Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

José Carlos Vasconcelos entrevista José Saramago - Programa "Escrever é Lutar" da RTP (17/09/1974)

Programa "Escrever é Lutar"
RTP 17 de Setembro de 1974
José Carlos Vasconcelos entrevista José Saramago naquela que será a primeira aparição na televisão

Seguir o link indicado

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jose-saramago-4/?fbclid=IwAR3L7AZcbJt453OdGufXGiDC25GE1r2v-uCrdYS6kXMSfoSGsrL5tRpFFa4

"Introdução com alguns dados biográficos, nomeadamente o facto de ter publicado dois livros de poemas até ao momento, dois livros de crónicas e um romance; foram, recentemente publicados pela revista "Seara Nova" os textos editorias que o entrevistado terá escrito no "Diário de Lisboa"; Para breve estará na forja um livro de poemas e um outro romance. 03m19: Início da conversa com a eventual ligação da produção literária do entrevistado com a recente Revolução de 25 de Abril de 1974; alusão ao facto de ser director da Associação Portuguesa de Escritores e a sua opinião sobre o papel dos escritores na sociedade actual após o 25 de Abril de 1974; Comentário à censura do Estado Novo da qual foi alvo várias vezes enquanto jornalista."

"Entrevista do jornalista José Carlos Vasconcelos ao escritor José Saramago, sobre a sua vida pessoal, a obra literária, e o momento que se vive em Portugal no pós 25 de abril de 1974.

Nome do Programa: José Saramago
Nome da série: Escrever é Lutar
Locais: Lisboa
Personalidades: José Saramago, José Carlos Vasconcelos
Temas: Artes e Cultura
Canal: RTP 1

Menções de responsabilidade:
Autoria e apresentação: José Carlos Vasconcelos
Tipo de conteúdo: Programa
Cor: Preto e Branco
Som: Mono
Relação do aspeto: 4:3"

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A causa "Chiapas" pelo seu punho

José Saramago recusava a postura do escritor de secretária, que com toques e artifícios de génio publicava os seus "escritos". Saramago não se acomodou à secretária, vivia o mundo, viajava pelos cantos mais diversos deste planeta, experenciava várias influências que o mantinham sensível tanto ao ideal nacional e ibérico, como não descurava a luta dos povos deste mundo que se mantinham subjugados a governos, ou a grupos de interesses que condicionam os governos para seu interesse.
Saramago era isto.

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
de João Céu e Silva
Porto Editora, páginas 28 e 29

(...) "José Saramago não pára de viajar pelo mundo e de se integrar nas causas que defende e que sente que necessitam do apoio de um Prémio Nobel como mais um dos seus defensores. Com pedidos vindo de toda a parte do planeta, os últimos anos do escritor têm sido repletos de deslocações constantes, de presenças em manifestações e em apresentações dos seus livros e de outros em vários países, de discursos em palanques e palcos, de participações em debates, de entrevistas, de assinaturas em manifestos e de inaugurações de exposições, seja sozinho ou ao lado dos líderes políticos mais importantes do mundo, seja com as Mães de Maio na Argentina seja com os palestinos ou com os índios Chiapas. (...)

Aqui também pelo seu testemunho.

Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16 de Janeiro de 2003

(...)
Uma das várias batalhas, na América Latina, em que tiveste intervenção activa foi a de Chiapas, de que agora não se tem falado. O que sucedeu?
A Latino-América tem muitos e muito graves problemas. Mas tem um «especial», que é o problema indígena. E às vezes parece haver a convicção de que ele se resolve com o tempo. Houve um longo e lento genocídio dos indígenas: nuns casos foi a eliminação física, noutros foi a entrega o abandono dessas populações à sua (má) sorte. Um exemplo, entre outros, é o da Guatemala, onde essa população representa 50% do total.
Em Chiapas, o que houve foi uma guerrilha armada, zapatista, que não durou muito. Parte desse exército refugiou-se na selva. E através de meios como a internet, conseguiu dar dimensão internacional à sua luta. Depois dos acontecimentos conhecidos que tiveram repercussão mundial, como a longa marcha até à Cidade do México, o comandante Marcos esteve muitos meses calado. Recentemente escreveu uma carta, a propósito da ETA, que foi um erro político. Chiapas é muito rica - em petróleo, água, café, cacau, aquilo, aqueloutro - e a sua situação está num beco sem saída. O que parece é que toda a gente está à espera que as populações se afundem, se dissolvam, desapareçam, não se sabe porque artes mágicas, para caírem em cima daquilo e se apropriarem de tudo.

A situação é particularmente difícil na América Central...
A situação é dramática. E se os EUA se comportam como se comportam em relação ao resto do mundo, então ali, que se consideraram um seu feudo, imagine-se! (...)




Aqui o texto publicado, em http://caderno.josesaramago.org/58506.html

"O sangue em Chiapas"

Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.


Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009



Todos somos Chiapas

Artículo escrito en primera persona por José Saramago, resultado de sus impresiones recogidas durante su viaje a Chiapas, con motivo de los disturbios que enfrentaron a la población indígena con el gobierno mexicano, y publicado en La Revista del diario español El Mundo. 

"He visto el horror. No el que hemos observado en lugares como Bosnia o Argelia. No. Éste es otro tipo de horror. Estuve en Acteal, en el mismo lugar de la matanza... escuchando a los supervivientes. Es difícil expresar lo que se siente cuando uno sabe que se encuentra con los pies sobre el mismo lugar donde hace tres meses asesinaron a estas personas. 

Me imaginaba la escena... La gente tratando de escapar... los paramilitares disparando a discreción... las mujeres y los niños gritando, huyendo entre la maleza... el lamento de los heridos... 

En Chiapas se vive una situación de guerra o una ocupación militar, que al final es casi lo mismo. No es una guerra en el sentido común, con un frente y dos partes confrontadas. Yo nada más he visto una parte confrontada: el Ejército y los paramilitares. La otra parte, las comunidades indígenas, no están enfrentándolos, no tienen medios. Están rodeados, no tienen comida ni agua... Viven en condiciones infrahumanas. Son casi campos de concentración. No los reunieron allí a la fuerza, es cierto, pero cuando huyeron a esos lugares (se refiere a los campos de refugiados) los rodearon los paramilitares y el Ejército. Entonces esos campamentos se convirtieron en una especie de campo de concentración. 

Si alguna vez hubo en la historia de la humanidad una guerra desigual, no la hubo nunca como ésta. Es una guerra de desprecio, de desprecio hacia los indígenas. El Gobierno esperaba que con el tiempo se ¡acabaran! todos, simplemente eso. 

Pero ellos sobreviven, alimentándose de su propia dignidad. No tienen nada, pero lo son todo. Enfrentan la guerra con ese estoicismo que me impresionó tanto, un estoicismo casi sobrehumano que no aprendieron en la universidad, que consiguieron tras siglos de humillación. Han sufrido como ninguno y mantienen esa fuerza interior, una fuerza que se expresa con la mirada... La mirada de ese niño al que le han destrozado para siempre la vida... (Saramago conoció al pequeño de cuatro años Gerónimo Vázquez al que los paramilitares amputaron cuatro dedos en Acteal) Es algo que no se me borrará jamás de la memoria... Las miradas serias, severas, recogidas de las mujeres, de los hombres... son algo que está por encima de todo. Los indígenas no tienen nada, pero lo son todo. ¿Cómo es posible que después de tanto sufrimiento ese mundo indio mantenga una esperanza? ¿Cómo puede sonreír ese hombre de Polhó que nos acaba de decir "mañana puede que nos maten a todos, pero bueno, aquí estamos"? Es algo que no alcanzo a entender.

En Chiapas encontré un mundo que no comprendo. El mundo indio es un mundo donde el europeo no puede entrar fácilmente. Es como si me asomara a una ventana que da a otro mundo y, aunque lo tengo enfrente, no lo puedo entender. 

También descubrí otra realidad, la de un territorio ocupado militarmente. Un territorio donde los paramilitares y el Ejército son la uña y la carne juntas. Por una razón muy sencilla: de no ser así, los paramilitares no podrían haber hecho lo que hicieron y lo que siguen haciendo. Yo vi camiones del Ejército transportando a civiles que seguro no viajaban allí por la amabilidad de los militares. Minutos después de que abandonáramos Acteal hubo un acto de intimidación e hicieron hasta 30 disparos al aire. Esto sólo puede ocurrir si el Ejército da su bendición. Nada más fácil para el Ejército que identificar a los paramilitares y desarmarlos. 

Me parece esquizofrénico que el Congreso pueda estar debatiendo una ley (el Proyecto de Ley sobre Autonomía Indígena propuesto por el ejecutivo) supuestamente para resolver los problemas de las comunidades indígenas, como si fuera una ley normal, en situaciones normales para objetivos consensuados, cuando al mismo tiempo hay miles de desplazados que no pueden volver a sus tierras, con miedo a ser asesinados, mientras hay una ocupación militar clara en el territorio de Chiapas. Y mientras los paramilitares se pasean tranquilamente y hacen lo que quieren. 

¿Cómo es que no se empieza por pacificar la situación para después discutir una ley donde participen todos los sectores y todas las comunidades? 

Todo se ha hecho sometiendo a los indios de Chiapas a una presión incalificable y esto no puede llamarse humanidad. 

El pueblo de México tiene que reclamar a su Gobierno una paz justa y digna. Yo no puedo, sólo soy un escritor extranjero acusado de injerencia. El pueblo mexicano no puede quedarse parado, dejando que los gobernantes lo decidan todo, hay que bajar a la calle... no estoy pidiendo un levantamiento sino simplemente que las conciencias se manifiesten... estoy pidiendo una insurrección moral, desarmada, étnica... 

Acteal es un lugar de la memoria que no puede de ninguna manera desaparecer. Sabemos lo que ocurrió y no lo queremos olvidar. Chiapas es el cuerpo de México. La sociedad civil debería admirar no sólo a los indios sino a los que se levantaron para defender a esos mismos indígenas. 

De Chiapas me llevo no sólo el recuerdo, me llevo la palabra misma... Chiapas... La palabra Chiapas no faltará ni un solo día de mi vida. Si tenemos conciencia pero no la usamos para acercarnos al sufrimiento ¿de qué nos sirve la conciencia? Volveré a Chiapas, volveré". 

Transcripción de Javier Espinosa 

(Declaraciones concedidas a LA REVISTA por José Saramago (Portugal, 1922) en México DF tras su viaje a Chiapas el 14 y 15 de marzo. En su visita conversó con los supervivientes de la matanza de Acteal en el lugar de la masacre, recorrió después el campo de refugiados de Polhó y hasta se acercó al campamento militar de Majomut, sito en las inmediaciones del asentamiento indígena). 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Em 2003, Saramago perguntava sobre Portugal

Imaginar hoje o que Saramago se fosse vivo, poderia pensar sobre estes dias de Portugal.
Imaginar o seu pensamento, é recuar no tempo e procurar as suas perguntas, as suas questões.
Em 2003, perguntava "Onde está uma ideia de futuro para Portugal?"
Em 2014, estamos no futuro próximo, vivido, para responder à Saramago.
Cada vez mais, a ideia, o pensamento, o elementar princípio da ideia unificadora de Portugal - Não existe.



em, Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16/01/2003

(...) Estávamos (com Mário Saramago) na sala a conversar sobre tudo isto e perguntei-lhe se tinha a certeza de que Portugal daqui a 50 anos ainda existiria - e ele disse-me que não...

Por passar a estar integrado nos Estados Unidos da Europa?
Porque não temos um projecto de País, um futuro próprio. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. Não há um querer próprio, as pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto! Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência e nada por trás.
Onde estão as ideias? 
Onde está uma ideia de futuro para Portugal? 
Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa?
Parece que ninguém quer pensar nisto, os governos todos navegam à vista da costa. Falta ousar ir mais além. (...)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Referência a Rainer Marie Rilke na génese de "As Intermitências da Morte"


Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Começando pelo principio, os teus livros têm «nascido» de uma ideia central, base de tudo que vai acontecer,  que te surge subitamente, sem razão aparente, como uma espécie de iluminação. Como foi desta vez?
Estava a ler, já não pela primeira vez, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Marie Rilke, que tem páginas extraordinárias em que ele descreve a morte do pai. A certa altura interrompi a leitura, virei o livro, li a contracapa. E foi a referência mínima à morte, no texto do editor, que fez saltar a ideia: a morte passa a anunciar às pessoas que elas vão morrer. Assim nasceu este livro. No dia 1 de Novembro, véspera do Dia de Finados, de 2004. (...)


(O violoncelista e a morte)

Quem foi Rainer Marie Rilke

Informação via Wikipédia, aqui http://pt.wikipedia.org/wiki/Rainer_Maria_Rilke

Rainer Maria Rilke, por vezes também Rainer Maria von Rilke (Praga, Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926) foi um poeta de língua alemã do século XX. Escreveu também poemas em francês.
Nasceu em Praga, na Boémia, (actual República Checa), então pertencente ao Império Austro-Húngaro, e mudou seu nome, originalmente René, para Rainer.
Rilke fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894 fez sua primeira publicação, uma coleção de versos de amor, intitulados Vida e canções (Leben und Lieder). Não exerceu nenhuma profissão, tendo vivido, sempre, à custa de amigas nobres.
Alguns anos depois, em 1899, Rilke viajou para a Rússia a convite de Lou Andreas-Salomé, a escritora e depois psicanalista, filha de um general russo, e que foi sua amante por longos anos. Sua passagem pela Rússia imprimiu uma inspiração religiosa em seus poemas. Rilke passou a enxergar a natureza, dadas as dimensões e exuberância das paisagens russas, como manifestação divina presente em todas as coisas. Sobre este aspecto publicou em 1900 a coleção Histórias do bom Deus.
Em 1901 casou com Clara Westhoff, da qual logo se separou. O século XX trouxe para a poesia de Rilke um afastamento do lirismo e dos simbolistas franceses com os quais ele se identificara. Em 1905, publicou O Livro das Horas de grande repercussão à época. Nesta obra, seus poemas já apresentavam um estilo concreto, bem característico desta sua fase.
Em 1902 foi para Paris, onde trabalhou como secretário do escultor Auguste Rodin entre 1905 a 1906. Rodin exerceu grande influência sobre o poema de Rilke, que se reflete em suas publicações de 1907 a 1908.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke morava em Munique e lá permaneceu durante todo o conflito. Antes de se mudar para Munique, ele viveu na região do Trieste e publicou, em 1913, a A vida de Maria (Das Merien Leben) e iniciou a redação de Elegias de Duíno (Duineser Elegien), texto que só viria a ser publicado em 1923. Duíno era um castelo na região de Trieste, Itália, onde Rilke morou por dois anos antes da Guerra, a convite da princesa Maria von Thurn und Taxis. Após o conflito na Europa, Rilke mudou-se para a Suíça, a última de suas pátrias de eleição, onde viveu seus últimos anos.
Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de "espaço cósmico interior".
Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX.
Sua obra foi influenciada pelo Expressionismo e influenciou muitos autores e intelectuais de diversas partes do mundo.


"Ser amado é consumir-se na chama. Amar, é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar."
Fonte - Cadernos de Malte Laurids Brigge


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Uma reflexão sobre o "homem" - o seu caminho provável


José Saramago tinha uma característica, muitas vezes considerada incómoda.
Pensar. Reflectir. Ir buscar ao passado de... recuperá-lo, para um presente, e alertar com algum pessimismo e muito cepticismo o futuro.


 Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

O ser humano... de forma global

(...)
Enfim, como é o retrato do poeta enquanto jovem, aos 80 anos?
(risos) Em primeiro lugar, acho que sou uma boa pessoa (aliás, estou casado com uma mulher que não me permitiria que não o fosse...). Em segundo lugar, creio que o trabalho que estou a fazer tem  uma qualidade, que não desmerece do que fiz antes: estou ainda com capacidade e O Homem Duplicado de alguma maneira o demonstra.
Sou uma pessoa feliz e ao mesmo tempo infeliz, ou pelo menos não tão feliz assim. Porque vivo neste mundo, vivemos todos, num mundo que não devia ser o que é. Não só injusto, mas cruel. Não percebo como é que após séculos e séculos, milénios até, de estudo, cultura, ciência, arte, filosofia, de todas as maravilhas que ficaram por aí, somos esta espécie absolutamente desprezível. Neste sentido, desprezo-me a mim mesmo por lhe pertencer. Ah!, tem gente maravilhosa, tem heróis, santos... Tem, mas como não são eles que governam o mundo... A bondade de hoje é alguma coisa que dá vontade de rir! E isso (basta-me pegar num jornal, saber o que se passa pelo mundo) dá-me um mal-estar todos os dias...
Por isso podemos dizer que esta casa é uma pequena ilha de harmonia onde vivem pessoas que estão bem e de bem uma com a outra; mas o mundo lá fora... Há quem vá vivendo conformado, ou dizendo que não pode fazer nada; outros, porém, em que, quase dá vontade de dizer: desgraçadamente, me incluo, não se conformam.

Quer dizer que hoje não és um homem de esperança, pelo menos com esperança?
Não. Não tenho nenhum motivo para ter esperança. No plano estritamente pessoal, podemos ter razões para isso. Mas se falarmos numa esperança que nos envolva a todos, ela não é possível num mundo como este. Como será daqui a 50 ou cem anos? Estamos no fim de uma civilização e não temos ideia nenhuma do que vem aí.
Nem sabemos se no futuro o ser humano terá alguma coisa a ver com o actual, ou se será outra coisa que deva passar a chamar-se de forma diferente. (...)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Saramago e a força que sentia do seu público - "Sou uma pessoa amada"

Muitas vezes me questionei:
Qual seria a sensação que Saramago experimentava, ao receber do seu público, o reconhecimento. Como é que a mensagem era recepcionada e intuída?
Saramago, autor tardio dizem muitos, para mim, escritor que chegou até ao povo quando teria de ter chegado. Da entrevista dada à revista Visão (16/01/2003, com José Carlos de Vasconcelos), extrai-se este sentimento "Sou uma pessoa amada, tenho a certeza absoluta".
A atribuição do prémio Nobel, trouxe muitos leitores, mais internacionalização da obra, mas livros traduzidos em mais línguas, mais solicitações, mais exaustão pessoal, mais respostas às mesmas perguntas.
Lê-se na entrevista as recepções por este mundo fora, com centenas e milhares de pessoas para o ouvirem, verem, pedirem um autógrafo, o tal que seja especial - lembro-me de estar em longas filas nos idos tempos de noventas, na feira do livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII... realmente o povo tinha por ele uma enorme gratidão pela obra e pelas palavras.
Hoje, nos fins de 2014, do vários cantos deste planeta chegam relatos e memórias, evocações e lembranças.
Os Saramaguianos e as Saramaguianas, encetaram em si um desígnio muito especial - o homem morreu mas a obra tem descententes.




Entrevista de José Carlos de Vasconcelos para a revista Visão em 16/01/2003
(…)
E andaste aí pelo mundo, quase de uma ponta a outra. Como é que resististe, até fisicamente?
Bom, não foi fácil. E continua. Ainda no ano passado, só nos Estados Unidos estivemos, eu e a Pilar, quase um mês, percorrendo-os de uma costa a outra. Em meados de Dezembro chegámos de uma volta de mais um mês, por Portugal, Espanha, Itália. E os convites não param.

Isso tudo, além de muito cansativo, não é, a partir de certa altura, muito chato? Ou os momentos gratificantes fazem com que valha a pena?
A atitude com que vou para essas coisas é muito parecida com a que te referi quanto às entrevistas. Vou contrariado, mas à terceira palavra já estou onde tenho de estar. E essas coisas dão-me muitas alegrias. A maior, perdoe-se-me a vaidade ou presunção, é saber que para centenas ou milhares de pessoas que estão ali, o que lhes vou dizer tem importância. Podem estar enganadas, ou iludidas, mas tem importância para elas. Quando vou a Bogotá e me encontro com um teatro repleto, com 1700 pessoas lá dentro para ouvir falar de livros, e cerca de mil pessoas cá fora a protestarem por não conseguirem entrar; quando na grande praça de Cidade do México apresento um livro (A Caverna) para dez mil pessoas; quando em La Antigua, na Guatemala, havia mais de mil pessoas; quando vou dar uma conferência e me encontro com uma fila de gente que dava a volta toda a um quarteirão para entrar numa sala que já estava cheia; quando em Buenos Aires, a autografar livros na Livraria Ateneo, havia cá fora, sob chuva intensa, dezenas de pessoas à espera de conseguirem entrar – então, sem nenhuma vaidade, tenho de concluir que sou uma pessoa amada. Não é estimada – é amada. Se há alguma coisa de que tenho a certeza absoluta é deste afecto especial que liga muito dos meus leitores, apetecia-me dizer quase todos, em relação ao escritor, mas sobretudo em relação à pessoa. E isso, que acontece também em Espanha, na Itália, no Brasil, em toda a parte, dá-me a maior alegria.

A que o atribuis, dado haver escritores também muito lidos e famosos com que isso não acontece? Ao próprio tema dos livros e às tais opiniões que neles também dás?
Julgo que sim. Essas pessoas não me conhecem, não vieram aqui a casa ver como eu era. Devem é ter encontrado nos livros uma voz e assuntos que lhes interessavam. E um certo tom, a minha tal presença nos romances que escrevo, a implicação constante em cada página, em cada linha, em cada palavra. Eu há muito digo que todos os livros, e já agora em particular os meus, deviam levar uma cinta com estas palavras: atenção, este livro leva uma pessoa dentro. É isto no fundo: os meus leitores encontram nos meus livros a pessoa que eu sou e gostam. Que queres que eu te faça (risos) e que queres te diga mais? Sou um homem de sorte, até nisso sou um homem de sorte.

Há algum caso, alguma história, que te tenha marcado mais?
É muito difícil. Tenho conversado com Pilar sobre isto: as Obras Completas estão incompletas porque lhes falta o outro lado, ou como agora se diz a recepção dos leitores. Gostaria, depois de já cá não estar, que a Pilar organizasse, para publicar, cartas absolutamente extraordinárias, muitas vezes de pessoas sem qualquer preparação académica, de uma emoção raras, que me chegam de toda a parte. E que juntasse aos 30 e tal volumes que eu deixe escritos um ou dois com essas cartas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Georges Duby - Historiador e sua influência na visão e análise do relato histórico (História do Cerco de Lisboa)

(Livro no mural existente na Fundação José Saramago)

José Saramago reconhece a influência de alguns historiadores, na forma como encara o relato histórico nas suas obras. 
Na entrevista a José Carlos de Vasconcelos (Jornal de Letras, 18/04/1989), aquando do lançamento da obra "História do Cerco de Lisboa", Saramago faz a seguinte alusão a este processo, também ele formativo, e presente na forma de relatar a visão dos acontecimentos passados.

"Algum historiador o influenciou?"
" Traduzi livros de Georges Duby, e um deles, O Tempo das Catedrais, fascinou-me. Aí pude ver como é tão fácil não distinguir o que chamamos ficção, e o que chamamos história. A conclusão, certa ou errada, a que cheguei, é que, em rigor, a história é uma ficção. Porque, sendo uma selecção de factos organizados de certa maneira para tornar o passado coerente, é também a construção de uma ficção."


“O tempo das catedrais” de Georges Duby traduzido por José Saramago para a Editorial Estampa.

Em 1978, a Editorial Estampa publica “O tempo das Catedrais. A Arte e a Sociedade, 980-1420″ de Georges Duby com a tradução de José Saramago. O livro viria a ser re-editado, em 1993, na colecção Nova História.


Pequena menção a Georges Duby na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Georges_Duby)
"Georges Duby (7 de Outubro de 1919 - 3 de Dezembro de 1996) foi um historiador francês, especialista na Idade Média.
Deu início à sua carreira universitária em Lyon, no ano de 1949, tendo sido posteriormente membro da Academia Francesa e professor do Collège de France entre os anos de 1970 e 1992. Foi um especialista em história medieval, lançou mais de 70 livros e coordenou coleções importantes, como a História da vida privada."

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Referência a Benedetto Crosse - José Carlos de Vasconcelos entrevista Saramago

José Carlos de Vasconcelos entrevista José Saramago
Jornal de Letras - 18 de Abril de 1999

No momento em que seria lançado o livro "História do Cerco de Lisboa", foi realizada esta entrevista, de onde a menção a Benedetto Crosse. Quem foi e o que motivou a referência que se transcreve.

José Carlos de Vasconcelos, a propósito da obra carregada por uma profunda encenação histórica, que concorre em paralelo com a participação do revisor Raimundo Silva; questiona José Saramago sobre o estudo e referências na obra.

"O livro obrigou-o a alguma preparação histórica. Isso agrada-lhe?"
Agrada-me muito. E provavelmente cada vez mais. Cada vez melhor compreendo a verdade e significado extremo da célebre frase de Benedetto Crosse: «Toda a história é a história contemporânea»." 
in Conversas com Saramago, Jornal de Letras



Benedetto Croce (Pescasseroli, 25 de fevereiro de 1866 - Nápoles, 20 de novembro de 1952) foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano. Os seus escritos giram em torno de um largo espectro temático, sobretudo estética e teoria/filosofia da história. É considerado uma das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX.
Croce nasceu em Pescasseroli, na região de Abruzzo, no seio de uma família rica e influente. A sua educação foi marcada por uma atmosfera fortemente religiosa, da qual o jovem Croce cedo se distanciaria. Em 1883, perdeu os pais, Pasquale e Luisa Sipari, assim como a irmã, Maria, todos mortos num terremoto que acometeu a vila de Casamicciola Terme, na ilha de Ísquia, onde a família passava férias. Nesta ocasião, o próprio Croce permaneceu soterrado por longo tempo, tendo corrido sério risco de morte. Após a fatalidade, ele herdou a fortuna da família, o que lhe permitiu viver em relativo conforto, e dedicar tempo à reflexão filosófica.
Na política, foi nomeado senador em 1910. Entre 1920-21 foi ministro da educação. Croce opôs-se ao governo fascista de Benito Mussolini, embora inicialmente o tivesse apoiado.