Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"3 perguntas a… Anabela Mota Ribeiro" via "Tornado" (08/12/2019)

Via jornal "Tornado" aqui
em https://www.jornaltornado.pt/3-perguntas-a-anabela-mota-ribeiro/

"3 perguntas a… Anabela Mota Ribeiro" por J. A. Nunes Carneiro (Porto, 8/12/2019)

«Anabela Mota Ribeiro
Nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.
É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas. Também foi autora e apresentadora de programas de televisão na RTP. Publicou vários livros.» 


Como surgiu a ideia deste seu livro «Por Saramago»?
Como jornalista, o género a que mais me dediquei foi a entrevista. Gosto de perguntar, gosto de escutar, gosto do efeito de detonação que surge das palavras do entrevistado, da potencialidade que há no diálogo. Isso permite-me pensar com outra pessoa, e depois seguir os meus próprios caminhos, autonomamente, ajuda-me a compreender e a criar perplexidades. Não raro, entrevistei mais do que uma vez uma pessoa. Essa conversa continuada, em andamento, suscitada por um livro, pelo novo, e que normalmente acontece quando temos do outro lado um criador, permite um aprofundamento da relação. Então, não sei reconstituir o momento exacto em que pensei fazer “Por Saramago”, mas percebi que as várias viagens ao universo saramaguiano (as entrevistas a José e a Pilar, o texto sobre a casa de Lanzarote, a ida ao México ou ao Brasil “com” Saramago que me deixaram perceber uma devoção táctil pelo autor) constituíam um testemunho importante e eram uma forma de dizer o quanto o admiro.

Depois, eu já tinha feito “Paula Rego por Paula Rego”, também com entrevistas, com um apuro estético incrível e a mão segura da editora Guilhermina Gomes da Temas e Debates; e achei que fazia sentido replicar, de um ponto de vista formal, esse objecto tão conseguido. Por isso, além dos textos, há em “Por Saramago” uma colecção de fotografias que iluminam o texto. São cerca de 65, todas originais, todas feitas de propósito para o livro, da autoria da Estelle Valente. Os dois livros têm capa dura, uma sobrecapa, um papel que apetece cheirar, uma impressão excelente.

Ao escrever este livro, ainda se surpreendeu com alguma nova faceta de José Saramago?
Surpreendo-me sempre com os entrevistados, mesmo quando os entrevisto mais do que uma vez e mesmo quando parece que já disseram tudo. Há sempre uma cintilação nova. Cada encontro tem uma dinâmica própria que depende dos sujeitos, do momento em que estão, da sintonia, e também do que suscita a entrevista. Acho que me surpreendi, a primeira vez que o encontrei, por ser mais gentil do que sisudo, pela disponibilidade para pensar alto.

Neste livro foca a sua atenção em dois livros («As Pequenas Memórias» e «A Viagem do Elefante»): porquê?
Fernando Gómez Aguilera, biógrafo de Saramago, comissário da exposição A Consistência dos Sonhos, assina o posfácio do meu livro, a que chama O último fulgor de Saramago. De facto, são os últimos anos que estão representados no meu livro. As entrevistas a Saramago têm como pretexto os dois últimos livros (as “Pequenas Memórias” e “A Viagem do Elefante”), a entrevista a Pilar del Río aconteceu por altura de “Caim”. Mas estes livros são apenas o ponto de partida para o diálogo; entendo-os sempre como caminhos de onde partimos para chegar a outros lugares, esperados ou não, principais ou secundários. Por exemplo, a entrevista com Pilar ensinou-me muitas coisas sobre o que é crescer no franquismo (como aconteceu no caso dela), além de revelar aspectos importantes de Saramago e da relação que tinham. Esse é o lado bom de uma entrevista: sabemos como começamos, não sabemos onde vamos dar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

«Quando Saramago dizia: "Portugal acabará por integrar-se na Espanha"» de João Céu e Silva - DN (01/12/2019)

"Há 12 anos, o escritor José Saramago recusou ser profeta mas anunciou a "Ibéria" no prazo máximo de meio século. O conflito na Catalunha pode afastar esta hipótese digna de uma sequela do romance A Jangada de Pedra."

"José Saramago na sua casa em Lanzarote, Canárias, Espanha. © Arquivo DN"

"A palavra Espanha, ou o que significa o pedaço de terra que faz fronteira com Portugal, está presente na história das mentalidades do país desde sempre. O desejo de independência também, mesmo que entre os escritores que pensaram esta relação ao longo dos séculos o desejo fosse de haver uma coexistência maior ao nível cultural, opinião que irmanava o escritor espanhol Miguel de Unamuno e o português Miguel Torga, expressa em vários parágrafos dos seus livros, poemas ou mesmo no ensaio do primeiro, intitulado Por Terras de Portugal e Espanha.

Unamuno era um investigador do lado de lá do seu país e estranhava o desejo suicidário de personagens seus colegas, como Camilo Castelo Branco, e de muitos outros portugueses desistentes de viver. Ao contrário, Cervantes viveu em Lisboa um par de anos no século XVI e achava que era na capital portuguesa que as pessoas gozavam bem a vida. E chegamos a José Saramago...

O único Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa olharia até mais de metade da sua vida para Espanha como a maioria dos seus compatriotas e, decerto, aceitava bem o velho ditado "de Espanha nem bom vento nem bom casamento". Mas não morreu com esse pensamento, pois até expressou o desejo de ser enterrado debaixo da oliveira que fora da terra natal, a Azinhaga do Ribatejo, para o jardim da sua biblioteca em Lanzarote. Tal não aconteceu, mesmo que da Azinhaga tenha ido uma oliveira substituta para a praça em frente à Casa dos Bicos, onde foi sepultado, e que esteve para morrer devido ao stress citadino que Lisboa lhe provocou.

Stress foi também o que José Saramago provocou à pátria quando declarou numa entrevista ao Diário de Notícias, a 15 de julho de 2007, o seguinte pensamento: "Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha." Era uma declaração tão inesperada para uns como aguardada por outros. Entre os "outros" estavam todos os que detestavam o escritor pelas suas posições políticas - e outros "defeitos" - e que não aceitavam que um português da sua geração fizesse tal afirmação. Entre os "uns" encontravam-se os que se embriagaram com a União Europeia e viam como aceitável que a Península Ibérica se unisse mais ainda e Portugal se tornasse uma província do país vizinho."

"Capa da edição do Diário de Notícias de 15 de julho de 2007, 
que incluia uma entrevista com a José Saramago. O Nobel criou polémica 
com a sua de ideia de uma ibéria unida com um só país."

"A declaração de Saramago devia-se ao ambiente vivido nesses dias, em que as sedes das multinacionais passaram a estar em Madrid e Espanha apresentava uma normalidade social e um crescimento económico atrativos. Tal como Saramago dizia ao DN, "a vida política nacional não produz melhor gente" e "é uma situação natural" que Espanha vá tomando conta da economia portuguesa; também a sondagem então feita por um jornal mostrava que mais de 40% dos portugueses lhe davam razão e não se incomodavam com uma União Ibérica.

Para Saramago, a União Ibérica, que aconteceria num prazo de 50 anos, não era a de Unamuno ou de Torga: "Culturalmente, não." Antecipava uma "integração territorial, administrativa e estrutural", em que "não deixaríamos de falar português e de escrever na nossa língua". Acrescenta: "Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castela-La Mancha, e teríamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria." Doze anos depois, no entanto, a realidade desmente Saramago e a integração de Portugal numa Ibéria contrasta com a violência dos desejos separatistas da Catalunha. Em 2007, o escritor antevia apenas um problema na unidade espanhola: "A única independência real que se pede é a do País Basco e, mesmo assim, ninguém acredita."

A Ibéria de Saramago foi uma proposta tão surpreendente que no dia seguinte vários jornais estrangeiros deram notícia do que dissera ao DN e na semana que se seguiu o planeta inteiro ouviu ecos: foram reproduzidos nos países nórdicos, na Índia, na América do Sul e até no órgão oficial do Partido Comunista da China. Como as fake news ainda não eram moda - esta pareceria hoje enquadrar-se bem nesse estatuto -, os jornais mais rápidos na resposta à ideia de Saramago foram os espanhóis, os ingleses e os italianos, e todos fizeram uma ou mais páginas a desenvolver o que seria essa "Ibéria" saramaguiana, mais próxima de um argumento para um romance do que de palavras de uma entrevista. A conclusão mais divertida era a de que com os jogadores ibéricos a península seria a maior potência do futebol.

Nem todos apreciaram a proposta de Saramago, a começar pelo governo que pôs o ministro dos Negócios Estrageiros Luís Amado a refutar esse futuro, bem como dezenas de comentadores e até o rei D. Duarte. Saramago não se incomodou, respondendo em nova entrevista ao DN que "quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical". Deu um ponto final com a seguinte resposta: "Não tenho mais nada a comentar. Está tudo na entrevista." E, para surpresa geral, um dia depois casa-se oficialmente com Pilar del Río em Castril (Espanha). Numa outra resposta na segunda entrevista, o escritor não refere o exílio em Espanha como razão para a polémica que deu a volta ao mundo: "Não [sou um exilado político], sou uma pessoa que mudou de bairro, alguém a quem o vizinho do andar de cima incomodava e decidiu ir para outra casa." Nem considera que mudar de país tenha sido uma decisão elaborada: "Houve uma altura em que andámos a tentar encontrar outra casa. Estivemos em Mafra e procurámos pela região e é quando sucede que nasce a ideia de fazer uma casa na ilha de Lanzarote para passar as férias."

O que levou José Saramago a fazer estas declarações sobre Portugal e Espanha? A convivência direta com o país vizinho após ter decidido mudar para Lanzarote de armas e bagagens e fixar-se numa ilha espanhola para sempre. Um país cuja importância e interesse dos seus jornais lhe deram uma exposição mundial - e latino-americana - que em Portugal as eternas intrigas nas redações proibiam; a vida com uma mulher espanhola que o seduziu com o anúncio de um amor tão real como literário e que foi em muito responsável para que a obra do autor chegasse aos corredores da Academia Sueca, e um conflito que começa com a censura de um secretário de Estado da Cultura ao romance Evangelho segundo Jesus Cristo."

"André, o arquiliterário!" via revista Aldeia Brasil (29/11/2019)

"André, o arquiliterário!"
Texto Rejane Martins Pires
Publicado em 29/11/2019
Via Revista Aldeia

Link da publicação em https://revistaaldeia.com.br/materia/1315/andre-o-arquiliterario

"Fundador do movimento Arquiliteratura, cuja proposta une arquitetura e 
literatura numa nova concepção de arte visual, 
André Braga tem convite para expor em Nova York"


"Se José Saramago escrevesse seus livros utilizando a arquitetura como linguagem, como seriam eles? E Anne Frank? E Fernando Pessoa? E Hemingway? Jorge Luis Borges? Parece estranho. Inimaginável. Agora, preste atenção nas fotos que ilustram esta matéria. Um olhar minucioso vai levá-lo à memória recente de alguma leitura. As obras integram o Projeto Arquiliterário do artista plástico André Braga. Numa tradução livre, algo como a arquitetura dos livros.

A autenticidade de seu trabalho tem chamado a atenção de curadores do Brasil e do exterior, inclusive, já tem convite para expor em Nova York no próximo ano, bem como na Bienal Internacional de Veneza e Bienal Internacional da Amazônia. Após conhecer a obra de Braga pelas redes sociais, o marchand brasileiro Louis Ventura, sócio da Saphira & Ventura Gallery, formalizou o pedido via email. 

Estar no mercado internacional significa muito trabalho por aqui. Cada projeto exige a leitura e a releitura de todas as obras do autor. “Eu procuro entender como o autor viveu, qual a relação dele com o mundo e de que maneira eu posso transpor isso para obra”, explica. Além disso, é preciso entrar na história para ser fidedigno ao texto e ao autor. Para isso, conta a ajuda da esposa, a professora de literatura Margarete Nath. 

A própria história deles daria um romance. Mestre em Letras e doutora em Linguística, Margarete conheceu André no Ceebja. Ela professora. Ele, um aluno com histórico de defasagem escolar comum a muitos brasileiros. Da paixão pelos livros, nasceu o afeto e o amor mútuos. Braga formou-se em História e atualmente é funcionário do Instituto Federal de Educação (IFPR). Casados há 11 anos, ambos vivem numa espécie de santuário, num sítio em Rio do Salto. 

É lá, nas horas vagas, que ele entra numa espécie de imersão. O silêncio só é quebrado pelos sons da natureza. A calmaria aparente esconde um turbilhão interior. André não para. Está sempre criando. Pensando em novas possibilidades. Enxergando além. Simples materiais como madeira, papel, metal, cola, barbante, tecido, galhos e outros pequenos objetos se transformam em arquitetura literária.

O leitor
Se você já leu algum livro de Edgar Allan Poe, conseguirá compreender o impacto que este autor teve na vida de André. Ele conheceu Poe aos 13 anos, na biblioteca da escola. Houve ali uma espécie de arrebatamento tão intenso que o menino fugia da sala de aula para ler em casa. Nunca mais parou.

Até mesmo no zoológico, onde trabalhou por alguns anos, concluía suas tarefas e corria para os livros. Toda esta entrega à palavra fez nascer o movimento Arquiliteratura, a união da arquitetura e da literatura como uma nova forma de arte. “É um trabalho muito recente. Há um ano, eu estava tentando criar uma árvore do conhecimento num pé de jabuticaba com o máximo de autores”, conta. Desmembradas da árvore, surgiram as primeiras construções baseadas em Saramago, Fernando Pessoa e Borges, e expostas despretensiosamente no Museu de Arte de Cascavel (MAC). "

terça-feira, 18 de junho de 2019

9 anos

No dia em que se assinalam os nove anos da morte de José Saramago, urge continuar a sua obra e fazer perdurar a memória do homem que foi.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"Saramago, inéditos de Lanzarote" Crónica de Mercedes de Pablos (Crónica Global, Barcelona - 19/11/2018)

"Veinte años después del Nobel, aparece en un disco duro de un ordenador el sexto 'Cuaderno de Lanzarote', que reúne las anotaciones del escritor el año del galardón"


Crónica de Mercedes de Pablos, publicada no "Crónica Global" de Barcelona, 19/11/2018

"Incrédulo impenitente como era, Saramago torcería (levemente, que tampoco era un gesticulador acalorado) el gesto si oyera o leyera alguna relación de su vida y obra con los números o demás sortilegios. Pero el caso es que los números bailan en la vida del Nobel portugués y hay cierta fascinación en su biografía por las horas, los años y sus tiempos. En su casa de Lanzarote (hoy museo visitable y a la vez habitado) los relojes marcan la hora en la que conoció a su mujer y traductora Pilar del Río, las cuatro de la tarde, y esta cifra exacta que son los veinte años ha marcado una efeméride, dos décadas de la concesión del único Nobel en lengua portuguesa, para un hallazgo que más que de chistera mágica emergió de un disco duro y de las frías tripas de un ordenador.

Veinte años exactos después del Nobel, en el viejo ordenador de mesa, que forma parte hoy casi del mobiliario de su biblioteca, Pilar y el escritor y director de la Fundación Cesar Manrique, Fernando Gómez Aguilera, descubrieron que bajo la carpeta Cuadernos además de los ya publicados cinco Cuadernos de Lanzarote (diarios del escritor donde aparecen pensamientos, escritos y confesiones) había silente un sexto, el del año 98. Precisamente el cuaderno del año en que su vida cambió porque su agenda se vio multiplicada por cien mil anotaciones."


"El mismo Saramago en los primeros meses del aquel 1998 dejó dicho y escrito que andaba en esa escritura, pero luego vino el tsunami desde Estocolmo y lo que había sido un anuncio se convirtió apenas en un recuerdo. “Mi palabra ahora es más útil y eso me compromete aún más” dijo en la primavera del 99 cuando alguien le preguntó qué había cambiado de verdad en su vida después del galardón más importante del mundo.

Nada más cierto. Muchas veces se ha dicho que el portugués más que un Nobel de literatura, que lo es y con todos los merecimientos, ejerció de Nobel de la Paz porque no ha habido causa humanitaria ni digna en la que no se haya mojado los pies, las manos y la boca, muy especialmente. No en vano en el discurso de la cena del Nobel (no en el de la Academia sueca, aquella pieza tan bella que Saramago dedicó a su abuelo, el hombre que no sabía leer y del que había aprendido todo y que se nos rescata en este Cuaderno) el escritor habló del cincuenta aniversario de la Declaración Universal de los Derechos Humanos, otra vez un número redondo, otra vez la oportunidad de aprovechar unas fechas para hablar de los valores y de los compromisos. 

Un compromiso que le llevó a viajar por todo el planeta y que, sin embargo, no lo alejó de su literatura. Algunos de los más bellos y rotundos libros fueron escritos después del Nobel: La Caverna, El Hombre Duplicado, Ensayo sobre la Lucidez, Las Intermitencias de la Muerte o ese brillante Caín, que a punto estuvo de convertirse en póstumo. 

Entre una cosa y la otra El Cuaderno del año del Nobel fue olvidándose. Lo olvidó el escritor y lo olvidaron sus editores y su traductora y compañera. A su muerte, hace ahora diez años, de nuevo una cifra redonda, se revisaron manuscritos y apuntes, el mismo Gómez Aguilera, comisario de la muestra La consistencia de los sueños, buscó y rebuscó en papeles y anotaciones. Se publicó una obra de juventud, también los tres capítulos de la novela en la que andaba aun enfermo (Claraboya y Alabardas), se editaron los artículos que diariamente escribía en su blog de la Fundación, bloguero de lujo, bloguero sin pelos en la lengua, bloguero generoso. Pero los cuadernos del 98 no aparecieron porque andaban emboscados en un genérico, andaban travestidos de obra ya conclusa editada y leída, andaban esperando la magia del 20 para que vieran la luz precisamente ahora.

La editorial ha celebrado este azar con la edición de otro libro firmado por Ricardo Viel sobre precisamente el aniversario del Nobel y lo que en esas fechas se vivió, se contó, se escribió. Y Saramago vuelve a estar tremendamente vivo en esas páginas en las que vuelca opiniones y reflexiones con esa punta de acidez y sarcasmo que, curiosamente, le protegían de la ira o del muy hispánico cabreo.

Usa el humor, ese estilete tan elegante, para hablar de su tremendo desencuentro con la derecha gubernamental de su país: por ejemplo, un instituto de Mafra (escenario de Memorial del Convento) propone adoptar su nombre y el ministro Do Santos lo veta: “Odio viejo no cansa: no se cansará su odio pero mi desprecio tampoco”.

O cuando regaña, y casi se le oye sonreír, a sus paisanos que critican el regalo del gobierno español de un cuadro de Felipe II con motivo de la Expo de Lisboa, olvidando que Portugal, en la Expo del 92 de Sevilla, obsequió un lienzo sobre la batalla de Aljubarrota: “El ridículo no es una enfermedad mortal pero aquí en casa parece haberse vuelto incurable”.

El año 98 comienza con Saramago, como escribe el 1 de enero, intentando  salvar un árbol de su jardín de una terrible ventolera nocturna y acaba el 14 de Enero del 99 con el Nobel agachado ignominiosamente en la planta de caballeros de El Corte Ingles de Madrid comprando calcetines. 

Mientras, un año da para muchos artículos, muchas conversaciones, muchas confidencias en ese tono suyo tan escueto y profundo a la vez. Y para alguna contradicción que hace que el lector, que lee desde su presente aquel pasado, se regocije: “Juro por los dioses de todos los cielos y olimpos que nadie tocará Ensayo sobre la ceguera”. Habla el Nobel de una posible versión cinematográfica. Diez años después, en 2008, el escritor se emocionaría con la maravillosa versión (Blindnees) filmada por Fernando Meirelles y protagonizada entre otros por Marck Ruffalo y Julianne Moore. Afortunadamente en este caso y como una rareza en su brutal coherencia el Nobel se desdijo. Porque veinte años no es nada y es todo. Porque hay voces que nacieron para la eternidad."



"José Saramago: um humanista por acaso escritor"


O vídeo está disponível para consulta, via YouTube, aqui

"Filme-homenagem que busca olhar o mundo pelas lentes desassossegadas de josé saramago. documentário que revive o redemoinho de sensações, palavras e lembranças deixadas em quem o sentiu por perto. um humanista, que usou os microfones de um escritor, para gritar sobre o nosso mundo."

"Las confesiones de José Saramago: el cuaderno secreto del escritor" - Miguel Polo "Gentleman El Confidencial" (23/11/2018)



'El Cuaderno del año del Nobel' es un diario inédito que refleja las reflexiones, acontecimientos, anécdotas y apuntes del autor escritos a lo largo de 1998

A crónica de Miguel Polo, publicada no "Gentleman El Confidencial" (23/11/2018) pode ser recuperada e consultada aqui

"En 2001, en el epílogo de 'Los Cuadernos de Lanzarote II', el propio Saramago había anunciado que pronto vería la luz un "sexto cuaderno" que permanecía oculto en su ordenador y narraba "las ideas, los hechos y también las emociones con que el año 1998 me benefició y alguna vez me agredió".

Pero el frenesí de actividades a las que se vio abocado inmediatamente después de la concesión del Premio Nobel, más el hecho de que, justo en esa época, reemplazara su antiguo ordenador por otro que no estuviera tan cargado de asuntos pendientes, desterraron esas palabras tan esperadas al fondo de un disco duro.


Más tarde, cuando Saramago pudo retomar su relación con la escritura, hizo sospechar que tal vez ese misterioso diario, del que nadie había leído ninguna palabra, ya no aparecería.

Pero en febrero de este año, mientras se trabajaba en la recopilación de sus conferencias y discursos, se produjo un hallazgo extraordinario en el pozo sin fondo del disco duro del ordenador reemplazado: un archivo titulado Cuaderno 6. Y allí estaba. Doscientas páginas que, a veces en forma de apuntes sueltos, certeras y precisas reflexiones filosóficas, artículos políticos o literarios y ejemplos de la correspondencia con sus lectores, nos ofrecen una visión única de la vida y el pensamiento del autor.

LOS IMPRESCINDIBLES DE SARAMAGO
Día de los Santos Inocentes de 1998. 17:05 h. De la rampa del fax brota un puñado de hojas. "Apreciado amigo, aquí van las respuestas de José. Dice que se lo ha pasado bomba plantando su árbol genealógico". Lo crean o no, lo impreso era la fotocopia del auténtico libro de familia del maestro y sus 11 apóstoles literarios. Un tesoro perdido que acabo de rescatar. ¿Parece milagro, verdad? Pues aquí lo tienen. Y huele a Saramago que alimenta.

PADRE ANTONIO VIEIRA
Porque nunca el portugués fue más bello que cuando él lo escribió.

MIGUEL DE CERVANTES
Porque sin él España sería como una casa sin tejado.

FRANZ KAFKA
Porque probó que el hombre es un coleóptero.

LUIS DE CAMÕES
Porque todos los caminos de Portugal van a dar a Camões.

MICHEL DE MOINTAIGNE
Porque no necesitó de Freud para saber quien era.

VOLTAIRE
Porque perdió las ilusiones sobre la humanidad y sobrevivió a eso.

RAUL BRANDAO
Porque demostró que no es necesario ser un genio para escribir un libro genial: Humus.

ECA DE QUEIRÓS
Porque enseñó a los portugueses la ironía.

JORGE LUIS BORGES
Porque inventó la literatura virtual.

GOGOL
Porque contempló la vida y la encontró triste.

FERNANDO PESSOA
Porque la puerta por donde se llega a él es la puerta por donde se llega a Portugal."


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

José Carlos Vasconcelos entrevista José Saramago - Programa "Escrever é Lutar" da RTP (17/09/1974)

Programa "Escrever é Lutar"
RTP 17 de Setembro de 1974
José Carlos Vasconcelos entrevista José Saramago naquela que será a primeira aparição na televisão

Seguir o link indicado

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jose-saramago-4/?fbclid=IwAR3L7AZcbJt453OdGufXGiDC25GE1r2v-uCrdYS6kXMSfoSGsrL5tRpFFa4

"Introdução com alguns dados biográficos, nomeadamente o facto de ter publicado dois livros de poemas até ao momento, dois livros de crónicas e um romance; foram, recentemente publicados pela revista "Seara Nova" os textos editorias que o entrevistado terá escrito no "Diário de Lisboa"; Para breve estará na forja um livro de poemas e um outro romance. 03m19: Início da conversa com a eventual ligação da produção literária do entrevistado com a recente Revolução de 25 de Abril de 1974; alusão ao facto de ser director da Associação Portuguesa de Escritores e a sua opinião sobre o papel dos escritores na sociedade actual após o 25 de Abril de 1974; Comentário à censura do Estado Novo da qual foi alvo várias vezes enquanto jornalista."

"Entrevista do jornalista José Carlos Vasconcelos ao escritor José Saramago, sobre a sua vida pessoal, a obra literária, e o momento que se vive em Portugal no pós 25 de abril de 1974.

Nome do Programa: José Saramago
Nome da série: Escrever é Lutar
Locais: Lisboa
Personalidades: José Saramago, José Carlos Vasconcelos
Temas: Artes e Cultura
Canal: RTP 1

Menções de responsabilidade:
Autoria e apresentação: José Carlos Vasconcelos
Tipo de conteúdo: Programa
Cor: Preto e Branco
Som: Mono
Relação do aspeto: 4:3"

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

José Saramago, nascido neste dia no ano de 1922



"Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922, se bem que o registo oficial mencione como data de nascimento o dia 18. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele não havia ainda completado dois anos. A maior parte da sua vida decorreu, portanto, na capital, embora até aos primeiros anos da idade adulta fossem numerosas, e por vezes prolongadas, as suas estadas na aldeia natal.

Fez estudos secundários (liceais e técnicos) que, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir. O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance,  Terra do Pecado, em 1947, tendo estado depois largo tempo sem publicar (até 1966). Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na revista  Seara Nova. Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa, onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante cerca de um ano, o suplemento cultural daquele vespertino.

Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do jornal  Diário de Notícias. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Casou com Pilar del Río em 1988 e em Fevereiro de 1993 decidiu repartir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias (Espanha). Em 1998 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura."

Biografia de José Saramago, publicada na página da Fundação José Saramago 



terça-feira, 13 de novembro de 2018

"José Saramago Rota de Vida Uma Biografia" de Joaquim Vieira (Livros Horizonte) em destaque na edição online do DN

"A biografia de Saramago para esclarecer portugueses sectários

A perceção nacional sobre o único Nobel da Literatura em língua portuguesa ainda é mais negativa do que positiva para os seus concidadãos. Pode ser que a biografia de Joaquim Vieira ajude a esclarecer os maus leitores de Saramago."

Via edição online do DN, pode ser consultada aqui
em https://www.dn.pt/edicao-do-dia/13-nov-2018/interior/a-biografia-de-saramago-para-esclarecer-portugueses-sectarios-10167864.html

"A introdução de Joaquim Vieira à sua mais recente biografia, José Saramago - Rota de Vida, é reveladora do preconceito para com um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa. Nela conta como propôs, enquanto diretor adjunto do semanário Expresso, que se convidasse Saramago para escrever uma crónica semanal em 1993. Justificara o convite com a sua experiência própria de leitor soixante- huitard, o modelo de uma coluna existente no Le Monde, e porque pressentia que o autor ainda poderia vir a ser Prémio Nobel. Assim aconteceu cinco anos depois, deixando o jornal sem a sua marca como testemunho impresso nas páginas de sábado devido às posições do então diretor José António Saraiva, e o fundador Pinto Balsemão, contra a presença de um comunista num jornal de tradição liberal."

"José Saramago no famoso plenário no "Diário de Notícias" 
em 1975, do qual terá resultado o saneamento de jornalistas.
Foto DN/António Aguiar"


"A revelação é a primeira entre as muitas que esta biografia hoje apresentada oficialmente na Biblioteca do Palácio Galveias traz nas suas 751 páginas. O local da sessão não terá surgido por acaso, afinal foi naquelas salas que o operário José se formou intelectualmente e se transformou em Saramago, o escritor que acalentava desejo de o ser desde cedo e que até aos 60 anos nunca teve sucesso suficiente para se destacar entre a "aristocracia" que dominava as letras portuguesas.

Teve a sorte, disse-o Saramago, de ser demitido de subdiretor do Diário de Notícias após a deriva esquerdista do pós-Revolução do 25 de Abril e de ter ido parar a Lavre, uma terra alentejana em que a cooperativa e os comunistas que por lá andavam o fizeram ouvir a voz literária que colocou para trás de si a maioria dos autores seus contemporâneos e inovou a narrativa nacional.

O biógrafo Joaquim Vieira faz um levantamento exaustivo do seu percurso de vida com recurso a inúmeras entrevistas de quem o conheceu ou trabalhou com ele, revê estudos e investigações de outros sobre o biografado, e escreve o mais longo trabalho que Saramago teve até agora sobre a sua vida e obra. Que esclarece bastantes pormenores de uma vida que foi dourada por amigos, contestada por inimigos, maltratada por estudiosos da literatura das últimas décadas, analisada com despeito ideológico por alguma crítica literária e até amaldiçoada por várias figuras governativas pouco esclarecidas.

Não será por acaso que o primeiro capítulo começa com o discurso de Saramago na entrega do Nobel em Estocolmo. Joaquim Vieira destaca a escolha do premiado em elogiar o seu avô tratador de porcos e questiona se foi uma "tirada literária concebida para a ocasião" ou um "pensamento genuíno". Desta e doutras dúvidas está a rota de vida de José Saramago cheia, que o biógrafo tenta esclarecer de vez neste livro, não se preocupando em observar os limites do politicamente correto ou satisfazer interesses.

A melhor notícia é que esta biografia escapa à hagiografia habitual dos que estavam próximos de Saramago e dos que lhe estão ainda. Não retira um ponto da sua vida ideológica como se vai tentando esbater, não ignora a sua roda-viva emocional que colegas seus fazem questão de debicar em sussurro, não passa ao lado das invejas na vida editorial que o "jovem" Saramago tem de enfrentar quando se tenta aproximar dos "grandes" durante o anterior regime, não esquece as duas primeiras mulheres nem o papel de Isabel da Nóbrega nos primeiros grandes sucessos de Saramago.

A página 216 da biografia é um bom exemplo desta última situação, quando uma "incógnita amiga" refere como Isabel da Nóbrega encontra Saramago: "O Zé não se sabia vestir, e nem tinha dinheiro para isso. Quem o arranjou, etc., foi ela, quase como numa campanha de publicidade - eu diria que a Isabel criou o produto."

A página 271 (e seguintes) é outro bom exemplo da velha questão do "saneamento" no Diário de Notícias que aqui é tratado com bastantes depoimentos de jornalistas que viveram a situação.

A página 419 é um bom exemplo de como parte do poder não apreciava Saramago, onde se relata o exemplo do caso do atraso de sete meses na entrega do Prémio Cidade de Lisboa e de o então autarca Krus Abecasis dizer na cerimónia que "não me perturba dar um prémio que exprime uma conceção do mundo inteiramente oposta à minha e à dos cidadãos que me elegeram".

A página 525 é um bom exemplo de dois temas grandes da biografia de Saramago, o escândalo de O Evangelho segundo Jesus Cristo e o ruir do universo comunista.

A página 665 é um bom exemplo de como a outorga do Prémio Nobel irritou em muito os seus concidadãos, designadamente o que se chamava a crítica literária que utilizou o romance pós-Nobel A Caverna como o melhor exemplo para o pior da escrita de Saramago.

As únicas páginas que faltam neste José Saramago - Rota de Vida são aquelas que poderiam proporcionar um maior detalhe sobre a vida literária pós Levantado do Chão, mas a biografia aponta para o conhecimento maior do homem e não pretende ser uma radiografia literária. Portanto, nada a apontar sobre a opção, até porque o período pré-Levantado do Chão faz dos melhores retratos do esforço literário do escritor."



"José Saramago Rota de Vida - Uma Biografia

Joaquim Vieira

Editora Livros Horizonte

751 páginas

A obra será apresentada hoje por Fernando Dacosta, às 18.30, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa"

"José Saramago Rota de Vida Uma Biografia" de Joaquim Vieira (Livros Horizonte)


Apresentação da obra de Joaquim Vieira
Hoje, 13/11, pelas 18h30

Na Biblioteca Palácio Galveias em Lisboa 











terça-feira, 2 de outubro de 2018

"Programa - 20 anos do Prémio Nobel a José Saramago" - FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

"Programa - 20 anos do Prémio Nobel a José Saramago"




"No dia 8 de outubro de 1998 José Saramago tornou-se o primeiro, e até agora único, Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa. Agora, passadas duas décadas, uma série de iniciativas pretende recordar esse momento histórico para a literatura lusófona, celebrando o Prémio e o Escritor que o recebeu.
A Fundação José Saramago organiza ou co-organiza várias dessas actividades, tanto em Portugal como noutras partes do mundo. As celebrações arrancam nos dias 6 e 7 de outubro, com uma iniciativa organizada pelo Gabinete do Primeiro-Ministro em conjunto com a Fundação: o Primeiro-Ministro António Costa irá visitar lugares emblemáticos da vida e obra de José Saramago: Lanzarote, Azinhaga e Lisboa. Em Lanzarote, a visita contará com a presença do chefe de governo de Espanha, Pedro Sánchez.

Entre os dias 8 e 10 de outubro, em Coimbra, terá lugar o Congresso Internacional «José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel», coordenado pelo Professor Carlos Reis, que conta com 6 dezenas de comunicações e mais de 300 participantes. No primeiro dia do Congresso será apresentado o livro Último Caderno de Lanzarote (edição da Porto Editora), inédito de José Saramago.

Este livro será depois apresentado em Lisboa, a 12 de outubro, dia em que a Biblioteca Nacional de Portugal inaugura uma exposição documental dedicada a José Saramago. Esta sessão será também de apresentação de Um país levantado em alegria, de Ricardo Viel, que conta os bastidores dos dias que antecederam e que se seguiram ao anúncio do Prémio.

A 15 de dezembro, encerrando as comemorações, o Grande Auditório da Culturgest será palco da estreia mundial da sinfonia Memorial, composta por António Pinho Vargas, baseada em três romances de José Saramago e de celebração também dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Além de Lisboa, no Porto, em Madrid, Guadalajara, Belém do Pará, Vigo, Lanzarote, Azinhaga e em muitos outros cantos do mundo, José Saramago e a língua portuguesa serão celebrados.

A todas as entidades, públicas e privadas, que colaboram com a Fundação José Saramago neste programa, deixamos uma palavra de agradecimento.

Abaixo, deixamos a agenda das iniciativas já programadas para a celebração dos 20 anos do Nobel. No decorrer das próximas semanas, avançaremos mais detalhes sobre cada uma das iniciativas:

Agenda 20 anos Nobel

6 e 7 de outubro, Lanzarote, Azinhaga e Lisboa
“Lugares de Saramago”, um roteiro com o Primeiro-Ministro António Costa por  lugares marcantes da vida e obra de José Saramago
Uma iniciativa do Gabinete do Primeiro-Ministro e da Fundação José Saramago

8 a 10 de outubro, Convento São Francisco, Coimbra
Congresso Internacional “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”

12 de outubro, Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa
Apresentação dos livros Último caderno de Lanzarote, de José Saramago, e Um país levantado em alegria, de Ricardo Viel, e abertura de uma exposição em homenagem a José Saramago 

25 de outubro, Fundação César Manrique, Lanzarote (Espanha)
Apresentação do livro Último caderno de Lanzarote, de José Saramago

29 de outubro, Biblioteca Almeida Garrett, Porto
Apresentação de Último Caderno de Lanzarote, de José Saramago, e Um país levantado em alegria, de Ricardo Viel

31 outubro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com Ana Margarida Carvalho sobre os contos de José Saramago

7 de novembro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com António Mega Ferreira sobre a poesia de José Saramago

14 de novembro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com Jorge Vaz de Carvalho sobre a música na obra de José Saramago

5 de dezembro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com Carlos Reis sobre o romance saramaguiano

10 de dezembro (data a confirmar), Torreão Poente da Praça do Comércio, Lisboa
Abertura da exposição «A Rebeldia de Nobel», com fotografias e textos de mais de duas dezenas de escritores vencedores do Prémio Nobel de Literatura
Organização da Câmara Municipal de Lisboa e da Fundação José Saramago, com o apoio da Embaixada da Suécia em Portugal

14 de dezembro, no Museu do Estado do Pará (Belém do Pará, Brasil)
Inauguração da exposição «Saramago - os pontos e a vista», cuja curadoria e de Marcello Dantas

15 de dezembro, Grande Auditório da Culturgest, Lisboa
Estreia mundial da sinfonia Memorial, de António Pinho Vargas, num concerto de celebração dos 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos."


"Um dia após ser galardoado com o Prémio Nobel de Literatura, José Saramago aguarda no aeroporto de Frankfurt pelo avião que o levará a Madrid. O escritor tem no colo um exemplar de um jornal alemão que publica, na primeira página, o seu rosto. A foto foi feita pelo jornalista e escritor Juan Cruz, na altura editor de José Saramago."

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Revista de Estudos Saramaguianos - Edição #8 (Português e Espanhol) Agosto de 2018

REVISTA DE ESTUDIOS SARAMAGUIANOS
(revista semestral  ISSN 2359 – 3679)


A edição n.8 da Revista de Estudos Saramaguianos está online


Este número da RES reúne trabalhos de leitores da obra de José Saramago de Brasil, Espanha e Argentina. O leitor encontrará textos acerca de "O homem duplicado" (Adrián Huici), "Ensaio sobre a cegueira" (Rodolfo Pereira Passos), "O evangelho segundo Jesus Cristo" (José Luiz Foureaux de Souza Junior), "Levantado do chão" (Luís Alfredo Galeni), sobre o tema da migração na obra de Saramago (Maria Irene Fonseca e Sá), a personagem pelo prisma da dialética e do humanismo (Rosani Ketzer Umbach / Deivis Jhones Garlet), sobre a crônica saramaguiana (Ana Carolina Cangemi), o teatro do escritor português e sua relação com a história de Portugal (José Eduardo de Magalhães Mendonça) e uma leitura comparativa com a obra de Antonio Muñoz Molina observando o tema da alteridade (Graciela Beatriz Perrén). São dois volumes – um em língua portuguesa, outro em língua espanhola – disponíveis gratuitamente na web através do site 
http://www.estudossaramaguianos.com

Editores
Pedro Fernandes de Oliveira Neto (contacto)
Miguel Alberto Koleff (contacto)

"SOBRE
A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS é produto do encontro de pesquisadores da obra de José Saramago em Brasil, Argentina e Portugal. Seu viés é o de uma revista acadêmica, bilíngue (Português / Espanhol), com tiragem semestral, gratuita e eletrônica cuja proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra do escritor português. Seu objetivo é o de fortalecer os estudos, intercambiar pesquisas e dar a conhecer as diversas possibilidades de leituras em torno da obra saramaguiana."

Também através do Facebook em 



"SUMÁRIO
9 - Apresentação
13 - Infidelidade dos espelhos: O homem duplicado, entre o outro e ele mesmo, ADRIÁN HUICI
30 - A interpelação do outro: Antonio Muñoz Molina, José Saramago, GRACIELA BEATRIZ PERRÉN
39 - Uma análise da sociedade portuguesa, após a Revolução dos Cravos, em duas peças de José Saramago, JORGE EDUARDO MAGALHÃES DE MENDONÇA
53 - Considerações retóricas sobre as crônicas saramaguianas, ANA CAROLINA CANGEMI
72 - A “cegueira branca” e as fendas da razão: a propósito da obra Ensaio sobre a cegueira, RODOLFO PEREIRA PASSOS
84 - A personagem em José Saramago: dialética e humanismo, ROSANI KETZER UMBACH e DEIVIS JHONES GARLET
99 - A migração na visão de José Saramago: a questão do multiculturalismo, MARIA IRENE DA FONSECA E SÁ
121 - O evangelho segundo Jesus Cristo: notas acerca de um (certo) parricídio, JOSE LUIZ FOUREAUX DE SOUZA JUNIOR
135 - Mythos e mímesis em Levantado do chão, LUÍS ALFREDO GALENI"



sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Congresso Internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel”

Congresso Internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel”

Coimbra, Convento São Francisco

8, 9 e 10 de outubro de 2018

Organização: Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e
Câmara Municipal de Coimbra



© Fotografia de Pedro Soares

"Para celebrar os 20 anos da atribuição do  Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra  organiza, com a Câmara Municipal de Coimbra, o Congresso Internacional  “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” (8  a 10 de outubro de 2018, no Convento São Francisco, em Coimbra). Veja o programa provisório. 

Está em curso, até 31 de julho, a segunda fase de apresentação de propostas de comunicação (aceda aqui à terceira circular e também à ficha de inscrição.). As inscrições sem proposta de comunicação encerram-se a 15 de setembro, tendo sido fixado um máximo de 200 participantes.

Como atividade paralela, foi instituído um prémio de ensaio literário, destinado a estudantes do ensino secundário português. O prazo de envio de trabalhos terminou a 31 de julho. Aceda aqui ao regulamento do concurso.

Foi  atribuída acreditação ao congresso pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua (grupos: 200 Português e Estudos Sociais/História; 210  Português e Francês; 220  Português e Inglês; 300  Português). 

Apoios: Reitoria da Universidade de Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fundação José Saramago; Porto Editora."


8 de outubro
9h30 Cerimónia de abertura.
10h45 Eduardo Lourenço: apresentação do Último Caderno de Lanzarote, de José Saramago.
11h00 Pausa para café.
11h15 Conferência por Teresa Cristina Cerdeira: “Primo Levi e José Saramago: a obra eterna e o quadro infinito”.
13h00 Almoço.
14h30 Sessões paralelas: comunicações.
16h00 Pausa para café.
16h15 Mesa plenária: “Personagens e identidades”.
Ana Paula Arnaut: “Ricardo Reis: o mesmo e o outro”.
Miguel Koleff: “De Juan Maltiempo a Cipriano Algor. Tres o cuatro pinceladas
sobre los personajes saramaguianos”.
Antonio Sáez Delgado: “José Saramago, transiberista”.

9 de outubro
9h30 Mesa plenária: “Diálogo sobre Deus e Saramago”.
Gerson Roani: “Deus como mito literário na escritura de José Saramago”.
Anselmo Borges: “Sobre o Deus de Saramago”.
11h00 Pausa para café.
11h15 Sessões paralelas: comunicações.
13h00 Almoço.
14h30 Mesa plenária: “Outros Saramagos: transmediações”.
Jorge Urrutia: “Intermedialidad y transformación en el cine sobre Saramago”
Filomena Oliveira: “Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis – propostas dramatúrgicas”.
Mário Vieira de Carvalho: “Blimunda de Azio Corghi / José Saramago encenada
por Jerôme Savary (1990)”.
16h00 Pausa para café.
16h15 Conferência por David Frier: “De crónicas familiares à construção dum romance: da génese de Levantado do Chão”.
20h00 Jantar do congresso (por inscrição).

10 de outubro
9h30 Conferência por Roberto Vecchi: “Disjecta membra do século breve: memórias em risco e história a contrapelo em dois romances de José Saramago”.
11h00 Pausa para café.
11h15 Sessões paralelas: comunicações.
13h00 Almoço.
14h30 Sessões paralelas: comunicações.
16h00 Pausa para café.
16h15 Conferência por Carlos Reis: “José Saramago e a personagem como alegoria”.
17h00 Sessão de Encerramento: com Pilar del Río.
17h30 O Ano da Morte de Ricardo Reis (adaptação dramatúrgica de Filomena Oliveira e Miguel Real; por Éter – produção cultural).

"Lembro-me" de Marcelo Buanain, fotógrafo e documentarista

A reportagem fotográfica pode ser recuperada e consultada aqui
em, http://www.buainain.com/blog/2013/6/7/lembro-me

"LEMBRO-ME"

"LEMBRO-ME que em 25 de fevereiro de 1996, em Lisboa fui buscar o escritor José Saramago em uma casa localizada no bairro da estrela. Enquanto o conduzia em um simplório carro – por acaso neste mesmo automóvel tive também a honra de transportar o fotógrafo Sebastião Salgado e a sua esposa Lélia – tentava dissimular a minha ansiedade com conversas sobre a nossa amiga em comum, a jornalista Cristina Duran, responsável pela conexão entre nós dois e que gentilmente nos cedeu a sua casa em Alfama para a sessão fotográfica."


A história dessas imagens surge a partir de uma insatisfação pessoal em relação ao padrão dos retratos clichês que na época predominavam nas mídias, levando-me a conceber o projeto Caras e Pessoas, cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra - a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein com a língua de fora - o insólito, o inusitado. Bingo! A ideia estava concebida, faltava apenas a elaboração de uma lista com os nomes, a concepção para cada retrato e a produção, esta a parte menos atrativa uma vez que se tratavam de celebridades, da disponibilidade de suas agendas e das barreiras geralmente colocadas pelos seus assessores e empresários.


"O drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, de autoria do Prêmio Nobel José Saramago, inspirou-me a produzir uma série de retratos com ênfase nos olhos do escritor português. A namorada da época declara que a ideia de utilizar a bola de metal partiu dela... Não querendo ignorar o mérito de ninguém, porém é fato que este exercício de brincar com a visão do Nobel para mim não se tratava de uma experiência inédita, pois na década de 80, durante uma sessão fotográfica com o então vizinho, o poeta Manoel de Barros, em alusão à sua figura reservada e avessa à fotografia, servi-me de um caracol para também vedar os seus olhos.
Quando o assunto é retrato, acredito que além da técnica e criatividade seja necessário uma cumplicidade entre o fotógrafo e o seu personagem. Em se tratando do Nobel Saramago, nada foi as Cegas, a sessão aconteceu sem perda da acuidade visual."

Marcelo Buanain
"Nasceu em 1962 na cidade de Campo Grande, Estado do Mato Grosso do sul – Brasil. (...)  fotógrafo e documentarista"


"El legado de Saramago se completa con un texto inédito" de Francisco Chacón (ABC, 19/08/2018)

Pode ser consultado e recuperado aqui
em https://www.abc.es/cultura/libros/abci-legado-saramago-completa-texto-inedito-201808190210_noticia_amp.html?

"Saramago, en su casa de Lanzarote en 2009 - EFE"


El legado de Saramago se completa con un texto inédito
«El cuaderno del año del Nobel», que verá la luz en octubre, permitirá conocer su diario de 1998, año en que fue premiado por la Academia sueca

Francisco Chacón (@chaconbilbao), 19/08/2018

"«El arte no avanza, se mueve», escribió José Saramago en sus «Cuadernos de Lanzarote». Fue poco después de un encuentro literario en Ponta Delgada, donde confrontó sus ideas con Joao de Melo, Francisco José Viegas o Urbano Tavares en medio de la serena inspiración de las islas Azores. Hoy, 25 años después, la Fundación que preside su viuda, Pilar del Río, contribuye a completar su legado sacando a la luz la sexta y última de esas entregas, «El cuaderno del año del Nobel».

Será una edición casi simultánea de este inédito del único Nobel portugués: el 8 de octubre se publicará en Portugal de la mano de Porto Editora (vinculada a la histórica Librería Bertrand, la más antigua del mundo y refugio favorito de Fernando Pessoa durante sus años lisboetas); tres días después Alfaguara la difundirá en España... en el año en el que los escándalos sexuales de la Academia Sueca harán que no se reúna el jurado.

Congreso
Según ha podido saber ABC, la puesta de largo se celebrará el mismo día que se inaugurará el primer congreso acerca de la obra del autor de «Ensayo sobre la ceguera» en la Universidad de Coimbra. El desembarco en las librerías coincidirá, por tanto, con el XX aniversario de la concesión del máximo premio mundial de las Letras, un orgullo para el país vecino, donde su espíritu se mantiene vivo en la Casa dos Bicos, ese feudo del Campo das Cebolas donde la Fundación Saramago despliega su labor.

«En este cuaderno, hay menos vida personal que en los anteriores, en especial el primero. Y hay un mayor posicionamiento cultural y ético», explica Pilar del Río a este diario.

Justo cuando se acaban de cumplir ocho años de la muerte del comprometido escritor, nos llega este broche final a sus diarios, relativo a un año que cambió su vida para sumergirlo en un maremágnum de citas, conferencias y entrevistas con la referencia puesta en su entonces flamante Nobel.

Otros autores, como Günter Grass, han testimoniado la revolución personal que supone la entrega del codiciado galardón. Y Saramago lo comprobó enseguida, tanto que él mismo anticipó que se trataría del cuaderno postrero, ya que se le vino encima toda una avalancha de compromisos.

De acuerdo con Pilar del Río, «el libro aparece en el momento en que más se necesita: entenderán lo que digo cuando vayan avanzando en su lectura. Veinte años después, es el momento adecuado para ciertas reflexiones y confidencias».

Lo que está claro es que no quedó completamente perfilado, a juzgar por las lagunas que se encontraron en el archivo que había permanecido en el disco duro de su ordenador. Por ejemplo, algunos temas no se desarrollan, sino que únicamente se mencionan.

Carpeta
Quien fue su infatigable compañera testimonia las excepcionales circunstancias del hallazgo: «Fernando Gómez Aguilera estaba preparando un volumen centrado en los discursos y conferencias de José. Entonces una noche, mirando en su ordenador en Lanzarote, vi una carpeta en la que no había entrado nunca, llamada “cuadernos”. Ahí vi por primera vez que había un sexto volumen». Y prosigue su relato para este periódico: «Me quedé no ya emocionada, sino helada. También vi que él mismo avanzaba que se publicaría en 2001, aunque luego no fue así».

Pilar del Río subraya la vigencia de los pensamientos contenidos en este libro: sobre la inmigración, sobre Europa, sobre la democracia, sobre la libertad, sobre América Latina.

Además, la edición se completará con la de «Un país levantado en alegría», escrito por Ricardo Viel, brazo derecho de Pilar del Río en la Fundación, para radiografiar el contexto que rodeó a Saramago en aquel 1998. Y todo se amplificará a través del privilegiado altavoz de la Feria del Libro de Guadalajara (México), que contará con Portugal como país invitado del 24 de noviembre al 2 de diciembre."

UIMP Universidad Internacional Menéndez Pelayo - Fotografia de Juantxu Rodríguez (Arquivo da UIMP)

"Universidad Internacional Menéndez Pelayo 
La foto es obra de Juantxu Rodríguez, perteneciente al Archivo de la UIMP." 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

"Sobre a ignorância" de Monica de Bolle, publicada na revista "Epoca"

A crónica de Monica de Bolle, pode ser consultada e recuperada aqui
em https://epoca.globo.com/monica-de-bolle/sobre-ignorancia-22983986

"Sobre a ignorância"
"Deveríamos almejar não chegar ao fim da campanha presidencial da mesma forma como nela entramos: cheios de interrogações e assoberbados por mistérios inacessíveis
Volto a escrever neste espaço após três semanas de férias no calor escorchante da Península Ibérica. Para fugir da canícula e do excesso de turistas em Lisboa, passei algumas horas na Fundação Saramago deleitando-me com artigos e áudios, frases e reflexões do escritor. Não surpreendentemente, encontrei o melhor resumo da atualidade: “A ignorância é a mãe de todas as polêmicas”. A frase deveria servir como referência não só para os candidatos que pretendem apresentar propostas concretas para resolver os problemas econômicos do país, como também para todos os responsáveis por entrevistá-los e moderar os debates que teremos pela frente.

Durante as férias, pouco acompanhei as entrevistas, sabatinas e os debates de presidenciáveis. A impressão que tenho de tudo que vi desde que voltei é que polêmicas e ruídos continuam abundantes, enquanto o conteúdo é quase nulo, em parte porque muitos candidatos não demonstram interesse em esmiuçar suas propostas, em parte porque o formato das entrevistas e dos debates não permite que o façam. O primeiro debate entre os presidenciáveis, com tantos a se apresentar e falar, nada esclareceu. O resultado da cacofonia foi a citação de entidade fictícia por um candidato cujas chances de se eleger são nulas. A “Ursal” muita polêmica gerou nas redes sociais, muito barulho por nada, embora, como toda polêmica, há quem ainda acredite em sua existência. As sabatinas conduzidas por grandes emissoras de rádio e TV tampouco foram informativas. Na maior parte dos casos, a numerosa bancada de entrevistadores — ainda que formada por excelentes jornalistas — criou profusão de oportunidades para ruídos, pegadinhas e tentativas de esquivar-se de temas espinhosos.

Temos poucos meses para elucidar assuntos básicos e outros nem tão básicos. Temas como a necessidade de fazer a reforma da Previdência, as dúvidas ponderáveis sobre a sustentabilidade do atual teto para os gastos públicos, as propostas para retomar o processo de redução da desigualdade, medidas para aumentar a produtividade e reduzir o desemprego, entre tantos outros assuntos urgentes, precisam ser discutidos para que as pessoas entendam o que significam e como cada candidato pretende resolvê-los. No entanto, do que se viu até o momento,

o risco é que o povo continue ignorante, a ignorância dando espaço para polêmicas inúteis e para a perpetuação do espírito maniqueísta e tribal que assola o país.

Voltando a Saramago, é importante lembrar que ignorância não é sinônimo de simplicidade, humildade ou modéstia. Em 1978, escreveu o escritor português uma de suas mais belas crônicas, intitulada “Carta para Josefa, minha avó”. “Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Criaste pessoas e gado (...). Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião.” A perplexidade do escritor se desvela nas palavras finais, em que revela não entender como pessoa tão humilde e simples, tão aparentemente distante dos problemas do mundo, possa por ele ter tanto interesse ao revelar, aos 90 anos, a pena que sente em morrer. A simplicidade das palavras escolhidas por Saramago para escrever para sua avó, que talvez não o entendesse caso o vocabulário fosse mais rebuscado, é outra lição para candidatos, jornalistas, formadores de opinião, todos aqueles, enfim, que querem que os eleitores entendam o que está em jogo. Não é a sociedade, mas sim o povo que terá de decidir o que quer. Não é déficit fiscal, mas quanto o governo gasta acima do que arrecada com impostos. Não é ajuste fiscal, mas arrecadar mais do que se gasta por meio da redução das despesas do governo. Para que isso seja possível, o governo não pode mais dar benefícios a quem não precisa nem pagar aposentadorias generosas para aqueles que têm recursos para se sustentar — por isso a reforma da Previdência. Citar enxurrada de números mais confunde e desinteressa do que elucida.

Parafraseando Saramago, deveríamos almejar não chegar ao fim da campanha presidencial da mesma forma como nela entramos: cheios de interrogações e assoberbados por mistérios inacessíveis. A ignorância não pode ser soberana.

Monica de Bolle * Diretora de estudos latino-americanos e mercados emergentes da Johns Hopkins University