Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

José Saramago e as suas palavras repletas de musicalidade e melodia...

Descobri uma brilhantíssima inserção de um post no blogue "Nossa Rádio", datado de 22 de Junho de 2010, por Álvaro Ferreira, abordando uma compilação de poemas de José Saramago, musicados por alguns artistas. 
A lista é riquíssima e vasta, merece a exploração e audição destas referências.
Como base de trabalho exploratório, aqui reproduzo as palavras e conhecimentos de Álvaro Ferreira. 


Publicado no Blogue " A Nossa Rádio... Ouvintes com Opinião"

Link do blogue, em http://nossaradio.blogspot.pt/

Link do post, em http://nossaradio.blogspot.pt/2010/06/jose-saramago-na-musica-portuguesa.html

"Muito antes do compositor italiano Azio Corghi (*), se ter debruçado sobre a produção romanesca e teatral de José Saramago, já a obra poética do autor – que compreende os livros "Os Poemas Possíveis" (Portugália, 1966), "Provavelmente Alegria" (Livros Horizonte, 1970) e "O Ano de 1993" (Futura, 1975) – merecera a atenção de grandes compositores e intérpretes portugueses. Luís Cília, durante o exílio em França, foi o primeiro a musicar e a cantar a poesia de Saramago, na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" (1967, 1969 e 1971), portanto, cerca de três décadas antes da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Seguiu-se Manuel Freire, com os poemas "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (1971), "Ouvindo Beethoven" (1973) e "Dia Não" (1978), que viriam a ser regravados com novos arranjos, em 1999, no álbum "As Canções Possíveis". Com os outros nove poemas que completam o alinhamento deste CD, Manuel Freire afirmou-se o mais dedicado intérprete da poesia de José Saramago, e quiçá o que melhor a cantou.
Embora de forma mais avulsa, também Pedro Barroso, Carlos do Carmo, Mísia, Amélia Muge, Fernando Tordo e Marco Oliveira juntaram os seus nomes à galeria dos que deram voz cantada aos versos do grande escritor.
Aqui fica o rol das versões conhecidas, perfazendo as três dezenas, considerando-se as regravações que alguns poemas tiveram. É muito provável que a lista esteja incompleta e, nessa conformidade, os leitores ficam convidados a indicar as eventuais ausências (contacto: ajferreira1974@gmail.com).
A ordem é cronológica e alfabética (no caso de temas pertencentes ao mesmo disco).

1. Contracanto – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967)
2. Dia Não – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
3. Há-de haver – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
4. Não me peçam razões – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
5. Poema à boca fechada – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971)
6. Venham leis – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
7. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in EP "Dulcineia", Zip Zip, 1971; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
8. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in EP "Abaixo D. Quixote", Sassetti, 1973; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
9. Dia Não – Manuel Freire (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)
10. Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo – Pedro Barroso (in LP "Água Mole em Pedra Dura", Sassetti, 1978; CD "Cartas a Portugal", Strauss, 2000)
11. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in LP "Mais do Que Amor é Amar", Philips/Polygram, 1986, reed. Philips/Polygram, 1996)
12. Fado Adivinha – Mísia (in CD "Fado", BMG Ariola, 1993)
13. Nenhuma Estrela Caiu – Mísia (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)
14. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira", EMI-VC, 1999)
15. A Ponte – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
16. Circo – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
17. Dia Não – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
18. Dispostos em Cruz – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
19. É Tão Fundo o Silêncio – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
20. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
21. Jogo do Lenço – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
22. Nem Sempre a Mesma Rima – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
23. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
24. Retrato do Poeta Quando Jovem – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
25. Tenho a Alma Queimada – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
26. Tenho um Irmão Siamês – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
27. Se Não Tenho Outra Voz – Amélia Muge (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)
28. Fado Adivinha II – Mísia (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/EMI-VC, 2005)
29. Circo – Fernando Tordo (in CD "Tributo a los Laureados Nobel", Factoría Autor, 2005)
30. Retrato do Poeta Quando Jovem – Marco Oliveira (in CD "Retrato", HM Música, 2008)

A estas versões cantadas, acrescentam-se as gravações de poesia dita/recitada. Além dos espécimes presentes em edições discográficas, como é o caso do poema "Circo", recitado por Vítor de Sousa no CD "No Palco da Poesia" (Ovação, 1995, reed. 2000), há que considerar os registos existentes no arquivo sonoro da RDP, na voz de António Cardoso Pinto, Paulo Rato e outros.
Sem prejuízo da transmissão de excertos de entrevistas de José Saramago, era expectável e desejável que a direcção de programas da Antena 1, nos dias em que Portugal se despediu do seu (primeiro e único, até agora) Nobel da Literatura, deitasse mão aos seus poemas – os cantados e os recitados – e os desse a ouvir, se não na íntegra, numa boa parte. Mas não. Será que Rui Pêgo e os seus adjuntos não tinham conhecimento da existência de tão importante acervo fonográfico? Se não tinham, podiam ter-se dignado perguntar a quem os soubesse informar. Enfim... mais um triste episódio que põe a nu as gritantes deficiências que se vêm verificando no serviço público de radiodifusão.

(*) Azio Corghi compôs as seguintes obras, baseadas em livros/textos de José Saramago: "Blimunda" (1989 - ópera, a partir do romance "Memorial do Convento"); "Divara" (1993 - ópera, a partir da peça "In Nomine Dei"); "La Morte di Lazzaro" (1995 - cantata dramática); "Cruci-Verba" (2001 - para voz recitante e orquestra, a partir do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"); "De Paz e de Guerra" (2002 - cantata para coro e orquestra); "Il Dissoluto Assolto" (2005 - ópera, a partir da peça "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido").
Em Portugal, Jorge Salgueiro é autor de "Ensaio sobre a Cegueira: um Requiem pela Humanidade" (2004 - ed. Tradisom, 2005), composto para a adaptação dramática do romance "Ensaio sobre a Cegueira", levada à cena pela companhia de teatro "O Bando", em co-produção com o Teatro Nacional de São João (Porto)."

Carlos do Carmo que canta poemas de José Saramago, recebe Grammy Latino de Carreira

Notícia do Jornal I, em 5 de Julho de 2014
Sob o título "Três ex-presidentes deram os parabéns a Carlos do Carmo. Só Cavaco não o fez", mais uma vez, Cavaco Silva, demonstra a incapacidade de homenagear cabalmente e com a solenidade que as distinções merecem e obrigam, os que seguem desalinhados no elogio à suposta figura máxima do "Estado" português.




"Não sinto falta", diz o fadista sobre o silêncio de Belém em relação à distinção que recebeu esta semana
O fadista Carlos do Carmo, galardoado com um Grammy pela sua carreira, diz ao i não ter recebido qualquer mensagem - ainda que privada - de felicitações da parte de Cavaco Silva. Ao contrário do que aconteceu com os três ex-presidentes da República: "Recebi felicitações do general Ramalho Eanes, de Mário Soares e de Jorge Sampaio."
As regras de Belém têm ditado que, quando um português é distinguido com um prémio de relevo, a Presidência emite uma nota de congratulação. Desta vez não aconteceu. Mesmo sabendo que, em 2008 - quando Carlos do Carmo recebeu o Prémio Goya para a melhor canção original -, a Presidência divulgou uma nota de felicitações pela "distinção".
Apesar da insistência do i, a Presidência voltou a não tecer qualquer comentário à atribuição do Grammy ao fadista. Também por isso, Carlos do Carmo diz, sobre a ausência de um cumprimento de Belém: "Tenho de confessar que não sinto falta. O problema não é meu", remata.
Entre o Goya e o Grammy distam seis anos e muitas críticas do fadista a Cavaco Silva. Por exemplo, em 2011, quando Carlos do Carmo o apontou como o responsável número 1 pela situação em que o país se encontrava - passavam então seis meses sobre a assinatura do Memorando.
À Renascença, o fadista disse que "toda a nossa desgraça começou com Cavaco". No ano passado, à SIC Notícias, Cavaco voltava a estar sob o foco de Carlos do Carmo. "Ter este Presidente da República como primeiro- -ministro e como Presidente foi um azar dos Távoras. Este país regrediu muito. É só analisar. Foi mau de mais para ser verdade." Mas os comentários mais negativos estavam ainda para ser feitos. E chegaram em Novembro do ano passado, na Aula Magna. O encontro promovido por Mário Soares ficou marcado por fortes críticas ao chefe de Estado, também de Carlos do Carmo. "Nunca me passou pela cabeça, depois de 40 anos de salazarismo, levar com este homem 20 anos. Um homem que é inseguro, inculto, medroso. E não interpretem isto como uma questão pessoal, não sou dado a questões pessoais", referiu o fadista.



Notícia, via Observador, aqui em 

"O fadista Carlos do Carmo recebe hoje o Grammy Latino de Carreira, no Hollywood MGM Theatre, em Las Vegas, no Nevada, antecedendo a entrega anual dos Grammy Latinos, na quinta-feira.
Além do criador de “Canoas do Tejo”, recebem igualmente um Grammy de Carreira, por “Excelência Musical”, Willy Chirino, César Costa, o Dúo Dinámico, Los Lobos, Valeria Lynch e Ney Matogrosso.
Nesta mesma cerimónia, prevista para as 10:00 locais (18:00, hora continental portuguesa), recebem o Prémio do Conselho Diretivo da Latin Academy of Recording Arts and Sciences (LARAS) os músicos André Midani e Juan Vicente Torrealba.
“O ‘Board of Trustees’ da Latin Academy of Recording Arts and Sciences decidiu, por unanimidade, atribuir a Carlos do Carmo o “‘Lifetime Achievement Award’, galardão que distingue a obra das grandes referências do panorama musical internacional”, segundo comunicado da academia.
Em declarações à Lusa o fadista afirmou: “Num momento de sofrimento como o que o meu povo está a viver, e a minha pátria está a viver, a alegria que possa dar às pessoas, apesar da simplicidade que as coisas têm – isto não lhes mata a fome, nem lhes arranja emprego -, mas que possa dar-lhes uma alegria, já fico muito contente”.
O artista, com uma carreira de 51 anos, disse que esta é uma oportunidade para dar a conhecer outros artistas portugueses que, no futuro, podem vir a ser premiados.
Fazendo uma reflexão da sua carreira, Carlos do Carmo, filho da fadista Lucília do Carmo, afirmou: “Corri sempre em pista própria e não em pista de competição, nunca competi, até porque cantar não é o mesmo que correr. Há sempre gostos. Uns gostam mais de A, outros, de B. Isso não quer dizer que A ou B cantem muito bem ou cantem mal, são os gostos das pessoas”.
A cerimónia anual de entrega dos Grammy Latinos, nas diferentes categorias, realiza-se, na quinta-feira, a partir das 20:00 locais (05:00, de sexta-feira, na hora continental portuguesa)."


Carlos do Carmo - "Aprendamos o Rito"
Poema: José Saramago
Música: Muiguel Ramos


"APRENDAMOS O RITO"

Põe na mesa a toalha adamascada
Traz as rosas mais frescas do jardim
Deita o vinho no copo, corta o pão
Com a faca de prata e de marfim

Alguém veio juntar-se à tua mesa
Alguém a quem não vês mas que pressentes
Cruza as mãos no regaço, não perguntes
Nas perguntas que fazes é que mentes

Prova depois o vinho, come o pão
Rasga a palma da mão no caule agudo
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos
Cumpriste o ritual e sabes tudo. .

Relembrando a activista e resistente Saharaui Aminatou Haidar

Declaração Pública de José Saramago

"O que fez Aminatou Haidar, ao colocar em risco a sua própria vida tem de servir para despertar a comunidade internacional para um problema que já deveria ter sido resolvido há muitos anos", disse José Saramago depois de se encontrar com Aminatou Haidar, no Aeroporto de Lanzarote, onde se encontra extremamente fragilizada.
O Prémio Nobel da Literatura José Saramago pediu, à ONU "que imponha a Marrocos o cumprimento das suas resoluções sobre o Sahara Ocidental".


José Saramago, no Aeroporto de Lanzarote, afirmando pessoalmente a sua solidariedade para com a resistente saharaui, Aminatou Haidar. Na altura estava em greve de fome, depois de lhe ter sido recusada a entrada em Aaiún, capital do Sahara Ocidental ocupado.



Carta aberta, redigida por José Saramago à activista

"Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo.

Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário. Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua terra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possam alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.

Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio – quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá. Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem glória, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,

Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.

Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.

Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo… terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar

José Saramago"

Aminatou Haidar (Izquierda) abraza a la periodista y viuda de José Saramago, Pilar del Río, que recogió en Sevilla el Premio a la Solidaridad Juan Antonio González Caraballo, otorgado al escritor portugués.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Utopia ou a realização, pessoal e social, amanhã... já



(...) o conceito "utopia". 
(...) No Fórum Social de Porto Alegre, onde se reúnem todas as utopias do mundo, aparece um senhor para dizer acabemos, de uma vez, com todas as utopias. E tentei demonstrá-lo porque é  muito simples, tão extremamente simples, que quando se explica, e espero que isso aconteça aqui também, uma pessoa perguntar-se por que não o tinha visto antes. (...)
(...) Vou explicar: a utopia é algo que propomos, uma construção mental que enunciamos projectada para o futuro porque temos consciência de que um objectivo que consideramos bom não o poderemos alcançar no tempo em que estamos vivos e, ainda que tenhamos consciência de que não o não podemos conseguir, mantemos a esperança de que venha a poder realizar-se no futuro. (...) Não será para mim, nem para os meus filhos, mas talvez os meus netos possam viver essa utopia.
E todos muito contentes, esquecendo uma coisa tão simples como esta: quem nos diz que o que não podemos ter agora vai ser desejado pelas pessoas do futuro, que passados duzentos anos as pessoas desse tempo vão querer o que nós sonhámos? Por que hão de estar interessadas na minha utopia essas pessoas que nem sequer sei como serão? (...)
(...) Não podemos estar certos de que o ser humano seja, em todos os momentos do futuro, a pessoa que hoje somos. (...) A única utopia viável é a do dia de amanhã, porque ainda estejamos vivos e então, sim, podemos fazer cumprir o que necessitamos hoje. Adiá-lo e adiá-lo no tempo não crio que valha a pena. (...)

em, "Democracia e Universidade"
Conferência Universidade Complutense de Madri
2005
Edição Fundação José Saramago - páginas 35 e 36


(a simbologia da Passarola, Memorial do Convento)


Aqui, em http://caderno.josesaramago.org/3855.html

"Esperanças e utopias"

"Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se neste nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."
29 de Setembro de 2008

"História do Cerco de Lisboa" - e o Paradigma da Verdade Histórica



(...) A "História do Cerco de Lisboa", que não é História nem romance histórico. Sim é, no entanto, um livro onde se questiona aquilo a que chamamos a «verdade histórica». A acção passa-se em dois planos temporais, o século XII e o século XX, e tem como figura principal uma pessoa sem demasiada importância, para não dizer totalmente insignificante, como por outro lado são quase todos os meus personagens: nos meus livros não há heróis, não há gente muito formosa, talvez nem sequer as mulheres o sejam, ainda que, como em geral não as descrevo, o leitor possa recriar a imagem segundo as suas preferências. O autor prefere dar três ou quatro pinceladas, como pontos cardeais, mas nada de descrever metódica e minuciosamente rostos, alturas, figuras, gestos... o autor prefere que seja o leitor quem assuma essa tarefa e responsabilidade. Ora bem, o personagem principal da "História do Cerco de Lisboa" é um revisor de texto, o «conservador» por excelência, alguém que tem a obrigação de respeitar o que encontra escrito, a autoridade explícita e implícita do documento, de modo que não pode alterar nada (...)
(...) E no entanto, este homem (...) decide introduzir uma palavra que nega o que de facto é uma verdade histórica, verdade manifesta no livro que está a rever, obra de um historiador, e que tem como título «História do Cerco de Lisboa». (...)
(...) Irritado com a suficiência arrogante dos documentos históricos e com a evidente falsidade de alguns deles, o nosso revisor, onde o historiador havia escrito que os Cruzados, como de facto aconteceu, ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa, comete a ousadia, a barbaridade, o sacrilégio de introduzir a palavra «não». E o que acaba por ser publicado, o que aparecerá no livro, é que «os cruzados não ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa», o que significa, como disse antes, a negação de uma verdade rigorosamente histórica. (...)
Nesta obra, aparentemente a mais histórica de quantas escrevi, sustento que a verdade histórica não existe, que em muitos casos estou de acordo com Eça de Queirós quando dizia a Oliveira Martins que a história é provavelmente uma grande fantasia... (...)

em, "A Estátua e a Pedra"




Aqui um pequeno apontamento sobre Eça de Queirós e Oliveira Martins, mentores da chamada «Geração de 70» -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Geração_de_70
"Geração de 70 ou Geração de Coimbra foi um movimento académico de Coimbra do século XIX que veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do realismo.
Num ambiente boémio, na cidade universitária de Coimbra, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, entre outros jovens intelectuais, reuniam-se para trocar ideias, livros e formas para renovação da vida política e cultural portuguesa. Portugal vivia então uma autêntica revolução com os novos meios de transportes ferroviários, que traziam todos os dias novidades do centro da Europa, influenciando esta geração para as novas ideologias. Foi o início da Geração de 70.
Em Coimbra, este Grupo gerou uma polémica em torno do confronto literário com os ultra românticos do "bom senso e do bom gosto", disputa mais conhecida como a Questão Coimbrã. Mais tarde, já em Lisboa, os agora licenciados formaram o grupo Cenáculo. Em 1871, o grupo organizou uma série conferências no Casino Lisbonense, para discutir temas ligados à literatura, educação, religião e política. As conferências acabaram por ser proibidas pelo governo.
Depois das reuniões, a geração de oiro de Coimbra acabou por não conseguir fazer mais nada, muito menos executar os seus planos de revolucionar o país, e seus integrantes acabaram por se autodenominar "os Vencidos da Vida", por sugestão de Joaquim Pedro de Oliveira Martins. A denominação decorre claramente da renúncia dos membros do grupo às suas aspirações de juventude. O grupo incluía, além de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, José Duarte Ramalho Ortigão, António Cândido Ribeiro da Costa, Guerra Junqueiro, Luís de Soveral, Francisco Manuel de Melo Breyner (3.° conde de Ficalho), Carlos Félix de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1º Conde de Arnoso) e António Maria Vasco de Mello Silva César e Menezes (9.º conde de Sabugosa), entre outros. Eça de Queirós integrou o grupo a partir de 1889."

Escola e Família, Instruir ou Educar, e, quem tem a obrigação de fazer o quê?


"Democracia e Universidade"
Conferência Universidade Complutense de Madri
2005
Edição Fundação José Saramago - páginas 25 e 26

(...) Eu próprio estou num grupo de prémios Nobel - coisas que acontecem - que se reúne anualmente em Barcelona exactamente para isso, para tomar o pulso ao ensino superior. (...)
(...) E no último encontro, já um pouco cansado de tanta conversa, disse: "vamos ver, quem chega à universidade? Chegam os estudantes que passaram pelo ensino médio e primário. Estamos a ocupar-nos do que acontece na universidade,  em matéria de instrução, não de educação, que isso está fora do debate, e já se reconheceu que tampouco está em níveis óptimos, mas como se pretende que se dê o milagre de funcionar o último nível, a última etapa de um processo de aprendizagem que começa aos quatro anos e termina aos vinte e tal, se o que antecede não está bem?
Se a escola primária está mal - e está em todo o lado, não apenas em Espanha ou Portugal, se o ensino médio está mal, como aspirar a resolver o problema do último nível? (...)
(...) A nascente do rio começa com o "a", o "e", o "i", o "o", e o "u", as vogais que o menino ou a menina aprendem, esse é o gérmen, tudo o que venha depois pode simplificar a tarefa da universidade, anos mais tarde. (...)
(...) A universidade é o último nível formativo em que o estudante se pode converter, com plena consciência, em cidadão; é o lugar de debate onde, por definição, o espírito crítico tem de florescer: um lugar de confronto, não uma ilha onde o aluno desembarca para sair com um diploma." (...)

Imagem, do professor Tertuliano Máximo Afonso, interpretado por Jake Gyllenhaal, no filme "O Homem Duplicado", baseado na obra de José Saramago, com o mesmo nome.
Para além de toda a metáfora à volta e em redor do "Eu" e do "outro Eu", este professor propõe ao director da escola, a ideia de serem invertidos os processos de ensino na cadeira que ele lecciona. 
Pretende inverter a lógica da transmissão da cronologia dos factos ou momentos da história. Alega este professor, que ao ensinar os factos mais recentes em direcção aos mais antigos, é criado um sistema mais intuitivo e linear na causa/efeito, ou na interpretação da razão para que um determinado acontecimento tenha tido lugar.




    

Aristóteles - do seu tratado sobre a Política

Na senda da explicação do valor original e substantivo da "palavra", Saramago nesta conferência caminha a passos largos para trazer a "política" e "democracia" à baila, num processo demonstrativo e metamorfoseado destes conceitos.
Talvez, e tomando por certa esta ideia, desde que o homem é um ser colectivo, também o é enquanto ser político, nas decisões do quotidiano, na gestão da sociedade em que se insere, isto, de forma mais ou menos organizada. Aqui entra a alusão à ideia de Aristóteles, no seu tratado "Política".
Sendo um aspecto que José Saramago, de forma mais implícita ou explícita, com palavras directas ou inserindo-as numa alegoria, o vinha demonstrando.

Na obra "Ensaio sobre a Lucidez", talvez o testemunho mais ético e político de Saramago, a "democracia" é colocada em vários patamares. A democracia de quem vota em branco. A democracia de quem não aceita os resultados do duplo sufrágio. A democracia dos "governantes" que abandonam a capital. A democracia da conspiração do qual resulta a detonação de uma bomba e consequências que daí advém. A democracia do insubordinado Presidente da Câmara perante a linha oficial do partido/governo. E por último, a democracia dos que abatem o "Cão das Lágrimas" e a "Mulher do Médico".
Estas "democracias", ou "A Democracia" em diferentes patamares, são o motivo da reflexão sobre o peso e significado das palavras. A política aristotélica, com mais de dois mil anos, sendo um elemento reflexivo, não tem a mesma repercussão na governação dos povos nos dias que correm. A representação dos povos pobres em Aristóteles, hoje é suplantada pela artificial implementação de um estado social, mínimo e exíguo, para comportar os mais desfavorecidos.
Atente-se, então na transcrição das palavras de José Saramago.


"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada..."

(...) Aristóteles - embora nunca tenha estudado na universidade, li Aristóteles - dizia no seu tratado de "Política" que um governo realmente democrático deveria necessariamente, por lógica matemática, por pura aritmética, integrar no seu seio mais pobres que ricos porque, dizia ele "os pobre são mais que os ricos", logo, se o governo da "polis" tem, por exemplo, vinte pessoas, dezassete teria de ser pobres e os três restantes ricos.
Acrescentava Aristóteles que não é que os ricos não devam estar representados no governo da "polis", claro que sim, mas em proporção justa. Esta ideia utópica, uma entre tantas, tem dois mil e tal anos, foi enunciada por um senhor que viveu na Grécia e que continuamos a considerar um mestre. E colocou, preto no branco, esta afirmação revolucionária, nunca realizada e que provavelmente jamais será levada a cabo. Claro que o que estava implícito, ainda que Aristóteles não o tenha dito, era que devia existir um partido de pobres, mas talvez não tenha falado disso porque se deu conta de que um partido de pobres não tem muito para prometer, e se não promete não ganha as eleições. (...)

em, "Democracia e Universidade"
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 27 e 28
Conferência realizada na Universidade Complutense de Madri em 2005


"Abro com duas citações de Aristóteles, ambas extraídas da "Política". A primeira delas, curta, sintética, diz-nos que "em democracia, os pobre são soberanos, com exclusão dos ricos, porque são eles o maio número, e porque a vontade da maioria é lei". (...) Eis o que nos diz a citação segunda: "A igualdade (no estado) pede que os pobres não tenham mais poder que os ricos, que não sejam eles os únicos soberanos, mas que o sejam todos na proporção do número existente de uns e outros. Este parece ser o meio de garantir ao Estado, eficazmente, a igualdade e liberdade". (...)
(...) Não resisto a recordar-vos, sofrendo com a minha própria ironia, que, para o discípulo de Platão, o Estado era a forma superior da moralidade... (...)

em, "Verdade e Ilusão Democrática
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 59 e 60
Conferência em Santiago do Chile, abril de 2003
"Las Conferencias de la moneda"
Aqui, link http://www.josesaramago.org/democracia-e-universidade-2010/



Aristóteles, segundo Wikipédia, aqui em http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristóteles
Aristóteles (em grego antigo: Ἀριστοτέλης, transl. Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Em 343 a.C. torna-se tutor de Alexandre da Macedónia, na época com treze anos de idade, que será o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em 335 a.C. Alexandre assume o trono e Aristóteles volta para Atenas, onde funda o Liceu.
Aristóteles era natural de Estagira, na Trácia, sendo filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Filipe II. É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e fisiologia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remontava há dez gerações.
Segundo a compilação bizantina Suda, Aristóteles era descendente de Nicômaco, filho de Macaão, filho de Esculápio.
Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela academia platônica e nela permaneceu vinte anos, até a morte de Platão, no primeiro ano da 108a olimpíada (348 a.C.).
Em 347 com a morte de Platão, a direção da Academia passa a Espeusipo que começou a dar ao estudo acadêmico da filosofia um viés matemático que Aristóteles (segundo opinião geral, um não-matemático) considerou inadequado, assim Aristóteles deixa Atenas e se dirige, provavelmente, primeiro a Atarneu convidado pelo tirano Hérmias e em seguida a Assos, cidade que fora doada pelo tirano aos platônicos Erasto e Corisco, pelas boas leis que lhe haviam preparado e que obtiveram grande sucesso.
Durante 347 a.C e 345 a.C, dirige uma escola em Assos, junto com Xenócrates, Erasto e Corisco e depois em 345/344 a.C. conhece Teofrasto e com sua colaboração dirige uma escola em Mitilene, na ilha de Lesbos e lá se casa com Pítias, neta de Hérmias , com quem teve uma filha, também chamada Pítias e Nicômaco. Em 343/342 a.C Filipe II escolhe Aristóteles como educador de seu filho Alexandre, então com treze anos, por intercessão de Hérmias.
Pouco se sabe sobre o período da vida de Aristóteles entre 341 a.C e 335 a.C, ainda que se questiona o período de tempo da tutela de Alexandre, alguns estimam em apenas dois ou três anos e outros em sete ou oito anos.
Em 335 a.C. Aristóteles funda sua própria escola em Atenas, em uma área de exercício público dedicado ao deus Apolo Lykeios, daí o nome Liceu. Os filiados da escola de Aristóteles mais tarde foram chamados de peripatéticos. Os membros do Liceu realizavam pesquisas em uma ampla gama de assuntos, os quais eram de interesse do próprio Aristóteles: botânica, biologia, lógica, música, matemática, astronomia, medicina, cosmologia, física, história da filosofia, metafísica, psicologia, ética, teologia, retórica, história política, do governo e da teoria política, retórica e as artes. Em todas essas áreas, o Liceu coletou manuscritos e assim, de acordo com alguns relatos antigos, se criou a primeira grande biblioteca da antiguidade.
Em 323 a.C, morre Alexandre e em Atenas começa uma forte reação antimacedônica, em 654 a.C. por causa de sua ligação com Alexandre, Aristóteles foge de Atenas e se dirige a Cálcides, onde sua mãe tinha uma casa, explicando, "Eu não vou permitir que os atenienses pequem duas vezes contra a filosofia" uma referência ao julgamento de Sócrates em Atenas. Ele morreu em Cálcis, na ilha Eubeia de causas naturais naquele ano.1 Aristóteles nomeou como chefe executivo seu aluno Antípatro e deixou um testamento em que pediu para ser enterrado ao lado de sua esposa.
Política - A política aristotélica é essencialmente unida à moral, porque o fim último do estado é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. O estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual, e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. A política, contudo, é distinta da moral, porquanto esta tem como objetivo o indivíduo, aquela a coletividade. A ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política, de que acima se falou.
Em Ética a Nicômaco Aristóteles descreve o assunto como ciência política, que ele caracteriza como a ciência mais confiável. Ela prescreve quais as ciências são estudadas na cidade-estado, e os outros - como a ciência militar, gestão doméstica e retórica - caem sob a sua autoridade. Desde que rege as outras ciências práticas, suas extremidades servem como meios para o seu fim, que é nada mais nada menos do que o bem humano.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"Contra las armas, contra la guerra" - Texto do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince

Um texto do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince sobre o "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"


Via Facebook da Fundação José Saramago

Via página do autor, 

"A un verdadero escritor no lo calla ni la muerte, y menos a los portugueses -recuérdese a Pessoa, prácticamente inédito en vida-, que parecen seguir susurrándonos al oído incluso después de muertos. José Saramago dejó una novela incompleta, Alabardas, y de ella acaban de publicarse los primeros tres capítulos, los únicos que pudo terminar. Aun siendo una obra inacabada, el solo planteamiento anuncia que iba a ser una de sus grandes novelas alegóricas. El dilema que esboza es uno de los más hondos a los que el ser humano se enfrenta: ¿haremos lo que debemos hacer o solamente lo que nos conviene?
La última batalla de José Saramago no fue contra la enfermedad sino contra la industria de armamentos. El origen de un libro, muchas veces, es una idea vaga, una voz que pregunta: ¿por qué los obreros que fabrican bombas, cañones, metralletas, tanques, no hacen nunca huelga? ¿Por qué no se rebelan los empleados de las empresas de armamentos? ¿De dónde sacaron valor los obreros portugueses, que sabotearon algunas armas que se iban a usar para bombardear a los republicanos en la Guerra Civil Española?
Saramago es, sin duda, el arquetipo del escritor comprometido: hablaba, reflexionaba, escribía sobre los acontecimientos de nuestro tiempo. Cuando mejor lo hacía no nos propinaba un sermón laico, una perorata moralista, sino que usaba el arma preferida por cierto tipo de escritores excelsos -Chuang Tzu, La Fontaine, Voltaire-: el apólogo, la fábula, la alegoría. La idea, en este género literario, no se presenta de un modo teórico sino humano, traducida a una situación cotidiana. En el caso de Alabardas el dilema se plantea entre el deber (y el amor, pues la esposa del protagonista es pacifista y lo abandona por su complicidad con la industria de la muerte) y la conveniencia.
La primera impresión que tuve al terminar esas pocas decenas de páginas (87 en la generosa edición de Alfaguara) fue una gran punzada de tristeza. Esto podrá parecer extraño, pues este principio de novela no tiene para nada un estilo melancólico de despedida. Al contrario: la prosa es al mismo tiempo dura y juguetona, seca, rabiosa y divertida. Todo lo contrario de la tristeza. Pero la situación sí produce tristeza. Pesar por lo que la novela iba camino de ser: una gran historia de política y de amor que, de repente -por la edad y la sangre y la maldita muerte- no pudo terminarse. Pesar por lo que pudo haber sido y ya no será nunca.
Porque la gran incógnita es cómo iba a resolver Saramago el dilema planteado en las primeras páginas. Un libro inacabado es, más que ningún otro, una “obra abierta”. No sabemos cuál va a ser el comportamiento final del protagonista, Artur Paz Semedo, el contable de la empresa de armamentos Balona S.A. La pregunta que pesa sobre él, y sobre el desenlace del libro, es la misma que pesa sobre todos nosotros: cómo vamos a portarnos si la vida nos pone frente a una encrucijada moral que nos definirá como personas: ¿seremos valientes o cómplices, víctimas o verdugos?
Dos textos más acompañan los capítulos y las notas de trabajo de Alabardas. Uno erudito, y muy útil, de Fernando Gómez Aguilera, que enmarca la novela inacabada dentro de la obra completa de Saramago; otro, eficaz, de Roberto Saviano. Este último parece predecir para el protagonista un destino heroico. Por las notas, a mí, no me parece que ese fuera a ser el desenlace del libro. Creo que las huellas que don José nos dejó marcadas, señalan un camino distinto: hay algo oscuro y perverso en quienes se dedican a ese oficio cínico y lucrativo de vender armas. Según las páginas del libro la verdadera esperanza está en la mujer del protagonista, Felicia. Esta mujer con carácter -que de algún modo se me parece a Pilar del Río- será quien tal vez nos ayude a conseguir un mundo donde no haya guerras y donde quienes comercian con ellas no tengan que ser definidos con el adjetivo “despreciables”, sino con otro más manso y discreto: superfluos."


Haverá definição para "Filho"?




"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. 
Isto mesmo ! 
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado. 
Perder? 
Como? 
Não é nosso, recordam-se? 
Foi apenas um empréstimo!"

Ernest Lluch explica um ideal subjacente à "Jangada de Pedra"


"A Estátua e a Pedra"
Fundação  José Saramago
Pág, 27

(...) "A Jangada de Pedra", publicada em 1986, descreve a separação da Península Ibérica da Europa e a sua viagem mar adentro como se realmente fosse uma jangada, até se fixar entre a América do Sul e África. Este livro foi entendido de diversas maneiras, sobretudo negativas. Foi dito e mil vezes redito que era um livro contra a Europa que se estava a construir, como  se um mero romancista pudesse competir com factos económicos e políticos de semelhante dimensão, Penso que quem tenha lido o livro e tenha da trajectória política do autor uma opinião rudimentar, possa ter formado uma ideia equívoca sobre o que o livro narra. Mas alguém que não era crítico literário, o político catalão Ernest Lluch, desgraçadamente assassinado pela ETA, escreveu um artigo no qual afirmava mais ou menos isto: «Não nos equivoquemos, Saramago não quer a Península Ibérica se separe da Europa, aquilo que ele pretende é arrastar, levar a Europa para o sul». (...)
(...) "A Jangada de Pedra" foi, na intenção do autor, uma espécie de proposta para a formação de uma nova área cultural, que não seria já a bacia cultural mediterrânica, porque essa cumpriu o seu papel, mas sim a bacia cultural do Atlântico Sul. A Península Ibérica, entre a América do Sul e a África, tornada ilha, cercada de mar por todos os lados, comunicando com tudo o que está fora dela. É a utopia, justamente o contrário do romance histórico. (...)



Informação via, Wikipédia em http://es.wikipedia.org/wiki/Ernest_Lluch
Ernest Lluch Martín (Vilasar de Mar, Barcelona, 21 de enero de 1937 - Barcelona, 21 de noviembre de 2000) fue un político español del PSC. Ministro de Sanidad y Consumo entre 1982 y 1986, fue asesinado por la banda terrorista ETA cuando contaba 63 años y estaba retirado de la vida política.

Talleyrand na alusão à palavra de sentido ilusório - Conferência "Democracia e Universidade" 2005


"Democracia e Universidade"
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa

Conferência realizada na Universidade Complutense de Madri em 2005




A propósito do valor das palavras e da possibilidade de as mesmas poderem alterar, acrescentando ou diminuindo "peso" à substância do seu significado, Saramago aludia à "voz" politica, 

Referia:
(...) "E pode chegar-se à situação absurda e terrível de que um político, sem alterar a expressão, isto é, com a cara mais dura do mundo - não é piada, trata-se de um político do meu país que teve altíssimas responsabilidades no governo - diga o seguinte: "A política é a arte de não dizer a verdade". Disse-o e não aconteceu nada (...)"

Com este efeito prático, também da verdade ilusória da palavra ou do mimetismo que com a mesma podemos configurar um momento, ou até, uma vida de mentira, surge a menção a Talleyrand.

E prossegue:
(...) "Esta frase aproxima-se de outra de Talleyrand, que dizia que a palavra tinha sido dada ao homem para encobrir o que pensava, afirmação tremenda que, no entanto, atravessou séculos sem muita contestação; pior, com um não dissimulado e cínico aplauso. (...)"




Quem foi Talleyrand, aqui, via Wikipédia
em, http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles-Maurice_de_Talleyrand-Périgord

"Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, mais conhecido por Talleyrand GCNSC (Paris, 13 de fevereiro de 17541 — Paris, 17 de maio de 1838) foi um político e diplomata francês.
Talleyrand demonstrou admirável capacidade de sobrevivência política ao ocupar altos cargos no governo revolucionário francês, sob Napoleão, durante a restauração da monarquia dos Bourbons e sob o rei Luís Filipe. Embora de ascendência aristocrática, ele não pôde seguir a carreira militar por causa de um defeito físico, e, opcionalmente, foi preparado para a carreira religiosa e, como seminarista, estudou teologia e leu a obra dos filósofos progressistas contemporâneos.
Expulso do seminário (1775) por não seguir a regra do celibato, mesmo assim recebeu as ordens menores e o rei o nomeou abade de Saint-Denis, em Reims (1776). Ordenado (1779), foi nomeado vigário-geral pelo tio Alexandre, arcebispo de Reims e, um ano depois, tornou-se agente geral do clero junto ao governo da França. Defensor dos privilégios eclesiásticos, suas atividades o puseram em contato direto e frequente com os ministros da coroa, o que lhe permitiu adquirir experiência parlamentar e ser consagrado (1788) como bispo de Autun.
Durante o período pré-revolucionário, foi membro do Clube dos Trinta. Apoiou depois a nacionalização dos bens da igreja e conseguiu a adoção da constituição civil do clero que, sem o apoio papal, permitiu a reorganização completa da Igreja francesa ao serviço do Estado.
Excomungado pelo papa e, eleito administrador do departamento de Paris (1791), abandonou a Igreja Católica. Foi enviado pela Assembleia Geral à Grã-Bretanha (1792), para tentar convencer os ingleses a não se aliarem com a Áustria e a Prússia contra a França. O fracasso das negociações e a execução de Luís XVI obrigaram-no a fugir para os Estados Unidos (1794).
Após a queda de Robespierre e o fim do Terror (1796), regressou à França e no ano seguinte tornou-se ministro das Relações Exteriores. Acusado de corrupção (1799), foi demitido, mas após o golpe de estado de Napoleão e o estabelecimento do Consulado, recuperou o cargo.
Com o objetivo da pacificação da Europa, esforçou-se por articular uma política de alianças com as principais potências europeias e promoveu a reconciliação de Napoleão com o resto da Europa. No entanto, por discordar do projeto de conquistas do imperador, demitiu-se (1807). Apoiado pelo o czar Alexandre I da Rússia, organizou oposição a Napoleão e preparou a restauração dos Bourbons.
Com a entrada da liga antinapoleônica em Paris (1814), persuadiu o senado a estabelecer um governo provisório e a declarar Napoleão deposto. O novo governo imediatamente convocou Luís XVIII, que o nomeou ministro das Relações Exteriores. No Congresso de Viena (1814-1815), representou a França e expôs suas habilidades diplomáticas, mas prejudicou a França em termos territoriais, pois aceitou ceder à Prússia a maior parte da margem esquerda do rio Reno.
Após os cem dias napoleônicos, assumiu o cargo de presidente do Conselho de Estado, porém seu passado revolucionário levou-o a ser demitido em setembro do mesmo ano. Aliado aos liberais, participou de forma ativa na ascensão ao trono de Luís Filipe de Orleans (1830). Embaixador em Londres (1830-1834), teve participação fundamental nas negociações entre França e Reino Unido, como na criação do reino da Bélgica e na assinatura da aliança entre França, Reino Unido, Espanha e Portugal - a Quádrupla Aliança (1834).
Acusado em vida de cínico e imoral, alegava servir à França, e não aos regimes políticos. Foi, ao lado de Fouché, uma das figuras mais polêmicas da França."

domingo, 16 de novembro de 2014

Paradigma da temporalidade do significado da (ou de uma) palavra - Conferência de 2005

" Costumamos dizer que falando é que a gente se entende" (...)

Poderá uma palavra perder significado. 
Perder peso do seu significado. 
Transformar-se, evoluir, caracterizar-se de outra forma.
Até que ponto o contexto social, evolutivo ou regressivo numa sociedade pode exercer força sobre a dimensão caracterizadora da palavra.

José Saramago, na conferência realizada em 2005, na Universidade Complutense de Madri - "Democracia e Universidade", abordava a questão.


(...) "o significado das palavras não é eterno;  a semântica de uma palavra não é imutável, muda como nós mudamos, como mudam os usos e costumes, como mudam as estações. Esta mudança não tem que ver nem com sintaxe nem com morfologia, nem com lugar que ocupam na frase, ou com as palavras que acompanham as que queremos dizer e que colocadas à frente ou atrás incidem de uma maneira ou de outra, de modo que a acompanhante às vezes pode tornar-se a palavra definitiva. (...) há palavras, inclusive expressões, que caem em desuso porque reflectiam actividades já desaparecidas, e portanto está certo que apareçam outras para ocupar o lugar daquelas e assim falar de modo a que a gente se entenda. 
O mal, e era aqui que queria chegar com este preâmbulo, é quando a palavra permanece mesmo depois de mudar o seu conteúdo. (...)
Quem nos iluminou a todos de forma definitiva acerca do que afirmo, e com  que profundidade, foi Jorge Luis Borges num conto a que deu o título de "Pierre Menard, autor do Quixote".



"Pierre Menard, Autor de Quixote (“Pierre Menard, Autor Del Quixote” no original em Espanhol) é um conto do escritor argentino Jorge Luiz Borges inserido no livro Ficções.
Originalmente foi lançada na revista Sur em Maio de 1939. O lançamento oficial, em língua espanhola, foi na publicação do livro O Jardins de Veredas que se Bifurcam que posteriormente foi incluído na obra Ficções em 1944.
O Conto é escrito como se fosse uma revisão ou uma crítica literária sobre Pierre Menard, um escritor de ficções do século XX e de nacionalidade francesa. Ele começa com a breve introdução e uma lista do trabalho de Menard.
Borges enfoca os esforços de Menard em ir além de uma mera tradução releitura ou revisão do Dom Quixote, de Cervantes, mergulhando profundamente no trabalho de se tornar hábil a recriar o livro, linha por linha, de maneira igual ao modelo do século XVII. Assim Pierre Menard é frequentemente usado para levantar questões e discussões sobre a natureza da autoria, apropriação e interpretação.
O conto é escrito em forma de critica literária, mas por meio da fantasia, ironia e humor. Seu narrador/revisor considera o “Quixote de Mernard” (linha por linha idêntico ao original) muito mais rico em ficção do que o “Quixote de Cervantes” original dado que Mernard esta a luz de conhecimentos posteriores a 1602. Cervantes, afirma o crítico, se entrega à critica aos toscos contos de cavalaria e a parca realidade e provincial do país. Enquanto Menard escreve distante do passado, em Cervantes há a proximidade com os Bandos de Ciganos, conquistadores e dos autos de fé. Neste conto, Borges antecipa a teoria pós-moderna que da centralidade para a resposta do escritor. Seu nome aparece na questão de Jaques Derrida e responde em seu ensaio de 1966 para o congresso internacional de Sociologia e Filosofia da língua francesa “Na Biblioteca de Babel, Borges contempla um efeito oposto: a melhoria de um texto através de sua reprodução. No padrão análogo do teorema dos infinitos macacos , todos os textos se passam em uma vasta livraria apenas porque completam a possibilidade aleatória e eventual da combinação de todas as letras.
Ambas as histórias lidam com grande dificuldade de criação de significado ou, talvez achar ou determinar o sentido. No caso do Quixote o sentido esta sobre a resposta do escritor e ou o contexto do trabalho em que o livro é escrito. Na Biblioteca de Babel é difícil se encontrar algum trabalho coerente pois a Biblioteca possui todos os trabalhos possíveis. Contudo qualquer trabalho com sentido é aleatório e não produzido pela ação humana e portanto, drenado de sentido. No caso de Quixote a ação humana de escrever e ler o trabalho conferem sentido.
Borges escreveu a história enquanto se reestabelecia de um ferimento na cabeça. Se o conto é considerado como uma obra de ficção, então foi o primeiro publicado sob seu próprio nome ( o ”Homem da Esquina Rosada” foi publicado pelo pseudônimo de H. Bustos). Como é comum em sua escrita, o conto é rico em ricas referencias e piadas sutis. Seu narrador/revisor é um Católico ortodoxo que destaca que os leitores de uma revista rival são “uns poucos Calvinistas, se não maçons e circuncisos”. De acordo com Emir Rodríguez Monegal e Alastair Reid, Menard é em parte “uma caricatura de Stéphane Mallarmé e Paul Valéry, ou de Miguel de Inamuno e Enrique Larreta”.


Seguindo o conferencista José Saramago

(...) Em todo o caso, há que ler o conto de Borges. (...)
(...) sobretudo, recomendo que se detenham a pensar o que quer dizer o conto, o que Borges quis dizer quando escreveu esta história fabulosa. Porque em dado momento aparece a palavra "justiça" e Borges chama a atenção para o facto de, mesmo que a palavra seja a mesma, não ter o mesmo significado num tempo e noutro; isto é, justiça no século XVII não significava o que significa hoje, no século XXI. (...)
Há no entanto uma armadilha a que devemos escapar: quando uma palavra tem um significado concreto e por razões várias, ou sem-razões, se transforma praticamente no seu contrário. Um exemplo do que digo sucede com a palavra "bondade". O conceito de bondade, com o tempo e as mudanças de mentalidade e costumes, não só se usa pouquíssimo na comunicação quotidiana como adquiriu outro sentido, exactamente esse em que vós estareis pensando, quase pejorativo, porque agora se relaciona a expressão com a falta de inteligência.(...)
(...) As palavras que quero trazer aqui ao falar de democracia e universidade não são apenas as que mudaram com o uso, ou as que são equívocas, mas as que equivocam conscientemente, as que enganam, as palavras que mentem porque quem as diz está a manipular para alcançar objectivos que de uma forma não poderia conseguir.






Parabéns a José Saramago - 16 de Novembro de 1922


"Nasce a 16 de Novembro (n.a. 1922) - e não no dia 18, como consta na Conservatória do Registo Civil -, às 14,00 horas, na Rua da Lagoa, Azinhaga (Golegã, Ribatejo), no seio de uma família de camponeses. Os pais são José de Sousa, jornaleiro, e Maria da Piedade, doméstica. O próprio Saramago explicou a razão do atraso cronológico do registo oficial: "Foi o caso que o meu pai andava na altura a trabalhar fora da terra, longe, e, além de não ter estado presente no nascimento do filho, só pôde regressar a casa depois de 16 de Dezembro, o mais provável no dia 17, que foi domingo. É que então, e suponho que ainda hoje, a declaração de nascimento deveria ser feita no prazo de trinta dias, sob pena de multa em caso de infracção. [...] ficou-se à espera que ele regressasse, e, para não ter de esportular a multa (qualquer quantia, mesmo pequena, seria excessiva para o bolso da família), adiantaram-se dois dias à data real do nascimento, e o caso ficou solucionado." 

em "José Saramago: A Consistência dos Sonhos - Cronobiografia"
Fernando Gómez Aguilera - Caminho



"[O livro] leva uma história? Pois leva. Leva personagens, e episódios, e acidentes, e coisas mais ou menos interessantes, ou divertidas, ou dramáticas, mas sobretudo leva uma pessoa dentro, que é o autor. E a grande história será reconhecer o leitor isso mesmo. Porque quando o leitor reconhece, quando o autor lhe dá os meios para que seja reconhecido, então sim, estabelece-se uma relação afectiva, mais profunda, mais cúmplice, de maior comunicação entre o autor e o leitor."

«Os livros do nosso Desassossego. José Saramago»
Entrevista a José Manuel Mendes, 1993

Dia(s) do desassossego em Saramago e Pessoa

Da apresentação da Revista de Estudos Saramaguianos - "Saramaguiana" (Fundação José Saramago, 15/11/2014 - 16 horas) - gerou-se um ambiente muito harmonioso e cúmplice, através (e em redor) da obra e pensamento de José Saramago. 

Ficou no ar, e em sumo transcrito do evento duas interrogações, com o mesmo espírito, mas abordando uma noção de pluralidade diferente.

- "Que farei com este escritor?"
- "Que faremos nós com este escritor? "

O "EU" leitor, como fio condutor de ligação e de continuidade da obra, em co-relação de forças e união, com o "NÓS", leitores e ao mesmo tempo, quiçá, estudiosos e elementos fundamentais para dar maior profundidade à "pedra" depois da "estátua" originalmente trabalhada.

Pedro Fernandes e Carlos Reis, abordam e vincam a ideia da continuidade e vivência da obra, após morte do seu autor. Se em vida Saramago, foi o "alimentador" real deste universo, cabe agora ao leitor manter viva a palavra e o pensamento.



6 actores do Grupo Éter realizam leituras diversas, de Saramago e Pessoa
Circularam pelas 4 linhas do Metro de Lisboa e pelos ascensores do Lavra e da Glória 


Pontos de Troca de Livros
Fundação José Saramago - Casa Fernando Pessoa - CCB - Instituto Camões - Plano Nacional de Leitura




A lendária Oliveira no largo em frente à Fundação

Apresentação da Revista "Saramaguiana"
Painel composto por Ricardo Viel, e intervenções de Pedro Fernandes e Carlos Reis


Pilar del Río, inestimável anfitriã que nos deu a honra de nos receber no evento e brindar com um sorriso que enche a alma...