Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 9 de março de 2016

"A esquerda explicada" Texto de José Saramago publicado em "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (15/01/1996)

"José Saramago e Jorge Sampaio num acto da campanha de 1989"

15 de Janeiro (de 1996)
«A esquerda explicada». Assim chamei ao artigo, interrompido não sei quantas vezes por chamadas de Madrid a reclamá-lo com desesperadora urgência. Não sei se os leitores vão realmente encontrar a esquerda explicada. Por mim, penso que esta será uma maneira tão boa como outra de dizer o que a esquerda é: 
«Certamente são muito poucos os espanhóis que têm notícia de ter havido em Portugal, há mais de trinta anos, precisamente em 1962, um vasto movimento de protesto e reivindicação estudantil, de que a Universidade de Lisboa foi um dos principais focos. Menos ainda serão os que ouviram falar da existência, naquela época, entre o corpo docente da Universidade, de um professor que se chamava Luís Filipe Lindley Cintra, filólogo. E não há com certeza um só espanhol que tenha conhecimento de que o secretário-geral do órgão coordenador das diversas associações académicas era então um jovem licenciado em Direito, de 23 anos, chamado Jorge Sampaio. Para entender o que vem a seguir, seria preciso começar por saber isto. Aí fica, pois. 
«Não estarei a caluniar ninguém se disser que, naqueles tempos, quando o fascismo português começou a receber os primeiros golpes duros (o assalto ao navio Santa Maria, o começo da luta independentista de Angola, a invasão de Goa pelas tropas indianas), os eméritos catedráticos da Universidade não eram propriamente pessoas que se distinguissem por cultivar fortes ideais de progresso e manifestar pública ou privadamente insofridas ânsias de liberdade. Digamos que o contrário esteve sempre muito mais perto da verdade. Haveria algumas discretas excepções, e uma ou outra aberta e declarada, como foi o caso do professor Lindley Cintra, que, corajosamente, tomou o partido do movimento estudantil universitário. A gratidão dos estudantes de Direito levou-os, nesses dias, a oferecer ao professor Cintra uma pintura, um quadro em cujo verso, usando as palavras mais simples, sem retórica revolucionária ou qualquer outra, expressaram o respeito e a admiração que ele lhes merecia. 
«Passaram trinta e quatro anos. Dois filhos que o professor tinha, cresceram e tornaram-se homens (um deles, Luís Miguel Cintra, é hoje, sem dúvida, o maior actor português), há poucos anos a morte levou o professor Lindley, o quadro que tinha sido oferecido pelos estudantes de Direito, em 1962, ficou, sem o saber, à espera da segunda parte do seu destino. Que principiou há três dias: depois de obtido o consentimento e a aprovação de seu irmão, Luís Miguel Cintra procurou Jorge Sampaio para lhe entregar o quadro. Trinta e quatro anos depois, a pintura voltou às mãos que primeiro lhe tinham tocado.


«É isto suficiente para explicar a esquerda? Um leitor dirá que sim, outro dirá que não. Contemos então mais unia história, esta brevíssima. No domingo, Jorge Sampaio, já presidente eleito da República Portuguesa, teve de responder, em conferência de imprensa, a uma pergunta impertinente e mal-intencionada de uma jornalista, que quis saber que ia ele fazer agora do cartão de militante do Partido Socialista, uma vez que havia afirmado que seria o presidente de todos os Portugueses. A resposta de Sampaio foi esta: "Não é preciso entregar o cartão partidário para ser isento e responsável na mais alta magistratura do Estado." Não tenho a certeza de que a jovem aprendiza de jornalismo tenha compreendido bem aquilo que ouviu. Habituada ao espectáculo quotidiano de um exercício demagógico da política, esperaria provavelmente ouvir de Jorge Sampaio uma tirada grandiloquente sobre os deveres das altas funções em que vai ser investido, esperaria provavelmente que ele aproveitasse a ocasião para anunciar a sua retirada do partido, a fim de que no espírito dos cidadãos não pudesse perdurar qualquer dúvida sobre a futura imparcialidade das suas decisões. O que Jorge Sampaio disse, afinal, foi que o espírito, a inteligência e a sensibilidade não se definem e exercem por causa de um cartão de partido, mas que estão na cabeça e no coração, e que a coerência das ideias, o respeito pelos princípios e a isenção dos juízos não se tornaram mais sólidos pelo facto de se ter devolvido um documento que é muito mais do que a simples prova burocrática duma filiação partidária, porque é o sinal de um sentido de vida, se, quem a ele entendeu não dever renunciar, também não renunciou a si mesmo. Jorge Sampaio é esse.» 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, páginas 23 a 25 (15/01/1996)

Lutas académicas na Universidade de Lisboa
Dia do Estudante (24 de Março de 1962)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sobre o livro de Bernard Connoly e os ventos políticos que pairavam pela Europa de 1995 - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (5/9/1995)

A referida edição encontra-se à venda e disponível, aqui

"The Brussels Commission has just suspended its senior economist, Bernard Connolly, for writing a book savaging the prospects for a common currency. 
There are many who now believe he should be lauded as a prophet." 
Observer, Editorial, 1 October 1995

"Mr. Connolly's longstanding proposition that the foisting of a common currency upon so many disparate nations would end in ruin is getting a much wider hearing..." 
New York Times, 17 November 2011


5 de Setembro (de 1995)

"Dentro de poucos dias será publicado em Inglaterra um livro explosivamente polémico, se a fazenda de dentro vier a corresponder à amostra de fora, isto é, ao título anunciado: O Carcomido Coração da Europa: a Guerra Suja pela Europa Monetária. O autor chama-se Bernard Connolly e faz parte do certamente qualificado grupo de altos funcionários que estão encarregados de gerir a política monetária da União Europeia. Presume-se, portanto, que seja alguém que sabe o que diz. E que diz ele? Diz, por exemplo, que o Sistema Monetário Europeu é uma «monstruosidade económica» e a união monetária um «perigoso logro». E vai mais longe: prenuncia que a união monetária levará a uma batalha aberta entre a França e a Alemanha para conseguir a hegemonia na União Europeia. A Comissão não gostou de vaticínios e opiniões tão contrários aos seus gostos e entregou o caso ao Comité de Disciplina. Ora, independentemente da substância e do mérito dos fundamentos objectivos que assistam ao funcionário rebelde (aliás, seguidor declarado de Margaret Thatcher) para ter formulado tão sombrios prognósticos (chega mesmo ao ponto de dizer que tais conflitos e contradições poderão vir a resultar numa guerra), aquilo que, a meu ver, deveria merecer toda a nossa atenção é a emergência cada vez mais exigente da questão em que toda a gente pensa, mas de que pouquíssimos têm a coragem de falar sem disfarces: a hegemonia sobre a Europa. Que a Alemanha se tenha tornado, por assim dizer, em candidato «natural» a essa hegemonia, é algo tão flagrante que parece já ter adquirido um estatuto de fatalidade inelutável; que a França comece a reagir desesperadamente à perspectiva de continuar, no quadro europeu, a ser o que é hoje, apenas o maior dos menores, e ver agravada a sua dependência política - tudo isto é mais um episódio do velho jogo chamado «quem-manda-na-Europa», a que, ingenuamente, alguns políticos «integracionistas» pensaram poder mudar as regras. E se, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro dos antigos tempos, «isto anda tudo ligado», é caso para nos perguntarmos se as bombas atómicas que Paris vai fazer explodir no Pacífico não se destinam, afinal, a ser ouvidas em Bona." (...)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 149 e 150 (5/9/1995)



segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Fundação José Saramago assinala a abertura da embaixada de Cuba nos EUA, com o texto "Guantánamo" de 5/11/2008

Via Fundação José Saramago, através da página oficial no Facebook, aqui

"No dia em que se restabelecem oficialmente as relações entre Cuba e os Estados Unidos, recordamos um texto de José Saramago publicado no seu blogue, O Caderno de Saramago, a 5 de novembro de 2008"

(O hastear da bandeira de Cuba, na sua embaixada - EUA)

A recordação do post, de 5 de Novembro de 2008, também publicado no livro "O Caderno", pode ser consultado e lido na integra, aqui em http://caderno.josesaramago.org/9928.html

"Guantánamo"
"No momento em que escrevo estas linhas os colégios eleitorais ainda vão continuar abertos durante mais algumas horas. Só pela madrugada dentro surgirão as primeiras projecções sobre quem será o próximo presidente dos Estados Unidos. No caso altamente indesejável de que viesse a triunfar o general McCain, o que estou a escrever pareceria obra de alguém cujas ideias sobre o mundo em que vive pecassem por um total irrealismo, por um desconhecimento absoluto das malhas com que se tecem os factos políticos e os diversos objectivos estratégicos do planeta. Nunca o general McCain, sendo, ainda por cima, como a propaganda não se cansa de lhe chamar e que um miserável paisano como eu nunca se atreveria a negar, um herói da guerra contra o Vietnam, nunca ele ousaria deitar abaixo o campo de concentração e tortura instalado na base militar de Guntánamo e desmontar a própria base até ao último parafuso, deixando o espaço que ocupa entregue a quem é o seu legítimo dono, o povo cubano. Porque, quer se queira, quer não, se é certo que nem sempre o hábito faz o monge, a farda, essa, faz sempre o general. Deitar abaixo, desmontar? Quem é o ingénuo que teve semelhante ideia?

E, contudo, é disso precisamente que se trata. Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base militar de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele campo de concentração (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba. E, de caminho, acabar com o bloqueio, esse garrote com o qual, inutilmente, se pretendeu vergar a vontade do povo cubano. Pode suceder, e oxalá que assim seja, que o resultado final desta eleição venha a investir a população norte-americana de uma nova dignidade e de um novo respeito, mas eu permito-me recordar aos falsos distraídos que lições da mais autêntica das dignidades, das quais Washington poderia ter aprendido, as andou a dar quotidianamente o povo cubano em quase cinquenta anos de patriótica resistência.

Que não se pode fazer tudo, assim de uma assentada? Sim, talvez não se possa, mas, por favor, senhor presidente, faça ao menos alguma coisa. Ao contrário do que acaso lhe tenham dito nos corredores do senado, aquela ilha é mais que um desenho no mapa. Espero, senhor presidente, que algum dia queira ir a Cuba para conhecer quem lá vive. Finalmente. Garanto-lhe que ninguém lhe fará mal."
em "O Caderno"
Caminho, páginas 103 a 105, (8 de Novembro de 2008)


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

67 razões para ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis"...


1. Vapor Highland Brigade faz escala em Lisboa

2. 16 anos depois regressa do Rio de Janeiro - Hotel Bragança

3. Visita túmulo de FPessoa no cemitério dos Prazeres

4. Lídia ...
 
5. Lisboa debaixo de chuva e vento... uma constante

6. Passagem de ano 1/1/1936, meia noite e meia hora; Lídia sobe ao quarto; depois Fernando Pessoa sentado no sofá, abraçaram-se, fazem promessas de novos encontros para colocar o diálogo em dia

7. Lídia e Ricardo Reis dormem juntos

8. A forçada ida ao Dona Maria e as apresentações a Marcenda e seu pai Dr. Sampaio

9. Depois do teatro aparece de novo Fernando Pessoa e mais tarde Lídia

10. Ricardo Reis conversa longamente com Marcenda na ausência do Dr. Sampaio

11. Jantam os três na mesma mesa

12. Primeiros mixericos de "sunânbulismo" pelos corredores numa alusão às incursões de Lídia no quarto de Ricardo Reis

13. Leitura de "conspiração" de Tomé Vieira

14. Por curiosidade Ricardo Reis assiste ao cortejo fúnebre do "mouraria" assassinado por José Rola, tal ajuntamento é o exemplo das piores profissões em desfile

15. Encontros vários com Pessoa

16. As esquerdas ganham as eleições em Espanha vêm famílias fugidas

17. Estado febril e o aconchego e cuidados de Lídia

18. Ofício da PVDE e o boato corre depressa no hotel

19. Dr. Sampaio evita o contacto... Marcenda deixa bilhete por debaixo da porta do quarto de Ricardo Reis... encontro amanhã no Alto de Santa Catarina

20. Pessoa aparece, falam, Ricardo Reis pede-lhe que não esteja presente porque Marcenda estará a chegar... esta pede desculpa pelo pai, deixa morada para saber de novidades do interrogatório. .. afinal de contas Pessoa manteve-se invisível para Ricardo Reis

21. Interrogatório que não o era mas Ricardo Reis assim entendeu. O Doutor-Adjunto e o subalterno Victor (este amigo do gerente do hotel Bragança) deixaram passar em claro alguma ríspidez de Ricardo Reis. Entretanto descansado envia carta para Coimbra.

22. Pondera deixar o Bragança. Continua o mau tempo por Lisboa



23. Aluga casa no Alto de Santa Catarina perto do local onde se encontrou com Marcenda às escondidas

24. A despedida do hotel Bragança e a mudança para a casa nova.... os 2 velhos no jardim do Alto de Santa Catarina são uma constante

25. Lídia aparece de surpresa. Virá fazer a faxina. Marcenda estará para chegar. A melancolia de um homem sem nada para fazer.

26. A semana de ansiedade. O serviço de Lídia. A vizinhança alcoviteira. As novas rotinas.

27. Marcenda aparece de surpresa. O beijo apaixonado.

28. Ricardo Reis entra lentamente ao serviço... arranjou um lugar de médico em substituição

29. As estranhas ideologias fascistas na Europa e os "bodos" pela mediocridade nacional

30. Fernando Pessoa que não tem dado sinal


31. Troca de correspondência com Marcenda... recebe um subscrito violeta... relutância em abrir para saber as novas... paralelo no futuro com As Intermitências da Morte (a cor, coincidência??)

32. A visita de Fernando Pessoa

33. A PVDE através do agente Victor rondando a porta

34. Ricardo Reis lê a Fernando Pessoa as novidades do mundo e de Portugal... os mortos perdem a capacidade de ler, debatem a novidade de Portugal e Alemanha utilizarem o divino como avalista político

35. Episódio com Lídia que volta para a faxina semanal... a tentativa de um acto sexual falhado por incapacidade de Ricardo Reis lhe poder responder... a rispidez deste e a tristeza de Lídia

36. Ricardo Reis recebe a visita de Marcenda no consultório... há desejo reprimido. Um inesperado pedido de casamento prontamente recusado... e "um dia" na despedida

37. Outra carta violeta chegada de Coimbra.... esta matando e acabando o que não poderia ter começado.... "não responda"

38. Continuam os ecos perigosos das guerras... Addis-Abeba arde... 

39. Visitas de Lídia, teorização sobre a duplicidade da mulher a dias e da amante

40. Apanha no Rossio comboio a caminho de Fátima... por conversas com Marcenda, Fátima seria para o Dr. Sampaio uma última esperança para a maleita da filha

41. Os caminhos e as gentes a caminho de Fátima, os milagres que não aconteceram, a impressão que Ricardo Reis ganha pela inadaptação àquele lugar e ao que representa

42. O regresso a Lisboa, as visitas de Lídia e Fernando Pessoa... este apercebe-se que o hálito a cebola estará nas imediações da sua casa... sinónimo de contínua vigilância do agente Victor e da PVDE. Perde o lugar no consultório. Equaciona voltar ao Brasil

43. Fernando Pessoa e Ricardo Reis abordam o Estado e contestam Salazar. Episódio do anúncio de António Ferro e do simulacro de um "ataque aéreo ao Rossio por inimigo desconhecido"

44. As aparições de Fernando Pessoa cada vez mais espaçadas ... passam 6 meses da morte... o esquecimento... o medo de se perder

45. Ricardo Reis sem consultório e pouca vontade de exercer deixa-se levar pela preguiça dos dias... dorme ... dorme

46. Dia da Raça. Fernando Pessoa apercebe-se que sobre Camões não escreveu... inveja?


47. Lídia confessa a Ricardo Reis o atraso de 10 dias... Virá filho de pai incógnito? 

48. Ricardo Reis e Fernando Pessoa em nova visita abordam os vários heterónimos, a estátuas que são retiradas e a questão do filho indesejado

49. Espanha e as revoltas, Franco... abordagem à ingenuidade que paira sobre as ilusões criadas à volta da Mocidade Portuguesa e a Juventude Hitleriana

50. Fernando Pessoa que não tem aparecido. Ricardo Reis vai aos Prazeres. 4371 é onde se dirige

51. General Milan d'Astray a caminho da guerra em Espanha estará de passagem por a Lisboa, isto inquieta Ricardo Reis ao ponto de procurar Fernando Pessoa

52. O contínuo desleixo de Ricardo Reis. O pequeno rádio para ouvir as novas. Os espanhóis exilados no hotel Bragança e nos Estoris que retornam a uma Espanha com novos poderes e governos nacionalistas

53. Ricardo Reis e a voz dos jornais. Lídia e a voz do irmão comunista

54. Badajoz rendeu-se. A praça de touros será palco da vingança... o cheiro e imagem de sangue dos milicianos prisioneiros corre numa arena de outras lides

55. Franco tomará Madrid para erradicar o mal do comunismo e marxismo. Em Portugal organizam-se demonstrações de nacionalismo em comícios contra esses males dos vermelhos.

56. Ricardo Reis vai ao comício no Campo Pequeno por curiosidade e por alguma convicção. Estão lá os de Itália, Alemanha e Espanha. O comício apela à criação de uma legião cívica... terá camisa verde para não copiar os seus iguais da Europa.

57 . Lídia há muito que não aparece. Ricardo Reis está num contínuo estado de desleixo... passa os dias a dormir... escreveu uma carta a Marcenda que a rasgou ... mas seguiu um verso para a posta restante de forma anónima...

58. Lídia apareceu... desespero dela... o irmão irá no Afonso de Albuquerque e outros barcos para uma suposta revolta... tem medo... nem o peso de carregar um filho de homem que não o quererá como um pai quer a um filho lhe afronta tanto como a vida do irmão... desespero...

59. Ricardo Reis descerá à beira do rio... vê os hipotéticos futuros revoltosos barcos em hora de almoço... vê passar o zepellin Hindemburgo que vem largar correspondência para que algum navio a leve para a América do Sul... Victor aparece de surpresa e Ricardo Reis depois de dizer que "estava a observar os barcos e o rio", seguiu caminho como se fugisse do agente do cheiro a cebola

60. Tiros vindos dos barcos. A revolução? RR vem para a rua e afinal é o ataque vem Forte de Almada que disparam contra os barcos... e do Forte do Duque... o Afonso de Albuquerque e Dão são atingidos... rendem-se...


61. Ricardo Reis refugia-se em casa.... chora desalmadamente... "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"...

62. Ricardo Reis levanta da cama e apronta-se... segue em direcção ao hotel Bragança... a Pimenta e ao gerente Salvador perguntará por Lídia... não estando só poderia estar em socorro ou de novidades do seu irmão revoltoso...

63. O jornal do dia seguinte dá notícia da morte de doze marinheiros, feridos e outros presos. Daniel Martins, irmão de Lídia morreu...

64. À noite Pessoa apareceu... sentaram-se e assim ficaram... o inevitável anúncio... os nove meses de transição que Fernando Pessoa tinha falado passaram... "não nos tornaremos a ver"

65. Ricardo Reis levanta-se, pega no livro que nunca conseguira ler, aquele que não devolveu da viagem de regresso no Highland... "the god of the labyrinth"... então vamos disse... não conseguirá ler é a primeira virtude que perde com a morte... deixo o mundo aliviado de um enigma

66. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis

67. Aqui onde o mar se acabou e a terra espera.

Epígrafe "Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa" José Saramago

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Crónica "As Palavras" e as voltas dadas à censura (A Capital, 17 de Maio de 1968)


Crónica publicada no jornal "A Capital", em 17 de Maio de 1968

Na "Biografia José Saramago" de João Marques Lopes (Guerra e Paz, página 49), é referido «como aconteceu a muitos escritores e jornalistas durante o regime fascista, José Saramago também viu textos seus serem censurados. Assim a crónica "As Palavras" (...) foi truncada, pois os censores terão considerado que frases como "Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar" seriam uma critica velada ao cerceamento da liberdade de expressão então imperante entre nós.».
Aqui fica a crónica.



"As Palavras"

"As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.

E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates, o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem tão fluidas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz-surpresa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.

Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.

Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.

Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

Publicado no livro de crónicas "Deste Mundo e do Outro"

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

José Vericat da "BBC", entrevistou Saramago em Ramalah - "O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino" (2002)


Momento em que José Saramago foi apresentado a Yasser Arafat


O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramalah com o escritor português José Saramago. (2002)

"O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino"

Entrevista pode ser lida e consultada, aqui
(também na versão espanhola)


BBC — Que propósito teve a sua visita à Palestina?
Saramago — A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos.

BBC — O que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?
Saramago — Vamos ver: Isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Aqui trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social palestina pela impossibilidade de comunicação.

BBC — Que pensa de Israel?
Saramago — Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.
Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os capacetes azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém.

BBC — Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje, e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular nos campos de concentração?
Saramago — Isso de Auschwitz foi, evidentemente, uma comparação a propósito. Um protesto formulado em termos habituais, quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que não há câmaras de gás para exterminar palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária: Ninguém pode sair de seus povoados.
Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês incomoda muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra, e em lugar de dizer Auschwitz digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas; não é uma questão de mais trágico ou menos trágico: É o fato em si. Isto que está acontecendo em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo.

BBC — Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?
Saramago — Não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito; quer dizer: se fazem e se repetem infinitamente.

BBC — O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?
Saramago — Uma novela que publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. (Até há alguns dias, eu era aqui um bestseller. Agora os meus livros estão sendo retirados das livrarias) É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo, como está e como é, não vale a pena.
Isto poderia ter relevância, se os políticos se interessassem por literatura. Se há algo sobre o que refletir, é sobre a capacidade que temos, ou que não temos, de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano, e o respeito ao outro.

BBC — Qual é o papel da literatura neste conflito?
Saramago — Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter, é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida, não só no seu próprio país, mas também no mundo.

BBC — A imprensa internacional publicou declarações atribuídas ao senhor referindo-se aos atos do exército israelense como atos “nazistas” e fazendo críticas bastantes duras ao governo de Israel. Qual é exatamente a sua posição diante do conflito no Oriente Médio?
Saramago — A declaração de que o exército israelense se tornou “judeu nazi” foi de um grande intelectual judeu (Yeshayahu Leibowitz, que morreu em 1994) respeitado tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista intelectual. Não estou usando essa espécie de guarda-chuva para me proteger de qualquer tempestade. Mas esta idéia de que algo de profundamente negativo, destrutivo, entrou no espírito de Israel, eu não fui a primeira pessoa a dizer. Hoje mesmo outros israelenses reconhecem isso.

BBC — Outra afirmação que o senhor teria feito sobre Israel, foi comparar a forma com que o governo israelense tem tratado os palestinos como uma espécie de apartheid…
Saramago — Não é uma espécie de apartheid, é rigorosamente um apartheid, e sobre isso só tem dúvidas quem não veio aqui nunca. Se alguém quiser ser informado, supondo que as autoridades militares permitam o acesso, a passagem nos postos de controle para chegar às aldeias e cidades palestinas que estão completamente isoladas, onde não se pode entrar e de onde não se pode sair sem a autorização do Exército, se se quer ver como isto é efetivamente, há que vir aqui.
A informação que nós temos, aquela que circula internacionalmente, dá sempre uma imagem de um lado e deixa outro praticamente omisso, ou apenas com as imagens de palestinos disparando para o ar quando acompanham os seus mortos. Eu não estou aqui dizendo que os israelenses são uns demônios e que os palestinos são uns anjos, não se trata disso, anjos e demônios há de um lado e de outro.
O que se passa é que a situação política aqui, a situação de guerra que se criou, teve como resultado a ocupação militar de praticamente todo o suposto território palestino, o isolamento de todas as aldeias e cidades palestinas e a impossibilidade de se circular no próprio território. Isso, se não é apartheid, como é que havemos de chamar?

BBC — O senhor diria que nos últimos anos, principalmente durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, essa situação tem se agravado?
Saramago — Ela tem se agravado nos últimos tempos. Mas, enquanto foi primeiro-ministro o sr. Barak, construíram-se mais assentamentos no interior do território palestino do que aqueles construídos quando foi primeiro-ministro o sr. Netanyahu. Quer dizer, o mesmo sr. Barak, que supostamente se propunha a fazer a paz, instalava cada vez mais assentamentos no interior dos territórios ocupados.
E aqui há um ponto que é necessário reconhecer: os assentamentos precisam do exército para se defender. Mas o exército precisa dos assentamentos para estar instalado ali. E desta lógica, que é uma lógica absolutamente infernal, não se consegue sair, porque efetivamente a paz que querem os governos de Israel não é uma paz justa, não é uma paz que reconheça efetivamente os direitos dos palestinos de ter um Estado, de ter uma identidade própria, uma vida que seja sua. Os palestinos são desprezados pela população de Israel, e isso não é demagogia, é a mais pura das verdades, e quem quiser confirmá-la que venha aqui.

BBC — O senhor falou sobre como a comunidade internacional vê esse conflito. O senhor não acredita que, principalmente depois de atos de extrema violência como o atentado de ontem (quarta-feira, em que 20 israelenses foram mortos numa explosão) fica mais difícil ainda para a comunidade palestina divulgar a sua luta, as suas reivindicações à comunidade internacional?
Saramago — Em primeiro lugar, eu não estou nem a justificar nem a defender este ato.
Todos os atos de violência praticados pelos palestinos são obstáculos à paz. Mas os atos de violência praticados pelo exército israelense não são obstáculos à paz… Aldeias arrasadas, milhares de mortos, gente expulsa em 1948… Fala-se do Holocausto judeu, mas também houve uma espécie de Holocausto palestino. Um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas em 1948.
Ainda ontem estivemos em Gaza, e 150 casas foram destruídas por tanques e escavadeiras. Aqui se castiga uma ação de violência praticada por um palestino com a destruição da casa, ou de casas, ou de uma aldeia. Então os atos de violência dos israelenses não são obstáculos à paz?

BBC — Nessa situação, que perspectivas o senhor vê para esse conflito? O senhor tem algum otimismo em relação ao plano de paz saudita, ou às atuais negociações?
Saramago — Eu não tenho nenhum otimismo, porque efetivamente o governo de Israel não quer a paz. Quer uma paz que lhe convenha, não uma paz justa que levasse em conta o direito do povo palestino de ter a sua própria vida. Sou completamente cético em relação ao êxito de qualquer plano.
E, recentemente, numa proposta dos Estados Unidos nas Nações Unidas, foi reconhecido que o povo palestino tem direito a viver no seu próprio Estado. Mas como se organiza esse Estado, se os assentamentos israelenses nos territórios ocupados são 205, e todos eles protegidos pelo exército e eles próprios armados? Como se quer falar num plano de paz que ignore essa realidade?

BBC — Devido às suas mais recentes declarações, tem havido em Israel um boicote aos seus livros. Como o senhor vê esse tipo de reação?
Saramago — Isso é natural. Acho que, no fundo, são reações de pessoas que não agüentam que se lhes diga a verdade. Retirar os meus livros das livrarias é, talvez, um primeiro passo, que pode levar a um segundo passo, que é queimá-los em praça pública. Tudo pode acontecer.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

José Saramago: “La paz es una militancia” - texto em homenagem a Ernest Lluch


Para ler e reflectir, via "Memórias" da página da Fundação José Saramago
em http://www.josesaramago.org/jose-saramago-la-paz-es-una-militancia/

"No dia 20 de novembro de 2001, primeiro aniversário da morte do professor e ex-ministro da Saúde espanhol Ernest Lluch, José Saramago participou em San Sebastián numa homenagem ao intelectual assassinado pela ETA. No Teatro Principal, o escritor leu um texto que tinha como título: “La paz es una militancia”. Aqui publicamos a sua intervenção na íntegra (texto em espanhol)."






"No centenário de Álvaro Cunhal" ... a serenidade crítica em tom elogioso

Para visita e consulta, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/159992.html



"No centenário de Álvaro Cunhal"

"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: «O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal». O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."

em. O Caderno 2, 31 de Julho de 2009


"Este texto de José Saramago, por ocasião dos 90 anos de Álvaro Cunhal, foi publicado na revista “Pública” do “Público” de 9 de Novembro de 2003"

“Não é o santo que alguns louvam nem o demónio que outros aborrecem, é, mas não simplesmente, um homem. Chama-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a comer os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e a decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos prováveis e possíveis do partido de que foi, por muitos anos, contínua e quase solitária referência. Quer no plano nacional, quer no plano internacional, não duvido de que sejam de amargura as horas que vive o meu camarada Álvaro Cunhal. Não é o único, e ele o sabe. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele foi, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultado que se visse, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Álvaro Cunhal quando ele se retirou. Agora, quando cumpre os seus noventa anos, talvez já não precisemos dele. Mas o que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso.”





quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Saramago "Lo que pasó con Salman Rushdie fue una señal" - Entrevista ao El País (9/02/2006)

Juan Cruz entrevistou José Saramago, em 9 de Fevereiro de 2006 para o jornal El País. 
Na Dinamarca, por esta altura, acontecia um episódio de ameaças perpetradas por radicais islâmicos, contra um cartoonista e a revista que publicou uma caricatura de Maomé, onde se vislumbra um turbante preto satirizado em forma de bomba prestes a explodir.
O massacre de ontem contra o jornal satírico Charlie Hebdo, de onde resultou a execução de 12 pessoas e muitas mais feridas, torna esta entrevista de leitura obrigatória. 

Link original da entrevista,
em http://elpais.com/diario/2006/02/09/internacional/1139439607_850215.html

Link de um grupo no facebook - "Amigos de José Saramago", onde foi colocada a entrevista em destaque. Aqui, em https://www.facebook.com/amigosdejosesaramago

"Lo que pasó con Salman Rushdie fue una señal"
De Juan Cruz, em 9 de Fevereiro de 2006

Fotografia de Gorka Lejarcegi

"Los premios Nobel José Saramago y Günter Grass, portugués y alemán, expresan sus opiniones acerca del debate generado tras la publicación en Dinamarca de las caricaturas de Mahoma que han desatado una ola de violencia y otras reacciones en el mundo islámico. Saramago fue atacado en su país y en otros países católicos cuando publicó, en 1991, El Evangelio según Jesucristo, acusado de ser blasfemo con los dogmas católicos. Grass es visitante asiduo de Dinamarca, donde además vivió una época crucial de su vida."


¿Le sorprendió que la aparición de los dibujos desatara esta polémica?
Los dibujos se publicaron en septiembre, y estamos en febrero. Ahora surgen de súbito, como si hubieran aparecido ayer. El conflicto lleva mucho tiempo calentándose. Lo que me sorprendió es que algo tan viejo estallara como una bomba ahora por algo que apareció en septiembre. Por otra parte, la reacción tampoco es novedosa. Lo hemos vivido en los siglos XV o XVI, fuimos igual de intolerantes, quemamos a los que pensaban distinto, no hemos sido tan diferentes.

¿Y le sorprendieron las reacciones violentas?
En algunos momentos he temido lo peor. Vivimos en Estados laicos, en los que el margen de libertad es amplísimo, y a veces pensamos que todo el mundo se alimenta de lo mismo, y no es así. Pero conociendo lo que es el islam, y sobre todo la situación internacional, las reacciones no me han sorprendido. Que algunas manifestaciones hayan sido organizadas no tiene por qué maravillarnos, porque ya se sabe lo fácil que es. Y tampoco me ha sorprendido la violencia con que se han producido. Lo que sí me pilló desprevenido es la irresponsabilidad del autor o de los autores de esos dibujos. Algunos opinan que la libertad de expresión es un derecho absoluto, el único derecho absoluto que existe, mientras que todos los demás son relativos. La cruda realidad impone límites. Imaginemos que el dibujante danés, en lugar de hacer una viñeta ridiculizando a Mahoma, dibuja una diciendo que el director del periódico es un imbécil. Sería muy valiente, pero al día siguiente probablemente estaría en la calle.

¿Qué hacer? ¿Autocensurarse?
No se trataría de autocensurarse, sino de usar el sentido común. En una situación como la que vivimos, y conociendo la susceptibilidad que hay en torno a estos temas, el sentido común nos dictaría qué hacer. Alguien verdaderamente responsable que tuviera constancia de que una viñeta puede ser como echar gasolina al fuego la guardaría para mejor ocasión.

¿Es esta una expresión del choque de civilizaciones?
El choque está ahí, y siempre ocurre cuando la Verdad se encuentra condensada en un libro. Ocurrió con la Biblia, que ha sido usada como un arma, pasó no hace mucho con el Libro Rojo de Mao, pasó con Mein Kampf de Hitler, pasa con el Corán..., y los uso como ejemplo de lo que ocurre cuando se limitan las verdades plurales, cuando se expresa que hay un Dios y que todo lo contrario niega la existencia de ese Dios... Matar en nombre de Dios es hacer de Dios un asesino... ¿Habrá conciliación? Presupone una enseñanza que eduque en el respeto de las creencias del otro; y aunque esto se hiciera sería obra de una generación, y no tenemos mucho tiempo. Si no se inventa un modo de llegar a un pacto de no agresión entre las religiones, tampoco se podrá llegar a esa alianza de civilizaciones de la que se habla. ¿Quién firmará el pacto? No veo al Papa y a otros representantes de otras confesiones cristianas teniendo delante de la mesa a representantes del islam.

¿El futuro será igual de explosivo?
Ambas civilizaciones han vivido pocos momentos de paz; no veo cómo se remediará ahora la lucha que está latente; acaso cuando la tolerancia se instale como algo casi natural. Ahora sabemos que en Irak los profesores más abiertos han sido expulsados de la Universidad o están en la cárcel... Es urgente educar para la tolerancia. Tenemos un problema ahora.

¿Ha vivido alguna experiencia de intolerancia?
En mi caso, mi choque con la intolerancia [el rechazo católico a El Evangelio según Jesucristo] no puso nunca mi vida en riesgo. Fue una decisión estúpida del ministro de Cultura de mi país. Luego ocurrió algo mucho más serio, que fue lo que pasó con Rushdie. Con la distancia que nos da el tiempo podemos decir que aquella fue una señal.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Saramago em Castril - fala de política, de Cuba, e os apelos aos estudantes presentes (24/04/2003)

Crónica no "El País", de Jesus Arias
Castril, 24 de Abril de 2003

"Saramago habla en Castril con más de 300 niños de política y letras"

Aqui, link recuperado no site do jornal "El País",
em, http://elpais.com/diario/2003/04/24/andalucia/1051136560_850215.html



"Dudo mucho que al sistema en que vivimos se le pueda llamar democracia". Así de tajante se mostró ayer el Premio Nobel de Literatura José Saramago durante la presentación del centro cultural que llevará su nombre en el pueblo granadino de Castril de la Peña, a 150 kilómetros de la capital. "No es democracia una situación en la que el poder real, que son las industrias y las multinacionales, prima sobre el poder político", señaló. Saramago también volvió a pronunciarse sobre la situación en Cuba tras la ejecución de tres personas. "No soy yo quien se ha distanciado de la revolución cubana", señaló, "sino ella la que se ha distanciado de sí misma".

José Saramago protagonizó en la mañana de ayer un curioso acto antes de visitar por la tarde la que será sede provisional del centro cultural del pueblo, un proyecto que realizará el arquitecto portugués Álvaro Siza. El escritor se desplazó hasta un colegio público y, en el patio de recreo, se expuso a las preguntas de más de 300 niños de entre cinco y trece años. "El mundo está enfermo hoy", les dijo, "con las guerras y con todo sucede. Será gracias a vosotros si en el futuro el mundo es un poco mejor". El autor de La balsa de piedra, hijo predilecto de Castril desde hace unos años, manifestó que para él era "un grandísimo honor" que el pueblo haya planeado construir un centro cultural con su nombre. Por ahora, en tanto se completa el proyecto de Álvaro Siza, la sede estará en el teatro y en la biblioteca municipal. El alcalde del pueblo, el socialista José Juan Mar, explicó que el centro albergará en el futuro diferentes exposiciones, tendrá talleres para niños, y servirá también para proyectar películas y hacer montajes teatrales. El proyecto definitivo estará concluido en dos años.

El día de ayer fue casi festivo para Castril. Todos los niños del pueblo y anejos del municipio se concentraron en el patio del colegio público Nuestra Señora del Rosario para escuchar las respuestas de Saramago a sus preguntas. "Tenéis que leer mucho, muchísimo. Para llegar a escribir bien es necesario que antes leáis todo lo que podáis". Militante radical por los derechos humanos, Saramago expuso su cruda visión de la realidad actual en el mundo desarrollado. A preguntas de un grupo de periodistas, manifestó: "Dicen que ha terminado la guerra, pero en mi opinión hay dos batallas que deben mantenerse siempre: la de la democracia y la de los derechos humanos. Sin democracia, no hay derechos humanos. Y sin derechos humanos, no hay democracia". "No es democracia una situación en la que el poder real, que son las industrias y las multinacionales, prima sobre el poder político". También criticó duramente al presidente del Gobierno, José María Aznar. "Ahora dice que han ganado la guerra. ¿Cómo se gana una guerra sin haber participado en ella?", se preguntó.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Recuperação da entrevista de Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no "Expresso" (2/11/1991)



Recuperação da entrevista de Clara Ferreira Alves, originalmente publicada no jornal "Expresso", em 2/11/1991, e que agora, foi compilada numa colecção "Grandes Entrevistas da História


«No meu caso, o alvo é Deus»

Entrevista 
"Publicado esta semana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo contém uma história que todos conhecemos. E contém cenas e afirmações que alguns séculos atrás teriam lançado o autor na fogueira, sem direito a sepulcro. O escritor toma para si liberdades que são a substância da criação, e comporta-se, na invenção do seu mundo, como Deus. Este é o evangelho segundo Saramago... 

– Achas que os teus leitores crentes podem perguntar: que direito tem um ateu confesso, um comunista, de vir reescrever a nossa religião? 
– Eu não sei se era legítimo, agora que o fiz, fiz. O que chega a parecer incrível é que, se nós imaginarmos que Jesus não é filho de Deus, a nossa civilização está assente sobre coisa nenhuma. 

– Há uma tese escondida, no romance? 
– A tese escondida é a de que eu digo, em primeiro lugar, que o cristianismo não valeu a pena; e em segundo, que se não tivesse havido cristianismo, se tivéssemos continuado com os velhos deuses, não seríamos muito diferentes daquilo que somos. 

– O livro contém afirmações que poderão causar reacções... 
– ... Nas consciências, nas consciências... 

– ... A mais forte talvez seja a do final, em que invertes a frase de Jesus, que acaba por dizer: «Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez». Jesus rebela-se contra um Deus ao qual os homens têm de perdoar. Aqui está a tese do livro. 
— Pode ser que não esteja aí, mas é aí que tudo se fecha, que tudo vai ter. Trata-se da criação de uma nova religião, que nasce do tronco do judaísmo, e de uma decisão de Deus que não está satisfeito com o pequeno espaço e o pequeno povo que governa e que pretende alargar a sua... 

— Base de apoio? 
— Base de apoio. E necessita de um sacrifício e de um mártir. E como resulta do encontro de Deus com Jesus e com o Diabo, no Mar da Galileia — e no meio de um nevoeiro que dura quarenta dias —, Jesus obriga Deus a revelar-lhe o futuro dessa religião. que vai nascer. E esse futuro é uma carnagem, sangue que corre durante vinte séculos. De facto, como o Diabo diz em certa altura, é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. Deus (se existisse), sendo omnipotente, tudo teria de fazer para o bem dos homens nesta única vida que temos na terra. É condição necessária do homem sofrer e fazer sofrer para receber um prémio que não se sabe qual seja, ou se se sabe, consiste na contemplação eterna da face do Senhor, o que custa rios de sangue, renúncias à vida, clausura, sacrifício. 

— Está aqui implícita uma crítica ao cristianismo e ao catolicismo. Mas não há nessas religiões nada de bom? E serão elas diferentes de outras religiões, monoteístas ou não, na sua obsessão pela culpa, o pecado e o sacrifício? 
— Eu diria que a crítica não está implícita mas explícita. No meu Evangelho, Jesus é o filho de Deus contrariado, ao contrário dos Evangelhos em que ele sabe e age como filho de Deus. 

— Este Jesus é um homem como todos os outros; e este Deus, como é que é? É Deus uma criação dos homens, e como eles ávido de sangue, ou são os homens uma imagem de Deus? O Deus do livro é o Deus da convicção religiosa, enquanto o teu Deus pessoal não passa de uma invenção humana. 
— O do livro é um Deus derivado directamente de Jeová. 

— Tu não acreditas na existência de Deus, portanto Deus não passa de uma criação humana. Mas este Deus não servia o artificio ficcional e tiveste de ir buscar o Deus dos crentes, condição sine qua non para a existência da história narrada. No fundo, uma refutação de Deus sem dele prescindir. 
— Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia. 

— Poderíamos dizer o mesmo de todas as revoluções. 
— É inevitável, as religiões, como as revoluções, devoram os seus filhos. Há nas religiões um contínuo processo de devoramento em que Deus é como um Moloch que necessitasse do sacrifício humano. Imaginando que Deus existe — e não lhe concedo o beneficio da dúvida —, Deus não pode, por boa lógica, criar seres para os destruir. O cristianismo na sua derivante católica, que é a que conhecemos melhor, é uma história de sofrimentos contínuos. 

— Insisto: nas religiões monoteístas, é uma prática comum. 
— São todas, com excepção do confucionismo, que não é bem uma religião mas um sistema de valores, uma filosofia. O que não consigo perceber é a necessidade do sofrimento do corpo para salvar a alma. Abdicações, renúncias, cilícios, tristezas, amarguras, perseguições, vale de lágrimas. Veja-se a expressão, vale de lágrimas. 

— Se Deus é uma criação humana, o pecado não será a consequência da nossa necessidade de culpa? — É uma das questões do livro. Donde vem esse sentimento de culpa? Fomos educados na ideia de um pecado original que manchou para todo o sempre a espécie humana, cristã ou não. E assim se introduz na mente das pessoas um código sobre o que se permite ou não. Assim se cria a administração das almas, os delitos e os castigos de Deus, o código penal das religiões. O sistema tem o seu equivalente na sociedade civil, na existência de códigos de comportamento. 
Não se pode desejar a mulher do próximo — a formulação é machista, não diz que não se pode desejar o homem da próxima — como não se pode circular pela esquerda. 

— Tentas aplicar a lógica à religião e à fé? É ilógico. 
— Eu podia ter escrito um livro como este, questionando todas estas coisas de um ponto de vista apenas lógico, elementar; talvez nem mereça o nome de lógica, mas de simples bom senso. 

— Nada há de bom nas religiões? Se descontarmos a arte sacra, uma óbvia vantagem estética, não terá havido casos em que as religiões permitiram a sobrevivência e a resistência de vítimas? Veja-se o judaísmo, que todos os judeus não hesitam em afirmar ter sido o cimento da sua identidade e existência como povo, e da resistência às perseguições e às tentativas de aniquilação. 
— Mas as religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por, seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos. É um jogo entre poderes que se debatem em circunstâncias históricas diferentes. Veja-se as cruzadas, uma crença contra outra crença, uma guerra não entre um Deus e outro, Alá, mas entre dois livros, a Bíblia e o Corão. Do ponto de vista do meu bom senso é absurdo. 

— Racionalismo «voltairiano» ou marxismo-leninismo? E aí apetece-me dizer que o comunismo teve a sua teologia e a sua fé, os seus dogmas. E teve e tem as suas vítimas e perseguições. 
— Não creio que tivesse uma teologia, para encontrar vítimas não é necessário ir ao marxismo-leninismo ou ao cristianismo. Tens vítimas na exploração colonial, onde é indiferente se o explorado ou explorador é marxista-leninista ou católico. O meu racionalismo tem uma raiz «voltairiana». Esse cepticismo, essa ironia e essa espécie de compaixão pela loucura dos homens, vêm daí. Seria mais cómodo acreditar em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade. Tal como entre os crentes havia e há o «non possumus», também eu posso dizer que sou agnóstico, se ateu for uma palavra demasiado dura. 

— Vou fazer de advogado do diabo: primeiro, protegeste-te com a forma do romance do facto de estares a tentar reescrever uma religião. Ser escritor dá-te uma cobertura que o ensaísta não teria. Segundo, o projecto é ambicioso e pretensioso. Terceiro, é uma operação de marketing, depois de se saber o que aconteceu ao Salman Rushdie com Os Versículos Satânicos. 
— Dizer que tentei encontrar uma protecção no facto de ter escrito um romance e não um ensaio ignora uma circunstância: não poderia, porque não saberia, escrever esse ensaio. Aqui trata-se apenas de alguém que tendo lido os Evangelhos encontrou neles outras leituras sustentadas por alguma lógica. Um teólogo não escreveria um romance e eu não escreveria senão um romance. E penso ter chegado a resultados do ponto de vista estilístico e, até, da própria capacidade de persuadir pela via do romance. Neste livro, não se trata de fazer puras afirmações provocadoras mas de criar uma situação humana concreta, aceitando as consequências do que vai acontecendo e assumindo todos os riscos, quer o narrador, quer o autor, quer as personagens. Quanto a ser pretensioso, é possível que sim, talvez haja quem diga que não cheguei onde queria, mas não é isso que eu creio, e fiz exactamente aquilo que queria. 

— Terias a coragem de escrever um livro destes dentro da religião islâmica? 
— Talvez não tivesse essa coragem e sobretudo (peço desculpa por ter de chamar a atenção para este ponto) por causa de todas as diferenças — decerto todas elas favoráveis a Salman Rushdie — entre o livro dele e o meu. Há uma essencial que é bom que fique clara desde já: no livro de Rushdie, o alvo é Maomé. No meu caso, o alvo é Deus. E tão absurdo, para mim, pensar que quando se muda de religião se deixa para trás um deus e um diabo e uns infernos e uns paraísos e se adquire em estado novo outro deus, outros demónios e outros paraísos. E cada vez que o poder de Deus se restringe ou amplia, o poder do Demónio restringe-se ou amplia-se sem que ele tenha de fazer nada. É tão absurdo! Quando uma religião desaparece — e têm desaparecido muitas —, ao desaparecerem as entidades que representavam nessa religião o Bem e o Mal, desaparecem também o bem e o mal caracterizados por essa religião? 

— O Bem e o Mal, ou, como disseste, «fazer bem aos homens»: o que é que isto significa? O comunismo não era uma doutrina do bem contra o mal do capitalismo, não queria promover o bem entre Os homens? 
— O marxismo, não creio que se tenha apresentado nunca como o Bem. Essas categorias não são úteis quando entramos em questões como o marxismo, ou a Revolução Francesa. Eu lembrava-te a História do Cerco de Lisboa, onde a certa altura se apresenta a palavra não para negar qualquer coisa que estava antes. Os instrumentos para urna transformação, como é o caso do marxismo, representam um não, o não é o que põe em causa, rejeita, questiona. O que tem acontecido sempre é que esses nãos acabam por converter-se em sins e acabam por converter-se em sins no sentido cada vez menos positivo que a palavra sim pode assumir numa certa fase. A Revolução de Outubro foi o não ao czarismo, ao poder absoluto. Houve o momento da esperança, e depois este não transformou-se em sim, o sim que leva a burocracia, ao autoritarismo, a tudo de que deu abundantes provas a abortada tentativa de estabelecer o socialismo na União Soviética. O não inicial, mesmo que já contivesse os germes do que aconteceu depois, ficou num sim, ao qual foi preciso outra vez dizer não. 

— Uma dialéctica. Houve um momento de pureza na revolução russa? 
— Claro, também houve um momento de pureza na nossa revolução do 25 de Abril.

— A pureza não te horroriza? 
— Tu é que lhe chamaste pureza. Eu diria que há momentos em que a esperança ocupa o espaço todo. 

— Na União Soviética, quem é responsável pela perversão da ideia? Os homens, que nunca sabem servir as ideias? Ou aqueles homens em particular, que se enganaram todos e enganaram muita gente? 
— Eu sou tão pessimista (que acho que a humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros. Para solucionar alguns dos grandes problemas da humanidade, os meios existem e contudo não são utilizados. 

— Que meios? Uma outra utopia? Uma doutrina? Uma ideia, ainda e outra vez? Não é altura de sermos práticos e concretos? O colapso do comunismo afectou a tua crença no comunismo? 
— Não afectou, serei dos poucos. Dantes, os comunistas eram milhões e milhões e milhões e de repente parece que são algumas centenas de milhares. Podes dizer que se trata, afinal de contas — eu que estou aqui a fazer a crítica das crenças —, de qualquer coisa em que persisto em acreditar. Acredito na possibilidade de o homem ser feliz, de viver em harmonia. 

— No comunismo, tal como nas grandes religiões, há uma espera, um tempo que não é bom e que se sacrifica ao futuro, que bom será. Uma espera do paraíso, seja ele depois da morte ou os amanhãs que cantam. Há sempre uma vida depois da morte. No comunismo há ainda uma redenção... 
— Bom, eu não lhe chamaria exactamente redenção, mas aceito. Eu chamar-lhe-ia humanismo radical, permitindo a harmonia nas relações entre os homens, na sua infinita diversidade. 

— O tempo das vacas gordas vai acabar? 
— Não sou eu quem o diz, é o Governo. 

— Teriam os comunistas administrado melhor o país? Veja-se o triste exemplo do Leste, um desastre ecológico, um desastre económico, repressão ou supressão das liberdades e garantias. Como se pode defender isto? Ou os soviéticos não eram «bons» comunistas, ou não eram sequer comunistas, e por isso é que falharam? [...] São exercícios e subtilezas que me ultrapassam. E os que ainda são comunistas dizem que o comunismo é bom e os homens é que são maus? É o mesmo que dizer que Deus é bom e os homens é que são maus. 
— Não entro nesse debate de serem comunistas ou não comunistas, chego à conclusão de que não eram, mas, a posteriori, é sempre fácil fazerem-se essas verificações. O que vou dizer soa a atitude idealista, ou ,,ignifica pôr o carro à frente dos bois: não se faz socialismo sem uma mentalidade socialista. E não se faz socialismo na mentira, na falta de respeito, em situações em que a liberdade ou a falta dela é condicionada por nomenclaturas ou privilégios de uma classe que controla... 
— Sem querer entrar pelo foro íntimo, não terá havido um momento um que tu e o dr. Cunhal olharam um para o outro e concluíram que a nomenklatura que o partido apoiava era uma enorme perversão da ideia comunista? 
— Eu não sei se ele chegou a alguma conclusão, e nunca olhámos um para o outro numa situação em que devêssemos discutir isso. Para mim, isso é claro desde há anos. E, de facto, a União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política ou ideológica. Não é nada que eu já não tenha dito, e embora estas coisas não provem mito, a verdade é que depois do 25 de Abril não corri lá, e antes disso nunca tinha saído de Portugal. A única viagem que fiz à União Soviética foi há três anos, em plena perestroika. E quando há bocado te falei da mentira não foi por acaso, mas porque tinha em mente um caso concreto. Durante a guerra de 39-45, quando foi descoberto o massacre de Katyn, dos oficiais polacos, a informação que todos tínhamos é que tinham sido assassinados pelos nazis. Recentemente, a União Soviética veio reconhecer que tinha assassinado essa gente. Não posso aceitar que me mintam desta maneira, mesmo em nome das sujidades e sujeições da política. Mas aqui é mais grave, trata-se de um país que era uma referência ideológica, o «farol do futuro». 

— O massacre de Katyn é uma gota de água nos massacres instituídos pela União Soviética. E o gulag? E a Hungria? E a Checoslováquia? 
— Claro está. Mas a gota de água continuava no segredo e só recentemente foi revelada. E há a Hungria, a Checoslováquia, o gulag e tudo isso. E há coisas mais recentes e imperdoáveis, que é o facto de a União Soviética, por necessidades internas e pelo descalabro em que o país se viu, ter abandonado países e movimentos que cresceram e se desenvolveram à sombra do apoio e auxílio da URSS. Caso de Angola, Moçambique e Cuba, entre outros. Deixou cair povos em cujas consciências pôs esperanças e algumas realizações. 

— Essas dúvidas que te assaltaram nunca te levaram, como levaram outros intelectuais, a sair de um PC que era um fiel amigo da União Soviética? Não te sentiste mal dentro do partido? 
— Se alguma vez me tivesse sentido mal, tinha saído, e se um dia me sentir mal, saio. As minhas discordâncias, que são sérias, e nalguns casos sobre pontos essenciais, não foram suficientes para abandonar o partido. Creio que por causa da força da minha própria convicção, e sem esforço. É o único partido onde a minha convicção está à vontade e tem suficiente resposta. 

— Não estarás como o homem que não ousa prescindir da ideia de Deus, ou de uma religião, porque tudo seria mais difícil? Não terás medo de ficar órfão? 
— Não, a minha convicção é compensada por um cepticismo sólido. 

— Dir-se-ia que nunca se pode levar a lucidez às últimas consequências ou o mundo tornar-se-ia um lugar insuportável? 
— Admitamos que essa minha lucidez me levava a retirar-me do partido, de certa maneira eu não tinha resolvido nada. Perguntas-me o que resolvo dentro dele e digo-te. Chego a uma relação em que, apesar das discordâncias, existe bastante harmonia entre o que penso e o que o partido, como projecto de sociedade, contém. Não tenho medo de perder a bengala, a referência, a missa laica, mas considero que o partido tem sido um agente de intervenção na vida do nosso país antes e depois de 25 de Abril, e pode ser um instrumento de transformação da sociedade portuguesa. Mas estou consciente das limitações do partido, sem falar das minhas, e das limitações que o actual estado de coisas europeu e mundial põe, a prazo, a repetir ou renovar uma tentativa que, eventualmente, poderia vir a falhar de novo. O que não posso aceitar, e isso é visceral, é que o capitalismo seja a solução dos problemas do homem. Criará grupos, estratos, camadas prósperas, e criará desfavorecidos, misérias, carências, porque vive à custa dessas misérias e carências. 

— Onde estavas no momento do golpe de Moscovo e que sentiste? Há quem diga que ficaste muito silencioso. 
— Pensei o que continuo a pensar. Eu estava longe, a 40 km de Lisboa, a terminar este livro [...]. As [minhas] declarações estão [nos] •jornais e são muito claras: condenação do golpe, desacordo total em relação à posição que o partido tomou. O que não me achei foi tão importante que viesse a Lisboa fazer declarações à imprensa, à rádio e à televisão. 

— Sendo um escritor que faz incursões no tempo, e no passado, que consciência tens do tempo, do teu tempo histórico? Não falo da passagem do tempo. 
— Sim, eu sei. Não tenho uma ideia nada científica ao dizer isto, como não a tive nas coisas que disse antes. Muitas vezes são intuições, outras são convicções, suposições... Agrada-me pensar que o tempo não é essa diacronia, essa sucessão de momentos, agrada-me pensar no tempo como uma espécie de imensa tela onde se projectam se fixam os acontecimentos. E como se eu visse os acontecimentos projetados numa superfície única, onde tudo estivesse ao lado de tudo, onde tinhas a batalha de Maratona e a chegada do homem à Lua, ou a Clara Ferreira Alves e a Lucrécia Bórgia [risos]. 

— Obrigada. O teu livro começa com uma descrição de uma gravura de Dürer da crucificação onde está contida essa ideia de que tudo está ao lado de tudo. E como se essa gravura ilustrasse a tua noção de tempo. Estás contente com o livro que escreveste, ou estás mais contente do que com outros livros? 
— Estou tão contente como o mais contente que estive e com certeza mais contente do que algumas vezes estive. Dir-te-ia mesmo que este livro me dá um contentamento maior do que qualquer dos outros. A aposta era mais alta e tenho a impressão de não a ter perdido. Não direi que a ganhei, mas acho que não a perdi. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Da militância comunista, do PCP, do comunismo

Ao longo da obra de João Céu e Silva, «Uma longa viagem com José Saramago», é abordada a temática que envolve a militância comunista, quer pela prática, junto do PCP, quer pela teoria, isto no seu pensamento implícito e explícito no seu compêndio literário produzido.



O antes... Saramago explica a João Céu e Silva

(...) Antes do 25 de Abril era militante do Partido Comunista Português desde 1969 e tinha a actividade normal daqueles tempos. Eu nunca passei para a clandestinidade porque não foi necessário, fiz aquilo que tinha que fazer, distribuir papéis, elaborar documentos, enfim, o comum e o normal da época. (...)

Se não tivesse acontecido o 25 de Abril, quatro dias depois seria preso!
Sim, a 29 de Abril estava determinado que eu seria preso. E a coisa acaba assim porque a partir daí já não tive mais patrão. 

Páginas 46 e 47
Edição Porto Editora

A menção da prisão, aparece também mencionada, na entrevista com Fernanda Eberstadt (New York Times) em que diz: "Eu tive sorte. Eu nunca fui preso. Muitas vezes isso poderia ter acontecido, mas os meus camaradas presos tiveram a coragem e a dignidade de não me denunciarem"

O seu posicionamento político e ideologia dificultam o chegar aos leitores ou, pelo contrário, tem facilitado?
Não sei, mas aí entram vário factores. Claro que eu penso aquilo que penso e sou aquilo que sou e do ponto de vista político, ideológico e filosófico isso está muito claro nos meus livros. Mas sem que eu tivesse de preocupar-me com frase de Engels - e o Engels não era qualquer pessoa! - há uma carta em que ele responde a uma jovem escritora que lhe pedia conselhos e em que diz: «Quanto menos se notar a ideologia melhor». Essa frase podia-me ser aplicada. Grande parte dos escritores politicamente empenhados nas ideias socialistas e comunistas, ou coisa que o valha, não leram esta frase ou se a leram não lhe deram importância nenhuma e em muitos casos, designadamente no chamado realismo socialista - onde também há grandes obras -. a ideologia nota-se de uma forma e quantidade que não é necessária.

É muito transparente?
É demasiado óbvio. E é tão óbvio que dá vontade de dizer: «Não faças isso. Não digas. Sugere.» A questão tem de estar lá, no poder de sugestão que a história tenha, que permita ao leitor ir mais além do que aquilo que parece estar dito, porque naquilo que está escrito há implícito uma quantidade de coisas a que o leitor, que é inteligente, é capaz de chegar por sua própria conta. (...)

Página 53
Edição Porto Editora