Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 15 de abril de 2020

"O despertar da palavra" por Horácio Costa na revista Cult (Brasil 14.11.1998)

O presente trabalho pode ser recuperado e consultado aqui
em https://revistacult.uol.com.br/home/o-despertar-da-palavra/




A entrevista que segue teve lugar em fevereiro passado, em Madri. O Instituto do México, na Espanha, organizou, no primeiro trimestre deste ano, um ciclo de conferências: Portugal desde México. A diretora do Instituto, Luz del Amo, que tivera a idéia de organizar o ciclo algo inédito, ou pelo menos pouco usual no mundo hispânico, onde via de regra Portugal, ainda mais do que o Brasil, sofre de uma espécie singular de obnubilação programada , tinha-me pedido que convidasse Saramago; ele aceitou, sem cobrar cachê. Pediu para ficar no mesmo hotel de sempre (o Suécia), a trezentos metros do Prado. Não é o primeiro favor que me faz e espero que não seja o último. Já anteriormente me brindara com muitas informações e respondera às muitíssimas questões que lhe apresentei, enquanto escrevia minha tese para Yale, José Saramago, o período formativo. A presente entrevista, portanto, não é, latu sensu, a primeira que me deu.

Há catorze anos, quando completei trinta, recebi de presente de minha amiga e ex-professora Renina Katz, uma leitora inveterada, o romance Memorial do convento. O entusiasmo com o qual Renina me recomendou a leitura, uma vez feita e já de volta aos Estados Unidos, transferi para Emir Rodríguez-Monegal. Naqueles meses, eu andava atrás de um tema de tese; numa tarde do verão de 1985, a caminho do teatro em Hartford, pude conversar longamente sobre Saramago com Emir, que recentemente estivera com ele durante um congresso de escritores, e que seria o meu orientador, se tudo desse certo (não deu: a Monegal sobravam poucos meses de vida).

Por meu lado, perguntava-lhe como era o homem em pessoa; pelo seu, e muito menos afoitamente, Emir me interrogava sobre a radicação de Saramago na literatura portuguesa contemporânea. Não é necessário dizer que ele soube responder às minhas perguntas, traçando-me o perfil de um cavalheiro lusitano de humor mordente, de viés irônico, que Emir comparava ao de Borges, a quem tinha conhecido tão bem; entretanto, à medida que o crítico uruguaio aumentava em agudeza as suas questões, crescentemente eu me dava conta do pouquíssimo que sabia, e que de fato era então conhecido, sobre o autor português. Eu já me dedicara, em Yale, a pesquisar sobre esse escritor que me chegara às mãos sem nenhum antecedente; ainda que a Biblioteca Sterling seja uma das maiores e melhores do mundo, eu me decepcionara com o pouco que nela havia sobre Saramago.

O que tínhamos em mãos era apenas o Memorial. Portanto, qualquer consideração crítica que podíamos fazer se limitava ao tipo de escritura que Saramago nele adotava. Diante dela, e assumindo como base o realismo maravilhoso em versão hispano-americana, concluímos que a qualidade do imaginário de Saramago dele diferia em um ponto básico: estava prenhe de lirismo e escapava dos padrões de alegorização mais óbvios e tão freqüentes neste. Havia pontos evidentes de contato para começar, o fascínio pelo barroco, que na narração reverberava temática e linguisticamente , mas o tônus geral do relato não apontava para as terras americanas.

Anos mais tarde, em Portugal, pesquisando sobre o Memorial, terminei por assegurar-me disto: se muito da postura de um Carpentier ou de um García Márquez se fazia notar (principalmente, no nível do anedótico, na pesquisa de fontes da época e por aí), a base era diferente. A velha cultura portuguesa, às vezes excepcional quando representada por um Fernão Lopes, um Camões ou um Vieira , mas frequentemente marginal à Europa dos grandes debates, ainda que muitas vezes ironizada pelo escritor, se impunha com uma clareza meridiana. Aí estava, e está, o quid de Saramago. Não só de estilemas individualizadores vive um grande escritor: nunca é demais lembrá-lo, ele ou ela via de regra (há exceções) pisam o terreno conhecido que lhe dá a sua própria cultura, a sua própria língua. Naquela tarde, disse a Emir que eu pesquisaria mais sobre o romancista e que, em função do que encontrasse, talvez escolhesse a sua obra como objeto da minha tese de doutorado. À época, muito pouca gente entendeu que eu escolhesse Saramago, então um escritor com alguma bagagem (o melhor viria depois), e menos ainda que me dedicasse a sua obra menor. Optei por estudar o período de formação do escritor por duas razões: primeiro, por jamais ter ele recebido atenção crítica (uma importante estudiosa italiana da literatura portuguesa não há muito me dizia que Saramago tinha nascido feito, assim como se um Gulliver qualquer); segundo, porque estudar um período não canonizável de um escritor em vias de canonização (agora já plena, depois do Nobel) pode colocar uma série de questões críticas de interesse, entre elas a de discutir como o cânone funciona para canonizar os seus eleitos, como a crítica procede para eleger os seus objetos de estudo.

Se Saramago, ao longo de suas décadas de experimentação ou deriva entre vários gêneros literários, apresentou uma notável distância, ou mesmo, defasagem, perante as estéticas dominantes à época no contexto português (apesar da dicção neorealista fundamental em sua produção política, afinada com uma vertente da poesia portuguesa dos anos 40 e 50 porém usada por ele vinte anos depois!), um discurso crítico que procurasse acercar essa obra de exceção (frente aos modismos, às oposições quase sempre conjunturais que caracterizam o processo literário) teria que, de alguma maneira, sê-lo também, abandonando as interpretações mais circunstanciais de análise. Ir até uma obra que se divide entre fraca e forte, ignorada e estudada (e in e out , boa e ruim), foi o que eu tentei, centrando sempre as minhas interpretações no sinuoso processo de trabalho de José Saramago, antes que em seu melhor resultado, aparentemente para sempre canonizado.

A entrevista que segue constantemente refere-se a essa injunção e a essa preferência crítica minha. Pensei que valesse a pena alertar o leitor sobre a razão das perguntas que nela fiz. Agora, definir o que possam as respostas a elas esclarecê-lo sobre a obra e o indivíduo José Saramago é coisa sua.

Horácio Costa – Eu queria que você dissesse o que ficou da experiência dos gêneros que você praticou ao longo de várias décadas crônica, poesia, ensaio, teatro antes da publicação do Manual de pintura e caligrafia. Por que você acha que demorou vinte anos para escrever um segundo romance? Há um primeiro, uma tentativa pouco madura nos anos 40, mas a sua primeira obra em prosa de ficção sólida é esse Manual.

José Saramago- Em primeiro lugar, quando se pergunta o que ficou de uma obra, que supostamente pertence a um tempo passado, pressupõe-se uma dúvida, se alguma coisa terá ficado. Porque, se não existisse essa dúvida, então a pergunta não teria sentido. Quando se começa a escrever muito jovem, corre-se o risco e, afinal, isso me aconteceu, porque aos 25 anos publiquei um romance. Romance que ficou por aí, que foi reeditado apenas em 1997 porque o editor achou que se o romance fazia 50 anos, desde a primeira publicação, tinha que ser novamente publicado e então temos uma edição nova de um romance que se chama, perdoem, Terra do pecado. Eu não tenho culpa de o romance ter esse título, a culpa é do editor. O romance se chamava A viúva. Um jovem de 25 anos, que era o que eu tinha, não sabia muito de pecados, e menos de viúvas… Mas eu percebi que não tinha tanta coisa para dizer, nada importante. E me calei, me calei por vinte anos praticamente.

Isso não é verdade, porque escrevi um outro romance que se chama Clarabóia, que permaneceu inédito e, esse sim, permanecerá inédito. Não o destruí porque não devo destruir as coisas que faço; se não posso destruir todas, por que vou destruir algumas? Se eu pudesse apagar todas as coisas ruins e agora não estou falando do livro, estou falando de coisas ruins que a gente faz na vida , eu as apagaria. Mas como Terra do pecado, apesar de tudo, não é a pior coisa que eu fiz na vida, então que fique aí; e Clarabóia ficará, mas com a condição de não ser publicado enquanto eu viver.

Até 1966, quando eu tinha 44 anos, não escrevi nada. Salvo no período imediatamente anterior a 1966, que foi quando escrevi um livro de poesia chamado Os poemas possíveis. E por que eu o escrevi? Bom, a resposta é sempre a mesma, ou quase sempre: porque me apaixonei. E eu já havia feito uns quantos sonetos e coisas assim no tempo que fazíamos sonetos, aos dezoito anos. Acho que os jovens de hoje já não sabem o que é escrever sonetos e as meninas não têm a felicidade de receber um soneto dos garotos. Isso acabou, que pena! Bom, então eu me apaixonei nessa época e daí saiu o livro. Confesso que, quatro anos depois, me apaixonei de novo e saiu outro livro de poemas que se chama. Provavelmente alegria. E então acabou-se a história de publicar pelo fato de me apaixonar [risos].

A partir de 1966, por circunstâncias da vida, me encontrei mais próximo do mundo literário porque trabalhava numa editora desde os anos 50 e durante quase 15 anos. Eu tive uma vida que não tinha nada a ver com a literatura. Eu fui várias coisas na vida: trabalhei numa oficina mecânica, fui desenhista, funcionário da saúde pública, depois não sei o quê, depois editor, e era assim. Então, eu não me preparei para ser escritor. Sou escritor por um acaso. E que acaso é esse? É que chegou um momento em que eu, além de me apaixonar e por isso pôr sobre a mesa livros de poesia, comecei a colaborar em jornais, escrevendo crônicas. De 1966 até 1977, houve onze anos de publicação: publiquei três livros de poesia e o terceiro não tem nada a ver com minhas paixões, crônicas, ensaios políticos, que no fundo eram editoriais de jornal, de um jornal que já não existe, chamado Diário de Notícias, e acho que tudo começa aí. Quando, em novembro de 1975, ocorreu a contra-revolução, o que se chamava o processo contra-revolucionário e talvez algumas pessoas não estejam de acordo com a qualificação ou com a classificação , eu fiquei na rua, sem emprego, sem salário, sem trabalho e sem possibilidade de encontrar outro facilmente, porque o jornal estava com a revolução.

Aí eu tomei a decisão definitiva da minha vida, que era a de não procurar trabalho, e me dizia: você tem sete ou oito livros escritos, que são dignos, sérios, honestos, mas por aí você não vai chegar a lugar nenhum. Se você está pensando na história da literatura, então, resigne-se a que digam (se disserem) que o senhor fulano nasceu nessa data, morreu numa outra, publicou alguns livros e ponto. Uma linha, duas linhas e nada mais. Não que eu aspirasse a um capítulo completo da história da literatura, não é isso. A decisão de não procurar trabalho era enfrentar essa idéia de que, talvez, eu seria um escritor, mas faltava uma prova, porque aqueles livros não eram na minha opinião suficientes para tal. Isso foi o que depois levou a toda essa série de livros, romances, obras de teatro, diários que caracterizam esses últimos 20 anos. Isso é o que me leva a dizer que eu sou um jovem escritor, que eu sou um velho escritor da nova geração porque a verdade é que eu estou escrevendo obras mais sólidas não há cinqüenta, mas há vinte anos; portanto, supondo que se começa, talvez, a escrever e publicar aos 20, 23 anos, então, agora, literariamente, eu não tenho mais do que 45 anos. Sou um menino… [risos]

O que ficou do que ficou para trás? Eu diria que ficou tudo. E ficou tudo em que sentido? Eu muitas vezes digo que se alguém quiser entender bem o que eu estou dizendo nos romances que estou escrevendo é preciso ir às crônicas que escrevi nos jornais e que estão em dois livros: Deste mundo e do outro e A bagagem do viajante. Quase todos os temas que estão agora nos romances, certos pontos de vista, visão de mundo, obsessões e preocupações de ordem não apenas literária, preocupações de ordem política, de ordem civil, tudo isso se encontra nesses pequenos textos publicados em jornais, e quem se interesse pelo que eu faço além dos romances que têm maior reputação, dos quais se fala, que saem na crítica, que estão nas livrarias e tudo isso tem que ir a esses pequenos textos porque eu mesmo, quando por algum motivo tenho que voltar a esses textos, me reencontro.

Nessas crônicas há muito de ficção, e sobretudo há o trabalho sobre a memória, a memória da infância, da adolescência, a memória dos adultos, dos avós, das coisas vistas e esse, se eu chegar a escrevê-lo, será o conteúdo de um livro que já tem título, mas que ainda não está escrito e que se chamará O livro das tentações. Já estou me antecipando, mas uma coisa chama a outra. É uma autobiografia minha. Eu sou tão vaidoso que inclusive vou escrever a minha biografia. Mas é uma autobiografia um pouco estranha, porque termina aos catorze anos de idade. O que eu quero fazer é isso, recordar o menino que eu fui. Tentar saber quem era esse menino. Porque a verdade é que nós pensamos que toda a nossa vida está aí para que nos tornemos adultos. E, quando somos adultos, nos comportamos como se olhássemos para nós como algo que saiu do estado de crisálida, imaginando que a infância e a primeira adolescência é a crisálida, e que depois da crisálida saiu o inseto adulto com todo o seu esplendor, as suas cores, com toda a sua beleza. Nos casos em que têm esplendor e que são belos, claro; há insetos que deveriam ter ficado na crisálida e não sair.

Eu não penso assim. Para dar-lhes uma ideia do que eu penso nesse sentido: não sei se o meu leitor percebeu que eu ponho sempre epígrafes; a epígrafe de Todos os nomes, para falar do último romance publicado, é Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens, é uma citação de um livro chamado Livro das evidências, que não existe, como em outro romance, História do cerco de Lisboa, há uma outra epígrafe que foi tirada do Livro dos conselhos, que também não existe. E isso é um pouco borgeano, e se isso continuar, não terei mais remédio do que escrever o Livro das evidências e o Livro dos conselhos. E, então, a epígrafe que terá o Livro das tentações e com isso, acho que terei explicado tudo o que tentei explicar até agora é a seguinte: Deixa-te levar pelo menino que foste. Porque, na verdade, de nada eu gostaria mais ou de poucas coisas eu gostaria tanto do que poder passear pela rua, não levando pela mão o menino que fui, mas sendo levado pela mão desse menino. Se eu pudesse recuperá-lo, tê-lo agora mesmo, quanto eu gostaria. Vocês podem pensar: mas que ideia estranha essa, você é ele e ele é você. Não, eu sou ele, mas ele não sou eu. Um deles não conhece o outro; e o fato de que um deles não conheça o outro me perturba. E por isso eu digo: deixa-te levar pelo menino que foste. Talvez o menino, supondo que os meninos não são maus alguns são péssimos, claro , fosse capaz de, na hora que vamos fazer uma coisa errada, de puxar pela nossa roupa e dizer: não faça isso.

Há uma continuidade de pensamento e inclusive uma continuidade de sensibilidade no que estou fazendo agora e que vêm dos textos mais antigos. Como os textos não nascem do nada, nascem de alguém que está vivendo, mesmo que não esteja escrevendo, então tudo é uma relação que vai pelo interior da vida e que une tudo a tudo. O que eu posso dizer, claro, é que há algumas coisas que fiz antes e que, se eu as fizesse agora, tentaria fazê-las melhor. Mas não se trata aqui de mais qualidade literária ou de menos qualidade literária, trata-se do que se está dizendo aqui.

A forma como se desenvolve sua carreira é bastante atípica, especialmente em relação ao que cada vez mais acontece no mundo literário, afetado por uma série de problemas externos, a questão do mercado, os prêmios literários etc… Num texto crítico dos anos 60, parte das suas colaborações para a Seara Nova, você escreveu: A literatura não é uma carreira. Aquele momento era especialmente significativo, porque então você era conhecido em Portugal como poeta. Você estava publicando o seu segundo livro de poesia, ou prestes a publicá-lo, e entrava na literatura ou na vida cultural lisboeta por meio da atividade poética. E você começa a escrever essas notas críticas numa publicação importante da literatura portuguesa contemporânea, a Seara Nova. Então, eu gostaria de que você desenvolvesse essa ideia de autor, naquele momento biologicamente já não muito jovem, nos anos 60, que tem consciência de que a literatura não é uma carreira; e como você vê isso agora, não só com relação ao mundo contemporâneo, mas também à luz da sua produção posterior.

Quando me convidaram para fazer crítica nessa revista, eu só havia publicado esse livro de poesia chamado Os poemas possíveis. Inclusive impus uma condição, a de que não faria crítica de livros de poesia. Porque me parecia que isso não teria muito sentido para mim, um jovem poeta, com apenas um livro, e que não era Rimbaud nem Fernando Pessoa. Pode-se perguntar: você não quis fazer crítica sobre livro de poesia, mas estava disposto a fazer sobre romances? Sim, do ponto de vista do leitor, como se eu fosse um leitor, já que no fundo o crítico é um leitor. No entanto, é um leitor que tem o direito de publicar a sua opinião. Essa é, suponho, a diferença mais visível que há entre um e outro.

E é verdade que numa dessas críticas eu escrevi que a literatura não é uma carreira. Depois de 30 anos, e com tudo o que aconteceu na minha vida, parece que há uma contradição entre a minha vida e essa afirmação, porque eu vivo do que escrevo. Mas não tenho os tipos de obrigações de um trabalho, não tenho ações, não tenho bens, não tenho nada senão o que pode ser posto sobre a mesa, o que escrevo. Eu nunca me lancei a isso que chamamos uma carreira de escritor. Entendo que uma pessoa se lance a uma carreira de advogado, médico, engenheiro ou algo parecido porque isso significa que se preparou para exercer uma atividade profissional e, portanto, está nisso e vai trabalhar nisso. Os médicos precisam de doentes, mas estão certos de que doentes sempre existirão, não? E, portanto, estão certos de que podem abrir o seu consultório para recebê-los. Esses, sim, podem falar de uma carreira.

De repente, amanhã pode ser que eu não tenha nenhuma ideia para um livro e se isso acontecer eu deixarei de escrever. E o fato de que eu esteja vivendo da literatura, porque é verdade, não significa que eu não escreva nada de que eu necessite escrever como homem. Isto é, eu não posso viver sendo duas pessoas em uma a pessoa corrente e normal, que, afinal, sou, e uma entidade, um pouco estranha, que se chama escritor. Esses dois não vivem lado a lado, são um apenas, estão fundidos um no outro. E se o homem não tem nada para dizer como homem, também não terá nada para dizer como escritor. Se isso acontecer, e eu já disse isso, me calarei. E poderia ter acontecido de eu me calar depois do Memorial do convento, do Ano da morte de Ricardo Reis, da História do cerco de Lisboa, ou do Evangelho segundo Jesus Cristo. Poderia não ter tido mais nenhuma ideia, e fim. E é verdade que, cada vez que eu termino um romance, não tenho nenhuma outra ideia e fico esperando para ver o que acontece. Pode levar um mês, dois, três, seis meses, até me ocorrer uma ideia. Eu acho que os que me leem perceberam que os meus livros não se repetem. Eles percebem que o autor é este pela forma de narrar, pelas preocupações que expressa, mas cada livro contém alguma coisa que aí se acaba. E isso tudo é o contrário do que se necessitaria para uma carreira. Para uma carreira, o conveniente seria explorar os filões encontrados para que ela pudesse se desenvolver, não? Mas eu fico assim, sem enredo, esperando para ver o que acontece.

Você disse que não teve uma educação formal em literatura, que foi um leitor. Mas eu lhe peço que comente a importância que tiveram a atividade crítica que você exerceu e a atividade de tradutor nesse período de formação, de autoaprendizagem.

É preciso dizer algo que ainda não foi dito e que deve ser considerado. Se eu, aos 20 e poucos anos, escrevi um romance, foi porque alguma coisa eu tinha lido. E tinha lido muitíssimo. Onde? Nas bibliotecas públicas. Entre 16 e 22 anos, eu fui um leitor noturno, porque tinha que trabalhar de dia, ia a uma biblioteca pública de uma cidade pequena e lia tudo o que encontrava. Às vezes, não entendia nada, ou quase nada, de alguns livros que lia; não tinha ninguém que me dissesse: esse agora não convém, é melhor que você leia esse outro. Mas, de qualquer modo, com todos disparates, erros e incompreensões, creio que pude ler uma gama bastante ampla de autores. Eu diria que Terra do pecado, por um lado, funcionou como uma sedimentação de leituras; pode-se dizer que não há nada de original ali, mas, se não somos Rimbaud, o que entendemos por original aos 20 e poucos anos?

Você pergunta se o fato de fazer traduções influiu em alguma coisa. Não, em nada, nada, nada… É muito diferente sentar-se para traduzir uma obra pelo desejo de traduzi-la, por vontade própria e, então, desfrutar do trabalho de tradução, buscando as funções mais adequadas e tudo isso… Mas eu não traduzi por gosto, por prazer; eu traduzi para ganhar a vida e traduzi de tudo: livros de política, de economia, de arte, romances, coisas tontas como uns livros de um senhor chamado Jivkov, que era búlgaro, secretário-geral do Partido Comunista da Bulgária e ao mesmo tempo presidente, e eu tive que traduzir coisas dessas. Com isso não aprendi nada. Mas claro que há outro tipo de aprendizagem. Quando tive que traduzir Bonnard, aprendi muito. Mas não aprendi a escrever e acho que quem tem que traduzir nas mesmas condições e circunstâncias que eu corre o risco de ter a sua escrita prejudicada pela variedade de estilos, de modos de narrar dos diferentes autores que tem que traduzir.

Então, posso dizer que não aprendi nada. Agora, acho que aprendi a escrever porque li muito. Sempre li muito, desde menino, desde adolescente, ia à biblioteca pública para ler, para ler e nada mais, e no dia seguinte tinha que me levantar cedíssimo para ir à oficina onde estava trabalhando. Não estou idealizando a minha vida, não estou fazendo romantismo barato e falso, estou falando de fatos e nada mais; sem cair na tentação de exagerar para uma vida extraordinária, senão o contrário. Eu comecei por esse romance, depois a poesia, depois a crônica, depois fiz um pouco de teatro. Mas o teatro não foi por uma iniciativa minha. Eu tenho quatro obras de teatro, todas elas foram representadas, e aparentemente eu poderia dizer: sou dramaturgo. Não, não sou, eu não me vejo como dramaturgo. Romancista, sim; mas depois de todas essas experiências e de tudo isso. Mas talvez o romancista que sou deva algo a uma circunstância que a que ver com uma obra da qual não se fala muito, e é uma pena que não se fale muito dela, que é esse romance que publiquei em 1980 e que se chama Levantado do chão. Em 1975, como disse, fiquei sem trabalho. Em 1976, eu estava no Alentejo, no sul de Portugal. Eu venho de uma família de camponeses pobres, sem terra, do norte de Lisboa, a uns 100 km, mais precisamente do nordeste; e, nessas alturas, quando eu estava com essas dúvida o que vou fazer da minha vida? escrevo, não escrevo? como? o quê? para quem? e com que meios? , veio-me a ideia de escrever algo sobre a minha gente avós, pais , que viveu no campo nas condições que os mais velhos aqui podem imaginar, se viveram no campo há 40, 50, 60, 70, 100 anos: saberão o que é isso. E eu soube, não muito profundamente, mas, de qualquer forma, soube. O estranho é que eu deveria ir diretamente aos meus lugares, à minha cidade, e ficar ali, mas, talvez porque eu conhecesse muito bem tudo isso, não queria escrever sobre isso. Então, fui ao Alentejo em 1976 e fiquei lá dois meses, falando com as pessoas, indo ao campo onde trabalhavam, comendo com eles, dormindo com eles. E voltei, depois, por mais algumas semanas. Portanto, juntei um quantidade de idéias, informações, histórias e tudo isso. E esse livro foi escrito em 1979 e publicado em 1980. Quer dizer, foram precisos três anos para que eu pudesse escrever esse romance.

Na verdade, durante esse tempo escrevi um livro de relatos curtos, Objeto quase, e publiquei o Manual de pintura e caligrafia. Portanto, estive fazendo algumas coisas. Mas não estava fazendo o que tinha de fazer agora sei disso, mas naquela época eu não sabia. Porque eu não sabia de uma coisa, muito mais importante do que às vezes se imagina: eu tinha uma história para contar, a história dessa gente, de três gerações de uma família de camponeses do Alentejo, com tudo: a fome, o desemprego, o latifúndio, a polícia, a igreja, tudo. Mas me faltava alguma coisa, me faltava saber como contar isso. Então eu descobri que o como tem tanta importância quanto o quê. Não se pode contar como se não há o que contar, mas pode acontecer de você ter o que e ficar paralisado porque não tem o como. O tema que eu tinha estava claríssimo, era um romance neo-realista, bastavam camponeses, fome, desemprego, luta, tudo isso. E modelos do romance neo-realista português, nós os temos, e grandes romances. Portanto, o molde eu já tinha e só precisava colocar nele a minha própria matéria e, então, já teria o romance. Mas, não, algo dentro de mim dizia: não, não e não; enquanto você não encontrar a sua própria forma, não poderá escrever. Claro que isso eu estou dizendo agora, com certeza vocês não estarão imaginando que naquela época eu conversasse dessa forma comigo mesmo: não, eu não conversava. Mas eu tinha uma barreira que me impedia de ir adiante. Quando eu voltava ao Alentejo e encontrava os amigos que eu tinha feito lá, gente de uma qualidade humana impressionante, eles me perguntavam: e o romance, quando você vai publicá-lo? Eu dizia: é que estou ocupado agora com outros assuntos e tal. Não, na verdade eu estava em pânico [risos]. Em pânico porque eu não tinha o como. Até que, em desespero de causa, pensei: isso não pode ficar assim e tenho de começar a escrever esse romance e comecei a escrevê-lo como um romance normalzinho. E quando eu digo romance normalzinho, e há grandíssimos romances normaizinhos, não estou dizendo nada contra, ao contrário: surpreende-me que numa forma quase canônica possam ser escritos romances magníficos, sem rupturas… Claro que há outros romances magníficos que o são por vários motivos, entre eles porque romperam com convenções e com tudo isso. E comecei a escrever com cada coisa no seu lugar: roteiro e tal… Mas eu não estava gostando nada do que estava fazendo.

Então, o que aconteceu? Na altura da página 24, 25, estava indo bem e por isso eu não estava gostando. E sem perceber, sem parar para pensar, comecei a escrever como todos os meus leitores hoje sabem que eu escrevo: sem pontuação. Sem nenhuma, sem essa parafernália de todos os sinais, de todos os sinais que vamos pondo aí. O que aconteceu? Não sei explicar. Ou, então, tenho uma explicação: se eu estivesse escrevendo um romance urbano, um romance com um tema qualquer de Lisboa, com personagens de Lisboa, isso não aconteceria. E tenho certeza de que hoje estaria escrevendo esses romances como todo mundo talvez bons, talvez não tão bons, mas estaria acatando respeitosamente toda a convenção do que se chama escritura. Mas alguma coisa aconteceu aí: eu havia estado com essa gente, ouvindo, escutando-os, estavam contando-me as suas vidas, o que tinha acontecido com eles. Então, eu acho que isso aconteceu porque, sem que eu percebesse, é como se, na hora de escrever, eu subitamente me encontrasse no lugar deles, só que agora narrando a eles o que eles me haviam narrado. Eu estava devolvendo pelo mesmo processo, pela oralidade, o que, pela oralidade, eu havia recebido deles. A minha maneira tão peculiar de narrar, se tiver uma raiz, penso que está aqui. Não estou certo de que seja a única, mas com certeza, essa conta. Quando esse romance foi publicado em Portugal, houve um reboliço porque as pessoas não entendiam nada, inclusive um amigo meu me chamou para dizer: olha, eu sou seu amigo, mas a verdade é que leio três páginas e me perco, eu não entendo o que você diz. E eu disse: você tem em casa um corredor comprido, não? Pois então, acenda a luz à noite e comece a andar de um lado para o outro no corredor, lendo em voz alta. Se você ler em voz alta, vai ver o que acontece. Da mesma forma que, quando nos comunicamos oralmente, não necessitamos nem de travessões, nem de pontinhos, nem nada do que parece necessário usar quando escrevemos, pois então, você, como leitor, colocará aí, não o que falta, porque não falta nada… A palavra

terça-feira, 14 de abril de 2020

Programa "Falatório" do Canal 2 da RTP - 12/12/1996

Disponível através do site da RTP em duas partes

"Primeira parte do programa apresentado por Clara Ferreira Alves, sobre escritores e literatura, os romances e as adaptações para cinema, teatro ou ópera, com a participação dos seguintes convidados: Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Luísa Costa Gomes e Miguel Esteves Cardoso."









Nome do Programa: Escritores
Nome da série: Falatório
Locais: Lisboa
Personalidades: Clara Ferreira Alves, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Luísa Costa Gomes, Miguel Esteves Cardoso
Temas: Artes e Cultura, Sociedade
Canal: RTP 2
Menções de responsabilidade:
Autoria: Clara Ferreira Alves e Nuno Artur Silva Produção: Maria Otília Ribeiro Realização: Carlos Barradas

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Manchete do DN - 12 de Abril de 1975

Pode ser recuperado e consultado via site do DN, aqui
em https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-abr-2020/o-pacto-mfa-partidos-12060280.html

"Aconteceu em 1975 - O pacto MFA-partidos
PS, PPD, PCP, CDS, FSP e MDP/CDE estiveram em Belém 
para assinar o acordo que abriria o "verão quente".

Edição de 12 de Abril de 1975

"No Palácio de Belém é assinada a Plataforma de Acordo Constitucional, mais conhecida por pacto MFA-partidos. O Presidente da República, Costa Gomes, falou perante os dirigentes dos maiores partidos - PS, PPD, PCP, CDS, FSP e MDP/CDE -, que compareceram à cerimónia. "Largos estratos do nosso povo não sentiram ainda a força criadora do uso das liberdades democráticas", é a frase do Presidente que a direção do DN - Luís de Barros e José Saramago - escolheu para a manchete do dia 12.

O objetivo do pacto foi o de "estabelecer uma plataforma política comum, que possibilite a continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante que permita levar a cabo, em liberdade, mas sem lutas partidárias estéreis e desagregadoras, um projeto comum de reconstrução nacional".

O documento previa um "período de transição" de três a cinco anos, durante o qual o Conselho da Revolução e a Assembleia do MFA se manteriam como órgãos de soberania. Caber-lhes-ia defender as "conquistas legitimamente obtidas ao longo do processo, bem como os desenvolvimentos ao programa impostos pela dinâmica revolucionária que, aberta e irreversivelmente, empenhou o País na via original para um Socialismo Português".

sexta-feira, 10 de abril de 2020

José Saramago no programa do Jô Soares



Nunca é demais recordar a entrevista de José Saramago no programa de Jô Soares. Isto por altura do lançamento de A Caverna, pela Companhia das Letras no Brasil


Pode ser recuperado e visualizado via YouTube, aqui

terça-feira, 7 de abril de 2020

"Saramago: a personagem como mestre" do Professor Carlos Reis publicado no seu blog "Figuras da Ficção" (04/04/2020)

O presente trabalho pode ser consultado e acompanhado aqui

"Saramago: a personagem como mestre" do Professor Carlos Reis 
publicado no seu blog "Figuras da Ficção" (04/04/2020)

"O “material socialmente tido por histórico” a que alude o narrador d’A viagem do elefante projeta-se sobretudo em personagens – e José Saramago, com licença pela banalidade da afirmação, foi um grande criador de personagens. Menos evidente, mas também irrefutável: no universo ficcional saramaguiano convivem personagens de natureza, de configuração e de condição muito diversas. Na multidão de figuras que povoam aquele universo distingo, então, figuras provindas da História, outras com origem mítico-bíblica, personagens sem referência extraficcional conhecida (ou nativas na ficção), animais diversos (sobretudo cães) e mesmo, pelo menos, uma personagem alegórica stricto sensu (a morte n’As intermitências da morte).

Foto: Pedro Soares

Inevitavelmente, José Saramago problematizou a personagem, a sua génese e a sua relação com o romancista que as criou e com alguns dos narradores que falam delas. Primeira abordagem: a personagem sai da cabeça do escritor: “Nenhuma personagem minha é inspirada por pessoas reais. Em caso nenhum” (C. Reis, Diálogos com José Saramago, p. 137). A firmeza da asserção dá que pensar, sobretudo quando temos presente a longa tradição de construção mimética da personagem, em especial no romance de costumes oitocentista e numa subcategoria – presente na ficção de Saramago, para que conste – a que chamamos tipo social. O vigor daquelas palavras obriga o escritor a recuar: afinal, há personagens com origem na vida real (Marcenda foi vista num restaurante, confessa Saramago; cf. Diálogos com José Saramago, p. 138) e outras (D. João V, por exemplo) vêm da História.

Outra coisa e mais pertinente, a meu ver, é atribuir à personagem uma dinâmica própria: “As minhas personagens nascem em cada momento, são impelidas pela necessidade e não são cópias, não são versões” (Diálogos com José Saramago, p. 138), declara José Saramago. Daqui à questão da autonomia e da sobrevida da personagem vai uma linha que não é reta, mas que lá conduz. Uma etapa desse trajeto cumpre-se na História do cerco de Lisboa, quando Maria Sara questiona Raimundo Silva acerca das “pessoas de livro” que o revisor de imprensa está a compor, sem saber ainda se elas são personagens, na plena aceção do termo: “Quem é esta Ouroana, este Mogueime quem é, estavam os nomes, e pouco mais, como sabíamos. Raimundo Silva deu dois passos breves na direção da mesa, parou, Ainda não sei bem, disse, e calou-se, afinal deveria ter adivinhado, as primeiras palavras de Maria Sara teriam de ser para indagar quem eles eram, estes, aqueles, outros quaisquer, em suma, nós. Maria Sara pareceu contentar-se com a resposta, tinha experiência suficiente de leitora para saber que o autor só conhece das personagens o que elas foram, mesmo assim não tudo, e pouquíssimo do que virão a ser (História do cerco de Lisboa, ed. Caminho, pp. 263-264).

Não é, evidentemente, de José Saramago a voz que aqui escutamos, nem mesmo a do narrador por ele instituído. E contudo, do diálogo entre o escritor incipiente e em aprendizagem (Raimundo Silva, claro) e a sua leitora de circunstância emerge um princípio de doutrina: o escritor não sabe tudo sobre as suas personagens e o futuro que elas hão de viver é incerto. Um futuro que se desenrola dentro e fora da ficção (ou durante e depois dela, se se preferir), porque a personagem pode sobreviver ao ficcionista, de modo às vezes bem singular.

Curiosamente, colocando-se perante esta questão, José Saramago resiste, mas depois transige. Resiste a aceitar a autonomia da personagem, mas acaba por reconhecer a sua capacidade de autodeterminação. De forma mais explícita: por um lado, “as personagens não são autónomas” (Diálogos com José Saramago, p. 140), mas por outro lado reconhece-se o dinamismo das figuras que interagem com a história e com quem a rege: “É a história que necessita que aquela personagem se determine desta ou daquela forma” (ibid. p. 140). Se Maria Sara estava certa, ao “saber que o autor só conhece das personagens o que elas foram”, então posso bem dizer que as conclusões a que chegou dão razão ao título de um dos discursos de Estocolmo: “De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz.”

(Extrato de “José Saramago e a poética da narrativa: uma ordem por decifrar”, in Teresa Cerdeira  et alii (org.), E agora, José(s)? José Saramago e José Cardoso Pires 20 anos depois. Belo Horizonte: Moinhos, 2019, pp. 20-22)."


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Revista Blimunda #92 Fevereiro de 2020 "Entrevista a José Saramago por Ernesto Sampaio - Diário de Lisboa / Março de 1980

Publicado na edição #92 de Fevereiro 2020
"José Saramago e o Alentejo: Um livro “levantado do chão”
Entrevista por Ernesto Sampaio"


A edição pode ser consultada e descarregada gratuitamente aqui
em https://www.josesaramago.org/blimunda-92-fevereiro-de-2020/

Levantado do chão, assim se chama o último livro de José Saramago, recentemente lançado pela Editorial Caminho. «Do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira» — explica o autor, que também nos diz que «um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando o terminasse: Isto é o Alentejo». José Saramago, escritor, poeta, jornalista: aí o temos na nossa frente, simples, claro, frontal, para quem escrever é aproximar-se da vida, evocar-lhe as suas altas situações, e para quem a literatura é sempre conhecimento, transformação, libertação.

Diário de Lisboa — O seu livro baseia-se na história de vida de três gerações de uma família de trabalhadores rurais do Alentejo. Como nasceu essa ideia?
Se o 25 de Novembro não fosse o padrasto que é, eu diria que este livro tem no 25 de Novembro a sua paternidade. A situação em que então me achei, sem emprego nem esperança de o conseguir, pôs diante de mim a grande questão: que é que eu vou fazer? Claro que a exigência imediata era o estômago e a conservação do tecto. Deitei mão ao costumado recurso dos intelectuais desempregados: a tradução. Fique dito, de passagem, que até hoje já lá vão cerca de dez mil páginas traduzidas. Mas você falava do livro, perguntava como me veio a ideia... Se o pai é o 25 de Novembro, a mãe é o acaso. O meu primeiro movimento, isto no que toca a perspectivas de produção literária, tinha sido transportar-me para as terras ribatejanas onde nasci, levar a traduçãozinho em estaleiro (por sinal um volumoso tratado de psicologia) e tentar o livro campestre que eu andava a sentir necessidade de escrever. Motivos vários impediram a realização do projecto por aquelas bandas. Além disso, parecia-me errado ir cometer uma espécie de regresso ao ovo natal. Foi então que me ocorreu o contacto que estabelecera, em meados de 1975, com a UCP «Boa Esperança», de Lavre, por causa de uma entrega de livros para a biblioteca que eles andavam a organizar. Escrevi, perguntei se podia ir, como seria isso de comer e dormir, e se havia lugar onde trabalhar, um espaço para a máquina de escrever. Eles responderam: «Venha». E eu fui. Estive em Lavre, da primeira vez, dois meses, depois, por intervalos, umas tantas semanas mais, e quando de lá voltei trazia cerca de duas centenas de páginas com notas, casos, histórias, também alguma História, imagens e imaginações, episódios trágicos e burlescos, ou apenas do quotidiano banal, acontecimentos diversos, enfim, a safra que é sempre possível recolher quando nos pomos a perguntar e nos dispomos a ouvir, sobretudo se não há pressa. Andei por Lavre, Montemor-o-Novo, Escoural, por lugares de gente e descampados, passei dias inteiros ao ar livre, sozinho ou acompanhado de amigos, conversei com novos e velhos, sempre na mesma cisma: perguntar e ouvir.

Quando um alentejano se decide a falar ninguém o cala
Por fim, já nem fazia perguntas. Quando um alentejano decide falar, ninguém o cala. Além disso, também há alentejanos que escrevem. Não serão muitos? Eu tive a sorte de encontrar um. Você pode imaginar o que é estar em conversa com um velho rural de 70 anos, digo eu, dizes tu, e de repente ele abre ali uma gaveta, tira uns poucos cadernos de papel almaço, escritos em letra garrafal e firme, creia que até os erros de ortografia eram firmes: «Está aqui a história da minha vida.» Foi isto que me aconteceu. Levei para ao meu buraco a história de João Domingos Serra contada pelo próprio, li-a nessa mesma noite, a tremer de comoção e frio (era Março), e quando acabei tinha, finalmente, a trave mestra do que viria a ser o Levantado do Chão. Aquela vida verdadeira era como uma fiada de pedras postas a atravessar a corrente torrencial de dados em que já me ia submergindo. Por cima de tal podia agora circular a minha vontade. Mas a vida, se reparamos bem, só é o que vidas forem. A esta de João Serra juntaram-se outras, a do Machado, do Abelha, do Badalinho, do Catarro, do Cabecinha,da Mariana Amália, a de outro João, o João Basuga, meu amigo do coração, e tantos, tantos mais. Quem lhes quiser conhecer os nomes, falo dos que mais perto estiveram de mim, encontra-os na dedicatória do livro. também lá estão os nomes de dois mortos. Não há inconvenientes. Estes vivos e estes mortos fazem boa companhia uns aos outros. Enfim, se eu não tivesse, num dia daquele ardente Verão de 1975, levado livros a Lavre, não existiria este livro. Um espírito malicioso e facilmente hábil dirá que não há certeza de se ter ganho alguma coisa com isso. Ouso crer que não se perdeu.

Estão aí muitos livros por escrever
Pelo menos uma certeza eu ganhei: a de que estão aí muitos livros por escrever, de Norte a Sul, à espera. Eu fui a Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, e escrevi um. Não inventei nada, claro está, ao viajar até ao Alentejo. O que eu fiz, outros o fizeram antes de mim, nesse e outros lugares. Honra lhes seja feita. O meu receio é que poucos estejam dispostos a fazê-lo agora, quando mais necessário é.

Levantado do chão fala de gente real, utiliza testemunhos vivos, mas não é propriamente jornalismo. É literatura de elevada expressão poética. Fala-me dos problemas formais que teve de enfrentar para transformar a vida, que é o suporta da sua narrativa, no objecto estético em que o livro acaba por se transformar.
Boa pergunta, já lhe disse que quando regressei de Lavre trazia comigo uma montanha de apontamentos, notas, registos vários, gravações, documentos. Bastaria arrumar um pouco, sistematizar um pouco, limpar o supérfluo, acrescentar o comentário, aliteratar onde fosse conveniente, afinar o tom. Porém, não foi assim. Quando decidi instalar-me em Lavre, não era essa a intenção que levava. O que eu queria era escrever um romance, não uma reportagem, por mais útil e exemplar que ela pudesse ser, como tantas que felizmente têm vindo a ser escritas, algumas delas excelentes materiais para futuras obras. Mas a decisão de escrever um romance também não era pacífica. Um romance, sim senhor, mas que romance? Modelos, se eu os quisesse tomar, não me faltavam, e ilustres. Muita gente escreveu sobre o Alentejo, alguns escreveram certo e bem. E ainda escrevem. Para mim, poderia ser fácil e fazer-me beneficiar de uma certa e bem humorada condescendência. Assentar os pés nas pegadas marcadas pelos colegas e já aprovadas pela critica, seguir o itinerário, deixar-me ir. Ficava a história contada, o livro rematado, a obrigação cumprida sem excessivos riscos. Também isso não quis fazer. Mas, se sabia claramente o que não queria, tive de esperar que viesse a mim o que fosse meu. Estive em Lavre em 1976, o livro aparece em 1980, quatro anos depois. É certo que entretanto concluí outro romance, escrevi um livro de contos e uma peça de teatro, mas essencialmente, o que eu estive foi à espera de que terminasse o trabalho de germinação que sabia estar a fazer-se. Posso garantir-lhe, com toda a simplicidade e sem disso me gabar, que não tive de resolver quaisquer problemas formais, no sentido que a palavra «resolver» contenha de esforço, tentativa, rectificação, ajuste, pesquisa. Limitei-me a ter paciência, a não forçar o tempo. O livro foi escrito, por assim dizer, em dois períodos: o primeiro de dois dias, para as quatro páginas iniciais; o segundo de alguns meses, para o resto. Entre esses dois períodos tão desiguais, decorreu muito tempo.

«Só poderia escrever o livro se o contasse» 
Até que um dia compreendi (foi uma coisa súbita de que mal tenho memória) que só poderia escrever o livro se o contasse, isto é, transformando-me eu me narrador multiplicado, de fora de dentro, próximo e distanciado, grave e irónico, terno e brutal, ingénuo e experiente, um narrador que ao dizer a realidade, e para a dizer, fosse capaz de a inventar em cada momento. Percebi que isto só poderia ser feito se reconstituísse a oralidade na escrita, se fizesse da escrita discurso no sentido próprio, mas rejeitando sem piedade qualquer tentação de transcrição fonética, que é a pior das armadilhas. Sacrifiquei sem nenhum remorso o pitoresco, a cor local, o folclore. Com isto tudo, não tive de empurrar nenhuma porta, foi ela que se abriu quando me aproximei pelo caminho certo. A partir daí foi fácil. Diria que escrevi este livro com espírito liberto, com a espontaneidade do narrador que se abandona à imaginação e às arcas da memória para tornar diferente as histórias que ouviu, por saber, ou ser sua pessoal convicção, que a diferença é justamente o melhor que a história contém, ou virá a conter, se alguma vez mais vier a ser contada, por mim, por você, pelo leitor. Quer saber como eu me imagino? Imagino-me a contar este «Levantado do Chão» a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando me apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados, alusões directas ou indirectas a casos marginais, questões de famílias, boas ou más vizinhanças, e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova, é maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar, contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.

Obra aberta

Aqui há anos falou-se muito em obra aberta. 
Hoje vai-se dizendo o mesmo, mas com outro vocabulário. Ora, eu, que sou partidário da obra conclusa, no sentido inteiro levado ao extremo (mas existirá tal obra?), descubro-me hoje a reivindicar para este «Levantado do Chão» um estatuto de obra aberta. Aberta ao leitor e também constantemente aberta pelo leitor, solicitado pelo próprio discurso ou decurso do texto a introduzir nele a sua própria memoria e a sua própria imaginação. Tanto mais que eu o preveni logo no princípio: «Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira». Aqui tem o que o autor pensa, não de problemas formais que não teve, mas de questões formais que crê serem suscitadas por este livro. Fico curioso de saber o que pensa a critica. E mais curioso ainda de saber o que pensam os leitores. Mas onde está a comunicação entre o escritor e o leitor?

DL — O que foi, é e será para si o Alentejo, o homem alentejano?
Do que o Alentejo foi, creio que o meu livro dará uma ideia. Do que ele é, também este livro saberá dizer alguma coisa. Por exemplo, a repressão violenta, que em nada se distingue dos tempo do fascismo: exprime o mesmo ódio ao trabalhador agrícola. Quanto ao que o Alentejo será, não tenho dúvidas. Será uma terra de mulheres e de homens donos da sua vida. Quando? Isso não se dizer. Mas sei que gostaria de ainda poder ver no nosso País a fraternidade de trabalhadores que encontrei junto dos meus amigos do Alentejo. O que ali está em gestação é, em sentido literal, um homem português novo.

E a reacção sabe-o. Sabe e teme. Por isso é que são os insultos, os vexames, as agressões e as mortes. É o mundo velho a querer estrangular o mundo novo. No meio de tudo isto, que vem fazer o meu livro?
Hoje é um testemunho. Amanhã, faço votos por que seja um simples artefacto arqueológico, fora de uso, ou, quando muito, e não será pouco, um registo para a memória colectiva. Há-de ser possível dizer um dia: «Pensarmos nós que a vida no Alentejo foi assim...». É claro que não posso deixar de exprimir, um outro voto, mais egoísta: que mesmo nessa altura, graças a algum valor literário que hoje tenha e então conserve, ainda o Levantado do Chão seja lido. 


Ilustrações Manuel Ribeiro de Paiva
(algumas das que constam na publicação)






"José Saramago fala sobre Deus, Igreja e Bíblia" Entrevista para a Folha de São Paulo (Brasil)


"José Saramago fala sobre Deus, Igreja e Bíblia"
Entrevista do "Folha de São Paulo" - Brasil (2/12/2008)
Pode ser recuperada e consultada via YouTube, aqui

domingo, 5 de abril de 2020

Notas sobre o "Ensaio sobre a Cegueira" - Revista Blimunda #93 Março2020

A revista Blimunda pode ser descarregada gratuitamente, tal como todas as anteriores edições

Páginas 66 a 98

Notas sobre o "Ensaio sobre a Cegueira"

Em 1993, algumas semanas depois de se ter mudado para a ilha de Lanzarote, José Saramago deu início a um projeto que já orbitava sobre a sua cabeça: um romance sobre uma cegueira branca que ataca os habitantes de uma cidade. Durante pouco mais de dois anos, o escritor trabalhou na escrita
de Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995. “No fundo, o que o livro quis expressar é muito simples: se somos assim, que cada um se pergunte porquê”, disse o autor uns anos depois, numa conferência.
Nos últimos meses, com a pandemia de um super-vírus que nos obriga ao confinamento em casa e levanta questões sobre a nossa capacidade de vivermos em coletividade, o romance de José Saramago passou a ser muito citado e recordado.
Durante os meses em que esteve envolvido no projeto, José Saramago deixou anotadas no seu diário as dificuldades e aflições com que se deparou ao escrever o romance, assim como as descobertas e aprendizagens que ele trouxe. A Blimunda deste mês recupera algumas notas do diário do escritor que fazem referência ao Ensaio sobre a Cegueira e que podem servir para os interessados em ler ou reler o romance.

Cadernos de Lanzarote I (1993)
20 de abril
Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira, e durante uns minutos tudo me pareceu claro — exceto que do tema possa vir a sair alguma vez um romance, no sentido mais ou menos consensual da palavra e do objeto. Por exemplo: como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? Quantos anos serão precisos para que se encontrem substituídas, por outras, todas as pessoas vivas num momento dado? Um século, digamos que um pouco mais, creio que será bastante. Mas, neste meu Ensaio, todos os videntes terão de ser substituídos por cegos, e estes, todos, outra vez, por videntes… As pessoas, todas elas, vão começar por nascer cegas, viverão e morrerão cegas, a seguir virão outras que serão sãs da vista e assim vão permanecer até à morte. Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo «clássico» do «conto filosófico», inserindo nele, para servir as diferentes situações, personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada. 

21 de abril
Chegou uma cópia da segunda edição de In Nomine Dei. Mais cinco mil exemplares, que se vão juntar aos dez mil da edição inicial. Pergunto: que se passa, para que uma peça de teatro atraia tanta gente? Já não é só o romance que interessa aos leitores? Terá isto que ver, apenas, com a simples fidelidade de quem se habituou a ler-me? Ou será que, neste tempo de violência e frivolidade, as «questões grandes» continuam a roer a alma, ou o espírito, ou a inteligência («moer o juízo» é uma expressão com muito mais força) daqueles que não querem conformar-se? Se assim é, espero que venham a sentir-se bem servidos com o Ensaio sobre a Cegueira…

21 de junho
[…] Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após outra, até substituírem, por completo, as que têm visão: podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.

2 de agosto
Escrevi as primeiras linhas do Ensaio sobre a Cegueira. 

15 de agosto
Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará António ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero é ter de levar pela mão essas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos. Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, que quando alguém lhe apareça na narrativa se pergunte se é a primeira vez que tal sucede, se o cego da página cem será ou não o mesmo da página cinquenta, enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.

20 de agosto
Uma hipótese: talvez esta necessidade imperiosa de organizar uma lembrança coerente do meu passado, dessa sempre, feliz ou infeliz, única infância, quando a esperança ainda estava intacta, ou, ao menos, a possibilidade de vir a tê-la, se tenha constituído, sem que eu o pensasse, como uma resposta vital para contrapor ao mundo medonho que estou a caminho de imaginar e descrever no Ensaio sobre a Cegueira. 

22 de agosto
Começo a compreender melhor a relação que a gente nova tem com os jogos de computador, e como é fácil ficar prisioneiro do teclado e do que vai acontecendo no ecrã. Nos últimos dois dias, pouco atraído pelo Ensaio, cheio de espinhos, que ainda vai no primeiro capítulo, dediquei-me a investigar um pouco mais uma máquina (chamo máquina ao computador…) que até agora só me tinha servido para escrever.

30 de agosto
Terminado o primeiro capítulo do Ensaio. Um mês para escrever quinze páginas… Mas Pilar, leitora emérita, diz que não me saí mal da empresa.

25 de novembro
Em que ponto está o Ensaio sobre a Cegueira? Parado, dormindo, à espera de que as circunstâncias ajudem. Mas as circunstâncias, mesmo quando parecem propícias, não perdem a sua volubilidade natural, precisam de uma mão firme e boa conselheira. Até ao fim do ano (por causa da viagem às terras do Mais Antigo Aliado, e depois as festas, com a casa cheia de gente), não terei mais remédio que deixá-las à solta (falo das circunstâncias, claro) mas logo a seguir tratarei de as prender curto. Entretanto, vou escrevendo umas quantas coisas como esta que a revista Tiempo, de Madrid, me pediu, sobre a anunciada criação do Parlamento de Escritores […].

17 de dezembro
Voltei—timidamente—ao Ensaio. Modifiquei umas quantas coisas, e o capítulo ficou bastante melhor: a importância que pode ter usar uma palavra em vez de outra, aqui, além, um verbo mais certeiro, um adjetivo menos visível, parece nada e afinal é quase tudo.

Cadernos de Lanzarote II (1994)
3 de janeiro
Zeferino Coelho regressou hoje a Lisboa. Enquanto cá esteve leu tudo quanto tenho escrito nos últimos tempos: estes Cadernos, o capítulo do Ensaio, as notas para as Tentações. Propôs-me levar já os Cadernos, para publicar em abril um primeiro volume. O trabalho que tive para contrariar-lhe a ideia não precisou de ser grande, mas obrigou-me a pensar sobre o que quero fazer, ou melhor, sobre a ordem por que haverão de sair estes livros, por enquanto ainda só promessas deles. Concluí que devo lançar-me de vez ao Ensaio e não ir buscar desculpas cómodas ao tempo que as Tentações e os Cadernos vão continuar a tomar-me. Nestas duas semanas pouco poderei adiantar (primeiro vem o José Manuel Mendes, depois aparecerá o João Mário Grilo com a equipa de filmagem), mas, passadas elas, terei de voltar ao trabalho, desviar os olhos deste céu, deste mar, destas montanhas. Contra o meu desejo, duramente. (Há dias saiu-me «brutalmente»… Enfim, palavras.) […]

29 de abril
Sentei-me a trabalhar no Ensaio sobre a Cegueira, ensaio que não é ensaio, romance que talvez o não seja, uma alegoria, um conto «filosófico», se este fim de século necessita tais coisas. Passadas duas horas achei que devia parar: os cegos do relato resistiam a deixar-se guiar aonde a mim mais me convinha. Ora, quando tal sucede, sejam as personagens cegas ou videntes, o truque é fingir que nos esquecemos delas, dar-lhes tempo a que se creiam livres, para no dia seguinte, desprevenidas, lhes deitarmos outra vez a mão, e assim por diante. A liberdade final da personagem faz-se de sucessivas e provisórias prisões e libertações.

8 de julho
O Ensaio saiu do atoleiro em que tinha caído há já não sei quantos meses. Pode vir a cair noutro, mas deste safou-se. Há uns poucos dias que eu tinha decidido deixar de lado dois capítulos que se haviam convertido numa daquelas armadilhas onde se pode entrar com toda a facilidade, mas donde não se sai. O novo rumo parecia-me animador, abria perspetivas. Em todo o caso, ainda não me sentia completamente seguro. Foi então que andando por aí, hoje, ao vento, me sucedeu algo muito semelhante ao episódio de Bolonha, quando, depois de meses sem saber o que poderia fazer com a ideia do Evangelho, nascida em Sevilha, toda a sequência do livro — enfim, quase toda — se me apresentou com uma claridade fulgurante. Estava na Pinacoteca, vira a pintura da primeira sala à esquerda da entrada, e foi ao entrar na segunda (ou teria sido na terceira?) que os pilares fundamentais da narrativa se me definiram com tal simplicidade que ainda hoje me pergunto como foi que não tinha visto antes o que ali me parecia óbvio. Não era nada de complicado, basta ler o livro. Neste caso — o do Ensaio— a «revelação» não foi tão completa, mas sei que vai determinar um desenvolvimento coerente da história, antes atascada e sem esperanças. Todos os motivos que vinha dando, a mim mesmo e a outros, para justificar a inação em que me achava — viagens, correspondência, visitas —, podiam, afinal de contas, ter sido resumidos desta maneira: o caminho por onde estava a querer ir não me levaria a lado nenhum. A partir de agora, o livro, se falhar, será por inabilidade minha. Antes, nem um génio seria capaz de salvá-lo.

24 de julho
Uma coisa seria querer fazer um romance sem personagens, outra pensar que seria possível fazê-lo sem gente. E esse foi o meu grande equívoco quando imaginei o Ensaio sobre a Cegueira. Tão grande ele foi que me custou meses de desesperante impotência. Levei demasiado tempo a perceber que os meus cegos podiam passar sem nome, mas não podiam viver sem humanidade. Resultado: uma boa porção de páginas para o lixo.

26 de outubro
João Cabral de Melo Neto recebeu hoje, aqui em Madrid, das mãos da rainha, o Prémio Reina Sofía de Poesia Iberoamericana. Disse-me que perdeu a visão central, as suas primeiras palavras foram mesmo: «Estou cego», e eu só pude abraçá-lo com força. Mais tarde pensei nos meus cegos do Ensaio e achei-os insignificantes diante da realidade pungente daqueles olhos perdidos. Cego, João Cabral, o maior poeta de língua portuguesa vivo, com perdão de outros que também são grandes… O discurso de agradecimento, lido pelo embaixador do Brasil, foi muito belo, de uma serenidade profunda, como de alguém que, por cima das tristes dores da vida, está em paz consigo mesmo.

Cadernos de Lanzarote III (1995)
8 de janeiro
Há tempos prometi a Lakis Proguidis, para o seu L’atelier du roman, um ensaio sobre Ernesto Sábato, para o qual até já dispunha de título, uma vez que, como é minha incorrigível tineta, batizo sempre a criança antes de ela ter nascido. Chamar-se-ia O Olhar Sobrevivente. O condicional já está aí a dizer que a promessa não chegou a ser cumprida. Talvez regresse um dia a esse projeto, mas nunca antes de me libertar da legião de cegos que me rodeia. Aliás, é bem possível que o título me tenha vindo, por desconhecidos caminhos, daquele «olhar sobrevivente» que, em sentido literal, existe no Ensaio sobre a Cegueira. Isso e, por diferentes vias, o Informe sobre Cegos do mesmo Sábato (onde o número de cegos não conta comparado com os do Ensaio…), é o que provavelmente me terá levado ao título desse outro «ensaio» que ficou por escrever.

12 de janeiro
[…] José Manuel Mendes pergunta-me num fim de carta: «Como vai o Ensaio?» Vou responder-lhe com uma palavra simples: «Avança.» Provavelmente, ele pensará: «Enfim… já não era sem tempo.» 

15 de janeiro
Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos. Objeto Quase, por exemplo, ficaria perfeito se só contivesse a página que leva a citação de Marx e Engels. Lamentavelmente, a crítica salta por cima dessas excelências e vai aplicar as suas lupas e os seus escalpelos ao menos merecedor que vem depois. Não foi esse o caso de um certo crítico que, atento à matéria, não deixou passar em claro a epígrafe da História do Cerco de Lisboa, aquela que diz: «Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás.» São palavras do Livro dos Conselhos, confirmava com toda a seriedade, movido provavelmente por uma reminiscência, de direta ou indireta via, do Leal Conselheiro de D. Duarte. Ora, convém dizer que são também palavras do Livro as que irão servir agora de epígrafe ao Ensaio sobre a Cegueira, em andamento. Estas rezam assim: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» Espero que o bem-intencionado crítico, tendo refletido sobre a profundidade do asserto, não se esqueça, com idêntica circunspeção, de mencionar a fonte, salvo se, desta vez, tomado de súbita desconfiança ou de científico escrúpulo, se decidir a perguntar: «Que diabo de Livro dos Conselhos é este?»

16 de janeiro
O Livro dos Conselhos não existe.

4 de março
Dia de chuva e frio em Braga. Colóquio de inauguração da Feira do Livro, com a escritora espanhola Soledad Puértolas e Luísa Mellid Franco, que foi a moderadora. Apesar do mau tempo, que terá retido muita gente em casa, o auditório esteve cheio durante as duas horas que o colóquio durou. Soledad Puértolas falou em castelhano (a sorte dos espanhóis, que os portugueses sejam tão benévolos…) e foi escutada com a maior atenção. Deve ter ido satisfeita com o público de Braga. Quanto a mim, porque não tinha nenhum livro recente que pudesse servir-me de bengala, resolvi levantar um pouco mais o véu que ainda cobre o Ensaio sobre a Cegueira e desenvolver algumas reflexões a propósito. À medida que ia falando, tornava-se-me cada vez mais claro quanto a mim próprio me inquieta o pessimismo deste livro. Imago mundi lhe chamei, já em conversa com o Luiz Francisco Rebello, visão aterradora de um mundo trágico. Desta vez, a expressão do pessimismo de um escritor de Portugal não vai manifestar-se pelos habituais canais do lirismo melancólico que nos caracteriza. Será cruel, descarnado, nem o estilo lá estará para lhe suavizar as arestas. No Ensaio não se lacrimejam as mágoas íntimas de personagens inventadas, o que ali se estará gritando é esta interminável e absurda dor do mundo.

18 de junho
Voltei ao Ensaio. Com a disposição firme de levá-lo desta vez ao fim, custe o que custar. Durante todo o tempo que andei por fora, amigos e conhecidos não pararam de me perguntar pelos meus cegos. Chegou a altura de eles responderem por si mesmos.

15 de julho
Pausa de vinte e quatro horas no Ensaio para apresentar em Las Palmas o livro de Juan Cruz, Exceso de Equipaje, que é uma brilhante demonstração da arte do fragmento intimista e da observação do quotidiano imediato. Fez-me bem o derivativo, aliviei a tensão que me andam a causar os cegos, conheci gente simpática e inteligente, reencontrei amigos, como o poeta Manuel Padorno, e Toni, Luz e María del Carmen, as professoras do Coletivo Andersen.

9 de agosto
Terminei ontem o Ensaio sobre a Cegueira, quase quatro anos após o surgimento da ideia, sucesso ocorrido no dia 6 de setembro de 1991, quando, sozinho, almoçava no restaurante Varina da Madragoa, do meu amigo António Oliveira (apontei a data e a circunstância num dos meus cadernos de capa preta). Exatamente três anos e três meses passados, em 6 de dezembro de 1994, anotava no mesmo caderno que, decorrido todo esse tempo, nem cinquenta páginas tinha ainda conseguido escrever: viajara, fui operado a uma catarata, mudei-me para Lanzarote… E lutei, lutei muito, só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que a toda a hora se me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isto não fosse bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais. Seria agora a altura de fazer a pergunta de que nenhum escritor gosta: «Que ficou dessa primeira ideia?» (Não gostamos porque preferiríamos que o leitor imaginasse que o livro nos saiu da cabeça já armado e equipado.) Da ideia inicial direi que fi cou tudo e quase nada: é verdade que escrevi o que queria, mas não o escrevi como o tinha pensado. Basta comparar a inspiração de há quatro anos com aquilo que o Ensaio veio a ser. Eis o que então anotei, com nenhumas preocupações de estilo: «Começam a nascer crianças cegas. Ao princípio sem alarme: lamentações, educação especial, asilos. À medida que se compreende que não vão nascer mais crianças de visão normal, o pânico instala-se. Há quem mate os filhos à nascença. Com o passar do tempo, vão morrendo os “visuais” e a proporção “favorece” os cegos. Morrendo todos os que ainda tinham vista, a população da terra é composta de cegos apenas. Um dia nasce uma criança com a vista normal: reação de estranheza, algumas vezes violenta, morrem algumas dessas crianças.O processo inverte-se até que — talvez — volte ao princípio uma vez mais.» Compare-se… Quanto à palavra inspiração que aí ficou atrás, esclareço que a empreguei em sentido estritamente pneumático e fisiológico: a ideia andava flutuar por ali, no oloroso ambiente da Varina da Madragoa, eu inspirei-a, e foi assim que o livro nasceu… Depois, pensá-lo, fazê-lo, sofrê-lo, já foi, como tinha de ser, obra de transpiração…

10 de agosto
Chegaram a Lanzarote, e instalámo-los cá em casa, José Luis García Sánchez e Rosa León. Vieram para a estreia, em Canárias, de Suspiros de España (y Portugal), que ele dirigiu. Motivos para a viagem, apenas os da amizade, porquanto não é costume dos realizadores de cinema andarem atrás dos seus fi lmes, a estreá-los aqui e ali. Não sei como se agradece isto. Rosa e José Luis tiraram-se do seu trabalho, viajaram de Madrid a Lanzarote, muito mais para me festejarem a mim do que para receberem, eles, aplausos. A rever e a corrigir o Ensaio, não poderei fazer-lhes toda a companhia que deveria, mas dei hoje com eles uma rápida volta pela ilha, de que me resultou uma estranha impressão: encerrado em casa há tanto tempo, dei por que me inquietava o mundo exterior.

18 de agosto
Lá foram, uma cópia para Zeferino Coelho, outra para Maria Alzira Seixo, ele porque é o editor, ela por ter escolhido o Ensaio para tema do estudo que prometeu escrever para um volume que Giulia Lanciani está a preparar sobre o autor destes Cadernos. Daqui por poucos dias já saberei o que pensam estes primeiros leitores. Primeiros depois de Pilar, claro está. E que disse Pilar? Que o livro é bom. Será? Leitora exigente e criteriosa é ela, sem dúvida, mas sempre temo que se deixe iludir (enganar, cegar), pouco que seja, pelos sentimentos. Um pensamento que me tem ocupado nestes dias: há vinte anos chamei «ensaio de romance» ao Manual de Pintura e Caligrafia (a designação só aparece na primeira edição, a da Moraes), hoje ponho ponto final num romance a que dei o nome de Ensaio. Vinte anos de vida e de trabalho para ir dar, por assim dizer, ao mesmo sítio: de falta de persistência e sentido de orientação não poderão acusar-me… 

20 de agosto
Zeferino Coelho telefonou para dizer que gostou do livro. O autor apreciou sabê-lo e disse consigo mesmo que, agora sim, o Ensaio está terminado. Mas Zeferino também avisou que a disquete que lhe enviei, juntamente com o escrito, e que deveria conter o romance, estava em branco… A minha falta de jeito para as informáticas foi confirmada uma vez mais. Felizmente que o José Serrão, responsável pelos assuntos gráficos da editora, me deu, pelo telefone, passo a passo, com paciência e competência, as instruções que antes eu havia saltado e trocado. Fiquei felicíssimo, como um garoto, quando pude comprovar que, finalmente sim, o romance tinha sido copiado inteirinho do disco duro para a disquete. Mas logo me perguntei: copiado, como? E como foi possível que a passagem de um a outro tenha sido praticamente instantânea? Que o romance esteja por aí algures dentro do computador, aonde os meus olhos não podem chegar, admito-o, tenho de admiti-lo. Mas que ele se encontre agora neste objeto tosco de plástico e metal que seguro com dois dedos e que, à vista, não difere em nada de quando estava vazio, isso é que não consigo fazer entrar-me na cabeça. Mais de trezentas páginas, mais de cem mil palavras, estão metidas aqui dentro? Digo-me: estão, mas não são. Estão porque as reencontro de cada vez que quiser ler a disquete no computador, mas ao mesmo tempo não são porque não podem existir lá como palavras, têm de ser uma outra coisa, algo inapreensível, algo volátil, como (estranha semelhança esta) as palavras dentro do cérebro. Não estão, e contudo são. Que monólogo não teria o Hamlet para dizer se Shakespeare vivesse hoje…

6 de outubro
Em Lisboa, para o lançamento do Ensaio sobre a Cegueira e o mais que se há de ver. Assinar livros, dar entrevistas, repetir o já redito, perguntar-me uma e muitas vezes se vale a pena, e apesar disso continuar, porque direi a mim mesmo que o devo fazer. Miguel Torga não concedia autógrafos, Herberto Helder não dá entrevistas: quanto a mim, ainda que me pusesse a procurá-las, sei que não conseguiria encontrar razões para não assinar a um leitor o livro que escrevi e para não lhe explicar porquê e como o fiz. É uma fraqueza, reconheço, mas lembro-me do que dizia a minha eterna avó Josefa, a propósito doutras histórias: «O que o berço deu, a tumba o leva», o que, aplicado ao meu berço e ao meu caso, teria de significar que quando nasci, lá naquela rua da Azinhaga a que chamam da Alagoa, já estava fadado para vir a dar autógrafos e entrevistas, coisa em que nem mesmo a dita e confiada avó acreditaria, vendo com que competência eu mudava a palha das pocilgas ou Jorge desnocava a nuca aos coelhos com uma pancada seca do cutelo da mão… Ai, os destinos!

2 de novembro
Disseram-me que no lançamento do Ensaio terão estado presentes entre quinhentas e seiscentas pessoas. De facto, custava a crer no que os olhos viam: aquela sala do Hotel Altis, enorme, completamente cheia de gente amiga, nada mais que para ver e ouvir o autor e o apresentador, que foi, belissimamente, o Francisco José Viegas. «Ora, ora, aquilo é tudo marketing, é propaganda, é publicidade…»,rosnaram com certeza os meus inimigos de estimação, como lhes chama Zeferino Coelho. Sim, publicidade, a mesma publicidade, caríssima, sofisticada e avassaladora,que os editores usam desde o cursus publicus do imperador Augusto: enviar convites pelo correio. Claro que no meu caso não deve ser esquecida a ação do departamento de agitprop do Partido, cuja eficácia mobilizadora, desta vez, até lá conseguiu levar, imagine-se, um primeiro-ministro, António Guterres…

16 de novembro
Encontro no gravador de chamadas as vozes de Eduardo Lourenço e de Baptista-Bastos, um a falar de Providence, outro de Lisboa, e ambos dizendo coisas bonitas sobre o Ensaio. Não podia desejar melhores presentes de aniversário. E como estes são dos que se devem guardar, aqui ficam, cuidadosamente transcritos. O estilo é de facto o homem: as chamadas são, cada uma delas, o retrato psicológico de quem as fez. Eis o que disse o BB: «É o Baptista-Bastos, para o Zé. Zé Saramago, querido amigo, olha, estou a telefonar-te pelo seguinte: é que escreveste um grande romance. Acabei ontem de ler, com grande cuidado, com grande aprazimento, e escreveste um grandessíssimo romance, e o resto é conversa. É para te dizer isto e dar-te um grande abraço, que as felicitações são para mim porque li um grande romance. Outro grande abraço para ti, Zé, e um beijinho para a Pilar.» Do Eduardo Lourenço: «Bom dia, meu caro José. Devo ser o último a dar-te os parabéns pelo Prémio Camões. Já tentei telefonar, mas nunca te apanho. Um prémio mais do que merecido. Vou escrever-te a propósito do livro, do teu livro, que me deixou perplexo e que gostaria de comentar contigo, por carta ou em público. Para já,repito, é um livro de muito impacto e de muita importância. Merecia ser discutido por aquele país, e não só. Um grande abraço, Eduardo.» Obrigado, amigos, obrigado, em nome desta reconfortada alma. 

Cadernos de Lanzarote IV (1996)
22 de fevereiro
A primeira crítica, em Espanha, ao Ensaio sobre a Cegueira, apareceu hoje num jornal de Las Palmas de Gran Canaria, La Província. Do que o seu autor, Ángel Sánchez, escreveu, extraio duas passagens que me pareceram particularmente interessantes. A primeira: «Insiste [o autor] no recurso de partir de um ponto qualquer da realidade mais corrente para ir derivando no sentido da ficção pura e dura, até ao ponto de permitir ao imaginário que, num dado ponto da narração, devore a realidade corrente do ponto de partida ou a ponha ao seu serviço.» A segunda: «Submetidos [os protagonistas] como estão às pequenas misérias da sua proteção e sobrevivência, não deixam por isso de ver a luz da razão e formulá-lo no seu veículo oral. Se continuam a razoar, alguma esperança resta. Filosofarão portanto à sua maneira, coisa em que o autor continua a ter parte ativa — as mais das vezes—com esse seu humor desprendido e essa lógica relativista, que no caso português parece ser a amarga poesia do “fatum / fado”, memoriosamente expressada pelo idioleto, mais um rasto de subtil humor britânico bastante percetível.» Este tipo de observações, que não costuma encontrar-se na crítica portuguesa, ajuda a compreender melhor o que se lê. Acho eu.

23 de maio
A apresentação do Ensaio fez-se no Círculo de Bellas Artes (nunca perceberei por que tenho de dizer el arte no masculino e bellas artes no feminino…). José Antonio Marina, o autor dessas obras magnífi cas, estimulantes, que são Teoria da Inteligência Criadora (que não alcançou ainda em Portugal os leitores que merecia) e Ética para Náufragos, e que acaba de publicar nestes dias El Laberinto del Sentimiento, fez uma apresentação em que houve tanto de inteligência quanto de generosidade, orientando o diálogo que travámos sobre a razão e os seus absurdos, e em que me esforcei por manter-me à altura, sem sempre o conseguir… Num certo momento, dei por mim a perguntar-me angustiado: «Poderá a razão, realmente, razonar sobre si mesma?»

12 de junho
Em Milão, para o lançamento de Cecità, título italiano do Ensaio sobre a Cegueira. Sete entrevistas em sete horas foram as que me arrancaram hoje, sem ao menos ter sido respeitado o intervalo para comer a que qualquer trabalhador tem direito: o almoço no hotel foi extensamente conversado, com um jornalista sentado à minha direita, comendo, fazendo perguntas e tomando notas.

20 de junho
Juan Cruz achou que o Ensaio sobre a Cegueira devia ser apresentado também aqui [Lanzarote], e eu, que sou o mais dócil dos autores dóceis, concordei.
Valeu a pena. A sala grande do museu da Fundação César Manrique encheu-se de pessoas para quem sou já um deles e que como tal me festejaram.

7 de outubro
[…] No meu romance Ensaio sobre a Cegueira tentei, recorrendo à alegoria, dizer ao leitor que a vida que vivemos não se rege pela racionalidade, que estamos usando a razão contra a razão, contra a própria vida. Tentei dizer que a razão não deve separar-se nunca do respeito humano, que a solidariedade não deve ser a exceção, mas a regra.
Tentei dizer que a nossa razão está a comportar-se como uma razão cega que não sabe aonde vai nem quer sabê-lo. Tentei dizer que ainda nos falta muito caminho para chegar a ser autenticamente humanos e que não creio que seja boa a direção em que vamos.

Em 2015, para assinalar o 20º aniversário da publicação do Ensaio sobre a Cegueira, a Porto Editora e a Fundação José Saramago prepararam o livreto Arquitetura de um romance, que reúne anotações e discursos de José Saramago sobre a construção do romance. Link para a publicação:
https://www.josesaramago.org/wp-content/uploads/delightful-downloads/2015/11/CJS-ESCBR_20154312_F01_02.pdf
Fotografias de Jorge Silva — Sara, Rafa, Matt, Sari, Vinícius, Maria, Tito, Jorge e Leonor estão em quarentena na Quinta dos Salgueiros, Idanha-a-Nova.

sábado, 28 de março de 2020

Edição n.º 11 da Revista de Estudos Saramaguianos

Aqui link para consulta e download da edição


SUMÁRIO

13 - Apresentação
20 - As portas de abertura do evangelho segundo Saramago (Conceição Flores)
33 - O espaço da memória em José Saramago (Denise Norona Lima)
48 - As marcas ancestrais na ficção de José Saramago (Jurema José de Oliveira)
55 - A singularidade amorosa em Saramago: da ilha desconhecida 
à ilha do amor (Maria Aparecida da Costa)
67 - INÉDITO: JOSÉ SARAMAGO, O CRÍTICO LITERÁRIO E O POETA
José Saramago, breve comentário sobre o crítico 
literário leitor de Jorge de Sena (Pedro Fernandes de Oliveira Neto)
91 - A cegueira saramaguiana como construtora da consciência coletiva (José Gonçalves)
102 - In nomine Dei – o ocaso de deus e a agentividade do homem 
numa tragédia moderna (Marco Aurélio Abrão Conte)

terça-feira, 24 de março de 2020

“Palavras para uma cidade” de José Saramago e voz de Pilar del Río

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

“Palavras para uma cidade” de José Saramago

"Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar umas quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

José Saramago
Folhas Políticas 1976-1998, Caminho, 1999, pp 178 – 182

sábado, 18 de janeiro de 2020

12 a 17 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

12 de Janeiro
(...) "Primeira participação no programa da RDP O Mundo de..., para que Adelino Gomes me convidou em Novembro do ano passado. Voltarei de cinco em cinco semanas,decidido, como sempre, a não dizer o que não penso..."

13 de Janeiro
"Pastelaria Versalhes. Enquanto almoço, entretenho-me a pensar nos enredos do livro que ando a ensinar a andar, este Todos os Nomes por enquanto bastante inseguro de pernas, quando uma palavra repetidamente dita numa mesa próxima começou a romper a muralha de abstracção em que me tinha envolvido e a empurrar o estaleiro do romance para fora da área dos cuidados imediatos. A palavra era «universo»" (...)

17 de Janeiro
"Hoje, em Lanzarote, lendo o jornal, enquanto tomava o sol no terraço, tive noticias do Universo, aquele cujo nome costumamos escrever com a letra inicial maiúscula para não fazer confusão com o da Pastelaria Versalhes. Dois cientistas da Universidade do Michigan, Fred Adams e Greg Laughlin, afirmam que acabará dentro de um numero de anos definido por 154 zeros (...) Pressinto que não viverei tanto..." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


12 a 17 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

13 de Janeiro
"Em Lisboa, para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para um vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta: «É impossível que este país tenha como presidenta da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não fizesse sentido, mas porque o faria de mais...»" (...)

14 de Janeiro
"A minha tranquilidade tinha razão, Jorge Sampaio ganhou. À noite, de Lanzarote, telefona-me Pilar a dizer que El País se lembrou de pedir um artigo sobre as eleições." (...)

15 de Janeiro
"«A esquerda explicada». Assim chamei o artigo, interrompido não sei quantas vezes por chamadas de urgência. Não sei se os leitores vão realmente encontrar a esquerda explicada. Por mim, penso que esta será uma maneira tão boa como outra de dizer o que a esquerda é" (...)

16 de Janeiro
"Juan Goytisolo veio a Lanzarote para dar uma conferência. Com ele veio Monique Lange, sua amiga e companheira, mulher inteligente, de uma simplicidade rara, que em tempos foi secretária de Gaston Gallimard." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

12 a 17 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

12 de Janeiro
"E vão três. Suspeito que os cães de Lanzarote andam a passar a palavra uns aos outros. Agora é uma cadela de uma raça a que aqui chamam sato, cor de amarelo-torrado (...) Desde há três dias que não nos larga a porta. Demos-lhe comida e água, em que começou por não tocar. Tremia, assustada. Depois foi-se tranquilizando, comeu e matou a sede. Pepe e Greta não foram simpáticos ao princípio, mas não tardaram muito a aceitá-la." (...)

13 de Janeiro
"A experiência pessoal e as leituras só valem o que a memória tiver retido delas.Quem tenha lido com alguma atenção os meus livros sabe que, o que ali há é um contínuo trabalho sobre os materiais da memória, ou, para dizê-lo com mais precisão, sobre a memória que vou tendo daquilo que, no passado, já foi memória sucessivamente acrescentada e reorganizada, à procura de uma coerência própria em cada momento seu e meu." (...)

15 de Janeiro
"Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos." (...)

16 de Janeiro
"O Livro dos Conselhos não existe."

17 de Janeiro
"Sempre se morre demasiado cedo. Miguel Torga sai do mundo aos 87 anos, depois de uma longa e dolorosa doença. (...) 
Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi.. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto." (...) 

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

12 a 17 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

12 de Janeiro
"Conversa com João Mário Grilo e Clara Ferreira Alves sobre o documentário - formato «Artes e Letras» - que Isabel Colaço teve a ideia de produzir." (...)
"Há dias de sorte. Tive hoje - 12 de Janeiro - a grata satisfação de receber do Gabinete das Relações Culturais Internacionais da Secretaria de Estado da Cultura um fax que se fazia acompanhar de uma carta da Fundación El Libro, de Buenos Aires, datada de 13 de Setembro do ano passado, em que me convidam a participar na Feira do Livro que em Março ali se irá realizar." (...) 

13 de Janeiro
"Diz o Gabinete das Relações Culturais Internacionais da Secretaria de Estado da Cultura que não teve culpa. Diz que o convite lhe foi comunicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros em 2 de Novembro e que o imediatamente o transmitiu ao Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro" (...)

17 de Janeiro
"Durante quatro dias a casa esteve transformada num pequeno estúdio de cinema (...) eu respondendo às perguntas de Clara, eu escutando as recomendações de João Mário, eu esforçando-me por parecer inteligente na palavra, no gesto, na expressão.

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

domingo, 12 de janeiro de 2020

11 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"Lisboa. Leio que Le Figaro dedicou alguns comentário elogiosos à pianista «argentina» Maria João Pires... É um lugar-comum das anedotas internacionais dizer-se que os franceses não sabem geografia. O pio é que, pelos vistos, não estão dispostos a aprendê-la (...) É sempre desculpável um erro involuntário, mas nunca a leviandade, a indiferença, a imponderação. (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

11 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"Há em Oviedo um cão boxer, chamado Simba, que, de vez em quando (soube-o agora por um recorte que de lá me chegou), escreve umas crónicas para os jornais, onde depois saem publicadas com o nome do dono. O dono do Simba é o escritor asturiano Manuel Herrero, que teve a inaudita ventura de lhe haver saído na rifa um cão com habilidades de literato. A mim, que tenho não um, mas três cães, não acontecem fortunas dessas. O que os meus fazem, além do comer, ladrar e dormir que a natureza pede, é entrar-me a toda a hora no escritório para fiscalizar o andamento do trabalho. Greta, que é a mais abelhuda, tem a mania de subir-me para o colo, suponho que para ver de perto o que estou a fazer. Pepe, digno e discreto, como mais velho, limita-se a sentar-se, a levantar a cabeça e a pôr-me uma pata na perna, pregando em mim um olhar que significa claramente: «Como vai isso?» Quanto a Camões, que, esse sim, poderia indicar-me o caminho para a imortalidade, desconfio que resolveu abandonar definitivamente as letras depois de ter escrito Os Lusíadas. Se alguma vez o Manuel Herrero vier de visita a Lanzarote, pedir-lhe-ei que traga consigo o Simba para que leia aos cachorros da casa o belíssimo artigo que sobre eles e sobre mim escreveu, justa e precisamente intitulado «Os amigos de Saramago»…

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

11 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Carlos Câmara Leme, do Público, pediu-me, a propósito da próxima publicação duma edição crítica dos poemas de Ricardo Reis, umas palavras que recordassem as circunstâncias em que os li pela primeira vez." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


Carlos Câmara Leme

Aqui pode ser recuperado um post com entrevista de José Saramago ao jornalista do Público
http://desaramago.blogspot.com/2017/01/o-presente-e-uma-linha-tenue.html
"O presente é uma linha ténue" Recuperação da entrevista de Carlos Câmara Leme a José Saramago (Público, 25/10/1997)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/todosOsNomes.htm

"Público" de 25 de Outubro de 1997
"O presente é uma linha ténue"
Por Carlos Câmara Leme

11 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"José Manuel Mendes partiu hoje, levando umas cinco ou seis horas de gravações. Não lhe invejo a sorte, ter de desenredar de um discurso sempre digressivo e não raro caótico umas quantas ideias mais ou menos aproveitáveis que por lá se encontrem. (...) Chegou carta de Jorge Amado. O Instituto de Letras da Universidade da Bahia organiza em Maio em encontro de tradutores e um seminário de ensino e aprendizagem de tradução (...) Pilar e eu lemos a carta ao mesmo tempo, e quando chegámos ao fim ele perguntou-me: «Que viagens temos em Maio?» Ainda que não pareça decididamente explícito, foi uma maneira de dizer sim..."

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

Jorge Amado e José Saramago 
1990 Bahia - Brasil

sábado, 11 de janeiro de 2020

10 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"Barcelona, Palácio Güell. Gravação da entrevista para o programa Negro sobre blanco, de Fernando Sanchéz Dragó. O tema foi o Ensaio sobre a Cegueira. Ajudaram generosamente à conversa Raúl Morodo, actual embaixador de Espanha em Lisboa, e Miguel Durán. A propósito, Miguel contou que, no tempo do franquismo, um notável do regime, cujo nome, se chegou a dizê-lo, me escapou, sugeriu ao governo a construção de uma cidade destinada exclusivamente para cegos." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

10 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"A RTP (abençoada ela seja por esta vez) trouxe-nos, decentemente concebido e realizado, um documentário sobre Fernando Lopes-Graça. Éramos quatro (Carmélia e a mãe, Pilar e eu) os que, recolhidamente, escutávamos as palavras do amigo desaparecido e assistíamos a uma reconstituição ordenada da sua vida. Enquanto o documentário ia passando, imagens, palavras, palavras e imagens, a informação pareceu-me bastante equilibrada, satisfatória, quem em amplitude quer em rigor, mas, quando ele chegou ao fim, tive a impressão, como já me tem sucedido em casos semelhantes, de que o mais importante tinha ficado por mostrar." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

Cartaz alusivo ao evento que marcou os 90 anos da data de nascimento de José Saramago, com apresentação de obras de Fernando Lopes-Graça (12/12/2012)

10 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"De Jerusalém telefona-me a minha tradutora, Miriam Tivon, para me dar notícias do Evangelho (excelentes), mas sobretudo para informar-me de que um fotógrafo de Israel (dos melhores, segundo Miriam) quer convidar-me a escrever algo sobre fotografias suas, e de tudo, imagens e palavras, fazer depois um livro. Se lembrar que já tenho um compromisso com Arno Hammacher, o amigo holandês que aqui passará todo o mês de Fevereiro a fazer fotografias para um livro seu e meu sobre Lanzarote, começarei a desconfiar que os fotógrafos deste mundo andam, sinistramente, a passar palavra uns aos outros..."

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

Bruna Lombardi entrevista José Saramago para o programa "Gente de Expressão"

Recuperação da entrevista de Bruna Lombardi a José Saramago