Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 1 de março de 2016

Revista de "Estudos Saramaguianos" (2.º número - Julho de 2015) - De Eula C. Pinheiro "Todos os nomes do homem duplicado ou o caos é uma ordem por decifrar"

"Todos os nomes do homem duplicado ou 
o caos é uma ordem por decifrar"
Eula Carvalho Pinheiro


A "Revista de Estudos Saramaguianos", está disponível aqui, para consulta e download, 

O presente trabalho, está acessível para impressão e consulta, através do link https://drive.google.com/file/d/0BxyJDvv3PhxmTUMtQmxXY0doaVU/view

Páginas 63 a 85

"O acaso só favorece a mente preparada." - Louis Pasteur

"O mundo só está em ordem quando eu o desarrumo" - Alain Bosquet

"O que eu quero é que o leitor participe. Todo texto é um texto
por decifrar e, por mais claro que esteja, (...) ainda assim é
preciso decifrá-lo." - José Saramago


Considerações iniciais

Fazer uma leitura sobre o O homem duplicado de José Saramago, neste momento que Villeneuve fez outra por meio da linguagem cinematográfica, requer, de minha parte, a descrição de alguns acontecimentos.
A última tela do documentário José e Pilar apresenta o ecrã negro com a frase do romance O homem duplicado (e igualmente epígrafe): “O caos é uma ordem por decifrar” – inscrita na cor branca. Ao ler essa frase no final do documentário, minha inquietação aumentou: o que isso poderia indicar? O cineasta de José e Pilar possuía a intenção de levar o romance também para a linguagem cinematográfica ou estaria ali a ratificação de que José e Pilar eram a “ordem decifrada”, ou seja, “as imagens que lá estão dentro, pegadas umas às outras de maneira a contarem uma história” (SARAMAGO, 2002, p.105)? Adiante voltarei à questão, quando abordar, especificamente, o caos e a ordem.
Em 25 de setembro de 2010, por ocasião da estreia mundial do documentário José e Pilar do cineasta Miguel Gonçalves Mendes, conheci Pilar del Río. Naquela ocasião, para além da emoção que esse encontro envolvera, pude perguntar-lhe sobre uma questão pertinente ao romance O homem duplicado: desejava a confirmação de que as notícias lidas de que José Saramago tinha uma preocupação tanto em relação à crítica quanto aos leitores de não terem dado muita atenção ao referido romance se fazia verídica. A resposta afirmativa de Pilar del Río deu-me o suporte necessário para concluir a leitura que apresentaria no Congresso da Universidade Federal do Rio de Janeiro [A República da Letras e a República nas Letras]1, no dia 30 de setembro.
No início de minha comunicação, na UFRJ, indaguei aos espectadores quem já havia lido O homem duplicado. Após alguns segundos de intenso silêncio, provavelmente provocado por constrangimento, uma professora diz: “Ainda não li”. Naquele momento, levantei-me e ofertei um exemplar. Essa atitude foi necessária para a abordagem inicial: comentei sobre o quanto a escrita de O homem duplicado é fascinante e, por consequência, instigante. Embora tivesse, ainda, menos leitores que os demais romances. Daí em diante, abordei, principalmente, a intratextualidade presente no romance (que, particularmente, denomino “Saramago conversa com Saramago”, há 22 anos), e a questão do DUPLO (tanto o “duplo” inserido no romance: Tertuliano Máximo Afonso e Daniel Santa Clara – Daniel Claro, como os vários “duplos” na escrita saramaguiana).
Em relação à intratextualidade, como também aos vários duplos da escrita saramaguiana, temos, logo na segunda página, por exemplo, a menção de solitárias personagens masculinas de romances anteriores,

"O que por aí mais se vê, a ponto de já não causar surpresa, é pessoas a sofrerem com paciência o miudinho escrutínio da solidão, como foram num passado recente exemplos públicos, ainda não especialmente notórios, e até, em dois casos, de afortunado desenlace, aquele pintor de retratos de quem nunca chegámos a conhecer mais que a inicial do nome, aquele médico de clínica geral que voltou do exílio para morrer nos braços da pátria amada, aquele revisor de imprensa que expulsou uma verdade para plantar no seu lugar uma mentira, aquele funcionário subalterno do registo civil que fazia desaparecer certidões de óbito, todos eles, por casualidade ou coincidência, formando parte do sexo masculino, mas nenhum que tivesse a desgraça de chamar-se Tertuliano, e isso terá decerto representado para eles uma impagável vantagem no que toca às relações com os próximos. (SARAMAGO, 2002, p.12)"

A citação de O homem duplicado inscrita acima marca a presença dos romances Manual de pintura e caligrafia [...aquele pintor de retratos de quem nunca chegámos a conhecer mais que a inicial do nome...], O ano da morte de Ricardo Reis [...aquele médico de clínica geral que voltou do exílio para morrer nos braços da pátria amada...], História do Cerco de Lisboa [...aquele revisor de imprensa que expulsou uma verdade para plantar no seu lugar uma mentira...], Todos os nomes [...aquele funcionário subalterno do registo civil que fazia desaparecer certidões de óbito ...]. 
Todavia, a escrita de O homem duplicado dialoga, sobretudo, com o romance Todos os nomes. Nesse sentido, analisei o diálogo “Saramago conversa com Saramago” com base no ensaio escrito por José Saramago: O Autor como Narrador, pois

"[...] o autor está no livro todo, o autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor. Não foi simplesmente para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que “Madame Bovary” era ele próprio. Parece-me, até, que, ao dizê-lo, não fez mais que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem falar ao respeito devido ao autor de “Bouvard et Pécuchet”, poder-se- ia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: faltou a Flaubert acrescentar que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de todas as condições e idades nela viviam, casa, rua e cidades reais ou imaginadas, tanto faz. Porque a imagem e o espírito, o sangue e a carne de tudo isto, tiveram de passar, inteiros, por uma só pessoa. Também eu, ainda que sendo tão pouca coisa em comparação, sou a Blimunda de “Memorial do Convento”, e em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão... (SARAMAGO, 1997, p. 41)"

Antes de prosseguir, especificamente, com a relação entre os romances O homem duplicado e Todos os nomes, registro o diálogo (entre os muitos que existem no que se refere à obra saramaguiana) que se faz entre autor e livro em As intermitências da morte e Todos os nomes, “pelo que possa vir a valer no futuro, aqui a deixaremos consignada”. Em nota, a minha ansiedade por perceber que poucos notaram, fica também um excerto de A viagem do elefante, no qual o autor antecipa um outro projeto de texto2.

"Aqui, na sala da morte e da gadanha, seria impossível estabelecer um critério parecido com o que foi adoptado por aquele conservador de registo civil que decidiu reunir num só arquivo os nomes e os papéis, todos eles, dos vivos e dos mortos que tinha à sua guarda, alegando que só juntos podiam representar a humanidade como ela deveria ser entendida, um todo absoluto, independentemente do tempo e dos lugares, e que tê-los mantido separados havia sido um atentado contra o espírito. Esta é a enorme diferença existente entre a morte daqui e aquele sensato conservador dos papéis da vida e da morte, ao passo que ela faz gala de desprezar olimpicamente os que morreram, recordemos a cruel frase, tantas vezes repetida, que diz o passado, passado está, ele, em compensação, graças ao que na linguagem corrente chamamos consciência histórica, é de opinião de que os vivos nunca deveriam ser separados dos mortos e que, caso contrário, não só os mortos ficariam para sempre mortos, como também os vivos só por metade viveriam a sua vida, ainda que ela fosse mais longa que a de matusalém (...). Certamente nem toda a gente estará de acordo com a ousada proposta arquivística do conservador de todos os nomes havidos e por haver, mas, pelo que possa vir valer no futuro, aqui a deixaremos consignada. (SARAMAGO, 2005, p. 158-9, grifos meus)"

Tertuliano Máximo Afonso (de O homem duplicado) é também o Sr. José (de Todos os nomes). Essa afirmação de que o professor de História e o auxiliar de escrita da Conservatória Geral do Registo Civil são a mesma pessoa ou personagens que migram de uma obra para outra, evidenciando a intratextualidade, é percebida pelo leitor atento que leu, claro está, ambos os romances; pois sem o conhecimento de que o Sr. José esteve durante uma noite no gabinete de um diretor de escola não se tem a devida constatação de que se trata do mesmo gabinete. Por outro lado, um leitor com aguçada percepção mostrar-se-á intrigado ao ler: “Já estive aqui” (SARAMAGO, 2002, p. 84); momento que Tertuliano entra no gabinete do diretor da escola.

"O gabinete do diretor era no andar de cima, a escada de acesso tinha no telhado uma claraboia tão baça por dentro e tão suja por fora que, tanto no inverno como no verão, só avaramente deixava passar para baixo alguma luz natural. Enfiou por outro corredor e parou na segunda porta. Como havia uma luz verde acesa, bateu com os nós dos dedos e abriu quando ouviu de dentro, Entre, deu os bons dias, apertou a mão que o diretor lhe estendia e, a um sinal dele, sentou-se. Sempre que aqui entrava tinha a impressão de já ter visto este mesmo gabinete noutro lugar, era como um desses sonhos que sabemos ter sonhado mas que não conseguimos recordar quando despertamos. O chão estava alcatifado, a janela tinha um cortinado de grossos panos, a secretária era ampla, de estilo antigo, moderno a cadeirão de pele negra. Tertuliano Máximo Afonso conhecia estes móveis, este cortinado, esta alcatifa, ou julgava conhecê-los, possivelmente foi ter lido um dia num romance ou num conto a lacónica descrição de um outro gabinete de um outro diretor de uma outra escola o que, assim sendo, e no caso de vir a ser demonstrado com o texto à vista, o obrigará a substituir por uma banalidade ao alcance de qualquer pessoa de razoável memória o que até hoje tinha pensado ser uma intersecção entre a sua rotineira vida e o majestoso fluxo circular do eterno retorno." (SARAMAGO, 2002, p. 80-1, grifos meus)

Continuando

"Fantasias. Absorto na sua onírica visão, o professor de História não tinha ouvido as primeiras palavras do diretor, mas nós que aqui sempre estaremos para as faltas [narrador-autor], podemos dizer que não tinha perdido muito, apenas a retribuição dos seus bons dias, a pergunta Como tem passado, o preambular Pedi-lhe que viesse aqui para, daí em diante Tertuliano Máximo Afonso passou a estar presente em corpo e em espírito, com a luz dos olhos desperta e a do entendimento também. (SARAMAGO, 2002, p.81, grifos meus)"

Ainda, na sala do diretor, o texto enfatiza, uma vez mais, a sensação de reconhecimento daquele ambiente por parte de Tertuliano Máximo Afonso. Além disso, o narrador-autor afirma “ler também é uma forma de lá estar”, o que implica, necessariamente, uma conversa (um chamado de atenção) com o leitor. Nesse sentido, o leitor de Todos os nomes e Tertuliano Máximo Afonso estiveram, naquela sala, anteriormente. Para além dessa constatação, a sentença “ler também é uma forma de lá estar” é marca de outras tantas leituras empreendidas por José Saramago; por sua vez a ação de escrever como fez nos textos diarísticos e memorialísticos é testemunho para além do tempo3. Ratifico, também, que a OBRA de José Saramago é toda ela para o hoje e para o futuro: “navegação pelo rio do Tempo acima” (SARAMAGO, 2002, p.86).

"Nunca se repetirá de mais aquela outra trivialidade de que as pequenas causas podem produzir grandes efeitos. Num momento em que o director voltou à secretária para recolher os óculos, Tertuliano Máximo Afonso olhou em redor, viu o cortinado, o cadeirão de pele negra, a alcatifa, e novamente pensou, Já aqui estive. Depois , talvez porque alguém tivesse aventado que poderia apenas haver lido em qualquer parte a descrição de um gabinete parecido a este, acrescentou outro pensamento o que tinha pensado, Provavelmente, ler também é uma forma de lá estar. [...] Se eu aqui tivesse estado antes de ser professor da escola, isto que agora estou a sentir poderia não ser mais que uma memória de mim mesmo histericamente activada." (SARAMAGO, 2002, p.83-4, grifos meus)

Ambas as situações, que Tertuliano Máximo Afonso menciona, ocorreram: “Se eu aqui tivesse estado antes de ser professor da escola”; sim, foste o Sr. José da Conservatória do Registo Civil e o que estás a sentir é “uma memória [...] activada”. No romance Todos os nomes leio: “é preciso andar muito para alcançar o que está perto” (SARAMAGO, 2010, p.79).
O Sr. José – auxiliar da Conservatória do Registro Civil – observa com particular atenção o que está escrito nos verbetes; até que se depara, por acaso, com o da “mulher desconhecida” e neste coloca especial atenção. É a partir desse momento que o Sr. José “abandona uma existência por procuração e começa a viver de facto” (PERRONE-MOISÉS, 1999, p.431). Ao interessar-se pela “mulher desconhecida”, interessa-se por si mesmo, pois “conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens” – palavras que compõem a epígrafe dessa obra; e como fora mencionado por José Saramago: “as epígrafes dos meus romances dizem antecipadamente muito daquilo que será encontrado nas páginas que a elas se seguem”.
Uma digressão se faz necessária; em Todos os nomes, José Saramago ratifica sua constante intenção de dar voz a pessoas comuns que nada têm de diferente daquelas “que nascem entram nas enciclopédias, nas histórias, nas biografias, nos catálogos, nos manuais, nas colecções de recortes, os outros, mal comparando, são como a nuvem que passou sem deixar sinal de ter passado, se choveu não chegou para molhar a terra” (SARAMAGO, 2010, p. 44). As pessoas são muito mais que um nome.
O interesse do Sr. José pela “mulher desconhecida” acaba por levá-lo à escola onde ela estudara e, assim, ao gabinete do Director:

"Neste andar só havia salas de aula, o gabinete do diretor seria com certeza no de cima, afastado das vozes, dos ruídos incómodos, do tumulto da entrada e saída das classes. A escada de acesso tinha no alto uma clarabóiaao subir por ela ascendia-se progressivamente da escuridão à luz, o que, nesta circunstância, não tem outro significado que prosaicamente podermos ver onde pomos os pés. [...] Saiu da secretaria e duas portas adiante deu finalmente com o gabinete do diretor. Comparando com a austeridade da Conservatória Geral, aqui não seria exagero falar de luxo. chão estava alcatifado, a janela tinha um cortinado de grossos panos, agora fechados, a secretária, de estilo antigo, era ampla, o cadeirão de pele negra, moderno, tudo isto ficou a saber o Sr. José porque, ao abrir a porta e encontrar-se com uma obscuridade total, não teve dúvidas em acender primeiro a lanterna, e, logo a seguir, o candeeiro do tecto. [...] O cadeirão do diretor era cómodo, poderia dormir ali, mas muito melhor seria o comprido e profundo sofá de três lugares que parecia estar a abrir-lhe caridosamente os braços para neles reconfortar o fatigado corpo." (SARAMAGO, 2010, p.112-114, grifos meus)

Antes de acomodar-se o Sr. José, apesar do extenuado estado, “nem tinha dado pela passagem do tempo”, ali, naquele gabinete, chorou convulsivamente a pensar na possibilidade de ter estado nessa mesma situação, porém “noutra escola, o rapazinho das primeiras classes que cometeu uma travessura e foi chamado ao director para receber o merecido castigo” (SARAMAGO, 2010, p.114). Estaria nessas últimas palavras uma reflexão, uma recordação, a memória presente do rapazito José Saramago, a comprovar que “tudo é autobiografia”? Volto ao gabinete do diretor:

"O Sr. José começou por tirar os sapatos, depois despiu o casaco e a camisa, desenfiou as calças, que foi dependurar num cabide de pé alto que se encontrava a um canto, agora só faltava que pudesse com a manta do filme, acessório difícil de encontrar no gabinete de um director de colégio, salvo se o director deste for pessoa idosa, dessas a quem se lhes arrefecem os joelhos quando estão muito tempo sentadas. O espírito dedutivo do Sr. José conduziu-o mais uma vez à conclusão certa, a manta estava cuidadosamente dobrada sobre a almofada do cadeirão. Não era grande, não chegava para cobri-lo por completo, mas seria melhor que ter que ficar toda a noite ao léu. O Sr. José apagou a luz do tecto, guiou-se com a lanterna e, suspirando, estendeu-se no sofá, para logo se encolher de modo a caber todo debaixo da manta." (SARAMAGO, 2010, p.115, grifos meus)

Outras semelhanças se fazem presente entre Todos os nomes e O homem duplicado. Entre elas temos a procura por uma pessoa: o Sr. José, funcionário da Conservatória do Registro Civil, a partir do momento que um verbete ao acaso aparece entre outros que lia, decide investigar quem é aquela mulher desconhecida. Já Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, aceita a indicação do professor de Matemática: aluga o filme “Quem Porfia Mata Caça”; estupefato com a semelhança entre um ator coadjuvante e ele, segue também as “pistas” para conhecer mais da referida pessoa. Ambos, todavia, direcionam-se pelo caminho mais longo, ou seja, indireto.
 As personagens, no entanto, são alertadas para seguirem o modo mais prático para conseguirem as respostas ou, até mesmo, para desistirem da empreitada. No caso de Tertuliano Máximo Afonso, de início, será o “senso comum” que manterá dialeticamente uma conversa na tentativa de dissuadi-lo da ideia:

"[...] o senso comum de Tertuliano Máximo Afonso compareceu finalmente a dar-lhe o conselho cuja falta mais se vinha notando desde o aparecimento do empregado da recepção no televisor, e foi esse o conselho o seguinte, Se achas que deves pedir uma explicação ao teu colega, pede-a de uma vez, sempre será melhor que andares por aí com a garganta atravessada de interrogações e dúvidas, recomendo-te em todo o caso que não abras demasiado a boca, que vigies as tuas palavras, tens uma batata quente nas mãos, larga-a se não queres que te queime, devolve o vídeo à loja hoje mesmo, pões uma pedra sobre o assunto e acabas com o mistério antes que ele comece a deitar cá para fora coisas que preferirias não saber, ou ver, ou fazer, além disso, supondo que há uma pessoa que é uma cópia tua, ou tu uma cópia sua, e pelos vistos há mesmo, não tens nenhuma obrigação de ir à procura dela, esse tipo existe e tu não o sabias, existe tu e ele não sabe, nunca se viram, nunca se cruzaram na rua, o melhor que tens a fazer é, E se encontro um dia destes, se me cruzo com ele na rua, interrompeu Tertuliano Máximo Afonso, Viras a cara para o lado, nem ti vi nem te conheço, E se ele se dirigir a mim, Se tiver uma só pontinha de sensatez fará o mesmo, Não se pode exigir a toda gente que seja sensata, Por isso o mundo está como está, Não respondeste à minha pergunta, Qual, Que faço eu se ele se dirigir a mim, Dizes-lhe que extraordinária coincidência, fantástica, curiosa, o que te parecer mais adequado, mas sempre coincidência, e cortas a conversa, Assim sem mais nem menos, Assim sem mais nem menos, Seria uma má-criação, uma indelicadeza, Às vezes é a única maneira de evitar males maiores [...]." (SARAMAGO, 2002 p. 32-3, grifos meus)

Por outro lado, o romance O homem duplicado apresenta-nos, depois, Carolina Máximo, mãe de Tertuliano Máximo Afonso a prevenir também o filho do que uma ação presente possa trazer no futuro. O filho ironicamente compara a mãe à Cassandra, pois essa personagem da mitologia grega teve papel importante na Guerra de Tróia por tê-la previsto, como também a destruição que a peleja provocaria. Mais discretamente também a nomeia de Sibila, pois as sibilas eram também de poderes proféticos na mitologia greco-romana.

"A mãe de Tertuliano Máximo Afonso, cujo nome Carolina, de apelido Máximo, aqui finalmente aparece, é uma assídua e fervorosa leitora de romances. Como tal, sabe tudo de telefones que às vezes tocam sem ser esperados e de outros que tocam às vezes quando desesperadamente se espera que tocassem. Não foi este o caso de agora, a mãe de Tertuliano Máximo Afonso só tem andado a perguntar-se. Quando será que meu filho telefona, e eis que de repente tem a sua voz juntinha ao ouvido, Bons dias, minha senhora mãe, como tem passado, Bem, bem, na forma do costume, e tu, Eu também como sempre, Tens tido muito trabalho na escola, O normal, os exercícios, as chamadas, uma reunião ou outra de professores, E essas aulas, quando é que acabam este ano, Daqui por duas semanas, (...) Irei vê-la claro, mas não poderei ficar mais que três ou quatro dias, Porquê, É que tenho ainda umas coisas para arrumar aqui, umas voltas a dar, Que coisas são essas, que voltas, a escola fecha para férias e as férias, fizeram-se para descanso das pessoas (...) Tem algo que ver com tua amiga, a Maria da Paz, Até certo ponto, Pareces uma personagem de um livro que tenho andado a ler, uma mulher que quando lhe perguntavam responde sempre com outra pergunta, (...), Depois lhe contarei tudo, (...) Tranquilize-se, por favor, de uma maneira ou outra neste mundo tudo acaba por se resolver, Às vezes da maneira pior, (...) mas aquela frase da mãe, Às vezes da maneira pior, quando, para a sossegar, ele tinha dito que neste mundo tudo se resolve, soavam-lhe agora a vaticínio de desastre, a anúncio de fatalidades, como se, em lugar da idosa senhora que se chamava Carolina Máximo e era sua mãe, lhe tivesse saído do outro lado do fio uma sibila ou uma cassandra a dizer-lhe, por outras palavras, Ainda estás a tempo de parar." (SARAMAGO, 2002, p.137-9, grifos meus)

À semelhança do processo dialético que Tertuliano Máximo Afonso estabelece com o “senso comum” (ou seja, Tertuliano com Tertuliano); o Sr. José dialoga consigo e esse outro “José” é o “tecto” de seu pequeno quarto; nesse momento também é sobre a busca pela mulher desconhecida que está a ser discutida. Continuar ou interromper são dois pensamentos que habitam uma mesma pessoa que se divide em outra.

"A ideia que o tecto deu ao Sr. José foi que interrompesse as férias e voltasse ao trabalho, Dizes ao chefe que já estás com suficientes forças e pedes que te reserve o resto dos dias para outra ocasião, isto no caso de vires ainda a encontrar maneira de sair do buraco em que te meteste, com todas as portas fechadas e sem uma pista que te oriente, O chefe vai achar estranho, Coisas muito mais estranhas tens tu andado a fazer nos últimos temposVivia em paz antes desta obsessão absurda, andar à procura de uma mulher que nem sabe que existo, Mas sabes tu que ela existe, o problema é esse, Melhor seria desistir de uma vez, Pode ser, pode ser, em todo o caso lembra-te de que não é só a sabedoria dos tectos que é infinita, as surpresas da vida também o são, Que queres dizer com essa sentença tão rançosa, Que os dias se sucedem e não se repetem, Essa é mais rançosa ainda, não me digas que é nesses lugares-comuns que consiste a sabedoria dos tectos, comentou desdenhoso o Sr. José, Não sabes nada da vida se crês que há mais alguma coisa para saber, respondeu o tecto, e calou-se." (SARAMAGO, 2010, p.187-8, grifos meus: sublinhadas, do narrador e em negrito do tecto)

O Sr. José e a senhora do rés-do-chão direito dialogam sobre isso:

"E que informação era essa que tinha para me dar. A mulher bebeu um pouco de chá, estendeu a mão hesitante para o prato das bolachas, mas não concluiu o gesto. Disse, Recorda-se de eu lhe ter sugerido, no fim da sua visita, quando já se ia retirar, que procurasse na lista telefónica o nome da minha afilhada, Recordo-me, mas preferi não seguir o seu conselho, Porquê, É muito difícil de explicar, Com certeza terá tido as suas razões, Dar razões para o que se faz ou se deixa de fazer é o que há de mais fácil, quando percebemos que as não temos ou não as temos suficientes tratamos de inventá-las, no caso da sua afilhada, por exemplo, eu poderia agora declarar que achei preferível seguir o caminho mais longo e mais complicado, E essa razão, pergunto, é das verdadeiras, ou é das inventadas, Concordemos que tem tanto de verdade como de mentira, E qual é nela a parte de mentira, Em estar eu a proceder de modo a que a razão que lhe dei seja tomada como verdade inteira, E não o é, Não, porque omito a razão de ter preferido aquele caminho e não outro, directo, Aborrece-o a rotina de seu trabalho, Essa poderia ser outra razão [...]" (SARAMAGO, 2010, p. 227-8, grifos meus)

Tertuliano Máximo Afonso pensou em procurar na lista telefônica por ele mesmo. Mas a exemplo do Sr. José preferiu “o caminho mais longo e complicado”.

"Se tu fores à lista telefónica, disse, poderás saber onde ele vive, não precisarás de perguntar à produtora, e até, no caso de estares com disposição para isso, poderás ir ver a rua onde ele mora, e a casa, claro que deverás ter a prudência elementar de te disfarçares, não me perguntes de quê, isso é lá contigo." (SARAMAGO, 2002, p.115)

O caos é uma ordem por decifrar

A sentença “O caos é uma ordem por decifrar”, como dissera no início intrigou-me e, como leitora que segue por prazer o prazer do escritor: “o que eu quero é que o leitor participe” (ARIAS, 2003, p.75), fui em busca das questões para as respostas que vinham à mente. Assim, indaguei, estaria José Saramago referindo-se à Teoria do Caos? Nesse sentido, reiniciei o que já lera sobre a Teoria do Caos do matemático Edward Norton Lorenz. Paralelo a essa busca reli Conversas inéditas, de Miguel Gonçalves Mendes e José Saramago: o amor possível, de Juan Arias. Em Conversas inéditas encontro a resposta que José Saramago apresenta a duas perguntas realizadas em sequência por Miguel Gonçalves Mendes: “José que imagem acha que o mundo tem de si? E que imagem é que o José tem do mundo?” O excerto abaixo evidencia, pelo menos, o “caos provocado por José Saramago com o seu êxito; afinal “de repente desarruma o panorama”4.

"Donde é que esse gajo saiu, não saiu da Universidade, não saiu de grupos intelectuais, não saiu de parte nenhuma, não se sabe de onde é que este gajo saiu, depois escreve um livro que se chama Levantado do Chão, escreve outro melhor ainda que se chama Memorial do Convento, outro melhor ainda que os outros dois que é O Ano da Morte de Ricardo Reis, e continua a escrever até hoje. Donde é que saiu este filho da puta? E quem é que vai digerir isso, pessoas que estavam instaladas na sua própria reputação, na sua própria fama, no seu próprio trabalho – digno evidentemente – e que de repente são surpreendidas pelo aparecimento de uma pessoa sem passado, ou cujo passado eles desconheciam completamente, e que de repente desarruma o panorama, e isso não se perdoa. Toda a gente está bem no seu sítio, com o seu próprio território, com os seus grupos de amigos, influência, e tudo o mais, e de repente aparece um gajo suspeito e que tem êxito, e que vende livros. Escreve os livros que quer, não escreve os livros que se supõe que os leitores quererão ler, escreve os livros que quer escrever. E para remate de tudo isto, ainda por cima, dão-lhe o Prémio Nobel. Você crê que isso se perdoa?" (MENDES, 2011, p.121-2, grifos meus).

Todavia, a explicação dada por José Saramago para um comentário de Juan Arias tornou-se conclusiva:

"Recordo que, quando foi publicado o romance [referência ao Levantado do chão] em que tudo isso aconteceu, as pessoas ficaram um tanto desconcertadas, e um amigo que eu presenteara com o romance telefonou-me dois ou três dias depois para dizer que não estava a perceber nada. Eu lhe disse que tentasse ler duas ou três páginas em voz alta, e no dia seguinte tornou a ligar-me dizendo: “Percebi e já sei o que queres”. O que eu quero é que o leitor participe. Todo texto é um texto por decifrar e, por mais claro que esteja, com todas as pistas dadas, todas as indicações, por mais que eu diga o que se deve entender o que ali está, ainda assim é preciso decifrá-lo. Talvez decifrar um texto meu seja um pouco mais complicado, mas a partir do momento em que o leitor sabe quais são as regras do jogo que estou a propor, pronto, não terá a menor dificuldade. E mais, a intervenção do leitor será muito mais intensa, muito maior, do que se o texto estivesse facilitado por todas as muletas da pontuação. Sempre se pode dizer que é uma coisa que nos ajuda, mas pode viver-se sem ela. Claro que, quando tenho de escrever um artigo, observo todas as regras ortodoxas da escrita. Já um texto de ficção, que é como um pequeno mundo onde as coisas se comportam de outra maneira, o leitor tem de entrar nesse mundo, penetrar nele, aceitar as suas regras e seguir adiante." (ARIAS, 2003, p.75-6)

Sigo adiante, considerando, sobretudo, o que José Saramago disse para Carlos Reis5, em 1997, porque procuro ser clara ao escrever a fim de que o leitor não especializado compreenda; essa maneira de escrever traz novos leitores para a obra que estou a analisar, isso vale muito.

"[...] eu considero a crítica literária necessária, desde que compreensível, quero dizer, desde que esteja ao alcance dos leitores comuns, de revistas e de jornais, que no fundo todos somos. [...] o crítico literário é um leitor que tem o privilégio de poder dizer o que é que lhe pareceu o livro que leu e que eu possa ler isso, entendendo o que está a ser dito. Isso sim, é útil para os leitores ou para aqueles que podem vir a ser leitores de um livro determinado e que gostam de ser informados”. (REIS, 2015, p. 64, grifos meus).

A ideia de CAOS está presente desde os tempos bíblicos: “A terra, entretanto, era sem forma e vazia. A escuridão cobria o mar que envolvia toda a terra, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1 – AT); como também na Mitologia: “o vazio primordial”. Segundo Hesíodo (poeta da Grécia arcaica) a primeira de todas as divindades da Mitologia era o CAOS.
Todavia, com o tempo, a noção de CAOS foi tomando outros aspectos. Isso, aliás, é, em geral, o que acontece com as palavras, tanto na grafia quanto no significado; este, porém, de maior complexidade, pois pode alterar significativamente um enunciado. A palavra CAOS, segundo o Dicionário Aurélio, é oriunda do latim [chaos < gr. cháos.], sendo um substantivo masculino com o sentido de “confusão ou desordem”. Essa palavra atualmente sugere tanto o significado inicial quanto um outro que surgiu com a Teoria do Caos, ou seja, “a ausência de alguma forma de ordem que deveria estar presente” (LORENZ, 1996, p.15); ou ainda “sistemas desorganizados que podem organizar-se espontaneamente, tal como uma massa líquida informe pode, quando congelada, solidificar-se em um belo cristal” (LORENZ, 1996, p.15-6).
Imaginemos dezenas de laranjas empilhadas sobre uma mesa a formarem a figura de uma pirâmide. Haveria, pois, quem dissesse: “perfeito, todas estão no seu lugar”. Logo em seguida, alguém retira uma das laranjas do meio ou da base e todas instantaneamente acabam por esparramarem-se pelo chão. Nesse sentido, o que é verdadeiramente o CAOS: a ordem ou a desordem? Se avaliarmos que a ordem apresentada no exemplo é frágil, veremos que a consistência está na desordem, ela sim, neste caso, estável. Com as laranjas espalhadas ter-se-ia uma situação mais definida.
No romance O homem duplicado, Tertuliano Máximo Afonso ordena cronologicamente as cassetes a fim de assistir aos filmes, mas não estava nessa sequência a ORDEM, tanto assim que acaba por não segui-la.

"Quis porém o acaso, muito mais exacto teria sido dizer que foi inevitável, uma vez que conceitos tão sedutores como fado, fatalidade ou destino não teriam cabimento neste discurso, que o arco de círculo descrito pelos olhos de Maria da Paz passasse, primeiro pelo televisor ligado, logo pelas cassetes que não tinham sido devolvidas aos seus lugares no chão, finalmente pela própria fileira delas, presença inexplicável, insólita, para qualquer pessoa que, como ela, íntima destes sítios, tivesse suficiente conhecimento dos gostos e hábitos do dono da casa, Que é isto, que fazem aqui todas estas cassetes, perguntou, É material para um trabalho que tenho andado ocupado [...]" (SARAMAGO, 2002, p.99, grifos meus)

Em poucas páginas adiante, Maria da Paz dirá: “O caos é uma ordem por decifrar”. Tertuliano Máximo Afonso surpreende-se com as palavras de Maria da Paz, duvida mesmo que tal sentença tenha nascido das reflexões dela. Todavia, as personagens femininas da obra saramaguiana são, essencialmente, incomuns.

"O caos é uma ordem por decifrar, Quê, que foi que disseste, perguntou Tertuliano Máximo Afonso, que já tinha a lista do nomes a salvo, Que o caos é uma ordem por decifrar, Onde foi que leste isso, a quem o ouviste, Ocorreu-me neste momento, não creio que tivesse lido alguma vez, e, ouvi-lo, isso tenho a certeza de que não, Mas como foi que te saiu uma frase dessas, Que tem de especial a frase, Tem muito, Não sei, talvez fosse porque o meu trabalho no banco se faz com algarismos, e os algarismos, quando se apresentam misturados, confundidos, podem aparecer como elementos caóticos a quem não os conheça, no entanto existe neles, latente, uma ordem, na verdade creio que os algarismos não têm sentido fora de uma ordem que se lhes dê, o problema está em saber encontra-la, Aqui não há algarismos, Mas há um caos, foste tu mesmo que o disseste, Uns quantos vídeos desarrumados nada mais, E também as imagens que lá dentro estão, pegadas umas às outras de maneira a contarem uma história, isto é, uma ordem, e os caos sucessivos que elas formariam se as dispersássemos antes de tornar a pegá-las para organizar histórias diferentes, e as sucessivas ordens que assim iríamos obtendo, sempre deixando atrás um caos ordenado, sempre avançando para dentro de um caos por ordenar" [...] (SARAMAGO, 2002, p. 105, grifos meus)

Como se vê, a ideia de CAOS não implica necessariamente DESORDEM. O matemático, meteorologista e filósofo Edward Norton Lorenz, considerado o mentor da “Teoria do Caos”, avaliou que pequenas mudanças em sistemas organizados poderiam causar efeitos drásticos. É natural, pois, que as frutas caiam da árvore, mas quando Newton resolveu investigar o porquê disso ocorreu uma mudança radical no meio científico. Por outro lado, “muitos sistemas desorganizados podem organizar-se espontaneamente” (Lorenz faz menção ao livro Ordem fora do caos escrito pelo Prêmio Nobel Ilya Prigogine e sua colega Isabelle Stengers); na biologia há inúmeros exemplos, cito um: é o caso da bactéria que se reproduz aleatoriamente, ou seja, por si só. Na filosofia, a Teoria do Caos abre a possibilidade de questionarmos a respeito do Destino (e isso é muito relevante nos romances mencionados neste trabalho). Em tempos antigos primava-se pelo determinismo, o Destino era imutável. Agora, o determinismo deixa de ser sine qua non a partir do momento que se constata o “efeito borboleta” (termo dado por Lorenz aos efeitos que provocam mudanças presumíveis), qual seja: uma determinada interferência tem capacidade para alterar um percurso (ou percursos). É, pois, o que acontece com Tertuliano Máximo Afonso – professor de História – em O homem duplicado: “Não sabemos tudo do que nos espera para além de cada acção nossa, havia dito a mãe (...) pode, em algumas situações, afligir e assustar tanto como a pior das ameaças”. (SARAMAGO, 2002, p.212); como também com o Sr. José – funcionário da Conservatória do Registo Civil – em Todos os nomes: “Quis o acaso da nova busca que, antes de encontrar o gabinete do diretor, o Sr. José tivesse entrado na secretaria do colégio, uma sala com três janelas que davam para o lado da rua”. (SARAMAGO, 2010, p.113).
Lembro-me, aqui, e assim faço uma digressão que também fora o ACASO que possibilitou a novela A viagem do elefante. José Saramago, em breve texto, na primeira página, esclarece o leitor:

"Se Gilda Lopes Encarnação não fosse leitora de português na Universidade de Salzburgo, se eu não tivesse ido falar aos alunos, se Gilda não me tivesse convidado para jantar no Restaurante O Elefante, este livro não existiria. Foi preciso que os ignotos fados se conjugassem na cidade de Mozart para que eu pudesse ter perguntado: “Que figuras são aquelas”?" (SARAMAGO, 2008, p.5)

A ideia proposta por Tertuliano Máximo Afonso a respeito do ensino de História só aparentemente parece caótica: não apresentar cronologicamente ordenado os fatos não implica em desordem ou não-entendimento; implica, pois, em não-linearidade, complexidade e fractalização. Esta proposta, inclusive, é a essência do movimento trazido pelos historiadores da Nova História – que por sinal, José Saramago era profundo admirador. Não esqueçamos de que ele traduziu No Tempo das Catedrais de George Duby e, ainda, faz menção a outros historiadores dessa linha nos textos diarísticos como também em entrevistas.
A desordem pode ser exemplificada por meio da ordem física das mesas na Conservatória do Registo Civil: oito mesas dos auxiliares de escrita logo atrás do balcão, com maior distância, porém atrás dessas mesas outras quatro nas quais trabalhavam os oficiais, seguindo a lógica (hierárquica pode-se dizer) duas mesas, as dos dois subchefes, e, por último, uma mesa apenas: a do Conservador6. Temos, pois, se de geometria tratarmos, um triângulo que apresenta no seu interior uma progressão geométrica: 1, 2, 4, 8. Neste caso, a progressão geométrica tem razão 2, ou seja, o primeiro multiplicado por 2 resultará no segundo, o segundo multiplicado por 2 apresentará o terceiro e assim sucessivamente.
Essa disposição distancia as pessoas a fim de manter uma “ordem” ineficaz: na prática uma pessoa não vê o rosto da outra, mas a cabeça por trás; uma “ordem” que tem o propósito de evitar contato e aumentar a eficiência; embora o trabalho em tudo não seja mais eficiente por isso. Semelhante são as muitas salas de aula ainda existentes, especialmente no Brasil.
A posição das sepulturas da parte destinada aos suicidas é, em tudo, diferente do organograma da Conservatória. Quando o Sr. José encontrou o pastor de ovelhas, após ter dormido protegido por uma oliveira no Cemitério Geral, tem conhecimento de que a sepultura encontrada não seria da “mulher desconhecida”, pois o pastor de ovelhas permutava os números das sepulturas todos os dias. Assim, o Sr. José não encontrara a sepultura da mulher desconhecida como pensara. Tão logo, o pastor de ovelhas se afasta, o Sr. José

"Então foi retirar o número que correspondia à mulher desconhecida e colocou-o na sepultura nova. Depois o número desta foi ocupar o lugar do outro. A troca estava feita, a verdade tinha-se tornado mentira. Em todo caso, bem poderá vir a suceder que o pastor, amanhã, encontrando ali uma nova sepultura, leve, sem saber, o número falso que nela se vê para a sepultura da mulher desconhecida, hipótese irónica em que a mentira, parecendo estar a repetir-se a si mesmo, tornaria a
ser verdade. As obras do acaso são infinitas." (SARAMAGO, 2010, p. 291-2, grifos meus)

“As obras do acaso são infinitas”, sim. Aí está uma vez mais: “o caos é uma ordem por decifrar”.
O homem duplicado conversa com Todos os nomes de modo mais visível nos exemplos registados anteriormente (nas considerações iniciais). Todavia esse diálogo não para por aí. Se em Todos os nomes, o Sr. José está à procura da “mulher desconhecida”, pois o ACASO entregou-lhe um verbete (“o verbete intruso viera pegado ao que o precedia”, SARAMAGO, 2010, p.42; “foi o acaso que lhe trouxe a mulher desconhecida, só o acaso compete ter voto nesta matéria”, SARAMAGO, 2010, p.55) e, a partir de então, foi à procura da recuperação da história dessa mulher; transformando-se a si próprio ao longo da busca – conhecendo efetivamente a si mesmo. Em O homem duplicado, também o ACASO, provoca em Tertuliano Máximo Afonso a necessidade de encontrar um homem que aparecia como mero coadjuvante no filme “Quem Porfia Mata Caça” (indicado pelo professor de Matemática da mesma escola que trabalhava); isso porque esse ator em tudo é o duplo de Tertuliano Máximo Afonso.
Outro elo entre Todos os nomes e O homem duplicado está, provavelmente, na presença de um duplo do Sr. José, qual seja o próprio chefe da Conservatória Geral. O Conservador diz ao médico: “senhor doutor, trate-me aquele homem como se estivesse a tratar-me a mim, é importante” (SARAMAGO, 2010, p.161). Antes, todavia, o Sr. José dissera à mulher do rés-do-chão direito:

"Mas certamente nada de muito extraordinário terá acontecido, uma vez que me disse ser viúva, Tem boa memória, É uma condição fundamental se se quiser ser funcionário da Conservatória do Registo Civil, o meu chefe, por exemplo, (...) sabe de cor todos os nomes que existem e existiram, todos os nomes e todos os apelidos, E isso para que serve, O cérebro de um conservador é como um duplicado da Conservatória" (...) (SARAMAGO, 2010, p.71);

ao final do romance outra evidência se enuncia:

"Meteu a chave à porta, sabia quem ia ver, (...), o dono da chave é o dono da casa, digamos que ambos somos donos desta casa, tal como você parece ter-se considerado dono bastante da Conservatória para distrair documentos oficiais do arquivo, Posso explicar, Não é preciso, tenho seguido regularmente as suas atividades" (...) (SARAMAGO, 2010, p.332-3).

O ACASO se fez igualmente presente na trajetória deste trabalho. Se tivesse terminado a tempo de ser publicado em 2014, teria deixado de mencionar um texto fundamental presente em O Caderno 2: GEOMETRIA FRACTAL, escrito por José Saramago, para o blog, no dia 31 de março de 2009. Lera tal texto algumas vezes, mas por esses dias o acaso me fez abrir o livro e, com isso, lembrar-me dele. A transcrição do texto traz esclarecimentos para o que tem sido abordado até aqui.

"Dia 31
GEOMETRIA FRACTAL
"Tal como o Sr. Jourdain de Molière fazia prosa sem o saber, houve um momento na minha vida em que, sem me ter apercebido do fenómeno, me encontrei metido em algo tão misterioso como a geometria fractal, da qual, escusado seria dizê-lo, ignorava tudo. Foi isso pelo ano de 99, quando um geómetra espanhol, Juan Manuel García-Ruiz, me escreveu a pedir a minha atenção para um exemplo de geometria fractal presente no meu livro Todos os Nomes. Indicava-me a passagem em questão, a qual reza assim: “Observado desde o ar [...] parece uma árvore tombada, com um tronco curto e grosso, constituído pelo núcleo central de sepulturas, de onde arrancam quatro poderosas ramas, contíguas no seu nascimento, mas que depois, em bifurcações sucessivas, se estendem até perder-se de vista, formando [...] uma frondosa copa em que a vida e morte se confundem.” Não pensei em mudar de ofício, mas todos os meus amigos notaram que havia uma convicção nova no meu espírito, uma espécie de encontro na estrada de Damasco.
Durante aqueles dias ombreei com os melhores geómetras do mundo, nada mais, nada menos. Aquilo a que eles haviam chegado à custa de muito estudo, alcançara-o eu graças a um golpe de intuição científica, do qual, falando francamente, apesar do tempo que passou, ainda não me recompus. Dez anos depois, acabo de sentir a mesma emoção na figura de um livro intitulado Armonía Fractal – De Doñana a las marismas de que Juan Manuel é autor, juntamente com seu colega Héctor Garrido. As ilustrações são, em muitos casos, extraordinárias, os textos de uma precisão científica nada incompatível com a beleza das formas e dos conceitos. Comprem-no e regalem-se. É uma autoridade quem o recomenda..." (SARAMAGO, 2010, p.33-4)

Quando iniciei a composição deste trabalho – já com a intenção de chegar a abordar a “Teoria do Caos” de Lorenz – conhecia razoavelmente a geometria fractal, como também o passo seguinte que vai dar na Proporção Áurea. 
Nesse sentido, a Teoria do Caos, segundo Lorenz, envolve: não-linearidade, complexidade e fractalização. Não-linearidade é tudo aquilo que, claro está, não é linear. Explico: o acaso não é linear. Segundo Lorenz, os processos lineares são, em maioria, aqueles que criamos: se entrarmos num mercado a fim de comprar alguns itens, sairemos de lá com menos dinheiro do que tínhamos ao entrar. Um exemplo não-linear é evidente numa competição esportiva: imaginemos a descida de esquiadores por uma rampa; as condições serão distintas para cada um. O caos implica não-linearidade, mas a não-linearidade não significa caos. Quanto à complexidade: “indicar a extensão de um conjunto de instruções que alguém teria que seguir para representar ou construir um sistema” (LORENZ, 1996, p.202). Nesse sentido, a complexidade será maior ou menor de acordo com o que se terá que representar ou construir.
Em meados do século XX, Benoît Mandelbroa, um matemático, convenceu a comunidade científica de que a geometria usada desde sempre não era capaz de ser utilizada para descrever a natureza; com isso apresentou a geometria fractal que era capaz de analisar as linhas da natureza. Juan Manuel García-Ortiz viu no excerto de Todos os nomes essa proposta da geometria fractal; pois tal geometria se estende para as artes igualmente. Antes de os muros do cemitério serem derrubados, digamos que seria algo inteiro (digamos um retângulo), mas a partir do momento que esse lugar cresce como os “tentáculos de um polvo” é reconhecida a fractalização; José Saramago, o autor de Todos os nomes, com aguçada percepção imagina aquela área vista do alto. A geometria fractal é “a linguagem da natureza”.

Fig. 2 . Fotografia aérea de Héctor Garrido

Na fotografia de Héctor Garrido visualizamos um curso d´água que se divide a formar inúmeras ilhas e, consequentemente, vários percursos. Mantendo a devida proporção temos aí uma imagem semelhante à do Cemitério Geral. 
Muito tempo antes dos estudos da geometria fractal, temos a Proporção Áurea ou Número de Ouro. Leonardo Fibonacci (considerado por muitos o maior matemático da Europa ocidental), também conhecido como Leonardo de Pisa, nasceu em Pisa no ano 1170. Ele trouxe os algarismos arábicos para Europa, até então utilizavam os algarismos romanos.
“A Sequência de Fibonacci descreve como as coisas podem crescer através da geometria fractal. Exemplos de como essa disposição numérica ocorre podem ser vistos em diversos elementos naturais, como as escamas de um peixe, o centro de um girassol, os flocos de neve e até mesmo a forma como as cores se formam na natureza”7. Acrescento: apresentam ainda a Proporção Áurea a casca do abacaxi, o corpo da truta, o corpo humano entre outros tantos.
A definição da Proporção Áurea pode ser dada a partir da necessidade de dividir uma reta: de imediato imaginamos, a melhor divisão é ao meio, pois teríamos 2 partes iguais e a proporção seria 1:1; porém na natureza e nas artes não é assim o ideal. “No entanto, a melhor divisão se dá na proporção 1:1,618, ou seja, na Proporção Áurea. E assim temos o Fi (Φ) = 1,618; nome dado em homenagem a Fídias, o idealizador do Partenon – obra arquitetônica que apresenta sete retângulos áureos formados pelas colunas frontais e outros menores na parte superior do frontispício” (PINHEIRO, 2008, p.71).

Fig. 3 – O Partenon; sobre a edificação a Proporção Áurea.

A figura acima apresenta vários retângulos divididos na proporção 1:1,618. Nos dias de hoje, essa proporção é encontrada nos cartões de banco, na publicidade no que se refere à produção de flyers bem idealizados, nos bons projetos arquitetônicos.
Vejam a elipse que se forma nos traços sobre o Partenon. Vejo a literatura de José Saramago como um processo elíptico, ou seja, uma escrita que divide, mas não segrega, que amplia, pois “torna-se necessário recompor o todo” (MAUSS apud MORIN, 2003, p.70), que visa o real (a vida) – não o representa – e por isso mesmo mais próxima dele. “[...] ainda que seja aleatório e difícil, deve-se conhecer os problemas-chave do mundo [...] ainda mais porque todo o conhecimento político, econômico, antropológico, ecológico etc. é o próprio mundo” (MORIN, 2003, p.70).
Os textos de José Saramago são, pois, imprescindíveis. “Comprem e regalem-se. É uma autoridade quem o recomenda.”8

Notas
1 Outras informações estão disponíveis no site

2 “Em geral, retiro a mensagem logo que o pombo pousa e faço-o porque não quero que comece a dar trabalho por mal empregado, mas neste caso preferi esperar a sua chegada para lhe dar a si uma satisfação completa, Não sei como lho agradeça, senhor alcaide, creia que este é para mim um dia grande, Não duvido, comandante, nem tudo na vida são alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. (SARAMAGO, 2008, p.124)

3 Cadernos de Lanzarote, As pequenas memórias, O caderno e O caderno 2, Da Estátua à Pedra, Discursos de Estocolmo, Conferências, Artigos.

4 Aí está a essência da Teoria do Caos: uma desordem ordenada; e, ainda por cima, não planejada.

5 A primeira edição de Diálogos com Saramago teve publicação em 1998. A conheço desde então. Todavia, menciono aqui a nova edição pela Porto Editora, pois uma conversa tão preciosa necessitava de uma nova edição a fim de ser mais difundida.

6 A mesma disposição encontra-se no Cemitério Geral. A exceção está na presença do lado esquerdo e direito antes do balcão de dois guias de cada lado. “Aqui se encontra o mesmo balcão comprido, a toda a largura do enorme salão, as mesmas altíssimas estantes, a mesma disposição do pessoal, em triângulo, com os oito auxiliares da escrita na primeira linha, os quatro oficiais a seguir, depois os dois subcuradores, que assim é que se chamam aqui, e não subchefes, tal como o curador, no vértice, não é conservador, e sim curador. (...) Sentados em dois bancos corridos, de um lado e de outro da porta de entrada, de frente para o balcão, estão os guias.” (SARAMAGO, 2010, p.262)

7 Citação a partir de <http://portillodesign.com.br/design/o-numero-de-ouro-e-suaaplicacao-em-design.html> - Acesso em 23 de abril de 2015.

8 Parodiei o texto de José Saramago. Claro.

Referências
ARIAS, Juan. José Saramago: o amor possível. Trad. Rubia Prates Goldini. Rio de Janeiro: Manati, 2003.

LORENZ, Edward Norton. A essência do caos. Trad. Cláudia Bentes David. Brasília: UNB, 1996.

MENDES, Miguel Gonçalves. Conversas inéditas. “José e Pilar”. Prefácio de Valter Hugo Mãe. Lisboa: Quetzal Editores, 2011.

MORIN, Edgar. “A necessidade de um pensamento complexo”. In. MENDES, Candido (Org.);

LAREDA, Enrique. Representação e complexidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. ‘Saramago conseguiu a proeza de ser um grande romancista moderno”. In: Palavras para José Saramago. Lisboa: Fundação José Saramago – Caminho, 2011.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. “A ficção como desafio ao Registo Civil”. In. Revista Colóquio/Letras. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, jan. 1999, n.151-152, p.429-439.

PINHEIRO, Eula Carvalho. “Escrever é preciso”. In. Revista Eletrônica Granbery. Curso de Sistemas de Informação, n.4, jan.-jun. 2008.

REIS, Carlos. Diálogos com José Saramago. “A Estátua e a Pedra ou a Magia das Ficções” (texto proferido em 7 de maio de 2013, na Fundação José Saramago). Porto: Porto Editora, 2015.

SARAMAGO, José. Todos os nomes. 11 ed. Lisboa: Caminho, 2010.

SARAMAGO, José. O homem duplicado. Lisboa: Caminho, 2002.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SARAMAGO, José. A viagem do elefante. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

SARAMAGO, José. O caderno 2. Lisboa: Fundação José Saramago; Caminho, 2010

Citador #41 - Os livros e as noites na Biblioteca do Palácio Galveias

Sala de estudo na Biblioteca do Palácio Galveias

(...) "Não tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive, os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a umas 250 pesetas [um euro e cinquenta centavos]. Com isso pude comprar alguns livros. Antes, eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países, nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui assimilando, cada um à sua maneira." (...)

Juan Arias
"José Saramago: O amor possível", Barcelona, Planeta, 1998

"As Intermitências da Morte" analisado em 4 partes pelo "Clube do Livro" no Canal TV e Rádio Unisinos

Um testemunho sobre o autor e a sua obra. 
Considerações muito ajuizadas e conhecedoras, aqui testemunhadas e destacadas, 
através da publicação das quatro partes.

"Neste episódio do Clube do Livro, Rodrigo de Oliveira, Camila Kehl, Fernanda Schmidt e Caubi Scarpato conversam sobre a obra "As intermitências da Morte", de José Saramago."






Narração de diálogo entre o Violoncelista e a morte, em "As Intermitências da Morte" de José Saramago

Pode ser assistido via YouTube, aqui

Trecho narrado do Livro As Intermitências da Morte de José Saramago

Poema de José Saramago lido por Carmen Dolores, in "Maio, trabalho, luta", Ed. Avante", 2010

Pode ser visualizado, aqui via YouTube

Poema de José Saramago lido por Carmen Dolores, in "Maio, trabalho, luta", Ed. Avante", 2010

"A propósito do 120.º aniversário do 1.º de Maio, a Editorial «Avante!» publica uma colectânea de 80 poemas de autores de 20 países. Esta obra é acompanhada de um DVD no qual cerca de 20 artistas portugueses dizem os poemas constantes do livro.

O volume é enriquecido com um Prefácio de José Casanova, no qual se evidencia a relação entre a poesia e a luta transformadora dos trabalhadores e dos povos, e se relatam os antecedentes históricos da celebração do 1.º de Maio, assim como os momentos marcantes dessa comemoração no nosso País."

"Propostas para o próximo milénio" Fundação Municipal de Cultura Oviedo (Cadernos de Lanzarote Diário III - 14/12/95)

14 de Dezembro (de 1995)
"Em Oviedo, para um encontro organizado pela Fundação Municipal de Cultura sobre o tema 50 Propostas para o Próximo Milénio. Os proponentes convidados foram cinco: três filósofos (Gustavo Bueno, Gabriel Albiac e Antonio Escohotado), um economista e urbanista (Luis Racionero) e um romancista (este). Quando, há uns meses, recebi o convite, pus-me a imaginar o que teria sucedido se, no ano de 995, em Oviedo, ou num destes sítios das Astúrias, a alguém tivesse ocorrido a ideia de reunir cinco letrados (certamente todos teólogos, porque filósofos doutros saberes não os haveria então ali, e os economistas, os urbanistas e os romancistas ainda estavam por inventar), com o objectivo de apresentarem propostas para os próximos mil anos. Independentemente da circunstância de por aqueles dias, na Europa, haver sido posta a correr a voz de que o mundo se acabaria daí a cinco anos, e que portanto de nada iria servir quanto ali se dissesse, é mais do que duvidoso que as eminentes cabeças teológicas reunidas em Oviedo acertassem com uma só das suas propostas. Isto me levou a não pensar mais no milénio que está para chegar e a formular propostas apenas para amanhã, quando se supõe que ainda estaremos quase todos vivos. Permiti-me compará-las a uma ponte que, a meu ver, talvez seja necessário começar por construir, se queremos alcançar a outra margem do rio, lá onde, um dia, virão a ser construídos os magníficos palácios prometidos nas propostas dos meus colegas. Limitei-me, portanto, a sugerir: 1. Desenvolver para trás, isto é, fazer aproximar da primeira linha de progresso as cada vez maiores massas de população deixadas à retaguarda pelos modelos de desenvolvimento actualmente em uso; 2. Criar um novo sentido dos deveres da espécie humana, correlativo do exercício pleno dos seus direitos; 3. Viver como sobreviventes, isto é, compreender, de facto, que os bens, as riquezas e os produtos do planeta não são inesgotáveis; 4. Impedir que as religiões continuem a ser factores de desunião; 5. Racionalizar a razão, isto é, aplicá-la de modo simplesmente racional; 6. Resolver a contradição entre afirmar-se que cada vez estamos mais perto uns dos outros e a evidência de que cada vez nos encontramos mais afastados; 7. Definir éticas práticas de produção, distribuição e consumo; 8. Acabar de vez com a fome no mundo, porque isso já é possível; 9. Reduzir a distância, que aumenta em cada dia, entre os que sabem muito e os que sabem pouco. Na minha décima proposta preconizava um «regresso à filosofia» (apesar de ser leigo na matéria), mas retirei-a quando vi que os meus colegas, felizmente de acordo quanto ao essencial, discordavam resolutamente nos particulares, que é onde as questões realmente se decidem..." 


"Jangada de Pedra" - Mário Laginha Trio

"Jangada de Pedra" - Mário Laginha Trio

Via página da Fundação José Saramago, aqui
"Inéditos de Mário Laginha em homenagem a José Saramago e Fernando Pessoa
No dia 18 de Novembro de 2015, na companhia de Alexandre Frazão e Bernardo Moreira, o pianista Mário Laginha subiu ao palco do Pequeno Auditório do CCB para um concerto que tinha como título “A Biblioteca dos Músicos” e que integrava a programação dos Dias do Desassossego’15.
O repertório incluía duas canções inéditas compostas por Mário Laginha especialmente para aquele concerto, respondendo a um desafio lançado pela Casa Fernando Pessoa (CFP) e a Fundação José ‪#‎Saramago‬ (FJS).
O concerto daquela noite abriu com "Jangada de Pedra", tema composto em homenagem a José Saramago, apresentando-se mais tarde o tema "Desassossego", dedicado a Fernando Pessoa. Durante o espetáculo, o pianista leu também excertos de obras escolhidas por si estabelecendo um diálogo entre as canções que executava e o desassossego que os livros lhe provocam – mote do programa proposto pela FJS e a CFP.
Ainda com os ecos da edição de 2015, e quando já se trabalha na preparação da próxima edição dos Dias do Desassossego, que acontecerá entre 16 e 30 de Novembro, datas do nascimento de José Saramago e da morte de Fernando Pessoa, a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago disponibilizam as duas composições compostas por Mário Laginha em homenagem aos dois grandes nomes da literatura mundial que foram tocadas em primeira mão no concerto “A Biblioteca dos Músicos”.
O nosso muito obrigado aos músicos, e em especial a Mário Laginha, pelo profissionalismo e afecto com que participaram neste projeto.
Ouvir o tema "Jangada de Pedra":
Ouvir o tema "Desassossego":
Captação e edição de imagem: Márcia Lessa
CCB – Pequeno Auditório, 18 de novembro de 2015
Concerto “A Biblioteca dos Músicos”, pelo Mário Laginha Trio, integrado na programação dos Dias do Desassossego’15
Organização da Casa Fernando Pessoa e da Fundação José Saramago"


https://www.youtube.com/watch?v=snkntZaES5s

Sinopse do vídeo
"Quando já se prepara a edição dos Dias do Desassossego'16, os ecos dos dias que vivemos em 2015 continuam a fazer-se ouvir. Do desafio lançado a Mário Laginha nasceram dois novos temas, um dedicado a Fernando Pessoa e outro a José Saramago, que depois de terem sido ouvidos em primeira mão a 18 de novembro no CCB ficam agora disponíveis.
"Jangada de Pedra. Para José Saramago", de Mário Laginha
Captação e edição de imagem - Márcia Lessa
Gravado ao vivo no Pequeno Auditório do CCB, 18 de novembro de 2015
Concerto "A Biblioteca dos Músicos", integrado no programa dos Dias do Desassossego 2015, organização da Fundação José Saramago e da Casa Fernando Pessoa"

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Texto para uma exposição de pinturas em Lanzarote - 10/12/95 ("Cadernos de Lanzarote - Diário III)

10 de Dezembro (de 1995)
"Palavras de apresentação para uma exposição de pinturas cuja venda se fará em benefício de obras sociais de Lanzarote: 
A mão esquerda não nasceu com sorte. Por causa desse nome (esquerda, sinistra), é como se fosse ela a culpada de todas as maldades deste mundo, e tão pouco digna de confiança costumam considerá-la que, segundo um dito corrente, no caso de a mão direita dar alguma coisa, convém que a esquerda não o saiba. Em princípio, a intenção do dito é bastante louvável, uma vez que com ele se pretende impedir que as pessoas andem por aí a gabar-se das bondades que pratiquem, mas o certo é que a ninguém ocorreu dizer até hoje que a mão direita não deverá saber o que a esquerda dá... Nenhuma palavra é inocente. 
Felizmente que há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esqueceram de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos, para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que envergonhar-se de ser bondade, assim a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a. justiça e a bondade, o primeiro lugar dá-lo-ia à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa justiça e caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça. 
Pintar é dar a ver. Portanto, dar o que se pintou é dar duas vezes. E se é verdade que em geral se pinta com a mão direita, não é menos verdade que a mão esquerda esteve lá presente, no acto de criação. Quando Miguel Ângelo, no tecto da Capela Sistina, fez estender a mão direita de Deus para que o homem nascesse, a mão que ele tocou, já humana, foi a esquerda. Chamemos, então, se quisermos, caridade à mão direita, por ser a mais fácil e a mais comum, à mão esquerda chamemos-lhe bondade, por ser tão rara, mas a justiça que a ambas deverá gerir, é na razão que se há-de encontrar. A relação humana terá de ser obra da razão para que possa ser, conjuntamente, caritativa, bondosa e justa." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 215 e 216 (10/12/95)

Programa "Contracorriente" - Entrevista a José Saramago por Omar Valiño - 2005

A entrevista de Omar Valiño a José Saramago, pode ser visualizada


Apresentação da obra "Evangelho segundo Jesus Cristo" em Cuba - Artigo de Rosa Miriam Elizalde no "CubaDebate" (19/06/2005 )

José Saramago com Omar Baliño na apresentação da obra

A entrevista pode ser recuperada e lida aqui,
em http://www.cubadebate.cu/opinion/2005/06/19/jose-saramago-cuba-irradia-solidaridad/#.VtRdwPmLTIU

Rosa Miriam Elizalde (19/06/2005)

"Saramago durante la presentación de El Evangelio según Jesucristo. A su lado, el escritor Omar Baliño.Especial para Cubadebate, Juventud Rebelde y La Jornada

La antesala de esta entrevista es el  portal del Palacio del Segundo Cabo, en La Habana Vieja, donde corre una brisa inusitada,  presagio de aguaceros. José Saramago presenta en Cuba su novela El Evangelio según Jesuscristo, y aunque el escritor se anuncia aquí para las 11:00 de la mañana, muchos lo han estado esperando desde tres horas antes. Cuando aparece el Nobel portugués con su esposa, la periodista y traductora Pilar del Río, no hay un espacio libre junto a las antiquísimas columnas de la sede del Instituto Cubano del Libro, ni en sus alrededores.  La gente se ha subido en los bancos de la Plaza vecina y algún lector temerario se cuelga de un árbol para tomar fotos por encima de la multitud.  

Cuando el matrimonio se retira a la casa donde se hospeda y en la que se producirá esta conversación, se han vendido 1 118 libros al precio de 20 pesos -”0.75 euros”, le traducirá Pilar a su marido- y José habrá estado firmando ejemplares por más de dos horas. “Un señor me contó que vino en una motocicleta manejando desde Matanzas (ciudad a 100 kilómetros de La Habana)”, dice, agotado y feliz antes de comenzar el diálogo que se produce tal y como lo leerán ustedes, salvo con una breve interrupción.

Pilar recibido una llamada de Jonan Fernández, coordinador de ELKARRI, una organización que promueve la solución pacífica en el País Vasco. Él le ha dado la noticia  de que ETA ha decidido suspender las acciones armadas contra las personas electas de los partidos políticos en España. Jonan le ha dicho por teléfono: “sin tirar cohetes se ha logrado algo. Es un proceso todavía largo, pero es un peldaño más”. Pilar no pudo evitar comentarle a José: “Esta noche al menos 2000 familias dormirán más tranquilas”.

Mientras transcurría la hora y media de conversación con Saramago en una de las habitaciones de la casa, ella traducía muy cerca de nosotros la novela más reciente del Nobel, Las intermitencias de la muerte. La obra, que se presentará simultáneamente en noviembre de este año en todos los países de América Latina y Canadá, es un texto más breve que sus entregas anteriores -unas 200 páginas- y comienza  con la frase “Al día siguiente, no murió nadie”. 

Aunque parezcan piezas dispersas de un rompecabezas, los hechos de esta tarde relacionados con Saramago – la entrevista, la noticia de ETA, la nueva obra, las palabras en la presentación de El Evangelio según Jesucristo- están atados con una misma cuerda: “Todo en este mundo, o casi todo, lleva por delante dos palabras: ‘mandar’ y ‘matar’.  Hay que romper esa lógica.” 

UN JOVEN SUBTERRÁNEO

-La primera pregunta no es mía, sino de una vecina que lo ha visto en la televisión. Quiere saber cuántos años de más usted se adjudica y con qué propósito. Nadie le cree en Cuba que ha cumplido ya 82.
-No, Rosa Miriam, tú sabes que no me quito ningún año. Nací el 16 de noviembre -mi carné de identidad dice por error que fue el 18-, el 16 de noviembre de 1922. He contado todos los días que han pasado desde entonces hasta hoy.

-Entonces hay un joven subterráneo dentro de Saramago, como decía alguien.
-No, no.  En primer lugar, quizás es algo de eso que llaman genética, que alguna importancia tiene.  Por otro lado, la suerte de que, a lo largo de toda mi vida, a excepción de alguna u otra cosa sin importancia, he tenido buena salud. Tampoco tengo costumbres de alcohol, ni de noches que no se duerme porque se va uno por ahí a los bares. Debe influir que no me gusta el ruido, eso sin lo cual muchísima gente parece que no puede vivir, porque necesita aturdirse. Dile a tu vecina que no se nota mucho la edad, al menos no tanto, pero llegará el momento en que la gente me mire y diga: realmente ahora sí tiene la edad que tiene.

-Supongo que habrá influido también que usted es un hombre enamorado. Los diálogos entre Jesús y María de Magdala en El Evangelio según Jesucristo, solo pudo haberlo escrito alguien muy apasionado y muy joven.
-El día en que llegué a Cuba, el 14 de junio, cumplíamos Pilar y yo 19 años de casados. Se viven más años si uno está feliz, si está bien con la persona que vive, si se comprenden uno al otro, y se tiene algo muy claro, que la felicidad para que dure hay que defenderla, porque si no se cae en la rutina, en lo cotidiano. Cuando la conocí, yo tenía 63 años.

-Debe haber aparentado, más o menos, unos 30…
-No estás muy lejos. Cuando yo miro las fotos del momento en que nos conocimos y de esos primeros años, yo me veo casi como un chico. Y no era cierto, claro está. A lo mejor la capacidad de seguir trabajando me ha mantenido mentalmente despierto, activo. A lo mejor es cierto eso que se dice: cuando la cabeza funciona, todo funciona. Hasta ahora yo sigo escribiendo. Acabo de terminar otra novela y sigo trabajando. El Premio Nobel no me ha bloqueado.  Si uno sigue teniendo algo que decir, pues que lo diga; si es mejor que lo de antes, estupendo; si no es tan bueno, pues que siga. Un escritor es como un atleta, que cada vez que salta o corre no tiene que hacer tiempos mejores que los anteriores.  Uno tiene que hacer su trabajo en cada momento sin estar pensando en esa obsesión de la perfección. Primero, porque la perfección no existe y, segundo, porque muchas veces cuando uno llega a hacer algo que vale, realmente, la pena, en el caso de la literatura tiene mucho que ver con el asunto y con el momento en que se concibe y luego se realiza. 

CUBA

-No voy a preguntarle qué le hizo venir a Cuba, porque ya usted dio una respuesta, que fue bastante manipulada…
-Pues sí te la quiero contestar a ti para dejarlo claro de una vez: vine, sencillamente, porque me han invitado.

-Bien, pero empecemos por un ejercicio de memoria: ¿cuándo usted se entera de que Cuba existe en este mundo?
-Durante la invasión de Bahía de los Cochinos, en el año…

-Abril de 1961…
-Yo no vivía en Lisboa, sino en un pueblo que está muy cerca. Iba y venía en tren, y recuerdo con una nitidez extraordinaria la lectura de un periódico de Portugal que anunciaba la invasión a la Isla como un triunfo de los enemigos de la Revolución.  Había un titular a toda la página y describía lo ocurrido, no con muchos detalles -recuerda que era la época en Portugal de los presidios, las censuras. Me chocó profundamente el tono de triunfalismo con que el periódico exhibía la noticia. Al día siguiente sentí un placer casi maligno cuando el periódico no tuvo más remedio que decir que el intento de invasión había fracasado.

-En ese momento usted todavía no militaba en el Partido Comunista de Portugal…
-Yo tenía 39 años y no llevaba una actividad política muy activa, pero estaba muy atento en lo que iba a pasar. Entré al Partido Comunista en 1969, pero colaboraba desde hacía mucho tiempo.

-De esa etapa es también su recuerdo del Che, que describió en un artículo que se publicó en Cuba no hace mucho: “Al Portugal infeliz y amordazado de Salazar y de Caetano, llegó un día el retrato clandestino de Ernesto Guevara.”
-Ese retrato llegó y nos conmovió a todos…  Existía una izquierda activa, seria y trabajadora que lo vio como un referente… Y también había, por encima, o por debajo, como se quiera entender, una izquierda que podemos llamar intelectual que, hasta con buena fe a veces, convirtió al Che en una especie de icono. Eso ocurrió mucho menos entre gente de la clase obrera, que en lo que llamábamos desde entonces la izquierda afectiva, que en el fondo siguieron al Che y a la Revolución Cubana como si fueran modas. Y como sabemos, no falta quien siempre está buscando la última moda.

No quiere decir que no existiera ahí incluso alguna o mucha sinceridad, pero también había un poco de oportunismo.  Cuando el tiempo pasó y el Che ya había muerto y las cosas se normalizaron de alguna forma, la izquierda dejó de parecerle a mucha gente esa  especie de aurora, de algo que iluminaba todo el espacio. Fue entonces cuando escribí que el retrato del Che desapareció de la pared y en algunos casos se tiró a la basura. Ese texto es a la vez un homenaje al Che Guevara y también, una mirada irónica sobre la inestabilidad de las ideologías, donde a veces se estima más lo superficial que  lo profundo.

-En ese artículo usted dijo que el del Che “era el retrato de la dignidad suprema del ser humano.”
- Sí, sí, eso es sin duda. Y para muchísima gente… No estoy diciendo que la figura del Che para esas personas hubiera perdido importancia.  Era la vida la que había cambiado. Ellos mismos se vieron cambiados y sin demasiadas ideas progresistas.  Y, por lo tanto, el retrato de Che Guevara dejó de representar para ellos lo que representaba antes. Se cansaron y donde estaba el Che, pusieron otra cosa.

Si pudiéramos hablar con ellos, estoy seguro de que no tendrían ninguna duda en reconocer que si hubo una persona en los tiempos recientes que ha dado al mundo un ejemplo de dignidad, un ideal realmente humano, ese ha sido el Che Guevara. Y lo mejor de todo es que uno también uno se encuentra continuamente con chicos y chicas que saben todo lo que hay que saber sobre la vida y sobre las acciones de Che Guevara, y que llevan su camiseta, pero de corazón.

-Recuerdo cuando leí por primera vez El cuento de la isla desconocida, una hermosa parábola del viaje del individuo hacia sí mismo, hacia los demás, hacia la isla en que vivimos. ¿Qué ha descubierto Saramago durante estos días en esta Isla desconocida, mentida y satanizada que es Cuba?
-Después de los conflictos que generaron -como se sabe- una reacción mía, no mucho tiempo después tuve oportunidad de firmar un documento defendiendo a Cuba. Pero incluso entonces me quedé con la idea de que tal vez Cuba ya no me quería, y que la culpa -si de culpa se puede hablar- es mía, porque he sido yo el que  he dicho “no estoy de acuerdo, y etcétera, etcétera”.  Es decir, yo pensaba después: Cuba no es algo ajeno a mi propia vida, a mis propios sentimientos, pero seguramente Cuba que ya no me quiere…

A partir de un momento me empezaron a llegar señales que desmentían esas dudas -conversaciones con la embajadora en Madrid, Isabel Allende, y mensajes que llegaban. Y yo decía: bueno, las cosas finalmente no se han perdido, no se han roto, y me quedé así. Para venir aquí, como es lógico, tenía que tener un motivo y llegó la invitación.

Viajamos desde Canadá y hemos recibido Pilar y yo la amistad de siempre, y quizás un poco más.  No quiere decir con más amistad, sino como si aquí los que nos han recibido tuvieran la preocupación  de explicarnos: “te queremos, te estamos expresando ese querer nuestro de una forma quizás mayor, no pienses que nos quedaron pequeños rencores”.  Nadie me ha dicho esto pero uno lo siente. Todo eso se ha recompuesto, a pesar de que lo que dije entonces, con mucho dolor y sin querer romper definitivamente con Cuba, ha sido celebrado, manipulado, usado. Después se han dado cuenta que las cosas no iban por ahí y empezaron a aparecer versiones: Saramago está otra vez con Cuba y no sé qué.  En fin, lo que importa es que estoy aquí, que soy amigo de Cuba y que la manipulación mediática no me quita el sueño. Tengo otras cosas que me quitan el sueño.

-En abril usted firmó el llamamiento de intelectuales del mundo que denunció las maniobras de Estados Unidos contra Cuba en Ginebra.  Ahí se decía que “EE.UU. no tiene autoridad moral para erigirse en juez de los derechos humanos en Cuba”. ¿Lo que ha visto en estos días corrobora esa afirmación?
-Absolutamente. Esta vez nosotros hemos tenido la oportunidad que no habíamos tenido antes de conocer un poco más. Hemos estado en dos lugares muy importantes: la Universidad de las Ciencias Informáticas (UCI) y la Escuela Latinoamericana de Medicina (ELAM).

En la Universidad de Ciencias Informáticas hubo un momento en que me emocioné mucho. Los chicos me contaron que allí se recibe a las personas que vienen de Venezuela con cataratas, retinosis y que los cuidan, que a veces llegan un abuelo y un nieto ciegos, y que han regresado a su país mirándose, uno al otro, diciéndole uno al otro: “Yo soy tu abuelo, y puedo mirarte”, y el nieto: “Abuelo, sí, ahora puedo yo mirarte.”  Bueno, estas cosas tocan directamente al corazón de uno. Que eso ocurra es maravilloso.

-Pudiera decirse que es tema para otro Ensayo sobre la ceguera…
-Pero aquí había una especie de contradicción que no es tal.  Estábamos en la Universidad de las Ciencias Informáticas, y eso parte de un principio obviamente equivocado. Se presupone que en donde se estudian tales cosas no puede ocurrir algo que tiene que ver con los sentimientos, con la compasión, con la solidaridad. Una universidad informática supone algo muy frío,  y en este caso no es así…

He tenido dos desprendimientos de retina y dos cataratas.  Yo sé muy bien qué es todo esto. Si me hubiera ocurrido a principios del siglo pasado, estaría ciego.  Y sé que muchísima gente está ciega y que pudieran dejar de estarlo si muchos más hicieran lo que hace Cuba.

Aquí la Operación Milagro me parece una denominación justa. No en el sentido de que lo que pasa sea obra de una intervención sobrenatural, no; nada más natural…  Lo que pasa es que para estos venezolanos y para muchos otros latinoamericanos -me han dicho que este año se operarán más de 100 000-  que no tenían ninguna esperanza de recuperar la visión, cuando la recuperan, son ellos mismos que lo entienden como milagro.  Por lo tanto, creo que quien bautizó esa operación con el nombre de Operación Milagro, ha hecho muy bien.

-¿Y qué pasó en la Escuela Latinoamericana de Ciencias Médicas?
-Una emoción de otra naturaleza. Allí vi chicos y chicas, más chicas que chicos -parece que hay 51 por ciento de mujeres- de toda Latinoamérica, de África, incluso de Estados Unidos, insertados en algo concreto, no en una  teoría, o en cualquier cosa que tuviera que ver con una utopía futura imposible de realizar. Y todo esto lo hace un solo país, que establece una corriente distinta de comunicación entre los pueblos de Latinoamérica, capaz de encontrar objetivos comunes, de trabajar en común para llegar a ellos. Y otra cosa curiosa: tanto en la ELAM como en la escuela de Ciencias Informáticas vimos espectáculos preparados por los propios estudiantes, donde los que bailaban, bailaban muy bien; los que cantaban, cantaban muy bien; los que tocaban, tocaban muy bien, y esas cosas no se encuentran con frecuencia. La acogida que nos hicieron fue conmovedora. Uno lloraba abrazando a esos chicos.

-Usted hablaba en la Universidad de La Habana de que Cuba había hecho posible la internacionalización de la solidaridad…
 - Eso es increíble.  El más puro, el más auténtico, el más desinteresado movimiento de solidaridad nace precisamente en uno de los países más desprotegidos, más pobres, que es a la vez como una especie de foco que irradia solidaridad  de una forma natural, espontánea, como si tuviera que ser una consecuencia lógica de todo cuanto pasa aquí.  Cada vez que hay un movimiento de solidaridad internacionalista, empieza en Cuba y va a Venezuela, va y ha ido a Africa, a Haití.  No es necesario convocar a la población cubana a un referendo para ver si están de acuerdo o no con ir a Venezuela, o a Haití, o a donde sea porque es justo. Es como si este pueblo fuera solidario por naturaleza, pero más bien por educación, por algo aprendido, porque la solidaridad también se aprende.

-Recuerdo haber leído una especie de credo de José Saramago, un cuento en el que usted fabulaba una visita a Marte, y descubría que no era más que un sueño, que cosas como esa que describió no eran posibles en la Tierra.
-Eso fue escrito a finales de los años 60, y la única referencia que tenía en ese momento para soñar un mundo diferente era Cuba.

-Aquí tengo lo que escribió: “Al principio, cuando yo pedí explicaciones, la respuesta era siempre la misma: el hospital, la universidad, el museo estaban allí porque eran precisos.  Tantas veces me dieron esta respuesta que pensé que mejor sería aceptar con naturalidad, por ejemplo, la existencia de una escuela con 10 profesores marcianos en un sitio donde solo había un niño, también marciano, claro…” ¿Usted sabía que en Cuba hay 98 escuelas a las que asiste un solo niño, que viven en lugares muy intrincados?
-Pues me alegra saberlo: ¿98 escuelas para un solo niño, y con más de un profesor? Me has dado la mejor noticia.  No lo sabía y no me extraña, porque de todas estas cosas de Cuba nunca no se habla. 

TERRORISMO

-No solo no se habla de eso, tampoco de algo que ha dicho y repetido muchas veces, con toda razón, Noam Chomsky: “Cuba es probablemente el blanco de más terrorismo de todos los países del mundo.”
-Hay cosas que son obvias, pero nadie se quiere dar cuenta de que son tal. Pero cuando alguien mira lo obvio y lo muestra y lo explica, entonces, pasa a una dimensión completamente distinta.  Los hechos están allí para demostrar que efectivamente Cuba, o por lo menos la Cuba que nació con la Revolución, no ha sido nunca un país que puede ser acusado de cualquier forma de terrorismo. 

Pero como alrededor de Cuba se ha inventado todo ese aparato de calumnias, a mí no me sorprende nada que muchas personas lo ignoren. Hay una acción diabolizante, sistemática, que se reproduce por todos los medios posibles de la estructura de poder en el mundo, que intenta ocultar esa verdad obvia que ha rescatado Chomsky. Por lo que se dice continuamente pareciera que no tiene el mundo otro problema que Cuba, cuando esta isla no es uno de los países que más preocupaciones da a los habitantes del planeta. Más bien lo contrario.  Cuba no es, y no ha sido nunca, un país de donde haya salido una acción terrorista. Cosa que no puede decir Estados Unidos.

-El caso de Posada Carriles, como el de Ben Laden, es paradigmático. Los monstruos de la CIA terminaron practicando alegremente lo que aprendieron de sus maestros…
-Estados Unidos está tratando de impedir que Posada Carriles hable.  Yo no estoy seguro de que lo extraditen a Venezuela, aunque me gustaría que se hiciera, claro.

-Pero si cumplen lo que establece sus leyes, tendrán que extraditarlo.
-Cuando ocurrió el caso de Elián, no tuvieron más remedio que cumplirla.  Pero en ese caso no había de por medio planes de terrorismo. Elián era solo un niño que estaba donde no debía estar y pasó a estar donde, efectivamente, debía estar. Posada es otra cosa. A mí no me sorprendería nada que si la situación se complica, si la presión internacional actúa sobre Estados Unidos para que cumpla la ley,  aparezca un “loco” y lo mate, en el momento en que el terrorista esté yendo de un lugar a otro. No sería la primera vez que allí pasa. Todo puede ocurrir.

Tampoco creo que la Unión Europea ayude en esta historia, pero afortunadamente hoy en América Latina hay países que de alguna forma optaron por la autodeterminación después de una anterior dependencia casi canina hacia Estados Unidos. Creo que estos países deberían exigir con mayor fuerza que se haga justicia y se cumpla la ley en este caso.

-Es importante tener en cuenta que este caso no está aislado de otros hechos que están ocurriendo en el continente. Por ejemplo, de la decisión de Argentina de anular las dos leyes que consagraban la impunidad de los crímenes de la dictadura militar. ¿Habrá esperanzas de generar un movimiento internacional hacia la justicia?
-Creo que sí.  Es una revolución el que este país haya decidido derogar esas leyes que habían intentado ignorar que hay en Argentina muchísimos criminales impunes, incluso activos en el ejército. Lo trascendente es que eso no va a quedar limitado a las fronteras de Argentina. Otros países de la región han pasado por situaciones similares, y va a ser muy difícil que ante ese ejemplo las instituciones, los partidos y los ciudadanos de esos otros países queden indiferentes a la nueva actitud de Argentina. Vivimos en un mundo que no tiene conciencia de sí mismo y si se acepta alguna vez, y así lo parece, es muy difícil que en América Latina esto no sea el principio de una ola, una ola que de alguna forma pueda barrer de criminales todo el continente. Incluidos los criminales como Posada Carriles.

-Sin embargo, mientras eso ocurre el Pentágono acaba de anunciar que no solo no va a cerrar los campos de tortura al estilo del de Guantánamo, sino que los va a ampliar.
-Guantánamo no es el único centro de torturas norteamericano, y algunos de ellos seguramente han sido ampliados sin que Estados Unidos se sintiera en la necesidad de anunciarlo.

Pero es una mala señal y evidentemente un mal indicio que los medios de comunicación norteamericanos apenas ostenten resistencia a este estado de cosas. Solo hay voces débiles, muy débiles, como la del otro día en The New York Times, que ha pedido que se cierre esa cárcel.

-¿Usted cree que habrá algo después de esta travesía en el desierto?
-La situación es muy grave, pero algo se puede hacer todavía. Ahora bien, sin utopías. He estado en Porto Alegre, en el Foro Social Mundial, y  decidí llevar allí algo que me preocupa hace años de años: la utopía. Si yo pudiera, borraría no solo de los análisis, sino también de la mente de las personas el concepto de utopía. Lo que dije allí no era una provocación. La utopía ha hecho más daño a la izquierda que beneficio, porque no es algo que uno espere ver realizado en su vida, no; se pone ahí en el futuro, en un lugar que no sabe ni dónde ni cuándo será. Una utopía es un conjunto de articulaciones, de necesidades, de deseos, de ilusiones, de sueños. Si uno es consciente de que no lo puede realizar en el tiempo en que vive, qué sentido tiene. ¿Cómo es que podemos tener la seguridad de que 150 años después, cuando ninguno de los que ha construido esa utopía estará vivo, las personas tendrán algún interés en una utopía que no es suya, que pertenece a un pasado?

Seguir hablando de utopía como un instrumento, digamos del ideario, de la ideología de la izquierda, me parece un atentado contra la lógica y el sentido común. Eso lo tengo clarísimo.

Después de exponer todo esto, les decía: pero yo puedo proponer a todos vosotros una utopía, ahora mismo, y esa utopía se llama simplemente, mañana, mañana; porque mañana todos podemos pensar que estaremos vivos aún y lo que hayamos hecho hoy, tendrá consecuencias. Por tanto, acabemos con las utopías que no nos va a servir de nada.  Abajo la utopía.

-Por cierto, algo que no publican los medios es su decisión de no viajar  a Estados Unidos ni recibir ningún premio en ese país…
-Ni premio, ni doctorado Honoris Causa ni presentaciones de libros. No estoy dispuesto a ser humillado por la policía de Estados Unidos.  Es cierto que yo podría colocarme en otra postura, que sería razonable. Esa es una puerta por donde uno pudiera salir, pero que a mí, personalmente, no me sirve.  Yo pudiera decir que haga lo que haga la policía de Estados Unidos no puede humillarme.  No es una reacción de mal humor, es un conjunto de cosas. La fisonomía fascista de Estados Unidos hoy es bastante completa. Lo que antes serían objetivos más o meneos disfrazados hoy está ahí con toda claridad y toda rotundidad.  Está clarísimo que Estados Unidos se está preparando para la Tercera Guerra Mundial, probablemente contra China. En Uzbekistán, ya hay bases norteamericanas.  Mi esperanza es que la opinión pública mundial, que a veces es una cosa muy abstracta, logre algo similar a lo que pasó con Viet Nam, que paró la guerra.

Otro ejemplo esperanzador es el resultado en Francia y en Holanda de los referendos en Europa sobre la Constitución, una decisión que trasciende ese continente. Los políticos europeos están completamente desorientados, acorralados, no saben qué hacer, están dispuestos a cualquier tipo de acuerdo, aun provisional… Andan en el limbo, con la idea de que si ellos no pueden variar las cosas, las cosas acaban por tranquilizarse. ¡Qué simple! Eso es lo que hace el político cuando no tiene nada que proponer a la gente. 

HIENAS Y CHACALES

-El Che lo decía de otro modo. En su discurso ante la ONU, en 1964, dijo: “Nuestros ojos libres hoy son capaces de ver lo que ayer nuestra condición de esclavos nos impedía observar: que la ‘civilización occidental’ esconde, bajo su vistosa fachada, un cuadro de hienas y chacales.”
-Eso es, eso es.  Aunque la palabra hiena o la palabra chacal suenen demasiado fuertes a oídos insensibles.  Pensándolo bien:  ¡pobres hienas y pobres chacales que no tienen ninguna culpa de lo que hacen los dueños del mundo! La hiena no mata, la hiena aprovecha lo que está muerto, y nosotros matamos y no solo matamos, sino que aprovechamos lo que está muerto si nos conviene. Si no nos conviene lo tiramos a la basura, sea una cosa o sea una criatura humana. ¿Habrá algo más detestable que eso?

-Por estos días publicó La Jornada un comunicado de líderes indígenas que acordaron invitar a un grupo de personalidades internacionales para constituir el observatorio del cumplimiento de los derechos indígenas. Usted es una de estas personalidades.
-No sabía, y me emociona mucho saber que me han tenido en cuenta.

-Recuerdo que después de la matanza en Acteal, usted se preguntaba “¿qué será de nosotros cuando se pierda la última dignidad de este mundo?”
-Esas palabras están escritas en los carteles en Chiapas. Ellos se preguntaban, ¿que será de nosotros los indios?  Tomé esa pregunta y con todas intención la amplié: ¿qué será de todos nosotros, indios o no indios?  ¿Qué será de nosotros si la dignidad que queda en el mundo se pierde definitivamente? Si tenemos conciencia pero no la usamos para acercarnos al sufrimientos, ¿de qué nos sirve la conciencia? 

EL ALBA

-En Venezuela usted afirmó que “la osadía de este país puede traer cambios significativos en la historia”. ¿Qué tipos de cambios?
-En la historia del continente americano.  Es evidente que ya la región ha empezado a cambiar de una manera que todavía no es muy clara. En América Latina está pasando algo, y eso nos permite pensar que este inicio de cambio puede ir mucho más allá y penetrar hondo. Es el caso de Venezuela,  Argentina,  Chile, Bolivia, Brasil, Uruguay.  Si ellos, y también nosotros, ayudan, colaboran unos con los otros, no empiezan a poner intereses particulares por encima de los intereses de Latinoamérica, veremos el despertar de Bolívar y de otros que miraron a América como un todo. 

-Eso, exactamente, es el sentido y el contenido de la Alternativa Bolivariana para las Américas, el ALBA.
-Creo que podemos estar en el principio de una vida nueva, en el principio de un camino, de aquel que hablaba el poeta Antonio Machado: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar.”  El camino todavía no está, pero empieza a dibujarse una dirección, o un punto a donde quizás se llegue mañana o pasado mañana o algún día, pero creo que se está avanzando en esa dirección.

- Hugo Chávez habla de un socialismo del Siglo XXI, que se parece muchísimo a lo que usted también ha defendido: “el socialismo del espíritu”. ¿Cree que el futuro andará por ahí?
-Sí, sí.  Mira, es que si las cosas no pasan por el espíritu, por muy logradas que hayan sido en otro campo no tienen sentido. Hace casi dos años integré un grupo con el entonces presidente de la Unión Europea, Romano Prodi, quien me había encargado reflexionar sobre lo que debía ser el futuro del hombre.  Hemos elaborado un documento muy serio que ahora estará en un cajón donde buceará alguien que no sabe nada del asunto. Pero en la primera reunión, cuando Prodi se reunió con nosotros -unas 15 ó 16 personas-, había historiadores, había grandes economistas y el único escritor era yo. Él comenzó aquel encuentro diciendo:  “Europa ha fracasado, porque nosotros nos equivocamos; pensamos que integrando la economía, lo demás vendría por añadidura, y nos damos cuenta de que no, que hay que volver a la política.” 

Volver a la política no es, en sí mismo, una recomendación. Se trata de ir al espíritu. Si no pasamos todos los asuntos por el espíritu, no hay ninguna garantía que los cambios pasen por nosotros. 

Recuerdo que al derrumbarse la Unión Soviética, todo el mundo se preguntaba: ¿dónde está el hombre nuevo?  ¿Qué es lo que ha pasado?  No existió ni existiría en un modelo como ese. Si no cambiamos, no nos cambiamos; es decir, si no cambiamos de vida, no cambiamos la vida. Cuando digo cambiar de vida, no es dejar de ser albañil para pasar a ser médico.  No es eso. Hay que cambiar la forma de entender el mundo. El mundo necesita acción; pero no se llega a la acción sin que eso haya sido elaborado por el espíritu. Uno de los grandes males que tiene nuestra época, es que no tenemos ideas y parece que los políticos y ahora hablo de los políticos de izquierda, no se dan cuenta de una realidad: la derecha no necesita ideas; pero la izquierda no va a ninguna parte si no las tiene. Ese es el problema.

-Sartre, que habría cumplido 100 años el martes pasado, describe en La Razón Dialéctica lo que el llamó “el grupo en fusión”, es decir, cuando el individuo sustituye totalmente sus intereses personales por el destino del grupo. Él miraba a fondo el momento en que el pueblo francés se lanzó a la toma de la Bastilla. ¿Habrá posibilidades con el modelo político en boga de que una fusión de esa naturaleza acontezca?
 -No es nada fácil contestar esa pregunta. No creo que debemos plantearnos como izquierda una fusión tal en la que se diluye completamente el ser individual, aunque aspiremos a que el ser humano no deje de tener conciencia y responsabilidades colectivas. Tampoco vamos a convertirnos todos en misioneros laicos. No. Las personas tienen su propia vida, el derecho a su pequeño gran egoísmo personal e incluso compartirlo con los demás.  Compartirlo en el sentido de que lo que tú quieres para ti también tienes que quererlo para el otro. Entender que lo que es para ti en exclusiva, se lo estás quitando, aunque no te des cuenta, a otro.

Y en esto no se puede desdeñar la práctica. Cuando esas chicas que en la UCI me decían de una forma emocionada y emocionándonos, cómo era que ellos cuidaban a las personas que llegaban, yo me preguntaba: ¿ellas van a cambiar?, ¿van a convertirse en personas duras, egoístas, interesadas solo en lo suyo, o se van a quedar como las maravillas que son en estos momentos?  No sé cuál es la respuesta, y vamos a pensar que ocurrirá lo mejor, lo mejor para cada uno, pero también si se puede, lo mejor para todos. De cualquier modo alguien que exprese de esa manera su solidaridad, que la practique, tiene muchísima más humanidad, que el que solo se valore a sí mismo. 

EL EVANGELIO SEGÚN SARAMAGO

-Me comentaba Pilar que detrás de toda esa catedral que es El Evangelio según Jesucristo está el fantasma de un amigo judío que le ayudó a mirar a Jesús no como hijo de Dios, sino como criatura humana.
-Era un amigo nuestro, un judío libanés que ya ha muerto. Sam Levi tomó una amistad por nosotros y nosotros por él, y me ayudó a entender los orígenes del cristianismo, en particular en lo que tenía que ver con rituales, ritos, oraciones… Difícilmente habría podido llevar al libro esa sensación de realidad que él creó. Algunos judíos me escribieron para preguntarme:  “¿Cómo es que usted sabe tanto de la vida de los judíos de hace 20 siglos?”  No en la historia que yo cuento de María Magdalena, ese es otro cuento. Sí en lo fundamental: en una base de información histórica sólida.

-Aunque ahí está, como en toda su obra, el ser humano en el centro de todas las cosas.
-Sí, aunque no hay nada en el planeta que pueda decir que está en el centro de todas las cosas. Para estar en el centro de todas las cosas se necesita poder rodear, pasar la mirada y la mirada es también el entendimiento, la inteligencia, la sensibilidad, y nosotros somos los únicos que podemos hacerlo.

No es que estemos en el centro de las cosas, porque seamos la cosa más importante que una vez existió y existirá en el universo. Al contrario, un día todo esto se acabará. En el centro de la vía láctea hay un agujero negro que va absorbiendo materia, luz y ese será nuestro destino probable en millones de años, si antes el sol no se apaga. Se necesitaría ser muy vanidoso para seguir pensando que uno es el centro del universo.

Ahora, en el mundo de lo inteligible, de lo que se puede entender, comprender, nosotros somos los únicos que podemos tener una noción del universo, una noción de la vida. No hay otros; la abeja no puede, el mosquito no puede, el chacal no puede… Nadie puede sino nosotros, y en ese sentido sí somos el centro, pero es un centro que tiene que ser responsable de sí mismo, y responsable por los demás.

-Aun cuando se reconoce ateo, usted se lleva muy bien con Dios: ha escrito dos novelas, una obra de teatro y al menos un artículo muy conocido en cuyo título él aparece.
- Yo no creo en Dios, pero hay algo que yo no puedo ignorar, y es la importancia de Dios o, más aún, del factor Dios, que tanto decide en nuestras vidas. A mí desde muy joven me interesó muchísimo la historia de la religión, muchísimo. Siempre digo: “Yo soy ateo, pero tengo una mentalidad cristiana”, y no puedo tener otra: no soy musulmán, ni budista, ni animista. Desde el punto de vista de mi cultura, de mi sensibilidad, soy un cristiano y, por lo tanto, tengo el derecho de ocuparme, preocuparme, estudiar, escribir sobre lo que, en gran parte, ha hecho de mí la persona que yo soy…

- …un eslabón todavía entre el mono y el ser humano.
- El filósofo conductista Conrad Lorenz tenía realmente mucha razón cuando descubrió que el eslabón entre el mono y el Hombre no está perdido: somos nosotros. Primero estamos nosotros y luego vendrá el ser humano, si algún día llega. En ese caso debemos aferrarnos a la idea, a la única creencia válida en todo esto: pensar, tener la ilusión de que algún día seremos verdaderos seres humanos.

-¿Un hombre nuevo, tal vez?
- No, ya ese es un concepto cansado, fatigado. Dejémoslo en paz."