêncio do Universo", publicado na edição #1 da revista "Blimunda", aqui
em https://pt.scribd.com/doc/120464475/Blimunda-N-º-1-junho-2012

Durante os últimos cinco anos da vida de José Saramago tive o privilégio de usufruir da sua amizade, de partilhar experiências de fé e de não-crença, de solidariedade e de trabalho intelectual, em total sintonia. No momento de refletir sobre a sua personalidade, a primeira imagem que espontaneamente me vem à memória é a parábola que na tradição bíblica conhecemos como “O bom Samaritano”, que o evangelho de Lucas narra deste jeito:

“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em poder dos salteadores, que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote, que, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o encheu-se de piedade. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho,colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: “Trata bem dele e o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar”. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?” O doutor da Lei que lhe tinha feito a pergunta respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele.“Jesus retorquiu: “Vai e faz tu também do mesmo modo”. (Lc, 10, 29-37)


Esta parábola é, sem dúvida, uma das mais severas críticas à religião oficial, cheia de leguleio e insensível ao sofrimento humano; uma das denúncias mais radicais contra a casta sacerdotal e clerical, dependente do culto e alheia ao grito das vítimas, e um dos mais belos cantos à ética da solidariedade, da compaixão, da proximidade, da alteridade, da fraternidade-sororidade. Uma ética laica, por fim, não mediada por qualquer motivação religiosa. O sacerdote e o levita, funcionários de Deus, passam ao largo, pior ainda, dão uma volta maior para não auxiliar a pessoa maltratada. O samaritano, que estava fora da religião oficial e era considerado herege pelos judeus, aparece, aos olhos de Jesus e do próprio doutor da Lei, como exemplo a imitar por ter tido entranhas de misericórdia. Pelo seu comportamento humanitário, o herege converte-se em sacramento do próximo; pela sua atitude impiedosa, o sacerdote e o levita tornam-se anti sacramento de Deus; é a religião do avesso ou, se se preferir, a verdadeira religião, a que consiste em defender os direitos das vítimas, em caminhar pelo trilho da justiça e seguir a direção da compaixão. Assim entenderam a religião os profetas de Israel, os fundadores e reformadores das religiões.

O “fator Deus”

Saramago sempre se declarou ateu, e no seu ateísmo foi um crítico impenitente das religiões, dos seus atropelos, das suas falsidades, sobretudo das guerras e cruzadas convocadas, legitimadas e santificadas por elas em nome de Deus… Já se disse que as religiões, todas elas, sem exceção… foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de matanças de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana”. Com a história na mão, quem vai negar tamanha verdade?

Mas a crítica de Saramago vai mais além e chega ao coração das religiões, a Deus mesmo, em cujo nome, afirma, “se permitiu e justificou tudo, principalmente o pior, o mais horrendo e cruel”. E dá como exemplo a Inquisição, que compara com os talibãs de hoje, qualifica como "organização terrorista” e acusa de interpretar perversamente os seus próprios textos sagrados nos quais dizia acreditar, até fazer um casamento monstruoso entre a Religião e o Estado “contra a liberdade de consciência e o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que é só isso o que a palavra heresia significa”. Esta denúncia de Deus situa-se dentro das mais importantes e incisivas críticas da religião de ontem, como a de Epicuro e Demócrito, a de Jesus de Nazaré e a do cristianismo primitivo, como a dos mestres da suspeita, e de hoje, como a dos cientistas.

Mas, mesmo quando pensa que os deuses só existem no cérebro humano, o prémio Nobel português preocupa-se com os efeitos do “fator Deus” – título de um dos seus mais célebres e celebrados artigos-, que está presente na vida dos seres humanos, crentes ou não,como se fosse dono e senhor dela, se exibe nas notas de dólar, intoxicou o pensamento e abriu as portas às mais sórdidas intolerâncias. O "Fator Deus” em que se converteu o Deus islâmico nos atentados contra as Torres Gémeas ao grito de “Morte aos infiéis!” de Osama Bin Laden. 


Juntamente com a crítica da religião, de Deus e do “fator Deus”,cabe destacar o sentido solidário da vida que caracterizou Saramago. A partir da filantropia e sem qualquer apoio religioso, foi o defensor das causas perdidas, algumas das quais foram ganhas graças ao seu apoio. Cito apenas três, de entre as mais emblemáticas. Uma era a solidariedade para com o povo palestiniano perante o massacre de que foi objeto entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009 por parte do exército israelita que causou 1400 mortos e que o Nobel português qualificou como genocídio. A segunda, o acompanhamento e apoio à dirigente sarauí Aminatu Haidar durante a sua greve de fome no aeroporto de Lanzarote. A terceira, ter destinado os direitos de autor do seu último romance às vítimas do terramoto do Haiti.

Quando relia Caim, vieram-me à memória as palavras de Epicuro:“Vã é a palavra do filósofo que não seja capaz de aliviar o sofrimento humano”. No caso de Saramago, as suas palavras e os seus textos não foram vãos. Foram carregados de solidariedade e de compromisso para com as pessoas mais vulneráveis. Por isso me atrevo a chamar-lhe respeitosamente “bom samaritano”.

“Deus é o silêncio do universo”

“Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá senti-do a esse silêncio”. Esta definição que Saramago dava de Deus é uma das mais belas que alguma vez li ou ouvi. Li-a nos seus Cadernos de Lanzarote, de 1993, e dei-a a conhecer por onde quer que eu falasse de Deus. O próprio Saramago o recorda em O Caderno: “Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos Cadernos de Lanzarote umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Península, especialmente Juan José Tamayo, que desde então, generosamente me deu a sua amizade. Foram estas: “Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu quantum satis de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de se aventurar pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que seja elementar” (Alfaguara, Madrid, 2009, pp. 152-153).

Esta definição merecia figurar entre as vinte e quatro definições – vinte e cinco, com ela – de outros tantos sábios reunidos num Simpósio que o Libro de los 24 filósofos (Siruela, Madrid, 2000) reco-lhe, e cujo conteúdo foi objeto de um amplo debate entre filósofos e teólogos durante a Idade Média. Para um teólogo heterodoxo como eu, seguidor das místicas e dos místicos judeus, cristãos, muçulmanos como o Pseudo-Dionísio, Rabia de Bagdad, Abraham Abufalia, Algazel, Ibn al Arabi, Rumi, Hadewijch de Antuérpia, Margarita Porete, Hildegard von Bingen, Mestre Eckhardt, Juliana de Norwich, João da Cruz, Teresa de Jesus, Baal Shem Tov) cristãos laicos como Dag Hammarksjlöd, hindus como Tukaram e MohandasK. Gandhi e não crentes como Simone Weil, é mais que suficiente. Dizer mais seria uma falta de respeito para com Deus, acredite-se ou não na sua existência. “Se compreenderes – dizia Agostinho de Hipona – não é Deus”.

Permitam-me contextualizar a definição tal como a vivi há pouco mais de um lustro. Caminhávamos pelas ruas de Sevilha no dia 11 de Janeiro de 2006, o escritor e prémio Nobel José Saramago, a sua esposa, a jornalista Pilar del Río, hoje entre nós, a pintora Sofía Gandarias e eu em direção ao Paraninfo da Universidade Hispalense para participar num Simpósio sobre Diálogo de Civilizações e Modernidade. Às 9 da manhã, ao passar pela plaza de la Giralda, os sinos da catedral de Sevilha – antes mesquita, mandada construir pelo califa almóada Abu Yacub Yusuf - começaram a repicar louca-mente. “Os sinos tocam porque passa um teólogo”, disse Saramago com o seu habitual sentido de humor. – “Não – respondi-lhe no mesmo tom – os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”. Nesse diálogo fugaz, a resposta do romancista português não se fez esperar: “Isso nunca. Fui ateu toda a minha vida e continuarei a sê-lo no futuro”. Veio-me à mente de imediato uma poética definição de Deus que lhe citei sem hesitação:“Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Essa definição é minha”, reagiu sem demora o Prémio Nobel. “Efetivamente, por isso é que a citei – respondi-lhe. E essa definição está mais perto de um místico que de um ateu”.A minha observação impressionou-o. Nunca ninguém lhe tinha dito nada parecido e deu-lhe que pensar, sem que por isso se tivesse deixado levar pela minha ocorrência. Era um homem de convicções profundas.

Em luta titânica com Deus

Saramago partilhou com Nietzsche a parábola de Zaratustra e o apólogo do Louco sobre a morte de Deus e talvez pudesse assinar por baixo de duas das afirmações mais provocadoras: “Deus é a nossa mais longa mentira” e “o melhor é nenhum deus, o melhor é cada um construir o seu destino”. Talvez tivesse a mesma opinião que Ernst Bloch em que “o melhor da religião é ela criar hereges” e que“só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”. A sua vida e a sua obra foram uma luta titânica com Deus num braço de ferro.

No seu romance Caim, Saramago recria a imagem violenta e sanguinária do Deus da Bíblia judaica, “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”, no dizer de Norbert Lo-hfink, um dos mais prestigiados biblistas do século XX. Imagem que continua nalguns textos da Bíblia cristã, onde Cristo é apresentado como vítima propiciatória para reconciliar a humanidade com Deus e que se repete no teólogo medieval Anselmo de Cantuária, que apresenta Deus como dono de vidas e bens e como um senhor feudal, que trata os seus adoradores como se se tratasse de servos da gleba e exige o sacrifício do seu filho mais querido, Jesus Cristo, para reparar a ofensa infinita que a humanidade cometeu contra Deus”.

O Deus assassino de Caim continua presente em muitos dos rituais bélicos do nosso tempo: nos atentados terroristas cometidos por falsos crentes muçulmanos que em nome de Deus praticam a guerra santa contra os infiéis; nos dirigentes políticos auto qualificados como cristãos, que apelam a Deus para justificar o derramamento de sangue de inocentes em operações que têm o nome de Justiça Infinita ou Liberdade Duradoura; em políticos israelitas que, julgando-se o povo escolhido de Deus e únicos proprietários da terra que qualificam como “prometida”, levam a cabo operações de destruição em massa de territórios, erguem muros carcerários e perpetuam assassínios, calculados impunemente, de milhares de palestinianos.

Depois destas operações, Saramago não podia senão estar de acordo com o testemunho do filósofo judeu Martin Buber: “Deus é a palavra mais vilipendiada de todas as palavras humanas. Nenhuma tem sido tão manchada, tão mutilada… As gerações humanas fizeram cair sobre esta palavra o peso da sua vida angustiada, e oprimiram-na contra o chão. Jaz no pó e suporta o peso de todas elas. As gerações humanas, com os seus partidarismos religiosos, dilaceraram esta palavra. Mataram e deixaram-se matar por ela. Esta palavra tem as suas impressões digitais e o seu sangue… Os homens desenham um boneco qualquer e escrevem por baixo a palavra “Deus”. Assassinam-se uns aos outros e dizem: “fazemo-lo em nome de Deus”… Devemos respeitar os que proíbem esta palavra, porque se revoltam contra a injustiça e os excessos que com tanta facilidades e cometem com uma suposta autorização de “Deus”. Eu também ponho a minha rubrica por baixo desta afirmação de Buber. Por isso muito raramente ouso pronunciar o nome de Deus.

A luta contra os fundamentalismos, os religiosos e os políticos, é o melhor antídoto contra o Deus violento e contra a violência em nome de Deus. Saramago esteve comprometido nessa luta não violenta de pensamento, palavra e obra.

Efetivamente, a vida e a obra de Saramago foram uma permanente luta titânica com-contra Deus. Como fora a do Job bíblico – “o Prometeu hebraico”, para Bloch -, que maldiz o dia em que nasceu, sente nojo da sua vida e ousa perguntar a Deus, em tom desafiante, porque é que o ataca tão violentamente, porque é que o oprime de maneira tão desumana e porque é que o destrói sem piedade (Job,10). Ou como o patriarca Jacob, que passou uma noite inteira num braço de ferro com Deus e acabou com o nervo ciático ferido (Génesis 32, 23-33). Não é o caso de Saramago, que saiu incólume das brigas com Deus e nunca se deu por vencido e que aos seus 87 anos continuou, em Caim, a perguntar-se e a perguntar aos teólogos e crentes que diabo de Deus é este que, para enaltecer Abel, tem de desprezar Caim.

Familiarizado com a Bíblia, a judaica e a cristã, recria com humor, um humor iconoclasta do divino e desestabilizador do humano, algumas das suas figuras mais emblemáticas e desmente as histórias com que, segundo León Felipe, “embalaram o berço do homem” (sic). Fê-lo em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, romance que apresenta Jesus de Nazaré como um homem que vive, ama e morre como qualquer outra pessoa e a quem Deus escolhe como elo de um imenso movimento estratégico e como vítima de um poder que o ultrapassa e acerca do qual nada pode fazer.

Voltou a fazê-lo no romance já citado, Caim, onde recria literária e teologicamente o mito bíblico, que vai buscar as suas imagens e símbolos às tradições mais antigas sobre as origens da humanidade. A Bíblia apresenta Caim como o assassino do seu irmão Abel, impelido pela inveja, e Deus, como “perdoa-vidas”. Saramago inverte os papéis do bom e do mau, do assassino e do juiz. Responsabiliza deus, o senhor (sempre com minúscula) pela morte de Abel e acusa-o de ser rancoroso, arbitrário e enlouquecedor das pessoas. Caim mata o seu irmão não arbitrariamente, mas sim em legítima defesa, porque deus o tinha preterido em seu favor. E mata-o porque não pode matar deus. Partilhe-se ou não da leitura que Saramago faz da Bíblia judaica, creio que temos de estar de acordo com ele em que “a história dos homens é a história dos seus desencontros com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. Excelente lição de contra-teologia em tempos de fundamentalismos religiosos!

Qualquer que tenha sido a responsabilidade de Caim ou de Deus na morte de Abel, fica de pé a pergunta que hoje continua tão viva como então ou mais e que apela à responsabilidade da humanidade na atual desordem mundial, nas guerras e nas fomes que assolam o nosso planeta: “Onde está o teu irmão?” (Génesis 4, 9). E a resposta não pode ser um evasivo “Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?”, mas sim, continuando com a Bíblia, a parábola evangélica do Bom Samaritano, que demonstra compaixão para com uma pessoa maltratada, e que é religiosamente sua adversária. Excelente lição de ética solidária nestes tempos em que a ética está submetida ao assédio do mercado!

Juan José Tamayo
Diretor da Cátedra de Teologia e Ciências das Religiões
Universidade Carlos III de Madrid
Tradução de Artur Guerra


Revista Blimunda (#1) "De relance" Sobre a concepção da capa da edição norueguesa de Caim, por Marianne Zaitzow

O presente artigo, está publicado na edição #1 da revista "Blimunda" (páginas 26 e 27) e pode ser recuperado, para leitura, aqui

(Kain, edição norueguesa, editora Cappelen Damn)

"De relance"
"A capa de um livro pode assumir leituras muito diversas em função dos olhos que a observam. Se para o departamento de marketing de uma editora a capa é a embalagem que vai divulgar e, preferencialmente, vender o livro, para o leitor bibliófilo é a porta de entrada,bem ou mal sucedida, para um universo onde anseia perder-se. Para o livreiro é um elemento fundamental na arrumação do seu espaço de venda e para o técnico da gráfica pode ser uma dor de cabeça,caso as cores pedidas não se misturem da maneira exata. Inaugurando um espaço de conversa com designers responsáveis pelas capas dos livros de José Saramago, escolhemos a edição norueguesa de Caim (Kain), desenhada por Marianne Zaitzow para a editora Cappelen Damm. A ideia é trazer um pouco de luz ao processo complexo e nem sempre pacífico de criar, desenhar e fixar uma capa, conjugando as indicações do editor, as eventuais sugestões do autor, a linha gráfica de uma determinada coleção, a fidelidade ao conteúdo do livro e, muitas vezes, a necessidade de distinção entre os milhares de outras capas que povoam as livrarias. Numa troca de e-mails, Marianne Zaitzow falou à Blimunda sobre o seu processo de trabalho durante a conceção da capa de Kain. 

Sobre um fundo amarelo, pontuado, nos quatro cantos, por porme-nores que parecem indicar pequenos rasgões, como se a capa fosse um poster preso por pregos numa parede, uma mão de dedo em riste abala as letras que compõem o título do livro. A imagem é estilizada, construída através da técnica do stencil, e não precisa demais pormenores do que a forma e a cor, negro, para transmitir uma força pictórica que tem correspondência direta com o conteúdo do romance de Saramago. A mão de Deus, primeira e mais óbvia leitura desta capa, é igualmente a mão do autor, como explica Marianne Zaitzow: “A mão foi a minha primeira ideia para a imagem da capa. Normalmente, trabalho a ideia de uma capa durante muito tempo,até estar convencida de ter captado a essência do livro. Neste caso, a mão remete para Deus e para a história bíblica de Caim, mas é igualmente a mão do próprio Saramago, esmagando o nosso entendimento comum da Bíblia.” Portanto, quem não conhecesse o autor e encontrasse este livro, com esta capa concreta, numa livraria, teria como primeira mensagem a certeza de não encontrar a história de Caim tal como é contada na Bíblia, mas uma outra, talvez desconcertante, a julgar pelas letras do título em quase derrocada.

Esta estrutura só foi possível pelo facto de a designer ter beneficiado de total liberdade no que respeita à colocação dos elementos constituintes da capa do livro. O único elemento que foi definido pelo editor foi o logotipo da editora e o seu posicionamento na capa. De resto, pude colocar todos os elementos onde quis colocar. É certo que a situação mais comum é o nome do autor e o título surgirem no topo, mas neste caso creio que a o conceito da capa é reforçado pela colocação do título em baixo”.

Para as letras, Marianne Zaitzow escolheu o tipo Bad Type, “porque tem aquela aparência simples e
naif que parece ter sido desenhada à mão e, apesar disso, é forte, poderoso. Na verdade, é uma parte muito importante de toda a imagem.” Essa aparência manual ganha leitura quando se relaciona com a imagem da mão, já que a técnica do stencil é, igualmente, uma técnica com componente manual preponderante, e mesmo as suas reproduções em computador, graças a programas de desenho preparados para replicarem os gestos e os processos de técnicas artesanais, não perdem essa vertente.

Descrevendo o seu processo de trabalho a partir de um exemplo sem relação com o design, Mariann Zaitzow destaca a relação profunda e bilateral que a capa deve estabelecer com o livro a que serve de rosto: “A capa está muito relacionada com o título do livro. Como designer, acho importante contar a história do livro na capa. A minha função é ser a 'voz' do autor, não a minha própria voz. É como se tivéssemos de vestir outra pessoa. Temos de a conhecer, saber quem é, como pensa, como trabalha, onde vive. Não vamos vestir um vestido a um homem que trabalha como mineiro...” No caso de Kain, o efeito foi bem sucedido e aquilo que parece uma 'desarrumação' dos códigos habitualmente utilizados no registo de um título é, na verdade, um efeito visual capaz de resumir parte considerável da essência deste romance de José Saramago. A roupa adequada, portanto."

"Saramago pide cerrar todos los zoológicos del mundo" - Publicado a 12/03/2009 no blog "La crónica verde" do 20minutos.es (César-Javier Palacios)

"Saramago pide cerrar todos los zoológicos del mundo"
Por César-Javier Palacios (12 de Março de 2009)

O artigo e tomada de posição de José Saramago pode ser recuperada, aqui
em http://blogs.20minutos.es/cronicaverde/2009/03/12/saramago-pide-cerrar-todos-zoolaigicos-del-mundo/

"Otra vez el genial José Saramago, Premio Nobel de Literatura en 1998, vuelve a golpear en nuestras conciencias, soñando claro y fuerte con un mundo mejor al que se enfrenta tan sólo armado por la razón. Un mundo de respeto, más justo con las personas, pero también con los animales, el paisaje y todo lo que nos rodea.

Su último aldabonazo es en contra de los zoológicos y los espectáculos de circo con animales. Lo hace para defender algo tan aparentemente anecdótico como la vida de Susi, la pobre elefanta deprimida del zoológico de Barcelona de la que ya os hablé la semana pasada.

Os pongo a continuación el principio de su artículo Susi, publicado el paso 19 de febrero en su muy recomendable blog personal El cuaderno de Saramago, una dura crítica a estos centros de reclusión de animales que deberían cerrarse cuanto antes. Gracias maestro."

«Si yo pudiera, cerraría todos los zoológicos del mundo. Si yo pudiera, prohibiría la utilización de animales en los espectáculos de circo. No debo ser el único que piensa así, pero me arriesgo a recibir la protesta, la indignación, la ira de la mayoría a los que les encanta ver animales detrás de verjas o en espacios donde apenas pueden moverse como les pide su naturaleza. Esto en lo que tiene que ver con los zoológicos. Más deprimentes que esos parques, son los espectáculos de circo que consiguen la proeza de hacer ridículos los patéticos perros vestidos con faldas, las focas aplaudiendo con las aletas, los caballos empenachados, los macacos en bicicleta, los leones saltando arcos, las mulas entrenadas para perseguir figurantes vestidos de negro, los elefantes haciendo equilibrio sobre esferas de metal móviles. Que es divertido, a los niños les encanta, dicen los padres, quienes, para completa educación de sus vástagos, deberían llevarlos también a las sesiones de entrenamiento (¿o de tortura?) suportadas hasta la agonía por los pobres animales, víctimas inermes de la crueldad humana. Los padres también dicen que las visitas al zoológico son altamente instructivas. Tal vez lo hayan sido en el pasado, e incluso así lo dudo, pero hoy, gracias a los innúmeros documentales sobre la vida animal que las televisiones pasan a todas horas, si es educación lo que se pretende, ahí está a la espera."»

Artigo de Jay Fox sobre "A Viagem do Elefante" - "The Elephant's Journey" (Stay Thirsty Magazine - 09/04/2016)


O artigo pode ser recuperado e consultado aqui,

Jay Fox (Brooklyn, NY, USA - 09/04/2016)

"The past is an immense area of stony ground that many people would like to drive across as if it were a road, while others move patiently from stone to stone, lifting each one because they need to know what lies beneath. Sometimes scorpions crawl out or centipedes, fat white caterpillars or ripe chrysalises, but it's not impossible that, at least once, an elephant might appear, and that elephant might carry on its shoulders a mahout named subhro, meaning white, an entirely inappropriate word to describe the man who, in sight of the king of portugal and his secretary of state, appeared in the enclosure in belém looking every bit as filthy as the elephant he was supposed to be taking care of."

José Saramago happened to be alive just long enough to discover this elephant, as well as his handler (or mahout), whose name happened to be Subhro. He was also alive just long enough to hear the story about how the elephant, whose name was Solomon, was given to the Archduke Maximilian as a wedding gift from King Joao III of Portugal in 1551.

Luckily for us, Saramago was so tickled by the tale that he decided to write a novel about the journey that the elephant and Subhro made from Belém, a parish in Lisbon, to Vienna, the home of the Archduke. The trek sees the elephant and his mahout cross the Iberian Peninsula, sail to Italy, and then scale the Alps with a few stops in some of the great cities of the Late Renaissance along the way. Published in Portuguese as A Viagem do Elefante in 2008, and translated into English by Margaret Jull Costa and published two years later as The Elephant's Journey, it was the second to last book that the Nobel winner finished prior to his death in 2010.

Those who casually gloss over the past probably would find the work of José Saramago to be a tedious exercise in the study of minutia made all the more annoying because of his style. Capitalization, quotation marks and other, seemingly necessary elements of punctuation are absent. The dialogue is sometimes more like the banter of a Marx Brothers film than the type of high-minded discourse one would expect from a book of serious literature. The pacing of the plot is frequently interrupted because the narrator wanders off on tangents and must, every so often, literally catch up to the procession of porters, soldiers and officers escorting the elephant through Portugal or Spain or Italy.

Saramago is a writer for those who would sacrifice twists and turns of plot for the type of flowing rhythm that would make Faulkner jealous. While it is not as groundbreaking as his 1991 novel, The Gospel According to Jesus Christ, as epic as Blindness, or as witty as what may arguably be my favorite of his works, Death With Interruptions, this novel is perhaps one of his better showings because it is so short. The Elephant's Journey is like a Russian imperial stout in that regard. It belongs in an eight-ounce snifter.

The novel also reveals some of the aspects that have made Saramago one of my favorite writers. He is knowledgeable without being pedantic; he is exceptionally clever and never takes great pains to set up elaborate jokes; and he knows how to set a pace. He is the type of humorist who doesn't need punch lines so much as he needs a few idiots talking in circles, as demonstrated by Subhro's run-in with a priest and his ecclesiastical team while in Padua. The priest asked if Subhro could get the elephant—now named Suleiman instead of Solomon because the Archduke had decreed it to be so—to perform a miracle by kneeling before the Basilica of Saint Anthony. "…Is there any hope of success, [some members of the ecclesiastical team] asked, Very much so, even though we are in the hands of an elephant, Elephants don't have hands, That was a manner of speaking, like saying, for example, that we're in the hands of god…"

And yet there's another humor hiding beneath these kinds of idiotic interactions. It's the same kind of smartass' smirk that you'll find in the pages of Pynchon, Borges and Balzac. Saramago's work reminds you not only to laugh at life every once in a while, but that it's usually the least stupid thing that you can do."

Link: Jay Fox at Stay Thirsty Publishing


sábado, 9 de abril de 2016

Revista Blimunda - Edição #1 - Carlos Fuentes em Lanzarote

Recuperação do artigo sobre Carlos Fuentes que José Saramago dedicou em duas entradas; em "Cadernos de Lanzarote Diário V" e "O Caderno"

Capa da edição #1

A leitura gratuita da edição pode ser recuperada, através do link, aqui

"Carlos Fuentes em Lanzarote
28 de agosto de 1997 
Carlos Fuentes, o grande escritor mexicano, a quem admiro desde que, há muitos anos já, li esse livro fascinante que é Aura, passou ontem por Lanzarote. Veio com sua mulher, a jornalista Silvia Lemus, estiveram algumas horas (duas delas ocupadas por uma entrevista que dei a Silvia), e juntos visitámos a Fundação César Manrique. Ficou claro, logo desde o primeiro momento, que estávamos a colocar a primeira pedra de uma amizade que se consolidará (estou certo disso) na viagem que Pilar e eu faremos, no próximo ano, ao México. Registo aqui o recolhimento com que Carlos Fuentes leu o poema de Rafael Alberti dedicado a César Manrique, aquele que está na Fundação: Vuelvo a encontrar mi azul... No fim, Fuentes disse: «Poetas como Alberti e Neruda convertem em poesia tudo o que tocam.» Foi um dia grande para Lanzarote.
José Saramago
in, Cadernos de Lanzarote, volume V "

José Saramago e Carlos Fuentes, na inauguração do 
“Centro de Estudios de Literatura Latinoamericana Julio Cortázar”, 
em Guadalajara, Jalisco (México) - 15 de Fevereiro de 2004
(Fotografia de Victor Satraffon /AFP/GETTY)

"Carlos Fuentes
Carlos Fuentes, criador da expressão “território de La Mancha”,uma fórmula feliz que passou a exprimir a diversidade e a complexidade das vivências existenciais e culturais que unem a Península Ibérica e a América do Sul, acaba de receber em Toledo o Prémio D. Quixote. O que se segue é a minha homenagem ao escritor, ao homem, ao amigo. O primeiro livro de Carlos Fuentes que li foi“Aura”. Embora não tenha voltado a ele, guardei até hoje (mais de quarenta anos passaram) a impressão de haver penetrado num mundo diferente de tudo o que conhecera até então, uma atmosfera composta de objectividade realista e de misteriosa magia, em que estes contrários, afinal mais aparentes que efectivos, se fundiam para criar no espírito do leitor uma envolvência em todos os aspectos singular. Não foram muitos os casos em que o encontro de um livro tenha deixado na minha memória uma tão intensa e perene lembrança. Não era um tempo em que as literaturas americanas (às do Sul me refiro) gozassem de um especial favor do público ilustrado. Fascinados desde gerações pelas lumières francesas, hoje empalidecidas, observávamos com certa displicência (a fingida displicência da ignorância que sofre por ter de reconhecer-se como tal) o que se ia fazendo para baixo do rio Grande e que, para agravar a situação, embora pudesse viajar com relativo à vontade a Espanha, mal se detinha em Portugal. Havia lacunas, livros que simplesmente não apareciam nas livrarias, e também a confrangedora falta de uma crítica competente que nos ajudasse a encontrar, no pouco que ia sendo posto ao nosso alcance, o muito de excelente que aquelas literaturas, lutando em muitos casos com dificuldades semelhantes, iam tenazmente elaborando. No fundo, talvez houvesse uma outra explicação: os livros viajavam pouco, mas nós ainda viajávamos menos. A minha primeira viagem ao México foi para participar, em Morelia, num congresso sobre a crónica. Não tive então tempo para visitar livrarias, mas já começara a frequentar com assiduidade a obra de Carlos Fuentes através, por exemplo, da leitura de livros fundamentais, como foram os casos de “La región más transparente” e “La muerte de Artemio Cruz”. Tornou-se-me claro que estava ali um escritor de altíssima categoria artística e de uma incomum riqueza conceptual. Mais tarde, um outro romance extraordinário, “Terra nostra”, rasgou-me novas perspectivas, e daí em diante, sem que seja necessário referir aqui outros títulos (salvo “El espejo enterrado”, livro de fundo, indispensável a um conhecimento sensível e consciente da América do Sul, como sempre preferi chamar-lhe), reconheci-me, definitivamente, como devoto admirador do autor de “Gringo Viego”. Conhecia já o escritor, faltava-me conhecer o homem. Agora, uma confissão. Não sou pessoa facilmente intimidável, muito pelo contrário, mas os meus primeiros contactos com Carlos Fuentes, em todo o caso sempre cordiais, como era lógico esperar de duas pessoas bem educadas, não foram fáceis, não por culpa dele, mas por uma espécie de resistência minha a aceitar com naturalidade o que em Carlos Fuentes era naturalíssimo, isto é, a sua forma de vestir. Todos sabemos que Fuentes veste bem, com elegância e bom gosto, a camisa sem uma ruga, as calças de vinco perfeito, mas, por ignotas razões, eu pensava que um escritor, especialmente se pertencia àquela parte do mundo, não deveria vestir assim. Engano meu. Afinal, Carlos Fuentes tornou compatível a maior exigência crítica, o maior rigor ético, que são os seus, com uma gravata bem escolhida. Não é pequena cousa, creiam-me.
José Saramago
in, O Caderno de Saramago - (14 de Outubro de 2008)"

"Los 90 años de Saramago: recuerdos de una visita a Lima" - "El Comercio" (Perú) - 15/11/2012

"Los 90 años de Saramago: recuerdos de una visita a Lima"

Artigo publicado no jornal "El Comércio", da cidade de Lima - Perú, em 15 de Novembro de 2012, para assinalar os 90 anos de nascimento de José Saramago.
Pode ser recuperado e consultado, aqui
em http://elcomercio.pe/blog/huellasdigitales/2012/11/los-90-anos-de-saramago-recuer

De Carlos Batalla
Fotos: Archivo Histórico El Comercio

"El viernes 16 de noviembre, José Saramago -cuyo nombre completo es José de Sousa Saramago- hubiese cumplido 90 años de edad. Fue un escritor de principios morales y éticos sólidos, pero también de una imaginación de vocación realista muy poderosa. Ese novelista portugués -poeta, dramaturgo y periodista-, nacido en Azinhaga, una villa en la ribera del río Almonda, al norte de Lisboa, en 1922, coronó una admirable trayectoria literaria con el merecido Premio Nobel de Literatura 1998. Estaba planeado que viniera a Lima a fines de octubre de ese año, pero no lo hizo sino hasta fines del 2000. Su visita fue una fiesta para los lectores peruanos."


"La Academia Sueca reconoció en él su capacidad para “volver comprensible una realidad huidiza, con parábolas sostenidas por la imaginación, la compasión y la ironía”

"Esas frases se quedaron grabadas en la memoria de todos los lectores de Saramago, porque sintetizaba la profunda mirada de sus inolvidables novelas como ‘Memorial del convento’ (1982), ‘La balsa de piedra’ (1986), ‘Historia del cerco de Lisboa’ (1989), ‘El Evangelio según Jesucristo’ (1991), ‘Casi un objeto’ (1994), ‘Viaje a Portugal’ (1995) o ‘Ensayo sobre la ceguera’ (1996)."

El anuncio de su llegada

La historia de Saramago con el Perú empezó a comienzos de 1998, cuando vocearon su visita a Lima. Ya era famoso antes del premio sueco. Sin embargo, el 8 de marzo de 1998 confirmaron que el autor de ‘Levantado del suelo’ (1980) no vendría al Perú.

El portugués enrumbó, más bien, a México, a Guadalajara, donde ese mes iba a dictar un curso sobre los escritores de su país: Padre Antonio Vieira, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiros y Fernando Pessoa. Mientras, en el Perú, esperábamos que algún día llegara.

Entonces esa ilusión renació cuando el Instituto de Estudios Europeos y el Centro Cultural de la Pontificia Universidad Católica del Perú (PUCP) anunciaron que Saramago venía a la Semana Cultural Europea, un encuentro organizado por la Unión Europea del 30 de octubre al 11 de noviembre de 1998. Había certeza, pues profesores de la PUCP como Miguel Giusti, justamente director del Instituto de Estudios Europeos, llegaron a conversar con él y confirmar su presencia.

El Perú estaba seguro de escuchar al gran escritor portugués, pero una noticia que remeció al mundo cambió la situación. Era el 8 de octubre de 1998 y las agencias de noticias anunciaron al nuevo Premio Nobel de Literatura de ese año. Sí, lo ganó José Saramago.

Sinopse da entrevista em cinco partes
"Esta es la entrevista que realizó el periodista Juan Cruz al escritor portugués José Saramago en el mes de junio de 2000, en su casa de Lanzarote. 
Cruz y Saramago hablan por espacio de una hora del "caballero Saramago"; una entrevista a la persona, no al autor. Su vida y su relación con Lanzarote, y su implicación en causas sociales.
El Premio Nobel de Literatura en 1998 recuerda su llegada por primera vez a Lanzarote y su íntima relación con la isla que más tarde se convertiría en su hogar. "Lanzarote... mi lugar". "La isla...volviendo a casa", destacaría el autor. 
La casa del escritor portugués es el espacio en el que se desvela la personalidad más íntima de Saramago, y donde el autor reflexiona sobre su visión del mundo desde su isla-hogar, Lanzarote."

Primeira parte

Segunda parte

Terceira parte

Quarta parte

Quinta e última parte da entrevista

"La alegría de sus lectores peruanos fue grande, ya que había la posibilidad real de ver de cerca al nuevo Nobel en esa Semana Cultural Europea, que empezaría en tres semanas.

La historia cuenta que esa mañana del 8 de octubre, Saramago recibió una llamada de su editor Ceferino Coello. “No embarques. Tienes el Nobel. Vamos a ir por ti”, le dijo por teléfono. El portugués estaba a punto de subir a un avión que iba a trasladarlo de Frankfurt a Madrid.

Tenía 76 años de edad. El Nobel lo universalizó, todos querían tenerlo cerca, ya no importaba su militancia comunista, ni sus declaraciones críticas al sistema, ni sus cuestionamientos a los depredadores del mundo. Saramago se inundó de compromisos y su palabra se extendió globalmente. “Si yo no digo a alguien que lo quiero, si incluso esa palabra perdí, más pronto o más tarde pierdo el sentimiento”, aseguraba.

Su posición crítica, reflejada en sus novelas, cuentos y ensayos, no dejaba de interrogarse sobre el futuro del hombre contemporáneo. Para él, aunque sonara contradictorio, tener más información implicaba saber menos. Todos en el Perú lo esperábamos para escuchar su palabra. Pero el destino nos jugó, otra vez, una mala pasada.

Los días de octubre seguían con alboroto mediático en torno al escritor luso. Entonces una duda razonable empezó a surgir: ¿Vendrá ahora Saramago?

Marisa Marques Barbosa, agregada cultural de la Embajada de Portugal, trataba infructuosamente de comunicarse con él, pero era imposible. El 14 de octubre, incluso, los medios escritos limeños informaban que Saramago participaría de todas maneras en la Semana Cultural Europea.

La pena de no verlo

La decepción, la pena, la frustración llegó el 23 de octubre. Saramago no llegaría a Lima. Una carta de disculpa del escritor daba las explicaciones de por qué no venía al evento cultural. La misiva estaba dirigida a Marisa Marques. Estaba fechada en Lanzarote, ciudad donde vivía, el 19 de octubre de 1998:

Lamento mucho esta situación. La necesidad de mantenerme a partir de ahora en contacto permanente con la Fundación Nobel no me permitirá viajar al Perú. Estoy perfectamente consciente del trastorno que este hecho causa en el programa de la Semana Europea, pero no me queda otra alternativa: tengo que cancelar mi participación. Desearía que el motivo de esta suspensión fuese benévolamente aceptado tanto por el señor embajador como por los organizadores del encuentro. De todas maneras seré más cumplidor si se presentara una nueva ocasión. Atentamente, José Saramago

Luego vendría su nueva novela, ‘Todos los nombres’, que editó en español Alfaguara. La historia mantenía ese carácter de fábula de muchas de sus novelas, sin perder el interés por la condición humana. El estilo Saramago se evidenciaba en su lenguaje barroco, llano a lo experimental, variedad de puntos de vista y un narrador polifónico."


"Hubo un paréntesis, silencio largo, que abarcó todo 1999 y gran parte del 2000. Recién el 27 de octubre del 2000, Saramago dio señales de vida para el público peruano: habló vía teleconferencia, organizada por el Banco Interamericano de Desarrollo (BID). En verdad, aquello fue solo un aperitivo, porque lo mejor iba a venir en diciembre de ese año. La idea era aprovechar la gira promocional de su novela ‘La caverna’, para tenerlo entre nosotros.

Saramago viajaría primero a Argentina y Uruguay, y después al Perú. Solo en estos países la novela podría leerse desde diciembre, porque en el resto del mundo de habla hispana la obra se publicaría recién en mayo del 2001.

Con 78 años de edad, Lima vio por fin al Nobel lusitano con su libro bajo el brazo. ‘La caverna’ nos remitía a Platón, pero también a la modernidad. Para Saramago: “Los que estaban en la caverna de Platón creían que no existía otra realidad más que las imágenes que se proyectaban en la pared. Creo que es lo que pasa hoy mismo. De alguna forma estamos encadenados, mirando lo que ya no es”.

La visita esperada

El viernes 15 de diciembre del 2000, a las 8 y 45 de la noche, Saramago llegó a la capital peruana, luego de visitar Montevideo y Buenos Aires. Dos días de descanso en el Cusco fueron suficientes para retomar con fuerza intelectual la cita con el público limeño. El auditorio ZUM de la Universidad de Lima sería el escenario.

Ese lunes 18, el narrador dio una conferencia de prensa al mediodía, como una antesala a lo que ocurriría en la noche. Allí el Nobel reflexionó sobre América Latina, la democracia y la literatura.


"El contexto político peruano en el que llegó Saramago era muy grave. Tras la fuga del expresidente Alberto Fujimori al Japón y su renuncia por fax, el demócrata Valentín Paniagua, en ese entonces presidente del Congreso de la República, asumió el mando del país, para darle a éste estabilidad política y social.

En ese ambiente de repudio por la corrupción del Gobierno saliente, Saramago dijo: “En una democracia no se vive con miedo. Y cuando hoy día se habla de democracia yo me pregunto si se sigue viviendo con miedo”.

Los periodistas lo teníamos en frente, en un piso del Centro Cultural de la PUCP. Algunos le preguntaron sobre la política y los escritores. “Un escritor puede exponer sus ideas políticas o no, pero al hacerlo solo realiza algo intrínseco a su vida. Antes de decir que todo escritor debería intervenir en política, yo diría que todo ciudadano debe hacerlo”, dijo.

La crisis política del Perú fue un acicate para escucharlo decir que “ni las derrotas ni las victorias son definitivas. El error consiste en situarse en las victorias pensando que no vendrán más derrotas. El pueblo debe permanecer entonces vigilante”.

En esa mañana con la prensa, el Nobel solo dio una exclusiva y fue al periodista y poeta Alonso Rabí do Carmo, quien publicaría la entrevista en la revista Somos de El Comercio, el sábado 23 de diciembre.

La noche del Nobel

Y llegó las 7 y 30 de la noche. Era un lunes mágico. No hubo límites de ingreso. Todo estaba repleto.

Luego de escuchar los comentarios sobre ‘La caverna’ del escritor Alonso Cueto y el filósofo Miguel Giusti, le tocó el turno al Nobel. Ya en Montevideo había dicho que “cuanto más viejo más libre, y cuanto más libre más radical”, tras explicar que ‘La caverna’ es “el mundo que estamos construyendo, un lugar donde las ventanas se están cerrando unas tras otras”.

Pero en Lima, explicó que las palabras bien dichas y en el momento preciso expresan con la razón el lenguaje del corazón. Usó una metáfora contundente: “La obligación de un obrero es mantener sus herramientas limpias, en condiciones para el trabajo”. Y se preguntó: “¿Hay herramienta más extraordinaria que el lenguaje?”."


"José Saramago sedujo al auditorio con su sinceridad brutal. “Este mundo de engaños sistemáticos no me da muchos motivos para pensar bien, vivimos en la caverna. Todo queda bajo sospecha porque no existe una única verdad”.

El aplauso fue general y prolongado… Diez años después, el 18 de junio de 2010, esa voz se apagó para siempre. Sus novelas, ensayos y cuentos estarán para recordarnos que nunca debemos renunciar a la libertad y la belleza.

(Carlos Batalla)
Fotos: Archivo Histórico El Comercio"



Do arquivo da Fundação José Saramago (1981)


Extracto de entrevista de César Alonos de los Ríos a José Saramago - ABC (Suplemento El Semanal) - 30 de Junho de 1996

"Sem perceber, de então até hoje, a tribo literária ainda não se refez da comoção. Se eu houvesse ficado ali, com Levantado do chão ou mesmo com o Memorial do convento… Mas é que depois vêm O ano da morte de Ricardo Reis e depois A jangada de pedra, e O cerco de Lisboa, e O Evangelho segundo Jesus Cristo, e agora, finalmente, o Ensaio sobre a cegueira. E o que faz que isso seja insuportável é que sou um senhor de idade e que tudo isso se produz em pouco mais de dez anos…
Esta é a pura verdade das minhas relações com Lisboa, embora não me seja fácil dizê-la.
Aqui está a origem do mal-estar e, para ser sincero, devo dizer que estou cercado de inveja e de rancores."

Extracto de entrevista de César Alonos de los Ríos a José Saramago
ABC (Suplemento El Semanal), Madrid - 30 de Junho de 1996



"Nos acercamos a la Casa Museo de José Saramago en Tías, Lanzarote" - Cadane Ser / "Hablar por Hablar" de Macarena Berlín

"Nos acercamos a la Casa Museo de José Saramago en Tías, Lanzarote"

"Tomamos un café con Pilar del Río y paseamos por las distintas estancias de la vivienda que habitó el Premio Nobel de Literatura 18 años de su vida. Y donde escribió algunas obras tan conocidas como "Ensayos sobre la Ceguera" o "Cuadernos de Lanzarote"

Aqui a entrevista

Cadena Ser
Programa "Hablar por Hablar" de Macarena Berlín

(Pilar del Río e Macarena Berlín)

"La vivienda donde el Sr. Saramago pasó los últimos 18 años de su vida, está levantada en una suave ladera sobre territorio volcánico. Se despeina por los vientos elisios y se asoma a playas de arena tostada. Fue construida para cubrir las necesidades de dos familias: la Saramago-Del Río y la Pérez-Fígares-Del Río.

Ya en la puerta, me encuentro un poco incómoda llamando al timbre. No he podido avisar de mi visita con la antelación que hubiese deseado y temo estropearle el sábado a Pilar. Una sensación que se me pasa pronto. Ella misma me abre la puerta, me da un gran abrazo, me mira a los ojos y dice: "Esta es la Berlín que me faltaba".

Pilar Del Río, periodista, compañera del escritor y presidenta de la fundación que lleva su nombre, mantiene vivo el legado del maestro. Su voz, más necesaria que nunca, sale de esta casa, hacia todos los oídos del planeta. Estos días se busca nombre para el Teatro Insular de Lanzarote, y José Saramago se perfila entre los favoritos."



quarta-feira, 6 de abril de 2016

"Da impossibilidade deste Retrato" para a exposição da Fundação Calouste Gulbenkian "Um Rosto para Fernando Pessoa" (Julho de 1985)

O presente texto serviu de apresentação do catálogo da exposição da Fundação Calouste Gulbenkian "Um Rosto para Fernando Pessoa" (Julho de 1985). Foi recuperado e incluído como entrada do dia 22 de Abril de 1996, em "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (Caminho, páginas 119 a 122)

Pode ser consultado online, aqui
http://caderno.josesaramago.org/36890.html (1.ª parte)
http://caderno.josesaramago.org/37120.html (2.ª parte)

"Pepe Dámaso, o excelente pintor canário a quem já uma vez me referi nestas páginas (v. Cadernos - III, 8 de Agosto), está a ultimar os trabalhos que levará em Julho a Lisboa e que serão apresentados na casa Fernando Pessoa. O objecto da exposição, já se calcula, é o dito Pessoa, que não pára de inquietar os pintores. Dámaso veio hoje de Las Palmas pedir-me umas palavras para o catálogo, trazendo como custódio o cônsul de Portugal, Manuel Pereira da Silva. O meu gosto seria simplesmente dar-lhe o que escrevi, vai fazer onze anos, a convite de José Sommer Ribeiro, para a exposição Um Rosto para Fernando Pessoa, na Fundação Caloute Gulbenkian. Não poderá ser, terei de inventar algo novo, mas é pena, porque estou certo de que nunca serei capaz de fazer melhor sobre o tema. A tal ponto que não resisto a passar aqui o que escrevi naqueles já tão distante dias, som o título Da Impossibilidade Deste Retrato:

António Dacosta "Sonho de F.P. Debaixo de uma Latada numa Tarde de Verão" (1982-1983)
Pintura inserida na exposição, a que José Saramago se refere neste texto de apresentação do catálogo da Fundação Calouste Gulbenkian "Um Rosto para Fernando Pessoa" (Julho de 1985)

"Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma das fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade? O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual?

De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade, e, tendo em conta a ocorrente multiplicação das suas imagens, provocada por apetites sobreexcitados de representação e facilitadas por um domínio generalizado das técnicas, o homem dos heterónimos, já voluntariamente confundido nas criaturas que produziu, entrará no negro absoluto em muito menos tempo que o outro de uma cara só, mas de vozes também não poucas. Acaso será esse, quem sabe, o perfeito destino dos poetas, perderem a substância de um contorno, de um olhar gasto, de um vinco na pele, e dissolverem-se no espaço, no tempo, sumidos entre as linhas do que conseguiram escrever, se do rosto sem feições nem limites ainda alguma coisa vem intrometer-se, está garantido o dia em que mesmo esse pouco será definitivamente lançado fora. O poeta não será mais que memória fundida nas memórias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declará-lo fosse primeira invenção sua. Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia.

Entretanto, o pintor vai pintando o retrato de Fernando Pessoa. Está no princípio, não se sabe ainda que rosto escolheu, o que se pode ver é uma levíssima pincelada de verde, se calhar vai sair daqui um cão dessa cor para pôr em conjunção com um jockey amarelo e um cavalo azul, salvo se o verde for apenas o resultado físico e químico de estar o jockey em cima do cavalo, como é sua profissão e gosto. Mas a grande dúvida do pintor não tem que ver com as cores que há-de empregar, essa dificuldade resolveram-na os impressionistas de uma vez para sempre, só os homens antigos, os de antes, não sabiam que em cada cor as cores estão todas: a grande dúvida do pintor é se há-de ter uma atitude reverente ou irreverente, se pintará esta virgem como S. Lucas pintou a outra, de joelhos, ou se tratará este homem como um triste coitado que realmente foi ridículo a todas as criadas de hotel e escreveu cartas de amor ridículas, e se, assim autorizado pelo próprio, poderá rir-se dele pintando-o. A pincelada verde, por enquanto, é somente a perna do jockey amarelo posta do lado de cá do cavalo azul. Enquanto o maestro não sacudir a batuta, a música não romperá lânguida e triste, nem o homem da loja começará a sorrir entre as memórias da infância do pintor. Há uma espécie de ambiguidade inocente nesta perna verde, capaz de se transformar em verde cão. O pintor deixa-se conduzir pela associação de ideias, para ele, perna e cão tornaram-se em meros heterónimos de verde: coisas bem mais inacreditáveis do que esta têm sido possíveis, não há que admirar. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do pintor enquanto pinta. 

O retrato está feito, vai juntar-se às dez mil representações que o precederam. É uma genuflexão devota, é uma risada de troça, tanto faz, cada uma destas cores, cada um destes traços, sobrepondo-se uns aos outros, aproximam o momento da invisibilidade, aquele negro absoluto que não reflectirá nenhuma luz, sequer a luz fulgurante do sol, que faria então à breve cintilação de um olhar, em frente a apagar-se tão cedo. Entre a reverência e a irreverência, num ponto indeterminável, estará, talvez, o homem que Fernando Pessoa foi. Talvez, porque também isso não é certo. Albert Camus não pensou duas vezes quando escreveu: “Se alguém quiser que o reconheçam, basta que diga quem é”. No geral dos casos, o mais longe a que chega quem a tal aventura ouse propor-se é dizer que nome lhe puseram no registo civil.

Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e Reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta, mas pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, com que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, ou direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê? O braço levanta-se, enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou azul, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.

Mas os pintores vão continuar pintando."

terça-feira, 5 de abril de 2016

Conferência "La littérature de Saramago vue par le cinéma" - Fundação Calouste Gulbenkian (Delegação francesa)

"La littérature de Saramago vue par le cinéma"

"6 avril 2016 de 18h30 à 20h - Festafilm 

Organisé par AGRAFR - Association des diplômés portugais en France
Par Sílvia Amorim (maître de conférence, université de Bordeaux) 
et Raquel Schefer (réalisatrice et chercheuse) 
Modération : Dominique Stoenesco"

Mais informação, aqui

Agradecimento especial a Isabel de Barros e à Delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian aqui em http://www.gulbenkian-paris.org/accueil e https://twitter.com/GulbenkianParis