Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"Fábrica Braço de Prata. "Esta bomba não rebentará" - de Cristiana Faria Moreira para o "Público" (07/01/2018)

Nuno Nabais recorda para o "Público" um dos momentos mais marcantes da vida do seu espaço das artes na Fábrica de Braço de Prata" aquando da apresentação da obra "Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas" de José Saramago.
Reportagem de Cristiana Faria Moreira - "Público" (07/01/2018)
Pode ser consultada e recuperada aqui 

"Esta é a história de como um professor de Filosofia transformou um espaço devoluto, desejado por imobiliárias, num centro cultural onde o armamento foi substituído pela arte. E que sobrevive há uma década na ilegalidade."

Nuno Nabais, fundador da Fábrica de Braço de Prata 
Fotografia de Nuno Ferreira Santos

"Por que é que nunca houve uma greve numa fábrica de armamento? O que se passa para que a classe operária, tão capaz de lutas, não tenha conseguido entrar nos portões de uma fábrica de armas? As questões levantou-as José Saramago. E quem sabe as respostas a essas dúvidas estejam projectadas nos primeiros três capítulos de um romance que conta a história de amor entre uma pacifista e um trabalhador de uma fábrica de material de guerra.

Deixou-o por acabar, mas o enredo do romance ter-lhe-á surgido após uma conversa com "um velho republicano espanhol" que lhe contou sobre uma bomba que, em plena Guerra Civil, não explodiu. Quando a desarmadilharam, encontraram um bilhete escrito em português onde se podia ler: "Esta bomba não rebentará”.

Para Saramago, poderia até ter sido um operário da Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, a ousar fazê-lo. Quem nos conta esta história de amor, misturada com a sabotagem da guerra, é Nuno Nabais, o professor de Filosofia que, há dez anos, quis tornar parte de um antigo espaço de fabrico de armamento num local em que as armas são a música, a literatura, a pintura ou a escultura.

O livro chama-se Alabardas, foi publicado em 2014, e apresentado, ali, na Fábrica, onde estiveram presentes, “rodeados por guarda-costas”, o juiz espanhol Baltasar Garzón e o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano. Diz Nuno Nabais que terá sido o momento mais marcante nestes dez anos de Fábrica Braço de Prata que, segundo conta, foi de facto o cenário da obra do prémio Nobel da Literatura.

É que o escritor tinha ligações ao local por se ter formado como serralheiro mecânico na Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila. "O sonho de qualquer aluno daquela escola, nos anos 40 e 50, era ir trabalhar para a Fábrica Braço de Prata", recorda Nuno. "Saramago não conseguiu, mas vinha muitas vezes encontrar-se com os antigos colegas aqui".

O edifício apalaçado ter-lhe-á ficado na memória, assim como os mosaicos axadrezados do chão, a escadaria, a fachada com o escudo português e as iniciais FBP, os símbolos alusivos ao trabalho e ao produto que ali se fabricava. Este é hoje o cenário de um espaço cultural, que é uma livraria, com salas de concertos, galerias de exposições, e um restaurante que serve bebida e comida, à margem da lei. Que dez anos depois estará "em vias de formalizar um acordo miraculoso” com a câmara de Lisboa para passar a poder vender cervejas sem estar sujeito a multas.

É uma história de resistência e de amor, como veremos, entre um filósofo e uma agente de bandas, com a música, os livros, a dança, a pintura e a escultura. Com a arte. 

Viajar pela arte de sala em sala
É fim de tarde de uma terça-feira de Outono quando nos sentamos com Nuno numa das mesas da Fábrica. Está fechada, menos para os alunos da Escola de Música, o seu mais recente projecto, e para os "amigos" que vão chegando, a quem não é negada a entrada. 

A Fábrica recebe-nos numa sala ampla, pé direito alto e bar a um canto. Depois, é começar a percorrer as salas que vão desembocando noutras salas, que tomam os nomes de filósofos, como Platão, Nietzsche, Arendt, de escritores como Eduardo Prado Coelho e Saramago ou artistas como Kandinsky. São 13, no total, que não servem para uma coisa só. 

Em dez anos, Nuno Nabais diz ter feito mais de 700 exposições de artistas plásticos, sendo que “nenhum artista expôs duas vezes”. Acolhe cerca de 60 concertos, de vários estilos, por mês. Por vezes, há vários na mesma noite e o objectivo é que se circule pela Fábrica, guiados pelas notas que mais cativam, entrando e saindo, ao ritmo e vontade de cada um, sem constrangimentos.

Aberta de quarta a sábado, não se pagam as entradas; dão-se antes "donativos". No total, sublinha, mais de 1,6 milhões de euros passaram “dos bolsos do público para os bolsos dos músicos”. “Todos recebem o mesmo. Não é por banda, é por cabeça”, diz.

Salvador Sobral já ali tocou por várias vezes. A Fábrica serve, inclusive, de pano de fundo ao videoclip de Excuse Me, tema que dá nome ao primeiro álbum do músico. À sexta, ali costuma tocar o pianista e compositor Júlio Resende, que também acompanha Sobral e com quem tem o projecto Alexander Search. O que leva Nuno a dizer, orgulhosamente, que este é um dos melhores locais para se ouvir jazz na capital.

"Há imensos esqueletos nos armários desta fábrica"
Pedimos que nos explique como é que sobreviveu ali, numa zona da cidade que se diz agora na moda, quando, “há dez anos, ninguém ia para o Poço do Bispo”, refém da memória das docas, da Fábrica Militar, da Fábrica Nacional de Sabões, da Tabaqueira, dos fósforos, da borracha, dos armazéns de vinho de Abel Pereira de Fonseca, do frenesim das horas de almoço onde os trabalhadores saíam e preenchiam as ruas de Marvila.

Para isso, voltemos ao início do século XX, quando aquele complexo industrial foi construído, para se dedicar ao fabrico de munições de artilharia, sob a alçada do Arsenal do Exército. 

"Há imensos esqueletos nos armários desta Fábrica", desabafa Nuno. A Guerra do Ultramar foi o garante da fábrica, com a produção intensiva de espingardas automáticas, morteiros, metralhadoras, munições, fardamentos e outros artigos que equiparam as Forças Armadas Portuguesas. Chegou a empregar cerca de 12 mil operários, que produziram também armamento para a República Federal da Alemanha.

Já nos anos 90, a Fábrica acabaria por ser desactivada e votada ao abandono, mas rapidamente seria revelado o interesse de construtores imobiliários naqueles terrenos.

A história de Nuno com a fábrica começa à boleia da família. “Somos cinco irmãos. Um deles é engenheiro civil e, em 1997, era membro da administração de uma empresa de construção, a Somague”. Que se tinha associado à Obriverca e criado a empresa Jardins de Braço de Prata. O objectivo era comprar a antiga fábrica de material de guerra para construir aquilo que está, finalmente, duas décadas depois, a ser construído - um empreendimento de apartamentos de luxo, projectado pelo arquitecto italiano Renzo Piano (Prémio Pritzker, co-autor do Centro Georges Pompidou, em Paris) em 1998.

Em 1999, outro irmão, advogado de profissão, “fez um contrato de comodato com a empresa Jardins de Braço de Prata”, conta Nuno, o que lhe permitia ocupar o edifício, sem pagar renda, ficando responsável pela manutenção do edifício. Segundo refere o professor, a autarquia queria que o edifício fosse sua propriedade, o que só aconteceria assim que “o empreendimento estivesse concluído e a câmara tivesse passado as licenças de habitação aos apartamentos”.

Ora, em 2002, a obra acabaria por ser embargada. Foram surgindo outros planos para o local, mas nunca nada avançou. À data, além de dar aulas de Filosofia na universidade tinha, no Bairro Alto, uma livraria especializada em Filosofia e Teatro - a Eterno Retorno -, próxima da Ler Devagar, de José Pinho. Em 2005, livraria de Pinho foi forçada a sair do edifício que ocupava na Rua de São Boaventura. Em “solidariedade”, diz Nuno, também fechou as portas. O plano era partilharem casa, o que ainda veio a acontecer, na Galeria Zé dos Bois e na Rua da Rosa, mas sempre “com o sacrifício da Eterno Retorno”, aponta.


"Uma livraria sem bar não funciona"

A parceria com a Ler Devagar acabou por não dar muito certo e, sem sítio para pôr os livros, acabou por encontrar o espaço de que precisava na Fábrica.

Entretanto outro irmão tinha montado uma galeria de arte num dos salões da Fábrica, quando surge a ideia: “Por que não abrir um espaço das artes na fábrica, com livraria, café e galerias de arte?", recorda o professor, para quem “uma livraria sem bar não funciona”.

A ideia avançou com a ajuda dos alunos da faculdade, de amigos músicos, que pintaram paredes, montaram móveis. Comprou um piano a prestações, transformou casas de banho numa cozinha e o espaço passou de livraria a sala de concertos, galeria de exposições e restaurante. Conta que a Fábrica só está hoje de pé porque fez um crédito de “seis mil euros milagrosos”, numa daquelas bancas à saída do metro.

A partir daí, foi uma corrida contra o tempo. Antes da abertura, reatou a parceria com a Ler Devagar. Era assim apresentada uma nova livraria em Lisboa: Ler Devagar/Eterno Retorno.

Acabou por inaugurar com o pretexto dos Santos Populares. Sem possibilidade de desembolsar “centenas de milhares de euros” para fazer as obras para licenciar o espaço como equipamento cultural, pediu à câmara uma licença para fazer um arraial de Santo António. “Até hoje, é a única licença que eu tenho, para o mês de Junho de 2007. Hoje, é um caso de estudo. Como é que um espaço destes sobrevive dez anos na ilegalidade?”.

“Nuno, aguente-se na ilegalidade”
Em 2008, a obra do empreendimento dos Jardins de Braço de Prata acabaria por ser desembargada. Adivinhava-se o fim daquele espaço, mas um artigo do The New York Times, de Julho, intitulado Lisbon comes alive (Lisboa ganhou vida, em tradução livre), acabaria por “salvar” a Fábrica, acredita Nuno. O texto arrancava com a referência à “fábrica de armas durante os sombrios anos da ditadura em Portugal, com as instalações há muito abandonadas, [que] renasceu para ser o mais recente e ambicioso espaço cultural de Lisboa”.

É uma visita guiada à Fábrica por Nuno, que naquela altura fazia tudo: "Vendia os bilhetes, vendia a cerveja, tudo". O chamariz da noite - e do jornalista - era Michel de Roubaix, artista do sapateado e do acordeão que ali actuava.

Dias depois, numa reunião da assembleia municipal, a deputada Helena Roseta levou uma proposta acompanhada daquele artigo, que consistia em passar o edifício para equipamento cultural, assim que aquelas instalações passassem para propriedade da câmara. E, na gestão do espaço, em nome do município, permaneceria Nuno Nabais."

Em dez anos, Nuno Nabais diz ter recebido mais de 700 exposições 
Fotografia Nuno Ferreira Santos

"Nada avançou, a primeira pedra do empreendimento ainda foi lançada, em 2010, 12 anos depois de o projecto ter sido apresentado, visando retomar o processo de regeneração urbana iniciado com a Expo 98. Mas a Obriverca acabaria por abrir falência e a obra foi, mais uma vez, parada.

“Aqui temos estado estes dez anos, vulneráveis a qualquer inspecção. Sempre que cá vem ASAE sou multado", lamenta. "Contesto a contra-ordenação, vou para o tribunal. Em tribunal os juízes percebem que é um acontecimento cultural, absolvem-me ou reduzem-me a multa”, partilha resignado.

"Pagamos tudo, apesar de sermos ilegais. Pagamos IVA, IRC, à Sociedade Portuguesa de Autores, à Inspecção Geral Das Actividades Culturais (IGAC). Não pagamos a renda, mas de resto pagamos tudo”, admite. 

Diz que a câmara ainda se meteu nas negociações com os proprietários, sem grandes resultados. Tentou depois fazer um acordo com Nuno que este recusou, por não conseguir pagar a renda que lhe pediam. Mas assegura que a autarquia o tem animado e resistir: “Nuno, aguente-se na ilegalidade”. A solução parece ter chegado.

Um acordo "miraculoso"
Ainda no ano passado, em Fevereiro, no mesmo ano em que comemorou uma década de existência, a câmara propôs-lhe um acordo: passaria a ter um contrato de arrendamento, desde que garantisse a integração da comunidade local nas suas actividades.

“Estamos em vias de formalizar um acordo miraculoso”, diz Nuno, explicando que a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) encarregar-se-ia de montar uma “estrutura no exterior para espectáculos ao ar livre”. “Eles [a EGEAC] usam essa estrutura 60, 70 dias por ano, nos outros usamos nós. E se aceitássemos, não precisávamos de pagar renda”, detalha.

Nuno está responsável por tratar do texto da proposta de protocolo onde deve “incluir um conjunto de contrapartidas” que a fábrica dará à cidade: propinas grátis para a escola de música aos miúdos de Marvila, concertos gratuitos nas escolas da freguesia, sessões de leituras, edição de obras. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, obter mais informações junto da autarquia."

O edifício onde funciona a Fábrica, diz Nuno Nabais, terá sido a sede daquele complexo industrial Fotografia Nuno Ferreira Santos

"Depois de assinado o protocolo, terá um contrato de arrendamento. “E finalmente vou pedir alvará para, finalmente, poder vender cervejas sem estar sujeito a multas”.

Neste momento, emprega 14 funcionários. É precisamente a parte da fábrica que não está legal que lhes permite sobreviver: o restaurante e bar. Já que, “100% da bilheteira é para os músicos, 100% do valor das obras de arte que se vendem é para os artistas”.

“Só nos sustentamos - que não sustentamos - porque todos os meses temos que entrar com 500, 1000 euros para o orçamento da fábrica”, diz. “Se eu não continuasse a dar aulas, a Fábrica não existia. Sobrevivi a tudo isto. Já não sinto a fome que sentia naqueles meses. Já não sinto a angústia de ir para tribunal". É tudo parte de "um grande romance" que conta às pessoas quando lhe perguntam porque se meteu nesta embrulhada.

A co-protagonista deste romance rocambolesco é Sílvia, que é a responsável pela produção musical, e a mãe de dois filhos de Nuno, o Gabriel e a Violeta, "100% made in Fábrica Braço de Prata". “Conheci a Sílvia aqui. Ela era agente de uma banda rock. Depois convidei-a para trabalhar comigo e nasceram estes filhos”.

Com a construção do empreendimento de luxo, que se vai estender pela frente ribeirinha, "a malta pobre vai ficar a olhar para uma barreira de betão armado", considera Nuno Nabais. "E nós vamos ficar aqui como um enclave, rodeados de prédios de luxo. Um enclave com memórias do 25 de Abril, com funcionamento ilegal assumido, com 60 concertos por mês, sete exposições, uma livraria”. Como parte de um romance inacabado."

Recordar a intervenção sobre a situação em Chiapas



Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16 de Janeiro de 2003

(...)
Uma das várias batalhas, na América Latina, em que tiveste intervenção activa foi a de Chiapas, de que agora não se tem falado. O que sucedeu?
A Latino-América tem muitos e muito graves problemas. Mas tem um «especial», que é o problema indígena. E às vezes parece haver a convicção de que ele se resolve com o tempo. Houve um longo e lento genocídio dos indígenas: nuns casos foi a eliminação física, noutros foi a entrega o abandono dessas populações à sua (má) sorte. Um exemplo, entre outros, é o da Guatemala, onde essa população representa 50% do total.
Em Chiapas, o que houve foi uma guerrilha armada, zapatista, que não durou muito. Parte desse exército refugiou-se na selva. E através de meios como a internet, conseguiu dar dimensão internacional à sua luta. Depois dos acontecimentos conhecidos que tiveram repercussão mundial, como a longa marcha até à Cidade do México, o comandante Marcos esteve muitos meses calado. Recentemente escreveu uma carta, a propósito da ETA, que foi um erro político. Chiapas é muito rica - em petróleo, água, café, cacau, aquilo, aqueloutro - e a sua situação está num beco sem saída. O que parece é que toda a gente está à espera que as populações se afundem, se dissolvam, desapareçam, não se sabe porque artes mágicas, para caírem em cima daquilo e se apropriarem de tudo.

A situação é particularmente difícil na América Central...
A situação é dramática. E se os EUA se comportam como se comportam em relação ao resto do mundo, então ali, que se consideraram um seu feudo, imagine-se! (...)







"Todos somos Chiapas"

"Su visita a Acteal hace un par de semanas dejó al escritor portugués afincado en Lanzarote hondamente impresionado. Éstas son sus impresiones, narradas en primera persona.

He visto el horror. No el que hemos observado en lugares como Bosnia o Argelia. No. Éste es otro tipo de horror. Estuve en Acteal, en el mismo lugar de la matanza... escuchando a los supervivientes. Es difícil expresar lo que se siente cuando uno sabe que se encuentra con los pies sobre el mismo lugar donde hace tres meses asesinaron a estas personas.

Me imaginaba la escena... La gente tratando de escapar... los paramilitares disparando a discreción... las mujeres y los niños gritando, huyendo entre la maleza... el lamento de los heridos...

En Chiapas se vive una situación de guerra o una ocupación militar, que al final es casi lo mismo. No es una guerra en el sentido común, con un frente y dos partes confrontadas. Yo nada más he visto una parte confrontada: el Ejército y los paramilitares. La otra parte, las comunidades indígenas, no están enfrentándolos, no tienen medios. Están rodeados, no tienen comida ni agua... Viven en condiciones infrahumanas. Son casi campos de concentración. No los reunieron allí a la fuerza, es cierto, pero cuando huyeron a esos lugares (se refiere a los campos de refugiados) los rodearon los paramilitares y el Ejército. Entonces esos campamentos se convirtieron en una especie de campo de concentración.

Si alguna vez hubo en la historia de la humanidad una guerra desigual, no la hubo nunca como ésta. Es una guerra de desprecio, de desprecio hacia los indígenas. El Gobierno esperaba que con el tiempo se ¡acabaran! todos, simplemente eso.


"Me llevo no sólo el recuerdo, me llevo la palabra misma... la palabra Chiapas no faltará ni un solo día de mi vida"

Pero ellos sobreviven, alimentándose de su propia dignidad. No tienen nada, pero lo son todo. Enfrentan la guerra con ese estoicismo que me impresionó tanto, un estoicismo casi sobrehumano que no aprendieron en la universidad, que consiguieron tras siglos de humillación. Han sufrido como ninguno y mantienen esa fuerza interior, una fuerza que se expresa con la mirada... La mirada de ese niño al que le han destrozado para siempre la vida... (Saramago conoció al pequeño de cuatro años Gerónimo Vázquez al que los paramilitares amputaron cuatro dedos en Acteal) Es algo que no se me borrará jamás de la memoria... Las miradas serias, severas, recogidas de las mujeres, de los hombres... son algo que está por encima de todo. Los indígenas no tienen nada, pero lo son todo. ¿Cómo es posible que después de tanto sufrimiento ese mundo indio mantenga una esperanza? ¿Cómo puede sonreír ese hombre de Polhó que nos acaba de decir "mañana puede que nos maten a todos, pero bueno, aquí estamos"? Es algo que no alcanzo a entender.

En Chiapas encontré un mundo que no comprendo. El mundo indio es un mundo donde el europeo no puede entrar fácilmente. Es como si me asomara a una ventana que da a otro mundo y, aunque lo tengo enfrente, no lo puedo entender.

También descubrí otra realidad, la de un territorio ocupado militarmente. Un territorio donde los paramilitares y el Ejército son la uña y la carne juntas. Por una razón muy sencilla: de no ser así, los paramilitares no podrían haber hecho lo que hicieron y lo que siguen haciendo. Yo vi camiones del Ejército transportando a civiles que seguro no viajaban allí por la amabilidad de los militares. Minutos después de que abandonáramos Acteal hubo un acto de intimidación e hicieron hasta 30 disparos al aire. Esto sólo puede ocurrir si el Ejército da su bendición. Nada más fácil para el Ejército que identificar a los paramilitares y desarmarlos.

Me parece esquizofrénico que el Congreso pueda estar debatiendo una ley (el Proyecto de Ley sobre Autonomía Indígena propuesto por el ejecutivo) supuestamente para resolver los problemas de las comunidades indígenas, como si fuera una ley normal, en situaciones normales para objetivos consensuados, cuando al mismo tiempo hay miles de desplazados que no pueden volver a sus tierras, con miedo a ser asesinados, mientras hay una ocupación militar clara en el territorio de Chiapas. Y mientras los paramilitares se pasean tranquilamente y hacen lo que quieren.

¿Cómo es que no se empieza por pacificar la situación para después discutir una ley donde participen todos los sectores y todas las comunidades?

Todo se ha hecho sometiendo a los indios de Chiapas a una presión incalificable y esto no puede llamarse humanidad.

El pueblo de México tiene que reclamar a su Gobierno una paz justa y digna. Yo no puedo, sólo soy un escritor extranjero acusado de injerencia. El pueblo mexicano no puede quedarse parado, dejando que los gobernantes lo decidan todo, hay que bajar a la calle... no estoy pidiendo un levantamiento sino simplemente que las conciencias se manifiesten... estoy pidiendo una insurrección moral, desarmada, étnica...

Acteal es un lugar de la memoria que no puede de ninguna manera desaparecer. Sabemos lo que ocurrió y no lo queremos olvidar. Chiapas es el cuerpo de México. La sociedad civil debería admirar no sólo a los indios sino a los que se levantaron para defender a esos mismos indígenas.

De Chiapas me llevo no sólo el recuerdo, me llevo la palabra misma... Chiapas... La palabra Chiapas no faltará ni un solo día de mi vida. Si tenemos conciencia pero no la usamos para acercarnos al sufrimiento ¿de qué nos sirve la conciencia? Volveré a Chiapas, volveré".

Transcripción de Javier Espinosa

(Declaraciones concedidas a LA REVISTA por José Saramago (Portugal, 1922) en México DF tras su viaje a Chiapas el 14 y 15 de marzo. En su visita conversó con los supervivientes de la matanza de Acteal en el lugar de la masacre, recorrió después el campo de refugiados de Polhó y hasta se acercó al campamento militar de Majomut, sito en las inmediaciones del asentamiento indígena)."

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"José Saramago Nas suas palavras" edição de Fernando Gómez Aguilera

"Penso que há mais relação com a música dentro de uma obra do que aquilo que tem a ver com as referências explícitas à música. Quando, por exemplo, numa frase que acabo de escrever e em que já disse tudo o que tinha para dizer, eu sinto que me falta qualquer coisa, em termos de compasso musical. E pode acontecer que eu acrescente mais duas palavrinhas ou três, que não fazem falta nenhuma. Não fazem falta ao sentido, mas o tempo do compasso não pode ficar no ar."

“Provavelmente já chegou o dia em que não terei nada mais a dizer”, 
Público (Suplemento Mil Folhas), 
Lisboa, 12 de novembro de 2005 [Entrevista a Adelino Gomes].



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O Teatro Molière (Salvador da Bahia - Brasil) apresentou "Em Busca da Ilha Desconhecida" inspirado em José Saramago (Outubro 2017)

Chegaram relatos da apresentação da peça de teatro "Em Busca da Ilha Desconhecida" baseada no conto de José Saramago.

Foi apresentada a peça no passado mês de Outubro e pode ser recuperada informação através do portal "bahia.ba", (05/10/2017) aqui
em http://bahia.ba/entretenimento/moliere-recebe-peca-em-busca-da-ilha-desconhecida-para-dia-das-criancas/

"Molière recebe ‘Em Busca da Ilha Desconhecida’ para dia das crianças
Inspirado em José Saramago, musical traz o laço cultural entre Nordeste e a Europa Ibérica"



"Hoje tem Teatro para crianças inspirado em conto de Saramago! 
Programa para toda a familia!!! #embuscadailhadesconhecida
#teatromolieresalvador #teatroparacriancas #culturadainfacia "

Foto: Ives Padilha

"O feriado do dia das crianças se aproxima e os pais em busca de um programa alternativo podem encontrar no Teatro Molière, da Aliança Francesa, um refúgio. O palco dará espaço à peça “Em Busca da Ilha Desconhecida”, texto de José Saramago (“Ensaio Sobre A Cegueira”) para o público infantil.

O espetáculo leva o público para embarcar em busca da “ilha desconhecida”, pedaço de terra além do alcance dos geógrafos de um reino remoto. Com o uso de canções originais, a encenação é um olhar para a cultura iberonordestina. O texto já foi montado no Teatro Vila Velha e no Sesc Senac Pelourinho."

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Livro" (30/12/2008) post do blog "Outros Cadernos de Saramago"

Publicado a 30/12/2008 deixando antever a publicação de "Caim".
Aqui em http://caderno.josesaramago.org/18967.html


"Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
Livro
Estou às voltas com um novo livro. Quando, no meio de uma conversação, deixo cair a notícia, a pergunta que me fazem é inevitável (o meu sobrinho Olmo fê-la ontem): e qual vai ser o título? A solução mais cómoda para mim seria responder que ainda não o tenho, que precisarei de chegar ao fim para me decidir entre as hipóteses que se me forem apresentando (supondo que assim seria) durante o trabalho. Cómoda, sem dúvida nenhuma, mas falsa. A verdade é que ainda a primeira linha do livro não havia sido escrita e eu já sabia, desde há quase três anos (quando a ideia surgiu), como ele se iria chamar. Alguém perguntará: porquê esse segredo? Porque a palavra do título (é só uma palavra) contaria, só por si, toda a história. Costumo dizer que quem não tiver paciência para ler os meus livros, passe os olhos ao menos pelas epígrafes porque por elas ficará a saber tudo. Não sei se o livro em que estou a trabalhar levará epígrafe. Talvez não. O título bastará."



















terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Revista "Blimunda" edição #67 (12/2017)

A presente edição está disponível para consulta e download através dos links aqui publicados,


Capa da edição #67

Página do Facebook da "Blimunda" https://www.facebook.com/revistablimunda/

Apresentação da revista
"Com o novo ano quase à porta, chega a edição 67 da Blimunda. Este mês a revista visitou a It´s a book, livraria nascida há um ano em Lisboa que aposta na “curadoria” dos livros que tem disponíveis como o seu principal diferencial. A Blimunda esteve também com Duarte Pereira, um jovem livreiro que leva a sua livraria, a Snob, a todo o país.
Merece ainda destaque neste número a publicação de «Comer Beber», de Filipe Melo e Juan Cavia, um livro ilustrado que tem a memória como tema central.
Como no número anterior, a Blimunda dá espaço para um autor britânico inédito em português. Este mês a revista publica um excerto de The Bone Readers, de Jacob Ross, traduzido por Carla Fernandes.
A Saramaguiana vasculhou o arquivo de Gabriel García Márquez para recuperar um episódio em que ele, José Saramago e outros grandes nomes da literatura mundial se uniram para apoiar a Orhan Pamuk.
A fechar 2017, a nossa e vossa Blimunda deixa o desejo de um Bom 2018."

"A Jangada da Europa à Deriva – Apontamentos sobre a Actualidade d’A Jangada de Pedra de José Saramago" via I Cátedra Internacional José Saramago da Universidade de Vigo

"A Jangada da Europa à Deriva – Apontamentos sobre a Actualidade d’A Jangada de Pedra de José Saramago" pode ser recuperado aqui 
em http://catedrasaramago.webs.uvigo.es/pt/publicacions-da-catedra/a-jangada-da-europa-a-deriva-apontamentos-sobre-a-actualidade-d-a-jangada-de-pedra-de-jose-saramago-49/#_edn2

Toda a informação aqui em http://catedrasaramago.webs.uvigo.es/

"A Jangada de Pedra" da edição Caminho (1986)


“Fruto imediato do ressentimento colectivo português pelos desdéns históricos de Europa (mais exacto seria dizer fruto de um meu ressentimento pessoal...), o romance que então escrevi - A Jangada de Pedra - separou do continente europeu toda a Península Ibérica para a transformar numa grande ilha flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hélices em direcção ao Sul do mundo, «massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais», a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico, desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o domínio sufocante que os Estados Unidos da América do Norte vêm exercendo naquelas paragens... Uma visão duas vezes utópica entenderia esta ficção política como uma metáfora muito mais generosa e humana: que a Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como ética. As personagens da Jangada de Pedra - duas mulheres, três homens e um cão - viajam incansavelmente através da península enquanto ela vai sulcando o oceano. O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se (sem esquecer o cão, que não é um cão como os outros...). Isso lhes basta.”  
(José Saramago, Discursos de Estocolmo) 

Em 2016, os 30 anos da edição d’A Jangada de Pedra de José Saramago coincidiram com o trigésimo aniversário da adesão de Portugal e Espanha à CEE, a futura União Europeia. A relevância da perspectiva saramaguiana sobre a relação das culturas ibéricas com o resto da Europa, sobre o processo de construção da UE continua a ser evidente. 

No seu momento, o romance e as opiniões do autor representavam uma visão radicalmente diferente daquela que vigorava na opinião pública de então. Desde a direita até ao centro-esquerda, depreciava-se qualquer debate sobre os perigos de antecipar uma união económica a uma convergência político-cultural. Uma ampla maioria nos principais países europeus acreditava que o período de paz após a II Guerra Mundial só se devia ao processo de integração económica europeia. 

Mas o romance sugeriu, de uma forma muito plástica, como o conflito pós-colonial de sistemas também se podia transformar em conflito cultural na própria metrópole Europa. Depois de 500 anos de presença em três continentes e após a perda das últimas colónias, a entrada de Portugal e Espanha na CEE tinha sido menos um regresso do que uma chegada. Até à morte de Franco ou ao 25 de Abril, respectivamente, a Europa tinha sido para Espanha e Portugal sobretudo um destino de emigração e de exílio. 

A adesão económica, porém, aconteceu num momento no qual esta Europa já se encontrava desprovida de um imaginário comum. Nos casos espanhol e português, talvez tenha vigorado naquele momento uma utopia de modernização das suas sociedades. Mas o que realmente produziu uma política de factos consumados era a economia comunitária com os seus caudais de fundos de desenvolvimento. 

Porém, não havia naquele momento um projecto político-cultural de uma Europa com valores comuns que pudesse ter servido de alicerce para uma integração. Precisamente por isso, A Jangada de Pedra insistiu na necessidade de acção de um sujeito que não pode ser desvinculado do seu contexto histórico-social e político. Como em toda a obra saramaguiana, também este romance participa de uma certa utopia do destino individual e do futuro melhor. Mas esta só se justifica pela acção histórica do sujeito e por este adquirir uma memória crítica do passado. 

Assim, a vara de negrilho e o risco de Joana Carda, que maravilhosamente desencadeiam a rotura da Península Ibérica nos Pirenéus, deslegitimam todas as vinculações impostas, sociais ou políticas. É sugerida a instituição de uma nova realidade, de uma necessária heterogeneidade cultural e de uma reescrita pós-colonial da História. A leitura crítica da História que propõe o romance lembra-nos que a Europa precisa de uma narrativa actualizada e da sua conseguinte posta em prática. Entre outros aspectos, sugere que é indispensável assumirmos a culpabilidade europeia em relação às culturas e aos espaços colonizados. 

Saramago concretizou esta reivindicação em 1998, no seu discurso na cerimónia de entrega do prémio Nobel. Aí reclamou uma “nova utopia” para a Europa, uma reorientação “para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo” e que esta Europa se assuma, de uma vez por todas “finalmente como ética”.[1] Não era a única ocasião em que se desvinculara da corrente europeizante do pensamento nacional em Portugal.[2] 

Mas era no discurso de Estocolmo onde chegou a caracterizar A Jangada de Pedra como o “fruto do ressentimento colectivo português” e até, “pessoal”, “pelos desdéns históricos de Europa”.[3] E em 1986, numa entrevista para a revista francesa Libération, tinha deixado claro que no cerne da questão estava a necessidade de acrescentarmos à memória colectiva europeia uma argumentação ética: 

“Esse romance […] é o efeito, talvez último, de um ressentimento histórico. Provavelmente, só um português poderia ter escrito tal livro. Mas o seu autor, este autor, declara que estaria pronto a fazer regressar do mar a errante jangada, depois de alguma coisa ter aprendido de vitalmente necessário durante a sua navegação, se a Europa, reconhecendo-se, de facto, incompleta sem a Península Ibérica, viesse a fazer pública confissão dos erros cometidos, das injustiças e dos desprezos com que durante tantos anos tratou dois povos a quem deve muito mais do que aquilo que tem querido reconhecer.”[4] 

Mas a utopia de uma “Europa finalmente como ética”, livre de complexos de superioridade, não implica o desaparecimento dos ‘factos diferenciais’ que distinguem as culturas ibéricas entre si, mas também, pelo menos na sua grande maioria, das outras culturas europeias. Continua a haver lugar para o sonho de um destino atlântico das culturas peninsulares. 

Naturalmente, isto inclui também a defesa de um pluralismo e de uma identidade cultural fluída, acorde com um mundo globalizado, sem nunca abdicar da premissa de uma ética concreta e palpável: 

“De um ponto de vista ético abstracto, a Europa não tem mais culpas no cartório da história que outra qualquer parte do mundo onde, hoje e ontem, por todos os meios, se tenham disputado o poder e a hegemonia. Mas a ética, exercendo-se, como no-lo está dizendo o senso comum, sobre o concreto social, é porventura a menos abstracta de todas as coisas.”[5] 

Esta filosofia do sentido comum é a base do “privilegiamento das permutas culturais” com a América Latina e a África,[6] com o qual o eurocentrismo deve ser contrariado, uma ideia que Saramago circunscreveu com o conceito da “trans-ibericidade”.[7] Quer dizer, o desafio de a Europa enfrentar a sua imagem no espelho das culturas pós-coloniais às quais deu origem. 

Hoje, quando se deplora o euro-cepticismo seria conveniente lembrar que Saramago já nos avisou em 1986 que existe “além dessa espécie de deformação congénita denominada eurocentrismo, aquele outro comportamento aberrante que consiste em ser a Europa, por assim dizer, eurocêntrica em relação a si mesma”.[8] Saramago sempre insistiu na correlação entre uma ética comum e a necessária aceitação dos factos diferenciais das diferentes culturas europeias: 

“[…] não haverá no futuro próximo uma nova Europa se esta não instituir frontalmente como entidade moral, e também não a haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que quantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas.”[9] 

Nos trinta anos que Portugal e Espanha estão agora na CEE e na UE, nivelaram-se muitas diferenças económicas e administrativas, mas também culturais. A visibilidade e o conhecimento das culturas ibéricas nas grandes potências europeias, e na UE em geral, têm certamente aumentado. Mas também presenciamos uma crescente desconfiança dos países do Centro-Norte em relação aos países do Sul, frequentemente acusados de serem demasiado corruptos, dispendiosos e preguiçosos. Uma recente tentativa do Ministro de Finanças alemão de interferir na política interna portuguesa tem sido disso só um exemplo paradigmático, entre muitos outros. Em 2016, numa cimeira em Budapeste, Wolfgang Schäuble apresentou o Portugal da Troika como um exemplo do que devem ser as políticas económicas a seguir pelos países da zona euro, ao dizer que “Portugal estava a ser muito bem sucedido até entrar um novo governo, depois das eleições”, que a sua falha tinha sido “declarar que não iria respeitar os compromissos assumidos pelo anterior Governo” e “se seguirem esse caminho, vão assumir um grande risco”, afirmou.[10] Já antes, o mais poderoso dos ministros de finanças da UE tinha advertido do perigo de Portugal ter de pedir um novo resgate, se não acatasse as regras ditadas pela Comissão Europeia. 

Estas imposições de cortes financeiros chocam com o facto de terem sido os 10% mais pobres que perderam 24% do rendimento, entre 2009 e 2013 em Portugal, enquanto o rendimento dos 10% mais ricos só desceu 8%. Também segundo o Eurostat, mais de um quarto da população portuguesa (25,3%, na Espanha são 28,2%) está em risco de pobreza e exclusão social, um risco que está a aumentar em todos os países da União Europeia, ininterruptamente desde 2008, sobretudo nos países sujeitos a ‘troikas’ ou a medidas radicais de austeridade, eufemisticamente ditas “ajustamentos estruturais”. 

Em 1986, Saramago já intuiu que uma integração económica europeia sem enquadramento cultural, político e ético iria causar muitos desequilíbrios e que “o seu pecado ou vício maior, […] é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos”.[11] O facto de Portugal, especialmente durante os anos da recente crise económica e financeira mundial, ter sido relegado para o papel de fornecedor de mão-de-obra barata ou de destino turístico de baixo custo e massificado, com Lisboa e Porto em clara deriva para a gentrificação e a descaracterização, ilustra esses desequilíbrios. A desconfiança e altivez com que os governos dos países do Centro-Norte costumam dirigir-se ao Sul da Europa, não é um fenómeno recente e já estava presente quando Saramago escreveu A Jangada de Pedra: 

“é desta maneira idealizada que os europeus costumam ver-se no espelho de si mesmos, e essa é a servil resposta que a si mesmos invariavelmente vêm dand «Sou eu o que de mais belo, de mais inteligente e de mais culto a Terra produziu até hoje.»”.[12] 

Um dos principais reflexos actuais desta atitude doutoral desprovida de uma ética do “concreto social” talvez seja a imposição de uma austeridade e de um dogmatismo financeiros que produziram novas vagas de emigração, agravado ainda pela falta de uma política de compromisso inequívoco em relação à crise humanitária dos refugiados. Estas e muitas outras dissonâncias no seio da EU compõem um desolador panorama de desintegração e falta de solidariedade, tal como o descreveu Saramago já em 1986:

“Para os estados europeus ricos e, segundo a opinião narcísica em que se comprazem, culturalmente superiores, o resto da Europa é algo vago e difuso, um pouco exótico, um pouco pitoresco, merecedor, quando muito, da atenção da antropologia e da arqueologia.”[13] 

Não é só Portugal que se debate hoje com transformações estereotipadas e superficialmente estetizadas da sua identidade. Há uma pressão para que os economicamente mais fracos correspondam, entre outras imposições de um mercado comunitário e simultaneamente globalizado, ao ideal de destino de negócio aliciante ou de turismo low cost. Enquanto a Europa se encontrar numa deriva desintegradora, austerocrática, paternalista, heteropatriarcal e sem consenso sobre valores comuns, um livro como A Jangada de Pedra continuará a ser uma mensagem política relevante para os indispensáveis debates sobre o futuro da UE. 

Como instituição, cuja credibilidade depende de como consegue responder às expectativas da cidadania, a UE vive, hoje em dia, submersa numa grave crise de valores. Para que possa formular alternativas reais ao euro-cepticismo crescente, não só precisa de uma reflexão colectiva e inter-cultural em torno dos problemas actuais como bem-estar, coesão, equidade ou segurança. Mas também sobre a promessa incumprida de uma Europa das Regiões, sobre a necessária redefinição de uma identidade cultural europeia a partir de valores como solidariedade e Direitos Humanos, entre muitos outros. 

Apesar de ter sido um declarado crítico do conceito de utopia, Saramago sempre se esforçou por deixar uma porta aberta para uma reinvenção em positivo da narrativa “Europa”. Porém, este renovado relato ético teria de partir da cidadania e do sujeito, da ideia de um demos (δήμος) europeu, ou seja, de um conceito de povo que não se fundamenta exclusivamente no étnico. Só a expressão deliberativa, cooperativa e colectiva da vontade dos sujeitos pode legitimar uma acção política e social oposta à tecnocracia descaracterizadora. Mas antes de lá chegar, esta cidadania precisa de assumir que 

“as culturas, é tempo de começar a entendê-lo Europa, e entendida tente ficar de uma vez para sempre, não são melhores nem piores umas que as outras, não são mais ricas nem mais pobres. Pelo destino, valem-se e equivalem-se, e pela diferença, assumida e aprofundada, é que se justificam.”[14]

(Burghard Baltrusch)

Como citar este artigo:

Baltrusch, Burghard (2016). "A Jangada da Europa à Deriva –  Apontamentos sobre a Actualidade d’A Jangada de Pedra de José Saramago", in Publicações no site da I Cátedra Internacional José Saramago, (acesso ../../....).


Este texto é uma versão abreviada e ligeiramente modificada do artigo "NOS 30 ANOS D’A JANGADA DE PEDRA: JOSÉ SARAMAGO E A ATUALIDADE DO DISCURSO DA “TRANS-IBERICIDADE”, publicado em Fênix - Revista de História e Estudos Culturais (n.º 2, 2016).

[1]Saramago (1999). Discursos de Estocolmo. Lisboa: Caminho. 
[2]Saramago (1988). “O (meu) Iberismo”, Jornal de Letras, Artes e Ideias 330, 31.10., p. 32. 
[3]Saramago (1999), Discursos de Estocolmo. Lisboa: Caminho. 
[4]Saramago [1986] (2016). “Meditação sobre uma Jangada”, Blimunda 55, p. 105, reed. em port. de uma entrevista dada à Libération em 1986. 
[5]Ibid., p. 100. 
[6]Saramago (1986). “A Península Ibérica nunca esteve ligada à Europa” [entrevista a Inês Pedrosa], Jornal de Letras, Artes e Ideias, 10.11., p. 24. 
[7]Saramago (1989). “Acerca do (meu) Iberismo”, Encontros: Revista Hispano Portuguesa de Investigadores en Ciencias Humanas y Sociales 1, p. 31. 
[8]Saramago [1986] (2016). “Meditação sobre uma Jangada”, Blimunda 55, p. 101. 
[9]Ibid., p. 102-103. 
[10]Público do 26.10.2016, <https://www.publico.pt/2016/10/26/economia/noticia/schauble-diz-que-portugal-estava-a-ser-bem-sucedido-ate-entrar-um-novo-governo-1748949>, acess 20/01/2017. 
[11]Saramago [1986] (2016). “Meditação sobre uma Jangada”, Blimunda 55, p. 101. 
[12]Ibid., p. 99. 
[13]Ibid., p. 102. 
[14]Ibid., p. 103. 

"José Saramago – O homem dividido" na "Up Magazine TAP Portugal" de Ana Sousa Dias (01/12/2009)

"José Saramago – O homem dividido"
O trabalho de Ana Sousa Dias para a "Up Magazine TAP Portugal" (01/12/2009), pode ser consultado e recuperado aqui
em http://upmagazine-tap.com/pt_artigos/jose-saramago-o-homem-dividido/

 Fotografia constante na presente crónica

"Sempre se regressa, diz José Saramago nesta conversa com viagens em fundo. Quem fala, tem dois sítios e não sabe qual deles é o “mais sítio”. Lisboa, a cidade onde se fez homem e escritor, ou Lanzarote, a ilha escolhida para viver."

"Três memórias sobressaem na caminhada “viageira” do escritor português nascido na Azinhaga, perto da Golegã, a 16 de Novembro de 1922. O comboio das 5 e 55, que apanhava na estação do Rossio até Mato Miranda, para as férias em casa da avó Josefa. A escada, nem sequer escadaria, da Biblioteca Laurenziana, em Florença. E a inesperada subida ao topo da Montanha Branca, num dia de 1993.

A própria ideia de turismo aborrece o escritor que, depois do Prémio Nobel da Literatura (1998), viaja sucessivamente, em visitas de toca-e-foge. Entre Viagem a Portugal e A Viagem do Elefante, o autor deu voltas à língua e às verdades feitas, como quem desmancha um brinquedo e o remonta com outra lógica. Caim, o seu mais recente livro, aí está para incomodar as mentes resignadas. E os dedos de José continuam a teclar o computador para mais um livro, para mais crónicas do observador do mundo.Velhinho, o cão Camões aconchega-se no soalho. A casa de Lanzarote está sossegada, com Pilar del Rio, a mulher de Saramago, trabalhando e sempre atenta.

Começamos por falar do livro Viagem a Portugal (1985), “uma viagem que eu nunca imaginei que um dia faria”. Foi convidado a fazê-la pelo amigo Manuel Dias Carvalho, então editor do Círculo de Leitores. Logo no título há uma intenção, e a ideia foi Saramago buscá-la ao livro do espanhol Camilo José Cela, Viaje a la Alcarria. E para dar razão ao “a” em vez do “em”, o escritor demorou-se uns dias na Galiza e entrou em Portugal por Miranda do Douro. Foi fazendo outras excursões. Percorria uma região e regressava a Lisboa com muitas fotografias e cadernos decapa preta cobertos de notas. Depois de tudo junto e arrumado e escrito tornou-se o livro que levou muita gente a querer descobrir o país.

Passados mais de 20 anos, o que pensa o autor deste trabalho? “Não que tenha sido o livro mais importante que escrevi, mas é daqueles que eu estimo mais. Tudo isto é um pouco contraditório, porque sempre fui uma pessoa muito sedentária, tirando a vida no campo, em que fazia longuíssimas excursões por aqueles rios. Mas gosto do livro. É o livro de uma pessoa que não se importa de ser surpreendida com a sua própria ignorância. Escrevi sobre aquilo que vi, experimentei, senti.” Essa Viagem a Portugal é para o Nobel português como uma “irmã gémea” de O Memorial do Convento, seu primeiro grande sucesso editorial: “São escritas distintas, evidentemente, uma de relato e outra de ficção, mas há um gosto quase físico pelo uso da palavra, por procurar o sítio onde a vais pôr. E é um livro longo, longo, longo. Quando cheguei ao final fiquei surpreendido. Tenho coisas que ainda hoje leio e continuo a gostar muito”."

Baptismo de voo

"Por se reconhecer sedentário, o escritor confessa que só tirou passaporte em 1969, “inevitavelmente, para ir a Paris”. Foi a primeira vez que andou de avião, e também a primeira que passou a fronteira – “nem a Badajoz tinha ido”.

“Podia pensar que seria interessante, que valeria a pena, mas com que dinheiro podia fazer essa viagem? Tendo levado quase uma vida neste rame-rame do quotidiano, do trabalho, realmente não senti essa espécie de brotoeja que convida à viagem, ou que empurra à viagem. Há pessoas assim, eu não sou uma delas.”

Essa primeira viagem a Paris, como outras que se lhe seguiram, teve no escultor Lagoa Henriques um guia experiente e sabedor: “O que eu conheço da Europa devo-o a esses anos. Porque depois, embora tivesse regressado a alguns desses lugares, o tempo para mim era uma coisa muito semelhante ao de um jogador de futebol: viagem, hotel, estádio, hotel, viagem”.

Percorreu o mundo principalmente depois da viagem especial que fez à Suécia, em 1998, para receber o Prémio Nobel da Literatura. Tem pena de nunca ter ido ao Japão.

Ainda assim, sem vontade de viajante, Saramago tem boas memórias guardadas. Por exemplo, a subida a Machu Picchu, “uma das emoções, não sei se estéticas se outra coisa, da minha vida”. Ou ainda: “Na Viagem a Portugal, em Trás-os-Montes, ter passado uma pequena ponte de uma margem para a outra, e depois olhar para o outro lado. Não parece nada de extraordinário, mas a atmosfera, as plantas, o luar, as nuvens, o rio, aquilo de repente foi um choque”. E por falar em choque: “Choque, mas choque, aconteceu-me em Florença. É uma cidade inesgotável, nunca se acaba de ver Florença. Eu estava só e lembro-me de um sítio onde há um desses mercados de rua e uma igreja que nem acabada está. Como sabia que havia ali a biblioteca Laurenziana, do Lorenzo de Medici, fui lá. Nunca me aconteceu nada assim”.

E o que é que aconteceu? “O acesso à biblioteca, riquíssima, faz-se por um pequeno espaço que não tem nada de especial a não ser uma escada. O que conta é a escada. Nem sequer foi esculpida por Miguel Ângelo porque aquilo é trabalho de canteiro. Mas ele desenhou-a. Quando me enfrentei com ela – nunca me tinha acontecido tal coisa – tremi da cabeça aos pés. Vi muita coisa, os Uffizi, o [Palácio] Pitti, o Louvre, o Jeu de Paume, e creio que vi muito. Anos depois voltei lá e o milagre já não aconteceu, mas a grande emoção estética da minha vida não é um quadro do Rembrandt, do Van Gogh, ou do Velásquez, foi uma escada. Talvez não fosse o supra-sumo da escada mas era e é para mim o supra-sumo da arte.”

"José Saramago cerimónia Prémio Nobel/ Nobel Prize ceremony"

Viagens interiores

"Desçamos agora da escada de Florença para reencontrar o homem que insiste em nunca ter tido “o prazer da viagem”. E no entanto, vai buscá-lo a um passado bem antigo: “Sou incapaz de mostrar que estou contente, com esta cara que Deus me deu. A emoção da viagem, senti-a quando era garoto e apanhava, na estação do Rossio, normalmente sozinho, o comboio que me levava para férias à estação de Mato Miranda, onde estava ou a minha tia Levira, ou quase sempre a minha avó Josefa esperando-me. Isso sim, aquele comboio lento que nunca mais chegava, troca-troca, troca-troca, troca-troca. A expectativa, a noite que se mal dorme porque há uma excitação. E embora aquilo já não tivesse segredos para mim, vivia-o de cada vez com a emoção de quem sabia o que o esperava – chegar à Azinhaga, entrar na casa dos meus avós com o seu chão de barro e tirar os sapatos, que era a primeira coisa que eu fazia. Só voltava a calçá-los quando regressava, já com o pé um pouco maior. Isso sim. O sentido da  viagem, ir andando e descobrindo, só o tive na Azinhaga”.

Em Novembro de 2008, Saramago emergiu de um longo período de doença com um livro surpreendente: A Viagem do Elefante. Novamente a viagem no título, desta vez para conduzir à Áustria o elefante Salomão, um presente do rei português D. João III para o primo da mulher, Dona Catarina. Haverá nesta caminhada sinais da viagem a Portugal dos anos 80?

“A parte portuguesa de A Viagem do Elefante é pura invenção. Estamos no século XVI. Então invento essa viagem sem nomear lugares, salvo Castelo Rodrigo, lá em cima. A Viagem do Elefante é um produto da imaginação, só da imaginação. De elefantes eu não sei nada e duvido mesmo que se possa saber qualquer coisa de jeito. É um animal simpático e portanto tratava-se de levá-lo, pô-lo nas mãos do arquiduque da Áustria, e fazer-se aquela viagem enorme até à Catalunha, e continuar a inventar tudo, porque eu nunca estive nos Alpes. Posso dar uma falsa ideia de grande viajante, mas sinceramente não sou.”

Regressar é preciso

Sabemos que a caminhada europeia do elefante Salomão não teve regresso, mas Saramago sabe que “sempre se regressa”, ele que tem dois portos de chegada: “Tenho dois sítios e é difícil dizer qual é o sítio mais sítio. Vim para Lanzarote com a Pilar em 1993, cheguei aqui com 70 anos, a enraizar-me. Não conhecia ninguém e depois isto foi crescendo de uma maneira que eu não podia sonhar”.

“Essa é outra viagem, a viagem das pessoas e das coisas no tempo. Fizemos esta casa, fizemos outra em Lisboa. Nunca tive casas, nunca tive bens de raiz, e agora tenho tudo, a começar por uma mulher extraordinária que foi a grande sorte da minha vida. E não é pela comodidade da pessoa que envelhece e que tem a seu lado alguém a quem quer, a quem ama e que sabe que é amado e querido por essa pessoa. Não é isso. Escrevi nos Cadernos de Lanzarote que se tivesse morrido com 63 anos, antes de conhecê-la, teria morrido muito mais velho do que sou agora, porque ela veio trazer-me nem sei dizer o quê, a felicidade, sim, mas a felicidade é uma palavra curta, veio trazer outra coisa, um sentido de vida novo. Mesmo assim isso não diz tudo.”

Foi logo no ano de 1993 – e “O ano de 1993” é o título de um livro de poemas que José publicou em 1975 – que Saramago chegou ao cimo da Montanha Branca, vizinha da casa onde vive com Pilar, em Tías, na ilha atlântica de Lanzarote: “Subi a Montanha Branca com 70 anos. Foi uma grande viagem e nem sequer premeditada. Saí de casa para dar um passeio e fui casualmente naquela direcção, não levava nenhuma intenção, e quando cheguei ao sopé da montanha olhei lá para cima e disse para comigo, vou subir um bocado. Comecei a subir, a subir, a subir… A montanha é uma colina, está a 600 metros do nível do mar, portanto ainda são 300 metros de um terreno resvaladiço, dava três passos em frente e recuava dois… enfim, cheguei lá acima”.

Por que foi uma emoção tão grande chegar ao topo? “Foi ver a ilha toda. Vê-se tudo, desde o vulcão no norte, que se chama La Corona, até à Playa Blanca, La Geria, o Parque Nacional de Tymanfaya, com os vulcões. Que coisa, que coisa! Chegar lá acima e ver aquele deslumbramento, com o mar de um lado e o mar do outro, costa e contracosta.”
E de todas as viagens pelo mundo, havia algum sítio onde pudesse ter ficado?

“Não, não. Como diziam os ingleses, a minha casa é o meu castelo. E a sensação de voltarmos a casa é única, seja esta, seja a casa de Lisboa. É aí que eu quero estar, com as minhas coisas, os meus objectos, os meus quadros, a minha música, as bugigangas que só têm importância e valor para mim.”

Por Ana Sousa Dias

"O LUGAR DOS LIVROS
A Biblioteca José Saramago em Lanzarote contém a maior parte dos volumes que José e Pilar foram juntando ao longo das suas vidas. As mãos mais curiosas podem espreitar dedicatórias bem pessoais em muitas primeiras páginas. Catalogados pela Universidade de Granada, os volumes estão arrumados por géneros, temas e nacionalidades. Uma estante ocupa com orgulho a parede: ali só estão livros escritos por mulheres. Este poiso de Lanzarote é temporário, uma vez que a biblioteca definitiva ficará instalada em Lisboa, na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago. —

PARA O BEM E PARA O MAL
Caim é o título mais recente de Saramago, que publicou romances, contos, poesia, crónicas, ensaios, conferências, teatro, diários e memórias. Já tinha feito uma incursão nos textos bíblicos, ao publicar, em 1991, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, e questiona agora o deus do Antigo Testamento, num texto onde a ironia faz sobressair uma dura reflexão. O castigo divino faz de Caim um errante e Saramago vai conduzi-lo pelos episódios bíblicos como um homem imperfeito e observador, capaz de intervir no momento decisivo. Polémico, como muitos outros livros de Saramago, Caim incendiou a opinião pública da intelligentsia nacional."

Primeiro voo do avião José Saramago – TAP

A TAP Portugal baptizou em 24 Junho 2014 um Airbus A320 (matrícula CS-TNW) com o nome de José Saramago.
O seu primeiro voo teve como destino a cidade de Milão, partindo do aeroporto de Lisboa.
Fonte página da Fundação José Saramago

sábado, 23 de dezembro de 2017

"Las bombas pacíficas de José Saramago" crónica sobre a obra inacabada "Alabardas" publicada no "La Verdad" (Murcia Espanha - 30/09/2014)

"Las bombas pacíficas de José Saramago
La novela inconclusa del Nobel luso aborda la industria y el tráfico de armas"

A presente crónica publicada no "La Verdad" (Murcia Espanha - 30/09/2014) pode ser consultada e recuperada aqui 
em http://www.laverdad.es/alicante/culturas/libros/201409/30/bombas-pacificas-jose-saramago-20140930015820-v.html



«Esta bomba no explotará». Este sucinto mensaje en portugués apareció escrito en un papel en el interior de una bomba lanzada contra tropas del Frente Popular en Extremadura, durante la 'incivil' guerra española. Desde que el escritor José Saramago tuvo noticia de esta leyenda de un fabricante de bombas tan bondadoso como para sabotear sus mortíferas manufacturas, comenzó a latir en su mente una historia que maduró durante años y que solo la muerte le impediría concluir. Se titula 'Alabardas', llega inconclusa al lector mañana miércoles y es una reflexión sobre la industria y el tráfico de armas que Alfaguara publica cuatro años después de la muerte del Premio Nobel de Literatura portugués.

«Con 'Alabardas' acaba la obra del hombre que no quiso morir sin haberlo dicho todo», apunta Pilar del Río, viuda del escritor, su albacea literaria y responsable de la Fundación Saramago en Lisboa. Asegura la periodista española que no es «una novela sobre la guerra» y sí «un canto al activismo de quienes quieren cambiar lo establecido, lo que se asume como inevitable».

Ilustrada con estremecedores grabados alusivos a los horrores bélicos de otro premio Nobel, el alemán Günter Grass, el relato inacabado de Saramago se completa con textos del italiano Roberto Saviano, autor de 'Gomorra', y del poeta y ensayista Fernando Gómez Aguilera.

'Alabardas' narra la historia de Artur Paz Semedo, un gris trabajador de una fábrica de armamento ligero y municiones fascinado por las piezas de artillería. Felicia, la mujer que fue su esposa y lo abandonó, de fuerte carácter, inteligente y pacifista militante, le incitará a emprender una investigación en su propia empresa.


Tres capítulos

José Saramago, que se preguntó siempre por qué jamás hay huelgas en la industria armamentística, dejó escritos apenas tres capítulos de lo que se ha convertido en su novela póstuma. Esbozó el nudo argumental, perfiló a los dos protagonistas y planteó nuevas preguntas en su permanente y comprometida vocación de agitar conciencias. Era muy consciente de que sería su última ficción, de que la enfermedad que le alejó del ordenador durante ocho meses tras iniciarla le impediría culminar este desafío narrativo. «A este paso tal vez haya libro en 2020», ironizó en su cuaderno en diciembre de 2009, sabedor de que la implacable cuenta atrás estaba en marcha. «Corregí los tres primeros capítulos (es increíble cómo lo que parecía bien lo ha dejado de ser) y aquí hago promesa de trabajar en el nuevo libro con mayor asiduidad. Saldrá al público el próximo año si la vida no me falta», había escrito en el mismo cuaderno en octubre. Llego a anticipar la frase final, «un sonoro 'Vete a a la mierda'» proferido por la mujer de Artur Paz y que para Saramago era «un remate ejemplar».

La evolución del pensamiento del protagonista sirve para reflexionar sobre el lado más sucio de la política internacional, un mundo de intereses ocultos que subyace en la mayor parte de los conflictos bélicos del siglo XX. Abunda en el debate sobre la carrera armamentística y sus fatales consecuencias en un mundo incendiado de nuevo por confrontaciones bélicas un siglo después de la Primera Guerra Mundial.

También sirve de inspiración para que Fernando Gómez Aguilera y Roberto Saviano den continuidad a estas páginas y ofrezcan su particular visión sobre las cuestiones que se plantean en la fábula que el laureado escritor portugués quiso titular 'Alabardadas, alabardas. Espingardas, espingardas', frase de una tragicomedia de Gil Vicente, 'Exortaçao de guerra', escrita hace cinco siglos.

Para Roberto Saviano, estas páginas póstumas de Saramago son «una orquesta de revelaciones» y «un manual de traducción de sonidos, percepciones e indignaciones». De «un Saramago en estado puro hasta la última de sus letras» habla Fernando López Aguilera. Elogia unas palabras «que no pudieron ser escritas en el lugar al que la voluntad las había destinado, pero que aún hoy resuenan desde la libertad de su poderosa conciencia incómoda, irremplazable».

José Saramago (Azinhaga 1922- Lanzarote 2010) fue uno de los escritores portugueses más conocidos y universalmente apreciados en la segunda mitad del siglo XX. La academia sueca le concedió el Nobel de Literatura en 1998 por un carrera que comenzó muy tarde y en la que figuran títulos tan esenciales como 'El año de la muerte de Ricardo Reis', 'El evangelio según Jesucristo', 'Memorial del convento', 'La balsa de piedra', 'Ensayo sobre la ceguera', 'Claraboya' o 'Caín', la última novela que Saramago vería publicada en vida y que establece un fuerte nexo con 'Alabardas'.