Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Saramago "Lo que pasó con Salman Rushdie fue una señal" - Entrevista ao El País (9/02/2006)

Juan Cruz entrevistou José Saramago, em 9 de Fevereiro de 2006 para o jornal El País. 
Na Dinamarca, por esta altura, acontecia um episódio de ameaças perpetradas por radicais islâmicos, contra um cartoonista e a revista que publicou uma caricatura de Maomé, onde se vislumbra um turbante preto satirizado em forma de bomba prestes a explodir.
O massacre de ontem contra o jornal satírico Charlie Hebdo, de onde resultou a execução de 12 pessoas e muitas mais feridas, torna esta entrevista de leitura obrigatória. 

Link original da entrevista,
em http://elpais.com/diario/2006/02/09/internacional/1139439607_850215.html

Link de um grupo no facebook - "Amigos de José Saramago", onde foi colocada a entrevista em destaque. Aqui, em https://www.facebook.com/amigosdejosesaramago

"Lo que pasó con Salman Rushdie fue una señal"
De Juan Cruz, em 9 de Fevereiro de 2006

Fotografia de Gorka Lejarcegi

"Los premios Nobel José Saramago y Günter Grass, portugués y alemán, expresan sus opiniones acerca del debate generado tras la publicación en Dinamarca de las caricaturas de Mahoma que han desatado una ola de violencia y otras reacciones en el mundo islámico. Saramago fue atacado en su país y en otros países católicos cuando publicó, en 1991, El Evangelio según Jesucristo, acusado de ser blasfemo con los dogmas católicos. Grass es visitante asiduo de Dinamarca, donde además vivió una época crucial de su vida."


¿Le sorprendió que la aparición de los dibujos desatara esta polémica?
Los dibujos se publicaron en septiembre, y estamos en febrero. Ahora surgen de súbito, como si hubieran aparecido ayer. El conflicto lleva mucho tiempo calentándose. Lo que me sorprendió es que algo tan viejo estallara como una bomba ahora por algo que apareció en septiembre. Por otra parte, la reacción tampoco es novedosa. Lo hemos vivido en los siglos XV o XVI, fuimos igual de intolerantes, quemamos a los que pensaban distinto, no hemos sido tan diferentes.

¿Y le sorprendieron las reacciones violentas?
En algunos momentos he temido lo peor. Vivimos en Estados laicos, en los que el margen de libertad es amplísimo, y a veces pensamos que todo el mundo se alimenta de lo mismo, y no es así. Pero conociendo lo que es el islam, y sobre todo la situación internacional, las reacciones no me han sorprendido. Que algunas manifestaciones hayan sido organizadas no tiene por qué maravillarnos, porque ya se sabe lo fácil que es. Y tampoco me ha sorprendido la violencia con que se han producido. Lo que sí me pilló desprevenido es la irresponsabilidad del autor o de los autores de esos dibujos. Algunos opinan que la libertad de expresión es un derecho absoluto, el único derecho absoluto que existe, mientras que todos los demás son relativos. La cruda realidad impone límites. Imaginemos que el dibujante danés, en lugar de hacer una viñeta ridiculizando a Mahoma, dibuja una diciendo que el director del periódico es un imbécil. Sería muy valiente, pero al día siguiente probablemente estaría en la calle.

¿Qué hacer? ¿Autocensurarse?
No se trataría de autocensurarse, sino de usar el sentido común. En una situación como la que vivimos, y conociendo la susceptibilidad que hay en torno a estos temas, el sentido común nos dictaría qué hacer. Alguien verdaderamente responsable que tuviera constancia de que una viñeta puede ser como echar gasolina al fuego la guardaría para mejor ocasión.

¿Es esta una expresión del choque de civilizaciones?
El choque está ahí, y siempre ocurre cuando la Verdad se encuentra condensada en un libro. Ocurrió con la Biblia, que ha sido usada como un arma, pasó no hace mucho con el Libro Rojo de Mao, pasó con Mein Kampf de Hitler, pasa con el Corán..., y los uso como ejemplo de lo que ocurre cuando se limitan las verdades plurales, cuando se expresa que hay un Dios y que todo lo contrario niega la existencia de ese Dios... Matar en nombre de Dios es hacer de Dios un asesino... ¿Habrá conciliación? Presupone una enseñanza que eduque en el respeto de las creencias del otro; y aunque esto se hiciera sería obra de una generación, y no tenemos mucho tiempo. Si no se inventa un modo de llegar a un pacto de no agresión entre las religiones, tampoco se podrá llegar a esa alianza de civilizaciones de la que se habla. ¿Quién firmará el pacto? No veo al Papa y a otros representantes de otras confesiones cristianas teniendo delante de la mesa a representantes del islam.

¿El futuro será igual de explosivo?
Ambas civilizaciones han vivido pocos momentos de paz; no veo cómo se remediará ahora la lucha que está latente; acaso cuando la tolerancia se instale como algo casi natural. Ahora sabemos que en Irak los profesores más abiertos han sido expulsados de la Universidad o están en la cárcel... Es urgente educar para la tolerancia. Tenemos un problema ahora.

¿Ha vivido alguna experiencia de intolerancia?
En mi caso, mi choque con la intolerancia [el rechazo católico a El Evangelio según Jesucristo] no puso nunca mi vida en riesgo. Fue una decisión estúpida del ministro de Cultura de mi país. Luego ocurrió algo mucho más serio, que fue lo que pasó con Rushdie. Con la distancia que nos da el tiempo podemos decir que aquella fue una señal.




Obras Completas de José Saramago no Brasil (Companhia das Letras / Brasil) - Via Fundação José Saramago

Capa Volume 1
Memorial do Convento - Levantado do Chão - Manual de Pintura e Caligrafia
O Ano de 1993 - As Pequenas Memórias

Notícia via Fundação José Saramago, 
"A Companhia das Letras acaba de dar à estampa os primeiros dois volumes das Obras Completas de José Saramago. Acompanha, em cada um destes volumes, uma “Carta do Editor” onde Luiz Schwarcz termina com:
«Assim, um escritor em busca profunda pela justiça social acaba por nos propor a liberdade como melhor mecanismo para alcançá-la. Não há mensagem literária mais genuína do que esta. Chegado a subverter parábolas bíblicas, José Saramago bem que poderia ter escrito: “e no começo fez-se a liberdade”. Lendo a sua obra ficamos com vontade de fazer da liberdade também o nosso fim.
Felizes são os homens e mulheres que editam e leem José Saramago. (Que sorte a vida me deu.)»
No primeiro volume encontram-se as obras “Memorial do Convento”, “Levantado do Chão”, “Manual de Pintura e Caligrafia”, “O Ano de 1993″, “As Pequenas Memórias”, e no segundo “Ensaio sobre a Cegueira”, “Ensaio sobre a Lucidez”, “Que farei com Este Livro?”, “In Nomine Dei”, “Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido”.
O projeto gráfico destas edições é da autoria de Alceu Chiesorin Nunes, também autor da capa, e de Bruno Romão.
As Obras Completas encontram-se actualmente à venda exclusivamente na Livraria Cultura, Brasil"

Capa do Volume 2
Ensaio sobre a Cegueira - Ensaio sobre a Lucidez - Que farei com Este Livro? 
In Nomine Dei - Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido 





Depois do ataque a o jornal satírico "Charlie Hebdo" - Algumas ideias sobre as intolerâncias religiosas

Mensagem divulgada pelas redes sociais

(...) "É inevitável, as religiões, como as revoluções, devoram os seus filhos. Há nas religiões um contínuo processo de devoramento em que Deus é como um Moloch que necessitasse do sacrifício humano. Imaginando que Deus existe — e não lhe concedo o beneficio da dúvida —, Deus não pode, por boa lógica, criar seres para os destruir. O cristianismo na sua derivante católica, que é a que conhecemos melhor, é uma história de sofrimentos contínuos. (...)

(...) Mas as religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por, seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos. É um jogo entre poderes que se debatem em circunstâncias históricas diferentes. Veja-se as cruzadas, uma crença contra outra crença, uma guerra não entre um Deus e outro, Alá, mas entre dois livros, a Bíblia e o Corão. Do ponto de vista do meu bom senso é absurdo. (...)

Extractos da entrevista de Clara Ferreira Alves a José Saramago, originalmente publicada no jornal "Expresso", em 2/11/1991

Com a tag #JeSuisCharlie esta imagem correu mundo,
testemunhando o horror que originou um repúdio consensual 


(...) "No seu discurso aquando da cerimónia da entrega do Nobel fez um balanço doso livros que tinha publicado até então e fez questão de na parte de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" reforçar, mais uma vez, publicamente a sua habitual contrariedade em relação ao papel da Igreja. Essa será uma das marcas da vida de José Saramago? 

É. É uma das marcas, digamos, da minha vida e da minha personalidade. A questão é que a Igreja Católica, é a essa que nos referimos, confundiu-se muitas vezes — demasiadas vezes — com uma associação de criminosos. Inventou a Inquisição para vigiar o grau de fidelidade às crenças cristãs, sobretudo na sua versão católica, e a partir daí organizar um sistema repressivo implacável e de uma crueldade absolutamente diabólica que nega qual-quer direito que a Igreja suponha ter para interferir na vida de cada um. Que, no fundo, é o que ela quer, a Igreja não está nada preocupada com a minha alma ou com a sua — ela própria tem muitas dúvidas sobre essa questão de haver alma — porque o que quer controlar é o meu corpo e o seu corpo e para purificar-se e assim acumulou um passivo nestes dois mil anos de uma lista de mortos interminável por causas distintas. É uma banalidade dizer que Deus nunca cá esteve em baixo a ver o que é que estava bem e o que é que estava mal, a deixar os seus conselhos ou as suas críticas. Nunca, nunca aconteceu e não acontecerá, Deus simplesmente não existe ou, como eu digo no In Nomine Dei, Deus é apenas o nome que tem, não é mais nada. Mas é o poder, poder de tal forma descarado e insolente que pretende introduzir-se em todos os aspectos da vida humana — no comportamento sexual, no cumprimento de regras que não vieram das estabelecidas por seres humanos —para controlar os seres humanos e isto há que denunciá-lo. Mas, o poder da Igreja Católica está de tal forma enraizado no corpo social e na mente das pessoas que não vejo como é que se possa sair disto. Com o Vaticano II, a Igreja fez uma espécie de esforço, o chamado aggiornamento, para se adaptar à sociedade humana em marcha tal como acontece com os touros quando saltam a barreira. A isso chamam-lhe crença natural... O touro está na praça mas lembra-se de que há um sítio onde tinha estado antes, num lugar um pouco sujo e mal cheiroso mas onde estava melhor. Como não pode regressar ao campo, quer voltar para o curro porque ali está, ou crê que está, em segurança e a Igreja tem que voltar sempre à sua crença natural e a crença natural da Igreja é o autoritarismo e é a intolerância. Uma intolerância que começa por ser em relação a outras religiões, por isso a longuíssima história das guerras de religião, enquanto no interior de si mesma mantém uma vigilância constante sobre os actos e se possível os pensamentos dos fiéis para ver se mijam ou não fora do penico. No fundo é isto, não se pode ter confiança nessa gente, principalmente quando sabemos que foram tantas e quantas vezes cúmplices de um poder político e político-militar implacável que recorreu à tortura sistemática que a Igreja abençoou. Basta ver o exemplo de Franco que quando saía de uma igreja fazia-o debaixo do pálio! O pior de tudo, é que nós vivemos num engano e a questão posta n' "As Intermitências da Morte" é bastante clara porque a única justificação ou a única razão que dá força à Igreja é a morte. Porque foi a sua existência, e continua a ser, que permite à Igreja Católica representar a comédia e dizer às pessoas «portem-se bem porque terão no Além o prémio ou o castigo, se se portarem mal».



Logo no início de "As Intermitências da Morte", o cardeal diz: «Sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há Igreja»... 
O único fundamento que a Igreja Católica tem para tentar manter-se de pé e continuar é defender com unhas e dentes, com bons ou maus argumentos, ou de qualquer maneira, a ressurreição. Porque se não há ressurreição não há Igreja. Se os corpos não ressuscitam e se as almas, ou o que quer que seja, não têm uma duração maior que a vida em que situação é que ficaria a Igreja? Para chegar a um suposto julgamento ou a uma decisão que não se sabe quem é que vai tomar sobre o destino que se há-de dar para toda a eternidade — castigo ou prémio — em que é que fica a Igreja? Em nada... Dominam os pensamentos, criam coisas que não existiam antes como, por exemplo, o pecado. Inventar o pecado foi uma manobra absolutamente genial porque se eu faço qualquer coisa, a Igreja aparece a dizer que isso é pecado, não importa que eu pergunte «É pecado porquê?» porque não têm uma explicação. Não podem dizer que receberam um e-mail do céu a dizer «Cuidado que fulano tal e fulana estão aí a cometer vários pecados». Não, simplesmente lideram em função do risco que, para a manutenção da própria Igreja, pode representar uma desobediência, uma heresia e um protesto contra os métodos da própria Igreja. Tudo isso é um mecanismo de repressão e, ao mesmo tempo, uma fábrica que produz uma ideologia que nos mantém atados." (...)

em, "Uma longa viagem com José Saramago
de João Céu e Silva
Porto Editora, páginas 254 a 256

Imagem metafórica com alusão aos atentados de 11/9, 
agora com lápis não censurados contra os ódios e fanatismos religiosos


Luís Cília canta o poema de José Saramago "Dia não" (Os Poemas Possíveis)


No Palau de Sant Jordi, Barcelona, 1993
Luís Cília canta em homenagem a Raimon, a sua canção de 1964, 
"Dia Não" com poema de José Saramago. 



"Dia Não" em "Os Poemas possíveis"

"De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas."

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Citador #23 o enigma com que o mundo sempre nos apresenta...

Citador #23

"Para mim o mundo é uma espécie de enigma constantemente renovado. Cada vez que o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito mais para me dizer do que aquilo que sou capaz de entender. Daí que me tenha de abrir a um entendimento sem baías, de forma que tudo caiba nele."

José Saramago
O Jornal (Janeiro de 1983)

Saramago aborda a temática da "inspiração" - Existe? O que é?

Podemos ser inspirados por algo ou por outrem?
Existe a "inspiração"?
O que é a "inspiração"?


(...) "Sente aqui inspiração (nota: referência a Lanzarote) para escrever como se estivesse em qualquer outro lugar?"
Isso da inspiração para escrever é uma fábula. Se eu tenho de escrever...
Em primeiro lugar há que questionar essa questão da inspiração, O que é a inspiração? Alguma coisa que está fora de nós e que de repente toma conta e nos leva a pintar ou a fazer música? Não, a inspiração existe tanto como no caso, por exemplo, de uma pessoa que está a dizer a outra que a quer muito, a um namorado, a uma namorada, e que de repente tem uma frase que está bem, que é bonita. Se se quer chamar a isso inspiração, pois, sim, chama-se, mas não adianta muito. Aquilo que nós temos para dizer está diante da nossa cabeça, dentro da nossa cabeça, e a comunicação entre o que está dentro, esperando, mais ou menos adormecido, em estado de vigília mas de uma forma reservada, está à espera que nos apercebamos de que está ali... É nesse jogo entre o consciente e, ponhamos as coisas assim, o inconsciente, que pode haver algo a que poderíamos chamar, que podemos chamar e continuamos a chamar a inspiração. Eu tenho uma tese que é a existência de dois pensamentos na cabeça de cada um de nós. Um pensamento consciente, que é aquele que nós mais ou menos acompanhamos e desenvolvemos. E a par disso, um outro consciente subterrâneo, que trabalha por sua conta. E às vezes acontece que o efeito desse trabalho subterrâneo pode, de repente, subir à superfície. E nós damo-nos conta, sem esperar, de algo que não estávamos a elaborar mas que uma parte de nós estava. Quer dizer, isto de fundamento científico não tem nada, mas é só para me ajudar a entender que isso a que nós chamamos a inspiração, segundo esta tese, não é mais que o afloramento de algo do pensamento subterrâneo ao pensamento superficial." (...)

em, "Uma longa viagem com José Saramago"
de João Céu e Silva
Porto Editora, páginas 245 a 246

O tanto que José Saramago inspira os homens e mulheres, a criarem e a serem críticos e inquietos. Pelo mundo fora, chegam exemplos de inspiração "Saramaguiana".

Cartaz promocional 
Peça de teatro inspirada em obra de José Saramago "O Conto da Ilha Desconhecida", 
nas celebrações do Dia de Portugal na Venezuela (27 de Maio de 2012)

O Diário de Notícias (29/05/2012), deu destaque ao evento, que pode ser consultado,

"Aproximadamente 200 pessoas assistiram, em Caracas, à peça "O Conta da Ilha Desconhecida", inspirada numa obra com o mesmo nome, de José Saramago e que marcou o início das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
O evento, de entrada livre, contou com a presença de diplomatas, personalidades da cultura e estudantes, entre outros. Foi organizado pela Embaixada de Portugal, em parceria com a Escola de Idiomas Modernos da Universidade Central da Venezuela.
A representação bilingue da peça esteve a cargo da Fundação Cultural Luso-Venezuelana Camões e do Grupo de Teatro "TKNELA".
A peça é uma adaptação da obra "O conto da ilha desconhecida", escrito por José Saramago e editado em 1998, que recorrendo a uma atmosfera de conto de fadas aborda o conflito básico da existência humana."

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Foto de 1983, Marcha pela Paz - Contra a instalação das armas nucleares - Pelo desarmamento


"José Saramago na Marcha pela Paz, em outubro de 1983. 
A manifestação foi convocada contra a instalação de novas armas nucleares na Europa e para assinalar a Semana do Desarmamento, promovida pela ONU. 
Foto feita por Rui Pacheco na Av. da Liberdade, em Lisboa. 
Da esquerda para a direita: José Saramago, Piteira Santos, Maria Rosa Colaço, Lopes Graça, Manuel da Fonseca, José Cardoso Pires e Urbano Tavares Rodrigues."

Via, página da Fundação José Saramago

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dados biográficos de Azio Corghi e sua frutuosa colaboração nas obras de José Saramago



Azio Corghi

Referência a Azio Corghi, no jornal El Pais (Espanha)

"El escritor José Saramago estrena en Alemania una ópera sobre el integrismo religioso"

de Stefan Scheuermann, Munster (2 de Novembro de 1993)

"La opera Divara, agua y sangre, con partitura del compositor italiano Azio Corghi y libreto del portugués José Saramago se estrenó el pasado domingo en el teatro Stdtische Bühnen de Münster (Alemania). Basada en la obra teatral del escritor titulada In nomina Dei, gira en torno al integrismo religioso y la tolerancia, basándose en el movimiento anabaptista que pretendió establecer el imperio milenario de Sion en la ciudad de Münster entre 1534 y 1536. La obra ha sido realizada por encargo de la pequeña capital de Westfalia que celebra este año su 1.200 aniversario.

Se trata de la segunda colaboración de Saramago con Corghi, cuyo primer trabajo al alimón fue la opera Blimunda, basada también en una de sus novelas, Memorial do Convento, estrenada en la Scala de Milán y que obtuvo muy buenas críticas. El estreno de Münster al que asistieron compositor y libretista, puede ayudar a la promoción de la obra del escritor portugués en Alemania.Como viene siendo habitual en la obra de Saramago, que se define como un comunista ateo que "no ha tenido nunca una crisis religiosa y por tanto vive tan feliz como cuando nació", de nuevo en Divara se dedica a un tema religioso. Si hubo una pregunta inquietante en la Europa de principios del siglo XVI fue cuál era la manera más cómoda de pasar al otro mundo. Los nombres de Calvino o Martín Lutero aún permanecen en la memoria popular. Pero hubo cientos de teólogos, profetas y visionarios que anduvieron pescando almas por Europa. En 1527, uno de ellos, Melchor Hoffmann sembró la semilla del reformismo en la zona de Münster. La historia de sus seguidores, los anabaptistas, se presta como pocas a la dramatización, lo que han hecho autores como Emst Bloch y Friedrich Dürrenmatt, entre otros.

Dos líderes anabaptistas, Jan Matthys, el teórico, y Jan van Leiden, el rey de la nueva Jerusalén, establecieron en Münster un sistema colectivista, sin propiedad privada, en el que se practicaba la poligamia y el amor libre y en el que la única ley era el Evangelio. El personaje más interesante sin embargo, fue la mujer de Van Leiden, Divara, una magna mater que ha acaparado la atención de todos los que han escrito sobre aquel acontecimiento, ya que encarna a un pacífico mundo femenino opuesto a la crueldad de los hombres. El experimento acabó muy mal, el gobierno degeneró en despotismo y el redentor en dictador. Finalmente, las tropas del obispo de Münster acabaron con "la nueva Jerusalén" y en una matanza escalofriante, ejecutaron a centenares de herejes, restableciendo el orden tradicional.

Tragedia con banda sonora

La versión operística de Saramago-Corghi de esta apasionante historia, sin embargo, no aporta nada nuevo, quedándose en una tragedia con banda sonora en mal estado. La orquesta, bajo la batuta de Will Humburg y apoyada por sonidos pregrabados y numerosos altavoces, se limitó a emitir sonidos y ruidos. Los cantantes, entre largos recitativos, agudos extremos y numerosos gritos, arriesgaron la integridad de sus cuerdas vocales y la de los tímpanos del público. Hay una clave, que el propio Corghi explica en el programa de mano: la nota re simboliza a Cristo, mientras la es la muerte. El aficionado erudito provisto de un oído ejemplar podrá sumergirse en los problemas existenciales que nos azotan, pero alguien menos capacitado se queda con el susto provocado por los constantes cambios entre fortisimos y pianisimos o los efectos especiales, como la extracción de filetes del cuerpo del Rey de Jerusalén. La sofisticada puesta en escena de la ópera desconcertó al público."


Parte de interpretação, via Youtube
"Cruci-Verba" di Azio Corghi - 2012
per voce recitante, coro e orchestra
Orchestra della Svizzera italiana
diretta da Enrique Mazzola
voce recitante: Sonia Bergamasco


Biografia de Azio Corghi, via "Casa Ricordi",
em http://www.ricordi.it/catalogue/composers/azio-corghi/

"Azio Corghi was born at Cirié, near Turin. Until 1950 he divided his studies between those of painting and music. In 1956 he enrolled at the Conservatory of Turin, where he attended the classes of piano and music history held by M. Zanfi and Massimo Mila respectively. In 1962 he moved to Milan and attended the Conservatory of Milan, studying composition, choral music, conducting (choral and orchestral) and vocal polyphonic composition with Bruno Bettinelli, A. Bortone, A. Votto and G.Farina respectively. In 1967 he won the Ricordi-Rai competition with his Intavolature, which was performed at La Fenice in Venice. He taught at the Conservatory of Turin, then at the Conservatory of Milan. In 1973 the Fondazione Rossini of Pesaro and Casa Ricordi entrusted him with the preparation of the critical edition of Rossini’s L’italiana in Algeri. For the 1989-1990 season Blimunda, an opera with a libretto by the composer and José Saramago was staged at La Scala. A jury chaired by Goffredo Petrassi awarded him the “Omaggio a Massimo Mila” prize for his teaching activities. For the Rossini bicentenary he composed Suite dodo, after Rossini’s Péchés de vieillesse, while his ballet “un petit train de plaisir” was performed in Pesaro and broadcast live throughout the world. On 31 October 1993 Divara (“Wasser und Blut”), a music drama with a libretto by the composer and Saramago, was staged in Münster. He was appointed academician of Santa Cecilia, coordinator of the courses and professor of composition at the Accademia Petrassi. On the invitation of the 2nd “Umberto Micheli” International Piano Competition he composed the concerto study “...ça ira!”. For the Donizetti centenary celebrations he was commissioned to transcribe some ariettas from Nuits d’été à Pausilippe. Ona commission from La Scala, he composed Tat’jana, an opera based on Chekhov. In 2000, on a commission of the Rai Orchestra, he composed Amori incrociati, after the Decameron in a version by Aldo Busi. In 2001, for the Städtische Bühnen Münster he wrote Cruci-Verba, a reading and comment from Saramago’s Gospel according to  Jesus Christ on Liszt’s Via Crucis. For the Bellini centenary he composed “...malinconia, ninfa gentile” for the Teatro Massimo Bellini in Catania. The Accademia di Santa Cecilia chaired by Luciano Berio commissioned him to write De paz e de guerra, on a text by Saramago. On 8 July 2004, on a commission from the Accademia Chigiana, his ¿Pia?, a music-drama dialogue freely based on Marguerite Yourcenar’s Dialogue in the Swamp was produced at the Teatro dei Rozzi in Siena. In 2005 he wrote Il dissoluto assolto, a one-act piece of music theatre with a libretto by himself and Saramago, a co-production of the Teatro San Carlos of Lisbon and La Scala in Milan. On 29th January 2007 Filarmonica della Scala, conducted by Riccardo Chailly, world premiered Poema Sinfonico, a piece commissioned for the 25th anniversary of the orchestra. The Ensemble Punto It, to commemorate the 500th anniversary of the birth of Andrea Palladio, commissioned him Giocasta. The opera  is a reinterpretation (from a modern perspective in the libretto by Maddalena Mazzocut-Mis) of Sophocles’ Oedipus Rex, the tragedy that was performed in 1585 (with music by Andrea Gabrieli) to inaugurate the Teatro Olimpico and in this venue the opera took place on 19th June 2009."

"Memorial do Convento" e a célebre gralha do "estridor operático" que passou a "escritor operário"



(...) "Irrata-o encontrar uma gralha nos seus livros?"
Quando pegamos no livro novo e o abrimos, a gralha normalmente aparece imediatamente, é a primeira bofetada que levamos. Na primeira edição do "Memorial do Convento" saiu uma gralha que é o retrato da época... Ao falar da música que se tocava naquela época nas igrejas eu designo-a como «estridor operática» e o que aconteceu foi que o compositor da gráfica escreveu «escritor operário». Isto aconteceu em 1982, quando ainda há alguma coisa do período revolucionário e o homem leu mal aquilo e depois não se apercebeu que não fazia sentido - também pode acontecer que o tenha feito intencionalmente, nunca se saberá - e o «estridor operático» ficou transformado em «escritor operário» até que na segunda ou terceira edição se emendou. Achei graça, aquilo tinha realmente piada, mas uma gralha irrita-me sempre e principalmente o que me aborrece mais é não a ter visto nem o revisor." (...)

em, "Uma longa viagem com José Saramago"
João Céu e Silva
Porto Editora, página166


Transcrição da localização da gralha

(...) "O cravo foi deixado pelos galegos do lado de fora do portão, não faltava mais nada verem eles a máquina de voar, e para a abegoaria o levaram, com grande esforço, Baltasar e Blimunda, não tanto pelo peso, mas por lhes faltarem arte e ciência, sem contar que as vibrações das cordas pareciam queixumes magoados e por causa deles se lhes apertava o coração, também duvidoso e assustado de tão extrema fragilidade. Nessa mesma tarde veio Domenico Scarlatti, ali se sentou a afinar o cravo, enquanto Baltasar entrançava vimes e Blimunda cosia velas, trabalhos calados que não perturbavam a obra do músico. E tendo concluído a afinação, ajustado os saltarelos que o transporte havia desacertado, verificado as penas de pato uma por uma, Scarlatti pôs-se a tocar, primeiro deixando correr os dedos sobre as teclas, como se soltasse as notas das suas prisões, depois organizando os sons em pequenos segmentos, como se escolhesse entre o certo e o errado, entre a forma repetida e a forma perturbada, entre a frase e o seu corte, enfim articulando em discurso novo o que parecera antes fragmentário e contraditório. De música sabiam pouco Baltasar e Blimunda, a salmodia dos frades, raramente o estridor operático do Te Deum, toadas populares campestres e urbanas, cada qual suas, porém nada que se parecesse com estes sons que o italiano tirava do cravo, que tanto pareciam brinquedo. infantil como colérica objurgação, tanto parecia divertirem-se anjos como zangar-se Deus." (...)

em "Memorial do Convento"
Caminho, Página 116
(edições corrigidas) 

sábado, 3 de janeiro de 2015

"In Nomine Dei", de José Saramago, Sevilha, 2007

"O Senhor deteve no ar a mão da Sua justiça e a Sua voz disse: «Apressai-vos porque o tempo do sangue é chegado, já se ouve a lâmina do cutelo rangendo na pedra de amolar, o terror faz correr os animais condenados, mas o Meu braço os alcançará onde quer que se acolham, nem antes nem depois da hora marcada por Mim no princípio dos tempos»."

Voz de Matthys, apóstolo anabaptista
Segundo acto, quadro 1
"In Nomine Dei", Caminho, 3.ª edição, página 63

"Vídeo de apresentação da peça de teatro "In Nomine Dei", 
representada no Centro Andaluz de Teatro - Sevilha, em Dezembro de 2007.
Direcção de José Carlos Plaza, em colaboração com o Teatro Nacional Dona Maria II.
Link da apresentação, na voz de José Saramago, 

"In Nomine Dei" é uma peça de teatro de José Saramago, lançada em 1993. A acção decorre na cidade alemã de Münster, entre maio de 1532 e Junho de 1535. Retrata a história, baseada em factos reais, das lutas entre Protestantes e Católicos. Neste peça, Saramago expõe todo o seu potencial enquanto romancista, levando ao limite a linguagem das personagens, numa acção intensa capaz de prender o leitor do inicio ao fim. "


Sinopse da obra "In Nomine Dei"
Caminho, 3.ª edição, página 9

«”Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida?” Não faz sentido? “Se os cães tivessem inventado um Deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado do seu canino Deus? “Estas considerações podiam ser tomadas como ofensivas, mas José Saramago trata de se defender: “Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome de Deus – “In Nomine Dei” – para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso.” “Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana”, explica o autor. “Que o leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.”»

Discurso de José Saramago contra a "Guerra do Iraque" (Porta do Sol, Madrid, a 16 de Março de 2003)

Dulce Chacón e Saramago, discursam contra a "Guerra do Iraque", Dezembro de 2003


"Dez anos e 122 mil mortos depois da invasão norte-americana que marcou o início da guerra do Iraque, recordamos o manifesto que José Saramago escreveu e que leu pessoalmente perante centenas de milhares de manifestantes, na Porta do Sol, em Madrid, a 16 de Março de 2003"


Para ler, na revista digital "Blimunda", n.º 28 (Setembro de 2014)

"Eles pensavam que nos havíamos cansado de protestar, que os tínhamos deixado à solta para prosseguirem na sua alucinada corrida para a guerra. Equivocaram-se. Nós, estes que hoje nos estamos manifestando, aqui e em todo o mundo, somos como aquela pequena mosca que volta obstinadamente uma vez e outra a cravar o aguilhão nas partes sensíveis da besta. Somos, em palavras populares, claras e precisas para que melhor se entendam, a “mosca cojonera” do poder.

Eles querem a guerra, mas nós não os vamos deixar em paz. Ao nosso compromisso, ponderado nas consciências e proclamado nas ruas, não lhe farão perder vigência e autoridade (também nós temos autoridade...) nem a primeira bomba nem a última que venham a cair sobre Iraque.

Que não continuem os senhores e as senhoras do poder a dizer que nos manifestamos para salvar a vida e o regime de Sadam Hussein. Mentem com todos os dentes que têm na boca. Manifestamo-nos, isso sim, pelo direito e pela justiça. Manifestamo-nos contra a lei da selva que os Estados Unidos e os seus acólitos antigos e modernos pretendem impor ao mundo. Manifestamo-nos pela vontade de paz da gente honesta e contra os caprichos belicistas de políticos a quem sobeja a ambição e a quem vai faltando a inteligência e a sensibilidade. Manifestamo-nos contra o concubinato dos Estados com os super-poderes económicos de todo o tipo que governam o mundo. A terra pertence aos povos que a habitam, não àqueles que, servindo-se de uma representação democrática descaradamente pervertida, os exploram, manipulam e enganam. Manifestamo-nos para salvar a democracia em perigo.

Até agora a humanidade foi sempre educada para a guerra, nunca para a paz. Constantemente nos aturdem os ouvidos com a afirmação de que se queremos a paz amanhã não teremos mais remédio que fazer a guerra hoje.. Não somos ingénuos ao ponto de acreditarmos numa paz eterna e universal, mas se os seres humanos foram capazes de criar, ao longo da História, belezas e maravilhas que a todos nos dignificam e engrandecem, então é tempo de deitar mãos à mais maravilhosa e formosa de todas as tarefas: a incessante construção da paz. Que essa paz, porém, seja a paz da dignidade e do respeito humano, não a paz de uma submissão e de uma humilhação quantas vezes disfarçadas sob a máscara de uma falsa amizade protectora.

Já é hora de que as razões da força deixem de prevalecer sobre a força da razão. Já é hora de que o espírito positivo da humanidade se dedique, de uma vez, a sanar as inúmeras misérias do mundo. Esssa é a sua vocação e a sua promessa, não a de pactuar com supostos ou autênticos “eixos do mal”...

(Amenamente estavam Bush, Blair e Aznar conversando sobre o divino e o desumano, seguros e tranquilos no seu papel de poderosos feiticeiros, peritos em truques de batota e conhecedores eméritos de todos os enredos da propaganda mentirosa e da falsidade sistemática, quando no gabinete oval onde se encontravam reunidos irrompeu a terrível notícia de que os Estados Unidos de América do Norte tinham deixado de ser a única grande potência mundial. Antes de que Bush pudesse desferir o primeiro soco na mesa, o vosso presidente José María Aznar apressou-se a declarar que essa nova grande potência não era Espanha. “Juro que não é, George”, disse. “O meu Reino Unido também não”, acrescentou Blair rapidamente para cortar a nascente desconfiança de Bush. “Se não és tu e tu não és, quem é então?”, perguntou Bush. Foi Colin Powell, mal acreditando no que a sua própria boca pronunciava, quem disse: “A opinião pública, senhor presidente”.)

Todos tereis percebido que esta historieta é uma simples invenção minha. Peço-vos, portanto, que não lhe deis demasiada importância. Tem-na, porém, e muita, o que já se tornou numa evidência para todos, a mais exaltante e feliz evidência destes conturbados tempos: os feiticeiros Bush, Blair e Aznar, sem o quererem, sem que o tivessem proposto, nada mais que pelas suas malas artes e ainda piores intenções, fizeram surgir, espontâneo e irresistível, um gigantesco, um imenso movimento de opinião pública. Um novo grito de “Não passarão”, com as palavras “Não à guerra”, percorre o mundo.

Não há exagero em dizer que a opinião pública mundial contra a guerra se converteu numa potência com a qual o poder vai ter de contar. Enfrentamo-nos deliberadamente aos que querem a guerra, dizemos-lhes “NÃO”, e se, ainda assim, persistirem no sua demencial acção e  desencadearem uma vez mais os cavalos do apocalipse, então desde aqui os avisamos de que esta manifestação não será a última, de que estes protestos continuarão durante todo o tempo que a guerra durar, e mesmo mais além, porque a partir de hoje não se tratará simplesmente de dizer “Não à guerra”, mas sim de lutar todos os dias e em todas as instâncias para que a paz seja uma realidade, para que a paz deixe de ser manipulada como um elemento de chantagem emocional e sentimental com que se pretende justificar guerras.

Sem paz, sem uma paz autêntica, justa e respeitosa, não haverá direitos humanos. E sem direitos humanos – todos eles, um por um – a democracia nunca será mais que um sarcasmo, uma ofensa à razão, uma despudorada mentira. Nós, que aqui estamos, somos uma parte da nova potência mundial. Assumimos as nossas responsabilidades. Vamos lutar com o cérebro e o coração, com a vontade e o sonho. Sabemos que os seres humanos são capazes do melhor e do pior. Eles (não é necessário dizer agora os seus nomes) escolheram o pior. Nós escolhemos o melhor."

(Imagem da célebre conferência, realizada nos Açores, 
sob o patrocínio dos EUA, Reino Unido, Espanha e Portugal) 


Mais um texto de José Saramago sobre a Guerra do Iraque:

"Sabemos como se mobiliza para a guerra. Criado o foco de conflito, inicia-se o processo mobilizador com apelos patrióticos, manifestações, hinos, discursos, sons atroadores, imagens multiplicadas. Ainda o primeiro tiro não foi disparado e a  guerra já é santa, já é justa, já é necessária. Ultimamente, a arte de mobilizar para a guerra aperfeiçoou os métodos, potenciando a autoridade compulsiva dos governos e a influência dos condicionantes pessoais e colectivos. A persuasão tem na mobilização bélica uma expressão perfeita. O homem é mais facilmente mobilizável para a guerra que para a paz.

A humanidade tem sido levada a aceitar a guerra como único meio eficaz de resolução de conflitos, e os governos sempre se serviram dos períodos de paz para prepararem a guerra seguinte. Mas foi sempre em nome de uma paz futura que as guerras foram declaradas, é sempre para que amanhã os filhos vivam pacificamente que hoje se sacrificam os pais. Quem isto hipocritamente proclama sabe que o ser humano, apesar de historicamente educado para a guerra, transporta no seu espírito um perene anseio de paz. O homem compreende que o que lhe conferirá humanidade plena não é um desenvolvimento científico e tecnológico orientado para a agressão, mas a paz. Daí que esta seja usada como meio de chantagem moral por quem tem interesse na guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, afirma-se, sim, que se faz a guerra pela paz.

O que ontem foi verdade continua a sê-lo hoje. Contra o que pretende a máquina propagandística norte-americana, Sadam Husein, sendo sem discussão um criminoso, não representa um perigo para a paz mundial. Iraque, simplesmente, é, neste momento, o alvo petrolífero mais fácil. Esse é um dos motivos da obsessão bélica dos Estados Unidos. O outro talvez possa ser encontrado no projecto imperial e neo-colonial de Washington, que, para poder penetrar na Ásia, necessita controlar o Médio Oriente..."

José Saramago

Dulce Chacón e Saramago, discursam contra a "Guerra do Iraque", Dezembro de 2003


"Um homem nunca sabe quando a guerra acaba. Diz, Olha, acabou, e de repente não se acabou, recomeça, e vem diferente, a puta, ainda ontem eram floreios de espada e hoje são arrombações de pelouro, ainda ontem se derrubavam muralhas e hoje se desmoronam cidades, ainda ontem se exterminavam países e hoje se rebentam mundos."
José Saramago, em "Memorial do Convento"

Retirado da revista digital "Blimunda", n.º 26 (Julho de 2014), 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Imagem cénica de "A Bagagem do Viajante" Livro de Crónicas

O mapa do Brasil, segundo destino a visitar, isto, depois de concretizar o sonho de visitar a Ilha de Lanzarote; o puzzle com o desenho do território da Europa (montagem do Ódin); e, a obra "A bagagem do Viajante", que resulta da compilação de crónicas publicadas, entre 1969, no jornal "A Capital", e 1972, no "Jornal do Fundão".


"Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas"

"Uma viagem pela selva da vida contemporânea é o que José Saramago propõe ao leitor com estas crónicas, que partem dos mais variados assuntos - uma cena de rua ou uma notícia de jornal - para apresentar uma surpreendente releitura do mundo. Das mentiras da política e da publicidade à poesia dos pequenos gestos quotidianos, da vida secreta das cidades aos mistérios que se escondem na criação artística, nada escapa ao olhar arguto do escritor. Armado com o humor, a ironia e uma constante atenção às armadilhas da linguagem, Saramago revela neste livro uma outra faceta de sua expressão concentrada: eleva assim a crónica à altura dos grandes romances que o consagraram."

Sinopse da obra, mencionada no site da "Companhia das Letras", editora de José Saramago, do Brasil.


Pilar del Río "Não sou a viúva de Saramago" - Entrevista ao jornal Sol (9/12/2013)


Pilar del Río: "Não sou a viúva de Saramago"

"Mede bem as palavras quando fala de si porque acredita que a sua "vidinha não interessa a ninguém". Pilar del Río, 63 anos, portuguesa, ainda que tenha nascido em Sevilha, viveu durante 26 com o único Nobel português da Literatura. Mas o que importa é o escritor, avisa. No mês em que o Prémio Saramago foi atribuído a um escritor angolano, o SOL conversou com a jornalista que recusa existir por referência a alguém."

Entrevista realizada por Ricardo Rego, em 9 de Dezembro de 2013
e que pode ser consultada no link original, em http://sol.pt/noticia/94384



Observação:
A presente entrevista, respeita a estrutura com que é apresentada no link de origem

o prémio saramago 2013 foi entregue a ondjaki, escritor angolano, num momento conturbado entre angola e portugal. foi um sinal enviado de lisboa?
o prémio já estava decidido pelo júri, por unanimidade, antes destes conflitos de última hora. quando começaram estes acontecimentos entrei em pânico. não sabia se era inoportuno ou se era uma oportunidade. o livro de ondjaki é um grande livro, de grande literatura, muitíssimo bem escrito e serve para conhecer a realidade de angola, que também é um produto de portugal.

até agora só escritores de portugal e do brasil foram premiados. o prémio saramago é um prémio da lusofonia?
deixe-me dizer que não gosto do conceito. leva-me a pensar em 'hispanidade' e, por conseguinte, em franco. mas sim, é um prémio para autores de expressão portuguesa que serve para apresentar ao mundo a literatura em português: jovem (são escritores com menos de 35 anos), resistente e criativa.

o próximo nobel português da literatura pode sair deste grupo de premiados?
saramago dizia que sim, porque era um grupo que estava a trabalhar com honestidade e com rigor. mas ele era mais atrevido. não lhe vou dizer quem acho que tem todo o potencial para vir a ver a sua obra premiada com um nobel.

quem tem mais possibilidade: antónio lobo antunes ou algum dos escritores da nova geração?
há um escritor que saramago apontava como um possível candidato: mia couto.

mais do que lobo antunes?
os prémios nobel são entregues pela qualidade literária, pelo valor que representa a obra. como este ano o prémio foi para o canadá, não estou em crer que o comité venha a premiar tão cedo um escritor do canadá, por exemplo. mia couto é de moçambique, de outro país, de outro continente e um grande escritor.

a casa dos bicos reabriu há um ano e meio com a fundação saramago. que balanço faz?
estamos em obras desde que chegámos mas a casa dos bicos é hoje conhecida por ser a casa de saramago. é visitada por gente de toda a parte do mundo e esta projecção internacional é boa para a cidade e para o país. trata-se de património público gerido e estimado por uma instituição privada de interesse público.

está ultrapassada a polémica com a ida da fundação para a casa dos bicos?
houve alguns comentários um tanto ou quanto frívolos de gente sem base informativa. a casa dos bicos, que é um monumento público, está cheia de vida do primeiro andar até ao último.

mas o contrato é para dez anos. imagina a fundação fora da casa dos bicos?
se alguém chegar lá e disser que não somos dignos de viver ali ou que a casa dos bicos tinha melhor uso quando estava fechada, saio imediatamente. as coisas saem e desaparecem para sempre. já ninguém mais as vê.

como é que é tratada na fundação?
na fundação chamam-me pilar.

presidente ou presidenta?
no dicionário de português, de portugal e do brasil, existe a palavra 'presidenta': mulher que preside, esposa do presidente. como está no dicionário, então eu sou presidenta. mesmo que não estivesse, existindo a função a palavra teria de existir.

usa o acordo ortográfico na fundação?
sim. saramago fez parte do grupo que há 25 anos pensou: 'vamos avançar para um acordo. cada um terá o seu sotaque, mas o idioma é o mesmo, porque o idioma é vivo e evolui'.

seria este o acordo de saramago?
se calhar não. mas há 25 anos não foi possível por questões políticas e interesses comerciais um pouco bastardos. o acordo foi aprovado quando ele tinha 86 anos. ele disse que não ia modificar a sua forma de escrever mas, como há correctores, pedi para que fosse corrigido antes de ser publicado.

é conhecida por ser uma mulher de convicções fortes. nunca pensou aderir a um projecto político?
não. em espanha houve algumas pessoas e alguns partidos que me abordaram para perceber a minha disponibilidade para ir para o parlamento. mas eu não fui.

não se vê dentro de um partido?
se um partido é fechado é porque a maioria dos cidadãos dá as costas e deixa que se decida tudo dentro das cúpulas. depois acabamos nisso: 200 pessoas a fazer propostas e a decidir. apesar de nunca ter sido militante, participei na discussão de resoluções que foram aprovadas no parlamento espanhol. a dinâmica de participação era maior. a pergunta que faço é: onde está a sociedade?

devolvo a pergunta.
saramago dizia-o tão claro: perfila-se uma forma de entender o mundo com base em três factores - indiferença, medo e resignação.

os partidos continuam a ser essenciais para a democracia?
a democracia é a participação do povo. os partidos são a forma de articulação política constitucional. não temos outra. agora, para haver democracia, a sociedade não pode abdicar. e neste momento está abdicar porque está farta. veja-se o exemplo do rui tavares, alguém que faz alguma coisa quando está farto. e vejo-o vivo.

nunca duvidou se era de esquerda?
não. tenho dúvidas para tudo, menos de que sou uma mulher de esquerda e de que sou uma dúvida com pés.

e a esquerda portuguesa nunca a seduziu para aderir a um partido?
não. recebi um convite de mário soares para participar na primeira sessão da aula magna. participei no congresso das alternativas. mas isso são iniciativas cívicas, nada mais. e não sou ninguém e ter mário soares a convidar-me é sempre uma honra.

como viu a reeleição de antónio costa em lisboa?
antónio costa é um bom presidente e por mais que pense não me ocorre um nome melhor. é uma mais-valia e penso que a cidade de lisboa tem de estar à altura de antónio costa.

imagina-o em belém?
a presidência da república vai precisar de uma pessoa forte, moral e intelectualmente. alguém que seja capaz de representar portugal no mundo, que tenha autoridade perante os partidos e que possa mediar a sociedade portuguesa. podia ser antónio costa? poderia, mas penso que precisamos dele em outros lugares, com a sua capacidade e o seu estilo.

quer concretizar algum nome?
não. mas vejo vários com este perfil.

como é a sua relação com o secretário de estado da cultura, barreto xavier?
conheci-o quando tomou posse e tenho uma relação muito boa com ele. fomos juntos à colômbia defender a cultura portuguesa e reconheço a dificuldade que ele tem em tentar fazer muito com os poucos recursos que tem. não entendo como é que a cultura ficou reduzida a uma secretaria de estado sem assento no conselho de ministros. o ministro da cultura devia ser o ministro mais importante de portugal. este governo só se recorda da cultura quando se trata de assinalar o dia de camões e fazer as condecorações.

o primeiro-ministro esteve na estreia da peça de josé saramago, a noite, no teatro da trindade. ficou surpreendida?
fiquei. sei que o primeiro-ministro é um espectador assíduo de ópera no são carlos. fiquei surpreendida porque foi à estreia de uma peça sobre a noite do 25 de abril de 1974 e que é de saramago. talvez o que aquela noite de 25 de abril significou naquele tempo lhe traga alguma recordação. o que significou de esperança e de sonho, de participação e de um lugar para todos e para cada um.

já se encontrou com cavaco silva depois do funeral de josé saramago?
sim, por acaso. foi numa reunião com muitas pessoas e eu não sabia que ele ia lá estar. de repente, na parte dos cumprimentos, cruzamo-nos, esticamos a mão e cumprimentamo-nos. era uma pessoa anónima entre as demais anónimas.

está ultrapassada a ausência do presidente da república nas cerimónias?
ele fez-se representar pelo embaixador de portugal em madrid, que me entregou uma carta pessoal do presidente. portanto, esta questão está ultrapassada.

pediu nacionalidade portuguesa, traduz do português para o espanhol, mas não fala português. porquê?
penso que com um bocadinho de esforço todos nos podemos entender. o meu contributo para o português é traduzi-lo para o espanhol. permitam-me não falar mal português nem destruir o idioma. não vou conseguir falá-lo bem porque são muito semelhantes. e quando se dirigirem a mim, façam-no em português. porque sinto como uma agressão quando tentam falar espanhol. não destruam o espanhol. um português pode falar estupidamente bem inglês ou alemão mas não conheço um português que fale estupidamente bem espanhol.

mas esta dificuldade é real ou evita expor-se a esta fragilidade?
penso que é mesmo a minha costela espanhola. nós temos dificuldades na forma como se aplicam cientificamente outros idiomas. quando era nova não se estudava inglês porque era a língua de inglaterra, que nos havia roubado gibraltar. estudava-se um pouco de francês. mas só um pouco, porque com isso vinham as ideias perniciosas, como a democracia e a liberdade. esta foi a minha educação até aos 25 anos.

as críticas não a afectam? quando a acusavam de ser a espanhola que veio roubar o português, por exemplo...
não. foram ditas muitas coisas, mas são opiniões. ninguém é obrigado a gostar de mim. óbvio que seria muito melhor se todos nos respeitássemos.

nunca se arrependeu de pedir a nacionalidade portuguesa?
nunca.

tem muitos amigos em portugal?
sim. tenho um grupo muito grande e compacto de amigas, de várias cidades. tentamos encontrar-nos uma vez por semana, mas nem sempre há tempo.

sei que a acusam de nunca parar.
claro que paro. quando saio do trabalho e não tenho compromissos vou para casa e paro. bom, ligo o computador, respondo a alguma carta, tomo um copo, vejo algum programa de debate na televisão. penso que a coisa que mais gosto na vida é de estar em casa.

o seu filho vive consigo?
às vezes. ele vivia na argentina. nos últimos meses da doença de saramago ele apareceu com um amigo para aquilo não se transformar num hospital e ganhar vida. foi estupendo.

lembro-me que uma vez disse que sentia necessidade de abrir a casa de lanzarote para não explodir.
sim, porque não posso guardar tantas vivências. foi a casa onde vivi com saramago durante 17 anos. não há uma só esquina ou uma parede que não tenhamos pintado. todos os dias de manhã as portas da casa são abertas e as luzes do escritório são ligadas. pomos flores frescas e música bem alta. depois, às 14h, a casa fecha. há dias esteve lá anonimamente um escritor galego. depois escreveu uma crónica linda onde ele dizia que de algum modo esteve com saramago.

quanto tempo passa lá?
muito pouco, porque a fundação está em lisboa. e isso deixa-me magoada. a casa de lisboa não é a minha casa.

sente-se incomodada por ser chamada a viúva de saramago?
muito. olho para isso quase com violência. nunca fui 'a' mulher do saramago, nunca fui 'a' filha de não sei quem, nunca fui 'a' mãe de não sei quem. desde que tenho o uso da razão fui a pilar del río, com o conteúdo que lhe dei. sou um sujeito autónomo. não sou a pilar saramago, mesmo que legalmente tenha o apelido.

pediu-o?
quando me casei perguntaram-me se queria o apelido saramago e eu disse que não. qual não foi a minha surpresa quando peço a nacionalidade e vejo que o meu nome passa a ser pilar saramago. fiquei perplexa.

mas foi esposa de saramago.
sou companheira. agora e antes. saramago não era propriedade minha e eu não era propriedade de saramago. se me dizem que a pilar del río não é ninguém e têm de a pôr em referência a alguém, neste caso a saramago, então refiram-se à companheira.

será sempre a companheira de saramago?
estou completamente habitada de afectos, de sentimentos, de lembranças e de vivências. perante tudo isto, vou querer um namorado? não.

nasceu em sevilha há 63 anos. que memórias guarda da sua infância?
eu não tive infância. sou a mais velha de 15 irmãos e sempre tive de ser uma segunda mãe, porque quem nasce primeiro assume responsabilidades. mas todos os meus irmãos têm um sentido de responsabilidade enorme. foi sempre assim: os mais velhos ajudavam os mais novos. estão todos a viver em espanha.

estão juntos muitas vezes?
nos últimos tempos participei pouco nos encontros que se fazem na casa da minha mãe, que já morreu. mas temos a chave da casa uns dos outros e mantemos a casa dos meus avós e dos meus bisavós. são casas vivas e habitadas e lugares de encontros entre irmãos. mas estamos sempre em contacto. recebi há dias um email da minha irmã que vive no país basco com uma foto do lugar onde ela vive coberto de neve. e dizia: 'que paisagem bonita. merda que não possamos ver esta neve sem pensar nas pessoas sem tecto'. fiquei emocionada.

o que é que os seus pais faziam?
a minha mãe paria e o meu pai pilotava avionetas e tinha alguns negócios na área da fotografia.

era próxima deles?
antigamente os pais estavam nas suas vidas. não estavam a tomar as decisões pelos filhos. isso é uma coisa nova que a mim me deixa chateada. a mãe ficava em casa a cuidar dos filhos e o pai fora.

com que idade saiu de casa?
penso que com 18 anos. fiz os primeiros anos da universidade em granada e depois fui para sevilha. nunca fui mantida pelos meus pais. saí para ir estudar e para ir trabalhar. mas não gosto muito de falar sobre isso. há tanta coisa da qual não me recordo.

estudou filosofia e letras mas foi parar ao jornalismo. foi uma opção?
comecei a trabalhar muito cedo como jornalista, com 20 e poucos anos, em sevilha. mas ainda na universidade colaborei num jornal para crianças. depois saí e passei pela rádio, pela televisão e pela imprensa. entretanto saiu uma lei que pedia exclusividade e aí acabei por ficar na televisão. quando venho para lisboa, com 37 ou 38 anos, vim como correspondente da tve e depois da cadena ser.

viveu o drama da ditadura enquanto jornalista. foi díficil cumprir a sua missão?
se estava a falar de água era para falar contra franco. não éramos angelicais ou independentes. e vomito sobre o conceito de independente. somos todos dependentes da nossa história. e cada vez que escrevia para um jornal ou para uma rádio estava a militar contra a ditadura. sempre que me diziam para não ir por determinado caminho ia por um caminho paralelo.

chegou a ter algum texto censurado?
não, porque já não havia censura prévia. mas na noite em que franco morre fui acusada pelo meu editor na rádio de ter brindado à morte do ditador. veio ter comigo e disse que não esperava de mim a desumanidade de ter brindado com champanhe à morte de um ser humano.

e brindou?
como? eu estava grávida. não podia tocar em álcool. há três noites que reunia um grupo de amigos a aguardar a notícia. até que naquela noite, tão desiludida, disse: 'franco não vai morrer nunca'. e não reunimos ninguém. de repente, às nove da manhã, vejo crianças na rua. fui a correr acordar o meu marido e disse: 'fernando, crianças na rua, franco morto'.e ele, mais racional, disse-me logo: 'não encontro a relação'. vesti-me e saí de casa para comprar os jornais: 'está morto', lia-se nos títulos. fui para a rádio. tínhamos a rádio nacional ligada e só se transmitia música clássica e pessoas a chorar diante do cadáver de franco.

como foram os primeiros anos de liberdade?
activos. militantes. era jornalista militante. o desafio era ajudar os partidos políticos a sustentar a democracia porque havia quem acenasse com uma revolta. era amiga de adolfo suárez [primeiro presidente de espanha pós-franco].

recebe reforma em espanha?
não, não tenho idade nem condições para isso.

frequentou o instituto das monjas teresianas, cujo lema era 'ver, ouvir e não calar'. o que lhe interessava na proposta da igreja católica?
isto acontece no final do secundário até à universidade. não era freira de hábito. e não creio em deus e já nesta altura não acreditava. fui para lá atraída pelo espírito do concílio vaticano ii, que se ligava directamente com a minha militância na esquerda e porque tinha a ver com uma igreja progressista, aberta e onde cabiam todos. li tudo sobre o concílio vaticano ii. parecia-me o movimento mais interessante no último século sobre a teoria da liberalização.

o papa francisco pode ir neste sentido de uma igreja onde cabem todos?
não o conheço o suficiente. mas o acto mais revolucionário que vi até agora na igreja católica foi a renúncia de bento xvi. o papa francisco, por seu lado, tem feito muitas declarações, mas falta a acção. falta consolidar e concretizar estas palavras.

sobre que temas tem dificuldade em perceber o que diria saramago?
nunca na vida me atreveria a atribuir um pensamento a saramago. nunca, nem debaixo de tortura. o que disse saramago está dito.

já pensou em quem a vai suceder na fundação saramago?
pensei, claro.

tem um nome?
sou suficientemente comunitária e social para pensar que as soluções não são nomes. isto são projectos. claro que penso no futuro. mas a vida é muito mais rápida do queremos e não podemos arrastar situações.

saramago queria que pilar o continuasse. tem conseguido?
não sei. não faço esta análise. cada um que a faça de acordo com os seus critérios. a única coisa que digo é que tenho uma grande responsabilidade e um grande temor. saramago é demasiado grande e o meu medo é que sejamos redutores da figura de saramago. josé saramago nasce um em não sei quantos séculos e em não sei quantos países. o problema é não reduzir, não reduzir.

vamos imaginar que faziam a sua biografia. como gostava que a descrevessem?
quem disse que gostaria que me descrevessem?

todos temos uma história que merece ser contada... qual seria a sua?
eu já a contei. durante 24 horas guardei em silêncio, embora a informação me saísse por todos os poros do corpo, a maior notícia que pode haver na vida de um escritor: que saramago tinha recebido o prémio nobel. acabei com espasmos musculares no estômago de tanto silêncio.

como se imagina daqui a 10 anos?
a viver, espero.

Post denominado "Banqueiros" em "O Caderno" e a realidade dos dias

"A seguir às eleições legislativas daquele ano, estala o escândalo Portucale, com alegadas ligações entre uma empresa financeira do Grupo BES, transferências clandestinas e ilegais de um milhão de euros para os cofres do CDS e dirigentes financeiros daquele partido. A Procuradoria acabou por decidir acusar formalmente, entre outros implicados, três altos quadros do Grupo BES."
25 Julho 2007
http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=661865

"A renúncia de Salgado ao lugar de CEO surge como o culminar de várias investigações em curso ao grupo familiar que apareceu envolvido em vários escândalos: Operação Furacão, Face Oculta, Portucale, contrapartidas da compra de submarinos pelo Estado português, Escom, desaparecimento no BES Angola de cerca de cinco mil milhões de euros. Isto para além do facto de Salgado ter sido obrigado a corrigir a sua declaração de rendimentos várias vezes, e ter recebido uma comissão de 8,5 milhões de euros do construtor José Guilherme por apoio aos negócios deste em Angola."
21/06/2014
http://www.publico.pt/economia/noticia/banco-de-portugal-afasta-salgado-e-a-familia-espirito-santo-da-gestao-do-bes-1659905


Dia 4 de Fevereiro de 2009

Em, "O Caderno"
Caminho
2.ª Edição, página 184 e 185

"Banqueiros"
"Que fazer com estes banqueiros? Conta-se que nos primórdios da banca, aí pelos séculos XVI e XVII, os banqueiros, pelo menos na Europa central, eram no geral calvinistas, gente com um código moral exigente que, durante um tempo, teve o louvável escrúpulo de aplicar à sua profissão. Tempo que terá sido breve, haja vista o infinito poder corruptor do dinheiro. Enfim, a banca mudou muito e sempre para pior. Agora, em plena crise económica e do sistema financeiro mundial, começamos a ter a incómoda sensação de que quem se irá safar melhor da tormenta serão precisamente os senhores banqueiros. Em toda a parte, os governos, seguindo a lógica do absurdo, correram a salvar a banca de apertos de que ela tinha sido, em grande parte, responsável. Milhões de milhões têm saído dos cofres dos Estados (ou do bolso dos contribuintes) para pôr a flutuar centenas de grandes bancos, de modo a retomarem uma das suas principais funções, a creditícia. Parece que há sinais graves de que os banqueiros acenaram com as orelhas, considerando abusivamente que aquele dinheiro, por estar na sua posse, lhes pertence, e, como se isto não fosse já bastante, reagem com frieza à pressão dos governos para que ele seja posto rapidamente em circulação, única maneira de salvar da falência milhares de empresas e do desemprego milhões de trabalhadores. Está claro que os banqueiros não são gente de confiança, a prova é a facilidade com que mordem a mão de quem lhes dá de comer."
http://caderno.josesaramago.org/24966.html