Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Baptista-Bastos até Sempre!



Aqui, http://caderno.josesaramago.org/2011/03/15/

"Num bairro"
"Viver em Lanzarote é, afinal, viver num bairro de uma grande ilha que é o pequeno mundo em que todos vivemos."
Armando Baptista-Bastos - "José Saramago. Aproximação a um Retrato, Lisboa"
Publicações Dom Quixote

Mensagem publicada pela Fundação José Saramago

"Adeus, Baptista-Bastos,
amigo de toda a vida e curador da Fundação José Saramago:"

"Manhã de passeio, manhã de palavras. Conheço o Baptista-Bastos há muitos anos, somos amigos desde então, portanto temos conversado muitas vezes, mas nunca desta maneira, com esta franqueza, a despejar o saco. Uma ilha, mesmo não sendo deserta, é um bom sítio para falar, é como se estivesse a dizer-nos: «Não há mais mundo, aproveitem antes que este resto se acabe.» Levei-o ao Mirador del Río, aos Jameos del Agua, a Timanfaya, ofereci-lhe tudo isto como se fosse meu, a paisagem, o mar, o céu, o vento. Amanhã regressará a Lisboa, aos seus velhos lugares, à Ajuda onde nasceu, à Alfama onde mora, e, aí, o melhor que eu posso desejar-lhe é que feche os olhos de vez em quando e peça à memória a graça de restituir-lhe aquelas sombras de nuvens que passavam por baixo de nós na falda da montanha fronteira à Graciosa, as escarpas roxas de Famara, ao crepúsculo, entre a neblina, a bocarra hiante da Caldera de los Cuervos, o desenho japonês de duas palmeiras sobre a anca deitada duma colina. Que essa memória não lhe falte, e gozará da vida eterna."
(José Saramago, in Cadernos de Lanzarote III)


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sérgio Letria da Fundação José Saramago - Entrevista à Coffepaste


Publicado através da página Coffepaste e podem seguir aqui
em https://www.facebook.com/Coffeepaste/

"Hoje trazemos-vos uma entrevista com Sérgio Machado Letria, da Direcção da Fundação José Saramago. A Fundação cumpre 10 anos de existência em 2017, e foi o pretexto para esta nossa conversa. Falou-se das comemorações do aniversário, fez-se o balanço da última década, falou-se inevitavelmente de José Saramago, e ficámos a saber se um livro pode mudar uma vida."

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Apoie a Fundação José Saramago através da consignação de 0,5% do IRS

"Apoie a Fundação José Saramago através da consignação de 0,5% do IRS"

Via página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui
em https://www.facebook.com/fjsaramago/

"A Fundação José Saramago (FJS) é uma das entidades beneficiárias de consignação de imposto.
Assim, a partir deste ano já pode decidir apoiar a FJS através da consignação de 0,5% do seu IRS, bastando preencher o quadro 11 da sua declaração de rendimentos, com o Número de Identificação Fiscal 508 209 307."

Revista de Estudos Saramaguianos #5 (Janeiro 2017)


Sinopse de apresentação
"Este número da RES reúne trabalhos de leitores da obra de José Saramago do Brasil, Colômbia e Argentina. Integram este número, textos sobre a poesia do escritor português – “O ano de 1993” (María Victoria Ferrara, Fernângela Diniz Silva e José Leite Jr.), “Os poemas possíveis” (Rodrigo Conçole), sobre “A jangada de pedra” (Carlos Pazos-Justo), sobre a produção memorialística saramaguiana (Eula Pinheiro), sobre “Viagem a Portugal” (Daniel Cruz Fernandes), “História do cerco de Lisboa (Maria Carolina de Oliveira Barbosa), sobre “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” (Jorge Luís Verly Barbosa e resenha de Antonio Arenas Berrío). São dois volumes – um em língua portuguesa, outro em língua espanhola – disponíveis gratuitamente na web através do site http://www.estudossaramaguianos.com/"





















Pode ser consultado aqui em,
http://www.estudossaramaguianos.com/2017/02/5-apresentacao-os-seres-humanos-nao.html

"APRESENTAÇÃO"
"Os seres humanos não podem aceitar as coisas como elas são, porque isso leva-nos directamente ao suicídio. Temos que acreditar nalguma coisa e, sobretudo, temos de ter um sentimento de responsabilidade colectiva, segundo o qual cada um de nós será responsável por todos os outros.
José Saramago


Resistir. Esta é uma palavra de ordem para o anoitecer de uma comunidade cujas determinações pareceram nos levar a um lugar de luzes. Precisaremos, mesmo sabendo qual o lugar da noite, atravessar tudo de novo, e ao que parece sem olhos de reparar (o que é ainda mais grave), para ao menos aviltar uma possibilidade de plenilúnio. Erramos ao acreditar na perenidade do lugar da utopia. Mas erramos mais ainda torná-la desencanto. Porque esta é ânima. Passo. Estágio de. Trânsito. E o lugar das luzes, logo, continuidade. É o estar sempre alerta – para recuperar a metáfora de José Saramago quando imagina todo um povo atento aos desmandos do poder e que em demonstração de seu lugar na ordem social resgata toda sorte de luminárias para abrir a noite escura de fuga das autoridades políticas da cidade do voto branco no Ensaio sobre a lucidez – um dos romances-parábolas mais coerentes com a atual conjuntura porque atravessamos.

A responsabilidade do cidadão já agora tornado sujeito, qualquer-coisa numa comunidade líquida, retomando a expressão fundamental cunhada por Zigmunt Bauman para se referir a ordem social contemporânea, obriga não a reivindicação de uma coletividade, mas de interposições. Isto é, a condição de sermos a partir do reconhecimento pelo lugar do outro. A conjunção de uma rede de alteridades é a possibilidade de rompermos com o imperativo dos modelos unilateralistas e ultrapassados nesse tempo crepuscular. Antes disso, na conjuntura em que nos encontramos, são bolhas de respirar. Mas é preciso ampliá-las. A luta é contínua.

A constatação sobre a repetição do mesmo – sem esquecer que é também este um já-outro porque as condições são igualmente outras – não se trata de um elogio sobre. Nesta hora, funciona com mais um dos vários alertas (“Uivemos, disse o cão”); condição, portanto, contrária a outra que parece ter servido de força motriz para o levante dessa outra noite, nossa inabilidade, silêncio ou acomodação.

As condições sociais cujas bases são agora o consumo e a sobrevivência ante o medo terrível de ser tragado pela miséria imposta com o nome de crise pelo poder dominante resultaram nisso: uma cegueira que já nos impossibilita distinguir a linha das coisas, as formas do outro, colocar-se em maneira de atenção para o forjado na surdina contra a gente simples, os trabalhadores. Se deixaremos algum dia a posição de submissos à parafernália do consumo e à de bestificados com o brilho dos ecrãs – algumas das distrações que nos desviam o olhar para o nosso entorno, para a farsa dos discursos, para a condição do outro – não sabemos. E enquanto não sabemos, ficarmos parados pode ser uma fatalidade. A alternativa que nos sobra é resistir. E uma das maneiras é tornando as distrações lugares colonizados pela força de descontinuação do mal. Espaços como estes, como a Revista Blimunda, a Fundação José Saramago – para citarmos os lugares de ousar e manter vivas as ousadias do dizer – são bons exemplos disso. São resistências. Devemos ampliá-las.

Outro desses lugares de descontinuidade do lugar do poder desvairado é a literatura – matéria que nos alimenta e alimenta os outros espaços citados acima. A literatura é um dos oásis. Lugar de resistência. De maneira mais ampla, sim, é preciso nos desfazer da falácia imposta pelo poder de que a cultura é tão somente o ócio, o alegre passatempo – como se vende atualmente nos míseros espaços da mídia, por exemplo – e acreditar que por ela passam nossos destinos e problemas e nela está, como sempre foi sua condição, maneiras de se pensar e de respirar em tempo de fezes, renovando a expressão de um poema de Carlos Drummond de Andrade escrito num estágio semelhante ao de então. Dizemos “então” como quem diz “de sempre”, porque se a condição de estarmos lúcidos deve ser o alimento das nossas vontades, isto é, continuamente ativa, é porque nunca as tais forças de esmagamento da gente oprimida foram destituídas da comunidade humana. Essa foi outra condição tornada pelo brilho fosforescente do poder unilateral. Para nos fazer cômodos. Urge desassossegar! 

Por isso, quando nos propomos falar sobre literatura é, em tempos de opróbrio, também como maneira de resistência. Não é qualquer literatura sobre a qual falamos; é a literatura do “não”, imperativo da revisão assinalado de forma diversa por um escritor na sua obra, no discurso e na postura como intimação contra a inércia dos sujeitos e as verdades únicas. Que ainda nos reste essa possibilidade de um fio de lucidez a perpassar a noite. Se não nos salvamos pela literatura, que ao menos possamos encontrar nela uma possibilidade de confronto contra a mesmice do imposto. Talvez esteja nesse lugar outra maneira de habitar a existência antes da possível total aridez.

Equipe editorial


SUMÁRIO

A jangada de pedra, de José Saramago: repertório e sistema interliterário ibérico
CARLOS PAZOS-JUSTO

O ano de 1993. A poesia distópica de José Saramago
MARÍA VICTORIA FERRARA

Memória: o passado é presença presente (Cadernos de Lanzarote, As pequenas memórias, O caderno e O caderno 2)
EULA PINHEIRO

A construção de Viagem de Portugal
DANIEL CRUZ FERNANDES

No reparo da história, o nascimento da ficção: a propósito da História do cerco de Lisboa, de José Saramago
MARIA CAROLINA DE OLIVEIRA BARBOSA

Uma leitura saramaguiana do Salmo 136
RODRIGO CONÇOLE LAGE

Um romance inacabado, uma ideia que segue: uma leitura adorniana de Alabardas, alabardas,espingardas, espingardas
JORGE LUÍS VERLY BARBOSA

A presença do Surrealismo na obra O ano de 1993, de José Saramago
FERNÂNGELA DINIZ DA SILVA
JOSÉ LEITE JR.

RESENHAS

Alabardas, o romance inacabado de José Saramago
ANTONIO ARENAS BERRÍO"

sexta-feira, 31 de março de 2017

Nos 300 anos do Palácio Nacional de Mafra - Exposição baseada na obra "Memorial do Convento"

A Fundação José Saramago assinalou a data. 
Aqui em https://www.josesaramago.org/2603-abertura-da-exposicao-memorial-do-convento-mafra/

"26/03: Abertura da exposição sobre o «Memorial do Convento», em Mafra
No dia 26 de março, pelas 17h, abre ao público, no Palácio Nacional de Mafra, a exposição «Memorial do Convento – Era uma vez um rei devoto, um padre que queria voar, e uma mulher com poderes», a partir do romance de José Saramago.

Em 2017 comemoram-se os 300 anos da colocação da primeira pedra para a construção do Palácio de Mafra e também os 35 anos da publicação de «Memorial do Convento». A exposição, organizada pela Câmara Municipal de Mafra em parceria com a Fundação José Saramago, tem curadoria de Filomena Oliveira e Miguel Real e projeto expositivo da Silvadesigners.

A entrada é livre e a exposição estará patente até ao dia 31 de maio."

"Do material de divulgação:

Destinada a comemorar os 35 anos da publicação de Memorial do Convento, a exposição “Era uma vez um rei devoto, um padre que queria voar e uma mulher com poderes” integra- se nas Comemorações dos 300 anos do lançamento da primeira pedra do Convento de Mafra e tem o alto patrocínio da Câmara Municipal de Mafra, da Fundação José Saramago e da direcção do Palácio Nacional de Mafra.

Evidencia-se parte do espólio de José Saramago destinado à escrita do romance, bem como se ilustra este através da obra pictórica de José Santa- Bárbara, em cujos quadros Saramago diz ter descoberto o rosto de Blimunda.

“Comecei a ver o país todo como um gigantesco convento cujos limites nem sequer eram as fronteiras do que é hoje Portugal, porque se prolongavam por dentro das pessoas” – José Saramago, cujo estilo presente em Memorial do Convento libertou a literatura portuguesa do registo tradicional de escrita e se prolongou na inspiração em outros registos estéticos, como o teatro, a pintura, a ópera."






Mais informações em http://www.palaciomafra.pt/

quinta-feira, 30 de março de 2017

"WORK: Woodtype cover designs for Vintage’s José Saramago reissues" - (Creative Review, Mark Sinclair 27/03/2017)

Pela "Creative Review", Mark Sinclair (27/03/2017)
https://www.creativereview.co.uk/work/work-woodtype-cover-designs-vintages-jose-saramago-reissues/

"For its reissues of the late Portuguese author José Saramago’s novels, Vintage Classics used the author’s initials to create a series of letterpress covers designs. According to the in-house design department’s CMYK blog, the approach references early Harvill editions of Saramago’s books that incorporated his initials ‘J’ and ‘S’ into the cover imagery."















"From the CMYK blog: “We wanted to see how far we could take the idea of ‘illustrating’ the books using just the author’s initials. This immediately suggested the idea of creating colourful covers using old wooden letterpress characters.”


The designs were hand-printed in-house using woodtype blocks. According to CMYK, the first few titles have just been published and the rest of Saramago’s backlist will follow soon."

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Antevisão de "Blimunda" Por Maria João Avillez (publicado no Público em 09/05/1991)

Pode ser consultado e recuperado aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/antevisaoBlimunda.htm

Antevisão de "Blimunda", por Maria João Avillez
(Público, 09/05/1991)

"Um dia longínquo de l984, José Saramago recebe em casa uma carta que o deixa perplexo: a editora italiana Suvini Zerboni escreve-lhe para o informar que o compositor Azio Corghi está interessado em fazer uma ópera a partir do "Memorial do Convento". O escritor relê a carta, continua a achá-la "insólita", não responde. E passa o caso à Sociedade Portuguesa de Autores, para que aprofundasse aquela sugestão singular.
"A verdade é que eu fiquei um pouco céptico... Transformar um romance português numa ópera italiana?", recorda ele, sorrindo.
A editora reincide, o compositor não desarma. Quase um ano depois, José Saramago tem em Roma o seu primeiro encontro com Azio Corghi, de quem entretanto ouvira já alguns discos e "muito boas referências" artísticas e profissionais.
"O 'Gargantua' de Rabelais fora, por exemplo, um excelente trabalho do Azio... Mas porventura o que contou mais foi o facto de eu ter gostado dele", diz José Saramago. "É um homem de grande lhaneza, muito simples e dono de uma grande competência técnica. Mas é alguém de tal forma simples e discreto que enquanto não se ouve a sua música temos que adivinhá-la... Descobri um compositor apaixonado pelo 'Memorial do Convento', pela história, pelos valores do livro. Meses depois, voltámos a encontrar-nos em Milão, e estas duas conversas deixaram as coisas claras... Foi um encontro feliz."
E assim nasceu "Blimunda"... Numa noite de Maio de 1990 e num berço de ouro, o Scala de Milão. Um ano depois, "Blimunda" tem para si outro palco de ouro, o do São Carlos, enquanto aguarda o de Turim e ainda outras chamadas de prestígio, que a irão levar, se tudo se concretizar, a Toronto, Los Angeles, São Francisco, ao Met de Nova Iorque. E palcos primeiros da Europa manifestaram já a intenção de produzir novas encenações deste libreto.
Hoje, José Saramago ainda se confessa um autor quase involuntário desta ópera. Encontro-o, camisola verde-escuro, camisa às riscas verde e branco, na casa onde mora, um pequeno andar debruçado sobre uma rua "de silêncio e de paz", que mais parece uma aldeia em plena Lapa. Bebemos um café que vem "ali de baixo", conversamos, o telefone nunca parará de tocar.
"O libreto da 'Blimunda' vem com dois nomes, o meu e o do Azio Corghi, mas o trabalho essencial é dele... A minha contribuição foi mais uma troca de impressões, uma discussão de proposta de soluções, um trabalho de acompanhamento, muito mais do que um fazer real. Mas ele insistiu com grande delicadeza em que o libreto contivesse os nossos dois nomes..."
Daqui a quatro dias, sentado na plateia do Teatro de São Carlos, José Saramago terá provavelmente dificuldade em dizer o sentimento com que viveu essa noite. E lembrar-se-á, com certeza, dessa outra noite de Maio, quando, há um ano, sentado no Scala, viu pela primeira vez surgir a "sua" Blimunda. Já uma Blimunda outra, que não lhe pertencendo continuava a ser sua.
Por dentro do escritor vive um homem pudico que não se molda a explicitar sentimentos ou a publicitar emoções. As suas mãos desenham incessantemente gestos e círculos no ar e, de vez em quando, a sua ligeira gaguez tornar-se-á mais lenta. E será sempre num registo contido que hoje olhará para trás e se recordará dessa outra noite fria de Primavera, em Itália.
"É difícil... Foi sobretudo emocionante. É que nunca posso separar-me daquela ideia de que sou um português de Portugal. Há uma ligação profundíssima, uma raiz e tudo o que tem a ver com ela. Lembro-me de mim e da minha emoção ali sentado, diante daqueles actores, dos cenários, a ouvir uma história que eu escrevera... Tive por vezes a garganta apertada. Era como se eu, sabendo que parte daquilo era meu, não tivesse ao mesmo tempo a certeza de o merecer. Senti-me orgulhoso mas também muito humilde. E houve um sentimento de responsabilidade. Sabe... (sorri), não é um sentimento fácil... ou simples. Será talvez ingénua esta ideia de se ser responsável pelo país a que se pertence... Enfim, não tenho que dizer senão isto."
No S. Carlos, entretanto, vive-se também a azáfama - e que azáfama! - dos grandes momentos, e a contagem do tempo, tal como ali perto, no Teatro Nacional, inverteu já o seu ritmo: a partir de agora a contagem do tempo é descrescente. Há rostos ansiosos, uma atmosfera de tensão, no ar cruzam-se várias línguas numa algaraviada indescritível, o chão está juncado de mil fios, uma sofisticadíssima aparelhagem de mistura de som ocupa uma parte da plateia, fazem-se ensaios de luzes. A confusão tem aquela marca inconfundível da véspera das estreias.
"Houve aqui dois cavaleiros que muito se bateram pela 'Blimunda'. O José Ribeiro da Fonte e o Manuel José Vaz, directores deste teatro. Gosto de dizer e de reconhecer isso", afirma José Saramago, na penumbra da plateia.
No palco, vão lentamente nascendo os cenários de Michel Le Bois, a sala é envolvida pelas vozes de Blimunda e Baltasar - Kathia Lytting e William Lewis -, os figurinos de Jacques Schmidt cruzam a cena. A orquestra vai tomando o seu lugar e os cantores Fernando Serafim, Marina Ferreira e Jorge Brás de Carvalho também já se encontram prontos para um dos últimos ensaios. Pelos bastidores, na plateia, em cena, agitam-se centenas de pessoas - assistentes, técnicos, cantores, actores, elementos do coro, uma leva de figurantes. Daqui a algumas horas chegará ainda o octeto vocal madrigalista Swingle Singers.
Todo este espectáculo - à sua maneira também ele uma superprodução -, assente numa carpintaria forte e em efeitos cénicos que prendem o olhar, foi produzido - e cronometrado - pela imaginação de Jerôme Savary, o encenador que Lisboa descobriu com a "Zazou", em recente noite de pompa, circunstância e espectáculo.
Saramago:
"O livro é o livro, a música é a música, mas há o... encenador. E eu achei a encenação magnífica! Se o livro abre caminhos para soluções cénicas, o Savary explorou esses caminhos com efeitos cénicos deslumbrantes. Um dos factores do êxito da ópera em Milão foi certamente esta encenação... "
O escritor olha Kathia Lytting no palco e emociona-se: "Ela tem o temperamento e a voz duma diva... É uma wagneriana..."
A soprano é bela e jovem e sedutora. Há um ano, quando pela primeira vez cantou "Blimunda", estava grávida. Viveu com tanta intensidade o seu personagem que disse a si própria que se lhe nascesse uma filha teria o mesmo nome.
"Assim foi, assim é: nasceu uma menina, chama-se Blimunda...", recorda, sorrindo, José Saramago.
Blimunda-mulher, heroína desse fresco memorável que é o "Memorial do Convento". Hoje, passados que são já alguns anos sobre o momento e o acto da escrita, ainda a ama, como então, o escritor?
Pausa.
"Essa senhora fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim... Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me, com uma força que a partir de certa altura me limitei a... acompanhar. Aquele sentimento pleno da personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem palavras de amor... Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as dizer... E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas... Julgo que isso resulta da personagem feminina. É ela que impõe as regras do jogo... Porquê? (sorriso) Porque é assim na vida... A mulher é o motor do homem. (Pausa) Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm duvidas, são personagens masculinos com complexos... As mulheres, não."
José Saramago tem hoje os seus seis romances traduzidos em vinte e seis línguas. O escritor ri: "Do finlandês ao hebreu, do grego ao búlgaro..." E depois: "Tenho uma reduzida capacidade de acompanhar tudo isso. Há certos tradutores que têm o escrúpulo de pedir esclarecimentos, de apresentar duvidas. Mas (suspiro), há outros que não perguntam nada. Há um ou outro caso em que faço uma revisão aqui, em Portugal. Mas claro que se trata, no geral, de uma verificação que me escapa. "
A fama, o sucesso, o dinheiro, a invulgar notoriedade que hoje rodeia a sua assinatura, parecem não impedir a sua aparente serenidade ou contenção. Está-lhe no carácter essa forma de respirar perante os outros. Mas nas entrelinhas resvalam muitas vezes palavras reveladoras da vaidade, e sobre elas, não raro, desliza a sombra do orgulho.
"Essa espuma é lisonjeira, todos gostam de ser estimados... E eu acredito na sinceridade disso... Às vezes, todas estas solicitações ou este barulho podem ser opressivos, porque me roubam tempo e disponibilidade. Sobre o dinheiro, gostaria apenas de dizer que vivo do meu trabalho. Desejaria que isso fosse para os outros um direito e uma possibilidade. Mas gostava de voltar a isso da responsabilidade, porque no fundo, o sentimento principal é esse... Não é por importância, mas por verificar - através das reacções e das atitudes em Portugal ou lá fora, no estrangeiro - que transporto comigo uma certa responsabilidade... Eu quase diria que sou representante da língua que falamos, da nossa cultura... E não evito esta impressão de levar o meu país comigo..."

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"El evangelio según Saramago" via "El Espectador" (27/01/2017)

A crónica publicada no "El Espectador" (de Fernado Araújo Vélez, 27/01/2017), pode ser recuperada e consultada aqui, em http://www.elespectador.com/noticias/cultura/el-evangelio-segun-saramago-articulo-676879

"El evangelio según Saramago"

"El escritor portugués, en uno de sus más polémicos libros, titulado ‘El evangelio según Jesucristo’, reconstruye parte de la relación entre Jesús y María Magdalena y afirma que vivieron un tiempo juntos. Cinco años atrás, en un papiro escrito en lengua copta, un evangelista sugería que se había casado."

"El escritor portugués José Saramago, premio Nobel de literatura en 1998."

"Y entonces fue cuando un hombre llamado José Saramago decidió escribir su Evangelio según Jesucristo. Habló de otro hombre, crucificado y muerto casi dos mil años antes, de sus miedos, de sus pasiones, de sus debilidades y remordimientos, de su madre, María, tan humana como él, y de su padre, José, quien lo salvó de la masacre de cientos de niños ordenada por Herodes sin que le importara la muerte de esos otros cientos de niños. José, escribió Saramago, supo del siniestro plan, pero sólo salvó a su hijo. El peso de la culpa lo persiguió durante más de veinte años y acabó en la cruz a la edad de 33 años.

El peso de esa culpa, una culpa ajena, según Saramago, llevó a Jesús a su destino, su histórico destino. Huyó a los 13 años. Se perdió en el desierto. Se encontró con el diablo que fue su pastor. Su guía y su condena. Ayunó. Lloró. Fue soberbio y sumiso. Vacío y ardiente. Un día se encontró con María de Magdala, María Magdalena, y se enamoró, un Jesús enamorado, sugirió Saramago, que recreó un diálogo entre ellos, fiel a su estilo de omitir guiones y de eliminar antiguas reglas gramaticales.

“Y cómo puedo yo ser tu amado si no me conoces, si soy sólo alguien que vino a pedirte ayuda y de quien tuviste pena, pena de mis dolores y de mi ignorancia, Por eso te amo, porque te he ayudado y te he enseñado, pero tú no podrás amarme a mí, pues no me enseñaste ni me ayudaste, No tienes ninguna herida, La encontrarás si la buscas, Qué herida es, Esa puerta abierta por donde entraban otros y mi amado no, Dijiste que soy tu amado, Por eso se cerró la puerta después de que tú entraras, No sé qué puedo enseñarte, a no ser lo que de ti he aprendido, Enséñame también eso, para saber cómo es aprenderlo de ti, No podemos vivir juntos, Quieres decir que no puedes vivir con una prostituta, Sí, Mientras estés conmigo, no seré una prostituta, no lo soy desde que aquí entraste, en tus manos está el que siga siéndolo o no, Me pides demasiado, Nada que no puedas darme por un día, dos días, el tiempo que tu pie tarde en curarse, para que después se abra otra vez mi herida”.

En El evangelio según Jesucristo, Saramago llevó a Jesús y a María de Magdala a unirse sólo por amor, en un tiempo en el que una mujer que viviera con un hombre sin vínculos sagrados, oficialmente sagrados, era adúltera. Cinco años atrás, en el Congreso Internacional de Estudios Coptos, en Roma, Karen King divulgó un papiro escrito en lengua copta, la lengua de los cristianos en los siglos que siguieron a la muerte de Jesús, en el que un evangelista apócrifo había dicho: “Jesús les dijo, mi esposa…”.

Su frase revivió una antiquísima teoría. Jesús tuvo, por lo menos, relaciones sentimentales con María Magdalena y se casó con ella. Ayer, también, Guillermo León Escobar (exembajador de Colombia ante la Santa Sede) explicaba que el matrimonio de Jesucristo “es un tópico que ya en la antigüedad tenía expresiones que eran normales, pero entonces no se centraba la discusión en eso, sino en la preocupación por el morir, ya que el Reino de Dios estaba cerca. Sin duda había quienes pensaban que Jesús era casado, pero esa postura no era un escándalo y no despertaba curiosidad alguna. Otros lo consideraron célibe, como Juan el Bautista, dedicados los dos a anunciar el Reino de Dios y su justicia y el bautismo por agua. Al llegar a Occidente, y en el sincretismo religioso que se produce, va y viene por épocas la versión del matrimonio de Jesús, lleno de mitologías y de acercamientos mágicos. Surge así la leyenda de María Magdalena y Jesús, que dio origen a una de las variantes del Santo Greal, en la que la supuesta esposa de Jesús, la Magdalena, desembarca en puerto francés para dar origen a la dinastía francesa de los Capetos, que tendrá su punto más alto en San Luis Rey, y al ritual de la Consagración con la santa ampolla en la Catedral de Reims”.

Literatura, magia, leyendas, mitos, verdades encubiertas y mentiras promulgadas. Para Saramago, Jesús era un hombre, “humano, demasiado humano”, como explicaba Nietzsche el mundo. En El evangelio según Jesucristo, año de 1991, el Dios de Judea de Saramago le decía a Jesús que el poder que éste tendría, “Es por ejemplo, ver, siempre, cómo te veneran en templos y altares, hasta el punto, puedo adelantártelo ya, de que las personas del futuro olvidarán un poco al Dios inicial que soy yo, pero eso no tiene importancia, lo mucho puede ser compartido, lo poco, no”. Para Saramago, los dioses fueron siempre ambiciosos, siempre injustos, siempre soberbios. Jesús, sólo un hombre.

“¿Ayudar a qué?”, le preguntaba a su creador con el diablo como testigo, dentro de una barca sobre el agua, alejada de las orillas, de los humanos y sus miserias. Hablaban sobre la razón de ser de Jesús, sobre el porqué de su sacrificio. Él, Jesús, quería saber. Dios le respondió: “A ampliar mi influencia para ser Dios de mucha más gente (…). Si cumples bien tu papel, es decir, el papel que te he reservado en mi plan, estoy segurísimo de que en poco más de media docena de siglos, aunque tengamos que luchar, yo y tú, con muchas contrariedades, pasaré de dios de los hebreos a dios de los que llamaremos católicos, a la griega”.

Luego le explicó que su papel en el gran plan sería el de mártir. “El de mártir, hijo mío, el de víctima, que es lo mejor que hay para difundir una creencia y enfervorizar una fe”. Después le dijo que moriría de la forma más dolorosa e infame, “para que la actitud de los creyentes se haga más fácilmente sensible, apasionada, emotiva”, y por último, le confirmó que fallecería en la cruz. Jesús quiso renunciar a su destino. Fue rebelde ante Dios, su padre, quien le respondió: “Todo cuanto la ley de Dios quiera es obligatorio”.

Después, derrotado, indefenso, preguntó por qué lo necesitaba a él: “Con el poder que sólo tú tienes sería mucho más fácil, y éticamente más limpio, que fueras tú mismo a la conquista de esos países y de esa gente”. Dios le respondió: “No puede ser, lo impide el pacto que hay entre los Dioses, ese sí, inamovible, de nunca interferir directamente en los conflictos, ¿me imaginas acaso en una plaza pública, rodeado de gentiles y paganos, intentando convencerlos de que el dios de ellos es un fraude y que el verdadero Dios soy yo?”.

Los hombres, incluido Saramago, jamás pudieron saber cómo era aquél Jesús inicial, el verdadero. La ciencia trabajó para explicar sus orígenes y todos los orígenes, los rostros, las relaciones, frases, vidas y muertes. En ocasiones se aproximó a una verdad. En otras ha continuado con su búsqueda. Los evangelios han descrito parte de lo que ocurrió, y los fragmentos dispersos que se han dado a conocer han revelado uno que otro detalle. En el fondo, el conflicto ha sido uno de poder, de poderes, como se lo confesaba Dios a Jesús en uno de los diálogos de Saramago. “Morirán miles, Cientos de miles, Morirán cientos de miles de hombres y mujeres, la tierra se llenará de gritos de dolor, de aullidos y de estertores de agonía, el humo de los quemados cubrirá el sol, su grasa rechinará sobre las brasas, el hedor repugnará y todo esto será por mi culpa, No por tu culpa, por tu causa, Padre, aparta de mí ese cáliz, El que tú lo bebas es condición de mi poder y de tu gloria, No quiero esa gloria, Pero yo quiero ese poder”.

Memórias fotográficas


domingo, 29 de janeiro de 2017

Left Coast Chamber Ensemble presents "Death With Interruptions" - an opera in one act [2014-15]

«No dia seguinte ninguém morreu».Assim começa este novo romance de José Saramago.Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.
Sinopse de apresentação da obra "As Intermitências da Morte" (2005)

O vídeo da ópera pode ser visualizado via YouTube aqui

Link de apresentação do evento, aqui

Left Coast Chamber Ensemble presents "Death With Interruptions" 
an opera in one act [2014-15]

"In a small Iberian country death decided to stop working.
At first everyone was overjoyed but soon all concerned –
the Church, the state, the undertakers, the insurance companies – realized that the situation was dire.
The Maphia offered temporary relief but could not really replace death. death decides to start working again but under new and more regular conditions those who will die will get a timely notice.
She informs the ministry of her intentions."

Recommendations for listening are either using earbuds or a high quality sound system; The limited sound production capabilities provided by laptop speakers will not optimally serve your listening experience.
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Leading Blank: Introitus Interruptio

SCENE I
Chorus: The situation was grave
death’s Letter
Chorus: We, here...
Dear sir,
I’ve got a letter for you...
Chorus: Don’t get upset
Like an innocent fool

SCENE II
Interlude I: Dance Mixed
Chorus: Even God has no idea
You look very pretty
I am going to give you one last chance
Chorus: death knows her man
Recitative: I have a big favor to ask...
Trio: death heard her cellist play

SCENE III
Interlude II: Vocalise
Chorus: death heard her cellist play
I only came to thank you
Recitative: I didn’t mean what you were thinking
You must fail sometimes...
I have a recollection
Pantomime: death turns away
Recitative: The wretched cellist
Please go away...
The letter
Trailing Blank: Exeunt
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Based on José Saramago’s novel "Death With Interruptions," translated by Margaret Jull Costa
Libretto by Thomas Laqueur/Music by Kurt Rohde
Matilda Hofman, Conductor/Directed by Majel Connery
Nikki Einfeld, soprano/Joe Dan Harper, tenor/Daniel Cilli, baritone
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Left Coast Chamber Ensemble:
Leighton Fong, solo cello/Eric Zivian, piano/Loren Mach, percussion
Anna Presler, and Jory Fankuchen, violins/Phyllis Kamrin, viola/Tanya Tomkins, cello
Phil Acimovic, electronics
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Volti San Francisco:
Robert Geary, Artistic Director/Sue Bohlin, Chorus Master
Soprano - Yuhi Aizawa Combatti, Shauna Fallihee, Cecilia Lam, and Diana Pray
Alto - Monica Frame, Sharmila Guha Lash, Emily Ryan, and Colby Smith
Tenor - Julian Kusnadi, Ryan Matos, Jacob Thompson, and Jeffrey Wang
Bass - Jeff Bennett, Peter Dennis Mautner, Jefferson Packer, and Philip Saunders
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Lighting Design: Anthony Powers
Costume Design: Jennifer Gonsalves
Sound: Ryan Olson
Video: Loren Robertson
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Support provided by:
Andrew W. Mellon Foundation Distinguished Achievement Award, granted to Professor Thomas Laqueur
University of California, Davis, Chancellor’s Award, granted to Kurt Rohde
San Francisco Hotel Tax Fund Grants for the Arts

Memórias fotográficas


sábado, 28 de janeiro de 2017

"O presente é uma linha ténue" Recuperação da entrevista de Carlos Câmara Leme a José Saramago (Público, 25/10/1997)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/todosOsNomes.htm

"Público" de 25 de Outubro de 1997
"O presente é uma linha ténue"
Por Carlos Câmara Leme

Epigrafe da obra 
"Conheces o nome que te deram, não o nome que tens" 
do "Livro das Evidências"

"Todos os Nomes", o último livro de José Saramago, é um ensaio sobre a existência, com contornos policiais. Um ensaio pessimista. "Nada no mundo tem sentido", diz a personagem central do romance. A única que tem nome: José.

O novo romance de José Saramago mistura muitas coisas: uma história, um ensaio - de foro filosófico - e algo de novo na sua obra. Saramago está cada vez mais descrente do futuro da humanidade, e do homem. Ou seja, mais pessimista. Os lugares centrais do livro passam por uma Conservatória Geral e por um cemitério, onde todos nós, mortos e vivos, se confundem. Resta-nos viver o presente... É pouco. Se calhar é a única coisa que nos resta. A obra é lançada pela Caminho nos próximos dias e será apresentada a 3 de Novembro, em Lisboa, por Eduardo Lourenço. O PÚBLICO já leu o livro e entrevistou o autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

O que é "Todos os Nomes"? Um romance com muitos traços de um policial? Mais um ensaio sobre a existência? Sobre a procura da identidade?
Para haver romance policial são precisos, pelo menos, um criminoso e um polícia. Nada disso existe em "Todos os Nomes". Mas é verdade que o livro descreve uma procura, uma busca, que há nele uma investigação. A grande e decisiva diferença está no facto de que a pessoa procurada não sabe que a procuram e a pessoa que procura não tem a certeza de querer encontrar o objecto da sua busca. Que este romance possa ser entendido como um ensaio sobre a existência - talvez. Julgo que todos os livros o são, que escrevemos para saber o que significa "viver", e não já para tentar encontrar resposta às famosas perguntas: quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? 
Que o livro possa ser visto como uma indagação sobre a identidade, sim, mas não sobre a identidade própria. O que aqui se procura é o "outro".

O Sr. José - a personagem central do livro - é uma daquelas pessoas que levam a vida a coleccionar coisas, diz-se no início do livro - "talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo". O Sr. José não se identifica desta maneira com o romancista José Saramago enquanto criador de mundos aos quais procura imprimir um sentido?
Não sou o Sr. José, embora lhe tenha dado o meu nome. E não me reconheço em nenhum dos seus comportamentos e características. Não temos o mesmo "modo de ser". Salvo essa ideia de que talvez seja possível pôr alguma ordem no que a não tem, ou, por outras palavras, resignar-se ao caos desde que seja possível traçar nele ao menos uma linha que una dois pontos. O que faço como romancista é tentar atar uns quantos fios soltos, deixar atrás de mim um pouco de sentido. Mesmo que não seja mais que o tão caluniado sentido comum...

"Não há nada que mais canse uma pessoa", diz o narrador, "que ter que lutar com o próprio espírito, com uma abstracção." Esse também é o trabalho do escritor? Como é que surgiu esta ideia de baralhar a vida dos mortos com a vida dos vivos? É a procura da natureza da fronteira que separa a vida da morte? Afinal, como se discute no último capítulo do livro, o que é mais sagrado: a vida ou a morte?
Todo o romance precisa de uma "história", mas um romance que não se tenha proposto mais que contar "essa história" interessa-me pouco. A explicação disto, provavelmente, encontra-se numa declaração que algumas vezes tenho feito, a de ser em ensaísta falhado que escreve romances porque não teve quem lhe ensinasse a escrever ensaios... Precisei sempre, para trabalhar, de uma ideia forte, ou de uma abstracção, se se quiser chamar-lhe assim. Mas as ideias, sejam elas fortes ou fracas, só da realidade é que podem nascer, os dados da imaginação são também dados de realidade. "Todos os Nomes" não existiria se eu não tivesse tido que procurar, investigar, como fui relatando ao longo dos "Cadernos de Lanzarote - IV", as circunstâncias do falecimento do meu irmão Francisco, em 1924. Nada dessa busca passou para o romance, mas o livro alimenta-se da minha própria vivência de Sr. José durante os meses que levei a procurar um garotinho que morreu com quatro anos no hospital de Lisboa. 
Quanto ao que é mais sagrado, se a morte, se a vida, respondo que a vida. Mas nem toda a gente estará de acordo: a prova é que dar um pontapé a um vivo não suscitará qualquer advertência sobre o sagrado da vida, ao passo que tê-lo dado a um morto provocaria logo o protesto: "Tenha vergonha! A morte é sagrada!..."

Essa questão coloca-nos, de novo, perante a questão da identidade. Todos os nomes podem ser um só? O do Sr. José, perseguindo o destino de uma mulher e o seu próprio, não se confunde connosco? Com todos os josés do mundo?
Remeto para o "Ensaio sobre a Cegueira". Em certa altura a rapariga dos óculos escuros diz: "Há dentro de nós uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." Comentando esta frase, escrevi há tempo: "Talvez o desejo mais profundo do ser humano seja poder dar-se a si mesmo o nome que lhe falta." Portanto todos somos uma espécie de senhores josés a quem anda a faltar o resto do nome.

Na epígrafe do livro lê-se: "Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens." Quem diz o nome não pode dizer a vida? "Em rigor", diz de novo o narrador, "não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós." O acaso tem uma força imensa...
Torno à rapariga dos óculos escuros. A frase dita por ela e a epígrafe deste romance são complementares, encaixam perfeitamente uma na outra. Isto mostra, ao menos, que há alguma coerência nas ideias do autor... Quanto à "vida", não me parece que possa ocupar aqui o lugar do "nome". Quem sou eu? Um "ser humano" a quem deram o nome de "José Saramago". E isso que significa? Que significa ser-se "ser humano"? Que significa ser-se "José Saramago"? São apenas nomes que "me deram", não são o nome "que tenho". Também damos o nome de "acaso" a algo que nos dicionários se define assim: "Efeito resultante de um grande número de pequenas causas, independentes entre si, e funções de leis ignoradas ou mal conhecidas." Por outras palavras: o acaso não existe...

O ser no tempo

Reunir, como faz o chefe da conservatória, os papéis da vida e da morte não é demasiado borgiano? Não será esse o tema central do romance e a essência da busca do Sr. José?
Nunca nada será demasiado borgiano. Creio que os três escritores que melhor definem este século são Kafka, Pessoa e Borges, o que quer dizer que também nunca nada será "demasiado" pessoano ou kafkiano... O tema central do romance, como disse antes, é a procura do "outro", independentemente de estar vivo ou morto. Por isso o Sr. José continuará a "procurar" a mulher desconhecida, mesmo depois de saber que já não a poderá encontrar. Juntar os papéis dos vivos e dos mortos significa juntar toda a humanidade. Nada mais. Ou tudo isso.

À imagem do que acontece na esmagadora maioria dos seus livros, o problema do tempo, dos tempos, está também presente em "Todos os Nomes". Porquê essa obsessão?
Porque todas as outras obsessões não passam de meros afluentes desse mar.

Qual é o principal objecto da sua ficção: o tempo ou o ser? "O mais importante", lê-se, "era precisamente isso, o que o tempo faz mudar, e não o nome, que nunca varia"...
Não o ser por si só, não o tempo por si só, mas o ser no tempo. Parece uma frase de filósofo, peço perdão pelo atrevimento... Mas às vezes penso que o direito à filosofia deveria ser incluído entre os direitos humanos...

Ao contrário do que acontece com outras personagens femininas que criou - as mulheres fantásticas de "Memorial do Convento", de "Jangada de Pedra" ou de "Ensaio sobre a Cegueira" -, em "Todos os Nomes" não parece ser reconhecida à mulher e ao amor uma força tão excepcional. Porquê? Mas ainda há aqui, veladamente, uma história de amor?
É uma história de amor, ou melhor, uma história que poderia vir a ser de amor. A ansiedade do Sr. José é já uma ansiedade amorosa, embora ele não saiba ao princípio. Quanto à força, a tal força feminina que de facto está patente em outros romances, creio que ela também se encontra em "Todos os Nomes", na senhora do rés-do-chão direito. A diferença é que, desta vez, não se trata duma mulher nova, mas duma mulher de 70 anos. As outras mulheres são, de certo modo, "sobre-humanas", esta é "humana" simplesmente. A força, porém, está lá...

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a existência de várias vozes que aqui e ali vão aparecendo. Uma delas chega a ser o tecto que dá conselhos ao Sr. José (como noutras obras eram os misteriosos cães que iam dando uns palpites). Qual é a importância dessas vozes? Até que ponto a sua introdução não é sinal de uma alteração na sua técnica narrativa? 
Isso a que chama "vozes" já vem de "Levantado do Chão". São como projecções da consciência, ecos de um dizer ou de um pensar que se tornaram dialécticos ao expressar-se, neste caso ainda mais justificados pelo facto de o Sr. José ser um homem só. "Falar com as paredes" é uma expressão coloquial corrente, portanto o Sr. José não inventou nada quando fez do tecto da sua casa um interlocutor.

Além da conservatória, há um outro espaço fundamental e similar, em "Todos os Nomes": o do Cemitério Geral; espaços onde a vida e a morte se confundem. Porquê essa similitude? O narrador diz que o Cemitério Geral é "um catálogo perfeito, um mostruário (...) um inventário de todos os modos de ver, estar e habitar existentes até hoje", "o próprio coração do tempo". Porquê? 
Uma conservatória única e um cemitério único, como são os deste romance, contêm logicamente, por essa mesma unicidade, todos os nomes. Quando cito aquela frase de Croce que diz que "toda a História é História contemporânea", quero dizer, à minha maneira, que tudo o que sucedeu está a suceder, que todos os mortos estão vivos, que não somos nada sem eles. O presente é uma linha ténue que se desloca ininterruptamente para o que chamamos futuro, ou talvez um "eixo" móvel sobre o qual o tempo vai rolando, segundo a segundo. Ou página a página.

Se, como escreve, "contra a morte não se pode fazer nada", por que é que "um Cemitério é como uma espécie de biblioteca onde o lugar dos livros se encontrasse ocupado por pessoas enterradas"?
É certo que, objectivamente, nada podemos contra a morte. Mas a memória, a memória "sobrevivente", faz pairar, sobre a morte, a vida. Muitas vezes se chamou a uma biblioteca não consultada cemitério de livros. É a primeira vez, suponho, que alguém teve a ideia de chamar a um cemitério biblioteca de pessoas. Tudo está em consultar ou não a biblioteca, qualquer que ela seja. A memória, quero dizer.

Por que razão o Sr. José escolhe "a verdade pela mentira", quando troca a tabuleta da mulher desconhecida por uma outra? Na vida, como na morte, tudo é relativo? Não há fio de Ariadne que nos norteie?
Quando o Sr. José troca a tabuleta, ela já tinha sido trocada antes. Talvez a nova troca tenha recolocado a tabuleta no seu lugar, talvez não. De todo o modo ele não o saberá. O importante não é perguntar "Onde estás?", mas sim "Quem foste?".

"Todos os Nomes" é uma busca ontológica? Ou é uma subversão das fronteiras entre verdade e mentira, vida e morte? Nada no mundo tem sentido, como murmura, no final do livro, o Sr. José?
Busca ontológica, sim. Mas sem mais pretensão que chegar aonde alcançasse, nesses domínios, o meu curto braço. Quanto ao sentido que a vida tenha, já não seria pouco que conseguíssemos ser, cada um de nós, o nosso próprio fio de Ariadne... 

Poema "Eu luminoso não sou" publicado em "Provavelmente Alegria (1970)

"Eu luminoso não sou"

"Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem."

in, “Provavelmente Alegria” (1970)
Editorial Caminho, 1985 (3.ª Edição, Pagina 72)

Memórias fotográficas


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

"Rodham" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (27/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/23722.html

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

"Rodham"
"O atrevimento não teve outras consequências que o (in)esperado interesse que despertou o blog de ontem sobre Hillary Clinton e a sugestão de que recupere o seu autêntico apelido, Rodham. Não houve protestos diplomáticos, a Secretaria de Estado não emitiu um comunicado nem consta que no The New York Times se tenha feito eco do meu escrito. Amanhã mudarei de assunto. Entretanto, descanso e contemplo.

Clinton?
Que Clinton? O marido, que já passou à história? Ou a mulher, cuja história, em minha opinião, só agora vai começar, por muito senadora que tenha sido? Fiquemos-nos com a mulher. Convidada por Barack Obama para secretária de Estado, terá, pela primeira vez, a sua grande oportunidade de mostrar ao mundo e a si mesma o que realmente vale. Obviamente também a teria, e por maioria de razões, se tivesse ganho a eleição para a presidência dos Estados Unidos. Não ganhou. Em todo o caso, como se diz na minha terra, quem não tem cão, caça com gato, e creio que todos estaremos de acordo em que a secretaria de Estado norte-americana, gato não é, mas tigre, felinos um e outro. Apesar da pessoa nunca me ter sido especialmente simpática, desejo a Hillary Diane Rodham os maiores triunfos, o primeiro dos quais será manter-se sempre à altura das suas responsabilidades e da dignidade que a função, por princípio, exige.O que aí fica não é mais que uma introdução ao tema que decidi tratar hoje. O leitor atento terá reparado que escrevi o nome completo da nova secretária de Estado, isto é, Hillary Diane Rodham. Não foi por acaso. Fi-lo para deixar claro que o apelido Clinton não lhe foi dado no nascimento, para mostrar que o seu apelido não é Clinton e que havê-lo tomado, fosse por convenção social, fosse por conveniência política, em nada alterou a verdade das coisas: chama-se Hillary Diane Rodham ou, no caso de preferir abreviar, Hillary Rodham, muito mais atractivo que o gasto e cansado Clinton. Nem um nem outro me conhecem, nunca leram uma linha minha, mas permito-me deixar aqui um conselho, não ao ex-presidente, que nunca aos conselhos deu grande atenção, sobretudo se eram bons. Falo directamente à secretária de Estado. Deixe o apelido Clinton, que já se parece muito a um casaco coçado e com os cotovelos rotos, recupere o seu apelido, Rodham, que suponho ser de seu pai. Se ele ainda é vivo, já pensou no orgulho que sentiria? Seja uma boa filha, dê essa alegria à família. E, de caminho, a todas as mulheres que consideram que a obrigação de levar o apelido do marido foi e continua a ser uma forma mais, e não a menos importante, de diminuição de identidade pessoal e de acentuar a submissão que sempre se esperou da mulher."

Memórias fotográficas


Já está disponível a edição #56 da revista digital "Blimunda" - Aqui link acesso gratuito

Capa da edição #56 Janeiro de 2017

A presente edição pode ser consultada e descarregada gratuitamente, via página da Fundação José Saramago aqui em http://www.josesaramago.org/blimunda-56-janeiro-2017/

Sinopse de apresentação
"A Blimunda começa o ano com algumas mudanças gráficas e uma nova secção chamada (Em) Breve, que trará todos os meses pequenas notas com novidades do universo literário em língua portuguesa.

Para este número de janeiro, a revista visitou em Madrid a exposição Animal Collective, uma mostra com trabalhos em banda desenhada de 22 coletivos, de várias partes do mundo.

Em 1936 teve início a Guerra Civil Espanhola e entre as milhares de vítimas estiveram centenas de escritores e intelectuais. Agora, o legado deixado por esses autores passa ao domínio público. A Blimunda conversou com especialistas e explica a importância de facilitar o acesso a estes materiais que agora passam a poder ser difundidos de forma gratuita.

Qual é o segredo de Paula Rego? Na tentativa de desvendar esse mistério a jornalista Anabela Mota Ribeiro fez uma série de entrevistas à pintora, das quais resultou o livro Paula Rego por Paula Rego. Este número da Blimunda publica um texto da psiquiatra e docente Manuela Correia sobre este livro de entrevistas.

Estamos todos representados nas publicações ou a diversidade dos leitores não é refletida naquilo que é editado? Esta é a pergunta a que se procura dar resposta na secção Infantil e Juvenil desta Blimunda de janeiro. Na secção Visita Guiada, entramos pela porta da Bruaá, editora sediada na Figueira da Foz.

Em novembro, a escritora Inês Fonseca Santos e o ilustrador João Maio Pinto publicaram José Saramago: Homem-Rio, biografia do Prémio Nobel de Literatura que integra a coleção Grandes Vidas Portuguesas. A Saramaguiana recupera o texto lido por Inês Fonseca Santos aquando da apresentação do livro.

No arranque de mais um ano de Blimunda, os habituais desejos de Boas Leituras!"

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

"Quê?" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (26/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/23054.html

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

"Quê?"
"As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja."

Memórias fotográficas


"Clinton?" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (26/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/23498.html

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

"Clinton?"
"Que Clinton? O marido, que já passou à história? Ou a mulher, cuja história, em minha opinião, só agora vai começar, por muito senadora que tenha sido? Fiquemos-nos com a mulher. Convidada por Barack Obama para secretária de Estado, terá, pela primeira vez, a sua grande oportunidade de mostrar ao mundo e a si mesma o que realmente vale. Obviamente também a teria, e por maioria de razões, se tivesse ganho a eleição para a presidência dos Estados Unidos. Não ganhou. Em todo o caso, como se diz na minha terra, quem não tem cão, caça com gato, e creio que todos estaremos de acordo em que a secretaria de Estado norte-americana, gato não é, mas tigre, felinos um e outro. Apesar da pessoa nunca me ter sido especialmente simpática, desejo a Hillary Diane Rodham os maiores triunfos, o primeiro dos quais será manter-se sempre à altura das suas responsabilidades e da dignidade que a função, por princípio, exige.

O que aí fica não é mais que uma introdução ao tema que decidi tratar hoje. O leitor atento terá reparado que escrevi o nome completo da nova secretária de Estado, isto é, Hillary Diane Rodham. Não foi por acaso. Fi-lo para deixar claro que o apelido Clinton não lhe foi dado no nascimento, para mostrar que o seu apelido não é Clinton e que havê-lo tomado, fosse por convenção social, fosse por conveniência política, em nada alterou a verdade das coisas: chama-se Hillary Diane Rodham ou, no caso de preferir abreviar, Hillary Rodham, muito mais atractivo que o gasto e cansado Clinton. Nem um nem outro me conhecem, nunca leram uma linha minha, mas permito-me deixar aqui um conselho, não ao ex-presidente, que nunca aos conselhos deu grande atenção, sobretudo se eram bons. Falo directamente à secretária de Estado. Deixe o apelido Clinton, que já se parece muito a um casaco coçado e com os cotovelos rotos, recupere o seu apelido, Rodham, que suponho ser de seu pai. Se ele ainda é vivo, já pensou no orgulho que sentiria? Seja uma boa filha, dê essa alegria à família. E, de caminho, a todas as mulheres que consideram que a obrigação de levar o apelido do marido foi e continua a ser uma forma mais, e não a menos importante, de diminuição de identidade pessoal e de acentuar a submissão que sempre se esperou da mulher."

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Memórias fotográficas


"O génio de Saramago INquieta a Chamusca" sobre a representação de "Ensaio sobre a Cegueira" (via Rede Regional - 24/01/2017)

Imagem de ensaio via site "Rede Regional" (24/01/2017)

A reportagem pode ser consultada e recuperada aqui 

"Uma adaptação do “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, é a próxima peça que a Companhia de Teatro do Ribatejo (CTR) vai apresentar no antigo centro regional de artesanato da Chamusca, no âmbito do ciclo cultural “INquieto”.

Depois do sucesso do espetáculo de estreia, “Minha querida Anne Frank”, que esgotou por completo o espaço, a obra do Prémio Nobel da Literatura português vai subir ao palco esta sexta-feira, 27 de janeiro, a partir das 21h30.

“E se fossemos todos cegos?” é a pergunta de partida de Saramago para construir um dos seus mais fascinantes romances, em que a cegueira é representada através de inúmeras metáforas.

O génio do autor, nascido no concelho da Golegã, cria um impressionante quadro de figuras humanas, onde se perde, na ausência da visão, todos os sentimentos de solidariedade e respeito, numa guerra cega de valores, que nos faz a todos repensar sobre o sentir humano."

CTR Companhia Teatro do Ribatejo apresenta a peça baseada na obra de José Saramago "Ensaio sobre a Cegueira" inserida no "Ciclo Cultural INquieto" (Chamusca, 27/01 - 21h30m)


27 Janeiro | 21h30 | Ciclo Cultural INquieto | Ensaio sobre a Cegueira 

O site do Município da Chamusca apresenta o evento e pode ser consultado aqui 

"O Município da Chamusca no âmbito da agenda cultural de janeiro e fevereiro, com periodicidade quinzenal, realiza o ciclo cultural INquieto, que estreou no dia 13 Janeiro com Minha querida Anne Frank, que esgotou por completo o Antigo Centro Regional de Artesanato, numa noite em que o público fez silêncio, num momento de grande emoção, onde se viveram os horrores do Holocausto, com produção da Companhia de Teatro do Ribatejo – CTR.

INquieto volta a cena no próximo dia 27 janeiro, pelas 21h30, no Antigo Centro Regional de Artesanato, com Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.

E se fossemos todos cegos? Foi com esta pergunta simples que o Nobel da Literatura partiu para um dos seus mais fascinantes romances, em que a cegueira descrita é representada através de inúmeras metáforas. Já no início da narrativa as personagens são acometidas pelo chamado "mal branco", impossível de ser diagnosticado como um dos tipos já conhecidos de cegueira. Considerando a cegueira como metáfora, ao longo deste romance Saramago tenta explicar como as pessoas vão se tornando cegas no mundo contemporâneo, como inexplicavelmente ocorreu com o primeiro cego, primeira personagem apresentada na narrativa, que cegou quando conduzia o seu automóvel: de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta.

O génio de Saramago, cria assim um impressionante quadro de figuras humanas, onde se perde, na ausência da visão, todos, os sentimentos de solidariedade e respeito, numa guerra cega de valores, que nos faz a todos repensar sobre o sentir humano. Do romance saltam figuras inesquecíveis na sua fragilidade e intolerável maldade que pode existir em cada ser humano.

O Município da Chamusca lança o repto para que no próximo dia 27 de janeiro todos se juntem à Inquietude que se espera no Antigo Centro Regional de Artesanato num espetáculo que será uma viagem desconcertante da alma humana através das palavras escritas por um dos grandes autores universais."

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Memórias fotográficas


“El hombre duplicado” José Saramago llega al teatro (El Espectador - 21/01/2017)

Recuperação de mais reacções à apresentação da peça de teatro "El Hombre Duplicado", aqui no "El Espectador" de 21 de Janeiro de 2017.
Link da notícia em http://www.elespectador.com/noticias/cultura/jose-saramago-llega-al-teatro-articulo-675916

"¿Qué pasaría si cada ser humano tuviera una o varias copias, clones o réplicas?, esa es la pregunta que intenta responder la puesta en escena basada en el texto del escritor portugués, que acaba de ser estrenada en Lanzarote (España)."
Por: Redacción Cultura

En “El hombre duplicado” José Saramago aborda la búsqueda de la identidad propia 
y ajena con humor negro. /Archivo El Espectador"

"El inquietante juego con el que José Saramago aborda la identidad, “El hombre duplicado”, se ha convertido en la primera de sus novelas que llega al teatro y lo ha hecho con un montaje, estrenado mundialmente en Lanzarote (España), que acentúa su tono de thriller oscuro y desasosegante.

El libro ya era película, “Enemy”, dirigida por Denis Villeneuve y protagonizada por Jake Gyllenhaal, y ahora se trasladará al teatro gracias al reto asumido por José Martret, quien, fascinado por lo auténtico y único de los libros del escritor nacido en Portugal, ha querido conservar la profundidad del texto original.

La adaptación para las tablas de “El hombre duplicado” estuvo a cargo de la firma DD & Company Producciones; mientras que la dirección ejecutiva corrió por cuenta de Dania Dévora. Por su parte, los Centros de Arte, Cultura y Turismo de Lanzarote (CACT) quisieron en homenaje a la isla en la que el Nobel decidió refugiarse en 1991 y en la que falleció en 2010, que el lanzamiento de la puesta en escena se realizara en un recinto muy singular, y por eso se escogió a Jameos del Agua, auditorio diseñado por César Manrique.

La pieza teatral, interpretada por Kira Miró y Raúl Tejón, Raquel Pérez, Sergio Otegui, Maribel Luis y Mon Ceballos, y adaptada por Salvador Toscano y Félix Ortiz, ha sido un éxito rotundo, con más de 400 espectadores en su primera jornada de exhibición.

La esencia de la obra sigue sustentándose en la pregunta principal que plantea Saramago en “El hombre duplicado” y que se puede resumir en: ¿en qué consiste la identidad?

¿Qué pasaría si cada ser humano tuviera una e incluso varias copias, clones o réplicas? y ¿cuáles serían los caminos y los laberintos que cada persona sería capaz de recorrer para descubrir el misterio que hay detrás?, propone con ironía el escritor portugués.

El montaje teatral, como la novela, trata de dar respuesta a cuestiones tan humanistas como la definición de la individualidad, los rasgos que permiten pensar en la singularidad y jugar con la posibilidad de que haya hombres paralelos que viven en universos duplicados o a la inversa.

Saramago habla sobre la búsqueda de la identidad propia y ajena con humor negro y distancia, porque es muy complicado asumir que los rasgos propios estén repetidos exactamente igual en otros sujetos.

José Martret, creador de iniciativas teatrales vanguardistas como “La casa de la portera” o “La pensión de las pulgas” junto a Alberto Puraenvidia, quien en esta iniciativa artística se ha ocupado de la escenografía, han creado un juego de identidades en el que el espectador es interpelado constantemente por el personaje que asume el papel de Sentido Común.

Tertuliano Máximo Afonso, un profesor de historia divorciado, un “hombre sin atributos”, profesional de la desidia e indiferencia por todo lo que le rodea, descubre viendo una película que hay un actor que es su copia exacta y a partir de ese momento, en una mezcla entre lo policial y la indagación profunda sobre la identidad humana, se empeña en encontrar “al otro”.

Las pesquisas le conducen a identificar a Daniel Santa-Clara, nombre artístico de Antonio Claro, con el que entra finalmente en contacto, lo que cambia de manera radical el sentido de sus vidas y la aparente inviabilidad de dos sujetos idénticos en el mismo espacio y tiempo.

“El estreno mundial en Lanzarote de la que es la primera adaptación teatral de una de sus obras obedece también a que la idea se le ocurrió a Saramago en esa isla y a que a su viuda, Pilar del Río, le parecía que en España debía hacerse algo en este sentido” comentó la directora ejecutiva Dania Dévora.

La obra visitará hasta abril otras islas del archipiélago, antes de dar el salto a la península, donde ya está confirmada Málaga como una de las ciudades donde se verá durante 2017."