Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 19 de abril de 2018

"Visita à Casa de José Saramago" reportagem publicada pelo blog "O Melhor Blog do Mundo" em 16/11/2017

Recuperamos o post de "O Melhor Blog do Mundo" (16/20/2017) que relata a visita dos bloggers a Lanzarote, mais propriamente "A Casa" em Tías.

Pode ser recuperado aqui 
em https://omelhorblogdomundo.blogs.sapo.pt/visita-a-casa-de-jose-saramago-145146

O blog é de visita obrigatória, não só para quem gosta de viajar e conhecer novas paragens, como para quem ainda não teve a oportunidade de atravessar fronteiras e assim alimentar o sonho.
As reportagens fotográficas são acompanhadas de excelentes dicas e fotografias muito bem escolhidas.
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"Hoje, 16 de Novembro, a data de aniversário do "nosso" Nobel da Literatura José Saramago, recordamos o dia em que visitámos "A Casa", forma como é conhecida a casa que foi o refúgio de Saramago desde 1993 até à sua morte, em Tías na ilha de Lanzarote.

Todas as fotografias estão publicadas no link indicado 
e têm créditos aos respectivos bloggers

"Terá sido em Maio de 1991 que Saramago e Pilar se deslocaram a Tenerife para uma conferência, aproveitando a viagem, foram até Lanzarote para visitar os cunhados de Pilar e terá sido nessa ocasião que Saramago se deslumbrou com a paisagem da ilha. Nesse momento, Saramago e Pilar decidiram fixar a residência naquele local construindo a Casa e mais tarde a biblioteca.

"A Casa" de Saramago abriu ao público 9 meses após a sua morte, obedecendo à lógica poética do romance da sua autoria "O Ano da Morte de Ricardo Reis", onde a personagem Ricardo Reis tem uma conversa com Fernando Pessoa, que está morto, e lhe explica que são precisos nove meses para que os vivos se esqueçam dos mortos.

A visita é feita com o auxílio do áudio-guia que, pelos textos criados por Pilar, nos relata pormenores da vida profissional e pessoal de Saramago, à medida que vamos avançando pelas divisões da casa.

A Sala
Antes de entrarmos na sala, passamos pelo hall de entrada onde, entre muitos objectos e pinturas, é possível ver um relógio que está parado nas 16h, hora em que Saramago conheceu Pilar.

A sala era lugar de descanso, com uma janela com vista para o mar que rodeia a ilha, que para Saramago e recordando palavras de César Manrique, era "a melhor obra". As paredes são revestidas com quadros relacionados com as suas obras.

O Escritório
Foi sobre a mesa de pinho que ainda hoje lá está que escreveu as obras "Ensaio sobre a cegueira" e "Os Cadernos de Lanzarote". Em frente à secretária num móvel de madeira mexicana, estão retratos dos seus avós, pais, da sua filha, dos netos e da esposa. Na parede está uma cópia do Prémio Nobel.

O Quarto
Foi aqui que no dia 18 de Junho de 2010, após tomar o pequenos almoço e ter voltado para a cama para descansar mais um pouco, acabou por descansar para sempre, com a mesma simplicidade que pautou a sua vida.

A Cozinha
Para Saramago, a cozinha era um local de convívio, por vezes trabalho, tertúlias prolongadas, um local onde gostava de receber os seus amigos. Nesta cozinha passaram algumas figuras muito conhecidas como Mário Soares, José Luis Rodríguez Zapatero, Bernardo Bertolucci, Susan Sontag, Juan Goytisolo, Carlos Fuentes, Álvaro Siza Vieira, Ángeles Mastretta, Pedro Almodóvar, entre outros.

Podemos admirar peças que Saramago foi adquirindo nas suas viagens pelo mundo e como Saramago faria, somos convidados a beber um saboroso café português, que bem que nos soube!

O Jardim
O jardim pode-se dizer que deu alguma luta, o solo necessitou de algum trabalho e foi preciso transportar terra para aquela zona para que Saramago pudesse dar início ao seu Jardim. Começou pelas palmeiras porque são nativas, pinheiros canários, uma romãzeira de Granada e dois marmeleiros. Depois continuou com um Olmo, uma sobreira cuja semente Saramago levou de Portugal, duas oliveiras portuguesas e duas oliveiras andaluzas. Era aqui que se costumava sentar e "gostava de sentir o vento, saber-se vivo, olhar o mar, pensar que o mundo pode ter remédio, que a humanidade que trazemos em nós deve prevalecer sobre a maldade".

A Sala de Reuniões
Foi pensada inicialmente para as reuniões da direcção da Fundação José Saramago, no entanto, a Fundação tem a sua sede em Portugal. Acabou por servir mais de sala de refeições quando os encontros se prolongavam ou de sala de conferências.

Nas paredes da sala é possível admirar algumas obras de arte como uma gravura do Prémio Nobel de Literatura Gao Xingjian, um desenho de Alberti ou uma paisagem da Islândia de Ildefonso Aguilar, país pelo qual Saramago sentia grande afecto.

A Biblioteca
"Uma casa feita de livros" era a descrição que Saramago fazia da sua casa. Segundo as suas palavras "esta biblioteca não nasceu para guardar livros, mas sim para acolher pessoas" e os livros, há que abri-los com cuidado, porque têm dentro o autor, com toda a sua sensibilidade, com tudo o que o fez ser único e irrepetível.

Aqui, por trás da sua cadeira, está um quadro do pintor checo Jiri Dokoupil, que retrata o casal em desenhos feitos com fumo de vela e tinta amarela. A biblioteca conta um acervo de cerca de 16 mil livros, entre outros objectos e muitas fotografias. 

A Oliveira
Esta oliveira fez a viagem de avião num pote entre as pernas de Saramago. Não se sabia se ia resistir ao solo árido da ilha mas esta oliveira alentejana provou que se aguentaria e apresenta-se frondosa e verde. Hoje, recebe os visitantes desta fantástica casa museu!

A Casa está aberta de segunda-feira a sábado das 10h às 14h e os bilhetes custam 8€.

Fizemos a visita no último dia de férias mesmo antes de ir para o aeroporto e adorámos, os textos do áudio-guia transportam-nos para o dia-a-dia de Saramago, como se estivessemos a passar uma manhã na casa de um amigo.

Se puderem, não percam a oportunidade de visitar.

Bons passeios!"














"20/04: Lola Dueñas e Pilar del Río apresentam «O Lagarto», em Madrid" Via Fundação José Saramago

Informação aqui 
em https://www.josesaramago.org/20-04-lola-duenas-e-pilar-del-rio-apresentam-o-lagarto-em-madrid/

"Na sexta-feira (20), às 18h, na Livraria Alberti, em Madrid, será apresentada a edição espanhola do livro «O Lagarto», que une as palavras de José Saramago e as ilustrações do artista brasileiro J.Borges.

Publicado em Espanha pela Editorial Lumen, «El Lagarto» será apresentado por Pilar del Río, autora da tradução do conto para o espanhol, e pela atriz espanhola Lola Dueñas."


José Saramago aborda a evolução e o uso da linguagem

Via YouTube, aqui

(...) "E cada vez temos menos palavras,
e cada vez usamos menos palavras." (...)

terça-feira, 17 de abril de 2018

De Jacinto Manuel Galvão "O Imaginário Português Historiografia Cultural nos Romances de José Saramago" (Calendário de Letras, Salamanca 1999)

A 6 de Julho de 1993, José Saramago já tinha feito referência a troca de correspondência com o professor Jacinto Manuel Galvão ("Cadernos de Lanzarote Diário I"). Frequentando a Universidade de Salamanca, informava que pretendia fazer uma tese sobre a obra de Saramago. 

Remate curioso, sendo o professor de Brunhosinho, perto de Mogadouro, alude ao facto de morar muito longe de Lisboa. Saramago escreve "Vamos a ver como se resolve o problema: ele parece não saber quão longe vivo, também eu, de Lisboa..."

Nesta altura José Saramago e Pilar del Río estariam já devidamente instalados em Lanzarote.
Mais tarde o encontro que fica imortalizado no "Diário III" dos "Cadernos de Lanzarote".
Assim.
27 de Maio (de 1995)

"Almocei com Jacinto Manuel Galvão, que veio de Mogadouro, onde mora, para falar comigo acerca do seu projecto de tese sobre o tema Historiografia Cultural nos Romances de J. S. A ideia perece-me interessantíssima. Segundo ele, o seu trabalho começará pelo levantamento de elementos fundamentais da cultura portuguesa, como seja um matriarcado recalcado por um patriarcado que se veio impondo ao longo dos séculos graças ao cristianismo, religião marcadamente patriarcal. O matriarcado ficou presente na religião popular, no sonho, na saudade, no sentimentalismo, no mito do encoberto... Diz também que tenho procurado operar nos meus livros um diálogo de desmontagem desses elementos da nossa cultura, sobretudo através de uma crítica sarcástica à moralidade portuguesa, cobarde e egoísta, de uma religiosidade farisaica. Provavelmente tudo isto é certo. Durante o almoço não se falou tanto da tese como da minha vida, das razões conhecidas ou intuídas de fazer eu o que faço, das andanças boas e más por que passei. Talvez que depois de duas horas de conversa, que mais foi monólogo meu, o autor tenha conseguido mostrar o que há de pessoa própria em ficções que, literalmente falando, não têm nada de autobiográficas. Esse foi o meu objectivo, e isso, creio, era o que queria Jacinto Galvão: que eu me explicasse." (Página 125) 




quarta-feira, 11 de abril de 2018

Apresentação da conferência "Saramago entre a negatividade e a utopia" do Prof. Horácio Ruivo (Universidade de Turim - Itália)



A propósito da conferência do Professor Horácio Ruivo, recupero a menção da Fundação José Saramago aquando da apresentação do livro “A representação do espaço em Saramago — da negatividade à utopia” (3/8/2017) e que pode ser recuperado e consultada aqui 

"Em março deste ano foi apresentado na Fundação José Saramago, em Lisboa, o livro “A representação do espaço em Saramago — da negatividade à utopia” de Horácio Ruivo, com a chancela da Edições Esgotadas. Após o seu doutoramento em Literatura Portuguesas, Horácio Ruivo decide publicar este estudo alargado e aprofundado sobre a representação do espaço em duas vertentes o “espaço da memória” e o “espaço da violência” em José Saramago. Os romances que foram objecto de investigação pelo autor foram: Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira, Levantado do Chão, A Caverna e As Pequenas Memórias."

Capa da obra

"Este estudo, assim é apresentado pela editora, incide sobre o espaço na obra literária de José Saramago. Considerada uma categoria intencionalmente privilegiada pelo escritor em muitos dos seus romances, não apenas na dimensão física, mas numa multiplicidade de sentidos emergente a partir dos diferentes topoi apresentados, reconhece-se a existência de uma linha ascensional que reflecte a forma evolutiva como vão sendo apresentados os espaços, reais ou sugeridos, em interacção com as personages, implicando nestas um forte crescimento interior.
Vão ser exploradas as dimensões humana e simbólica do espaço. A cada uma destas dimensões é associada, respetivamente, a memória e a violência."

sexta-feira, 6 de abril de 2018

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" apresentado pelo Teatro Municipal Baltazar Dias (Madeira - Março 2018) nas comemorações dos 130 anos

Crónica "O Ano da Morte de Ricardo Reis: mais um projecto inovador" de Carlos Gonçalves - Investigador Integrado no INET-md (FSCH/UNL) - publicada a 29/03/2018 no "JM Madeira" e que pode ser consultada e recuperada aqui

"Nos passados dias 9, 10 e 11 de março, os madeirenses tiveram a feliz oportunidade de assistir a um espectáculo de elevada qualidade artística - criativa e interpretativa -, ao qual foi dado o título de “o ano da morte de Ricardo Reis”, numa adaptação do original de José Saramago.
Este espectáculo que juntou cerca de 60 jovens artistas em palco, integrou-se nas comemorações dos 130 anos do Teatro Municipal Baltazar Dias. Tratou-se de uma organização da Secretaria Regional de Educação, através da Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM), com produção da Câmara Municipal do Funchal.
A mim, pessoalmente, não me surpreendeu a qualidade deste espectáculo performativo de música, dança e teatro, pois assisti a todas as grandes produções da DSEAM, ao longo dos últimos treze anos. Mas acredito que para alguns dos madeirenses que lotaram os três espetáculos, possa ter sido uma surpresa inusitada. Pegar num original do consagrado escritor madeirense José Saramago é, por si só, um grande risco, pois trata-se de retratar Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Ricardo Reis. O espetáculo está dividido em dez cenas, todas elas passadas após a morte de Fernando Pessoa, numa adaptação de Carolina Caldeira, com direcção artística de Juliana Andrade, composição e direcção musical de Márcio Faria. A estes jovens docentes juntam-se Diana Pita, Roberto Moritz e Maurício Freitas. Sem dúvida uma equipa de “ouro” que a DSEAM conta para criar e dirigir espectáculos de qualidade. Uma verdadeira “Equipa de Criativos” que se mantêm na Madeira e não emigrou, como tantas outras.
Não posso deixar de destacar as competências da equipa de produção, coordenada por Ricardo Araújo, sob a direcção-geral de Virgílio Caldeira, bem como a equipa do Teatro Municipal, liderada por Sandra Nóbrega.
Sobre esta produção começo, naturalmente, pelo início de qualquer projecto criativo e inovador: Escolher a ideia! Depois a construção/adaptação de um texto/libreto; a criação da música original e respectiva orquestração; a criação das coreografias e finalmente a encenação com todas as suas facetas, incluindo a cenografia, desenho de luz, sonoplastia, etc… etc… Só quem nunca criou e montou um espectáculo desta natureza poderá ficar indiferente. Este foi mais um trabalho dedicado de vários meses de professores, alunos e técnicos que encarnam um papel de “profissionais”, no verdadeiro sentido da palavra. A mensagem ficou e a elevada qualidade artística e interpretativa também. Resta-nos questionar a oportunidade destas produções regionais poderem sair da Ilha e estar no todo nacional, representando o que de BOM aqui se produz e realiza. Para quando os apoios devidos a esta mobilidade, imprescindível para o reconhecimento dos artistas madeirenses? Será que as verbas da Santa Casa não poderiam servir, igualmente, para esta missão artístico-cultural?
Termino com um dos pensamentos de Fernando Pessoa “Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a Arte fica, por isso só a Arte se vê, porque dura”.

Mais informação pode ser consultada e recuperada aqui

Cartaz alusivo ao evento


"Com o espetáculo "O ano da morte de Ricardo Reis" terminamos de uma forma incrível as comemorações dos 130 anos. Durante 11 dias o Teatro realizou 11 eventos numa programação cultural de excelente qualidade em parceria com 9 entidades e que envolveu mais de 200 artistas e cerca de 3 mil espetadores. Muito obrigada a todos os que quiseram associar-se às estas comemorações."





"Registo fotográfico da estreia no palco do 
Baltazar dias do espectáculo "O Ano da Morte de Ricardo Reis"

quinta-feira, 5 de abril de 2018

José Saramago pela artista Paula Marques (designer & illustrator)

Aqui fica o link para divulgação dos trabalhos da artista. 
Vale muito a visita!!!

Link de contacto

Via página do Facebook e link para a imagem







Edição #70 Março 2018 da "Revista Blimunda" Via Fundação José Saramago

 Capa da edição #70 - Março de 2018

A presente edição, e todas as anteriores, podem ser consultadas e descarregadas, aqui 
em https://www.josesaramago.org/blimunda-70-marco-de-2018/

Sinopse de apresentação
"A Blimunda #70 dedica várias das suas páginas à memória da vereadora Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março. Além do editorial e das leituras do mês, a parlamentar brasileira é recordada também na coluna de Andréa Zamorano.
A revista tem ainda como destaque um texto da escritora Lídia Jorge em homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, uma crónica sobre o Festival Rota das Letras, uma entrevista à ilustradora Catarina Sobral e um artigo sobre a exposição Saramago – os pontos e a vista, inaugurada no dia 3 de março em São Paulo.
Boas leituras!"




A epígrafe da revista Blimunda, publicação mensal, 
digital e gratuita da Fundação José Saramago 
Disponível para download

O editorial da Revista Blimunda #70




quinta-feira, 29 de março de 2018

"Mafra promove-se pouco através de Saramago, 20 anos depois do Nobel" palavras do investigador Marcelo Gonçalves Oliveira ("SapoMag" e "DN", 23/02/2018)

A nótícia pode ser recuperada e consultada aqui
em https://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/mafra-promove-se-pouco-atraves-de-saramago-20-anos-depois-do-nobel
e https://www.dn.pt/lusa/interior/mafra-promove-se-pouco-atraves-de-saramago-20-anos-depois-do-nobel---estudo-9139342.html

"Mafra promove-se pouco através de Saramago, 20 anos depois do Nobel"



"Museu de Escultura fechado há 44 anos no Palácio Nacional de Mafra quer reabrir
Mafra continua sem atrair turismo literário por manter fora da visita ao palácio e à vila a abordagem a José Saramago e à sua obra, 20 anos depois da atribuição do Nobel da Literatura, defenderam hoje investigadores.

“Se quiser ir a Mafra fazer uma visita ao palácio ligada a José Saramago não posso, porque, apesar de conhecer a sua obra e poder visitar o palácio ou a vila, falta algo que faça a ligação entre os dois”, afirmou à agência Lusa o investigador Marcelo Gonçalves Oliveira, que leciona a disciplina de Literatura e Destinos Culturais na Universidade Europeia.

No estudo intitulado “Mafra e Saramago. Estratégias de mediação entre um potencial Património Mundial da Humanidade e uma obra-prima literária do Prémio Nobel”, investigadores daquela universidade consideraram que Mafra só tem a ganhar com a promoção do destino através de Saramago e do romance “Memorial do Convento”, inspirado na história da construção do palácio e traduzido em 50 línguas.

Numa altura em que Mafra formalizou a candidatura do palácio a património mundial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, na sigla em inglês), os investigadores recordaram que a ligação do património à literatura universal é um dos critérios apreciados pela UNESCO, que distingue também as “Cidades da Literatura”.

“O facto de não haver referências a Saramago no palácio e na vila não prejudica a candidatura, mas se existissem poderiam beneficiá-la”, enfatizou Marcelo Gonçalves Oliveira.

As referências a Saramago e à sua obra resumem-se à Escola Secundária José Saramago na vila e, no palácio, à peça de teatro adaptada do romance por Filomena Oliveira e Miguel Real e encenada pela companhia Éter, assim como às visitas guiadas para as escolas, porque o escritor é estudado no ensino secundário.

Também as páginas na Internet do palácio e do município omitem a ligação de Mafra à obra de Saramago.

Como justificação, é apontado o facto de Saramago ser considerado um autor polémico pela sua orientação política e antirreligiosa e pela intenção de, no “Memorial do Convento”, “manipular” a história, fazendo do povo que participou na construção do monumento protagonista da narrativa em detrimento do rei João V.

Os investigadores defendem que a literatura pode promover experiências de visitação diferentes e recomendam que se recorra às novas tecnologias para incluir Saramago.

“Em vez de remeter para o escritor, pode remeter-se o ‘Memorial do Convento’, cujas personagens principais Baltazar e Blimunda são muito queridas de quem lê e acabam por representar a população de Mafra”, exemplificou Marcelo Gonçalves Oliveira.

De autoria de Marcelo Gonçalves Oliveira, Maria do Carmo Leal, Maria Isabel Roque, Maria João Forte, Sara Rodrigues de Sousa e Antónia Correia, o estudo foi realizado no âmbito de um projeto multidisciplinar sobre destinos turísticos ligados à literatura, que junta investigadores das áreas da literatura, museologia, antropologia, ‘marketing’ e turismo.

O projeto foi financiado pelo grupo internacional de ensino superior de que a Universidade Europeia faz parte.

A investigação foi dada a conhecer em abril do ano passado, em Coimbra, durante uma conferência da UNESCO.

Após a divulgação do estudo, foi anunciada uma rota cultural por Lisboa, Loures e Mafra inspirada em Saramago e no “Memorial do Convento”.

Em 2017, o Palácio de Mafra foi visitado por cerca de 378 mil pessoas."

Pilar del Río: "Cultura e feminismo são indissociáveis" ao "Portal Vermelho" (São Paulo - Brasil, 12/03/2018)

A entrevista de Verônica Lugarini para o "Portal Vermelho" (São Paulo - Brasil) de 12/03/2018 a Pilar del Río, pode ser recuperada e consultada aqui

"Companheira de anos do escritor português José Saramago, a jornalista, tradutora e presidenta da Fundação Saramago, Pilar Del Río conversou com o Portal Vermelho em sua passagem por São Paulo. Com opiniões fortes, Pilar falou sobre sua relação com a literatura: “Sou admiradora da generosidade sem limites que têm os escritores e as escritoras porque compartilham sua intimidade com os leitores”. E foi por essa admiração entre leitor e escritor que conheceu Saramago."

Pilar del Río: "Cultura e feminismo são indissociáveis"
Fotografia de Eduardo Zappia

"A presença de Pilar del Río no Tucarena em São Paulo tomou o espaço. Quando Pilar se levantou para falar, o silêncio e admiração se fizeram presentes. O evento aconteceu nesta última sexta-feira, 8 de março no Dia das Mulheres.

A voz suave e aveludada da companheira do já falecido escritor José Saramago (1922 – 2010) contrasta com as palavras fortes que carregam um discurso tanto político quanto poético. 

Com bom humor, começou dizendo o motivo pelo qual opta por falar apenas em espanhol, apesar de ter a tradução como ofício e ter vivido durante 22 anos com um português.

“Sou tradutora de português para espanhol, mas há uma maldição: os falantes de português nunca falarão espanhol e os falantes de espanhol nunca vão falar português. É impossível porque somos muito próximos e, portanto, sendo duas línguas tão próximas, é melhor que falemos nossas próprias línguas”, explicou Pilar.

Muitas vezes tratada como “viúva de Saramago” por jornalistas, Pilar é incisiva ao falar que viúva é uma palavra horripilante e que "não vivia com Saramago, vivia com o José".

A forma como Pilar e José se conheceram está à altura de romances, onde a escrita une dois amores que apenas esperavam pelo momento do encontro. 

A vida do casal rendeu o documentário intitulado José e Pilar (2010), onde Saramago conta: “Um dia de junho de 1986 telefona para minha casa em Lisboa, onde eu então vivia, uma senhora que dizia chamar-se Pilar del Río, de profissão jornalista, leitora minha e que queria, uma vez que viajaria a Lisboa, gostaria, se eu tivesse tempo, de conhecer-me. E eu disse que sim senhor".

Pilar o procurou porque gostava muito do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e queria agradecer o prazer da leitura. Entre um café e uma visita ao túmulo de Fernando Pessoa a conexão estava feita e ela não seria rompida até a morte do escritor. Ainda hoje o vínculo é forte, pois Pilar preside a Fundação Saramago, mantendo a obra e as lembranças do escritor para a posteridade. 

Este ato de agradecimento que a fez conhecer Saramago é característico da tradutora e foi lembrado durante a entrevista ao Portal Vermelho quando questionada sobre sua ligação com a literatura. 

“Na literatura o que sou é leitora e admiradora. Sou uma pessoa que toda manhã quando acordo sempre digo: ‘Cinco razões para ver’. Preciso encontrar razões para ir além. Como leitora sou admiradora da generosidade sem limites que têm os escritores e as escritoras porque compartilham sua intimidade com os leitores. Me situo como leitora simplesmente, não sou uma produtora de literatura”, afirmou.

Indissociável da vida do escritor desde que se conheceram, Pilar sempre esteve conectada a vida e obra de Saramago. Pilar traduziu os livros do autor do português para o espanhol e neles, Saramago sempre se referiu a Pilar forma carinhosa, deixando claro que a aguardava para “sentir a quarta dimensão do amor”. 

Em sua dedicatória do livro As Pequenas Memórias (2006), por exemplo, ele escreveu: " A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

Desde 1986, ano em que se conheceram, Saramago publicou 10 romances durante sua vida e em mais da metade deles as dedicatórias são para Pilar. Em A viagem do elefante (2008) ele diz: “A Pilar, que não deixou que eu morresse” e em Caim, último livro publicado em vida (2010), ele escreve: “A Pilar, como se dissesse água”.

"Imagem do documentário "José e Pilar", 
do diretor Miguel Gonçalves Mendes (2010)"

Espanhola nascida em Sevilha em 1950, Pilar é feminista, comunista e ateia e se expressou com fervor em uma data que representa as mulheres e a luta por igualdade de direitos.

“Se nós mulheres pararmos, o mundo para. Para seguir sua órbita, o mundo precisa da força das mulheres(...). Queria dizer que precisamos do feminismo, precisamos de educação e precisamos de cultura porque é isso que somos. Somos uma voz que não se pode silenciar porque estamos estudando e porque sabemos que nossas armas não são os tanques, os fuzis, ou as armas, mas a cultura. Pois, com a cultura podemos ir mais longe”, disse aos ouvintes. 

Ao Vermelho Pilar explicou mais sobre essa reflexão:

“Todos nós, e todas as mulheres, sabemos que temos a obrigação e o dever de nos instruir, pois uma pessoa instruída é menos manipulável. E nós, mulheres, não fabricamos filhos para a guerra, nem para morrer. Queremos filhos que tenham cada vez mais capacidade de defesa. Por isso, acredito que a cultura e o feminismo são indissociáveis”. 

Questionada sobre como vê o papel da escritora nesse ambiente cultural de empoderamento feminino que levou ao aumento de publicação de livros de mulheres, Pilar citou Virginia Woolf (1882 – 1941), escritora inglesa que trabalhou questões políticas, sociais e feministas em suas obras.

“Virginia Woolf escreveu uma conferência, já publicada, que nos ensina: ‘Se a mulher não tiver um quarto próprio [em referência ao livro Um teto todo seu], dificilmente poderá escrever’. Porque a história da literatura passada não é uma história que respeitou as mulheres. As mulheres não podiam escrever, ou seja, a escrita não era feita para elas, assim como a música, a pintura, a escultura e não nos era permitido pensar e também não éramos filósofas”. 

“Ultimamente, nós mulheres, estamos ocupando o espaço. Efetivamente, a literatura é algo que se faz entre o papel e a pessoa, logo [as mulheres] têm muito mais dificuldade para publicar e quando publicam, a crítica faz muito menos caso. As escritoras estão piores colocadas e isso não é uma opinião, isso é um dado constatado. Ainda assim, nós mulheres, estamos ocupando um espaço, estamos escrevendo considerações e reflexões. E eu acho isso fantástico porque faz com que saibamos que vamos navegando contra a corrente. Ser mulher continua sendo muito difícil, mas a cada dia [estamos] mais conscientes de quem somos e nos movemos mais”.

Ainda no universo da literatura, Pilar citou escritoras que admira e novamente apareceu o nome de Virginia Woolf.

“Virginia Woolf, que citei agora mesmo, por exemplo. Outro livro é Americanah que é absolutamente maravilhoso [da autora Chimamanda Ngozi Adichie] e estão aparecendo muitas mulheres portuguesas como Lídia Jorge e Agustina Bessa-Luís. Também gosto de Lygia Fagundes Teles. Há escritoras mulheres que são muito interessantes porque têm sempre uma perspectiva distinta”.

Política 

Ainda em seu discurso para o público, na maioria mulheres, Pilar destacou o papel das mulheres latino americanas.

"Pilar del Río durante seu discurso no Tucarena em 8 de março de 2018"

“Uma coisa que se repetia na manifestação e na passeata era: A América Latina será feminista. Por que até agora, as mulheres participaram pouco na construção deste continente e, talvez por isso, esse continente esteja mal. (...) Está tão mal porque sempre houveram elites que governavam (...), elites que não deixaram as mulheres governarem”.

E citou mulheres que hoje estão na política como Michelle Bachelet, presidenta do Chile e Cristina Kirchner, ex-presidenta da Argentina e Dilma Rousseff, ex-presidenta do Brasil que sofreu um impeachment, que chegou ao poder com a proposta de dar continuidade à eficácia do serviço público. Entretanto, ser mulher e ter características femininas pesaram na hora do impeachment.

“Minhas queridas, somos o futuro e temos direitos, todos, mas também temos uma obrigação que é salvar os nossos países porque temos que salvar a humanidade e precisa ser agora, não depois de amanhã. Vamos acabar já com o poder patriarcal”. 


quarta-feira, 28 de março de 2018

Datas de apresentação da peça de teatro baseada na obra de José Saramago "Memorial do Convento" pela "ÉTER - Produção Cultural"

Link da "ÉTER - Produção Cultural" https://www.facebook.com/EterProducaoCultural/


Informação publicada no evento via Facebook
"A ÉTER - Produção Cultural tem o prazer de apresentar para o público em geral, "Memorial do Convento" de José Saramago, com adaptação dramatúrgica de Filomena Oliveira e Miguel Real, em cena desde 2007 no Palácio Nacional de Mafra, com apresentações na Fundação José Saramago, desde 2013 no Centro Cultural Olga Cadaval, Theatro Circo de Braga, Universidade de Évora e no programa Escritarias em Penafiel, dedicado a José Saramago.

Memorial do Convento – Palácio Nacional de Mafra
Terreiro D. João V - 2640 Mafra

2ª TEMPORADA 18h 
07 de Abril
05 de Maio
02 de Junho
07 de Julho
04 de Agosto

Legendado em Inglês
Duração do espetáculo: 90m (aprox)
M/12 anos
Entrada normal: 12,50€
Entrada com desconto: 10€ ( < 18 anos | > 65 anos | Famílias de 4 elementos | Grupo de 10 ou + pessoas | * Entrada Familiar restrito a parentesco directo e sob apresentação de identificação)

As reservas deverão ser levantadas e realizado o seu pagamento na bilheteira e apenas no próprio dia até 30 minutos antes do início do espetáculo.

Horário da Bilheteira do Teatro: 
17h às 18h
O espetáculo começa exactamente à hora marcada e as portas do Palácio Nacional de Mafra encerram às 18h10.

Nota: Não dispomos de pagamento MB
O Auditório situa-se num piso superior, tendo apenas acesso pela escadaria (88 degraus) e o WC encontra-se disponível apenas junto aos Claustros no piso térreo.

Parceiros online: 
Ticketline | Blueticket | Odisseias | Cherryblue

Informações: 929 130 721 
Reservas: book@virtualeter.com

Unidos por um amor maravilhoso, Blimunda e Baltasar reúnem-se a Padre Bartolomeu de Gusmão e ao seu sonho de voar. A Passarola, máquina voadora, misto de barco e de pássaro, nasce do saber científico de Padre Bartolomeu, da força de trabalho de Baltasar e dos poderes de Blimunda recolhendo as vontades humanas (“as nuvens fechadas”) que alimentarão a máquina e a farão voar. A história encantada que revolucionou a literatura portuguesa do nascimento de um convento no século XVIII.

Nesta adaptação dramatúrgica, a relação dinâmica entre os cinco actores, a música original, a luz e os espaços cénicos dão vida a dezassete personagens e a momentos essenciais do Memorial do Convento.

O público pode ainda desfrutar de uma exposição fotográfica relacionada com a ONGD ÚNICA Mixing Cultures, experenciar a instalação multimédia Cabaça 2 - uma experiência baseada na atmosfera característica da Guiné-Bissau e da sua diversidade cultural em forma de som, vídeo, luz, cenografia e fotografia, que podem ser manipulados pelos visitantes através de sensores - e ainda visitar a loja solidária Única Mixing Colors."

sexta-feira, 23 de março de 2018

Recordação da passagem de José Saramago por Torres Novas ("Viagem a Portugal") e a menção ao melhor cabrito assado - via "mediotejo" (Cláudia Gameiro, 22/03/2018)

A reportagem de Cláudia Gameiro (22/03/2018), pode ser consultada aqui 
em http://www.mediotejo.net/torres-novas-ir-ao-cabrito-a-torres-novas-e-lembrar-uma-viagem-de-saramago-c-video/



"Torres Novas Ir ao cabrito a Torres Novas e lembrar uma viagem de Saramago"

"De 23 de março a 1 de abril decorre em Torres Novas, juntando 29 restaurantes, o Festival Gastronómico do Cabrito. Depois de 28 edições, este festival quer continuar a afirmar o que de melhor e mais típico é feito por terras torrejanas, potenciando-se um turismo que se quer cada vez mais integrado. Recordando a história deste projeto, tudo começou há mais de 30 anos, com alguma inspiração no livro “Viagem a Portugal” de José Saramago.

“O Viajante… pode aqui declarar que em Torres Novas conheceu, e disso se aproveitou, o mais maravilhoso cabrito assado de toda a sua vida. Como se chega a tal obra-prima de culinária não sabe o viajante, que nisso não é entendido. Porém, confia no seu paladar, que tem discernimentos de sábio infalível, se os há.”

José Saramago, in Viagem a Portugal (1981)

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país a convite do Círculo de Leitores, que comemorava na época o décimo aniversário da sua implantação em Portugal. Terá dito o autor, segundo a sinopse que apresenta a edição da Porto Editora, “após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos»”.

Nesta sua “deambulação”, Saramago percorreu em boa verdade grande parte do território do Médio Tejo, tendo parado em Torres Novas e apreciado o que designou de “o mais maravilhoso cabrito assado de toda a sua vida”. A pequena passagem na obra terá servido, em parte, de inspiração para o projeto da Associação dos Amigos de Torres Novas de desenvolver uma Festival Gastronómico do Cabrito no concelho, que teve, entre outros promotores, Joaquim Rodrigues Bicho ou Luís de Sttau Monteiro.

Assim o narra João da Guia, antigo jornalista da Antena 1 e grande mentor do projeto, que conseguiu reunir na primeira edição do Festival um grande número de órgãos de comunicação social nacionais para a sua divulgação. A ideia subjacente a todo a iniciativa era levar o “cabrito a todos”, ricos e pobres, recordando-se o facto de que apesar de haver centenas de pastores no concelho em meados dos anos 80, poucos comiam efetivamente a carne dos cabritos, ficando apenas com as tripas e pequenas partes do animal.

João da Guia estava na Casa do Ribatejo em Lisboa quando o município de Torres Novas fez uma apresentação pública do Movimento de Intercoletividades de Torres Novas, uma iniciativa que uniu os vários quadrantes políticos locais para analisar os “problemas mais gritantes” do concelho e procurar soluções. “Que medidas a tomar?”, era a questão, em relação ao hospital, à poluição, ao rio almonda, à decadência do figo e à promoção turística.

Na sequência deste projeto, que coincidiu com a época da entrada de Portugal na União Europeia, narrou João da Guia ao mediotejo.net, constituiu-se a Associação dos Amigos de Torres Novas, pertencendo este ainda aos órgãos sociais. Foi esta associação que, em conjugação com a Câmara e a ACIS – Associação Empresarial de Torres Novas, Entroncamento, Alcanena e Golegã, criou o Festival Gastronómico do Cabrito, mas também a Feira dos Frutos Secos, que se realiza até hoje.

“Defender a gastronomia e a cabra torrrejana” foi um dos principais objetivos da associação com o festival gastronómico, salientando-se as características específicas deste animal criado na Serra d’Aire, cujo consumo de ervas aromáticas da serra, argumenta João da Guia, lhe dá um sabor muito particular. Acresce, adiantou o jornalista, que o cabrito integrava o primeiro símbolo da heráldica de Torres Novas, tendo-se encontrado também ossadas de cabrito no Castelo de Torres Novas. “A história do cabrito é já dos tempos muito antigos”, constatou, e quis-se preservar essa herança.

Defender a cabra serrana, as queijarias, incentivar a economia local ante a abertura de Portugal para a Europa foi na altura o motor do evento, mas também na perspetiva de levar o cabrito a toda a gente, deixando-se de o relacionar com um produto só para a elite. Procurou-se assim as antigas receitas, concluindo-se que o método de confeção mais tradicional era o cabrito assado no forno, com grelos e arroz de miúdos.

Outra das ideias que estive na base da inspiração do evento foi a passagem de José Saramago por Torres Novas no livro “Viagem a Portugal” e a referência de que comera o melhor cabrito da sua vida. João da Guia não se cansa de enumerar as várias figuras que se envolveram então com o projeto, numa época em que não havia assim tantos festivais gastronómicos e quando se procurava sobretudo potenciar a economia local.

Atualmente já poucos rebanhos há na serra, elogiando João da Guia o projeto do rebanho da Serra d’Aire que se encontra a ser desenvolvido pela junta do Pedrógão. Para Joaquim Cabral, vereador do turismo na Câmara de Torres Novas, o festival é para continuar, equacionando-se no futuro alargar inclusive o período temporal do evento.

Este ano os restaurantes aderentes – atingiu-se o número recorde de 29 – terão uma mesa com produtos locais e pequenos concertos musicais a acompanhar quem queira saborear o cabrito torrejano. Foi ainda lançado um Guia turístico de Torres Novas em inglês.

“Estamos a procurar articular estas coisas cada vez mais”, defendeu o vereador. Potenciar o turismo através de uma integração de tudo o que Torres Novas tem para oferecer, do Boquilobo à Gruta das Lapas, passando pela Serra d’Aire e as suas Pegadas dos Dinossáurios. “Interessa-nos harmonizar tudo de modo global para aumentar o turismo”, defendeu.

Segundo o autarca, Torres Novas registou em 2017 um total de 25 mil dormidas. Para o futuro prevê-se aumentar a oferta de rotas turísticas.

“Este evento representa uma homenagem ao cabrito de Torres Novas e ao próprio José Saramago”, comentou o presidente da Assembleia Municipal, José Trincão Marques, na apresentação do Festival, na sexta-feira, 16 de março. O autarca salientou a importância do turismo para o desenvolvimento local, destacando o papel da agricultura e da pecuária.

Torres Novas | Ir ao cabrito a Torres Novas e lembrar uma viagem de Saramago (c/vídeo)  
A Associação dos Amigos de Torres Novas esteve por trás da fundação do Festival do Cabrito, que pretendia potenciar a economia local e levar o cabrito a todos Foto: mediotejo.net
José Trincão Marques terminaria a sua intervenção a defender o presidente da Câmara, Pedro Ferreira, como o responsável que mais se preocupou com as questões ambientais, lançando o desafio do município se tornar a capital da preservação da natureza.

Já Pedro Ferreira, no mesmo evento, salientou a localização estratégia de Torres Novas e o seu “potencial riquíssimo”, referindo que o festival do cabrito é uma homenagem aos antepassados. Agradeceria assim a João da Guia o trabalho desenvolvido em prol de Torres Novas, mas também ao presidente da junta de freguesia do Pedrógão pelo exemplo dado com o rebanho de cabras da Serra d’Aire."

José Luís Peixoto: "Pessoa y Saramago abrieron las puertas que aún usamos" ao "El Espectador" (16/03)

José Luís Peixoto: "Pessoa y Saramago abrieron las puertas que aún usamos", de Cynthia de Benito (EFE, 16/03/2018) aqui,
em https://www.elespectador.com/noticias/cultura/jose-luis-peixoto-pessoa-y-saramago-abrieron-las-puertas-que-aun-usamos-articulo-744805

"El escritor portugués José Luís Peixoto, una de las plumas más destacadas de su generación, está convencido de que la literatura lusa vive un buen momento en España y América Latina gracias a las puertas que abrieron Fernando Pessoa o José Saramago y que su compañeros, dice a Efe, "aún" usan."

"el escritor José Luis Peixoto, quien anuncia que 
estará en la Feria del libro de Bogotá, el próximo mes. Getty images"


"Es parte de la llamada "herencia recibida" de la que gozan contemporáneos como él que, sostiene, cuentan con referencias ante las cuales se debe "estar a la altura" y "puertas abiertas" en todo el mundo que "aún son utilizadas" por escritores de su generación.

"Siento que algo común a esta generación de autores es no gritar una ruptura con lo anterior, no 'asesinar al padre', porque siento que estamos cómodos con esa herencia", agrega en una entrevista con Efe en Funchal, capital del archipiélago luso de Madeira, durante el Festival Literario que se celebra en la isla. (Lea: El evangelio según Saramago)

Allí, el autor de "Galveias" o "Te me moriste" ha participado en una charla sobre los objetivos de la literatura, actividad que a su juicio "tiene siempre una dimensión política social".

Peixoto (Galveias, 1974) ha dado constantes muestras de ello en sus novelas, frecuentemente ambientadas en el mundo rural portugués y con abundantes elementos biográficos, pues él mismo no llegó a la ciudad hasta los 18 años, cuando se marchó a estudiar a Lisboa. Su interés por el interior del país le ha valido un buen número de premios -llegó a ser el vencedor más joven de la historia del Premio José Saramago por "Nadie nos mira"-, y una suerte de fama como retratista de las aldeas lusas, a las que solo ha apartado para abordar desde la "no-ficción" Corea del Norte o Tailandia.

Pero ahora Peixoto, que se resiste entre risas a aceptar que sea considerado el sucesor de Saramago ("entiendo esas palabras como un gran elogio, pero sé que nunca podría ser efectivamente su continuador") se siente impelido a regresar a la ficción.

"Estoy escribiendo una novela en que la ficción está más presente, aunque como en otros libros también me gusta y me parece interesante jugar con la autobiografía", comenta Peixoto, que se niega a desvelar nada más.

El escritor comenzó con la poesía, se pasó a la narrativa y, tras su inmersión en la no ficción (que fue todo un "desafío"), concluye que es "bueno atravesar fronteras" entre lo biográfico -y por tanto real- y la ficción, tendencia que considera "muy contemporánea".

En cualquier caso, también es relevante ejercer el "compromiso social", algo con lo que se siente muy identificado este autor, que emplea un tono sereno y tiene siempre la risa pronta a surgir.

"Cualquier escritor cuando escribe está ejerciendo su compromiso social porque está colocando en el texto gran cantidad de convicciones, incluso formales, que son también un mensaje, una idea transmitida a los otros que tiene su impacto y sus consecuencias", subraya.

El tema sobre el que él ejerce presión son las relaciones de familia y los roles dentro de ella, pero también "la ruralidad", un asunto que lejos de ser exclusivo de Portugal es "un problema incluso en cierta medida ibérico".

"He escrito bastante sobre el mundo rural, tiene mucha importancia escoger ese tema. Creo que los autores pueden llamar la atención para un determinado tema, y creo que es muy relevante hablar de eso en Portugal. Existen desequilibrios muy importantes en diversos aspectos de ese territorio", sostiene.

Lo sucedido el año pasado en el interior de Portugal, donde murieron más de 100 personas en incendios, "fue muy traumático" para el país, apunta Peixoto, que cree necesaria una visión a largo plazo no solo para reconstruir, sino para afrontar los retos de la zona.

Mientras, sus novelas, que hablan de la vida en Galveias o reconstruyen las relaciones madre e hija en torno a la aparición de la Virgen de Fátima hace un siglo, viven su mejor momento de expansión, con varias publicaciones el año pasado en México, Perú o Venezuela. Peixoto planea publicar pronto también Cuba.

El periplo se completa con su presencia en la próxima edición de la Feria del Libro de Bogotá, tras haber publicado tres novelas en Colombia. "Para mí es fantástico, porque siento que hay un interés y curiosidad por la literatura portuguesa contemporánea en esos países, que es muy sorprendente para mí, pero que creo que tiene que ver con la forma en que fueron abiertas las puertas por Saramago, un autor que era y continua siendo muy leído en esos países", sugiere.

Es también un indicador, dice, de cómo Portugal tiene "muchas veces más identificación con América Latina que dentro de la propia Europa, de la cual supuestamente formamos parte"."

quarta-feira, 21 de março de 2018

"Abraço, Carinho, Saudade Dedicatórias para Saramago" por Ricardo Viel (revista Piauí, edição #88 de Janeiro de 2014)

O presento artigo pode ser recuperado e consultado aqui

"Abraço, Carinho, Saudade Dedicatórias para Saramago" 
por Ricardo Viel 
revista "Piauí" edição #88 de Janeiro de 2014



Ilustração: Andrés Sandoval (2013)

"Rubem Braga mandou um abraço num exemplar da Traição da Elegantes, autografado em 1983. O poeta Lêdo Ivo manifestou saudades ao presenteá-lo com A Morte do Brasil. Caetano Veloso, pelo sim e pelo não, anunciou um retrato “distorcido, mas sincero” de sua geração em Verdade Tropical. O econômico Chico Buarque manifestou apenas “carinho” na folha de rosto de Budapeste. José Sarney foi quem mais se derramou. “Ao Saramago, mestre da língua e da ficção, esta história de pescadores do Maranhão, onde não faltam marinheiros das Descobertas, que vagam por todos os mares com as lendas e os encantos do mundo português”, demorou-se em O Dono do Mar.

O visitante curioso – e bairrista – encontra as dedicatórias na seção brasileira da biblioteca que José Saramago, o único Nobel de Literatura da língua portuguesa, mandou construir na ilha espanhola de Lanzarote, onde morou de 1993 até morrer, em 2010. Se Jorge Luis Borges tinha razão e o paraíso for mesmo uma espécie de biblioteca, o ateu Saramago pôde em vida se gabar de ter erguido um aconchegante Éden com vista para o mar.

Levantado no terreno ao lado de sua casa, o edifício pintado de branco tem 100 metros quadrados e a altura de um prédio de dois andares. É cercado por um muro de pedras vulcânicas e enfeitado com uma oliveira portuguesa. Aqui estão guardados 15 mil livros de Saramago, parte da biblioteca que juntou ao longo da vida (milhares de outros volumes foram doados à fundação lisboeta que cuida de seu legado). Um grande feito para quem, como ele, é neto de camponeses analfabetos e só conseguiu comprar seu primeiro livro aos 18 anos.

A construção da biblioteca era um desejo antigo, que se tornou factível depois do Nobel de 985 mil dólares, em 1998. Antes, os livros do português e de sua mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río, estiveram por décadas encaixotados no porão da casa. Quando precisavam fazer uma consulta, era mais fácil correr à livraria do que tentar encontrar o título desejado.

Embora houvesse dinheiro, terreno e disposição, a biblioteca demorou a ficar pronta por causa do boom imobiliário na Espanha no começo deste século. Era impossível conseguir pedreiros na ilha do arquipélago das Canárias, a cerca de 130 quilômetros da costa da África e a mil da Península Ibérica. Só em 2006 o prédio ficou pronto.

O processo de catalogação do acervo durou dois anos mais. Os livros estão organizados a partir de critérios definidos por Saramago e Pilar. Ensaio, filosofia, religião, história, jornalismo, política e fotografia têm suas próprias seções. Romance, poesia e conto estão separados por países ou região. Por imposição de Pilar, escritoras ganharam suas próprias estantes para não dividirem espaço com aqueles que não as consideravam suas iguais. “Contra a vontade do Saramago, nesta biblioteca as mulheres estão separadas: são únicas, admiráveis, levadas em conta e queridas”, decretou.

No paraíso do autor do Evangelho Segundo Jesus Cristo e do Ensaio Sobre a Cegueira, há muitos livros sobre religião e ensaios. “Ele comprava muito mais ensaio que romance”, contou Norberto Ruiz Gallego, o livreiro local do escritor. Gallego, o primeiro a abrir uma livraria na ilha de 140 mil habitantes, virou personagem dos Cadernos de Lanzarote, os diários de Saramago. “Finalmente uma livraria em Lanzarote. O livreiro é um homem novo que fala do seu trabalho com entusiasmo”, comemorou o português em 23 de abril de 1994.

“Lembro-me perfeitamente do dia em que ele veio aqui pela primeira vez. Estava com o Pepe, o cachorro, e de cabeça levantada entrou olhando tudo, como se quisesse se assegurar que isso aqui era mesmo uma livraria, não mais um desses lugares que fazem fotocópias, vendem cadernos, canetas e algum ou outro livro”, relatou Gallego. Saramago fez sessões de autógrafo na livraria El Puente, e, sem querer, virou garoto-propaganda do lugar. Logo depois do Nobel, foi fotografado na porta do estabelecimento falando em um pré-histórico telefone celular.

Na biblioteca de Saramago não há exemplares valiosos nem muito antigos. Em frente à mesa onde trabalhava, ficam três sofás de couro que usava para cochilos reparadores. Nas paredes, há retratos de referências literárias (Camões, Drummond e Fernando Pessoa). Sobre os móveis, fotos com amigos e parentes, bonequinhos de Pessoa e Jorge Amado, e uma coleção de miniaturas de elefantes – protagonista de A Viagem do Elefante.

Embora privada, a biblioteca é aberta ao público das dez da manhã às duas da tarde, exceto aos domingos. Com tempo e paciência, encontram-se nas estantes peças de um relicário afetivo. Afora um ou outro item incongruente que melhor caberia na coleção de um Ionesco – exemplo: um exame de sangue de Pilar do ano de 1998 (colesterol e açúcar controlados) –, das primeiras páginas dos livros o que salta mesmo à vista são as dezenas de dedicatórias.

Na seção feminina, mandaram suas saudações Nélida Piñon, Lya Luft e uma animada Bruna Lombardi (“pelo privilégio do encontro”). Os latino-americanos incluem Carlos Fuentes (“arquipélago de amizade”), Mario Vargas Llosa (“sem a pretensão de ensinar nada”), Ernesto Sabato (“com o amor de um irmão”), o nicaraguense Sergio Ramírez (“que tanto quer a José”) e Gabriel García Márquez (que se identifica como “outro que também escreve”). Numa página do romance De Amor e de Sombras, de Isabel Allende, ficou preservada uma declaração de amor de Pilar, em que ela celebra os 24 anos de “amizade e compreensão” entre os dois.

Na seção dos livros escritos por Saramago ou sobre ele, um exemplar em espanhol de Caim, seu último romance, aparece “cordialmente” firmado pelo autor em março de 2010. Era um agrado à família Barede Ramírez, que deixou o livro para ser autografado e nunca passou para recuperá-lo. Foi uma das últimas dedicatórias que Saramago escreveu.

Ricardo Viel"