Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Discurso de Estocolmo... "...não nasci para isto, mas isto foi-me dado, bem hajam..."


Via YouTube, em https://www.youtube.com/watch?v=0F-fupSNmJk#t=23

Discurso de Estocolmo
"...não nasci para isto, mas isto foi-me dado, bem hajam..."

Fundação José Saramago - "Em Abril, Coisas Mil" - Programação

Parceria Casa Fernando Pessoa |
Fundação José Saramago
Bilhetes de 1,00 €

2 de abril, Fundação José Saramago, 18h30
Os Labirintos da Viagem, 7.ª sessão

9 de abril, Fundação José Saramago, 18h30
Sahara Ocidental
A última colónia africana 

Com a participação de:
Ahmed Fal - Delegado da Frente Polisário em Portugal;
Isabel Lourenço - Ativista dos Direitos Humanos, membro da Adala UK e da Fundación Sahara Occidental;

16 de abril, Fundação José Saramago, 18h30
Apresentação de Diálogos com José Saramago, de Carlos Reis 

Apresentação por Lídia Jorge

Diálogos com José Saramago, de Carlos Reis

18 de abril, Fundação José Saramago, 15h
Apresentação de Notícias de Babilónia e outras metáforas, de Manuel Veiga

29 de abril, Fundação José Saramago, 18h30
Apresentação do livro A Viagem do Elefante por Viseu Dão Lafões

Um relato que cruza 14 localidades com a digressão do
espectáculo do Trigo Limpo teatro ACERT"

Apresentação por Fernando Alves e António Pedro Ferreira


Neste livro, textos e imagens são gestos complementares de um mesmo olhar. Entre a grandeza de um elefante e a agitação que acompanhou a preparação de cada espectáculo, os autores criaram uma foto-narrativa emotiva que traduz as vivências e partilhas que foram nascendo durante os quatro meses da digressão. Um livro onde, tal como num palco, os intérpretes emergem das palavras e gestos duma contracena permanente com a vida em cenários oníricos que são o
seu chão.

Autoria e Produção: ACERT - Associação Cultural e Recreativa De Tondela
Fotografias: Carlos Teles e Ricardo Chaves
Textos: Ricardo Viel e Sara Figueiredo Costa
Design e ilustração: Zétavares
Coordenação de Edição: Miguel Torres
Edição: Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões

30 de abril, CCB - Pequeno Auditório, 21h
Concerto A Viagem do Elefante
Luís Pastor | A cor da língua ACERT

O Pequeno Auditório do CCB recebe o cantautor espanhol acompanhado pelos músicos do A Cor da Língua ACERT e convidados para um concerto que celebra as palavras de José Saramago, aqui acompanhadas pelos sons do fado, da morna, da chula ou do flamenco, dando-lhes novas identidades, como se um novo corpo ganhasse vida para palmilhar outra viagem. O concerto serve de apresentação ao CD/Livro editado no final de 2014 pela ACERT com o apoio da Fundação José Saramago.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Texto "Ceia" (25/12/2008), e que bem se enquadra em qualquer outra data...

Perdoai-me que sou um pecador...
Não menos a propósito, se bem que a quadra "católico-festiva" da Páscoa, tem um significado menos consumista, logo por inércia muito menos importante, já que o "Pai Natal da multinacional Coca-cola" tem exponencialmente muito mais poder que os famosos "coelhos" e amêndoas de chocolate, ora, lembrou-me procurar um texto apropriado.
Remontemos ao "natal" de 2008...


Pode ser consultado e lido em
http://caderno.josesaramago.org/18470.html


"Ceia"

"Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos “Cadernos de Lanzarote” umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Ibéria, especialmente Juan José Tamayo, que desde aí, generosamente, me deu a sua amizade. Foram elas: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu “quantum satis” de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que a mais elementar. Nestes dias em que se celebra o nascimento do Cristo, outra ideia me acudiu, talvez mais provocadora ainda, direi mesmo que revolucionária, e que em pouquíssimas palavras se enuncia. Ei-las. Se é verdade que Jesus, na última ceia, disse aos discípulos, referindo-se ao pão e ao vinho que estavam sobre a mesa: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”, então não será ilegítimo concluir que as inumeráveis ceias, as pantugruélicas comezainas, as empaturradelas homéricas com que milhões e milhões de estômagos têm de haver-se para iludir os perigos de uma congestão fatal, não serão mais que a multitudinária cópia, ao mesmo tempo efectiva e simbólica, da última ceia: os crentes alimentam-se do seu deus, devoram-no, digerem-no, eliminam-no, até ao próximo natal, até à próxima ceia, ao ritual de uma fome material e mística sempre insatisfeita. A ver agora que dizem os teólogos." (Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008)

Das "Armas" em "O Caderno 2" (26/05/2009), até às "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"

A 26 de Maio de 2009, José Saramago apresenta no seu blog, o texto "Armas", cuja inserção no livro "O Caderno 2", acontece com a compilação de todos os "posts", compreendidos entre Setembro de 2008 e Novembro de 2009.
Este texto - "Armas" - será a demonstração de um pensamento crítico e constante, que antecedeu a "fermentação" da ideia na qual surgiria a obra inacabada "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas".
As fábricas em laboração contínua, as negociatas com as convenientes complacências dos "estados e seus governantes"... quem se indigna é porque não suporta, seguramente viverá agoniado, com o triste espectáculo que é este mundo...  



(Capa da edição italiana, pela editora Feltrinelli)

Texto publicado no blob/livro "O Caderno 2", pode ser lido e consultado
em http://caderno.josesaramago.org/43247.html

"Armas"
"O negócio das armas, sujeito à legalidade mais ou menos flexível de cada país ou de simples e descarado contrabando, não está em crise. Quer dizer, a tão falada e sofrida crise que vem destroçando física e moralmente a população do planeta não toca a todos. Por toda a parte, aqui, além, os sem trabalho contam-se por milhões, todos os dias milhares de empresas declaram-se em falência e fecham as portas, mas não consta que um único operário de uma fábrica de armamento tenha sido despedido. Trabalhar numa fábrica de armas é um seguro de vida. Já sabemos que os exércitos precisam de armar-se, substituir por armas novas e mais mortíferas (disso se trata) os antigos arsenais que fizeram a sua época mas já não satisfazem as necessidades da vida moderna. Parece portanto evidente que os governos dos países exportadores deveriam controlar severamente a produção e a comercialização das armas que fabricam. Simplesmente, uns não o fazem e outros olham para o lado. Falo de governos porque é difícil crer que, a exemplo das instalações industriais mais ou menos ocultas que abastecem o narcotráfico, existam no mundo fábricas clandestinas de armamento. Logo, não há uma pistola que, por assim dizer, não vá tacitamente certificada pelo respectivo, ainda que invisível, selo oficial. Quando num continente como o sul-americano, por exemplo, se calcula que há mais de 80 milhões de armas, é impossível não pensar na cumplicidade mal disfarçada dos governos, tanto dos exportadores como dos importadores. Que a culpa, pelo menos em parte, é do contrabando em grande escala, diz-se, esquecendo que para fazer contrabando de algo é condição sine qua non que esse algo exista. O nada não é contrabandeável. Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. E era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino." (26/05/2009)

(Ilustrações de Gunter Grass , Porto Editora, páginas 124/125)

Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas - Porto Editora, 2014
(com textos de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano, capa e ilustrações de Günter Grass)

Sinopse, via página da Fundação José Saramago, para ser consultada, 

"Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente e comprometida vocação de agitar consciências.Saramago escreve a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século xx. Dois outros textos – de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano – situam e comentam as últimas palavras do Prémio Nobel português, cuja força as ilustrações de um outro Nobel, Günter Grass, sublinham."

Livros infantis pelo punho de José Saramago - Imagem Cénica

Dia Internacional do Livro Infantil

... porque todas as crianças devem ser felizes, 
crescer em ambientes socialmente saudáveis, 
com acesso aos cuidados médicos necessários,
disponham de acesso ao sistema de ensino,
devam ser protegidas de todas e quaisquer ameaças,
cuidadas e orientadas em família e junto dos seus pares...
... porque todas as crianças têm direito à construção do seu mundo e das suas fantasias...

Deixemos e proporcionemos que as crianças possam navegar nos rios
e mares do faz de conta, que caminhem pelas montanhas de onde se consegue tocar as nuvens, que construam todas as naves espaciais para poderem viajar para lá do que conhecemos, e só elas sabem onde fica... 

Viva o "Dia Internacional do Livro Infantil"
Viva todas as crianças 



Montagem cénica, com as 3 obras de José Saramago, conjuntamente com um conjunto de bandeiras imaginadas pelo Ódin Santos (8 anos) e alguns pequenos brinquedos...

"A Maior Flor do Mundo" - Caminho 2001 (Ilustrações de João Caertano

"O Silêncio da Água" - Caminho 2011 (Ilustração de Manuel Estrada), conto retirado da obra "Pequenas Memórias de 2006

"O Conto da Ilha Desconhecida" - Caminho 1999 (Ilustração de Bartolomeu dos Santos)

Dia Internacional do Livro Infantil

"O Dia Internacional do Livro Infantil celebra-se anualmente no dia 2 de Abril.
Esta data é celebrada por iniciativa do Conselho Internacional sobre Literatura para os Jovens (IBBY), que em Portugal é representada pela Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil (APPLIJ).
O IBBY criou o Dia Internacional do Livro Infantil em 1967, para homenagear o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, (autor de algumas das histórias para crianças mais lidas em todo o mundo), cujo aniversário do nascimento é assinalado a 2 de Abril."



Via Página do Facebook da "Blimunda" - Revista Digital
 "No Dia Internacional do Livro Infantil recuperamos da Blimunda # 6, de novembro de 2012, 
dois artigos sobre a Literatura Infantil de José Saramago (por Luísa Ducla Soares) 
e sobre o seu livro "A Maior Flor do Mundo" (por Andreia Brites).



terça-feira, 31 de março de 2015

Acordo de parceria entre a Fundação José Saramago e Casa Fernando Pessoa

A Cultura, a sua força, a sua vida.
A Cultura que se mexe e move.
Saramago e Pessoa, o desassossego que nos mantém inquietos...




Informação em detalhe, recolhido via página da Fundação José Saramago,

"Casa Fernando Pessoa e Fundação José Saramago assinam acordo"

"A partir de hoje, Fernando Pessoa e José Saramago cruzam-se de modo mais marcado e efectivo: as duas casas de autor, que trabalham para dar a conhecer o melhor da literatura, assinam um acordo de parceria no sentido de desenvolver acções comuns e conjuntas.
A Fundação José Saramago e a Casa Fernando Pessoa (equipamento municipal gerido pela EGEAC) associam-se de modo a trabalhar em conjunto na promoção do conhecimento sobre dois nomes maiores da cultura portuguesa e no sentido de estimular o gosto pelo livro e pela leitura.
No âmbito desta parceria, estão acções como o ciclo Sem casas não haveria ruas, já em curso e em articulação com a editora BOCA, que leva leituras e contos a cada uma das instituições em meses alternados. O arranque fez-se em Fevereiro, em torno de Nuno Bragança, na Casa Fernando Pessoa; continua hoje, 27 de março, na Fundação José Saramago, desta feita com o actor e contador Carlos Marques e O gosto das palavras.
No futuro e em crescendo as acções consideram um bilhete de desconto mútuo (ao entrar na segunda instituição o visitante da primeira apenas paga €1), o desenvolvimento da iniciativa Os dias do Desassossego em Novembro, roteiros que unam as duas Casas, entre outras acções concertadas junto dos diferentes públicos.
O acordo agora assinado tem vigência de um ano, prorrogável a mais dois.

A parceria com a Casa Fernando Pessoa, que agora se aprofunda, depois do arranque do passado mês de novembro com o(s) Dia(s) do Desassossego, cumpre um objectivo fundamental para a Fundação José Saramago, o de trabalhar em conjunto com outras entidades do meio cultural da cidade de Lisboa. E que melhor parceiro que a Casa Fernando Pessoa, a outra casa de autor da capital. Se Lisboa tem a felicidade de contar com estes dois equipamentos, só podia fazer sentido que o trabalho em conjunto passasse a ser uma realidade. O crescimento do turismo em Lisboa é hoje uma realidade, para o qual, na nossa opinião, deve contar em grande medida a oferta cultural, garantindo que muitos dos que nos visitam, nacionais e estrangeiros, possam ter contacto com a vida e obra de dois dos grandes escritores universais, fundamentais para um maior entendimento da realidade portuguesa e mundial.

Sérgio Machado Letria - Director

Colaborar de forma continuada e alargada com a Fundação José Saramago é para a Casa Fernando Pessoa o prolongamento natural e desejado das anteriores iniciativas conjuntas. As duas casas de autor de Lisboa passam a desenvolver uma programação articulada e dialogante, procurando desenvolver o eixo que se estende entre um espaço e o outro e actuando conjuntamente em circuitos que estimulem o interesse e o contacto dos leitores com dois grandes escritores que são de Lisboa e do mundo.

Clara Riso - Directora"



Autor vs Narrador em Saramago - Opinião de Manuel Frias Martins (A Espiritualidade Clandestina de José Saramago)

Sobre a temática e categorização do "agente" ou "criador" literário, neste caso, referindo-se ao paradigma diferenciador da existência de um autor e/ou narrador, Manuel Frias Martins na sua obra, "A Espiritualidade Clandestina de José Saramago", explana de forma directa e incontornável o posicionamento de José Saramago sobre esta matéria.
Este pequeno excerto (Capítulo I, "O lugar do autor" - "A escrita de si"), foca na primeira pessoa o pensamento inicial e que acompanhará toda a obra - o homem que cria, o gerador da ideia, assume total controle e estatuto de autor



(...) foi o próprio José Saramago quem acabou por confirmar aquilo que aqui chamo de narrativa de si quando se associou às personagens que ia construindo. Num texto de cordato desacordo com alguns académicos acerca das figuras de narrador e do autor, José Saramago afirmou sem quaisquer ambiguidades que o «autor está no livro todo, o autor é o livro todo, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor», acentuando a ideia de que ele, José Saramago, era Blimunda e Baltasar, Jesus e Maria Madalena, José e Maria, Deus e o Diabo, etc., e, suma, todas as personagens que ele havia criado em toda a sua obra. (...)

em "A Espiritualidade Clandestina de José Saramago"
Manuel Frias Martins
Fundação José Saramago, página 38

"Balanço" post do Blog/Livro "O Caderno" em 5 de Janeiro de 2009

Quando a tarefa termina ou o se esgota, dos seus propósitos originais, eis que urge o balanço.
Aqui, eu em balanço, testemunho.


Estátua de Miguel Ângelo, retratando Moisés 
(Igreja de San Pietro in Vincoli - Roma, Itália)

Pode ser lido e consultado, aqui

"Balanço"

"Valeu a pena? Valeram a pena estes comentários, estas opiniões, estas críticas? Ficou o mundo melhor que antes? E eu, como fiquei? Isso esperava? Satisfeito com o trabalho? Responder “sim” a todas estas perguntas, ou a mesmo só a alguma delas, seria a demonstração clara de uma cegueira mental sem desculpa. E responder com um “não” sem excepções, que poderia ser? Excesso de modéstia? De resignação? Ou apenas a consciência de que qualquer obra humana não passa de uma pálida sombra da obra antes sonhada. Conta-se que Miguel Ângelo, quando terminou o Moisés que se encontra em Roma, na igreja de San Pietro in Vincoli, deu uma martelada no joelho da estátua e gritou: “Fala!” Não será preciso dizer que Moisés não falou. Moisés nunca fala. Também o que neste lugar se escreveu ao longo dos últimos meses não contém mais palavras nem mais eloquentes que as que puderam ser escritas, precisamente essas a quem o autor gostaria de pedir, apenas murmurando, “Falem, por favor, digam-me o que são, para que serviram, se para algo foi”. Calam, não respondem. Que fazer, então? Interrogar as palavras é o destino de quem escreve. Um artigo? Uma crónica? Um livro? Pois seja, já sabemos que Moisés não responderá."

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição, publicado a 5 de Janeiro de 2009





segunda-feira, 30 de março de 2015

"A Espiritualidade Clandestina de José Saramago" de Manuel Frias Martins


"A Espiritualidade Clandestina de José Saramago", é uma obra profunda, nada imediatista, recomendando-se uma leitura atenta, reflexiva, compassada, com os necessários avanços e retrocessos que a explanação de um pensamento filosófico deverá obrigar no leitor atento.
De autoria do Professor Manuel Frias Martins, Doutorado em "Teoria da Leitura" pela Universidade de Lisboa, estamos perante alguém dotado de excepcional conhecimento e reconhecida experiência crítica e literária, para abordar tão sensível questão, ao ponto de conseguir colocar o leitor "Saramaguiano" atento a um outro vislumbre do feixe de luz que se pode observar do cerne da obra.
A intolerância e cegueira moral, não raras vezes atinge o novo leitor de Saramago, ou aquele que o conheça, tende a resistir à descoberta e leitura do seu legado literário, dando forma ao eterno preconceito que sempre girou à volta do único prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa, e que se baseia, a meu ver, em 3 desculpas, ou lugares comuns - o autor é "comunista", é "um ateu pecador" ou os livros são muito complicados de se ler!!!
Na minha modesta leitura, "A Espiritualidade Clandestina de José Saramago", serve também para desmistificar e desmontar alguns destes preconceitos, sempre dogmáticos, e introduzir ou acrescentar a luz e a dúvida. A tal dúvida que remete para o alternativo, o diferente, a outra visão, em suma, o questionar para desassossegar e manter viva a capacidade do ser humano ser intelectualmente independente.
A primeira leitura desta obra foi deveras apaixonante, e não querendo ousar, ou sequer demonstrar capacidade interpretativa das palavras e pensamento do Prof. Manuel Frias Martins, destaco levemente este excerto, transcrito do "prólogo", e também identificativas do objecto desta obra.

(...) "o que me interessa destacar nesta altura é o facto de que, para os admiradores de Saramago que referi atrás, o que importa é o sentido espiritual das suas palavras, tanto nas obras literárias como em discursos proferidos em diversas circunstâncias, e de onde muitos desses leitores fiéis, retiram frases soltas, mas profundas no seu alcance, as quais vão lançando nas redes sociais não só em homenagem a Saramago mas também numa atitude generosa de promoção da sageza e ética. tal é feito, mais uma vez, independentemente das diferenças ideológicas e políticas com o homem e o escritor. Esta realidade indesmentível demonstra por si só que as obras de Saramago se dirigem inequivocamente aos interesses e às necessidades práticas dos leitores, independentemente da geografia e da língua, apontando ao mesmo tempo para a espiritualidade como expressão intensa da verdade, não no sentido da verdade objectiva e positivista da ciência, mas no sentido da verdade como descoberta dinâmica do duplo princípio: o do conhecimento da vida e o da negação de uma existência agrilhoada." (...)
Páginas 16 e 17


(Imagem de artigo publicado no Expresso, 
pelo punho de José Tolentino Mendonça)

Sinopse
"Saramago pertence àquele grupo de escritores que parecem ter lido em toda a parte ou vivido em todo o lado, mapeando o humano por sinais identificáveis por todos ao mesmo tempo e decifrados por cada um à sua maneira. Tanto as suas construções ficcionais das atmosferas judaica e cristã como as observações subsidiárias que encontramos dispersas por entrevistas e artigos reflectem uma amplitude de referências culturais onde se abriga um extraordinário ecletismo filosófico e religioso ou, dito de outra maneira, um conhecimento amplo do fundo cultural e religioso da humanidade, o qual é não raras vezes encarado como desafio à razão e à imaginação do próprio escritor. Possuidor de um espírito inquieto quando à humana condição e de um coração ávido de justiça, o homem José Saramago é uma espécie de abrigo intelectual de um escritor que mistura criativamente os inúmeros conseguimentos do pensamento humano independentemente da sua proveniência histórica ou geográfica." - Manuel Frias Martins

(Imagem de artigo publicado no Expresso, 
pelo punho de José Tolentino Mendonça)

domingo, 29 de março de 2015

"As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz" de José Saramago e o concerto de Joseph Haydn (1786)


Pode ser visionado através do YouTube, 
em https://www.youtube.com/watch?t=165&v=vleffnjIoq4

Via Fundação José Saramago, 

"Colaboração de José Saramago, Jordi Savall e Raimon Panikkar a partir da música de Joseph Haydn.
Em 2007, a editora discográfica catalã AliaVox editou a gravação de “As Sete Últimas Palavras de Cristo” de Joseph Haydn pela Orquestra Le Concert des Nations, sob a direcção do maestro e compositor Jordi Savall e acompanhado pelos textos originais de José Saramago e Raimon Panikkar.
O desafio havia sido proposto por Savall a Saramago uns anos antes e, apesar de “ambos concordarem que as palavras [que expliquem a música de Haydn] não eram necessárias”, concordaram também que deveriam sê-lo, conforme relata Pilar del Río. Saramago dedicou-se a um árduo trabalho de pesquisa, já iniciado aquando de O Evangelho segundo Jesus Cristo. No final, “escreveu sobre cada uma delas [as palavras de Cristo na cruz], não para explicar a música mas para acrescentar ao seu Evangelho as páginas que faltavam”.
Passados mais de duzentos anos desde a sua criação, uma encomenda especial feita a Haydn nos começos de 1786, “pareceu-nos apropriado dar esta responsabilidade a dois grandes mestres do pensamento espiritual e humanístico contemporâneo: Raimon Panikkar e José Saramago complementam as breves citações do texto evangélico com uns textos e comentários que reflectem as suas profundas convicções espirituais e humanísticas”, justifica Jordi Savall no texto introdutório do CD."


As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de José Saramago


"Palavra Primeira

Deus, Pai, Senhor, aqui me tens. Aqui me tens, finalmente, neste monte escalvado a que chamam Gólgota e aonde, passo a passo, vieste encaminhando a minha vida a fim de que todas as profecias fossem cumpridas. Sou o da cruz alta, a que está ao centro, e os homens que me fazem companhia, um de cada lado, são dois ladrões vulgares, daqueles que se contentam com roubar pouco, que se fossem dos que roubam muito de certeza não viriam aqui crucificados. O que está à minha direita protesta que não quer morrer, grita como um doido furioso, dá arrancos com o corpo como se pretendesse arrancar a cruz do chão e fugir com ela às costas, ao outro já o vejo resignado, tem a cabeça descaída, apenas geme. Penso que terei de lhe dizer alguma coisa que o console antes que isto se acabe. O bom que tem este lugar para os condenados é ser Jerusalém a última imagem que levam da vida. Não estamos sós. Entre os soldados romanos, os doutores da lei, os chefes dos sacerdotes, os anciãos, e a gente comum que acudiu ao espectáculo, distingo, embora mal porque as dores me estão nublando os olhos, minha mãe com algumas mulheres, e também, sim, está também Maria Madalena. E está João, mas aos outros não os vejo, terão fugido. À morte deveria assistir-se em silêncio, não este clamor de insultos, esta gritaria, este ódio insensato, estas palavras de escárnio: “Salva-te a ti mesmo se és o rei dos judeus, lá está aquele que deitava abaixo o templo e tornava a reconstruí-lo em três dias, que desça agora da cruz para nós vermos e acreditarmos nele”. Deus, Pai, Senhor, era isto necessário? Não te bastava a simples morte? Já que terei de perder a vida, perdoa-lhes tu o alvoroto, porque não sabem o que fazem. E eu? Virei a saber o que fiz no mundo? E tu, Deus, Pai, Senhor, tens a certeza de que tudo o que fizeste foi bem feito?



Palavra Segunda

Deus, Pai, Senhor, não sei como o poderei confessar, tão confundido e humilhado sinto o meu espírito. Compadecido do sofrimento do ladrão manso, não encontrei nada melhor para o consolar que prometer-lhe o paraíso. “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, foram as minhas formais palavras. Mas logo me perguntei se a soberba, ou o orgulho, ou a vaidade, foi o que me levou a prometer algo que não estava em meu poder dar. Antes, numa das suas fúrias, o ladrão bravo tinha-me invectivado: “Então não és o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós!” Mas o ladrão manso repreendeu-o com estas justas palavras, em verdade inesperadas em pessoa da sua condição: “Não tens temor a Deus, tu que estás a sofrer a mesma condenação? Nós estamos aqui a pagar o justo castigo pelos actos que temos praticado, mas este não fez nada de mal”. E foi aí, Deus, Pai, Senhor, que caí em tentação: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, disse. Como pude eu esquecer-me do Juízo Universal que, esse sim, há-de separar o trigo do joio, o bom do mau, o virtuoso do pecador? Como pude esquecer o que disse o profeta: “Eu, o Senhor, penetro no íntimo do homem, e examino o seu coração, e a cada um dou segundo o seu procedimento.”? De todo modo, sou escravo da minha promessa, este homem irá comigo, comigo se apresentará à tua porta, e tu, Deus, Pai, Senhor, se quiseres receber-me a mim, terás também de recebê-lo a ele, porque eu, sozinho, não entrarei. Honra a promessa que fiz, já que neste suplício me desonraste.

Palavra Terceira

Deus, Pai, Senhor, quando, para castigar a prosápia dos homens que estavam levantando aquela torre com a intenção de chegar ao céu, lhes desordenaste a linguagem, talvez não tenhas pensado em todas as consequências do acto a que foste movido por uma ira semelhante à do dono da vinha quando dá por que os meliantes se dispõem a assaltá-la. Talvez este pensamento, na aparência fora de lugar, seja fruto do delírio, da angústia e das terríveis dores que me trespassam, mas, nesta hora última da minha passagem pela terra, não estaria bem que entre pai e filho ficassem coisas caladas. Aquela mulher que além vês, entre João e Maria Madalena, é minha mãe, tu o saberás melhor que ninguém. Nunca vi que lhe tivesses dado atenção em todos estes anos, mas não é disso que quero falar. O meu pensamento é outro. Quando confundiste a linguagem dos homens, houve palavras que se perderam, outras que tomaram caminhos desviados, outras que deixaram de pertencer a quem, tempos atrás, havia sido seu legítimo proprietário. Houve uma época, talvez na idade de ouro, falando a língua que tu confundiste, em que as mulheres podiam ser tão justas e piedosas quanto os homens fossem capazes de o ser, mas já não o eram quando eu vim ao mundo, porque, em hebraico, por exemplo, para justo e piedoso não há formas femininas equivalentes. Tendo eu que nascer forçosamente de uma mulher, como foi possível, Deus, Pai, Senhor, não teres reparado que ela não podia ser digna de me gerar, uma vez que não era piedosa nem justa? Rogar-te-ei que mo expliques quando nos encontrarmos. Não vejo nenhum dos meus irmãos. E aquele João, já não sei eu bem se é o meu discípulo, se o filho de Zebedeu, que tem o mesmo nome. Como quer que seja, vou dizer a frase que de mim se espera: “Mulher, aí tens o teu filho. João, aí tens a tua mãe.” Oxalá se dêem bem.



Palavra Quarta

Deus, Pai, Senhor, as palavras atropelam-se na minha cabeça, a ponto de já não saber se serão realmente minhas ou se as terei lido ou ouvido em alguma parte, e agora não faça mais que repeti-las de maneira mecânica, como uma criancinha que a duras penas aprende a falar. Pelo menos, tenho a certeza de que as palavras que irei proferir me sairão da boca somente para que se possa anunciar amanhã que as escrituras foram cumpridas uma vez mais. Escuta-as e diz-me se não tenho razão: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Quem me ouvir pensará que esta é a primeira vez que tu abandonas alguém e que por isso é de justiça que a pergunta seja lançada aos quatro ventos do alto desta cruz, como um aviso às pessoas. Mas tu, Deus, Pai, Senhor, desde o princípio do mundo que criaste não tens feito outra coisa que abandonar-nos. Recorda aqueles a quem, por causa de uma maçã e uma serpente, expulsaste do paraíso terrenal, recorda o espírito vingativo com que puseste diante da porta os querubins e uma espada de fogo para que eles não pudessem regressar. Crês tu, Deus, Pai, Senhor, que ao menos uma vez na vida, e em muitos casos todos os dias e a todas as horas, a espécie humana não teve motivos para fazer esta mesma pergunta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”? Que estás longe, dirás, que não podes acudir a tudo, que o homem foi feito para que governasse a sua vida sem depender de deus ou deuses, mas em teu nome, quando não tu mesmo, há quem afirme que nascemos servos e servos seremos até ao fim da vida porque tu és a causa primeira e porque, ao mesmo tempo que nos vai abandonando um a um, nos manténs agarrados na tua mão. Eu próprio te fiz a pergunta e tu não respondeste. Razão tinha aquele que disse que Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio. Acabe-se o homem e tudo se acabará. Abandonados já estamos, eles, eu, talvez também tu, que nem a ti próprio te podes valer. Até para alegadamente salvar a humanidade tiveste que derramar o meu sangue.



Palavra Quinta

Deus, Pai, Senhor, ainda que possa parecer extraordinário, ou mesmo incrível, que alguém à beira da morte, tal eu estou, sinta sede e imagine ter tempo e forças para beber um vaso de água, foi isto o que acabou de suceder. Talvez, em realidade, eu não tivesse autêntica sede, talvez tivesse sido apenas a recordação súbita da frescura de uma água que para sempre iria perder, a sensação de senti-la a descer por uma garganta que em breve se cerraria, o que me fez soltar aquele grito: “Tenho sede!” Sem que eu o esperasse, quase imediatamente uma esponja molhada me tocou a boca e o sabor da água misturada com vinagre me restituiu por um instante o alento. Olhando para baixo vi um homem que segurava uma cana, esta a que veio atado o misericordioso socorro, porque bem sabemos, os que nunca tivemos gelo para refrescar a água nas canículas do verão, que juntar-lhe um pouco de vinagre é remédio infalível para as piores sedes. O homem baixou a cana, tornou a empapar a esponja, e outra vez ma fez chegar aos lábios. Depois, porque os soldados romanos se acercavam com as suas lanças e faziam gestos ameaçadores, o homem retirou-se, segurando a cana ao ombro e levando o balde da água e vinagre na outra mão. Foi isto o que se passou e não qualquer outra história que venha a contar-se no futuro, como se o sofrimento de quem foi condenado a morrer na cruz não fosse já bastante para encher o livro. Talvez a alguém se lhe ocorra escrever, e por todos os modos repetir, que quiseram dar-me vinho misturado com fel ou com mirra. Não é verdade. E agora, Deus, Pai, Senhor, peço-te um último favor. Que não faças esperar este homem até ao dia do Juízo Final, que o chames a ti no preciso momento em que morrer, e que tu mesmo o vás receber à porta do paraíso. Reconhecê-lo-ás facilmente. Leva uma cana ao ombro e um balde com água e vinagre na outra mão.

Palavra Sexta

Deus, Pai, Senhor, tudo está cumprido. A cruz em que me pregaram não tardará a ter um cadáver nos seus braços, tal como, desde o princípio do mundo, foi por ti decidido que haveria de suceder. Será, por ser a minha, suficiente esta morte para a salvação da humanidade? Para salvá-la de quê ou de quem? De si mesma? Do inferno que tu mesmo fabricaste, uma vez que não havia mais ninguém que o pudesse fazer? Sou eu o cordeiro que Abel te sacrificava, ao mesmo tempo que desprezavas o trigo e o centeio que Caim te oferecia? Porquê? Não terás sido tu, Deus, Pai, Senhor, quem armou a mão de Caim para que na primeira página da história dos homens se anunciasse já o futuro que lhes estava guardado, sangue, morte, destruição e tortura desde esse dia e para sempre? E porquê ficou o crime de Caim sem castigo? Porquê teve Abel de morrer? Conhecerás tu, Deus, Pai, Senhor, o sentimento do remorso? Porquê, contra a simples justiça, prosperou o assassino, ao ponto de fundar uma cidade e ter descendência como qualquer homem comum, com as mãos limpas de sangue alheio? Sem querer faltar ao respeito, foste e serás sempre um deus dúplice, com duas caras, dois pesos e duas medidas.

Não creio que a minha morte vá servir para que os homens se salvem nem que, sem ela, se perdessem mais do que já estão. Não imaginas, Deus, Pai, Senhor, como os seres humanos são complicados e difíceis de entender. Seja como for, fiz tudo o que tinhas ordenado. Por isso está morrendo um homem nesta cruz.



Palavra Sétima

Deus, Pai, Senhor, nas tuas mãos entrego o meu espírito, que a carne que o continha, essa, ficará agarrada a este madeiro enquanto o que de mim resta não for levado ao túmulo, donde ao terceiro dia ressuscitarei, se foram certas as palavras que puseste na minha boca para que as ouvissem os que me seguiam. Censurou-mas Pedro, que me chamou de parte e disse: “Deus te livre de tal. Uma coisa assim nunca te há-de suceder.” E eu respondi-lhe: “Sai da minha frente, Satanás. Impedes-me o caminho, porque não entendes as coisas à maneira de Deus, mas à maneira dos homens.” Foi isto o que eu lhe disse, mas agora, Deus, Pai, Senhor, agora que o meu espírito já deve ter chegado às tuas mãos, permite-me que procure, também eu, entender as coisas à maneira dos homens. Poderá o meu corpo, sem um espírito que o anime, levantar-se e sair do sepulcro, arredando a pedra que lhe tapa a entrada? E outra pergunta mais. Que sucederá comigo durante esses três dias? Apodrecerei? Será já com os primeiros sinais de podridão na cara e nas mãos que me apresentarei diante de Maria Madalena? Vivi no mundo como homem durante trinta anos, primeiro criança, depois adolescente, depois adulto, até este dia. Se te digo coisas que estás farto de saber, é para que compreendas por que razão aparecerei a Maria Madalena antes que a qualquer outro."

"Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. 
O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. 
E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: 
Quem sou eu? 
Em verdade, em verdade, quem sou eu?"

"I Encuentro de Lectores de José Saramago" via Aula José Saramago

(Fotografia do grupo em plena actividade e partilha)

Via "Aula José Saramago", é partilhada a imagem e a menção à realização deste encontro  https://aulajosesaramago.wordpress.com/2015/03/29/celebrado-el-i-encuentro-de-lectores-de-jose-saramago/

"Celebrado el I Encuentro de Lectores de José Saramago"

"En la mañana de ayer, sábado 28 de marzo, el Aula José Saramago organizó el I Encuentro de Lectores de José Saramago en la biblioteca pública “António Ramos Rosa” de Faro.

En torno a la obra La Balsa de Piedra y como pretexto para abordar el Iberismo en el pensamiento del autor, lectores del Algarve, del Alentejo, de Andalucía y de Extremadura compartieron el interés por la obra del Nobel portugués.

Finalizado el Encuentro los participantes disfrutaron de un agradable paseo por a Vila-a-Dentro que incluyó el interesante Museo de la Ciudad.

Desde aquí felicitamos a los participantes y damos las gracias publicamente a la Cámara de Faro por su colaboración y especialmente a las responsables de la biblioteca pública Sandra y Fátima."

Publicado el 29 marzo, 2015 de Diego Mesa

Recordamos a edição n.º 22 - Março de 2014 - "Blimunda" Revista digital

(Capa da edição n.º 22 - Março de 2014)

Pode ser consultada e lida, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-22-marco-2014/

Agora que Março percorre os seus últimos dias, recordamos a edição do ano passado. Porque as palavras trazem memórias, e as memórias são para manter vivas, aqui é e será sempre o espaço das palavras ditas e escritas

Sinopse da edição, na página da Fundação José Saramago

"A Blimunda de março chega carregada de boas leituras. Ricardo Viel conversou demoradamente com Valter Hugo Mãe, Prémio José Saramago de 2007, sobre literatura e sobre a vida. A entrevista vem acompanhada de fotografias do realizador Miguel Gonçalves Mendes, que retratou Hugo Mãe na Islândia, cenário do seu mais recente romance (A Desumanização).
Da Póvoa de Varzim, onde no mês passado decorreu a 15ª edição das Correntes d´Escritas, Sara Figueiredo Costa e Ricardo Viel publicam as suas notas sobre os bastidores do principal encontro literário português.
Na sua coluna sobre cinema, João Monteiro aborda o tema da censura durante o Estado Novo.
Na secção infantil e Juvenil, editada por Andreia Brites, destaque para Maurice Sendak, o “desfazedor de impossibilidades”, quando a Kalandraka nos traz mais uma das suas obras; há ainda uma entrevista à escritora e jornalista Carla Maia de Almeida, a “corajosa” tradutora de Sendak para português.
Como é habitual, a revista encerra com a Saramaguiana, que neste mês – em que se assinala o Dia da Mulher – é ocupada por um ensaio de Pedro Fernandes de Oliveira Neto sobre as personagens femininas em Claraboia.
Boas leituras e até abril!"

sexta-feira, 27 de março de 2015

Citador #36 ... Oh, Meu Amor... um Revisor que mudando a "história" acrescentou algo à sua estória

Citador #36
... Oh, Meu Amor...
"História do Cerco de Lisboa
Caminho, 2.ª edição
Página 295

Um Revisor que mudando a "história" acrescentou algo à sua estória.

(...) quando todas as comportas do dilúvio se abriram sobre a terra e as águas da terra, e depois a calma, o largo estuário do Tejo, dois corpos lado a lado vogando, de mãos dadas, um diz Oh, meu amor, o outro, Que nada no futuro seja menos do que isto, e de repente ambos tiveram medo do que disseram e abraçaram-se, o quarto estava escuro, Acende a luz, disse ela, quero sabes se isto é verdade. 

Bibliografia Dramaturgica de José Saramago - Dia Mundial do Teatro

No Dia Mundial do Teatro, recupera-se via página da Fundação José Saramago, a identificação das obras publicadas e catalogadas no âmbito da Dramaturgia e/ou Teatro. Porém, não se pode esquecer que a riqueza da obra legada por Saramago, permitiu que, obras enquadradas em outros géneros literários, de onde se destacam os romances, contos e poesia, tivessem uma perfeita adaptabilidade na arte da encenação teatral. Deste facto, o "Memorial do Convento", e mais recentemente, "A Viagem do Elefante", ficam profundamente registados como magníficas obras literárias adaptadas ao teatro, demonstrando a versatilidade da escrita do autor. 

Aqui ficam as sinopses relativas à Dramaturgia, e que podem ser consultadas




"A Noite" - 1979
«Depois de ter feito jornais, escreveu sobre eles. Foi em “A Noite”, a primeira obra dramática de Saramago que o escritor dedica a Luzia Maria Martins, a pessoa que o “achou capaz de escrever uma peça”. Seria mesmo. A noite de que se fala nesta peça ficou para a história: de 24 para 25 de Abril. A acção passa-se na redacção de um jornal em Lisboa e autor avisa: “Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.” Nem outra coisa seria de esperar. A ironia passa também pela história desta noite em que administradores e redactores entram em conflito. Uns a gritar que a máquina “há-de parar” e outros a defender que ela “há-de andar”. Quando o escreveu, Saramago já sabia que, para o bem e para o mal, a máquina tinha continuado a andar. “A Noite” chegou aos palcos em Maio de 1979 pelo Grupo de Teatro de Campolide. Com encenação de Joaquim Benite e direcção musical de Carlos Paredes, a peça contava, entre outros, com a participação de António Assunção no papel do chefe de redacção Abílio Valadares.»

("A Noite", esteve em cena no palco do Teatro da Trindade)



"Que farei com Este Livro?" - 1980
«A pergunta é formulada por Camões, quase no final da obra, e o livro a que se refere não poderia ser outro se não “Os Lusíadas”. Que farei com este livro? Saramago decidiu fazer mais uma peça de teatro, uma obra cuja acção decorre em Almeirim e Lisboa, entre Abril de 1570 e Março de 1572, ou “com menor rigor cronológico, mas com maior exactidão, entre a chegada de Luís de Camões e Lisboa, vindo da índia e Moçambique, e a publicação da primeira edição de ‘Os Lusíadas'”. Entre personagens históricas também há lugar para os tais representantes do povo e para o escritor, todos a acompanhar a edição de “Os Lusíadas”. Ou de um outro livro qualquer. “Se eu fosse esmolar pelas ruas e praças talvez me dessem dinheiro para comer. Mas não mo dariam se seu dissesse que o destinava a pagar ao livreiro que me imprimisse o livro.” Foi Camões ou Saramago a dizê-lo?»

("Que farei com Este Livro?" encenado por Joaquim Benite, 
no Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada)



"A Segunda Vida de Francisco de Assis" - 1987
«”Grande sala. Ambiente geral discreto e severo. Mesa comprida, cadeirões, cofre, telex, vários telefones, um terminal de computador. (…) Está reunido um conselho.” Assim se entra no mundo da “política”, segundo José Saramago. “A Segunda Vida de Francisco de Assis” é mais uma incursão no drama, desta vez à volta de um tema bem actual: o capitalismo, a qualidade, as chefias, a política, as eleições, a bolsa, as valorizações e desvalorizações dos produtos e das pessoas. E uma luta entre a razão e a força. Estamos em 1986, já há computadores, mas muita coisa mudou. “As coisas já não são o que eram”, diz a certa altura uma das personagens. “Houve muitas mudanças e nem todas estão à vista. Algumas nunca saem daquele cofre. São as que convém manter em segredo. “E Francisco? Também mudou, claro. Nesta segunda vida, aprendeu algumas lições e aparece a lutar contra a pobreza. “É a pobreza que deve ser eliminada do mundo”, diz. Mais uma vez Saramago usa a ironia para fazer as suas críticas. “A pobreza não é santa. Tantos séculos para compreender isto. Pobre Francisco.”»

(as famosas capas amarelas)



"In Nomine Dei" - 1993
«”Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida?” Não faz sentido? “Se os cães tivessem inventado um Deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado do seu canino Deus? “Estas considerações podiam ser tomadas como ofensivas, mas José Saramago trata de se defender: “Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome de Deus – “In Nomine Dei” – para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso.” “Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana”, explica o autor. “Que o leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.”»

(encenação, Sevilha 2007)



"Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido" - 2005
«Partindo da ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido em que Don Giovanni é condenado aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, José Saramago, em Don Giovanni ou O dissoluto absolvido reanaliza o mito: será Don Giovanni culpado? E o Comendador, e Dona Ana, e Dona Elvira, e Don Octávio? Serão um modelo de virtudes? Onde está a culpa? Onde está a virtude? Onde está a hipocrisia?»

(capa edição brasileira, Companhia das Letras)


quinta-feira, 26 de março de 2015

"As Intermitências da Morte" sob a análise de Ian Caetano (Diário da Manhã - Brasil)

 “Que irá fazer a igreja se nunca mais ninguém morrer, Nunca mais é demasiado tempo, mesmo tratando-se da morte, senhor primeiro-ministro, Creio que não me respondeu, eminência, Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer, O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que o venha a conseguir, mas e a igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga […], Que irá dizer o papa, Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiada, Sem mais explicações, À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse o que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso.” 

José Saramago – As Intermitências da Morte

Capa da edição brasileira, editora Companhia das Letras

Pode ser consultado e lido, aqui 
em http://www.dm.com.br/revista/2015/03/no-dia-seguinte-ninguem-morreu.html

Link da edição em http://www.dm.com.br/

Ian Caetano, Especial para Diário da Manhã

"O único Nobel de literatura da língua portuguesa, José Saramago, é um autor que se destaca em diversos aspectos: pelo ingresso tardio como escritor “profissional” (no sentido de viver desta atividade, já estava quase aos 50 quando começou a prospectar esta carreira; tendo trabalhado antes como mecânico de automóveis, desenhista, jornalista e arriscou-se também em algumas traduções); pela produtividade (publicara seu primeiro livro ainda jovem, entre este e o segundo houve um hiato de 20 anos e, a partir daí, dentre romances, livros de poesia, crônicas, teatro e diários, publicou praticamente um por ano até o fim da vida) e, dentre diversas outras coisas, é aclamado por seu estilo, bastante próprio, de escrita. Mas não deixemo-nos crer que isto faz deste um autor de livros mornos, de best-sellers pouco elaborados em termos de conteúdo.

José Saramago destaca-se principalmente por sua capacidade de criação alegórica, já tendo reescrito a história de Cristo (O evangelho segundo Jesus Cristo); relatado a vida em um mundo onde, de uma hora para a outra, tornamo-nos cegos (Ensaio sobre a cegueira); contado a história sobre um homem que descobre ter um idêntico de si (O homem duplicado); e até se arriscado nas distopias, contando a história de habitantes que moravam em uma organização urbana de novo tipo chamada “centro” (A caverna), além de diversas outras histórias.

Comunista e ateu convicto, teve inúmeros problemas com o governo de sua própria terra – o que culminou em seu auto-imposto exílio nas ilhas canárias, da Espanha – e também com a igreja católica e com os judeus e com mais um sem fim de gente; mas não podia ser chamado um provocador, tão somente um homem de opinião forte e de ativa participação política. Apesar da vida juvenil penosa, como já reiterara em várias entrevistas quando perguntado, não era dado ao miseribilismo. Mas não estamos cá para tratar da biografia do autor, mas de uma de suas obras, e com Saramago é até difícil falar de alguma mais destacada, é como se todas compusessem um grandioso ensaio sobre os problemas da humanidade.

As intermitências da morte começa com um fato espantoso, “efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos 40 volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante”, que é o de que, após a virada do ano, durante as 24 horas do dia primeiro, ninguém morreu (naquele país).

Nisto o livro se desenrola, com autoridades tentando entender e administrar o ocorrido; agentes funerários coléricos, cobrando das autoridades que se instituíssem novas leis à obrigatoriedade dos trâmites fúnebres aos animais de estimação, uma vez que a matéria-prima desta profissão, os mortos humanos, havia cessado de existir naquele lugar; o colapso do sistema de “abrigos do feliz ocaso” (asilos), uma vez que já não se abriam novas vagas, e os velhos apenas ficavam mais velhos e os jovens também; a igreja, que agora perdera a carta da morte, tentando rearticular sua forma de dominação dos corpos; o contrabando dos moribundos para os limites da fronteira, com vistas a conseguir o já ansiado último suspi… e inúmeras outras situações compostas de um certo humor negro misturado de crítica do status e dos costumes.

O livro vai até sua quase metade narrando o estado de caos em que fica o país com a greve da morte. E eis que surge esta, en persona.

A partir daí basta dizer que a morte que é dotada de vida pela pena de Saramago é sarcástica, enigmática, animada por certa curiosidade das coisas humanas e tem consigo a mais interessante das personagens desta história, que é sua gadanha, com a qual ceifava vidas, mas que hoje, com os modernos métodos de produzir morte gerados pelo homem, está praticamente aposentada. Dizer mais que isto não é em nada produtivo. Basta advogar que nada falta a esta obra: a típica assinatura de Saramago em termos de escrita, as simultaneamente pertinentes e contra-intuitivas digressões do narrador, permeadas de filosofia ensaística e uma espécie de humor ora irônico, ora cansado.

As consequências e as razões de uma intermitência da morte lê-se nesta obra-prima."

Nota: o presente texto é republicado na integra, respeitando a ortografia do autor