Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 4 de janeiro de 2020

"Pura leitura" de Pilar del Río sobre a obra "Autobiografia" de José Luís Peixoto

Publicado no blog de José Luís Peixoto
Pode ser aqui recuperado 
Capa da obra "Autobiografia" da Quetzal

"Com o ambicioso pretexto de escrever sobre outro autor, 
José Luís Peixoto entras pelos infernos da criação literária" 
Pilar del Río




4 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"Escreve-me António de Macedo, em nome da sua produtora de filmes, a Cinequanon, para saber se estou interessado em escrever o argumento de um audiovisual (...) sobre os vinte anos do 25 de Abril. (...) Tirando o «renome», o que isto quer dizer é que não me deixam respirar. Aceito? Não Aceito?" (...)

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

3 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"O último número da revista norte-americana The New Yorker publica uma crítica de George Steiner a um livro, publicado por Carcanet Press, sobre o centenário de Pessoa. Aí se diz, a rematar: «Os editores incluíram duas entrevistas imaginárias póstumas, mas faltou-lhes o melhor nesta matéria. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, que foi traduzido em 1991 por Giovanni Pontiero, é um dos grandes romances das letras europeias recentes. Fala do regresso de Ricardo Reis, vindo do Brasil, à pátria, fala do Fascismo em Lisboa, fala do encontro entre Reis e o seu falecido criador. Acerca de Pessoa e das suas contraditórias sombras, nada foi escrito de mais perceptivo.» (...)

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Giovanni Pontiero tradutor de José Saramago



3 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Não tenho culpa de que o Evangelho volte tantas vezes a estas páginas. Quem o traz aqui são os leitores, os que gostaram e os que detestaram, aqueles que foram tocados no coração e aqueles a quem se lhes revolveu a bílis. Esta carta veio de Israel e assinam-na Martha e Yakov Amir." (...)

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3 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"Zeferino Coelho regressou hoje a Lisboa. Enquanto cá esteve leu tudo quanto tenho escrito nos últimos tempos: estes Cadernos, o capítulo do Ensaio, as notas para as Tentações. Propôs-me levar já os Cadernos, para publicar em Abril um primeiro volume." (...)
"Agora, por exemplo, chegaram-me de Itália, de Massimo Rizzante, colaborador da revista L'Atelier du Roman, de Paris, as perguntas da entrevista que lhes prometi. Não se afastam do habitual (a questão do romance histórico, a questão das personagens, a questão do narrador...), mas são nada menos que dezasseis, e todas a exigir resposta desenvolvida: aliás muito simpaticamente, informam-me de que tenho quinze páginas da revista à minha disposição..." (...)

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Capa da edição de Novembro 1993 com artigo de Michèle Gendreau-Massaloux 
sobre a obra Evangelho segundo Jesus Cristo

"josé saramago: um humanista por acaso escritor" documentário


Pode ser recuperado aqui
via YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=0VRPnAAu8jo&t=914s

"filme-homenagem que busca olhar o mundo pelas lentes desassossegadas de josé saramago. documentário que revive o redemoinho de sensações, palavras e lembranças deixadas em quem o sentiu por perto. um humanista, que usou os microfones de um escritor, para gritar sobre o nosso mundo."

"Saramago, Portugal y España" por Alberto Matarán no Granada Hoy

"Saramago, Portugal y España" por Alberto Matarán no Granada Hoy
https://www.granadahoy.com/opinion/articulos/Saramago-Portugal-Espana_0_1424557604.html

"Las ideas de Saramago podrían consolidar una necesaria alianza entre todos los pueblos ibéricos"

"Este 2020 se cumplen 10 años de la muerte del Premio Nobel de literatura José Saramago. Seguramente es la persona que mejor ha representado los vínculos que nos unen con Portugal, que son muchos a pesar de que las oligarquías de uno y otro lado siempre han tratado de que nos demos la espalda.

Nuestro país tiene una enorme deuda con este escritor que nos eligió como su hogar cuando decidió alejarse de los ataques del extremismo ultracatólico portugués que quiso lapidarlo por escribir El Evangelio según Jesucristo, una de sus obras maestras, por cierto. En el décimo aniversario de su fallecimiento estamos ante una excelente oportunidad para saldar una parte de esta deuda recordando la obra y la figura de Saramago. Con la energía que siempre ha tenido su mujer, la castrileña Pilar del Río, no debería ser difícil sumar a nuestro país a las actividades de la fundación que lleva su nombre. Lanzarote, donde la pareja ibérica fijó su residencia, sería un territorio clave para este propósito, y Granada, de donde procede la familia de Pilar, podría ser también otro lugar de referencia aprovechando la potencia cultural de nuestra provincia y de nuestra universidad.

Además, ahora que por fin parece que tendremos gobiernos hermanos en los dos estados, las ideas de Saramago podrían consolidar una necesaria alianza entre todos los pueblos ibéricos y por qué no, también acercarnos a Latinoamérica tal y como representa la utopía del libro La balsa de Piedra. Una federación de los pueblos del sur nos permitirá atravesar con nuestras balsas las tormentas creadas por la globalización y los partidarios del odio.

Y es que Saramago nunca se olvidó de su origen y era constante su identificación con aquellas personas cuya existencia estaba estrechamente vinculada con la tierra. Tanto en su obra como en sus opiniones, demostraba un gran compromiso con el mundo y con los pueblos. En estos tiempos de desigualdad insoportable, de emergencia climática y de colapso civilizatorio, las palabras de Saramago resuenan cada día con más fuerza. Hoy quiero recordar esta frase de los Cuadernos de Lanzarote: "Somos la memoria que tenemos y la responsabilidad que asumimos. Sin memoria no existimos y sin responsabilidad quizá no merezcamos existir". Les propongo utilizar esta frase como propósito de año nuevo, yo lo pienso hacer. Y si me permiten recomendarles una lectura para este año que entra, les aconsejaría Memorial del convento, a mi entender el mejor libro de Saramago y una de las más bonitas historias de amor que se han escrito nunca."

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

2 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"É corrente ouvir dizer que são tantas as leituras de um livro quantos tiverem sido os seus leitores (...), o que quererá dizer, se não interpreto mal, que o autor mais afortunado será aquele que, graças a uns quantos leitores atentos que lhe vão comunicando as suas impressões de leitura, está continuamente em processo de aprendizagem sobre a própria obra." (...)

Sobre a carta enviada por Barbara Probst-Solomon, escritora norte-americana a propósito do Evangelho segundo Jesus Cristo.
Pilar del Río recordou a sua morte no passado dia 2.9.2019


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2 de Janeiro de 1996 - Cadernos de Lanzarote IV

"De El Hierro, a ilha mais pequena e mais ocidental do arquipélago, chega-me a carta de um professor primário que assina, simplesmente, António. É uma jóia para a caverna de um Ali-Babá que nunca roubou nada a ninguém, mas a quem tem sido dado, às mãos cheias, o que no mundo existe de mais precioso: palavras boas. 
Eis a carta" (...)

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

1 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

(...) "É o Pico de la Tejada, que de pico só tem nome, porventura resto de épocas mais altaneiras. (...) Quando regresso a casa olho para trás. Ali estão os algibes, tranquilos como uma ruína, indiferentes ao deserto em que os abandonaram. Vendo-os assim, guardando o que lhes foi confiado, compreendi a razão por que a estas cisternas chamamos também de arcas de água. Ao dizer arca, ao dizer água, estamos a dizer tesouro."

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"A janela de Saramago” 
Fotografia de João Francisco Vilhena



Noiserv & José Saramago - "As Intermitências da Morte" (José e Pilar OST)

Noiserv - "As Intermitências da Morte"
Música do filme "José e Pilar"

Via YouTube aqui

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

31 de Dezembro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

(...) "Sossegados , acompanhados por Maria do Céu e por Carmélia, assistíamos (eu com a melancolia do costume) ao escoar dos últimos minutos do ano canário, que são igualmente os do ano português, quando de súbito estoirou um morteiro lá fora. (...) E eu pensei: «Os cães têm razão. Com uma barulheira destas, como é que alguém poderá fazer o seu exame de consciência de fim do ano?»"

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31 de Dezembro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"Creio ter descoberto esta manhã o que a velhice é realmente. Estava meio acordado meio adormecido, como em Amherst, na manhã em que «vi» desfilar dentro da cabeça o essencial de Todos os Nomes, e repente compreendi que se entra na velhice quando se tem a impressão de ocupar cada vez menos lugar no mundo. (...) O ano entrou em Lanzerote com o acompanhamento bíblico de uma trovoada gigantesca que parecia querer deitar abaixo o céu e afogar a terra num dilúvio." (...)

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31 de Dezembro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Foi um ano bom. E não encontro melhor maneira de dizê-lo que recordar o que aqui escrevi num dia de Julho de 1993: «Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote? A vida, esta vida que, inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes dias, ter parado no bem-me-quer...»"



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31 de Dezembro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"Escrevo entre as 12 da noite e as 12 da noite. A Península já entrou em 1995, aqui ainda nos restam vinte minutos de 1994 para viver. Em Canárias não fazemos as coisas por menos: necessitamos vinte e quatro badaladas para passar de um ano a outro. (...) O tempo é uma tira elástica que estica e encolhe. Estar perto ou longe, lá ou cá, só depende da vontade." (...) 



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31 de Dezembro de 1993 - "Cadernos de Lanzarote I"

"Ray-Güde enviou-nos fotografias do colóqui de Frankfurt e da ópera de Münster, que me fizeram apetecer tomar um avião e ir ver o espectáculo outra vez." (...)

Tradutora e agente literária Ray-Güde Mertin, colaborou com José Saramago desde meados da década de 80. Faleceu em 14 de Janeiro de 2007. (Fonte DN) 

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Revista "Elle" nos 30 anos recupera artigo de 1988 "José Saramago em Conversa"

"José Saramago em Conversa
Recuperamos artigos de edições antigas. Este foi originalmente publicado na ELLE de outubro de 1988.
Por: Helena Vasconcelos -- Imagem: © D.R."
Pode ser recuperado e consultado aqui
em https://www.elle.pt/sem-categoria/30anosellept-jose-saramago-conversa/



José Saramago é um ouvinte atento. Faz perguntas, ri-se, analisa. Almoçamos tranquilamente num restaurante onde todos o conhecem e o tratam com o carinho de quem sente orgulho em recebê-lo. «Coma a carne assada, Sr. Dr., olhe que está muito boa. E tenho aqui um vinho que devia provar.

García Marquéz justificou uma vez a sua amizade com Fidel de Castro dizendo que o que os aproxima é a solidão. Em Fidel, a solidão do poder. Nele, García Marquéz, a solidão da fama. Pergunto a José Saramago se se sente afetado por essa «solidão da fama». Ri-se e parece um pouco impaciente. Sobre a solidão do poder nada sabe, acaba por afirmar. Quanto à solidão da fama, reconhece que não se pode comparar o relativo conhecimento que as pessoas têm de si com o de um personagem como Marquéz.


«Comigo passa-se exatamente o contrário. O facto de as pessoas me reconhecerem, saberem o que faço,. Quem sou, tem-me dado, pelo menos até agora, um sentimento de comunhão, de ligação com os outros. Gosto que me procurem, que falem comigo do que leram, do efeito que isso lhes provocou. Agrada-me essa sensação de companhia».

Às vezes torna-se cansativo porque lhe dizem normalmente as mesmas coisas, os sentimentos não variam muito, as reação menos ainda, e ele acaba por dar por si a repetir-se, o que é desagradável. «É mais uma sensação de vazio do que de solidão. As palavras deixam de ter sentido e só me apetece o silêncio, o que é impossível, porque se as pessoas me procuram é porque me querem ouvir».

A relação com os outros é então uma questão de moral? A resposta é tranquila: «Acho que sim. Há uma relação de afecto entre quem escreve e quem lê. E o afecto não pode ser desiludido. Não quero dizer que tenha de ser deliberadamente cultivado, porque isso seria mais uma questão de relações publicas do que um afecto real. As pessoas aproximam-se, vêm de corpo inteiro e um autor, seja ele qual for, não pode dizer não. Diz não em nome de quê? Da sua tranquilidade, da sua comodidade? Então não se exponha.»

Falamos das suas recentes viagens ao Brasil, à Venezuela e à URSS, conta-me episódios da «hiper-congressite» que as acompanha e continuaremos a conversar dias depois em sua casa numa confortável divisão repleta de livros. Nas paredes, obras de amigos e uma gravura de Ilda Reis, que foi mulher de Saramago. Os objetos são oriundos dos quatro cantos do mundo. Uma fotografia da atual mulher, Pilar, reina sobre a atmosfera. Há um aparelho de alta-fidelidade, uma televisão, e um vídeo.

Não sei como é o seu método de trabalho. Os livros demonstram ser o produto de uma pesquisa, contêm uma enorme quantidade de dados. Há amigos meus, escritores, que perguntam como é que escrevo numa maquina máquina que é esta velhíssima, tem 40 anos. «Há pessoas que me dizem assim, principalmente em relação ao Memorial do Convento: ‘Mas você deve ter passado anos na Torre do Tombo, a investigar!’ E parece-me que as pessoas vêem mesmo uma torre enorme, cheia de papéis e livros como a Biblioteca do Eco ou o Labirinto do Borges e eu lá no meio daquela confusão toda a investigar, a pesquisar. Não, não é nada disso. Por exemplo, em relação ao século XVIII: elabora uma bibliografia. Tanto textos da época como textos contemporâneos sobre o assunto. Depois, a partir do geral, vou tentando chegar ao pormenor. Vou tentando estreitar, especializar o conhecimento. Tenho que saber onde parar, evidentemente, de contrário, sou submergido pelos factos acumulados. É o que chamo determinar o sentido material. E acho que sei sempre menos do que quero que os outros acreditem. Trata-se simplesmente de encontrar as coisas onde elas estão. É só preciso saber procurar. A partir daí, tenho o fulcro da história. No Memorial há um capítulo de cerca de vinte páginas sobre o transporte de pedra da varanda do Convento. Eu tinha apenas três ou quatro informações, a saber: peso da pedra – 30 toneladas. Distância entre Pêro Pinheiro e Mafra – 15 Km. Duração do tempo de transporte – oito dias. 600 homens para esse transporte. E 200 juntas de bois. A partir destes dados e com um pouco de imaginação o resultado foram vinte páginas. Quanto ao Ano da Morte de Ricardo Reis, para dar outro exemplo, há detalhes curiosos. A crítica, principalmente a estrangeira, fez notar que o tempo meteorológico desde a chegada de Ricardo Reis a Lisboa, é um tempo de chuva, e isso mantém-se por mais umas semanas. A crítica toma isso como uma deliberação do autor para criar uma atmosfera pesada, cinzenta. Pois eu lamento muito mas não tenho nada a ver com isso. É um facto que esse Inverno em Lisboa, e está escrito na imprensa da época, foi anormalmente chuvoso. Tive a preocupação de saber o tempo que fazia, quase dia-a-dia. Limito-me a relatar os factos. Naturalmente não tenho tanta imaginação como parece!»

Mas ele foca o seu interesse nas pessoas. Ao contar a história dos personagens vai relatando factos e estes estão integrados na História.

«É claro que a mim o que me interessa são as pessoas. Isto pode ser dito por qualquer escritor.» As pessoas na História, exatamente isso, seres da História que são simultaneamente agentes e sujeitos estão no Memorial do Convento, no Levantado do Chão, n’O Ano da Morte de Ricardo Reis, até no Manual de Pintura e Caligrafia e, é claro, na Jangada de Pedra.

Saramago recusa falar sobre os seus próximos livros («Não quero que se divulgue nada, sobre isso tenho que me defender»). Conhecem-se apenas os títulos: História do Cerco de Lisboa e O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Falemos da sua famosa ironia, tão apontada e parafraseada pelos críticos.

«Sou algumas coisas enquanto escritor que não sou na vida. Posso ser irónico, ter uma atitude irónica perante o funcionamento da sociedade, por exemplo. Tenho uma atitude melancolicamente irónica, se se quiser. Mas não uso de ironia nas minhas relações com as pessoas. É verdade que os meus livros são extremamente irónicos. Talvez (e estou a pensar nisso agora), talvez eu utilize os livros como forma de equilíbrio, para não usar, com as pessoas, essa tal ironia, que a meu ver estabelece relações colonizadoras. Digamos, portanto, que os meus livros são a maneira de eu não cair nessa tentação, nessa fraqueza. A ironia nos meus livros tem a função de ajudar-me a ver melhor as coisas. Não raro utilizo-a contra coisas e pessoas que muito amo. Não quero dizer que seja uma espécie de auto-flagelação, nada disso. É um modo ainda contraditório, de exprimir uma relação afectuosa. Lembro-me de um pormenor, ainda no Memorial, que gostaria de contar. É um pormenor estranho, do qual só me apercebi muito perto do final. Estava quase terminado e só então me dei conta que tinha escrito uma história de amor –entre Baltasar e Blimunda – e que aqueles dois seres, que se amam tanto, não trocam entre eles uma única palavra de amor. Isto não foi deliberado por mim, à partida. Não decidi, quando comecei a escrever que ia contar uma história de amor em que não fosse introduzida nenhuma das expressões de amor de uso corrente. Mas aconteceu. E é bastante irónico, não é?»

A literatura tem influência na vida das pessoas? Pode desencaminhar, ajudar, estimular? E se assim é, qual a responsabilidade do escritor?

«Acho que sim, que pode ‘desencaminhar’ as pessoas. Desencaminhar não no sentido pejorativo do termo. Pode fazê-las mudar de caminho, o que não quer dizer que seja de um bom para um mau. Mas não creio que um livro possa mudar a vida de uma pessoa. Pode ter uma certa influeência. Não tenho dúvidas sobre a responsabilidade do escritor, ele tem-na. Não quero dizer que tenha a preocupação, à partida, de escrever com intenções moralistas ou moralizantes, preocupado em não afetar negativamente a vida das pessoas. Mas não se pode esquecer que, se não é de certo modo para penetrar na vida do leitor, não vale a pena escrever. Um grande amor pode mudar radicalmente a vida de uma pessoa, o que duvido que se passe com a leitura de um livro, ainda que seja um grande livro. É claro que estamos sempre a evoluir. Vamos sendo não outros mas os mesmos de outra maneira. Mas não é por ler este ou aquele autor que vamos oscilando, mudando de personalidade.»

O Memorial é um livro muito sensual?

«É verdade que há sensualidade na minha escrita, uma sensualidade que não tem obviamente que ver com as situações descritas. É uma sensualidade intrínseca à escrita. Está lá, é algo que se pode cheirar, tocar, ver. O sentido dos sentidos. Não pretendo fazer leitura erótica, evidentemente, mas são descrições carnais em que a aproximação é feita através da mediatização da escrita. É a sensualidade da própria escrita que exprime, no fundo, a sensualidade específica de uma situação – amorosa, erótica.»

Ao longo da conversa somos interrompidos inúmeras vezes pelo telefone. O atendedor de chamadas está ligado e ouvimos as mensagens. Marcações de encontros, mais conferências, pedidos de entrevistas. Quando é algum amigo, José Saramago levanta-se, vai atender, conversa um pouco, desculpa-se da pressa. É um homem muito bem educado, gentil, afectuoso. Vai à cozinha e traz uns doces espanhóis maravilhosos.

Um crítico espanhol, Jordi Costa, fala da ilusão, porque de ilusão se trata, que o autor dá ao leitor de «manejar os cordelinhos». Diz mesmo que os livros de José Saramago são para leitores perspicazes. É mais um indício que ele confirma.

«Gosto que o narrador partilhe com o leitor o conhecimento geral da situação. Não que queria dar ao leitor a ilusão de que é mais perspicaz do que o seu próprio autor, uma vez que a perspicácia do leitor assenta no conhecimento que o narrador lhe vai transmitindo. É mais uma partilha, uma cumplicidade, o que existe entre ambos. De resto, o leitor funciona como uma das peças fundamentais do arsenal do escritor. De certo modo o leitor é utilizado como os personagens. Não se transforma num personagem. Mas toma parte da acção, de certa maneira.»

Mas José Saramago prega partidas ao leitor. Vai de mansinho, conta-lhe tudo, faz com que ele se sinta por dentro dos acontecimentos e de repente, zás, prega-lhe uma partida.

«Eu diria antes que o narrador usa uma espécie de má-fé. Enquanto está a partilhar com o leitor um certo gosto de narrar, sabe – e isso não o diz – que umas páginas à frente lhe vai dizer, ‘meu caro, desculpa, mas não era nada disto, as coisas são completamente diferentes’. E o leito que foi, digamos, engando, passa a precaver-se.»

Mas torna a cair, sempre, constato, espantada. José Saramago não me deixa continuar – «Bem, pelo menos eu tento que ele cai. Sempre».



Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de outubro de 1988

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

"Cartas para José Saramago" Por Orlando Brito em "Os Divergentes" (19/12/2017)

"Cartas para José Saramago" por Orlando Brito 
"Os Divergentes" (19/12/2017)

Pode ser consultado aqui


"O escritor e sua correspondência. foto Orlando Brito"

"O escritor português José Saramago recebe as correspondências que chegam a seu endereço de Lisboa. “Rua dos Ferreiros, 36, à Estrela”, como ele mesmo dizia. 1993.

Como foi – Eu estava em Portugal para fazer com o colega Luís Costa Pinto várias matérias para a Veja, revista em que trabalhávamos. Uma dessas reportagens era com o José Saramago. O famoso autor de vários best-sellers resolvera mudar-se para Lanzarote, uma das ilhas Canárias, depois que seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” foi censurado em seu próprio país, em 1991.

Ao lado da mulher espanhola Maria Del Pilar, Saramago dizia ter encontrado o lugar ideal para meditar e escrever. Não tirou o pé de Lanzarote durante meses. Mas sempre voltava a Lisboa para, principalmente, atualizar e conferir a correspondência. Afinal, um ganhador do Prêmio Nobel de Literatura recebe mensagens de admiradores e amigos de todo o mundo.

O carteiro já sabia que dificilmente encontraria o famoso destinatário e por isso confiava as cartas ao dono da singela Quitanda do Mascote, vizinha do modesto apartamento de Saramago, na Rua dos Ferreiros, número 36, no Bairro da Estrela, um dos mais tradicionais da agradável da capital portuguesa.

José Saramago mereceu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Faleceu em 2010, aos 78 anos.

Orlando Brito"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

"Skylight" (edição traduzida da obra "Clarabóia") em destaque no "Tri-City News" do Canadá

Book of the Week: Skylight
Skylight by José Saramago
Reviewed by Sharon Visser Araujo , Terry Fox Library / Tri-City News (10/12/2019)

Pode ser consultado aqui
em https://www.tricitynews.com/lifestyles/book-of-the-week-skylight-1.24032039

Capa da edição traduzida da obra "Clarabóia" 

"Skylight was José Saramago’s first book, written in 1953 but not published until 2014.

The young author hopefully sent his manuscript off only not to hear anything for 36 years.

When the publishing house finally contacted Saramago asking permission to publish, he refused and as a result, Skylight remained a secret until his death.

Set in Lisbon in the late 1940s, Skylight introduces us to the people in a down-at-heel apartment building.

The residents are doing what they can to get by while living under a dictatorship.

Despite the depressing-sounding premise, the apartment dwellers lead rich and interesting lives.

Living so close to one another, everyone knows everyone else’s business.

Intertwined with these relationships are the stories that take place in each apartment.

Skylight is a window into the lives of a group of ordinary people thrown together by chance. F

or more good read recommendations, visit your local library." 

Carta Universal de Deveres e Obrigações dos Seres Humanos

Via Fundação José Saramago, aqui

"No Dia dos Direitos Humanos, relembremos os nossos deveres

Hoje, 10 de Dezembro, celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Há 71 anos foi proclamada, pela Organização das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento que garante a todos os habitantes do planeta direitos e garantias fundamentais e que hoje, tantos anos depois, continua por cumprir.

Em 2015, a Fundação José Saramago, em colaboração com outras entidades e personalidades, deu início ao projeto de criação de uma Carta de Deveres e Obrigações dos Seres Humanos, documento simétrico e complementar à Declaração dos Direitos Humanos, partindo da ideia defendida por José Saramago em 1998, num dos seus discursos de Estocolmo, de que os seres humanos deveriam reivindicar, além dos seus direitos, o “dever dos seus deveres”.

Em 2018, a Carta dos Deveres, na sua redação final, foi entregue ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e a diferentes departamentos da ONU. O próximo passo é fazer com que o documento circule, seja lido, conhecido, debatido e adotado um pouco por todo o mundo."



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"3 perguntas a… Anabela Mota Ribeiro" via "Tornado" (08/12/2019)

Via jornal "Tornado" aqui
em https://www.jornaltornado.pt/3-perguntas-a-anabela-mota-ribeiro/

"3 perguntas a… Anabela Mota Ribeiro" por J. A. Nunes Carneiro (Porto, 8/12/2019)

«Anabela Mota Ribeiro
Nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.
É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas. Também foi autora e apresentadora de programas de televisão na RTP. Publicou vários livros.» 


Como surgiu a ideia deste seu livro «Por Saramago»?
Como jornalista, o género a que mais me dediquei foi a entrevista. Gosto de perguntar, gosto de escutar, gosto do efeito de detonação que surge das palavras do entrevistado, da potencialidade que há no diálogo. Isso permite-me pensar com outra pessoa, e depois seguir os meus próprios caminhos, autonomamente, ajuda-me a compreender e a criar perplexidades. Não raro, entrevistei mais do que uma vez uma pessoa. Essa conversa continuada, em andamento, suscitada por um livro, pelo novo, e que normalmente acontece quando temos do outro lado um criador, permite um aprofundamento da relação. Então, não sei reconstituir o momento exacto em que pensei fazer “Por Saramago”, mas percebi que as várias viagens ao universo saramaguiano (as entrevistas a José e a Pilar, o texto sobre a casa de Lanzarote, a ida ao México ou ao Brasil “com” Saramago que me deixaram perceber uma devoção táctil pelo autor) constituíam um testemunho importante e eram uma forma de dizer o quanto o admiro.

Depois, eu já tinha feito “Paula Rego por Paula Rego”, também com entrevistas, com um apuro estético incrível e a mão segura da editora Guilhermina Gomes da Temas e Debates; e achei que fazia sentido replicar, de um ponto de vista formal, esse objecto tão conseguido. Por isso, além dos textos, há em “Por Saramago” uma colecção de fotografias que iluminam o texto. São cerca de 65, todas originais, todas feitas de propósito para o livro, da autoria da Estelle Valente. Os dois livros têm capa dura, uma sobrecapa, um papel que apetece cheirar, uma impressão excelente.

Ao escrever este livro, ainda se surpreendeu com alguma nova faceta de José Saramago?
Surpreendo-me sempre com os entrevistados, mesmo quando os entrevisto mais do que uma vez e mesmo quando parece que já disseram tudo. Há sempre uma cintilação nova. Cada encontro tem uma dinâmica própria que depende dos sujeitos, do momento em que estão, da sintonia, e também do que suscita a entrevista. Acho que me surpreendi, a primeira vez que o encontrei, por ser mais gentil do que sisudo, pela disponibilidade para pensar alto.

Neste livro foca a sua atenção em dois livros («As Pequenas Memórias» e «A Viagem do Elefante»): porquê?
Fernando Gómez Aguilera, biógrafo de Saramago, comissário da exposição A Consistência dos Sonhos, assina o posfácio do meu livro, a que chama O último fulgor de Saramago. De facto, são os últimos anos que estão representados no meu livro. As entrevistas a Saramago têm como pretexto os dois últimos livros (as “Pequenas Memórias” e “A Viagem do Elefante”), a entrevista a Pilar del Río aconteceu por altura de “Caim”. Mas estes livros são apenas o ponto de partida para o diálogo; entendo-os sempre como caminhos de onde partimos para chegar a outros lugares, esperados ou não, principais ou secundários. Por exemplo, a entrevista com Pilar ensinou-me muitas coisas sobre o que é crescer no franquismo (como aconteceu no caso dela), além de revelar aspectos importantes de Saramago e da relação que tinham. Esse é o lado bom de uma entrevista: sabemos como começamos, não sabemos onde vamos dar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

«Quando Saramago dizia: "Portugal acabará por integrar-se na Espanha"» de João Céu e Silva - DN (01/12/2019)

"Há 12 anos, o escritor José Saramago recusou ser profeta mas anunciou a "Ibéria" no prazo máximo de meio século. O conflito na Catalunha pode afastar esta hipótese digna de uma sequela do romance A Jangada de Pedra."

"José Saramago na sua casa em Lanzarote, Canárias, Espanha. © Arquivo DN"

"A palavra Espanha, ou o que significa o pedaço de terra que faz fronteira com Portugal, está presente na história das mentalidades do país desde sempre. O desejo de independência também, mesmo que entre os escritores que pensaram esta relação ao longo dos séculos o desejo fosse de haver uma coexistência maior ao nível cultural, opinião que irmanava o escritor espanhol Miguel de Unamuno e o português Miguel Torga, expressa em vários parágrafos dos seus livros, poemas ou mesmo no ensaio do primeiro, intitulado Por Terras de Portugal e Espanha.

Unamuno era um investigador do lado de lá do seu país e estranhava o desejo suicidário de personagens seus colegas, como Camilo Castelo Branco, e de muitos outros portugueses desistentes de viver. Ao contrário, Cervantes viveu em Lisboa um par de anos no século XVI e achava que era na capital portuguesa que as pessoas gozavam bem a vida. E chegamos a José Saramago...

O único Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa olharia até mais de metade da sua vida para Espanha como a maioria dos seus compatriotas e, decerto, aceitava bem o velho ditado "de Espanha nem bom vento nem bom casamento". Mas não morreu com esse pensamento, pois até expressou o desejo de ser enterrado debaixo da oliveira que fora da terra natal, a Azinhaga do Ribatejo, para o jardim da sua biblioteca em Lanzarote. Tal não aconteceu, mesmo que da Azinhaga tenha ido uma oliveira substituta para a praça em frente à Casa dos Bicos, onde foi sepultado, e que esteve para morrer devido ao stress citadino que Lisboa lhe provocou.

Stress foi também o que José Saramago provocou à pátria quando declarou numa entrevista ao Diário de Notícias, a 15 de julho de 2007, o seguinte pensamento: "Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha." Era uma declaração tão inesperada para uns como aguardada por outros. Entre os "outros" estavam todos os que detestavam o escritor pelas suas posições políticas - e outros "defeitos" - e que não aceitavam que um português da sua geração fizesse tal afirmação. Entre os "uns" encontravam-se os que se embriagaram com a União Europeia e viam como aceitável que a Península Ibérica se unisse mais ainda e Portugal se tornasse uma província do país vizinho."

"Capa da edição do Diário de Notícias de 15 de julho de 2007, 
que incluia uma entrevista com a José Saramago. O Nobel criou polémica 
com a sua de ideia de uma ibéria unida com um só país."

"A declaração de Saramago devia-se ao ambiente vivido nesses dias, em que as sedes das multinacionais passaram a estar em Madrid e Espanha apresentava uma normalidade social e um crescimento económico atrativos. Tal como Saramago dizia ao DN, "a vida política nacional não produz melhor gente" e "é uma situação natural" que Espanha vá tomando conta da economia portuguesa; também a sondagem então feita por um jornal mostrava que mais de 40% dos portugueses lhe davam razão e não se incomodavam com uma União Ibérica.

Para Saramago, a União Ibérica, que aconteceria num prazo de 50 anos, não era a de Unamuno ou de Torga: "Culturalmente, não." Antecipava uma "integração territorial, administrativa e estrutural", em que "não deixaríamos de falar português e de escrever na nossa língua". Acrescenta: "Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castela-La Mancha, e teríamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria." Doze anos depois, no entanto, a realidade desmente Saramago e a integração de Portugal numa Ibéria contrasta com a violência dos desejos separatistas da Catalunha. Em 2007, o escritor antevia apenas um problema na unidade espanhola: "A única independência real que se pede é a do País Basco e, mesmo assim, ninguém acredita."

A Ibéria de Saramago foi uma proposta tão surpreendente que no dia seguinte vários jornais estrangeiros deram notícia do que dissera ao DN e na semana que se seguiu o planeta inteiro ouviu ecos: foram reproduzidos nos países nórdicos, na Índia, na América do Sul e até no órgão oficial do Partido Comunista da China. Como as fake news ainda não eram moda - esta pareceria hoje enquadrar-se bem nesse estatuto -, os jornais mais rápidos na resposta à ideia de Saramago foram os espanhóis, os ingleses e os italianos, e todos fizeram uma ou mais páginas a desenvolver o que seria essa "Ibéria" saramaguiana, mais próxima de um argumento para um romance do que de palavras de uma entrevista. A conclusão mais divertida era a de que com os jogadores ibéricos a península seria a maior potência do futebol.

Nem todos apreciaram a proposta de Saramago, a começar pelo governo que pôs o ministro dos Negócios Estrageiros Luís Amado a refutar esse futuro, bem como dezenas de comentadores e até o rei D. Duarte. Saramago não se incomodou, respondendo em nova entrevista ao DN que "quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical". Deu um ponto final com a seguinte resposta: "Não tenho mais nada a comentar. Está tudo na entrevista." E, para surpresa geral, um dia depois casa-se oficialmente com Pilar del Río em Castril (Espanha). Numa outra resposta na segunda entrevista, o escritor não refere o exílio em Espanha como razão para a polémica que deu a volta ao mundo: "Não [sou um exilado político], sou uma pessoa que mudou de bairro, alguém a quem o vizinho do andar de cima incomodava e decidiu ir para outra casa." Nem considera que mudar de país tenha sido uma decisão elaborada: "Houve uma altura em que andámos a tentar encontrar outra casa. Estivemos em Mafra e procurámos pela região e é quando sucede que nasce a ideia de fazer uma casa na ilha de Lanzarote para passar as férias."

O que levou José Saramago a fazer estas declarações sobre Portugal e Espanha? A convivência direta com o país vizinho após ter decidido mudar para Lanzarote de armas e bagagens e fixar-se numa ilha espanhola para sempre. Um país cuja importância e interesse dos seus jornais lhe deram uma exposição mundial - e latino-americana - que em Portugal as eternas intrigas nas redações proibiam; a vida com uma mulher espanhola que o seduziu com o anúncio de um amor tão real como literário e que foi em muito responsável para que a obra do autor chegasse aos corredores da Academia Sueca, e um conflito que começa com a censura de um secretário de Estado da Cultura ao romance Evangelho segundo Jesus Cristo."

"André, o arquiliterário!" via revista Aldeia Brasil (29/11/2019)

"André, o arquiliterário!"
Texto Rejane Martins Pires
Publicado em 29/11/2019
Via Revista Aldeia

Link da publicação em https://revistaaldeia.com.br/materia/1315/andre-o-arquiliterario

"Fundador do movimento Arquiliteratura, cuja proposta une arquitetura e 
literatura numa nova concepção de arte visual, 
André Braga tem convite para expor em Nova York"


"Se José Saramago escrevesse seus livros utilizando a arquitetura como linguagem, como seriam eles? E Anne Frank? E Fernando Pessoa? E Hemingway? Jorge Luis Borges? Parece estranho. Inimaginável. Agora, preste atenção nas fotos que ilustram esta matéria. Um olhar minucioso vai levá-lo à memória recente de alguma leitura. As obras integram o Projeto Arquiliterário do artista plástico André Braga. Numa tradução livre, algo como a arquitetura dos livros.

A autenticidade de seu trabalho tem chamado a atenção de curadores do Brasil e do exterior, inclusive, já tem convite para expor em Nova York no próximo ano, bem como na Bienal Internacional de Veneza e Bienal Internacional da Amazônia. Após conhecer a obra de Braga pelas redes sociais, o marchand brasileiro Louis Ventura, sócio da Saphira & Ventura Gallery, formalizou o pedido via email. 

Estar no mercado internacional significa muito trabalho por aqui. Cada projeto exige a leitura e a releitura de todas as obras do autor. “Eu procuro entender como o autor viveu, qual a relação dele com o mundo e de que maneira eu posso transpor isso para obra”, explica. Além disso, é preciso entrar na história para ser fidedigno ao texto e ao autor. Para isso, conta a ajuda da esposa, a professora de literatura Margarete Nath. 

A própria história deles daria um romance. Mestre em Letras e doutora em Linguística, Margarete conheceu André no Ceebja. Ela professora. Ele, um aluno com histórico de defasagem escolar comum a muitos brasileiros. Da paixão pelos livros, nasceu o afeto e o amor mútuos. Braga formou-se em História e atualmente é funcionário do Instituto Federal de Educação (IFPR). Casados há 11 anos, ambos vivem numa espécie de santuário, num sítio em Rio do Salto. 

É lá, nas horas vagas, que ele entra numa espécie de imersão. O silêncio só é quebrado pelos sons da natureza. A calmaria aparente esconde um turbilhão interior. André não para. Está sempre criando. Pensando em novas possibilidades. Enxergando além. Simples materiais como madeira, papel, metal, cola, barbante, tecido, galhos e outros pequenos objetos se transformam em arquitetura literária.

O leitor
Se você já leu algum livro de Edgar Allan Poe, conseguirá compreender o impacto que este autor teve na vida de André. Ele conheceu Poe aos 13 anos, na biblioteca da escola. Houve ali uma espécie de arrebatamento tão intenso que o menino fugia da sala de aula para ler em casa. Nunca mais parou.

Até mesmo no zoológico, onde trabalhou por alguns anos, concluía suas tarefas e corria para os livros. Toda esta entrega à palavra fez nascer o movimento Arquiliteratura, a união da arquitetura e da literatura como uma nova forma de arte. “É um trabalho muito recente. Há um ano, eu estava tentando criar uma árvore do conhecimento num pé de jabuticaba com o máximo de autores”, conta. Desmembradas da árvore, surgiram as primeiras construções baseadas em Saramago, Fernando Pessoa e Borges, e expostas despretensiosamente no Museu de Arte de Cascavel (MAC). "

terça-feira, 18 de junho de 2019

9 anos

No dia em que se assinalam os nove anos da morte de José Saramago, urge continuar a sua obra e fazer perdurar a memória do homem que foi.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"Saramago, inéditos de Lanzarote" Crónica de Mercedes de Pablos (Crónica Global, Barcelona - 19/11/2018)

"Veinte años después del Nobel, aparece en un disco duro de un ordenador el sexto 'Cuaderno de Lanzarote', que reúne las anotaciones del escritor el año del galardón"


Crónica de Mercedes de Pablos, publicada no "Crónica Global" de Barcelona, 19/11/2018

"Incrédulo impenitente como era, Saramago torcería (levemente, que tampoco era un gesticulador acalorado) el gesto si oyera o leyera alguna relación de su vida y obra con los números o demás sortilegios. Pero el caso es que los números bailan en la vida del Nobel portugués y hay cierta fascinación en su biografía por las horas, los años y sus tiempos. En su casa de Lanzarote (hoy museo visitable y a la vez habitado) los relojes marcan la hora en la que conoció a su mujer y traductora Pilar del Río, las cuatro de la tarde, y esta cifra exacta que son los veinte años ha marcado una efeméride, dos décadas de la concesión del único Nobel en lengua portuguesa, para un hallazgo que más que de chistera mágica emergió de un disco duro y de las frías tripas de un ordenador.

Veinte años exactos después del Nobel, en el viejo ordenador de mesa, que forma parte hoy casi del mobiliario de su biblioteca, Pilar y el escritor y director de la Fundación Cesar Manrique, Fernando Gómez Aguilera, descubrieron que bajo la carpeta Cuadernos además de los ya publicados cinco Cuadernos de Lanzarote (diarios del escritor donde aparecen pensamientos, escritos y confesiones) había silente un sexto, el del año 98. Precisamente el cuaderno del año en que su vida cambió porque su agenda se vio multiplicada por cien mil anotaciones."


"El mismo Saramago en los primeros meses del aquel 1998 dejó dicho y escrito que andaba en esa escritura, pero luego vino el tsunami desde Estocolmo y lo que había sido un anuncio se convirtió apenas en un recuerdo. “Mi palabra ahora es más útil y eso me compromete aún más” dijo en la primavera del 99 cuando alguien le preguntó qué había cambiado de verdad en su vida después del galardón más importante del mundo.

Nada más cierto. Muchas veces se ha dicho que el portugués más que un Nobel de literatura, que lo es y con todos los merecimientos, ejerció de Nobel de la Paz porque no ha habido causa humanitaria ni digna en la que no se haya mojado los pies, las manos y la boca, muy especialmente. No en vano en el discurso de la cena del Nobel (no en el de la Academia sueca, aquella pieza tan bella que Saramago dedicó a su abuelo, el hombre que no sabía leer y del que había aprendido todo y que se nos rescata en este Cuaderno) el escritor habló del cincuenta aniversario de la Declaración Universal de los Derechos Humanos, otra vez un número redondo, otra vez la oportunidad de aprovechar unas fechas para hablar de los valores y de los compromisos. 

Un compromiso que le llevó a viajar por todo el planeta y que, sin embargo, no lo alejó de su literatura. Algunos de los más bellos y rotundos libros fueron escritos después del Nobel: La Caverna, El Hombre Duplicado, Ensayo sobre la Lucidez, Las Intermitencias de la Muerte o ese brillante Caín, que a punto estuvo de convertirse en póstumo. 

Entre una cosa y la otra El Cuaderno del año del Nobel fue olvidándose. Lo olvidó el escritor y lo olvidaron sus editores y su traductora y compañera. A su muerte, hace ahora diez años, de nuevo una cifra redonda, se revisaron manuscritos y apuntes, el mismo Gómez Aguilera, comisario de la muestra La consistencia de los sueños, buscó y rebuscó en papeles y anotaciones. Se publicó una obra de juventud, también los tres capítulos de la novela en la que andaba aun enfermo (Claraboya y Alabardas), se editaron los artículos que diariamente escribía en su blog de la Fundación, bloguero de lujo, bloguero sin pelos en la lengua, bloguero generoso. Pero los cuadernos del 98 no aparecieron porque andaban emboscados en un genérico, andaban travestidos de obra ya conclusa editada y leída, andaban esperando la magia del 20 para que vieran la luz precisamente ahora.

La editorial ha celebrado este azar con la edición de otro libro firmado por Ricardo Viel sobre precisamente el aniversario del Nobel y lo que en esas fechas se vivió, se contó, se escribió. Y Saramago vuelve a estar tremendamente vivo en esas páginas en las que vuelca opiniones y reflexiones con esa punta de acidez y sarcasmo que, curiosamente, le protegían de la ira o del muy hispánico cabreo.

Usa el humor, ese estilete tan elegante, para hablar de su tremendo desencuentro con la derecha gubernamental de su país: por ejemplo, un instituto de Mafra (escenario de Memorial del Convento) propone adoptar su nombre y el ministro Do Santos lo veta: “Odio viejo no cansa: no se cansará su odio pero mi desprecio tampoco”.

O cuando regaña, y casi se le oye sonreír, a sus paisanos que critican el regalo del gobierno español de un cuadro de Felipe II con motivo de la Expo de Lisboa, olvidando que Portugal, en la Expo del 92 de Sevilla, obsequió un lienzo sobre la batalla de Aljubarrota: “El ridículo no es una enfermedad mortal pero aquí en casa parece haberse vuelto incurable”.

El año 98 comienza con Saramago, como escribe el 1 de enero, intentando  salvar un árbol de su jardín de una terrible ventolera nocturna y acaba el 14 de Enero del 99 con el Nobel agachado ignominiosamente en la planta de caballeros de El Corte Ingles de Madrid comprando calcetines. 

Mientras, un año da para muchos artículos, muchas conversaciones, muchas confidencias en ese tono suyo tan escueto y profundo a la vez. Y para alguna contradicción que hace que el lector, que lee desde su presente aquel pasado, se regocije: “Juro por los dioses de todos los cielos y olimpos que nadie tocará Ensayo sobre la ceguera”. Habla el Nobel de una posible versión cinematográfica. Diez años después, en 2008, el escritor se emocionaría con la maravillosa versión (Blindnees) filmada por Fernando Meirelles y protagonizada entre otros por Marck Ruffalo y Julianne Moore. Afortunadamente en este caso y como una rareza en su brutal coherencia el Nobel se desdijo. Porque veinte años no es nada y es todo. Porque hay voces que nacieron para la eternidad."



"José Saramago: um humanista por acaso escritor"


O vídeo está disponível para consulta, via YouTube, aqui

"Filme-homenagem que busca olhar o mundo pelas lentes desassossegadas de josé saramago. documentário que revive o redemoinho de sensações, palavras e lembranças deixadas em quem o sentiu por perto. um humanista, que usou os microfones de um escritor, para gritar sobre o nosso mundo."

"Las confesiones de José Saramago: el cuaderno secreto del escritor" - Miguel Polo "Gentleman El Confidencial" (23/11/2018)



'El Cuaderno del año del Nobel' es un diario inédito que refleja las reflexiones, acontecimientos, anécdotas y apuntes del autor escritos a lo largo de 1998

A crónica de Miguel Polo, publicada no "Gentleman El Confidencial" (23/11/2018) pode ser recuperada e consultada aqui

"En 2001, en el epílogo de 'Los Cuadernos de Lanzarote II', el propio Saramago había anunciado que pronto vería la luz un "sexto cuaderno" que permanecía oculto en su ordenador y narraba "las ideas, los hechos y también las emociones con que el año 1998 me benefició y alguna vez me agredió".

Pero el frenesí de actividades a las que se vio abocado inmediatamente después de la concesión del Premio Nobel, más el hecho de que, justo en esa época, reemplazara su antiguo ordenador por otro que no estuviera tan cargado de asuntos pendientes, desterraron esas palabras tan esperadas al fondo de un disco duro.


Más tarde, cuando Saramago pudo retomar su relación con la escritura, hizo sospechar que tal vez ese misterioso diario, del que nadie había leído ninguna palabra, ya no aparecería.

Pero en febrero de este año, mientras se trabajaba en la recopilación de sus conferencias y discursos, se produjo un hallazgo extraordinario en el pozo sin fondo del disco duro del ordenador reemplazado: un archivo titulado Cuaderno 6. Y allí estaba. Doscientas páginas que, a veces en forma de apuntes sueltos, certeras y precisas reflexiones filosóficas, artículos políticos o literarios y ejemplos de la correspondencia con sus lectores, nos ofrecen una visión única de la vida y el pensamiento del autor.

LOS IMPRESCINDIBLES DE SARAMAGO
Día de los Santos Inocentes de 1998. 17:05 h. De la rampa del fax brota un puñado de hojas. "Apreciado amigo, aquí van las respuestas de José. Dice que se lo ha pasado bomba plantando su árbol genealógico". Lo crean o no, lo impreso era la fotocopia del auténtico libro de familia del maestro y sus 11 apóstoles literarios. Un tesoro perdido que acabo de rescatar. ¿Parece milagro, verdad? Pues aquí lo tienen. Y huele a Saramago que alimenta.

PADRE ANTONIO VIEIRA
Porque nunca el portugués fue más bello que cuando él lo escribió.

MIGUEL DE CERVANTES
Porque sin él España sería como una casa sin tejado.

FRANZ KAFKA
Porque probó que el hombre es un coleóptero.

LUIS DE CAMÕES
Porque todos los caminos de Portugal van a dar a Camões.

MICHEL DE MOINTAIGNE
Porque no necesitó de Freud para saber quien era.

VOLTAIRE
Porque perdió las ilusiones sobre la humanidad y sobrevivió a eso.

RAUL BRANDAO
Porque demostró que no es necesario ser un genio para escribir un libro genial: Humus.

ECA DE QUEIRÓS
Porque enseñó a los portugueses la ironía.

JORGE LUIS BORGES
Porque inventó la literatura virtual.

GOGOL
Porque contempló la vida y la encontró triste.

FERNANDO PESSOA
Porque la puerta por donde se llega a él es la puerta por donde se llega a Portugal."


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

José Carlos Vasconcelos entrevista José Saramago - Programa "Escrever é Lutar" da RTP (17/09/1974)

Programa "Escrever é Lutar"
RTP 17 de Setembro de 1974
José Carlos Vasconcelos entrevista José Saramago naquela que será a primeira aparição na televisão

Seguir o link indicado

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jose-saramago-4/?fbclid=IwAR3L7AZcbJt453OdGufXGiDC25GE1r2v-uCrdYS6kXMSfoSGsrL5tRpFFa4

"Introdução com alguns dados biográficos, nomeadamente o facto de ter publicado dois livros de poemas até ao momento, dois livros de crónicas e um romance; foram, recentemente publicados pela revista "Seara Nova" os textos editorias que o entrevistado terá escrito no "Diário de Lisboa"; Para breve estará na forja um livro de poemas e um outro romance. 03m19: Início da conversa com a eventual ligação da produção literária do entrevistado com a recente Revolução de 25 de Abril de 1974; alusão ao facto de ser director da Associação Portuguesa de Escritores e a sua opinião sobre o papel dos escritores na sociedade actual após o 25 de Abril de 1974; Comentário à censura do Estado Novo da qual foi alvo várias vezes enquanto jornalista."

"Entrevista do jornalista José Carlos Vasconcelos ao escritor José Saramago, sobre a sua vida pessoal, a obra literária, e o momento que se vive em Portugal no pós 25 de abril de 1974.

Nome do Programa: José Saramago
Nome da série: Escrever é Lutar
Locais: Lisboa
Personalidades: José Saramago, José Carlos Vasconcelos
Temas: Artes e Cultura
Canal: RTP 1

Menções de responsabilidade:
Autoria e apresentação: José Carlos Vasconcelos
Tipo de conteúdo: Programa
Cor: Preto e Branco
Som: Mono
Relação do aspeto: 4:3"

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

José Saramago, nascido neste dia no ano de 1922



"Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922, se bem que o registo oficial mencione como data de nascimento o dia 18. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele não havia ainda completado dois anos. A maior parte da sua vida decorreu, portanto, na capital, embora até aos primeiros anos da idade adulta fossem numerosas, e por vezes prolongadas, as suas estadas na aldeia natal.

Fez estudos secundários (liceais e técnicos) que, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir. O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance,  Terra do Pecado, em 1947, tendo estado depois largo tempo sem publicar (até 1966). Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na revista  Seara Nova. Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa, onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante cerca de um ano, o suplemento cultural daquele vespertino.

Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do jornal  Diário de Notícias. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Casou com Pilar del Río em 1988 e em Fevereiro de 1993 decidiu repartir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias (Espanha). Em 1998 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura."

Biografia de José Saramago, publicada na página da Fundação José Saramago