José Saramago.
Uma visão apaixonada, sobre o homem que da Estátua descobriu a Pedra.
Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"
(...) «Uma ideia minha, que expresso de maneira nada científica, é que o tempo não é uma sucessão diacrónica, em que um acontecimento vem atrás do outro. O que acontece projecta-se numa imensa tela e tudo fica ao lado de tudo. Como se o homem de Cro-magnon estive colocado nessa tela ao lago do David de Miguel Ângelo. Para o autor não há passado nem futuro. O que vai ser já está a acontecer. Para este autor, ao escrever os livros, as coisas passam-se assim..»
Na visão de Fernando Gómez Aguillera, faz aqui um paralelo com Benedetto Croce.
«Com efeito para Saramago, tal como para Benedetto Crocce, «Toda a história é História contemporânea» e, partindo dessa orientação, alojou o romance na memória do passado: com o empenho de desentranhar a sua circunstância concreta.» (...)
"Benedetto Croce (Pescasseroli, 25 de fevereiro de 1866 - Nápoles, 20 de novembro de 1952) foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano. Os seus escritos giram em torno de um largo espectro temático, sobretudo estética e teoria/filosofia da história. É considerado uma das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX."
«Estamos no fim de uma civilização e num processo de passagem de um tempo com raízes na Revolução Francesa, no Iluminismo, na Enciclopédia, que tende a desaparecer.
Não sei o que virá.
Como será a humanidade daqui a 50 anos?»
(citação, recolhida de "A Estátua e a Pedra", Fundação José Saramago, página 48)
Adelino Gomes entrevista José Saramago 11 de Novembro de 2005
"Não sabemos se dentro de 50 anos Portugal ainda existe"
"Saramago acha que As Intermitências da Morte é a sua melhor obra depois do Nobel. Bárbara Guimarães, a mulher e tradutora, Pilar, e a actriz brasileira Torloni estarão entre os leitores, ao vivo, de trechos do livro, no lançamento simultâneo de oito edições, logo à tarde, em Lisboa. A anteceder uma entrevista amanhã, no Mil Folhas, o escritor fala ao PÚBLICO sobre a sua escrita, antes e depois de 1998, das multidões que o aclamam mundo fora, e da relação com Portugal, país que considera viver neste momento em "estado de cinzas".
A palavra e a música marcam o lançamento de As Intermitências da Morte, de José Saramago, ao fim da tarde de hoje, em Lisboa. Por entre frases do autor e música de Bach, essencial na trama do romance, editores, tradutores e amigos celebrarão o lançamento simultâneo das edições portuguesa, espanhola, mexicana, argentina, colombiana, catalã, brasileira e italiana do último livro do Prémio Nobel da Literatura de 1998, numa cerimónia programada para as 18h30, no Teatro de S. Carlos. José Saramago será o orador único da sessão, em que, se cumprir a regra que ele mesmo enuncia nesta entrevista ao PÚBLICO, reservará "10 minutos para a obra e mais 50, ou uma hora para falar de outras coisas".
Bárbara Guimarães, a mulher e tradutora, Pilar del Rio - apresentadoras da sessão, em português e espanhol -, e a actriz brasileira Christiane Torloni figuram entre os leitores, ao vivo, de trechos do livro ("Com o seu vestido novo comprado ontem numa loja do centro, a morte assiste ao concerto", lerá Bárbara, iniciando uma sequência que continua noutras línguas, interpretada por cada um dos editores, e termina no português brasileiro de Torloni: "Quando o violoncelista se virou para o camarote, ela, a mulher, já não estava. Assim é a vida, murmurou.").
A violoncelista Irene Lima tocará o prelúdio da suite n.º 6 em ré maior BWV 1012, de Johann Sebastian Bach. O trecho musical escolhido desempenha um papel decisivo na obra, que se desenvolve a partir da ideia de que um dia a população de um determinado país com dez milhões de habitantes e um regime de monarquia constitucional se apercebe de que deixou de morrer.
A trama do romance desemboca numa surpreendente relação entre a morte - que assume a figura de uma mulher atraente - e o violoncelista de uma orquestra, cujo falecimento tem vindo a ser sucessivamente adiado porque a carta com a data da sua morte é, misteriosa e sistematicamente, devolvida ao remetente: a própria morte.
(Matt Haimovitz performs the Prelude of J.S.Bach's Suite for Solo Cello no. 6 in D major)
A 1.ª edição do livro, já à venda, tem uma tiragem de cem mil exemplares (número semelhante ao do seu romance anterior, Ensaio sobre a Lucidez, que vai em segunda edição, de vinte mil exemplares).
Nesta primeira parte da entrevista (a segunda preencherá parte da edição de amanhã do suplemento Mil Folhas), Saramago rejeita a ideia de estar a ser vítima do "mal do Nobel"; defende que tem um público muito próprio, em todo o mundo, ainda que admita que também ele não consegue ser completamente profeta na sua terra; e mostra-se preocupado com a capacidade de sobrevivência de Portugal enquanto país independente. "Num tempo de desconcerto, de mudança de valores rapidíssima, perdemos o pé, não sabemos para onde vamos", lamenta, citando a "apagada e vil tristeza" camoniana.
PÚBLICO - Na sua lista pessoal em que lugar coloca este seu último livro?
JOSÉ SARAMAGO - Não sei. Acho simplesmente que é um bom livro...
Tem-lhe sido mais fácil ou mais difícil escrever livros depois do Nobel? Isto é: sente o peso do prémio ou sente-se agora livre para fazer o que lhe apetece?
Continuo a sentir o medo da exigência. Os livros que escrevi depois penso que reflectem que o autor está tão preocupado com a qualidade daquilo agora como estaria antes. Não sinto o peso do Nobel. Escrevo como se não o tivesse tido. Escrevo como se não tivesse que provar que o mereci. Escrevo como escreveria provavelmente se o não tivesse tido.
Os livros vendem agora pelo que valem ou, digamos, por um preço que o autor tem no mercado livreiro depois do Nobel?
Para alguns leitores, sim, o Nobel terá alguma influência. Mas tenho muitos leitores que têm a preocupação de me dizer: "Olhe que eu já o leio desde antes do Nobel!..."
E não sente a chamada "maldição do Nobel"? O Homem Duplicado, por exemplo, não foi o êxito que esperaria. Depois do Nobel, acha que escreveu alguma obra-prima ao nível dos grandes livros que fizeram o seu nome?
Não me cabe a mim classificar os meus livros de obras-primas. Mas vamos lá ver: O Homem Duplicado - diga-se, com mais ou menos boa recepção do público - é um romance importante. Tanto do ponto de vista da expressão como do que propõe. A Caverna é talvez um livro demasiado longo, podia ter tido menos 50 páginas, ficava mais condensado. Mas põe, embora talvez não da maneira mais eficaz, uma questão que é de hoje (porque eu escrevo fábulas mas estou a falar do dia de hoje): a obsessão da segurança e do que é provável que aconteça no futuro - os centros comerciais deixarem de ser um mero conjunto de estabelecimentos para vender coisas e que se convertam em microcosmos onde se pode viver. É provável que isso venha a acontecer. Considero que o Ensaio sobre a Lucidez é uma obra importantíssima ...
... pelo menos polémica foi...
.... e que talvez As Intermitências da Morte sejam o melhor desses quatro romances.
É verdade que alguns tradutores estão a ter dificuldades em traduzir a palavra "intermitências"?
Na Alemanha, por exemplo, dizem eles que não há maneira de dizer "as intermitências da morte". Se eu lhes digo, por exemplo, que os automóveis têm uma luz intermitente, eles respondem-me que "luz intermitente" podem traduzir, não podem é dizer em alemão "as intermitências da morte". Ao que eu respondo: "Oh que língua maravilhosa temos nós, que é capaz de dizer coisas que as outras línguas não são capazes!..."
Multidões lá fora, frieza oficial aqui
Nos intervalos dos livros [desde o Ensaio sobre a Lucidez, há um ano e meio, publicou Don Giovanni ou o Dissoluto e agora este], anda pelo mundo. Num corrupio.
Antes tinha estado no Canadá, onde me fizeram doutor honoris causa pela Universidade de Alberta...
Pela trigésima vez, não?...
São 33 ou 34 doutoramentos. Fomos a Cuba, Costa Rica, El Salvador, Estocolmo, para outro doutoramento...
O que o faz mover? Evidentemente que são os convites. Mas o que o leva a aceitá-los? O gosto da viagem, o prazer dos aplausos, ou uma mensagem que tem para transmitir?
Só aceito alguns convites. Se os aceitasse todos não escrevia nem uma palavra. Aplausos? Toda a gente gosta de carinhos e de mimos. Em Belo Horizonte, onde estive agora a apresentar este livro, havia 1700 pessoas. O que significava o auditório completamente cheio. Em S. Paulo eram mil, sem contar as pessoas que ficaram fora. Viajo porque há congressos em que me interessa estar; para apresentar livros (de dois em dois anos); e por muitas razões que não têm nada a ver com literatura.
Como por exemplo?
Empenhamentos sociais; políticos, nalgum caso. Quando apresento um livro, digo sempre: contem com 10 minutos para o livro e com mais 50, ou uma hora para falar de outras coisas.
Falou nesses milhares de pessoas que o procuram para o ouvir, por exemplo na América Latina.
Também aqui ao lado em Espanha. Mas em Portugal não é assim. Por não ser profeta na própria terra?
Aqui, se eu apresento um livro em qualquer parte, a sala estará cheia.
Não das multidões que acorrem nos outros países.
Não são realmente multidões. Talvez porque não há esse hábito.
Não se sente menos amado na sua terra?
Não, que ideia! As Intermitências da Morte saem com uma tiragem de cem mil exemplares. E haverá uma segunda e uma terceira edições, estou seguro disso. Não me sinto menos amado. As pessoas param-me na rua. O que há é um sector oficial que realmente não tem muita simpatia por mim. E tem-no manifestado, ainda que agora já não tanto.
Quais as diferenças que encontra nesses públicos que o vão ouvir? Ou há um público global?
Creio que há um público meu.
O público "Saramago"?
O Homem Duplicado foi apresentado em Buenos Aires, no Teatro Colón, que tem 4100 lugares. Estava cheio até ao galinheiro. E cá fora dizia-se que mil pessoas não tinham podido entrar. Isto surpreende-me, porque, como às vezes digo, eu só falo, não danço. O que me impressiona mais é a juventude - a parte da juventude que está nesse meu público.
O que diz a essas pessoas, na Argentina, é o mesmo que diz aqui em Portugal ou nos países nórdicos?
Na maior parte.
E a recepção é a mesma?
É.
O jornal El Pais traz frequentes notícias sobre intervenções suas perante plateias de intelectuais, de académicos, de políticos, em que se regista um grande assentimento em relação ao que diz. Em Portugal isso não acontece.
Não tem o mesmo impacto, efectivamente. Ninguém é profeta na sua terra, mas também eu não quero ser isso. Provavelmente terá a ver com o público. E também com o acolhimento dos meios de comunicação.
Aí estamos na pescadinha de rabo na boca; ou a procurar ver se foi o ovo se a galinha quem nasceu primeiro, sem a gente saber quem é o ovo e quem é a galinha...
Mas aquilo que eu vejo em alguns países é que actos destes são notícia. E aqui não é.
Tendo em conta esses públicos que o vão ouvir, qual é o estado do mundo? O que é preocupa as pessoas, hoje?
As preocupações que eu expresso, julgo que no fundo são as preocupações que as pessoas têm. Vão lá ouvir em voz alta as suas próprias preocupações, talvez. Como umas tantas coisas que eu digo parecem razoáveis, elas deveriam levar a um determinado tipo de acção. Mas também tenho que entender que ninguém está disposto, depois de eu ter dito umas tantas coisas....
... a partir de ali para a acção...
Isso aconteceu alguma vez na história, mas não é o caso.
Portugal em tom menor
As pessoas dizem que Portugal nunca esteve tão mal como hoje. É um momento de descrença generalizada. É esse também o seu sentimento?
[Longa pausa] O Guerra Junqueiro escreveu aquele livro - Finis Patriae. A sensação que eu tenho é a de um processo de decadência com alguns sobressaltos. A proclamação da República foi um deles; o 25 de Abril foi outro. Ele parece que mostra a nossa incapacidade de manter alta a nossa tenção de viver. Fogos de palha, súbitas erupções de entusiasmo (aquilo a que chamamos entusiasmo) popular - tudo isto se converte, com mais ou menos rapidez, em cinzas. E aqui estamos num tempo de cinzas. Não vejo que haja um debate de ideias. Digamos que a política é discutida em termos de mera cozinha gastronómica. Faltam figuras, faltam pessoas. Em algumas épocas, podíamos citar nomes de grandes figuras nacionais. Hoje é muito difícil. Também não quero cair na tentação de necessidade dos líderes, dos homens exemplares. Não é isso. Quando se publicou O Ano da Morte de Ricardo Reis [1984], eu disse que era uma tentativa para compreender a doença portuguesa. Citando uma vez mais o épico, não são gratuitas aquelas palavras da "apagada e civil tristeza". Continua a haver algo disso na nossa mentalidade. Num tempo de desconcerto, de mudança de valores rapidíssima, perdemos o pé, não sabemos para onde vamos. Não temos a certeza se daqui por 50 anos este país existe.
E nisso somos diferentes dos espanhóis, que vivem em grande euforia, até económica.
Certo. É um país que, com todos os conflitos e que são sérios, como a questão das autonomias e das aspirações mais ou menos independentistas, está vivo, mexe-se. Aqui não. É tudo em tom menor. Não sei o que aconteceria se tivéssemos problemas semelhantes aos de lá. Não sei se teríamos arcaboiço para confrontarmos seriamente questões como essas.
Esta obra apresenta-se de uma complexidade filosófica reflexiva assaz assustadora e perplexa. Saramago, refere em "A Estátua e a Pedra", a propósito de "O Homem Duplicado", que continua a discussão sobre o papel do "outro", do "eu e o outro". Esse é o propósito e o fio condutor delineado e seguido.
Porém, com a maturação das diversas leituras e incursões que fiz nesta obra, permito-me discorrer o seguinte, se bem que, com ou sem autoridade, suponho que com menos, mas senti este fervor de forma muito particular.
Para além do que o punho de Saramago discorreu e produziu, pergunto se poderei ter a possibilidade de fazer duas leituras diferentes?
Se a mesma obra, pode ser lida, do ponto de vista do professor ou sob o prisma do actor?
E, neste caso, ao mesmo tempo, a causa e a consequência que isto produz ou afecta o "outro observado" (dependendo da perspectiva, via Tertuliano ou via António Claro), que possa levar a uma justificação de um desenlace final diferente.
Tertuliano Máximo Afonso, tem conhecimento da existência de um "seu outro", ou sua cópia. Com uma ânsia e incerteza de decisões, vai à procura de uma resposta para o fenómeno, mas não questiona sobre as repercussões que isto terá, ao dar-se a conhecer no seio da outra família. Quais as repercussões da sua acção, versus, a incerteza de não ter uma resposta que lhe satisfaça a curiosidade, e que assim lhe possa diminuir a identidade.
Em contraponto, e na visão de António Claro e da sua mulher, tiveram a possibilidade de não procurar mais, de não buscar a resolução deste episódio, quando questionaram - "o que será de nós quando descobrirmos o que tivermos de descobrir?" Aqui, e ao perseguirem, cada um, per si, tentaram satisfazer a sua curiosidade (particular em conflito com a geral), contrariando o primado da confiança, que o casal deveria ter como pilar principal da relação.
Tudo se desmorona.
Tudo se revoluciona.
Tudo se precipita.
Alguém desencadeou, alguém continuou.
Ao entrarmos neste drama, como se de uma porta se tratasse e ao observámos todo o cenário (aqui imagino cada um dos leitores como se fosse uma nuvem pairando sobre o holofotes da acção), não é possível deixar de vestir uma, ou, a pele do outro. Ou seja, ao invés dos habituais consensos, em que existe um elemento diferenciador entre a causa e o efeito, que produzirá um bom ou um mau personagem; segundo o gosto, simpatia, ou intuição baseada nos próprios princípios do bem e do mal; aqui, dizia, é possível viver a razão de Tertuliano, ou a razão de António Claro.
Em "O Homem Duplicado", sinto os acontecimentos afunilarem-se em duas direcções, visões possíveis ou planos. Como é possível, adjectivar o afunilamento que formula a razão de um sentido, ao inferir-se a possibilidade de duas vias?
A história pode ser contada, lida e vivida sob o prisma e razão de Tertuliano Máximo Afonso - este confrontado com uma realidade inesperada e que lhe irá testar a capacidade ou poder de decisão para a buscar/explicar. A outra perspectiva, a que circunscreve a vida de um casal estável, onde a bomba despoletada por Tertuliano Máximo Afonso, fará apresentar António Claro como cópia, numa visão possivelmente redutora, ladeado por uma mulher insegura (com a relação original versus cópia).
Eis, que quem chegou à descoberta em segundo lugar, é rotulado de cópia ou se coloca nessa posição. A visão é aterradora, o meu "eu" não é original, criado do ventre de uma mãe... serei um produto fabricado em série?
António Claro e a esposa são confrontados, e ao principio interpretam como uma suposta brincadeira, vêm-se decididamente a caminhar para a imersão num conflito de verdades e mentiras, despoletado por um telefonema. Este telefonema, e o seguinte irão mudar para sempre a vida destes dois personagens. Poderiam ter parado. Poderiam ter ignorado. Poderiam racionalmente ter tomado a decisão de não caminhar em direcção ao um caminho desconhecido. Mas não. A consciência do "eu social", de quem sou, ou do poder que posso exercer sobre o "outro" com quem interajo, abriu as portas do caos e da necessidade irracional de buscar a verdade.
António Claro não consegue fugir à curiosidade, e depois, à tortura de ter um, não semelhante, mas um igual a si até ao ínfimo detalhe. O "outro" que se lhe apresentou, que se intrometeu na pacatez da sua vida, que destruiu o seu lar, deverá ser apagado da face da terra. Primeiro que existe um "outro", o que não se entende à luz da lei da vida, depois, por vingança, por ter ousado intrometer-se num castelo que não era o seu.
Assim, li eu, sob a visão interrogativa de Tertuliano Máximo Afonso.
Assim, também li, sob a visão reactiva de António Claro.
Para finalizar, deixo a transcrição do último capítulo da obra, justificando a forma como comecei: "Esta obra apresenta-se de uma complexidade filosófica reflexiva assaz assustadora e perplexa."
Seria Tertuliano Máximo Afonso, o original?
(Tertuliano Máximo Afonso, professor de história, vive o drama... Quem é ele? E "eu"?)
(António Claro, actor de cinema, vive o drama de conhecer o seu outro "eu" - Como é possível?)
"O enterro de António Claro foi daí a três dias. Helena e a mãe de Tertuliano
Máximo Afonso tinham ido representar os seus papéis, uma a prantear um filho que
não era seu, outra a fingir que o morto lhe era desconhecido. Ele havia ficado em
casa, a ler o livro sobre as antigas civilizações mesopotâmicas, capítulo dos arameus.
O telefone tocou. Sem pensar que poderia ser algum dos seus novos pais ou irmãos,
Tertuliano Máximo Afonso levantou o auscultador e disse, Estou. Do outro lado uma
voz igual à sua exclamou, Até que enfim. Tertuliano Máximo Afonso estremeceu,
nesta mesma cadeira deveria ter estado sentado António Claro na noite em que lhe
telefonou. Agora a conversação vai repetir-se, o tempo arrependeu-se e voltou para
trás. É o senhor Daniel Santa-Clara, perguntou a voz, Sim, sou eu, Andava há
semanas à sua procura, mas finalmente encontrei-o, Que deseja, Gostaria de me
encontrar pessoalmente consigo, Para quê, Deve ter reparado que as nossas vozes
são iguais, Parece-me notar uma certa semelhança, Semelhança, não, igualdade,
Como queira, Não é só nas vozes que somos parecidos, Não entendo, Qualquer
pessoa que nos visse juntos seria capaz de jurar que somos gémeos, Gémeos, Mais
que gémeos, iguais, Iguais, como, Iguais, simplesmente iguais, Acabemos com esta
conversa, tenho que fazer, Quer dizer que não acredita em mim, Não acredito em
impossíveis, Tem dois sinais no antebraço direito, um ao lado do outro, Tenho, Eu
também, Isso não prova nada, Tem uma cicatriz debaixo da rótula esquerda, Sim, Eu
também. Tertuliano Máximo Afonso respirou fundo, depois perguntou, Onde está,
Numa cabina telefónica não muito longe da sua casa, E onde posso encontrá-lo, Terá
de ser num sítio isolado, sem testemunhas, Evidentemente, não somos quaisquer
fenómenos de feira. A voz do outro lado sugeriu um parque na periferia da cidade e
Tertuliano Máximo Afonso disse que estava de acordo, Mas os carros não podem
entrar, observou, Melhor assim, disse a voz, É essa também a minha opinião, Há
uma parte de bosque depois do terceiro lago, espero-o aí, Talvez eu chegue primeiro,
Quando, Agora mesmo, dentro de uma hora, Muito bem, Muito bem, repetiu
Tertuliano Máximo Afonso pousando o telefone. Puxou uma folha de papel e
escreveu sem assinar, Voltarei. Depois foi ao quarto, abriu a gaveta onde estava a
pistola. Introduziu o carregador na coronha e transferiu um cartucho para a câmara.
Mudou de roupa, camisa lavada, gravata, calças, casaco, os sapatos melhores."
Último capítulo, assim termina recomeçando... quiça por mais vezes
(...) "O Homem Duplicado", uma história de dois homens em tudo idênticos que apresenta, uma vez mais, um tema recorrente no meu trabalho: o outro. Com a diferença de que o outro é, no aspecto físico, um mesmo, que o todo de um se repete no outro, como se estivessem diante de um espelho diferente dos espelhos que utilizamos. Aqui, o meu lado direito não é o lado esquerdo do espelho. Acreditamos estar a viver uma alucinação, a pior de todas, porque a pessoa que temos à nossa frente, sendo outro, e também a que nós mesmo somos." (...)
em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 41
(O Homem Duplicado - Trailer oficial)
Na Bibliografia activa, na página da Fundação José Saramago, uma breve menção à obra.
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim». Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do corpo»Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
"Chegamos sempre aonde nos esperam" - em O Livro dos Itinerários
Desta vez, esperámos por João Amaral, ilustrador de BD.
E ele, nos oferece a publicação da história baseada no livro de José Saramago, "A Viagem do Elefante", desta feita em banda desenhada.
Pela primeira impressão, as pranchas são lindíssimas, as cores estão exuberantes, e não nos será difícil entrar dentro dos "quadradinhos" e acompanhar o narrador.
A surpresa, apresenta-se no enquadramento de uma paisagem vulcânica, por si só, demonstra o quanto João Amaral foi além da viagem de Salomão e do seu Cornaca, Subhro de seu nome, a mando da corte de EL-Rei de Portugal, Dom João, o Terceiro.
O livro, poderá ser lido ou oferecido a jovens. O livro, deverá obrigatoriamente lido por adultos que ainda sejam meninos ou meninas.
Uma coisa não pode ser, sendo.
Este livro não sendo mais que o original que o inspira, também não o é menos.
"Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse sempre a ponta visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, de uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida." (...)
"Adelino Clemente Gomes (Marrazes, 10 de Agosto de 1944) é um jornalista português.
Estudou Filosofia e Direito na Universidade de Lisboa, mas deixou os estudos para se dedicar ao jornalismo. Na rádio foi locutor da Rádio Clube Português, da Rádio Renascença e da Deutsche Welle, director de informação e realizador de programas na Radiodifusão Portuguesa. Na televisão foi repórter da RTP em 1975, tendo acompanhado acontecimentos como o 11 de Março de 1975, o início da guerra civil em Angola e a guerra civil em Timor. Retomou esse dossier, no Público, jornal que ajudou a fundar, em 1989, e do qual foi director-adjunto e redactor-principal. É co-autor do disco O dia 25 de Abril (duplo álbum com a reportagem sobre a revolução) e dos livros Portugal 2020 (1998), O 25 de Abril de 1974 — 76 fotografias e um retrato (1999), Carlos Gil - um fotógrafo na revolução (2004), As flores nascem na prisão, Timor-Leste - ano 1 (2004) e co-autor de Os dias loucos do PREC (2006). Desempenhou o cargo de Provedor do Ouvinte da RDP (2008-2010) sucedendo a José Nuno Martins.
Leccionou na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa (1975-1981), na Escola Superior de Jornalismo do Porto (1986) e na Universidade Autónoma de Lisboa (1992-2002), foi formador no CENJOR - Centro de Formação Protocolar para Jornalistas e coordenou o Curso de Formação de Jornalistas e Animadores de Emissão da TSF."
(Adelino Gomes em entrevista com o Capitão Salgueiro Maia)
Entrevista publicada no jornal Público - Suplemento MilFolhas, em 12/11/2006
"Como portugueses estamos cansados de viver. Se calhar, a nossa missão histórica acabou"
"Na cozinha da residência à Praça de Londres, em Lisboa, onde acabou de nos oferecer café e bolos, Pilar apresenta-nos Rosa, uma familiar de Catarina Eufémia, a trabalhar com ela desde que se conheceram, no final dos anos 80, no Instituto Espanhol, em Lisboa, onde os filhos de ambas estudaram. Pilar - aquela de quem José Saramago dirá, na apaixonada dedicatória de As Pequenas Memórias (ed. Caminho), sobre a infância e juventude vivida na Azinhaga e em Lisboa, "que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar" - vive intensamente os preparativos do lançamento do livro, na próxima quinta-feira, na aldeia natal do escritor.
Saíram de casa, na ilha de Lanzarote (Espanha), em 2 de Setembro. Só regressarão no Natal. Gente vinda de Barcelona, de Paris - um milhar de pessoas, calcula Pilar - cantará a Saramago o "Parabéns a Você", numa celebração que marcará simultaneamente o lançamento da autobiografia dos seus primeiros 15 anos de vida. Primeira parte de uma entrevista que publicaremos na próxima edição do Mil Folhas.
PÚBLICO - Se eu lhe dissesse, depois de ler a sua autobiografia, que foi um salazarista quando era adolescente, o que é que respondia?
JOSÉ SARAMAGO - Que nunca fui salazarista.
- E que esteve "ligado ao fascismo", como disse em título [na sexta-feira] o Correio da Manhã"?
- A ignorância tem alguma inconveniência. Quando se junta à estupidez, não há remédio. O que não consigo compreender é que não haja um director ou um chefe de redacção atentos.
- Mas sabe que, antes do Correio da Manhã, foi O Estado de S. Paulo [edição do dia 4] quem o escreveu, em título?
- É estúpido, evidentemente. Perguntaram o que achava [da confissão] do Günter Grass [no livro Beim Häuten der Zwiebel (Descascando a Cebola), edição em Portugal prevista para o ano que vem, de que fora voluntário nas Wafen-SS, de Hitler, aos 17 anos]. Eu estava bem disposto e respondi dizendo que tinha chegado a altura de fazer uma confissão. Eles tomaram à letra a ironia e disseram isso. No livro, conto que todos fomos da Mocidade Portuguesa. O Correio da Manhã é um eco daquilo que O Estado de S. Paulo escreveu, julgando que tinha na mão um escândalo.
- No livro, assinala que, no liceu, conseguiu ficar sempre para último, na fila, e nunca usou a farda.
- E escrevo, a propósito, que essa foi a minha primeira vitória contra o fascismo. É preciso ter muito cuidado no uso da ironia com jornalistas. Sobretudo tratando-se de uma resposta por escrito. Ele [o entrevistador brasileiro] não sabia nada [sobre a história da Mocidade Portuguesa].
- Ele faz a ligação a Grass, "que confessou, na autobiografia, ter pertencido à juventude hitleriana". Por que é que, a propósito, compreende a confissão tão tardia de Grass?
- Ninguém se preocupa muito que as pessoas não revelem os seus segredos. Ninguém os conta, ou conta só algum que casualmente interesse. Todos guardamos segredos. Mas parece, do ponto de vista daqueles que se escandalizaram, que não podemos guardar segredos. Então não vamos guardar segredos, todos. Dizem: "Ah!, mas uma figura pública..."
- Uma figura que se assumiu como autoridade moral...
- Podia alegar-se aí que Saulo [de Tarso, nome original de S. Paulo] também perseguiu os cristãos e depois se converteu. Evidentemente que teria sido melhor para Grass se o tivesse confessado desde o princípio. Mas ele usou o jogo das meias-verdades.
- O que é censurável.
- Mas não haverá também aí uma grande hipocrisia das pessoas que se apresentam como grandes virtuosas, honestas, límpidas de carácter, com passados impolutos? Não será antes o caso, tão ansiado por tanta gente, de descobrir os pés de barro dos gigantes que deviam ser de bronze?
- Também. Por Isso é que aqueles que se agigantam têm que estar preparados para isso.
- Não será a história daquele homem que andava de terra em terra à espera de que o trapezista do circo caísse? Tomei partido a favor porque aquilo [que Grass fez] não apaga aquilo que foi o futuro desse tempo. Não tinha o direito de se armar em fiscal moral dos outros? Eu não quero julgar isso. Eu não condeno o Günter Grass. Devia ter sido dito? Pois devia. Mas, pelo menos já está dito. Deixem agora o homem em paz.
- Sondagens recentes, em Portugal e em Espanha, indicam que há gente de cá e de lá disponível para avançar para uma união dos dois países. Independentemente do valor das sondagens, se lhe fizessem a si a pergunta, o que respondia?
- Entregava um ensaio de 12 páginas que publiquei há uns 20 anos e que se chama Sobre o meu iberismo.
- Pode resumir?
- Eu acho que nós estamos cansados. Como portugueses, estamos cansados de viver. Se calhar, a nossa missão histórica acabou.
- E agora?
- E agora quê? Não sabemos. Passámos séculos de dependência: dependência da Grã-Bretanha, dependência disto, dependência daquilo. Agora somos também dependentes, o que não é vergonha nenhuma: há panelas de barro e há panelas de ferro. Mas aqui falta uma coisa que se chama brio. Cada vez mais. Somos capazes de fogachos, como o 25 de Abril foi - um fogacho em que nós ingenuamente acreditámos. Não era certo, não era possível, não era crível, mas o tempo da felicidade para Portugal chegou então. Durou, como as rosas de Malherbe, l'espace d'un matin. Acabou.
- Deixou coisas boas.
- Não. Não deixou nada. As coisas boas que criou, eliminou-as todas.
- Os três "D" de que se falava: Democracia, Desenvolvimento, Descolonização? Todas as colónias são independentes.
- Não tínhamos outro remédio se não sair de lá, homem. Estávamos simplesmente derrotados.
- Salazar estava [politicamente] derrotado desde a II Guerra Mundial, toda a gente acreditava que vinha a democracia para Portugal, sopravam ventos de descolonização e os grandes impérios acolheram-nos, mas Portugal não.
- Isso só prova que países democráticos não se importavam nada de conviver com países não democráticos desde que isso, de uma forma ou de outra, servisse os seus interesses. E a história continua, veja-se o caso da China.
- Foi preciso jovens militares virem acertar o relógio da História, que tinha os ponteiros atrasados em Portugal.
- Talvez. Mas nós estávamos na Europa, numa comunidade como esta não era possível manter uma ditadura, mesmo que ela fosse ou se tornasse soft. Acabaríamos por fazer aquilo que a Espanha fez, mas, para isso, também precisou que morresse o ditador: uma transição.
- Influenciada por nós, como aconteceu, aliás, noutros países do Mundo.
- Há dias Freitas do Amaral contou a história de quando chamou os embaixadores dos países do Conselho de Segurança a quem comunicou estar a pensar reformá-lo. Resposta de todos eles: "Nem pense nisso. Nós vetamos". O 25 de Abril é uma data, apenas. Converteram-no numa data, nada mais. Já o disse em público e repito: eu já não celebro o 25 de Abril. Há um ante-25 de Abril que eu celebraria, se fosse disso que se tratasse, que é justamente o movimento que levou ao 25 de Abril. Feito por esses militares que a democracia liquidou, na maior parte dos casos, passando-os à reforma, perseguindo-os. A esses, sim, a esses tiro eu o meu chapéu. Mas há o tempo que vem depois. Muitos pensaram que tinha chegado a hora de mudar o país, que era de uma certa maneira mudar a História ou ter, sobre ela, outra visão. Não vale a pena entrar nos excessos, na reforma agrária, nas nacionalizações, mas isso é que eram consequências do 25 de Abril.
- Volto aos três "D".
- Não aceito que se diga que ficámos com a Democracia.
- E também com a independência das colónias; e com algum desenvolvimento...
- O desenvolvimento em Espanha, nos anos 60, ocorreu sob o franquismo. Não foi necessário uma revolução. A China não é já uma ameaça para os EUA? [mostra uma entrevista que deu ao Nouvel Observateur, quando foi lançar a Paris o Ensaio sobre a Lucidez].
- Nessa entrevista diz: não há democracia, mas um poder que está por cima dos governantes em quem votámos e que não são, afinal, quem decide. A pergunta que dá vontade de lhe dirigir, ao senhor, um céptico que aderiu a uma ideologia que transportava o optimismo histórico é: o que fazer, então?
- O que fazer? Temos um cerimonial democrático cada vez mais falto de vergonha: campanhas eleitorais que custam rios de dinheiro, subsidiadas muitas vezes não se sabe por quem ou demasiado se sabe por quem; promessas que se sabe de antemão não serão cumpridas; processos cosméticos do género de termos um Governo de um partido socialista mas não um Governo socialista. Porque, aqui e em qualquer parte do Mundo, o partido no Governo vai poder chamar-se o que quiser porque vai ter que fazer exactamente a mesma política. Uma comédia de enganos. Não servimos para nada mais senão para homologar coisas que não têm nada que ver connosco porque não podemos influir nelas. Aristóteles, na Política, dizia que, num Governo democrático bem entendido, o governo da Polis, os povos deviam estar em maioria, pois são a maioria.
- É esse o princípio do sistema representativo...
- No livro A Morgadinha dos Canaviais, Júlio Diniz, um escritor suave, descreve aquela situação dos votos que se rasgam e são substituídos à última hora para eleger não uma pessoa mas a outra. Há coisas que deviam voltar a ser lidas.
- E, no entanto, é extraordinário o avanço nesse campo desde essa altura, entre nós.
- Mas quem é que não avançou nestes dois séculos? Seremos excepção? O extraordinário seria não termos avançado. Eu talvez seja demasiado céptico, mas você é demasiado optimista.
- O seu discurso quer mostrar-nos que a banalidade está instalada no mundo e que não há nada a fazer. Mas ela é mudável. Este seu livro é a prova viva de que um homem que nasceu numa aldeia entre gente pobre e analfabeta pode libertar-se daquilo que parece ser o seu destino.
- Ela é mudável, de acordo. Mas então mudemo-la! O que eu ando a dizer já há tempos é que é preciso mudarmos a vida se queremos mudar de vida. E isto aplica-se a tudo.
- Esclareça-me qual o 25 de Abril que valia a pena celebrar?
- Um 25 de Abril que realmente tivesse mudado a mentalidade dos portugueses. Que tivesse feito de nós pessoas capazes de construir. Que, dentro de nós, eliminássemos essa espécie de fatalidade de que, desde o D. Sebastião, temos sempre que depender de alguém que nos ajude a atravessar a rua.
- Por exemplo?
- Transformações como as nacionalizações. Agora, até para obter fundos para pagar dívidas se privatiza e se vende. Não foi isto que nós quisemos. Já sabemos que não há independência, que a soberania é relativa, que a autonomia é consoante os interesses dos vizinhos, mas podíamos ser outra coisa e não somos. Almeida Garrett escreveu: "A terra é pequena. E a gente que nela vive também não é grande".
- Alguma vez se interrogou sobre se, com esse 25 de Abril com que sonhava, não estaríamos hoje - tendo em conta o que se passou noutras latitudes - num 25 de Abril completamente pervertido, pior e, seguramente, com menos liberdade?
- Sou suficientemente céptico para lhe responder assim: considerando a palavra "não" a mais importante do vocabulário, posso dizer que uma revolução é um "não". Mas sei, perfeitamente, que, feita a revolução, o "sim" recuperará posições pouco a pouco. Tanto faz num sistema capitalista ou socialista. O sistema ensina hipocrisia a partir dos bancos da escola. Não mudaremos a vida, se não mudarmos de vida."
Quem conheceu José Saramago, ao ponto de poder dizer alguma coisa sobre a sua pessoa, alguma coisa que acrescente ao conhecimento da sua personalidade, e ao mesmo tempo, que possa identificar o que lhe influenciou o modo de escrever e pensar, poderá falar na musicalidade da sua pessoa. Tenho ouvido e lido de e em diversas fontes, que Saramago era música, era som, era melodia.
Não raras vezes, se encontram nas suas obras, referências à musica clássica - o "Violoncelista" em "As Intermitências da Morte", é exemplo disso.
A musica, a sensibilidade especial para as diversas artes, a leitura intensiva e estudo de aspectos não relacionados com a feitura de livros, as viagens que fez pelo mundo, tudo poderão ter sido aspectos influenciadores e facilitadores do momento em que recolhidamente estruturava o pensamento, e ao fim do dia, o poderia transpor para o papel.
Com o "Levantado do Chão", às 22 ou 23 páginas dactilografadas, Saramago confidencia a João Céu e Silva, a adopção de um novo estilo de escrever, como que este lhe tivesse aparecido por "milagre" ou artes mágicas, e assim o manteve, com as devidas adaptações em função do que ia escrevendo, durante todo o resto da sua obra - e que, terá sido muito do que o diferenciava de outros autores de escrita dita "convencional".
Este facto, esta alteração da escrita, do tal momento em que o discurso directo e indirecto estão presentes, toda a movimentação e deslocação da pontuação, fez muita confusão no meio literário nacional, muito dado a um eventual seguidismo e pouco inventivo.
A escrita transcreve ideias, imagens, situações, emoções e razões... a escrita é fazer "raptar" o leitor para dentro da página e arrastá-lo durante todo o livro, isto se, sempre que possível numa única "viagem". O leitor tem de pegar no texto, tem de deixar-se conduzir pelo narrador, pelo autor, pelas personagens... o caminho do leitor, por mais linear ou sinuoso, que seja dentro da leitura, tem de chegar ao fim.
A obra de José Saramago, é isto.
Por diversos motivos, muitos leitores consideram o estilo de Saramago maçudo, denso, e um não sei números de características escapatórias para justificar o fecho do livro e colocá-lo de imediato na estante. Alguns destes muitos leitores, que ao não se darem por vencidos, retornam uma e outra vez, "aprendem" uma nova forma de ler, vivendo as palavras escritas. E a aprendizagem passa por ler. Ler, em voz muda, mas sonora dentro da cabeça. Ler, em voz alta e ressoando as palavras dentro da cabeça. Ler, mas ouvir o som. Sentir o som das palavras. Sentir as linhas e os momentos falados das personagens. Eis a leitura, muito ajudada pela forma de escrever de forma única, muitas vezes contra natura, mas que criou um mundo "Saramaguiano".
Se algum dia, alguém disser a meu lado que não gosta de ler Saramago, ou que não o consegue ler - simplesmente direi - "Leia em voz alta, mas que dentro de si oiça as personagens a contar a história"
"E começa a escrevê-lo (n.r. "Levantado do Chão") já num outro estilo?
Chego à página 22 ou 23 dactilografada e de repente - acho que tenho de aceitar a existência de um milagre. Apesar de ateu, apesar de racionalista e de tudo isso, parece que tenho de acreditar na existência de um milagre! - estava a escrever com tudo aquilo que é a escrita normal, pontos de interrogação, travessões, isto e aquilo, e ninguém tinha nada que me apontar - era assim que se escrevia - e, sem tê-lo decidido, sem tê-lo pensado antes, levado pelo próprio fluxo da história que eu estava a contar, passo àquilo que logo se transforma no estilo que me é característico. Claro que quando cheguei ao fim do livro tive de voltar atrás para pôr aquelas 22 ou 23 páginas de acordo com o que vinha depois. É aí que começa tudo! Não é um processo que se repita mecanicamente porque há diferenças de livro para livro, mas no essencial aquilo que eu comecei a escrever em 1979, aquela forma integrante de discurso directo e discurso indirecto e tudo o mais, nasceu ali e manteve-se. E mantém-se até hoje, não num livro como este "As Pequenas Memórias", que não podia ser escrito assim, mas que está presente no que estou a trabalhar agora, num outro livro que retoma o estilo embora de uma maneira diferente. Enfim, logo se verá, quando eu acabar de escrevê-lo."
em, "Uma Longa Viagem com José Saramago"
João Céu e Silva
Porto Editora
Pág. 73
( ... numa sessão de autógrafos, ladeado pelo seu editor Zeferino Coelho da antiga Caminho)
Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas
Número 3 · Outubro-Dezembro de 1998
Kim Yong-Jae, do Departamento de Português da Universidade de Pusan, Coreia do Sul, traça uma visão sobre o mundo literário e escrita de Saramago
"Esforço em fazer reviver a História e identidade portuguesa através de uma nova linguagem
O Mundo Literário de José Saramago é constituído por quatro elementos fundamentais : Primeiro, a dúvida do homem moderno numa dupla lógica de assumir uma posição crítica sobre o passado e, ao mesmo tempo, aprender com o passado. Segundo, a introdução dos elementos sobrenaturais, ou seja, fantásticos, não se distanciando, no entanto, do mundo real. Terceiro, a tentativa de uma nova linguagem que altera a sua expressão gráfica e pontual, respeitando a sintaxe da narrativa comum. Por último, a viagem não só no mundo real, mas também no interior do Homem através da imaginação. Com estes elementos de 'tempo', 'sobrenatural', 'torrencialidade da narrativa' e 'a viagem' que se interpenetram as suas obras procuraram a utopia através de alusões alegóricas, críticas e éticas.
Assim, Saramago tem vindo a tentar, nas obras publicadas desde "Levantado do Chão", a harmonia entre a realidade e a imaginação através de trabalhos que pretendem unir numa só empreitada os planos expressivos da fala, do pensamento e da escrita. Por isso, uma relação de quase simbiose entre o narrador e a matéria narrada, o discurso interior e as tensões internas do discurso narrativo são importantes na compreensão as suas obras. O que se denota facilmente nos seus romances é o espírito renovador e experimental em procurar um estilo muito pessoal e, ao mesmo tempo, solto e torrencial.
Na realidade, utiliza só vírgula e ponto final, não distinguindo discursos directos e indirectos, de modo que os seus romances têm de ser lidos diferentemente dos outros romances. Isto significa que o texto exige uma atenção especial aos leitores, dando-lhes a impressão de estarem envolvidos directamente no mundo real e, ao mesmo tempo, fictício, ambos construídos nas suas obras.
Para além do elaborado trabalho de linguagem, Saramago aborda profundamente os problemas de Portugal contemporâneo e da identidade do povo lusitano. Além de apresentar o rumo que Portugal deverá seguir e a sua visão do mundo, Saramago procura a identidade do homem perdida na sociedade moderna. Talvez através do seu estilo torrencial, que às vezes o toma difícil de ler, esteja a procurar a identidade de Portugal após a sua adesão à União Europeia.
Concluindo, a grandeza das obras de Saramago reside no esforço de evocar a História e a identidade da 'pátria perdida', juntamente com a procura de uma nova linguagem literária em que se afirma o seu espírito experimental."
"Saramago - O escritor que brinca com a pontuação"
"Vamos fazer um jogo: «A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço, e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais, e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti, Porquê, sorriu a mulher, Porque és bela, Não me conheceste no tempo da minha beleza, Conheço-te na beleza desta hora. O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se, Sabes quem sou, o que faço, de que vivo, Sei, Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo, Não sei nada, Que sou prostituta, Isso sei, Que me deito com homens por dinheiro, Sim, Então é o que eu digo, sabes tudo de mim, Sei só isso.»
Ao fim das primeiras linhas, o leitor atento terá percebido que está a ler qualquer coisa que saiu da imaginação do escritor português José Saramago. Trata-se de um excerto de O Evangelho segundo Jesus Cristo, romance publicado em 1991, onde é visível a maneira peculiar como o prémio Nobel da Literatura usa a pontuação na sua escrita.
Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica, apesar de o escritor já fazer parte do cânone literário: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas.
Mas se tem a ideia de que José Saramago eliminou nos seus textos a pontuação, os académicos e o autor dizem-lhe que essa ideia é errada. O prémio Nobel da Literatura português inovou na maneira como utiliza o ponto final e a vírgula – ele prefere chamar-lhe os sinais de pausa –, marcando a frase com um outro ritmo dado pela oralidade. Saramago subverteu a norma: pôs tudo em estado de desordem, revolucionou.
Se este é um aspecto claramente inovador da sua obra, não está isento de controvérsia. Para o professor universitário Carlos Reis, da Universidade de Coimbra e reitor da Universidade Aberta, só os comentadores apressados e os críticos que o não leram é que dizem que Saramago não usa pontuação — «um disparate sem remissão possível». Saramago «usa pontuação, mas reinventa-a de acordo com um outro ritmo prosódico, que é o da oralidade de quem fala a língua», explica. O autor redescobre sentidos ocultos nas palavras que o nosso uso quotidiano nelas acabou por desgastar, diz.
Manuel Gusmão, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, também considera inovador o tipo de frase que veio a caracterizar o escritor: uma frase onde podemos «encontrar o narrador a dialogar com uma ou mais personagens, ou duas personagens que dialogam». Saramago, conclui Gusmão, traz assim o diálogo para o interior da instância narrativa — «como se também ele concordasse que a unidade mínima da linguagem em acção é o diálogo».
Onde está o princípio?
Tudo terá começado no «ensaio de romance» Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1977. Essa é a opinião da professora universitária Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, que acaba de publicar José Saramago. Foi nessa obra que o autor ensaiou, pela primeira vez, a sua técnica de construção romanesca e nunca mais a abandonou. Todos os seus futuros romances estão contidos em Manual de Pintura e Caligrafia, tal como todos os seus grandes temas futuros estão lá. Desde o «ateísmo confesso», passando pelo «papel de primordial importância concedido à mulher» até ao carácter humanista e humanitário. Arnaut diz que estão lá também as marcas que pautarão o estilo saramaguiano – um «peculiar uso dos sinais de pontuação ou outras entropias sintácticas e semânticas».
Mas, a acreditar nas palavras do Nobel, foi durante a escrita de Levantado do Chão, romance publicado em 1980, que José Saramago se viu perante uma outra forma de narrar. Já tinha escrito vinte e tal páginas, quando lhe surgiu esta nova maneira de contar e voltou atrás, reescrevendo tudo desde o princípio para uniformizar o estilo.
O escritor já explicou várias vezes esse processo. «Era como se eu lhes tivesse a contar a eles a história que eles me tinham contado. E, como você sabe, quando falamos, não usamos sinais de pontuação. Temos pausas [de respiração] e até, como eu digo nos meus livros, os dois únicos sinais de pontuação, o ponto e a vírgula, não são sinais de pontuação, são uma pausa, uma pausa breve e uma pausa longa. No fundo, como também digo muitas vezes, falar é fazer música», disse em 2004 numa entrevista ao semanário Expresso. O escritor não estava a dizer mais do que já tinha escrito em Cadernos de Lanzarote – Diário II (1994): «(...) É como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não precisa de pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras.»
Na entrevista publicada sábado no semanário Sol, o escritor explica mais um pouco: «O processo não é mecânico, não passa automaticamente de livro para livro, há ligeiríssimas diferenças – tão ligeiras, que se calhar só eu consigo aperceber-me delas. O leitor comum achará que é o mesmo: Ah, ele eliminou a pontuação.»
Essas diferenças fazem a obra do escritor dividir-se por vários ciclos, diz Arnaut. O primeiro ciclo caracterizado por marcas de «portugalidade intensa», directa ou indirectamente enraizado na realidade portuguesa, vai desde o Manual Pintura e de Caligrafia (1977) até O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991). E é em alguns dos livros deste ciclo, veja-se Memorial do Convento e História do Cerco de Lisboa, que aparecem páginas e páginas sem parágrafos, onde o escritor deixa de usar de forma canónica a pontuação (e o leitor pode ter de ler várias vezes para perceber e se só dias mais tarde recomeça a leitura pode ter de voltar atrás).
Um segundo ciclo começa com Ensaio sobre a Cegueira (1995) e vai até Ensaio sobre a Lucidez (2004), momento em que o escritor passa para temas mais universais e há uma maior aproximação ao cânone do português. Encontramos uma maior linearidade na exposição dos acontecimentos, a clareza passa por maior narratividade e o leitor comum já não voltará atrás na sua leitura.
O terceiro ciclo inicia-se em 2005 com a publicação de As Intermitências da Morte. E a autora da obra José Saramago explica: «Romance em que o autor parece abandonar o tom e a cor cinzentos que caracterizavam os romances anteriores para adoptar tonalidades narrativas que chegam a despertar o sorriso aberto nos leitores. Além disso, verificamos uma maior aproximação ao que se diz ser a pontuação correcta.»
José Saramago chamou-lhe, aliás, «uma espécie de ressimplificação», situando-a a partir de Ensaio sobre a Cegueira, numa conversa com Carlos Reis (in Diálogos com José Saramago). «Hoje verifico que há como que uma recusa minha de qualquer coisa em que eu me divertia, que era uma espécie de barroquismo, qualquer coisa que eu não conduzia, mas que de certo modo me levava a mim; e estou a assistir, nestes últimos dois livros (o Ensaio sobre a Cegueira já mostra isso muito claramente e este que estou a escrever também), a uma necessidade maior de clareza.»
O romance histórico
E tudo o que Saramago faz é inovador? Ana Paula Arnaut responde que a questão não é tanto se já foi feito, mas a forma e a intensidade como é feito: «Não uma coisa nova, mas de uma maneira nova.» Por exemplo, no romance de José Cardoso Pires O Delfim, já está tudo lá de uma maneira embrionária.
Mas o que há de mais inovador na obra do Nobel português? O modo como José Saramago «perturbou a tradição do romance histórico», diz Manuel Gusmão; ou fez «a inscrição da História na ficção», diz Carlos Reis. E falamos agora daquela que é uma das mais interessantes características da produção saramaguiana: a subversão da «história oficial», de acordo com três ingredientes fundamentais – as traves mestras da história, a sua extraordinária capacidade imaginativa e «fontes menos oficiais», explica Ana Paula Arnaut.
Saramago tem uma «extraordinária capacidade» para descobrir «sentidos novos e temas por inventar» numa ficção e num teatro que se tornaram referências canónicas da nossa literatura, afirma por sua vez Carlos Reis. Saramago «reclama» a história, porque a chama de novo à nossa atenção, dando-lhe uma nova leitura.
O Nobel português inventa factos, mistura o maravilhoso com o empírico, o conhecimento do presente com o reconhecimento ou as novas versões do passado, diz Gusmão. «Joga ironicamente a ficção contra o relato histórico", mostrando "como uma tradição e história dos pobres, dos explorados, oprimidos e vencidos se pode construir contra a história dos vencedores».
A sua inovação no romance é ao mesmo tempo «erudita e popular», explica a professora Maria Alzira Seixo, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É erudita, porque «tem bases historiográficas sólidas», quer nos livros sobre eventos do passado, quer nos romances onde procedeu a investigações próprias e elabora conjecturas para a compreensão de uma época ou de uma figura. E é popular, «pois inventa uma expressão oralizada, que tem a ver com o saber tradicional comunitário (como em Levantado do Chão), criando a sua frase característica», explica Alzira Seixo. E, apesar de os seus livros serem poeticamente muito elaborados, não deixam de ser pedagógicos, transmitindo ensinamentos com uma forte dimensão ética e ao alcance de todos. «São ainda um exemplo raro, na pós-modernidade, da criação literária que se alia a valores humanos e colectivos, como bem se vê em Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte.»
Como os mais novos o vêem
Numa literatura em que Saramago se tornou um cânone, os escritores mais novos já ganham prémios com o nome de Saramago e é normal que lhes perguntemos o que acham do Nobel. O primeiro inquirido é José Luís Peixoto, que recebeu o Prémio Literário José Saramago 2001. É o «conhecimento do humano», aquilo que Peixoto encontra de «mais intenso e original» na obra do Nobel português. O domínio da narrativa e da língua são colocados ao serviço desse elemento central: «O ser humano, tanto no que toca à sua força, como às suas fragilidades e contradições.» Saramago inovou na forma como, em cada livro, construiu novas parábolas que se distinguem pela grande ironia e imaginação com que são construídas.
O premiado em 2005, Gonçalo M. Tavares, diz que o que há de mais «estimulante na obra de José Saramago é o desenvolvimento ficcional de uma ideia impossível». «O desenvolvimento desta espécie de realidade paralela é de tal forma minucioso e pormenorizado, que a certo momento o leitor esquece que se partiu de uma hipótese inverosímil e parece estar perante algo que sempre foi assim», continua o escritor. «Olhamos de novo para a realidade e sem uma epidemia de cegos parece que algo falta ou que algo mente.»
Válter Hugo Mãe, o escritor que assina sem maiúsculas (não é uma influência de Saramago), que ganhou o prémio em 2007, diz que o seu grande feito, naquilo em que acrescenta algo à literatura portuguesa e mundial, tem a ver com «a busca incessante de chegar ao colectivo dos homens, seduzindo-o para a grande história humana no sentido de amigar as gentes e combater toda a exclusão». Nos livros de Saramago, o homem é universal, visto a partir das suas raízes, como qualquer anónimo enredado numa aventura. O escritor distingue-se assim «por levar à literatura uma grande coerência ideológica, extremamente humanista, que recupera a força das grandes histórias numa projecção sempre colectiva e nada egocêntrica». E isso é muito raro num escritor, diz Válter Hugo Mãe. Ponto final"
A alegoria da Caverna de José Saramago, é inspirada na acelerada mutação da sociedade agrícola e mais rudimentar, numa vivência industrializada baseada na criação da produção em massa, intensiva, global e asfixiante, em que o homem enquanto ser social consome de foram viciada e dependente sem questionar.
Este espaço comercial em construção, à entrada da cidade de Lisboa (capital e alusão a uma metáfora superior no espaço e tempo de uma sociedade), pela sua brutal dimensão e oferta de produtos e serviços ao dispor dos visitantes, foi o mote para a reflexão que Saramago propôs construir.
A co-relação entre a alegoria proposta por José Saramago, com uma vincada índole consumista e política, da alienação do homem social aos ditames de interesses corporativos sobre as massas, faz a ponte com a milenar e original metáfora de Platão, na "República", "Livro VII" - "Alegoria da Caverna".
Aqui, Platão, à luz da sociedade organizada da antiga Grécia, preocupava-se em teorizar sobre a "prisão" do ser humano, enquanto ser pensante e eventualmente auto-exilado em si.
Platão conjuntamente com os seus discípulos, alerta e debate sobre a capacidade do homem de então, poder pensar por si e com os seus (outros) em comunidade. Pensar, discutir, propor, decidir e acima de tudo poder questionar.
Saramago, adopta e assume este princípio de Platão (e outros seguidores, desde então até esta data, assumindo esta capacidade filosófica com muitas centenas de anos) e acrescenta à metáfora a consciência política e económica de Marx e Engels. O homem que sob o trabalho escravo, sob a miséria das relações laborais, perde a sua condição pessoal e social de independência; ao mesmo tempo, não questiona, não assume a ruptura em conjunto com os seus demais, e deixa-se subjugar.
Acima de tudo, "A Caverna" é o espelho da viciação do ser humano.
(...) Um dia, à entrada de Lisboa, aonde regressava vindo do norte, vi, ao lado da estrada, um grande cartaz que anunciava a próxima abertura de um novo centro comercial. Imediatamente, a imaginação desenhou na minha mente uma escavação profunda, da qual se levantava um edifício de dimensões enormes, de muros potentes, como uma fortificação gigantesca. Acabava de nascer "A Caverna", que é a visão de um mundo possível, onde os seres humanos quererão habitar no interior dos mesmos espaços comerciais que lhes vendem o que necessitam ou creem necessitar. É uma metáfora da vida nos países desenvolvidos ou que, não o sendo, se enganam a si mesmos em virtude de uma prosperidade apenas aparente, e é também uma alegoria: "A Caverna" retoma o mito platónico e por isso a epígrafe que abre o livro e diz. «Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós». O que "A Caverna" faz é perguntar ao leitor:
«Seremos nós como os prisioneiros da Caverna de Platão que acreditavam que as sombras que se moviam na parede eram a realidade?
Estamos vivendo num mundo de ilusões?
Que temos feito do nosso sentido crítico, da nossa exigência ética, da nossa dignidade de seres pensantes»? (...)
em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 40
Citador #10
da razão de "Todos os Nomes"
"A Estátua e a Pedra" Fundação José Saramago
Página 38 e 39
(...) Desta história familiar nada passou ao romance, mas "Todos os Nomes" não existiria se eu não tivesse investigado os dados da breve vida do meu irmão Francisco. (...)
A alegoria da caverna, também conhecido como parábola da caverna, mito da caverna ou prisioneiros da caverna, foi escrito pelo filósofo grego Platão e encontra-se na obra intitulada A República (Livro VII). Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade, onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.
Imaginemos todos os muros bem altos separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.
Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.1 Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Imagine que um dos prisioneiros seja libertado e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.
Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras.
Platão não buscava as verdadeiras essências na simples Phýsis, como buscavam Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se liberte, correria como Sócrates o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é como se você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, e então vem alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos, totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na existência humana, comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo, inertes em suas poucas possibilidades.
A partir da leitura do Mito da Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação de texto.
O diálogo de Sócrates e Glauco[editar | editar código-fonte]
Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.
Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco — É bem possível.
Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco — Sim, por Zeus!
Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco — Assim terá de ser.
Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco - Concordo.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(Platão. A República. Livro VII)
Interpretação da alegoria
O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância,1 isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade.
Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, do conhecimento abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e o domínio das ideias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das ideias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau da apreensão de imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são perfeitas como as coisas no mundo das ideias e, por isso, não são objetos suficientemente bons para gerar conhecimento perfeito.