Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

"José Saramago Nas suas palavras" edição de Fernando Gómez Aguilera

"Considero-me um escritor realista mas não um romancista realista. O romance é um lugar literário onde tudo pode e deve caber. O romance é a expressão total.
Aspiraria a que ele fosse uma espécie de suma, reunião de todos os géneros, lugar de sabedoria. Nele estão a epopeia, o teatro, a reflexão filosófica ou filosofante… Esta é a minha ambição. Está fora de questão discutir agora se o consigo ou não, mas é a isso que eu aspiro. E é por isso que o narrador nos meus romances tem um papel todo poderoso."

“O cerco a José Saramago”, Expresso, Lisboa, 22 de abril de 1989 [Entrevista a Clara Ferreira Alves].

"Literary Rebellion Images of Nobel Prize Laureates in Literature. An exhibition by Kim Manresa and Xavi Ayén."

"José Saramago Photo: Kim Manresa"

Nobel Museum, Stortorget 2, Gamla stan
23 September 2017 – September 2018

"What is a literary rebellion? Can literature change the world? To read and write is a slow pursuit, and often a solitary one. Still reading and writing are often seen as something threatening. Texts have been censored and banned, authors have been threatened, persecuted and even imprisoned for what they write.

In the photo exhibition Literary Rebellion, twelve Nobel Laureates in Literature are depcited in the Spanish photographer Kim Manresa’s gripping and beautiful images. The authors have in different ways used their writing as a way to question, create change and make resistance. Through their literature, they have in different ways worked to create and maintain spaces for the free word.

In the exhibit we ask ourselves how the power of literature to change the world can be expressed in individual authorships, and show examples of authors that have been noted for their ability to jolt their readers. Their ways of writing and acting as authors have had different consequences depending on their societies; some have been forced to write from exile.

Some examples are seemingly more obvious, like Svetlana Alexievich or Herta Müller, but others are more harmless at a first glance. The everyday and sometimes humourous poetry of Wisława Szymborskas can appear far from resistance and rebellion, but expresses an ideal of freedom that fends away totalitarian ideologies.

The photographer Kim Manresa is based in Barcelona and works in a documentary style with a strong social commitment. In his reports he often follows people that fight for themselves or for others. For more than a decade, Manresa has together with the journalist Xavi Ayén interviewed Nobel Laureates in Literature about their social egagement, which resulted in the book Rebeldía de Nobel. These stories make the basis for this exhibition.

The exhibition is produced in cooperation with curator Miguel Angel Invarato. All images are © Kim Manresa.

The Nobel Laureates in Literature whose authorships are highlighted in the exhibition are (in parenthesis the year in which they were awarded): Svetlana Alexievich (2015) Dario Fo (1997) Nadine Gordimer (1991) Imre Kertész (2002) Doris Lessing (2007) Toni Morrison (1993) Herta Müller (2009) Orhan Pamuk (2006) Kenzaburo Oe (1994) José Saramago (1998) Wole Soyinka (1986) Wisława Szymborska (1996)."

sábado, 9 de dezembro de 2017

Apresentação Pública da "Rota do Memorial do Convento" apresentação pública na Fundação José Saramago (11/12)


Informação via Fundação José Saramago aqui
em https://www.josesaramago.org/11-12-apresentacao-publica-da-rota-do-memorial-do-convento/

"Na segunda-feira (11), às 11h30, na sede da Fundação José Saramago, será apresentada a Rota do Memorial do Convento, iniciativa conjunta das Câmaras Municipais de Lisboa, Loures e Mafra. A criação desta rota tem como objetivo “valorizar a notoriedade e a atratividade dos recursos patrimoniais e culturais dos concelhos e dos sítios onde os monumentos históricos e arquitetónicos classificados se localizam” e “criar uma oferta de novos nichos de turismo de cultura, com enfoque na componente literária”.

A apresentação da Rota está inserida na comemoração dos 19 anos da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago."
Via "Observador", aqui
"O romance “Memorial do Convento”, de José Saramago, publicado em 1982, inspira uma rota cultural a estabelecer por Lisboa, Loures e Mafra, “resgatando importantes elementos do património religioso, estético e turístico”, anunciou a organização.

“Pela primeira vez em Portugal, um livro dá origem a uma rota cultural, abarcando três municípios”, afirma a organização, em comunicado enviado à agência Lusa, referindo que este itinerário literário envolve as personagens do romance, nomeadamente os protagonistas, Blimunda e Baltasar, “o sonho utópico de voar de Bartolomeu de Gusmão e a devoção à música de Domenico Scarlatti, fazendo o passado histórico ganhar vida no presente”.

A Rota Memorial do Convento segue a narrativa de Saramago, que se torna um “ponto literário aglutinador de momentos e monumentos históricos e paisagísticos do século XVIII, entre Lisboa e Mafra, passando por Loures”, unindo “pontos de interesse patrimonial situados em Sacavém, Santo António dos Cavaleiros, Unhos, Santo Antão do Tojal, Fanhões, Malveira, Mafra e Cheleiros”.

O percurso, assinala a organização, cruza a rota da pedra e a dos materiais estéticos e religiosos de Lisboa para o Convento de Mafra, assinalando outros pontos históricos dos três concelhos, como o miradouro sobre o rio Trancão, o Palácio dos Arcebispos, em Santo Antão do Tojal, a igreja de Alcainça e o seu portal gótico, ou o passado histórico de Cheleiros, cuja produção vinícola foi famosa até ao século XIX.

A criação da rota celebra os 35 anos da publicação do “Memorial do Convento”, um “romance que revolucionou a literatura portuguesa” na época (1982), e homenageia José Saramago, único escritor de Língua Portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1998).

A Rota do Memorial do Convento é apresentada como “um projeto intermunicipal”, envolvendo Lisboa, Loures e Mafra, em que um dos parceiros estratégicos é a Fundação José Saramago. O projeto enquadra-se no Programa Operacional Regional de Lisboa 2014/2020, tendo um financiamento total de 392.397,20 euros, parcelado pelos três municípios: Lisboa, com a contribuição mais baixa, 41.272,94 euros, Loures, com 179.592,69 euros, e Mafra, com 171.531,57 euros.

A Rota segue através de bens imóveis classificados, da Praça do Comércio à Casa dos Bicos/Fundação José Saramago, em Lisboa, passa pelo Palácio dos Arcebispos, em Santo Antão do Tojal, no concelho de Loures, e pelo Palácio e Convento de Mafra.

O percurso previsto é o seguinte: em Lisboa, praça da Figueira e praça do Comércio, Casa dos Bicos, na rua dos Bacalhoeiros.

Em Loures, passa pela Biblioteca Municipal Ary dos Santos, onde está instalado um ponto de informação sobre a rota, pelo Miradouro sobre o Rio Trancão, em Sacavém, a Igreja de Unhos, o Centro de Acolhimento da Rota Memorial do Convento, no Museu Municipal de Loures, a Quinta do Conventinho, em Santo António dos Cavaleiros, o Centro de Acolhimento Turístico e Interpretativo da Rota Memorial do Convento, na Biblioteca Municipal José Saramago, na cidade de Loures, a praça Monumental, em Santo Antão do Tojal, e os largos do Coreto, em Fanhões, da Feira, na Malveira, e a Igreja de São Miguel, em Alcainça.

Em Mafra, a rota abarca a capela do Espírito Santo, Palácio Nacional, Miradouro de Vila da Velha, antigas Casas da Câmara e Pelourinho de Mafra e, finalmente, em Cheleiros, o largo da Igreja Matriz.

O estabelecimento da Rota prevê, com a coordenação do escritor Miguel Real, a produção de conteúdos de interpretação em suporte digital, multimédia (‘website’ e aplicativo móvel, ‘APP’) e, em papel, ações de ‘marketing’ turístico-cultural, realização de eventos de caráter internacional e diversas iniciativas de divulgação e promoção de índole técnico-científica.

Está previsto a colocação de sinalética explicativa nos pontos de interesse nos três concelhos, bem como o desenvolvimento de “cinco ações, dirigidas a diferentes tipos de público”, para a divulgação da Rota, designadamente no Congresso Internacional sobre a Obra de Saramago e no Festival Internacional de Música Barroca.

O itinerário pode começar ou terminar na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, em frente à qual foi plantada a oliveira trazida de Azinhaga do Ribatejo, terra natal do escritor, cujas raízes acolhem as suas cinzas.

A rota terá uma apresentação pública, na segunda-feira, na Fundação José Saramago, em Lisboa."

"Saramago pide cerrar todos los zoológicos del mundo" Palavras de José Saramago recordadas e recuperadas por César-Javier Palacios no blog "La crónica verde" (12/03/2009)

Palavras sob a forma de manifesto contra todas as formas de tortura animal.
Na época natalícia sempre voltam os circos e outros espectáculos de disfarçado entretenimento, mas que em si encerram práticas de maus tratos; terror; cárcere em condições de tortura e demais agressões infligidas aos animais.
Nesta data importa recordar as palavras de José Saramago 

"Saramago pide cerrar todos los zoológicos del mundo" 
Palavras de José Saramago recordadas e recuperadas por César-Javier Palacios no blog "La crónica verde", 12/03/2009

Aqui, 
em https://blogs.20minutos.es/cronicaverde/2009/03/12/saramago-pide-cerrar-todos-zoolaigicos-del-mundo/

"Otra vez el genial José Saramago, Premio Nobel de Literatura en 1998, vuelve a golpear en nuestras conciencias, soñando claro y fuerte con un mundo mejor al que se enfrenta tan sólo armado por la razón. Un mundo de respeto, más justo con las personas, pero también con los animales, el paisaje y todo lo que nos rodea.

Su último aldabonazo es en contra de los zoológicos y los espectáculos de circo con animales. Lo hace para defender algo tan aparentemente anecdótico como la vida de Susi, la pobre elefanta deprimida del zoológico de Barcelona de la que ya os hablé la semana pasada.

Os pongo a continuación el principio de su artículo Susi, publicado el paso 19 de febrero en su muy recomendable blog personal El cuaderno de Saramago, una dura crítica a estos centros de reclusión de animales que deberían cerrarse cuanto antes. Gracias maestro."

"Si yo pudiera, cerraría todos los zoológicos del mundo. Si yo pudiera, prohibiría la utilización de animales en los espectáculos de circo. No debo ser el único que piensa así, pero me arriesgo a recibir la protesta, la indignación, la ira de la mayoría a los que les encanta ver animales detrás de verjas o en espacios donde apenas pueden moverse como les pide su naturaleza. Esto en lo que tiene que ver con los zoológicos. Más deprimentes que esos parques, son los espectáculos de circo que consiguen la proeza de hacer ridículos los patéticos perros vestidos con faldas, las focas aplaudiendo con las aletas, los caballos empenachados, los macacos en bicicleta, los leones saltando arcos, las mulas entrenadas para perseguir figurantes vestidos de negro, los elefantes haciendo equilibrio sobre esferas de metal móviles. Que es divertido, a los niños les encanta, dicen los padres, quienes, para completa educación de sus vástagos, deberían llevarlos también a las sesiones de entrenamiento (¿o de tortura?) suportadas hasta la agonía por los pobres animales, víctimas inermes de la crueldad humana. Los padres también dicen que las visitas al zoológico son altamente instructivas. Tal vez lo hayan sido en el pasado, e incluso así lo dudo, pero hoy, gracias a los innúmeros documentales sobre la vida animal que las televisiones pasan a todas horas, si es educación lo que se pretende, ahí está a la espera."


Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

"Susi"
"Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais nos espectáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos. Mais deprimentes do que esses parques, só os espectáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis. Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje, graças aos inúmeros documentários sobre a vida animal que as televisões passam a toda a hora, se é educação que se pretende, ela aí está à espera."


"Perguntar-se-á a que propósito vem isto, e eu respondo já. No zoológico de Barcelona há uma elefanta solitária que está morrendo de pena e das enfermidades, principalmente infecções intestinais, que mais cedo ou mais tarde atacam os animais privados de liberdade. A pena que sofre, não é difícil imaginar, é consequência da recente morte de uma outra elefanta que com a Susi (este é o nome que puseram à triste abandonada) partilhava num mais do que reduzido espaço. O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis patas deste animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Eu sei que o mundo tem problemas mais graves que estar agora a preocupar-se com o bem-estar de uma elefanta, mas a boa reputação de que goza Barcelona comporta obrigações, e esta, ainda que possa parecer um exagero meu, é uma delas. Cuidar de Susi, dar-lhe um fim de vida mais digno que ver-se acantonada num espaço reduzidíssimo e ter de pisar esse chão do inferno que para ela é o cimento. A quem devo apelar? À direcção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?
P. S.: Deixo aqui uma fotografia. Tal como em Barcelona há grupos – obrigado - que têm pena de Susi, na Austrália também um ser humano se compadeceu de um marsupial vitimado pelos últimos incêndios. A fotografia não pode ser mais emocionante."

Publicado no blog "Outros Cadernos de Saramago", dia 19/02/2009 
e no livro que compila todas as publicações 







quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

"Caim"

(...) "Quem tu és, perguntou Caim, Cuidado, rapaz, se me perguntas quem sou estarás a reconhecer o meu direito a querer saber quem és, Nada me obrigará a dizê-lo, Vais entrar nesta cidade, vais ficar por aqui, mais cedo ou mais tarde tudo se saberá, Só quando tenha de ser e não por mim, Diz-me, ao menos, como te chamas, Abel é o meu nome, disse Caim." (...)
Caim, página 49
Caminho, 2009

domingo, 3 de dezembro de 2017

"Meditação sobre uma jangada" Texto de José Saramago publicado no jornal "Libération"

O texto pode ser recuperado e consultado na edição #55 da revista digital "Blimunda" de Dezembro de 2016, aqui em https://www.josesaramago.org/blimunda-55-dezembro-2016/

"Meditação sobre uma jangada"

"Algumas vezes este romancista, confundido nas malhas da ficção que ia tecendo, chegou a imaginar-se transportado na fantástica jangada de pedra em que transformara a Península Ibérica, flutuando sobre o mar atlântico, a caminho do Sul e da utopia. A peculiaridade da alegoria era transparente: embora prolongando algumas semelhanças com os motivos do mais comum dos emigrantes, que parte para outras terras e busca a vida, prevalecia, neste caso, uma diferença assaz substancial, a de também comigo viajarem, em tão inaudita migração, o meu próprio País, todo ele, e, sem que aos espanhóis tivesse pedido antes a devida licença, portanto sem procuração nem autorização, a Espanha. Ora, embalado nestas minhas imaginações, notava eu que nelas não entrava qualquer sentimento de pesar, de tristeza, de aflição mais ou menos pânica, nem sequer, para tudo dizer na inevitável e tópica palavra portuguesa – saudade. Compreender-se-á já porquê. É certo que, e pelos vistos irremediavelmente, me ia afastando da Europa, mas os tecidos vitais da barca imensa que me levava continuavam a alimentar as raízes da minha identidade mais profunda e da minha pertença colectiva: logo, não encontrava em mim razões para chorar um bem perdido, se realmente assim podia ser designado o que antes ganho não tinha sido, mesmo tendo tão pouco de bem.
Para não cairmos nos cansados braços da banalidade e da redundância não nos tentaremos a repetir aqui o catálogo longuíssimo das maravilhas europeias, desde os gregos e os latinos até aos felizes dias de hoje. Por demais sabemos que a Europa foi madre ubérrima de culturas, farol inapagável de civilização, lugar onde, com o passar do tempo, haveria de instituir-se o modelo humano que, seguramente, mais próximo está do projecto que Deus tinha em mente quando colocou no paraíso o primeiro exemplar da espécie. Pelo menos, é desta maneira idealizada que os europeus costumam ver-se no espelho de si mesmos, e essa é a servil resposta que a si mesmos invariavelmente vêm dando: «Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu até hoje.» Dito o que seria a altura de começar a redigir a decerto não menos longa acta dos desastres e horrores europeus, que acabaria por levar-nos à conclusão deprimente de que a famosa batalha que celeste, afinal, não foi ganha por Jeová mas por Lucifer, e que o único habitante do paraíso teria sido a serpente, encarnação tangível do mal e seu emblema gráfico, que não precisou de macho, ou de fêmea, se macho era, para proliferar em número e qualidade. Não faremos pois a acta, como não fizemos o catálogo. Antes cobriremos piedosamente o espelho para que não venha a ser pronunciada, sequer, a primeira palavra da resposta. 
E agora basta de escatologias e ficções. De um ponto de vista ético abstracto, a Europa não tem mais culpas no cartório da história que outra qualquer parte do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, exercendo-se, como no-lo está dizendo o senso comum, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas que, ainda que variável no tempo e no espaço, permanece como uma presença calada e rigorosa que, com o seu olhar fixo, nos pede contas todos os dias. Suponho que estamos vivendo o tempo em que a
Europa deveria apresentar a juízo o balanço da sua gestão, se não pretende prolongar, com o requinte de processos que os modernos meios de comunicação de massa permitem, o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos. Já não falo das guerras, das invasões, dos genocídios, das eliminações selectivas, falo sim da ofensa grosseira que é, além dessa espécie de deformação congénita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa, por assim dizer, eurocêntrica em relação a si mesma. Para os estados europeus ricos e, segundo a opinião narcísica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa é algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção da antropologia e da arqueologia, mas onde, apesar de tudo, contando com as adequadas colaborações locais, ainda se podem fazer alguns bons negócios. Ora, não haverá no futuro próximo uma nova Europa se esta não instituir frontalmente como entidade moral, e também não a haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que quantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. Tenho obviamente presente a importância dos factores económicos, militares e políticos na formação das estratégias continentais e seu enquadramento nas geoestratégias globais, mas, sendo por fortuna ou desfortuna homem de livros e de letras, considero meu urgente dever lembrar que as hegemonias culturais de hoje resultam, fundamentalmente, de um processo duplo e cumulativo de evidenciação do próprio e de ocultação do alheio que teve a habilidade de impor-se como inelutável, favorecido, quase sempre, pela resignação, quando não pela cumplicidade das próprias vítimas. Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de culturas venho falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. As culturas, é tempo de começar a entendê-lo Europa, e entendida tente ficar de uma vez para sempre, não são melhores nem piores umas que as outras, não são mais ricas nem mais pobres. Pelo destino, valem-se e equivalem-se, e pela diferença, assumida e aprofundada, é que se justificam. Não há, e esperemos que não venha a haver nunca, uma cultura una e universal. A Terra, sim, é única, mas o ser humano não o é. Cada cultura criada pelos homens deverá ser, em si mesma, um universo comunicante: o espaço que as separa umas das outras é o mesmo espaço que as liga, tal como o mar, aqui na Terra, separa e liga os continentes.
Esse romance - «Le radeau de Pierre» - em que arranco a Península Ibérica à Europa, não seria necessário dizê-lo, é o efeito, talvez último, de um ressentimento histórico. Provavelmente, só um português poderia ter escrito tal livro. Mas o seu autor, este autor, declara que estaria pronto a fazer regressar do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido de vitalmente necessário durante a sua navegação, se a Europa, reconhecendo-se, de facto, incompleta sem a Península Ibérica, viesse a fazer pública confissão dos erros cometidos, das injustiças e dos desprezos com que durante tantos anos tratou dois povos a quem deve muito mais do que aquilo que tem querido reconhecer. Porque, enfim, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que devo exigir-lhe é que ame a todos os seus filhos por igual e, sobretudo, que por igual os respeite a todos." 
Texto publicado originalmente no jornal Libération

José Saramago "O caos é uma ordem por decifrar"


José Saramago e José Santa-Bárbara

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago" via DN por João Céu e Silva (02/01/2017)

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago"
via DN por João Céu e Silva (02/01/2017)

Pode ser consultada e recuperada aqui
em https://www.dn.pt/artes/interior/o-convento-de-mafra-esta-habitado-pelo-espirito-de-saramago-5581060.html

"Pilar del Rio junto ao Convento de Mafra" - Gustavo Bom/Global Imagens

"Pilar del Rio foi a Mafra com o DN e recorda a construção do romance Memorial do Convento a partir das histórias que o escritor lhe contou

Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa foi razão pela qual em Mafra se erigiu um convento de dimensões tão exageradas que só a megalomania do rei D. João V, o falso voto de pobreza dos Franciscanos, a ausência de sucessão dinástica nacional e o ouro vindo do Brasil justificaram.

Mafra não ficava assim tão distante da capital do reino: 25 quilómetros. Mas o edifício que ali se iria fazer crescer era uma coisa nunca vista. Que começa por ser pequeno, apenas para 13 frades franciscanos, número que foi engordando para 40 frades, depois 80 e fechou-se o negócio entre a Ordem e o monarca com lugar para 330 hóspedes religiosos.

Os ecos das vozes de quem construiu o convento mantém-se nas compridas alas, salas, capelas e inúmeras divisões desde que há trezentos anos foi posta a primeira pedra no local, no dia 17 de novembro de 1717. Nos treze anos seguintes, 52 mil trabalhadores fizeram as fundações, subiram os pilares e cobriram a imensa área com tetos de todos os géneros, estando a basílica pronta para ser consagrada no dia do 41º aniversário de D. João V e com festa rija durante toda a semana seguinte.

Apesar de tão desejada, a herdeira do reino, Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa nunca conheceu a magnífica obra de Mafra. Casou com o futuro rei espanhol, D. Fernando VI, levando consigo o músico italiano Domenico Scarlatti, que fora contratado para educar a princesa.

Quem for ao Convento de Mafra hoje em dia também não deixará de ouvir esses ecos que replicam tudo o que se passou desde então entre aquelas paredes três vezes centenárias porque o edifício foi tendo várias vidas além da dos franciscanos, sendo a última a presença etérea e constante provocada pelas personagens do romance de José Saramago, o Memorial do Convento. E esses ecos que vêm de uma sala ao fim de seis lances de escadas tornam-se cada vez mais reais conforme o visitante se aproxima do antigo solário onde os frades se banhavam ao sol, porque ali está a decorrer uma representação teatral que condensa esta obra do Prémio Nobel da Literatura.

Gustavo Bom/Global Imagens

Algumas dezenas de jovens - os que hoje dominam a plateia - escutam atentos a dramatização do Memorial do Convento e absorvem as grandes linhas históricas dos acontecimentos. Há olhares de cumplicidade entre uns e outros quando se escutam as falas dos dois camareiros que recordam as dificuldades da rainha em engravidar, uma deixas brejeiras qb; surpreendem-se quando veem a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão voar, e apreendem os mistérios de uma das principais personagens femininas inventadas por Saramago: Blimunda.

Estampa antiga onde se pode ver o Palácio Nacional de Mafra há mais de um século

Também percebem que o escritor não descreve a princesa como nos contos de fadas, pois esta tem cara de lua cheia e é bexigosa.

Nem o rei sai bem desta ficção em que o autor pretende mostrar o estatuto da aristocracia e do alto clero em contraponto ao do povo e dos oprimidos. Os alunos identificam-se com a peça e saem do Convento com outra opinião sobre o romance. Diogo gostou, principalmente porque o está a ler e compreendeu melhor a narrativa; Raquel ficou "com vontade de ler o livro". A responsável por estas representações, Filomena Real, já tinha avisado desta boa receção por parte das escolas que vêm de autocarro desde Bragança, por exemplo, para as duas sessões diárias: "Há dez anos que fazemos as representações e eles gostam, tal como os adultos que visitam o Convento."

Estas representações do grupo teatral Éter não acontecem apenas no Convento de Mafra, também as há na Fundação José Saramago, um local onde os atores da companhia ficam mesmo entre os visitantes da Casa dos Bicos.

Um gancho em vez da mão

Entre os personagens de o Memorial do Convento está Baltazar Sete-Sóis, que surge com a mão esquerda escondida por "um gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão". É como Saramago o descreve ainda não vai à página 50, sendo que uma dúzia de páginas à frente surge Blimunda, aquela que de manhã é obrigada "a comer pão, de olhos fechados" para não ver o que se passa no interior de Baltazar.

No ano em que se cumprem 35 anos do lançamento do romance, Pilar del Río, a viúva de José Saramago, recorda a sensação que teve ao confrontar-se com a sua leitura: "Foi o primeiro que li dele e achei muito curioso que se intitulasse Memorial do Convento. Li a primeira página numa livraria, onde estava com quatro amigas. Gostei logo tanto que comprei quatro exemplares para lhes oferecer. Depois de acabar de ler, voltei à livraria e pedi todos os outros livros do autor. Todos, era apenas O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando terminei de o ler o segundo, senti-me obrigada a vir a Lisboa por causa do meu deslumbramento perante o Memorial."

O que contribuiu para esse deslumbramento, pergunta-se a Pilar del Río: "O que me impressionou foi o facto de ser uma leitura tão moderna e contemporânea da História e do comportamento dos homens e das mulheres." Lembra-se de que enquanto o ia lendo parava a cada duas páginas: "Queria convencer-me de que estava a ler um autor contemporâneo. Nunca tinha ouvido falar de Saramago, não sabia quem ele era! Mas dizia para mim: isto está escrito num registo que é clássico, sublime, no entanto, é de um autor contemporâneo. Ia lendo e dizia: não, ele não é deste tempo, isto é uma leitura progressista e contemporânea da História. Por isso, li este livro num estado de exaltação."

Foi então que pediu para se encontrar com o autor: "Queria agradecer-lhe ter escrito o livro. Perguntei se podíamos tomar um café, disse-lhe que era jornalista mas vinha sem intenção de o entrevistar. Sabia de antemão que logo que o conhecesse iria querer escrever sobre ele, mas dessa vez nem gravador trouxe. O interesse era ter a perceção direta de como era o autor."

Para Pilar del Río este não é o livro mais político de José Saramago. "Livros políticos não lhe faltam", diz, e dá exemplos: Ensaio sobre a Cegueira, Caim, Evangelho segundo Jesus Cristo... "Os livros são todos políticos, este é um livro de uma beleza extraordinária, sobre o qual Saramago disse depois que estava a descrever a estátua, tal como no Evangelho, mas a partir do Ensaio sobre a Cegueira sentiu que já não queria descrever a estátua mas a pedra da qual é feita", explica.

Quanto à grande presença da religião em o Memorial, refere: "Está sempre presente na obra de Saramago, porque também o está em todos os seres humanos - sejam ou não crentes. Também existe em Levantado do Chão ou em Intermitências da Morte, quando a Igreja não quer que as pessoas sejam eternas para não deixar de ter sentido."

A história da escrita do Memorial do Convento começa com uma visita a Mafra do escritor, onde confessa aos amigos que o acompanhavam [entre eles a anterior mulher do autor, Isabel da Nóbrega] que "gostaria de meter o Convento num livro". Será que o conseguiu, questiona-se: "E de que maneira! Mas foram os amigos, sempre muito insistentes, que o lembravam da promessa e lhe perguntavam: "Então, já meteste o Convento de Mafra num romance?" Saramago sentiu-se pressionado a escrever e ainda bem, porque o livro tem uma grande beleza."

Será que o convento é olhado de um outro modo após a publicação do romance em 1982? Pilar del Río é muito direta na resposta: "Ainda há dias vim cá com vários amigos espanhóis que não o conheciam e eles ficaram fascinados com a "presença" das personagens do romance que andavam pelo edifício, a Blimunda, Bartolomeu... Não há dúvida, este convento está habitado pelo espírito de Saramago."

Essas personagens não surgiram por acaso, como explica: "A música de Scarlati está no romance porque fazia parte da vida de Saramago." Recorda a leitura de um caderno de notas do escritor em que percebe a evolução das personagens: "Elas vão entrando no livro e Saramago, que queria colocar a contradição entre os nobres e o povo, vai notando a imposição de Blimunda. Porque ela não nasce com essas capacidades que vem a ter na narrativa. Tanto Blimunda como a Mulher do Médico [do Ensaio sobre a Cegueira] são duas grandes personagens femininas, que têm muito de parecido, que vão crescendo com a obra mas não faziam parte do projeto inicial naquela dimensão."

Após a enumeração de vários títulos do escritor, pergunta-se qual é o romance de Saramago de que mais gosta? "Tem dias, Cada dia gosto mais de um livro do que doutro e depende do estado de alma. Tendo muito a ir ao Evangelho, porque é um livro que tem reflexões muito sérias e que acompanha as pessoas que possam sentir determinadas ausências", diz. Depois de relidos há os que ficam lidos para sempre? "Não, leio-os por prazer e por obrigação. Acabei de ler a Jangada de Pedra por causa da montagem de uma peça no México. Li recentemente as Intermitências." E quando os relê compreende o livro de outra forma? "Sim, principalmente aqueles a que eu não assisti enquanto Saramago os escrevia. Quando leio aqueles a que acompanhei o processo de escrita, distraio-me a pensar nos acontecimentos desses dias: se tínhamos uma visita, se cozinhei certa coisa. Por isso, nesses primeiros livros, não tenho a distração de outros pensamentos, é só o livro."

No que respeita ao Memorial, Pilar del Río não deixa de recordar "os passeios a sós ou acompanhados por todas estas salas do convento. Ele não precisou de muitas horas a fazer consultas na biblioteca, mas tomava notas sobre como se vestiam as pessoas na época ou o que comiam. Coisas que poderiam ou não entrar no livro; e muitas outras que não precisava de saber. Também passeava por aqui para se aperceber da temperatura, se era frio ou quente, detalhes que não entravam no livro, mas de que precisava de se impregnar. Explicou-me onde vivia a família de Sete-Sóis, onde decorriam os trabalhos, o caminho por onde veio a pedra desde Pero Pinheiro." Terá sido o livro que exigiu mais investigação? Não, diz: "Os romances de Saramago exigiram sempre muita investigação."

Atuações populares

Quando os ecos da representação da peça terminam, o silêncio regressa ao convento de Mafra. Mas, em muitos locais do mundo, há atores a representar José Saramago. Segundo Pilar del Río, "neste momento A Barraca interpreta Ricardo Reis, no ano passado foi Claraboia; a Viagem do Elefante, a Ilha Desconhecida e o Memorial estão a ser representados quase todos os dias da semana. No dia 12 vai estrear o Homem Duplicado em Madrid, o Ensaio sobre a Cegueira está em Itália, nos EUA estão duas óperas e no México a Jangada de Pedra."

Cá fora do convento, há quem não tenha sido atriz na peça de Saramago, mas personagem em representações comemorativas deste património. É o caso de Clara Reis (1933) que já fez de ama da princesa e até trouxe a neta para ser uma das crianças: "Já trabalhei em várias recriações históricas, com fatos de época e perante muito público. Guardo com muito carinho as fotografias desses momentos."

"José Saramago, en sus palabras, de Fernando Gómez Aguilera" via "Libros Y Literatura" (28/12/2016)

A presente resenha pode ser recuperada e consultada aqui


"El paso del tiempo hace que todo se olvide y ponerse a pensar en que dentro de una o dos generaciones tras nuestra partida pocos se acordarán de nosotros, es entrar en un terreno del cual uno no puede menos que salir angustiado. Para ser recordados por largo tiempo, muchos seres humanos intentan sobresalir en diversas actividades; así, disfrutaremos de por vida la música de Beethoven, los cuadros de Picasso o los goles de Maradona. En todas las formas posibles del arte, los artistas buscan el paso a la eternidad. Saramago, para quienes lo leímos, lo leemos y lo leeremos, es y será inmortal, tal vez no porque haya buscado en vida esa eternidad, sino, sobre todo, por haber vivido y honrado la vida sin pensarla como un camino a transitar para llegar a lo que, dicen, viene después, sino por haberla transcurrido con una responsabilidad terrenal y cotidiana que lo llevó a comprometerse más allá de las cómodas quejas desde el sofá.

José Saramago en sus palabras es una recopilación de centenares de frases, pensamientos y declaraciones en la prensa que el Nobel de Literatura hizo desde la segunda mitad de los años setenta hasta comienzos de 2009. De esta manera, no solo podremos ir recorriendo su pensamiento a lo largo del tiempo, sino sobre todo confirmando algo que los que lo conocemos no necesitamos ratificar: su capacidad crítica, inteligencia, lucidez y libertad a la hora de decir lo que sentía, sin censuras y poniendo siempre el eje en la defensa de los excluidos y la reivindicación de los derechos humanos.

Fernando Gómez Aguilera, poeta, ensayista y filólogo, fue el encargado de recolectar las palabras del genio portugués y es digno de destacar su trabajo, que, a lo largo de más de 500 páginas, nos ofrece un panorama completo acerca de los valores éticos de Saramago. El libro en sí, está estructurado en tres grandes capítulos (Quien se llama Saramago, Por el hecho de ser escritor y El ciudadano que soy) que a su vez se dividen en decenas de temas que abarcan todo el mundo opinable del autor, entre los que podemos destacar los dedicados a Dios, el pesimismo, la muerte, la literatura, la historia, el comunismo, Europa o Sudamérica.

Particularmente, no pude despegarme del libro en el apartado “novela” en el que se recopilan todas las declaraciones de Saramago sobre los diferentes libros que fue publicando y que me permitieron descubrir muchos datos no conocidos sobre el “detrás de escena” de la creación de sus publicaciones. “Lanzarote”, donde cuenta su relación con esa isla española en la que residió hasta el final de sus días, es también muy interesante, porque narran el dolor que le causó tener que dejar su país, pero al mismo tiempo el hecho de, a una edad avanzada, encontrar un lugar en el mundo y volver, de alguna manera, a comenzar.



Disfruté del libro tanto como sus mejores novelas y a medida que iba leyéndolo, reconocía una vez más que la línea entre escritor y ciudadano, en Saramago, no existió nunca, ya que en la vida no ficcionada mantenía los mismos valores y el mismo compromiso con el mundo que, en forma de parábolas, mostraba en sus grandes éxitos literarios.

Recomiendo Saramago en sus palabras a todos aquellos lectores del mundo que, al menos, haya leído cinco o seis de sus novelas, ya que este libro actuará como un excelente complemento para su obra literaria y al mismo tiempo como un buen compendio de su enorme y eterna sabiduría."

"Projeto de leitura: 1 ano com Saramago" apresentado por Tânia Ardito do blog "Corpo de Escrita"

Fazemos aqui divulgação de um projecto de leitura sobre a obra de José Saramago e sua temática reflexiva.

O "Projeto de leitura: 1 ano com Saramago" pode ser consultado aqui
em https://corpodaescritablog.wordpress.com/projeto-de-leitura-1-ano-com-saramago/



A mentora do projecto, Tânia Ardito, deixa no seu post as principais directivas.
Parece apaixonante!
Será uma viagem a sério, e os leitores saramaguianos poderão aproveitar para revisitar entre tantos outros, Salomão e o cornaca Subhru; a Lídia; o inevitável Caim; os mistérios de Blimunda e Baltasar; a mulher do médico e o cão das lágrimas; Pessoa que esgota aos seus últimos 9 meses; Artur Paz Semedo; a morte e seu desafiador violoncelista; o presidente da câmara; Tertuliano Máximo Afonso e o experimentalismo com os outros "eus" por descobrir; Mogueime e Ouruana; o confronto de gerações dos Mau-Tempo com os "Bertos"; Cipriano Algor e por fim o melancólico senhor José.

Aqui fica a menção!

"Olá,

Finalmente de volta ao blog! Estive afastada por excesso de trabalho, mas estou de volta e por um bom motivo;  anunciar o Projeto de Leitura: 1 ano com Saramago.

Os meus amigos e os frequentadores do espaço cultural, que gerencio, já estão a par do projeto,  anunciado no dia 4 de novembro.

A proposta é homenagear e lembrar os 20 anos da atribuição do Prêmio Nobel a José Saramago, com início em novembro de 2017 e término previsto para o dia 16 de novembro de 2018 (data do aniversário do escritor).

Além da leitura, resenha e diário do projeto, também estou organizando eventos sobre o tema na Casa Subversa, que é o espaço da Revista Subversa na cidade do Porto, Portugal.

Quando anunciei o projeto, estava presente a Danielle do instragam Leitura Azul e do blog Cantinho de Tudo e ela topou participar do desafio 🙂 Abaixo, deixo a lista dos livros escolhidos para leitura ao longo do ano.

MÊS                         LIVRO
NOVEMBRO/2017 A Viagem do Elefante
DEZEMBRO/2017 Claraboia
JANEIRO/2018         Caim
FEVEREIRO/2018 Memorial do Convento
MARÇO/2018         Ensaio Sobre a Cegueira
ABRIL/2018    Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas / O ano da morte de Ricardo Reis
MAIO/2018                As Intermitências da Morte
JUNHO/2018               Ensaio Sobre a Lucidez
JULHO/2018               O Homem Duplicado
AGOSTO/2018      História do Cerco de Lisboa
SETEMBRO/2018      Levantando do Chão
OUTUBRO/2018      A Caverna
NOVEMBRO/2018     Todos os Nomes


Para quem quiser acompanhar o desenvolvimento, além do update aqui no blog, também poderá ter mais notícias através do instagram @corpodaescrita e se estiver pela cidade do Porto, ir aos eventos da Casa Subversa e ver os registros do diário que ficará disponível ao público.

Update: Deixo aqui a explicação de como participar 🙂

O projeto de leitura, consiste em acompanhar a lista de leitura e postar comentários com a #1anocomsaramago. Poderá partilhar através do Instragam, Twitter, ou Facebook. A postagem precisa ser pública para todos verem. Todos os comentários eu irei anotar no diário de leitura, que tentarei disponibilizar ao público quando o projeto chegar ao fim. Poderá também fazer os comentários no blog Corpo da Escrita
Poderá acompanhar tudo através da nossa página do Facebook: Corpo da Escrita ou do instragram @corpodaescrita
Caso for do Porto, poderá participar dos eventos e Clube de leitura ao longo do ano. Caso não morar na cidade, irei informar quando os eventos forem realizados em outras localidades."


“A Viagem do Elefante. De la novela al juego." Projecto da COMTECART (Via Cátedra Saramago - II Jornadas Internacionais José Saramago da Universidade de Vigo)

Novidades da 1.ª Comunicação das II Jornadas Internacionais José Saramago

Projecto da COMTECART
Foi apresentado o que será um jogo para ser jogado em plataformas digitais baseado na 
obra de José Saramago “A Viagem do Elefante"

Aqui mais informação sobre os trabalhos da 1ª Comunicação das II Jornadas

"A primeira comunicação nas II Jornadas Internacionais José Saramago, oferecida por estudantes de Comunicação Audiovisual e Engenharia de Telecomunicação da Universidade de Vigo, terá lugar na segunda-feira, dia 4 de dezembro, às 15h30 na Casa das Campás e tem como título

“A Viagem do Elefante. De la novela al juego. 
Viaje a través de las fronteras de distintas disciplinas académicas”

A partir das 16h15, realizar-se-á uma visita guiada na Sala de Informática da Casa das Campás, onde o grupo ComTecArt preparou uma exposição dos vários videojogos realizados a partir de A Viagem do Elefante de José Saramago.

Resumo

El Columbograma de Duarte, Hard Trip, Proyecto Elefante, La MuuHeredera, son los nombres bajo los cuáles alumnos de Comunicación Audiovisual e Ingeniería de Telecomunicación de la Universidade de Vigo están desarrollando los proyectos de videojuegos que están inspirados en fragmentos de la novela A Viagem do Elefante de José Saramago. Un proyecto apasionante a través del cual se intenta replicar en el seno universitario la forma de funcionar y trabajar en la industria del entretenimiento digital actual. La tecnología ha promovido la digitalización y esta conlleva un cambio en el paradigma creador y en la forma de desarrollar los contenidos. Los equipos son multidisciplinares y están integrados en por perfiles de profesionales cuya formación es totalmente estanca. Esta estanqueidad es la que se quiere romper a través de este proyecto impulsado por el Grupo de Innovación Docente ComTecArt. Donde docentes de las áreas Comunicación Audiovisual, Ingeniería de Telecomunicación y Bellas Artes, quieren romper las fronteras entre estas áreas.

Grupo de Inovação Docente ComTecArt da Universidade de Vigo: Beatriz Legerén, Antonio Pena, Kike Costa e Mónica Valderrama são os docentes que participam. Mais informação em comtecart.blogspot.com.




"¿Qué es ComTecArt?
ComTecArt (Comunicación, Tecnología y Arte) nace como una innovación docente para combinar distintas titulaciones de la Universidad de Vigo: Ciencias sociales (Publicidad y Comunicación Audiovisual), Telecomunicaciones y Bellas Artes.

El primer proyecto, realizado ahora mismo por 30 alumnos de Ingeniería de telecomunicaciones y Comunicación audiovisual, consiste en la realización de un videojuego a través de las palabras del libro El viaje del elefante, obra del portugués José Saramago. Se trata de un trabajo conjunto entre tres grupos de 6 personas y uno de 4, mezclando alumnos de las dos titulaciones para crear, por un lado, la parte artística y, por el otro, la técnica. Estos grupos de trabajo se reúnen cada miércoles, alternando las facultades de Vigo y Pontevedra. 

“A iniciativa xurdiu francamente por casualidade”, relata Beatriz Legerén, profesora en la titulación de Comunicación Audiovisual, en la reciente entrevista para la radio Escaparate (radio de la Universidad de Vigo). El motivo por el que se ha escogido este autor ha sido porque “moitos xogos teñen que ver con viaxes e coa superación de obstáculos”, tal y como es la temática del libro. 

Cada grupo de trabajo (bajo los nombres de Amixogos, Cavitel, Adage studios y Gamestorming studios), tiene su propio proyecto de videojuego partiendo cada uno de un fragmento distinto de El viaje del elefante, de modo que hay cuatro videojuegos totalmente diferentes en cuanto a temática, personajes y diseño. 

Reunión tras reunión, los proyectos van cogiendo su forma. Dentro de poco os presentaremos los distintos grupos de trabajo, para que conozcáis quiénes están detrás de todo esto. 

¡Hasta más ver!"





Azinhaga Golegã

José Saramago
Fotografia de infância

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Juan Cruz da TVCanariados entrevista José Saramago (06/2000)

"Esta es la entrevista que realizó el periodista Juan Cruz al escritor portugués José Saramago
en el mes de junio de 2000, en su casa de Lanzarote."

José Saramago (entrevista, primera parte)

José Saramago (entrevista, segunda parte)

José Saramago (entrevista, tercera parte)

José Saramago (entrevista, cuarta parte)

José Saramago (entrevista, quinta parte)

De Miguel Koleff "EL PERRO DE LAS LÁGRIMAS y otros ensayos de Literaturas Lusófonas" Ferreyra Editor e Facultad de Lenguas (da UNC Universidad Nacional de Córdoba) 2017

De Miguel Koleff 
"EL PERRO DE LAS LÁGRIMAS y otros ensayos de Literaturas Lusófonas" 
Ferreyra Editor e Facultad de Lenguas (da UNC Universidad Nacional de Córdoba) 2017

(...) el escrito titulado El perro de las lágrimas, que se interroga acerca de lo que determina la humanidad de un ser vivo." (...) 
página 13 do Prólogo (de Marisa Leonor Piehl - Cátedra Libre José Saramago)

Se destaca o capítulo "José Saramago"
Carne Cruda, p57
El voto en blanco, p60
El perro de las lágrimas, p64
Las fieras, p67
Piedad de léon, p71
Corpus, p75

Um abraço ao amigo Miguel Koleff cujo trabalho sobre as literaturas e "letras do mundo" é de um enorme prazer poder acompanhar mesmo que com um oceano por meio.

"José Saramago inspirou-se em Leonard Cohen" via TSF (07/11/2017) - Narração de Fernando Alves de trecho da "História do Cerco de Lisboa"

"José Saramago inspirou-se em Leonard Cohen" é o titulo da crónica de Fernando Alves na "Manhã TSF" de 07/11/2017, onde faz leitura parcial da página 93 da "História do Cerco de Lisboa".  
Aqui se recupera em
https://www.tsf.pt/cultura/musica/interior/cohen-e-saramago-8899531.html

"No dia em que assinalamos o primeiro aniversário da morte de Leonard Cohen, recordamos o romance de Saramago em que o cantor canadiano ocupa uma página."

Foto: Fernando Farinha/Global Imagens

"Também José Saramago encontrou em Leonard Cohen inspiração. Valeu pelo menos uma página, a 93 do romance "História do Cerco de Lisboa", editado em 1989.

A figura central do romance é Raimundo Silva, um revisor de textos que comete propositadamente um erro ao rever um livro sobre a história do cerco de Lisboa. Raimundo acrescenta um "não" a uma frase e isso muda o sentido de toda a história.

A editora tenta remediar o problema com a publicação de uma errata e contrata uma supervisora cuja tarefa é orientar o trabalho do revisor. Mas esta percebe que Raimundo não vai admitir qualquer alteração e incentiva-o a reescrever a sua própria história do Cerco de Lisboa, agora sem a ajuda dos cruzados.

Raimundo e Sara viveram o seu próprio romance, mas essa é já outra história. E há Lisboa, em fundo. A Lisboa em que Raimundo, na página 93 do romance de Saramago, escuta na televisão o cantor Leonard Cohen."

Narração de Fernando Alves
(...) "Agora um homem aparece sozinho, deve estar a cantar apesar de mal se lhe moverem os lábios, o dístico dizia Leonard Cohen, e a imagem olha para Raimundo Silva insistentemente, os movimentos da boca articulam uma pergunta, Por que não queres ouvir-me, homem sozinho, e certamente acrescenta, Ouve-me agora porque depois será demasiado tarde, após um video-clip vem outro, não se repetem, isto não é um disco que possas fazer voltar atrás mil e uma vezes, é possível que eu volte, mas não sei quando e tu talvez já aqui não estejas nesse momento, aproveita, aproveita, aproveita. Raimundo Silva inclinou-se para a frente, abriu o som, o gesto de Leonard Cohen foi como se agradecesse, agora podia cantar, e cantou, disse as coisas que diz quem viveu e se pergunta quanto e para quê, quem amou e se pergunta a quem e porquê, e, tendo feito as perguntas todas se acha sem resposta, uma só que fosse, é o contrário daquele que afirmou um dia que as respostas estão todas por aí e que nós não temos mais que aprender a fazer as perguntas. Quando o Cohen se calou, Raimundo Silva tornou a cortar o som, e logo a seguir desligou de todo o aparelho. A saleta, interior, tornou-se de repente noite negra, e o revisor pôde levar as mãos aos olhos sem que ninguém o visse." (...)
in "História do Cerco de Lisboa (1989), Caminho - 2.ª edição (página 93) 

Edição #66 da revista "Blimunda" em formato digital para descarregar gratuitamente

A edição pode ser consultada e descarregada gratuitamente aqui
em https://www.josesaramago.org/blimunda-66-novembro-2017/

"Com o objetivo de tornar a leitura mais agradável, o formato da Blimunda foi alterado. O leitor perceberá as mudanças já neste número #66 da revista, que tem como um dos destaques a conversa de Sara Figueiredo Costa com Sandro William Junqueira a propósito de Quando as Girafas Baixam o Pescoço, o seu mais recente romance. Andreia Brites conversou com a ilustradora espanhola Ana Pez, autora de O meu irmão invisível. Na secção Saramaguiana recupera-se um texto escrito pelo crítico literário César António Molina em 1985, ano de publicação da edição espanhola de O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Numa tradução de Carla Fernandes, a revista dá a conhecer aos leitores a voz do escritor britânico Peter Kalu num dos capítulos de Little Jack Horner. No seu espaço habitual, Andréa Zamorano reflete sobre o sal da escrita. E, assinalando a edição dos Dias do Desassossego’17 – programa que a Fundação José Saramago organiza em conjunto com a Casa Fernando Pessoa – a Blimunda inclui uma galeria de imagens para recordar como o mês de novembro em Lisboa foi repleto de livros, leituras e extraordinários encontros. Boas leituras!"

"A capa da Revista Blimunda deste mês de novembro, 
que estará disponível hoje, assinalando o 
último dos Dias do Desassossego'17. 
Neste número, para além dos conteúdos a merecer leitura, 
uma mudança no formato da revista, com assinatura, 
como sempre, de Jorge Silva/Silvadesigners."
Via página do Facebook da FJS, aqui em https://www.facebook.com/fjsaramago/

"Problema de Homens" crónica publicada a 27/07/2009

A presente crónica foi publicada originalmente no blog "Outros Cadernos de Saramago" a 27/07/2009 e pode ser aqui consultada e recuperada em http://caderno.josesaramago.org/54038.html 
A compilação dos textos em papel foi editada nos 2 volumes "O Caderno" e que agrega todos os textos de Setembro de 2008 a Novembro de 2009.
Na página da Fundação José Saramago, na secção "Memória" está também disponível através do link, em https://www.josesaramago.org/problema-de-homens-texto-publicado-no-blogue-a-27-de-julho-de-2009/


Capa da edição "O Caderno 2" 


"Problema de Homens" 

"Vejo nas sondagens que a violência contra as mulheres é o assunto número catorze nas preocupações dos espanhóis, apesar de que todos os meses se contem pelos dedos, e desgraçadamente faltam dedos, as mulheres assassinadas por aqueles que crêem ser seus donos.
Vejo também que a sociedade, na publicidade institucional e em distintas iniciativas cívicas, assume, é certo que só pouco a pouco, que esta violência é um problema dos homens e que os homens têm de resolver.
De Sevilha e da Estremadura espanhola chegaram-nos, há tempos, notícias de um bom exemplo: manifestações de homens contra a violência. Até agora eram somente as mulheres quem saía à praça pública a protestar contra os contínuos maus tratos sofridos às mãos dos maridos e companheiros (companheiros, triste ironia esta), e que, a par de em muitíssimos casos tomarem aspectos de fria e deliberada tortura, não recuam perante o assassínio, o estrangulamento, a punhalada, a degolação, o ácido, o fogo. A violência desde sempre exercida sobre a mulher encontrou no cárcere em que se transformou o lugar de coabitação (neguemo-nos a chamar-lhe lar) o espaço por excelência para a humilhação diária, para o espancamento habitual, para a crueldade psicológica como instrumento de domínio.
É o problema das mulheres, diz-se, e isso não é verdade. O problema é dos homens, do egoísmo dos homens, do doentio sentimento possessivo dos homens, da poltronaria dos homens, essa miserável cobardia que os autoriza a usar a força contra um ser fisicamente mais débil e a quem foi reduzida sistematicamente a capacidade de resistência psíquica. Há poucos dias, em Huelva, cumprindo as regras habituais dos mais velhos, vários adolescentes de treze e catorze anos violaram uma rapariga da mesma idade e com uma deficiência psíquica, talvez por pensarem que tinham direito ao crime e à violência. Direito a usar o que consideravam seu. Este novo acto de violência de género, mais os que se produziram neste fim-de-semana, em Madrid uma menina assassinada, em Toledo uma mulher de 33 anos morta diante da sua filha de seis, deveriam ter feito sair os homens à rua.
Talvez 100 mil homens, só homens, nada mais que homens, manifestando-se nas ruas, enquanto as mulheres, nos passeios, lhes lançariam flores, este poderia ser o sinal de que a sociedade necessita para combater, desde o seu próprio interior e sem demora, esta vergonha insuportável. E para que a violência de género, com resultado de morte ou não, passe a ser uma das primeiras dores e preocupações dos cidadãos. É um sonho, é um dever. Pode não ser uma utopia."
José Saramago
In "O Caderno 2", edição Caminho, páginas 182 a 184
(meu negrito)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"Why a classic portuguese novel should be on your to-read list" By Sarah Ládípọ̀ Manyika (Via OZI.COM) - 26/11/2017 - com incidência na tradução "Blindness" obra de José Saramago (original "Ensaio sobre a Cegueira")

"Why a classic portuguese novel should be on your to-read list"
By Sarah Ládípọ̀ Manyika (Via OZI.COM) - 26/11/2017


A presente critica literária pode ser consultada e recuperada aqui


"We’re starting a new feature at OZY Books: the building of a global bookshelf. Every other month, our book section editor will pick a selection we think you might enjoy. It might be one you’ve never heard of, or perhaps about a place you’ve never visited. We start with a classic: Blindness, by José Saramago, has stood the test of time. There’s something for everyone — plot, philosophy, allegory, passion, despair and triumph.

SO WHAT’S THE STORY?
A plague of blindness descends on an unnamed city. Within hours, internment camps are erected to keep the blind and contaminated away from the rest of the population. Chaos ensues both inside and outside the camps as more people turn blind. Only one person doesn’t go blind, and she is both witness to the atrocities and guide to her small group of friends. Her words become the group’s maxim: “If we cannot live entirely like human beings, at least let us do everything in our power not to live entirely like animals.” This is a story about power, greed and courage and how individuals and governments respond to crisis. It is, at its core, about what makes us human.

WHO WROTE IT?
Saramago, the grandson of pig farmers, was born in 1922 into a peasant family. A curious fact about his birth: The village clerk, possibly drunk when filling out the birth certificate, wrote “Saramago” instead of the true family name, de Sousa. Saramago means “wild radish” in Portuguese, which in retrospect seems apt for someone who came from a poor peasant background, published his first book only in his fifties and then went on to win the Nobel Prize in literature. Perhaps the wild radish also says something about the sharpness of Saramago’s character — he was known as a prickly personality, a staunch atheist and a lifelong member of the Portuguese Communist party.

WHAT’S NOT TO LIKE?
First, some readers of Blindness claim the book is insensitive to blind people, portraying them as a metaphor for moral depravity. Others (including the author when he was alive) refute this critique, saying that it’s about a population that fears the blindness and what happens in the chaos that ensues. There’s also a problem of punctuation or, rather, the lack thereof in the book. Punctuation to Saramago was like traffic signs: “Too much of it distracted you from the road on which you traveled.” To which some critics have wondered, Sure, but too little and you wind up hopelessly lost.

THE CHAOTIC AND POSTAPOCALYPTIC WORLD 
THAT IS CURRENTLY BEING PORTRAYED IN 
MANY BOOKS AND TV SERIES IS WHAT SARAMAGO 
GOT RIGHT MANY YEARS EARLIER.

WHY NOW?
The world may not have witnessed a plague of blindness, but illnesses such as Ebola and Zika have triggered panic reactions akin to those described in Blindness. The chaotic and postapocalyptic world that is currently being portrayed in many books and TV series is what Saramago got right many years earlier. Blindness speaks to our world today, in which societies realign themselves and rules are dramatically changing. And the blindness referred to in this novel is not just a physical one. As one of the characters remarks: “I don’t think we did go blind, I think we are blind, Blind but seeing, Blind people who can see, but do not see.” Issues pertaining to the abuse of power, whether in the political realm or otherwise, are as pertinent today as they always have been. Whether in Los Angeles or Lagos, we still turn a blind eye to predatory and misogynistic behavior; we still see (and don’t see) the use of sexual assault and rape as weapons of war; and we still pretend not to see, all around us, the glaring injustices that are hiding in plain sight. This is a book that tackles tough subjects and gives us complicated and flawed characters that defy simplistic right and wrong, bad and good, judgments."

“Blind. The apprentice thought, ‘We are blind,’ and he sat down and wrote Blindness to remind those who might read it that we pervert reason when we humiliate life, that human dignity is insulted every day by the powerful of our world, that the universal lie has replaced the plural truths, that man stopped respecting himself when he lost the respect due to his fellow creatures.”
José Saramago in his Nobel Lecture, 1998


"Publicação inédita das cartas de amizade entre Saramago e Jorge Amado" via DN (28/11/2017)

"Jorge Amado José Saramago - Com o mar por meio Uma amizade em cartas" 

Destaque no DN, de 28/11/2017, pode ser recuperado aqui

«A troca de correspondência entre José Saramago e Jorge Amado, durante cinco anos, regista uma "bela amizade", nascida na velhice, e testemunha desabafos políticos, crises de saúde e anseios literários, entre os quais o Nobel por que ambos suspiravam.

A publicação inédita da troca epistolar que os dois escritores de língua portuguesa mantiveram regularmente, entre 1992 e 1997, acaba de chegar às livrarias, numa edição ilustrada com 'fac-símiles' e fotos raras, pela Companhia das Letras, intitulada "Com o mar por meio".

A amizade entre os dois teve início quando "já iam maduros nos anos e na carreira literária", o primeiro com 80 anos, e o segundo com menos dez anos, segundo a editora.

O vínculo tardio, porém, não impediu que os escritores criassem fortes laços de amizade e fraternidade, que se estenderam às suas companheiras de vida, Zélia Gattai e Pilar del Río.

Uma dessas cartas, entre muitas outras, dá nota dessa relação, quando José Saramago escreve a Jorge Amado, em 1993, por ocasião do seu aniversário: "Esta mensagem vai em letra gorda para que não se perca nos azares da transmissão nem um só sinal da nossa amizade, deste carinho tão bonito que veio enriquecer de um sentimento fraterno uma relação nascida tarde, mas que, em lealdade e generosidade, pede meças à melhor que por aí se encontre".

Este livro nasce de uma coincidência ocorrida quando a filha de Jorge Amado, Paloma, juntamente com a Fundação Casa Jorge Amado, estava a trabalhar as cartas trocadas com José Saramago -- no âmbito da organização do acervo do pai, iniciada em 2015 -- e, em troca de mensagens com Pilar del Río, tomou conhecimento de que a Fundação José Saramago planeava também fazer um livro.

A organização e seleção de cartas, feita por Paloma Jorge Amado e Ricardo Viel, da Fundação José Saramago, só foi possível por Jorge Amado ter sido um "homem muito disciplinado e organizado, qualidades exacerbadas pelos anos de militância comunista", que, com "o advento das copiadoras", passou a reproduzir as cartas enviadas, conta a filha do brasileiro, na introdução do livro.

São cartas, bilhetes, cartões, faxes e mensagens várias, enviados ao longo dos anos, com troca de ideias sobre questões, tanto da vida íntima, como da conjuntura contemporânea, social e política, sobre a qual partilhavam a mesma visão comunista.

Várias mensagens são reveladoras do afeto entre os dois casais, uma das quais assinada por José e Pilar, na qual se referem ao "manjar supremo que é a amizade".

A saúde e a velhice também são amiúde referidas, e Jorge Amado escreve, em 1995, esperar que o trabalho ocupe os seus "dias de velhice -- velhice não é coisa que preste".

As cartas refletem também o anseio que os dois escritores partilhavam por receber prémios literários e a alegria que cada um deles sentia de saber que o outro o recebera.

Em julho de 1993, José Saramago escreve ao seu amigo, a propósito da atribuição do Prémio Camões a Rachel Queiroz, que não discute os méritos da premiada, mas não entende "como e porquê o júri ignora ostensivamente (quase apeteceria dizer: provocadoramente) a obra de Jorge Amado".

No ano seguinte, Jorge Amado receberia então o prémio, e José Saramago escreveria "finalmente o Camões para quem tão esplendidamente tem servido a língua dele!", acrescentando: "Será preciso dizer que nesta casa se sentiu como coisa nossa esse prémio?".

Mas a vez de Saramago chegou em 1995 e, em resposta às felicitações enviadas por Jorge Amado, o autor português confessou: "Em nenhum momento da vida, desde que o prémio existe, me passara pela cabeça que um dia poderiam dar-mo. Aí está ele, para alegria minha e dos meus amigos, e raiva de uns quantos 'colegas' que não querem admitir que eu existo...".

Também o Nobel era tema frequente e José Saramago chega a partilhar, numa missiva para Jorge Amado, em 1994, o desejo de que o prémio lhes fosse atribuído em conjunto, ideia que o escritor brasileiro recebeu com regozijo, considerando-a "magnífica", mas temendo que "os suecos da Academia" dividissem "o milhão entre Lobo Antunes e João Cabral".

No entanto, os anos passavam e o prémio não chegava para nenhum deles, levando José Saramago, em 1997, a escrever, em desabafo, a Jorge Amado, que os membros da Academia não gostam da língua portuguesa e que "não têm metro que chegue para medir a estatura de um escritor chamado Jorge Amado".

Nesse mesmo ano, a correspondência entre os dois cessou devido ao agravamento da saúde do coração e dos olhos de Jorge Amado, que foi perdendo a visão mais rapidamente do que se esperava, acabando por mergulhar numa profunda depressão, que o deixava dias inteiros deitado num cadeirão na sala, com os olhos fechados.

A 08 de outubro de 1998, Zélia sentou-se a seu lado e deu-lhe a notícia de que o "seu amigo José Saramago vinha de ganhar o Prémio Nobel", conta a filha.

"Como num passe de mágica, um milagre luso-sueco, Jorge pulou do cadeirão, chamou Paloma, pediu que se sentasse no computador, que ele iria ditar uma nota".

Foi a última carta. Brindou com champanhe, fez a festa com a mulher e a filha e "foi dormir contente". "No dia seguinte, não quis mais abrir os olhos".

Capa da edição "Companhia das Letras"

Apresentação da obra via Companhia das Letras (Brasil) aqui
"A amizade entre Jorge Amado e José Saramago teve início quando os dois já tinham idade mais avançada e consolidada carreira literária, porém o vínculo tardio não impediu que os escritores formassem um laço forte, estendido as suas companheiras, Zélia e Pilar. Este livro reúne a correspondência entre os dois mestres - e os dois casais, muitas vezes -, entre os anos de 1992 e 1998. São cartas, bilhetes, cartões e faxes com uma rica troca de ideias sobre questões tanto da vida íntima como da conjuntura contemporânea, sobretudo a cena literária. Eles debatem com humor sobre prêmios e associações de escritores, com especulações divertidas sobre quem seria, por exemplo, o próximo a ser contemplado com o Nobel ou o Camões. Com um projeto gráfico especial, ilustrado com facsímiles das missivas e belíssimas fotos do acervo pessoal dos autores, Com o mar por meio aproxima os leitores do universo particular dos dois amigos."