Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 15 de março de 2016

Espectáculo "Levantei-me do Chão" A partir de Levantado do Chão de José Saramago - Criação de Carlos Marques

Toda a informação pode ser consultada, através do site 

O projecto de Carlos Marques, também se encontra disponível via Facebook, aqui

(Capa do trabalho)

Agenda 2016 
– 10 Março | Coimbra – TAGV
– 30 Março | Lisboa “Levantei-me do chão – Lado B” Lançamento do CD “Levantei-me do Chão, Vínil) Fundação José Saramago
– de 7 a 17 Abril | Lisboa (Quarta a Sábado 21:30 e Domingos às 16) Teatro Meridional
– 17 e 18 Junho  | Évora  – Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

Equipa Artística
Carlos Marques Criador, Composição Músical e Actor
Susana Cecílio Apoio à criação
Nuno Borda de Água Dispositivo cénico
João Bastos Composição Músical
Rodolfo Pimenta Vídeo
Susana Malhão Designer Gráfica
Produção durante o processo de criação Candela Varas
ALGURES, Colectivo de Criação 

"Este espectáculo é um manifesto poético e efémero sobre o “Levantado do Chão”, um solo fragmentado, portátil e maleável (capaz de se adaptar a vários espaços e públicos).

Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade.

Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto.

Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado.

Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar."

Promo #1 - aqui via YouTube

"Se no primeiro espectáculo em torno da obra, reflectimos sobre o estado da nossa democracia, neste reflectiremos sobre a condição humana. A metáfora da pedra e da estátua que Saramago usou para descrever as duas fases da sua criação literária adapta-se na perfeição ao que será agora o nosso objecto artístico: se na primeira fase enquanto escritor, na qual se inclui “Levantado do Chão”, o autor descreve a superfície da pedra, numa segunda fase após “Evangelho Segundo Jesus Cristo” há uma tentativa de descrever o interior da pedra, ou seja existe a ambição de alcançar um entendimento do interior do ser humano, filosoficamente falando.

O propósito é levar estas reflexões em torno das palavras de Saramago a muitos lugares, conseguir criar um objecto que comunique com as diversas comunidades onde se inscreve.

Saramago um dia afirmou, numa entrevista conduzida por Ernesto Sampaio, que se imaginava “a contar este Levantado do Chão a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados (…) e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova. É maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.” Levantado do chão é um livro para ser contado e cantado em voz alta, bem alta!!

Este é um solo de um contador de histórias que gosta de estar ali. Um solo de um músico de intervenção. Um solo de actor que se inquieta com o estado das coisas. Este é um trabalho de uma equipa séria e divertida.

Este é um regresso a uma casa onde tudo foi intenso. Uma casa que foi abandonada e que está fechada apanhando pó. Uma casa cheia de utopias – até parece uma palavra distante. Quando era miúdo agarrava na guitarra e tocava as músicas do Zeca, do Fausto e do Godinho com aquele desejo ter vivido aqueles tempos. E questionava-me se naquela altura eu teria tido a lucidez para me aperceber para saber de que lado da trincheira devia estar."

Promo #2 - aqui via YouTube

"E agora? Falemos do agora. Será que entretanto entaiparam a casa que não tinha muros no jardim? Será que em cada instante sabemos de que lado da trincheira estamos. Será que conseguimos sempre pensar pela nossa cabeça? Será que estamos sempre certos e centrados nas nossas opções? Será que existe esse questionamento, ou essa vontade?

Em situações delicadas politicamente vamos sempre lá atrás buscar os hits das lutas passadas para tentar galvanizar uma massa (conformada) que não tem curiosidade de saber para onde nos estão a puxar. Trazemos para o presente essas músicas porque nos identificamos ou, talvez, porque já são património de uma união em épocas difíceis/vitoriosas – é mais fácil assim, dirão uns.

Mas dessa forma não se banalizarão as épocas, a luta e a própria música? E será que as lutas de hoje são as mesmas de então? Seremos nós como os nossos pais?

Serão precisas novas músicas e mais do que isso novos heróis artistas nestes tempos confusos. Não que queira inscrever o meu nome como herói – talvez em sonhos gostasse dessa ideia, mas não fui talhado para isso -, apenas vou fazendo a minha parte. Porém, talvez a arte devesse ter essa função. Essa inscrição! Talvez seja necessário que ela perca tudo… que ela passe por uma carestia! Talvez para sermos heróis tenhamos de estar ainda mais F**** já me faltam as palavras. Primeiro temos de fazer o que não queremos para depois fazermos o que realmente queremos? Que mundo queremos afinal?

Parafraseando Fausto Bordalo Dias “a ditadura proletária já morreu, mas nasceu a ditadura dos mercados.” E se eu tivesse a oportunidade de conhecer estes tais senhores dos mercados apenas lhes poderia dizer: A MINHA GUITARRA É CONSTANTE E ROSNA! É tempo de levantar do chão!"

"A Caverna" - J.J. Armas Marcelo entrevista José Saramago (TVE2 - 10/01/2001)

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui

Juan Jesús ("Juan José") Armas Marcelo entrevista a José de Sousa Saramago 
(Premio Nobel de Literatura en 1998) con motivo de la publicación de su libro “La Caverna”.
Emitido el miércoles 10 de enero de 2001.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Luis Pastor a Saramago - "En balsa de piedra" - Orquestra Athanor / Auditório Pilar Bardem em Rivas


Pode ser visualizado via YouTube, aqui


Tomada de posição conjunta da UNIA e Fundação José Saramago sobre a crise dos refugiados

Declaración del grupo de trabajo UNIA-Fundación Saramago 
"ante la gravedad de la situación de los refugiados en el Mediterráneo"

Grupo de Trabalho

"Pedimos la elaboración de una política europea común de asilo, basada en la solidaridad y la gestión humana de la demanda migratoria"

El grupo de trabajo conformado por responsables de la Fundación José Saramago y la Universidad Internacional de Andalucía (UNIA) se ha reunido en Sevilla, contando con la participación del rector de la UNIA, Eugenio Domínguez Vilches, la presidenta y el director de la Fundación, Pilar del Río y Sergio Letria, respectivamente; el vicerrector de la UNIA Manuel Torres; el polítólogo y profesor invitado de la UNIA Sami Naïr; el catedrático emérito de la Universidad de Sevilla Javier Pérez Royo; el escritor Sealtiel Alatriste, y los investigadores y profesores de las universidades portuguesas de Coimbra, Lusofona y Évora: Manuel Carvalho da Silva, Jose Castro Caldas y Manuel Branco.

Dicho grupo ha acordado realizar una declaración "ante la gravedad de la situación de los refugiados en el Mediterráneo", que se adjunta a continuación y de forma íntegra: 

"Ante la situación trágica de los refugiados en Oriente medio, Africa y Europa; nosotros, el grupo de trabajo de la UNIA-Fundación Saramago para la redacción de la carta de los Deberes y obligaciones de los seres humanos, reunidos en Sevilla; pedimos, tanto a los Estados nacionales como a las autoridades europeas, respetar el espíritu y la letra de los convenios internacionales vigentes sobre esta materia.

Hay que cumplir con la Convención de Ginebra sobre el derecho de asilo, con la directriz del procedimiento de 2005, 85-CE, así como de la Carta de Derechos fundamentales de la Unión Europea (UE), art. 19; que prohíbe las expulsiones colectivas; todos documentos adoptados por la UE y que protegen el respeto de la dignidad de los refugiados.

Pedimos la elaboración de una política europea común de asilo, basada en la solidaridad y la gestión humana de la demanda migratoria".

domingo, 13 de março de 2016

"Registos de uma vida" Pintor Luís Dourdil

"Ciclo de performances que juntaram na década de 80 - Artes Plásticas, Poesia e Música. 
Galeria São Bento em Lisboa.
Artur Bual, José Saramago, Gracinda Candeias entre outros."




Equívoco de Jesus e o relato do episódio do afogamento dos porcos em "O Evangelho segundo Jesus Cristo"

Imagem sobre o afogamento dos porcos

(...) Vinha a besta-fera estendendo as garras e arreganhando os colmilhos, donde pendiam restos de carnes putrefactas, e os cabelos de Jesus arrepiavam-se de terror, quando a dois passos se prostra no chão o endemoninhado e clama em voz alta, Que queres de mim, ó Jesus, filho do Deus Altíssimo, por Deus te peço que não me atormentes. Ora, esta foi a primeira vez que em público, não em sonhos privados, dos quais a prudência e o cepticismo sempre aconselharam a duvidar, uma voz se levantou, e voz diabólica ela era, para anunciar que este Jesus de Nazaré era filho de Deus, o que ele próprio até aí ignorava, pois durante a conversa que entretivera com Deus no deserto a questão da paternidade não fora abordada, Vou precisar de ti mais tarde, foi tudo quanto lhe disse o Senhor, e nem sequer era possível tirar pelas parecenças, tendo em conta que o pai se lhe mostrara em figura de nuvem e coluna de fumo. O possesso revolvia-se aos seus pés, a voz dentro dele pronunciara o até hoje impronunciado e calara-se, e nesse instante, Jesus, como quem acabasse de reconhecer-se noutro, sentiu-se, também ele, como que possesso, possesso de uns poderes que o levariam não sabia aonde ou a quê, mas sem dúvida, no fim de tudo, ao túmulo e aos túmulos. Perguntou ao espírito, Qual é o teu nome, e o espírito respondeu, Legião, porque somos muitos. Disse Jesus, imperiosamente, Sai desse homem, espírito imundo. Mal o dissera, ergueu-se o coro das vozes diabólicas, umas finas e agudas, outras grossas e roucas, umas suaves como de mulher, outras que pareciam serras a serrar pedra, umas em tom de sarcasmo provocante, outras com humildades falsas de mendigo, umas soberbas, outras de lamúria, umas como de criancinha que aprende a falar, outras que eram só grito de fantasma e gemido de dor, mas todas suplicavam a Jesus que os deixasse ficar ali, nestes sítios que já conheciam, que bastaria dar-lhes ele a ordem de expulsão e sairiam do corpo do homem, mas que, por favor, os não expulsasse da região. Perguntou Jesus, E para onde querem vocês ir. Ora, ali próximo do monte andava a pastar uma grande vara de porcos, e os espíritos impuros imploraram a Jesus, Manda-nos para os porcos e entraremos neles. Jesus pensou e pareceu-lhe que era uma boa solução, considerando que aqueles animais deviam ser pertença de gentios, uma vez que a carne do porco é impura para os judeus. A ideia de que, comendo os seus porcos, poderiam os gentios ingerir também os demónios que dentro deles estavam e ficar possessos, não ocorreu a Jesus, como também não lhe ocorreu o que depois desgraçadamente aconteceu, mas a verdade é que nem mesmo um filho de Deus, aliás ainda não habituado a tão alto parentesco, poderia prever, como no xadrez, todas as consequências dum simples lance, duma decisão simples. Os espíritos impuros, excitadíssimos, esperavam a resposta de Jesus, faziam apostas, e quando ela veio, Sim, podem passar para os porcos, deram em uníssono um grito descarado de alegria e, violentamente, entraram nos animais. Fosse pelo inesperado do choque, fosse por não estarem os porcos habituados a andar com demónios dentro, o resultado foi enlouquecerem todos num repente e lançarem-se do precipício abaixo, os dois mil que eram, indo cair ao mar, onde morreram afogados todos. Não se descreve a raiva dos donos dos inocentes animais que ainda um minuto antes andavam no seu sossego, fossando nas terras brandas, se as encontravam, à procura de raízes e vermes, rapando a erva escassa e dura das superfícies ressequidas, e agora, vistos cá de cima, os porquinhos faziam pena, uns já sem vida, boiando, outros, quase desfalecidos, faziam ainda um esforço titânico para manter as orelhas fora de água, pois é sabido que os porcos não podem fechar os condutos auditivos, entra-lhes por ali a água em caudal e, em menos que um ámen, ficam inundados por dentro." (...) 

in, "O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho, páginas 354 e 355



sábado, 12 de março de 2016

"Aproximação a uma textura do pintor" - Sobre José Santa-Bárbara

"Aproximação a uma textura do pintor" 

A unidade e o plural
Algumas das obras de José Saramago apresentam a curiosidade de as suas personagens serem identificadas e incorporadas na acção desprovidas de nome próprio. É o caso do "Manual de Pintura e Caligrafia" com a simples e residual identificação através de letras maiúsculas, ou os dois "Ensaios", o da Cegueira e Lucidez, e também em "As Intermitências da Morte". Nestas obras existem características da personagem que se sobrepõem ao seu nome, entre outros são o caso por exemplo do violoncelista, da mulher do médico, do presidente da câmara. As personagens foram assim identificadas ao mesmo tempo que o autor criou espaço e estrutura para uma aproximação à causa (ou acção) em detrimento da sua nomeação. A causa ou a acção é plural e não reduzida pelo individuo, lá caberão todos os nomes. 
Ao invés, outras obras como o "Levantado do Chão" ou o "Memorial do Convento", revestem-se de um carácter plural, onde a nomeação dos seus interpretes são acima de tudo sinónimo de unificação de classes da sociedade que se encontram menos representadas ou em posição de subalternidade e dependência para com os poderes instituídos. Será transversal e constante em toda a sua obra, as vozes e palavras dos considerados mais fracos e desprotegidos. As "vozes" e a coloquialidade que se manifestam em diversos momentos; por exemplo, nas lutas dos camponeses das terras alentejanas ("Levantado do Chão") ou dos operários na construção do Convento de Mafra ("Memorial do Convento"), ultrapassam a dimensão física que cada nome pode personalizar enquanto unidade ou individuo, para se revestir de uma dimensão absolutamente colectiva.
Em suma, a atribuição de um nome à personagem ou a recusa da sua nomeação, produzirão o mesmo efeito - a transmissão da voz e da mensagem de todos através de um, seja ele o "cão das lágrimas" ou a "Blimunda".

José Santa-Bárbara    
A obra do artista plástico e pintor José Santa-Bárbara (que aqui recupero duas pinturas emblemáticas), no que se refere à sua abordagem da temática Saramaguina, é no meu entendimento sem querer de alguma forma ser redutor, a soma das vontades e desassossegos que José Saramago gerou em cada personagem. 
Algo que me fascina profundamente nesta complementaridade entre "Josés", Saramago e Santa-Bárbara, e que me permite perceber a existência de uma atmosfera de cumplicidade, absoluto conhecimento mútuo das obras e quase transferência de conteúdos (pintor e escritor), é a forma como o pintor consegue absorver o espírito, tanto ao nível da cena do livro e personagem, como da obra em termos gerais, para dar corpo e textura visual a algo que em geral não é identificável ou identificado por palavras do escritor e transportar assim para a tela o corpo de um sentimento ou sensação de personagem.

Aqui presto a minha homenagem ao artista José Santa-Bárbara, criador destas sensações que aqui quis deixar testemunho.

Rui Santos (12/03/2016)   

Aqui deixo o enquadramento das pinturas com alusão a fonte do texto
"O cão das Lágrimas" Pintura a óleo de José Santa-Bárbara

(...) "A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele. Quando enfim levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu tinha diante de si um grande mapa (...) 

(...) Os cães foram ficando para trás, alguma coisa os distraiu pelo caminho, ou estão muito habituados ao bairro e não querem deixá-lo, só o cão que tinha bebido as lágrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro da mulher e do mapa, tão bem preparado pelo destino, incluía também um cão. O certo é que entraram juntos na loja, o cão das lágrimas não estranhou ver pessoas estendidas no chão, tão imóveis que pareciam mortas, estava habituado, às vezes deixavam-no dormir no meio delas, e quando era hora de se levantarem, quase sempre estavam vivas. (...)

(...) Acordem, se estão a dormir (...) 

(...) Tem, porém, a palavra comida poderes mágicos, mormente quando o apetite aperta, até o cão das lágrimas, que não conhece linguagem, se pôs a abanar o rabo, o instintivo movimento fê-lo recordar-se que ainda não tinha feito aquilo a que estão obrigados os cães molhados, sacudirem-se com violência, respingando quanto estiver ao redor (...)

in, "Ensaio sobre a Cegueira"
Caminho, páginas 226 e 227 (1995)


Blimunda "Nunca te olharei por dentro" - Óleo sobre Tela (60*73cm)
de José Santa-Bárbara (Informação livro/catálogo "Vontades")

(...) "Se começa a chover, não teremos onde recolher-nos, depois levanta os olhos para as nuvens, é uma única placa sombria, cor de ardósia, Se as vontades são nuvens fechadas, quem sabe se não ficarão presas nestas, tão escuras e grossas que nem o próprio sol se vê por, trás delas, e Blimunda respondeu, Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti está, Ou de ti, Ou de mim, pudesses tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem, Mas tu nunca viste a minha nuvem, nem a tua, Ninguém pode ver a sua própria vontade, e de ti jurei que nunca te veria por dentro, mas tu, Baltasar Sete-Sóis, minha mãe não se enganou, quando me dás a mão, quando te encostas a mim, quando me apertas, não preciso ver-te por dentro, Se eu morrer antes de ti, peço-te que me vejas, Morrendo tu, vai-se-te a vontade do corpo, Quem sabe. (...)

in, "Memorial do Convento"
Caminho, página 139 (1982, 20.ª edição de 1990)

Citador #46 - “José Saramago, la importancia del no” em entrevista a Christian Kupchik

"Embora soe algo paradoxal, diria que entre história e ficção a diferença não é grande demais. Ao escrever uma história - porque disso se trata -, o historiador faz um pouco o que faz o romancista: escolhe os fatos e os concatena, vale dizer, encontra relações entre eles em função de conseguir um discurso coerente. O mesmo se exige de um romance. Pode ser mágico, fantástico ou qualquer coisa, mas até a fantasia e a imaginação mais disparatadas precisam de uma coerência. Um livro de História apresenta algo predeterminado. Os fatos estão ali, e um fato traz como consequência outro, e outro, e outro. Há uma espécie de fatalidade histórica que faz que as coisas sejam como são e não de outra maneira. Então, ao dirigir os fatos, ao organizá-los, eu diria que o historiador se comporta como um romancista e o romancista como um historiador."
“José Saramago, la importancia del no”
Christian Kupchik entrevista José Saramago para o "El País" (Montevidéu, 09/1995)
Publicado posteriormente em "La Época" (Santiago do Chile, 15/10/1995) 


"Qual é a verdadeira História do cerco de Lisboa?" em entrevista de Clara Ferreira Alves - Expresso (22/04/1989)



"Os problemas do erro e da verdade, ou da verdade e da mentira, são uma constante de todos os meus livros. E lembro que num diálogo entre o Scarlatti e o Bartolomeu de Gusmão (em Memorial do convento), um deles - não me lembro agora qual - diz que acredita nas virtudes do erro. O terreno vago entre o sim e o não é tão largo que nele podemos andar à vontade. E neste livro (História do cerco de Lisboa) chega-se ao fim sem saber que história escreveu o revisor sobre o cerco de Lisboa.
Uma é a história do livro, esse objeto, outra a do historiador, outra a do narrador e outra a literalmente ignorada e sobre a qual o narrador supostamente terá trabalhando, a do revisor. Qual é a verdadeira História do cerco de Lisboa? Nenhuma. A do historiador tem erros, a do revisor está inquinada de um vício fundamental, um não que contradiz os fatos históricos, e a do narrador é subjetiva. Tão pouco é a História do cerco de Lisboa a que vai aparecer nas livrarias, porque essa em si mesma não é coisa nenhuma."
“O cerco a José Saramago”
Clara Ferreira Alves entrevista José Saramago 
Expresso - 22 de Abril de 1989 

sexta-feira, 11 de março de 2016

"Carta aos meus Avós - A partir de Saramago" de André Gois Raposo e Maria Alice Amaro Gois

Pode ser assistido via YouTube, aqui

"Carta aos meus Avós - A partir de Saramago"

"Uma homenagem às avós, aos avôs, aos avós. 
Uma carta que tem as palavras que não são as deles, mas que são para eles. 
A partir da brilhante crónica 
"Carta para Josefa, minha avó" escrita por José Saramago."

Com: André Gois Raposo & Maria Alice Amaro Gois
Realização: André Raposo & João Descalço
Assistente de Realização: Cristiana Morais
Cinematografia & Edição: João Descalço

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal "A Capital", de Lisboa, a crónica "Carta a Josefa", minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro "Deste Mundo e do Outro". Abaixo segue a reprodução da página do jornal A Capital em que foi originalmente publicado o texto.



Link original  para consulta, aqui
em http://www.josesaramago.org/carta-josefa-minha-avo-1978/

"Carta para Josefa, minha avó"

"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e de formadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua." 

José Saramago, jornal A Capital, 1968

"Recordando a José. Voces de mujer en la obra de Saramago" - Homenagem realizada pela "Alfaguara" e "Casa de América" (14/06/2011)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui 
em https://www.youtube.com/watch?v=vwaxXsGszkQ

"Cuando se cumple un año de la pérdida de José Saramago, la editorial Alfaguara y Casa de América hemos querido rendir tributo a este icono de literatura mundial con un homenaje que lleva por título "Recordando a José. Voces de mujer en la obra de Saramago".

El acto, celebrado el pasado 14 de junio de 2011, consistió en una lectura dramatizada de una selección de textos del propio autor realizada por su esposa y traductora, Pilar del Río, y por el director teatral Antonio Castro.

Las actrices Aitana Sánchez-Gijón, Pilar Bardem y Pastora Vega, junto a la bailaora María Pagés, acompañaron a Pilar del Río en la lectura de fragmentos de Ensayo sobre la ceguera, Memorial del convento o Las intermitencias de la muerte, entre otras obras del escritor portugués. El acto fue coordinado por la directora teatral mexicana Gema Aparicio."

Atentados de 11 de Março de 2004 - “O rosto de um povo ferido” - Palavras de José Saramago (Madrid)


“O rosto de um povo ferido” (José Saramago)

"Em Espanha, solidarizar-se é um verbo que todos os dias se conjuga nos seus três tempos: presente, passado e futuro. A lembrança da solidariedade passada reforça a solidariedade de que o presente necessita, e ambas, juntas, preparam o caminho para que a solidariedade, no futuro, volte a manifestar-se em toda sua grandeza. O dia 11 de março não foi só um dia de dor e de lágrimas, foi também um dia em que o espírito solidário do povo espanhol ascendeu ao sublime com uma dignidade que me tocou profundamente e que ainda hoje me emociona quando o recordo. O belo não é só uma categoria do estético, podemos encontrá-lo também na ação moral. Por isso digo que poucas vezes, em qualquer lugar do mundo, o rosto de um povo ferido pela tragédia terá alcançado tanta beleza."

Atentados de 11 de Março de 2004 nos comboios suburbanos 
da linha de Alcalá de Henares, em Madrid,

quinta-feira, 10 de março de 2016

José Saramago e o seu "Camões"


“Entra, chegaste à tua casa”: assim entrou Camões na vida de José Saramago. 
No momento em que Manuel Maria Carrilho, ministro da Cultura de Portugal, anunciava a José Saramago que lhe tinha sido concedido o maior galardão literário da língua portuguesa" (...)
(...) "O animal entrou pela porta aberta do jardim, mexendo sem jeito as pernas, um pouco desajeitado, feliz por ninguém o maltratar. Quando Saramago apareceu a anunciar que tinha recebido o Prémio Camões, soubemos, soubemo-lo nesse instante, que o cão que tinha encontrado a sua casa não ia ter outro nome que o do grande poeta português. E assim, pelo menos em Lanzarote, Camões foi mencionado centenas de vezes por dia, foi vida e foi homenagem. E este cão doce e nobre, que nunca aprendeu a comer devagar porque até chegar à Casa tinha tido que lutar contra a fome e o abandono, com a sua gravata branca desenhada no pelo negro, que foi o modelo para “O Achado” d’ A Caverna, um cão que, como todos os cães que Saramago inventa, é a melhor resposta animal à melhor consciência humana" (...)

O presente texto, de Pilar del Río, pode ser recuperado através da página da 
Fundação José Saramago, aqui

Feira do Livro de Oslo "Contar a vida de todos e de cada um" Ideias sobre Ficção e História (Cadernos de Lanzarote Diário III - 28/10/1995)

O presente texto, pode ser consultado na página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/contar-a-vida-de-todos-e-de-cada-um/
Está também presente no livro "Cadernos de Lanzarote Diário III", dia 28 de Outubro (Caminho, páginas 180 a 190), relacionado com a sua visita à Feira do Livro de Oslo, acompanhado por Odd Karsten Krogh (editora Cappelen).

"Contar a vida de todos e de cada um"

"Venho falar-vos de História e de Ficção. Venho falar-vos, sobretudo, das ambíguas relações que vêm mantendo nos últimos tempos, uma com a outra, a Ficção e a História, ao ponto de já nos perguntarmos se não estará a haver na História demasiada Ficção e, por outro lado, equilibrando a dúvida, se haverá na Ficção suficiente História… Parecer-vos-á talvez isto um mero jogo de palavras, mas espero, se conseguir levar ao fim os meus raciocínios antes que se acabe a vossa paciência, vir a reunir umas quantas razões que defendam o tema e o absolvam das primeiras suspeitas.

Consideremos, em primeiro lugar, a História como Ficção. Trata-se de uma proposição aparentemente temerária, que poderia mesmo introduzir de modo sub-reptício a insinuação de que não há diferenças substanciais entre Ficção e História. Concluiríamos, neste caso, provavelmente fazendo nascer um novo caos, que tudo no mundo seria Ficção, que nós próprios não seríamos mais do que produtos sempre cambiantes de todas as ficções criadas e a criar, tanto as nossas como as alheias. Seríamos, simultaneamente, os autores e as personagens de uma Ficção Universal sem outra realidade do que ter-se constituído como uma espécie de mundo paralelo. Embora reconheça existir no que acabo de dizer algo do espírito de paradoxo, tentarei pôr do meu lado alguns argumentos acaso dignos de atenção.

Desde logo, de acordo com esta hipótese, a primeira tarefa do historiador seria seleccionar factos, trabalhando sobre aquilo que denominarei tempo informe, quer dizer, esse Passado a que apeteceria chamar puro e simples, se isso não fosse uma contradição em termos. Recolhidos os dados considerados necessários, a segunda tarefa do historiador seria organizá-los de modo coerente, obedecendo ou não a objectivos prévios, mas, em qualquer caso, transmitindo sempre uma ideia de necessidade inelutável, como a expressão de um Destino. Não esqueçamos que tais selecções de factos se exercem, em regra, sobre consensos ideológicos e culturais concretos, os quais fazem da História, entre os diversos ramos do conhecimento, o menos capaz de surpreender.

É indiscutível que o historiador estará obrigado, sempre e em todos os casos, a escolher factos entre factos. É igualmente óbvio que, ao proceder a essa escolha, ele terá de abandonar deliberadamente um número indeterminado de dados, algumas vezes em nome de razões de classe ou de Estado, ou de natureza política conjuntural, outras vezes acatando, conscientemente ou não, as imposições duma estratégia ideológica que necessite, para justificar-se, não da História, mas de uma História. Esse historiador, na realidade, não se limitará a escrever História. Ele fará História. O historiador, desde que consciente das consequências políticas e ideológicas do seu trabalho, tem de saber que o Tempo que assim esteve a criar vai aparecer aos olhos do leitor como uma lição magistral, a mais magistral de todas as lições, já que o historiador surge ali como definidor de um certo mundo entre todos os mundos possíveis. Nesse outro acto de Criação, o historiador decide o que do Passado é importante e o que do Passado não merece atenção.

Algumas vezes, no entanto, este poder autoritário parece não ser bastante para libertar-nos daquele horror ao vazio que, sendo uma das características dos povos primitivos, vem, afinal, a encontrar-se em não poucos espíritos cultivados. Um historiador como Max Gallo começou a escrever romances para equilibrar pela Ficção a insatisfação que lhe causava o que considerava uma impotência real para expressar na História o Passado inteiro. Foi buscar às possibilidades da Ficção, à imaginação, à elaboração sobre um tecido histórico definido, o que sentira faltar-lhe como historiador: a complementaridade duma realidade. Não estaria muito longe deste sentimento, suponho eu, o grande George Duby, quando, na primeira linha de um dos seus livros, escreveu: Imaginemos que… Precisamente aquele imaginar que antes havia sido considerado um pecado mortal pelos historiadores positivistas e seus continuadores de diferentes tendências.

Tenho ouvido que existe uma crise da História, tão grave que ameaça matá-la, ou a matou já… Se assim é – e eu não sou ninguém para ousar pronunciar-me sobre tão transcendente questão –, interrogo-me se tal crise não será causa directa, ainda que não única, da ressurreição, em condições diferentes e com diferentes resultados estáticos, daquilo a que, erradamente a meu ver, continuamos a chamar «romance histórico». E também, se não se tratará, afinal, de uma expressão particular doutra crise mais ampla: a da representação, a crise da própria linguagem como representação da realidade.

Ora, se a crise existe (a da História, ou outra, geral, de que aquela seria apenas uma manifestação parcelar), se em tudo o que nos rodeia é possível encontrar conexões com esta impressão de fim de um tempo que andamos a sentir – então talvez se torne mais claro por que nos estamos voltando para o romance dito histórico, levados por uma ansiedade que decerto faria sorrir com algum desprezo intelectual, se ainda fossem deste mundo, os que, no século passado, fervorosamente acreditavam no Progresso. Olhar-nos-iam com piedade, perguntariam como foi possível que, das sólidas certezas que eles tinham, tivesse nascido esta insegurança que nós temos.

Sou autor de um livro que se chama Viagem a Portugal. Trata-se de uma narrativa de viagem, como tantas que se escreveram nos séculos xvii e xviii, quando a Europa começou a viajar dentro da Europa, e os viajantes descreviam as suas experiências e aventuras, produzindo de caminho alguns documentos literários preciosos, inclusive para o estudo da história das mentalidades. Foi com um espírito afim que viajei por Portugal, foi igualmente com esse espírito que escrevi Viagem a Portugal.

O livro não é, portanto, um roteiro, um guia de viajantes, embora, necessariamente, contenha muito do que se espera encontrar nesse tipo de textos. Fala-se de Lisboa, do Porto, de Coimbra, das cidades do meu país, fala-se das aldeias, das paisagens, das artes, das pessoas. Imaginemos agora que o autor resolveu fazer nova viagem para, terminada ela, escrever outro livro, mas que, nessa segunda viagem, não visitará nenhum dos lugares por onde tinha passado antes. Quer dizer, nesta segunda viagem, o autor não irá a Lisboa, não irá ao Porto, não irá a Coimbra, não irá a nenhum lugar onde já tivesse estado. Contudo, parece-lhe que, com toda a legitimidade, poderá tornar a dar, a esse novo livro, o título de Viagem a Portugal, uma vez que de Portugal continua a tratar-se… Levemos mais longe o jogo e imaginemos que o autor fará uma terceira, uma quarta, uma quinta, uma décima, uma centésima viagem, obedecendo sempre ao princípio de nunca ir aonde foi antes, e que escreverá outros tantos livros, em que, por fim, inevitavelmente, deixará de haver qualquer alusão a nomes de lugares habitados, nada a não ser a simples descrição de uma imagem, aparentemente sem quaisquer pontos de identificação com a entidade cultural e histórica a que damos o nome de Portugal. A pergunta derradeira será esta: pode ainda o centésimo livro chamar-se Viagem a Portugal? Respondo afirmativamente: podemos e devemos chamar-lhe Viagem a Portugal, mesmo que o leitor não consiga reconhecer nele, por mais atento que esteja à leitura, o país que lhe foi prometido no título…

Este jogo, ainda que à primeira vista não o pareça, tem muito que ver com a relação que mantemos com a História. Diria eu que a História, tal corno foi escrita, ou – repetindo a provocação – tal como a fez o historiador, é o primeiro livro. Não esqueço, obviamente, que o mesmo historiador poderá fazer, ele próprio, outras viagens ao tempo por onde antes viajou, esse tempo que, graças à sua intervenção, vai deixando de ser tempo informe, vai passando a ser História, e que as novas visões, os novos pontos de vista, as novas interpretações irão tornando cada vez mais densa e substancial a imagem histórica que do Passado nos vinha sendo dada. Nas grandes zonas obscuras que sempre existirão, mesmo no que se supõe já conhecido, é que o romancista terá o seu campo de trabalho.

Creio bem que o que está subjacente a esta nova inquietação é a consciência que temos da impossibilidade duma reconstituição plena do Passado. E que, não podendo reconstituí-lo, somos tentados – sou-o eu, pelo menos – a corrigi-lo. Quando digo corrigir, corrigir o Passado, não o é no sentido de emendar os factos da História (essa nunca poderia ser a tarefa de um romancista), mas sim, se se me permite a expressão, introduzir nela pequenos cartuchos que façam explodir o que até aqui parecia indiscutível; por outras palavras, substituir o que foi pelo que poderia ter sido. Certamente se argumentará que se trata de um esforço gratuito, inútil, uma vez que o que hoje somos não resultou do que poderia ter sido, mas do que efectivamente é . No entanto, é minha convicção de que se a leitura histórica feita pelo romance for uma leitura crítica, essa nova operação poderá provocar uma espécie de instabilidade, de vibração temporal, uma perturbação causada pelo confronto entre o que sucedeu e o que poderia ter sucedido, como se os factos começassem, saudavelmente, a duvidar de si mesmos…

São duas as atitudes possíveis ao romancista que escolheu, exclusiva ou acidentalmente, os caminhos da História: a primeira, discreta e respeitosa, consistirá em reproduzir, ponto por ponto, os factos históricos conhecidos, sendo a ficção, nesse caso, mera servidora duma fidelidade que se deseja a salvo de acusações de falta de rigor de qualquer tipo; a segunda, mais ousada, levará o autor a entretecer num tecido ficcional que se vai manter predominante os dados históricos que lhe servirão de suporte. Num caso como no outro, porém, estes dois vastos mundos, o mundo das verdades históricas e o mundo das verdades ficcionais, aparentemente inconciliáveis, serão harmonizados pela instância narradora.

Está aqui, a meu ver, a questão essencial. Conhecemos aquele narrador que se comporta de um modo imparcial, que vai dizendo o que acontece, conservando sempre a sua própria subjectividade fora dos conflitos de que é espectador e relator. Mas há um outro tipo de narrador, muito mais complexo, que não tem uma voz única: é um narrador que parece substituível, um narrador que o leitor vai reconhecendo constante ao longo da narrativa, mas que muitas vezes lhe dará a impressão estranha de ser outro. Digo outro porque ele variou de ponto de vista, podendo chegar até a criticar o ponto de vista daquele que foi primeiro narrador. Esse narrador instável será também o instrumento ou o sopro de uma voz colectiva. Será igualmente uma voz particular que não se sabe donde vem e que se recusa a dizer quem é, ou usa de arte bastante para levar o leitor a sentir-se identificado com ele, a ser, de algum modo, ele. E pode, enfim, mas não explicitamente, ser a voz do próprio autor: este, que fabricou todos os seus narradores, não está reduzido a saber só o que as suas personagens sabem, ele sabe que sabe e quer que isso se saiba… 

O que aconteceu, o que acontece e o que acontecerá. Graças a esta forma de conceber, não apenas o tempo histórico, mas o Tempo tout court projectando-o, por assim dizer, em todas as direcções, autorizo-me a pensar que o meu trabalho no campo do romance é capaz de produzir algo como uma oscilação contínua em que o leitor directamente participa, graças a uma contínua provocação que consiste em ser-lhe negado, por processos que são sempre de raiz irónica, o que primeiro lhe havia sido dito, criando no seu espírito uma impressão de dispersão da matéria histórica na matéria ficcionada, o que não só não significa desorganização de uma e de outra, como aspira a ser uma reorganização de ambas.

Admito que a declaração inicial, de ser o historiador um seleccionador de factos, pareça demasiado crua e chocante. Direi, então, em termos mais técnicos, citando um teórico da literatura, que «o historiador realiza uma rarefacção do referencial, criando uma espécie de malha larga, perfeitamente tecida, mas que envolve espaços de obscurecimento ou de redução dos factos». Ora, deste ponto de vista, parece-me bastante pertinente dizer que a História se nos apresenta como um parente próximo da Ficção, porquanto, ao «rarefazer o referencial», procede a omissões voluntárias de que irão resultar modificações no panorama do período observado, com a forçosa consequência do estabelecimento de relações diferentes entre os factos «sobreviventes». Aliás, é interessante verificar como certas escolas históricas recentes começaram a sentir-se inquietas quanto ao rigor efectivo duma História como a que vinha sendo feita. Lendo esses historiadores, temos a impressão de estar diante de um romancista dado aos temas históricos, não porque eles escrevam História romanceada, mas porque reflectem uma insatisfação tão profunda que, para aquietar-se, teve de abrir-se à imaginação, uma imaginação que manterá como suporte essencial os factos da História, mas que abandonará a sua antiga e exclusiva relação com eles, de sujeição resignada ao império em que se tinham instituído. Não faltará quem considere que, por esta via, a História se tornou menos científica. É uma questão em cuja discussão não me atreveria a participar. Como romancista, basta-me pensar que sempre será melhor ciência aquela que for capaz de me proporcionar urna compreensão dupla: a do Homem pelo Facto, a do Facto pelo Homem.

Quando olho o Passado, a impressão mais forte é a de estar perante um imenso tempo perdido. A História, e também a Ficção que busca na História o seu objecto, são, de alguma maneira, viagens através do tempo, percursos, definições de itinerários. Apesar de tanta História escrita, apesar de tanta Ficção sobre casos e pessoas do Passado, é esse tempo enigmático, a que chamei perdido, que continua a fascinar-me. Para dar um só exemplo, interessa-me, claro está, a batalha de Austerlitz, mas interessar-me-ia muito mais conhecer as pequenas histórias que vieram a ser consequência dessa História de formato grande, alcançar uma compreensão real das inúmeras e ínfimas histórias pessoais, desse tempo angustiosamente perdido e informe, o tempo que não retivemos, o tempo que não aprendemos a reter, a substância mental, espiritual e ideológica de que afinal somos feitos.

É fácil dizer – eu próprio cedi algumas vezes à comodidade de tão flagrante tautologia – que, sendo certo que fora da História nada existe, toda a Ficção é, e não pode deixar de ser, «histórica». Mas não têm faltado espíritos sarcásticos para insinuar que um romancista que trabalhe literariamente sobre a História procede assim por necessidade de evasão, por incapacidade de entender o Presente e de se adaptar a ele, do que resultaria ser o «romance histórico» o mais acabado exemplo de fuga à realidade. É uma acusação tão fácil quanto habitual. Pelo contrário, é precisamente uma consciência intensíssima, dolorosa, do Presente, que leva este romancista a olhar na direcção do Passado, não como um inalcançável refúgio, mas para conhecer-se melhor. Não estou a dizer nada de original. No seu livro O Mediterrâneo, Fernand Braudel escreve, com a simplicidade duma revelação, algumas linhas que resumem quanto aqui tenho dito: «A História não é outra coisa que uma constante interrogação dos tempos passados, em nome dos problemas, das curiosidades, e também das inquietações e angústias com que nos rodeia e cerca o tempo presente».

Observe-se como tal definição poderia ser transportada, palavra por palavra, para o Romance. Direi igualmente que o «romance histórico», também ele, «não é outra coisa que uma constante interrogação dos tempos passados, em nome dos problemas, das curiosidades, e também das inquietações e angústias de que nos rodeia e cerca o tempo presente». Assim sendo, História e Romance seriam tão-somente expressões da mesma inquietação dos homens, os quais, como múltiplos Janos bifrontes, voltados a uma e a outra parte, e do mesmo modo que tentam desvendar o oculto rosto do Futuro, teimam em procurar, na impalpável névoa do Tempo, um Passado que constantemente se lhes escapa e que hoje, talvez mais do que nunca, quereriam integrar no Presente que ainda são.

Benedetto Croce escreveu um dia: «Toda a História é história contemporânea». É também à luz destas palavras reveladoras que tenho vindo a realizar o meu trabalho de escritor, embora esteja pronto a reconhecer que o Mestre merecia um aluno mais capaz e que a lição teria o direito de esperar frutos mais saborosos."
José Saramago

José Saramago : «Il faudrait réformer la démocratie» - Lucie Geffroy entrevista José Saramago para o "L’Orient Littéraire" (02/08/2007)

"Primeiro, gosto das mulheres. Penso que elas são mais fortes, mais sensíveis e que elas têm mais bom-senso do que os homens. Todas as mulheres do mundo não são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são um negócio de homem. Durante séculos, a mulher teve de pedir licença ao seu marido ou ao seu pai para empreender o que quer que fosse. Como pudemos viver tanto tempo a condenar a metade da humanidade à subordinação e à humilhação?"
"José Saramago: ‘Il faudrait réformer la démocratie"
”, L’Orient le Jour, Beirute, 2 de agosto de 2007 - Entrevista realizada por Lucie Geffroy

Fotografia © Hannah / Opale

A entrevista pode ser aqui consultada, via
http://www.lorientlitteraire.com/article_details.php?cid=6&nid=5853

"Aux points cardinaux d’une bibliographie épaisse, éclectique et baroque, on compte un roman culte, Le dieu manchot, un vibrant hommage à Pessoa (L’année de la mort de Ricardo Reis), une version subversive de l’Évangile (L’Évangile selon Jésus-Christ) et une fable toute kafkaïenne (Tous les noms). La lucidité, son dernier roman traduit en français, une fois de plus mené tambour battant avec des dialogues qui s’enchaînent sans guillemets et un récit qui bascule brutalement dans le fantastique, est un autre livre de colère où l’auteur s’insurge cette fois-ci contre la prétendue démocratie... Avec la simplicité qui caractérise les grands hommes, José Saramago a reçu L’Orient Littéraire dans sa petite maison de Lisbonne. À 84 ans, il n’a rien perdu de son mordant.

Vous avez dit de La lucidité, traduit en français fin 2006, qu’il s’agissait de votre livre le plus subversif. Pourquoi ? 
Dans nos sociétés, les hommes politiques et les médias ont beaucoup de motifs de se taire. Certains sujets sont comme entourés d’une enveloppe de silence. La briser, c’est faire acte de subversion. Avec La lucidité où j’imagine que 80% des électeurs votent blanc, on a pensé que j’étais favorable à la généralisation du vote blanc et donc un ennemi de la démocratie. Je ne fais pas l’apologie du vote blanc. Je dis seulement qu’il est important de le distinguer de l’abstention. Les gens qui votent blanc prennent le soin de sortir de chez eux, de se déplacer et de déposer un bulletin qui signifie : ce que vous me proposez ne m’intéresse pas. En France, le vote blanc est considéré comme nul. Je trouve cela scandaleux !

Justement, votre roman peut se lire comme une critique acerbe d’un système démocratique en décadence. La démocratie est-elle en danger selon vous ? 
Non, elle n’est pas en danger, mais elle est amputée, dévoyée. Elle est devenue une comédie. Les candidats font des promesses et les oublient aussitôt. Ce n’est pas vrai que nous vivons en démocratie. Nous nageons en pleine ploutocratie. Or le citoyen est la première victime du mensonge généralisé. Qu’est-ce que la guerre en Irak, sinon un énorme mensonge ? Nous vivons à une époque où l’on peut discuter de tout sauf de la démocratie. Qu’est-elle devenue ? À quoi sert-elle ? Si on se posait ces questions, on arriverait à la conclusion qu’il faudrait sans doute la réformer. Aristote avait établi que dans un système démocratique, le Parlement devait être composé d’une majorité de pauvres et d’une minorité de riches. Maintenant, je me dis qu’Aristote devait être un précurseur de l’humour noir.

En épigraphe de La lucidité, vous avez inscrit : « Hurlons, dit le chien. » À la fin de l’ouvrage, il est question de nouveau d’un chien qui hurle. Pourquoi ces évocations ? 
Le chien de l’épigraphe, c’est vous, c’est moi, c’est tout le monde. C’est quelqu’un qui en a marre d’avoir parlé toute sa vie, pour qui parler ne suffit plus. Alors hurler devient une nécessité. À la fin du livre, le chien hurle parce qu’il assiste à ce qu’on peut considérer comme un crime d’État. À côté de lui, un aveugle dit avoir horreur des chiens qui hurlent. C’est une façon d’illustrer que ceux qui ne veulent pas voir la vérité en face se voilent la face. D’un point de vue littéraire, j’aime l’idée de conclure un roman sur le hurlement d’un chien. L’image symbolise la question que je pose dans tous mes romans : que signifie la vie ?

D’ailleurs dans vos œuvres, le chien est souvent un personnage à part entière, parfois doté de pouvoirs magiques.
Oui, pour moi, le chien est l’incarnation de la pureté morale. Dans La lucidité, il vient secourir sa maîtresse et lèche ses larmes. Quand je ne serai plus de ce monde, avant la fin de l’oubli de tout ce que j’ai écrit, j’aimerais que « le chien des larmes » soit toujours présent. Comme un personnage immortel. Je suis très heureux d’avoir inventé ce chien-là et de l’avoir nommé ainsi.

Vous avez participé en 1974 à la Révolution des œillets qui entraîna la chute de la dictature salazariste et n’avez jamais caché vos engagements politiques. Êtes-vous toujours membre du Parti communiste ? 
Bien sûr ! Vous vous demandez comment je peux encore être communiste presque 20 ans après la chute du mur de Berlin ? Tout simplement parce que je ne pourrais jamais être favorable au capitalisme. C’est à cause des hormones que la barbe pousse, n’est-ce pas ? Alors disons que je suis un communiste hormonal. C’est en moi. Je n’y peux rien. C’est aussi un état d’esprit. Brejnev, Staline et bien d’autres ont très vite perdu leur état d’esprit communiste. On voit ce que ça a donné...Quant à la Chine, qu’on arrête de dire qu’il s’agit d’un pays communiste alors qu’une économie ultracapitaliste s’y développe depuis des années.

Dans La lucidité, un personnage féminin se distingue par sa force morale et son insoumission. Dans Le dieu manchot, Blimunda avait la faculté de voir à l’intérieur des êtres. La plupart de vos romans mettent en scène des personnages féminins très forts. Les femmes ont-elles particulièrement marqué votre vie ? 

D’abord, j’aime les femmes. Je trouve qu’elles sont plus fortes, plus sensibles et qu’elles ont plus de bon sens que les hommes. Toutes les femmes du monde ne sont pas comme ça, mais disons qu’il est plus facile de trouver des qualités humaines chez elles que dans le genre masculin. Tous les pouvoirs politiques, économiques, militaires sont une affaire d’homme. Pendant des siècles, la femme a dû demander la permission à son mari ou à son père pour entreprendre quoi que ce soit. Comment a-t-on pu vivre aussi longtemps en condamnant la moitié de l’humanité à la subordination et à l’humiliation ? Les hommes et les femmes hier, les Juifs et les Palestiniens aujourd’hui, je suis frappé par l’incapacité des humains à vivre ensemble dans le respect mutuel. Comme si l’Autre devait nécessairement être un ennemi. L’Autre est simplement l’Autre. L’Autre est comme moi. Il a le droit de dire « je ». Nous, hommes blancs, civilisés et riches, n’acceptons pas que l’Autre dise « je ».

C’est pour leur rendre justice que vous faites cette place aux femmes dans vos romans ? 
À vrai dire, je ne le fais pas exprès. À l’heure de commencer un roman, je ne cherche pas à tout prix un personnage féminin. C’est l’histoire qui me l’impose. Quand je vois une femme arriver dans le récit pleine de force et de lucidité, je lui dis tout simplement : soyez la bienvenue.

Dans Manuel de peinture et de calligraphie, vous mettez en scène l’histoire d’un homme qui s’interroge sur les fondements de l’art. H. est un peintre qui s’accomplit par l’écriture. Vous-même, pourquoi écrivez-vous ? 
Je crois que l’écrivain écrit pour lui-même. Il n’est pas là pour sauver le monde. Tout au plus, l’écrivain établit des passerelles avec ses lecteurs. Le jour où un lecteur se reconnaît dans ce qu’il lit et qu’il pense : « Si je savais écrire, je dirais cela », alors un nouveau rapport s’établit. Le livre est un pont à sens unidirectionnel qui va du lecteur à l’écrivain et tisse un lien affectif. D’ailleurs, je trouve que dans les éditions des œuvres complètes d’écrivains, il serait bon de glisser quelques lettres de lecteurs. Ce qui est intéressant, ce n’est pas lorsque le lecteur raconte qu’il a adoré votre livre, mais quand il parle de lui. On ne peut que pleurer d’émotion. L’humanité est là, dispersée dans ces lettres.

On sait que vous êtes un admirateur de Fernando Pessoa qui vous a inspiré un roman intitulé L’année de la mort de Ricardo Réis dans lequel vous imaginez la vie de l’un de ses hétéronymes. Plus généralement, quels sont vos maîtres en littérature ? 
Si je devais composer ma famille d’esprit, j’y inscrirais Gogol, Kafka, Montaigne, Cervantès et aussi Antoniu Viél. Antoniu Viél est un jésuite portugais du XVIIe siècle. C’était un mulâtre. Selon moi, on n’a jamais écrit le portugais aussi magnifiquement. Mais si je devais choisir « mon » écrivain, je dirais sans hésiter Franz Kafka. Bien sûr il y a Faulkner, Proust, etc. Mais Kafka est, selon moi, le plus grand romancier du XXe siècle. Il a annoncé ce que nous sommes en train de vivre : l’ère de la bureaucratie totale.

Lisez-vous vos contemporains ? 
En ce moment, je lis La porte du soleil du romancier libanais Élias Khoury. C’est remarquable. J’aime beaucoup la Colombienne Laura Restrepo. En France et en Italie, je trouve moins d’auteurs qui me plaisent. Une littérature « light » a envahi les librairies. C’est bien dommage. Le problème, c’est que je n’ai plus le temps de lire. Je relis des œuvres plus que je ne découvre de nouveaux écrivains. Actuellement, je me replonge dans La vie de Samuel Johnson, de James Boswell. Un pur chef-d’œuvre.

Vos derniers romans semblent plus réalistes que les précédents. Comment expliquez- vous cette évolution dans votre écriture ? 
Je crois que L’Évangile selon Jésus-Christ (1992) a marqué un tournant. Même si presque tous mes romans ont en commun de prendre comme point de départ une situation absurde (une épidémie de cécité, un taux d’abstention record, etc.), il me semble qu’avec L’aveuglement, Les intermittences de la mort et La lucidité, je suis allé plus en profondeur dans ce que je voulais exprimer. Dernièrement, j’ai formalisé cette idée avec l’image de la statue et de la pierre. La statue représente la surface et la pierre représente la matière. Avant L’Évangile selon Jésus-Christ, je n’avais fait que décrire la surface. Après, je suis entré davantage dans l’âme humaine, là où la pierre ne sait pas qu’elle est statue.

En 1992, vous vous êtes exilé aux Canaries suite à la publication de L’Évangile selon Jésus-Christ qui, selon le gouvernement, « portait atteinte au patrimoine religieux des Portugais ». Vous n’avez jamais regretté cette décision ? 
Vous savez, je ne suis pas Salman Rushdie non plus ! À sa sortie, L’Évangile devait concourir à un prix littéraire européen, mais le gouvernement portugais a refusé d’y inscrire mon livre. J’ai trouvé ça stupide et je l’ai dit. Le problème a même été débattu au Parlement ! C’est alors que Pilar, ma femme, m’a suggéré que l’on fasse construire une maison à Lanzarote et qu’on parte vivre là-bas. Ma première réaction typique de mâle a été de répondre non. Ma deuxième réaction a été de dire : on va étudier la question. Ma troisième réaction, encore très masculine, a été de me réapproprier cette très bonne idée (rires). J’aime être là-bas, dans cette maison perdue au milieu de nulle part. Mais je n’ai jamais rompu avec mon pays d’origine. J’ai gardé une maison ici et j’y reviens souvent.

À quoi travaillez-vous actuellement ?
Mon dernier livre, Mes petits Mémoires, a été publié en décembre. Ce sont mes Mémoires reconstitués de mes 6 à 15 ans. Il est déjà sorti en Amérique du Sud, en Espagne, en Italie et devrait bientôt être traduit en français. Maintenant, j’ai une nouvelle idée. J’ai déjà commencé à prendre des notes, mais le moment de la rédaction n’est pas encore arrivé. Comme je le dis souvent, la première condition pour écrire c’est de s’asseoir. Bientôt arrivera cet instant délicieux de s’asseoir à une table et d’initier l’écriture. J’espère avoir terminé au printemps prochain. Ce ne sera ni du théâtre ni un essai...mais je ne veux pas en dire plus. Je peux seulement vous assurer qu’il s’agira d’un ouvrage difficile et aussi, peut-être, de mon dernier livre. Avec Mes petits Mémoires, c’est comme si une boucle avait été bouclée. Je croyais tenir là mon ultime livre et cela me rendait d’ailleurs très mal à l’aise. Maintenant, je sais qu’il y en aura un autre. À mon âge, ce n’est pas facile de se projeter dans l’avenir. À 70 ans, on peut encore dire « Quand j’aurai 80 ans...  ». Mais à 84 ans, que peut-on dire ?

« La mort ne vous concerne ni mort ni vif ; vif parce que vous êtes ; mort parce que vous n’êtes plus », écrivait Montaigne. Que représente la mort pour vous ? 
Comme je le répète souvent : pour vivre, il faut mourir. Mon père, ma mère, mon frère sont morts. Les faits sont les faits. On ne peut pas les contourner. Combien d’années me reste-t-il à vivre ? Trois, quatre, cinq ans ? Je n’ai pas peur de mourir, mais mon souhait serait de pouvoir écrire jusqu’au dernier jour. C’est par l’écriture que j’ai obtenu une place dans ce monde. Roger Martin du Gard disait : « Une belle vie vaut bien une belle œuvre. » J’ai la vanité de penser qu’à une belle œuvre, je peux ajouter une vie assez belle, marquée par une cohérence personnelle intègre. Un jour, l’essayiste portuguais Eduardo Lourenço a écrit que ma vie était un miracle. Je n’étais pas né pour avoir le prix Nobel. Je suis né dans une famille d’agriculteurs. J’aurais dû devenir paysan. Ma chance a été que mon père « émigre » à Lisbonne. Aujourd’hui, je suis content de mon travail et de ce que j’ai vécu. Je suis aussi très heureux d’avoir connu ma femme. J’avais 63 ans et elle 36 quand nous nous sommes rencontrés, ça a fait beaucoup jaser à l’époque. Mais c’est une femme formidable et aujourd’hui je peux témoigner que le bonheur existe."

quarta-feira, 9 de março de 2016

Imagem de apoio à divulgação do blog


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"A Jangada de Pedra" no dia em que a península parou

Formação rochosa, rasgada com enseada de acesso ao mar
Cabo Espichel (Sesimbra - Portugal) - Fotografia Helena Mesquita

(...) "A península parou. Os viajantes descansarão aqui este dia, a noite e a manhã seguinte. Chove quando vão partir. Chamaram o cão, que durante todas estas horas não se afastou da cova, mas ele não foi, É o costume, disse José Anaiço, os cães resistem a separar-se do dono, às vezes deixam-se morrer. Enganava-se. O cão Ardent olhou José Anaiço, depois afastou-se lentamente, de cabeça baixa. Não o tornaram a ver. A viagem continua. Roque Lozano ficará em Zufre, irá bater à porta de sua casa, Voltei, é a sua história, alguém há-de querer contá-la um dia. Os homens e as mulheres, estes seguirão o seu caminho, que futuro, que tempo, que destino. A vara de negrilho está verde. talvez floresça no ano que vem."

in, "A Jangada de Pedra"
Caminho, 6.ª edição - Página 330

"A esquerda explicada" Texto de José Saramago publicado em "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (15/01/1996)

"José Saramago e Jorge Sampaio num acto da campanha de 1989"

15 de Janeiro (de 1996)
«A esquerda explicada». Assim chamei ao artigo, interrompido não sei quantas vezes por chamadas de Madrid a reclamá-lo com desesperadora urgência. Não sei se os leitores vão realmente encontrar a esquerda explicada. Por mim, penso que esta será uma maneira tão boa como outra de dizer o que a esquerda é: 
«Certamente são muito poucos os espanhóis que têm notícia de ter havido em Portugal, há mais de trinta anos, precisamente em 1962, um vasto movimento de protesto e reivindicação estudantil, de que a Universidade de Lisboa foi um dos principais focos. Menos ainda serão os que ouviram falar da existência, naquela época, entre o corpo docente da Universidade, de um professor que se chamava Luís Filipe Lindley Cintra, filólogo. E não há com certeza um só espanhol que tenha conhecimento de que o secretário-geral do órgão coordenador das diversas associações académicas era então um jovem licenciado em Direito, de 23 anos, chamado Jorge Sampaio. Para entender o que vem a seguir, seria preciso começar por saber isto. Aí fica, pois. 
«Não estarei a caluniar ninguém se disser que, naqueles tempos, quando o fascismo português começou a receber os primeiros golpes duros (o assalto ao navio Santa Maria, o começo da luta independentista de Angola, a invasão de Goa pelas tropas indianas), os eméritos catedráticos da Universidade não eram propriamente pessoas que se distinguissem por cultivar fortes ideais de progresso e manifestar pública ou privadamente insofridas ânsias de liberdade. Digamos que o contrário esteve sempre muito mais perto da verdade. Haveria algumas discretas excepções, e uma ou outra aberta e declarada, como foi o caso do professor Lindley Cintra, que, corajosamente, tomou o partido do movimento estudantil universitário. A gratidão dos estudantes de Direito levou-os, nesses dias, a oferecer ao professor Cintra uma pintura, um quadro em cujo verso, usando as palavras mais simples, sem retórica revolucionária ou qualquer outra, expressaram o respeito e a admiração que ele lhes merecia. 
«Passaram trinta e quatro anos. Dois filhos que o professor tinha, cresceram e tornaram-se homens (um deles, Luís Miguel Cintra, é hoje, sem dúvida, o maior actor português), há poucos anos a morte levou o professor Lindley, o quadro que tinha sido oferecido pelos estudantes de Direito, em 1962, ficou, sem o saber, à espera da segunda parte do seu destino. Que principiou há três dias: depois de obtido o consentimento e a aprovação de seu irmão, Luís Miguel Cintra procurou Jorge Sampaio para lhe entregar o quadro. Trinta e quatro anos depois, a pintura voltou às mãos que primeiro lhe tinham tocado.


«É isto suficiente para explicar a esquerda? Um leitor dirá que sim, outro dirá que não. Contemos então mais unia história, esta brevíssima. No domingo, Jorge Sampaio, já presidente eleito da República Portuguesa, teve de responder, em conferência de imprensa, a uma pergunta impertinente e mal-intencionada de uma jornalista, que quis saber que ia ele fazer agora do cartão de militante do Partido Socialista, uma vez que havia afirmado que seria o presidente de todos os Portugueses. A resposta de Sampaio foi esta: "Não é preciso entregar o cartão partidário para ser isento e responsável na mais alta magistratura do Estado." Não tenho a certeza de que a jovem aprendiza de jornalismo tenha compreendido bem aquilo que ouviu. Habituada ao espectáculo quotidiano de um exercício demagógico da política, esperaria provavelmente ouvir de Jorge Sampaio uma tirada grandiloquente sobre os deveres das altas funções em que vai ser investido, esperaria provavelmente que ele aproveitasse a ocasião para anunciar a sua retirada do partido, a fim de que no espírito dos cidadãos não pudesse perdurar qualquer dúvida sobre a futura imparcialidade das suas decisões. O que Jorge Sampaio disse, afinal, foi que o espírito, a inteligência e a sensibilidade não se definem e exercem por causa de um cartão de partido, mas que estão na cabeça e no coração, e que a coerência das ideias, o respeito pelos princípios e a isenção dos juízos não se tornaram mais sólidos pelo facto de se ter devolvido um documento que é muito mais do que a simples prova burocrática duma filiação partidária, porque é o sinal de um sentido de vida, se, quem a ele entendeu não dever renunciar, também não renunciou a si mesmo. Jorge Sampaio é esse.» 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, páginas 23 a 25 (15/01/1996)

Lutas académicas na Universidade de Lisboa
Dia do Estudante (24 de Março de 1962)

No dia em que novo Presidente da República toma posse...



11 de Outubro (de 1995)
"Cavaco Silva saiu do PSD e anunciou a sua candidatura à presidência da República. Para não escapar ao nariz-de-cera de qualquer candidato, tanto dos passado como dos futuros, já foi prometendo que será «o presidente de todos os portugueses». Como quem diz «O que lá vai, lá vai.» Se Portugal não perdeu de todo a vergonha, este homem inculto e autoritário nunca será presidente da República. Mas se, por um absurda viesse a ser, presidente «meu» é que ele não seria, fossem quais fossem as circunstâncias. Em tal caso, exigiria simplesmente dos serviços de secretaria de Belém que retirassem o meu nome dos ficheiros que lá têm. Não quereria ter de vir a recusar a saudação a um presidente que foi primeiro-ministro do governo que exerceu censura sobre um livro. Não cabe nas minhas forças evitar a existência dos «dráculas», mas nada poderá obrigar-me a apertar-lhes a mão." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, página 174 (11/10/1995)

terça-feira, 8 de março de 2016

Citador #45 - Alusão a Jorge de Sena

"Esta grande admiração pessoal [por Jorge de Sena] tem a ver por ele ser o tipo de pessoa que eu aprecio: frontal. Às vezes mesmo violento na expressão, basta recordar o célebre discurso da Guarda em que ele dita água gelada nas fervuras patrióticas [da Revolução de Abril] que se esperavam e que aconteceram realmente. Nessa comemoração disse: “Vocês estão a comemorar um país que não existe e eu venho aqui dizer-lhes que país temos, pelo menos em minha opinião”."

João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago"
Porto Editora, 2009

Sobre o universo das suas personagens femininas - 8 de Março de 2009 (no Dia Internacional da Mulher)

Pilar del Río força motriz de José Saramago

O post foi publicado no blog "Outros Cadernos de Saramago", e pode ser recuperado, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/30328.html


8 de Março (de 2009)
"Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado mundo é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio… 

Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra 16 por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habitam teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve.
Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.

Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano."

Presentadas las bases del IV Premio de Narración Corta José Saramago organizado por el IES Tías

A notícia, publicada pelo "El Periodico de Lanzarote", pode ser consultada e lida, aqui


"El Ayuntamiento de Tías, el AMPA Los Fragosos y A Casa José Saramago también colaboran en este certamen literario que está dotado con premios de hasta 350 euros. Podrán participar todos los alumnos de Educación Secundaria de Lanzarote y las obras deberán ser entregadas antes del 12 de abril"

"A Casa José Saramago acogió el pasado viernes la presentación de la cuarta edición del Premio de Narración Corta José Saramago que organiza el IES de Tías en colaboración con la concejalía de Educación del Ayuntamiento de Tías, A Casa José Saramago y el AMPA Los Fragosos. En el acto estuvieron presentes la concejal de Educación de Tías, Aroa Pérez, así como representantes de A Casa José Saramago, del AMPA Los Fragosos y del IES Tías, además de la autora del cartel de este premio narrativo, Mª Teresa Parrilla, alumna del IES Tías.

Durante la presentación de este IV Premio de Narración Corta se dieron a conocer las bases publicadas en la web del Instituto de Tías y que establecen que podrán participar todos aquellos alumnos matriculados en los diferentes centros de Enseñanza secundaria de la isla de Lanzarote, cuyo límite de edad será de 22 años.

Las obras, originales e inéditas, deberán presentarse antes del próximo día 12 de abril y tendrán una temática de libre elección. La extensión no superará las cuatro páginas DIN-A4 con un interlineado de 1.5 y a una sola cara. El tipo de fuente será Times New Roman y el tamaño de la letra, 12.

Los interesados en participar en este certamen literario deberán entregar sus obras en el IES TÍAS en un sobre cerrado con seudónimo, título en el exterior del mismo y año de nacimiento antes del próximo día 12 de abril. En ese sobre se incluirá otro sobre cerrado con el seudónimo en el exterior y adjuntando en el interior el nombre completo del autor/autora, la edad, el curso, el centro educativo y la fotocopia del DNI/NIE.

Un primer premio de hasta 350 euros

En las bases también se establecen dos categorías según edades, una para los nacidos antes de 2000, incluido, con dos premios: un primer premio dotado con 350 euros y un lote de libros del Premio Nobel José Saramago, así como un segundo premio dotado con 200 euros y un lote de libros del mismo escritor. En la segunda categoría para los nacidos a partir de 2001, se otorgará un primer premio dotado con 150 euros y un segundo premio de 100 euros.

Asimismo, el jurado estará compuesto por el profesorado del Departamento de Lengua castellana y Literatura del IES Tías. Dicho jurado podrá declarar desierto cualquiera de los premios. El fallo tendrá lugar el viernes 22 de abril de 2016 y será inapelable."