Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

"Los libros de la isla desierta: “Ensayo sobre la lucidez, de José Saramago’" de Óscar Hernández Campano, publicado em "Culturamas" (21/08/2018)

Los libros de la isla desierta: “Ensayo sobre la lucidez, de José Saramago’ 
de Óscar Hernández Campano, publicado em "Culturamas" (21/08/2018)

Pode ser consultado e recuperado aqui
em https://www.culturamas.es/blog/2018/08/21/los-libros-de-la-isla-desierta-ensayo-sobre-la-lucidez-de-jose-saramago/



"Cada pocos años tengo una cita con José Saramago. Desde que lo conocí en persona en la feria del libro de Madrid en 2003, regreso de vez en cuando a su prosa magnética para zambullirme en sus historias tan originales como profundas. Comencé con La caverna, a aquella fábula sobre la voracidad del capitalismo le siguieron otro títulos del portugués inmortal y no hace tanto, me adentré en la ceguera blanca que colma su extraordinario Ensayo sobre la ceguera. Obviamente le había de seguir este título que hoy comparto con vosotros y que me acompañará a la isla desierta. El Ensayo sobre la lucidez es, sin lugar a dudas, un texto que rezuma lucidez y clarividencia por los cuatro costados. Publicado en 2004 y con traducción de Pilar del Río, se adelantó el Nobel a la crisis económica y sobre todo a la revolución política que supuso el 15-M en España y otros movimientos paralelos, similares o parecidos en otros estados del mundo. Saramago parte, como siempre hace, de una forma magistral, sencilla e inteligente, de un supuesto plausible, o no, verosímil, al menos en el universo de la narración, al tiempo que increíble para este mundo en el que vivimos.

Fue un especialista el escritor afincado en Lanzarote de las premisas sorprendentes que se resumen en un: ¿Qué pasaría si…? Y eso es lo que plantea en este Ensayo sobre la lucidez. ¿Qué pasaría si la mayoría de la población votara en blanco? La respuesta, con idas y venidas, con salto de protagonista, con múltiples aristas, con un tono que pasa de la euforia al pesimismo, se desarrolla durante más de 300 páginas que pasan volando. El don de José Saramago era la capacidad de coger de la mano al lector y llevarlo a través de sus páginas, arrojarlo a la corriente de narración propia y peculiar del Nobel, para que llegue, de forma fluida y apacible, a un final abrupto, duro, estremecedor que, en página y media, sobre todo en unas líneas, abofetea al lector y le hace quedarse temblando y, sobre todo, le obliga a reflexionar sobre todo lo que ha propuesto el narrador, que poco no ha sido.

Pues bien, en la capital portuguesa, las elecciones municipales dan como resultado un voto en blanco de las tres cuartas partes del censo. El Gobierno, de derechas, seguido por el partido del medio, y de lejos por el de izquierda, este último intentando hacer suyo el voto de protesta, decide repetir las elecciones. Es que llovía a cántaros, la gente  no lo tenía claro, esto no puede ser. Así que se repiten y la participación masiva, en una soleada jornada electoral, da como resultado que el 83% de los votantes han depositado en las urnas votos en blanco. El Gobierno, noqueado por el resultado y sin precedentes a los que agarrarse, declara el estado de sitio, evacúa los poderes del Estado de la capital, ordena a la policía y al ejército que abandonen la ciudad y la rodea militarmente, a la espera de que la anarquía y el caos purguen y castiguen a la indisciplinada Lisboa. Sin embargo, nada de eso sucede. La ciudad se organiza y vive con calma la nueva situación. No obstante, los gobernantes, temiendo que la revolución se extienda por el país y sospechando que un grupo está detrás de lo que califican como un ataque a la democracia, tomarán cartas en el asunto.

José Saramago nos plantea cuestiones trascendentales en esta novela. ¿Hasta qué punto la ciudadanía ha sido domesticada por el sistema? ¿Cómo reaccionarían los gobiernos ante una situación, pacífica y democrática, que altera el juego de los partidos políticos? ¿Qué harían los políticos para volver al status quo previo? ¿Seríamos los ciudadanos capaces de organizarnos para recuperar el poder político que nos corresponde?

La novela, llena de matices, críticas más o menos veladas y personajes, nuevos y ya conocidos, que se nos antojan no sólo verosímiles, sino cercanos y llenos de sentimientos, pasiones e ideas humanas, se apodera de nuestros sentidos y nuestra mente para hacernos partícipes de la revolución democrática que vive la capital portuguesa (a la que sus políticos le roban la capitalidad del Estado por disoluta y rebelde). Saramago nos dice que el voto es sagrado, que es poderoso, que el sistema democrático se sustenta en el derecho a la libertad de expresión, de ideología, de prensa, de pensamiento y, por supuesto, a votar lo que consideremos oportuno. ¿Por qué si el 83% vota a un partido el resultado es legítimo y si lo hace en blanco es porque hay una conspiración detrás?

Dentro de un tiempo regresaré a mi cita con el maestro José Saramago y me adentraré en una nueva propuesta tan fantástica como realista, pero, sobre todo, lúcida."

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"José Saramago combate 'cegueira' com votos em branco" - Entrevista de Cassiano Elex Machado (Folha de São Paulo, 2004)

"José Saramago combate "cegueira" com votos em branco"
de Cassiano Elex Machado
Folha de São Paulo, em 22/03/2004

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em, http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u42623.shtml

Capa da edição da editora brasileira "Companhia das Letras"

Pode ser consultado aqui

"No seu universo literário sem interrogações ou exclamações, José Saramago imprime com freqüência uma mesma pontuação invisível: não vemos as coisas como elas são. É um arco que vai da cegueira "explícita" de "Ensaio sobre a Cegueira" até a visão viciada dos personagens de "A Caverna", que vivem apalpando as sombras da realidade.

De repente, é como se as criaturas do Nobel de Literatura tivessem por fim seus estalos. No seu novo romance, "Ensaio sobre a Lucidez" (seu 11º), que a Companhia das Letras lança nesta semana, o escritor português de 81 anos dá a rara chance de seus personagens de reagirem.

Na sua nova alegoria, Saramago arquiteta uma população que resolve votar quase toda em branco. Na capital de um país sem nome (no qual as pessoas igualmente nome não têm), 83% dos eleitores depositam seus votos na urna sem "xis" algum. Tal qual Gandhi, pai da resistência pacífica, "derrubam" o poder usando o branco.

A metáfora canina (mais uma) "uivemos, disse o cão", com suas quatro e compactas palavras, dá o tom do livro, como explica o próprio autor, em entrevista por e-mail à Folha de S.Paulo (que teve outros trechos publicados no sábado). Saiba a seguir por quê.

Folha de S.Paulo - De quem é a frase "Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos: Quem assinou isto por mim"?
José Saramago - É minha. Ou não se pensa que eu seja capaz de produzir uma frase assim? E digo mais: essa frase resume todo o livro. Sem esquecer da epígrafe: "Uivemos, disse o cão". Os cães somos nós. É hora de começar a uivar.

Folha de S.Paulo - Por que, em um universo de sem-nomes, tem nome somente o cachorro que lambe as lágrimas dos outros? Por que é "imaterial" o cenário do romance?
Saramago - O cão viaja nos meus livros desde "Levantado do Chão", e o nome Constante que lhe dei é a homenagem de um humano a um canino. Sobre a "imaterialidade" do cenário, limito-me a dizer que a impressão sumiria se as personagens e as ruas tivessem nome, se tudo pudesse ser colocado em categorias. O leitor compreenderá que o que ali se passa tem a ver diretamente com ele, precisamente por parecer não ter nada a ver com o que quer que seja. Espero ter sido claro.

Folha de S.Paulo - Em palestra recente, o sr. criticou a falta de reflexão da nossa sociedade, que segue vivendo de espetáculos, de pães e circos. Qual a saída da "caverna"?
Saramago - Dizia que estamos a repetir o que Juvenal escreveu numa de suas sátiras, "Panem et Circenses", isto é, pão e divertimento, pão suficiente para que não protestemos demasiado e divertimento tanto e tanto que nos salte pela boca e pelos ouvidos. Provavelmente morreremos de uma indigestão de divertimento... Manipulados, desinformados, enganados, mas bestialmente divertidos.

Folha de S.Paulo - O sr. já havia falado em uma "trilogia involuntária", ao se referir à relação de "A Caverna" com os dois livros anteriores. Com "Ensaio" o sr. chega a uma "tetralogia involuntária"?
Saramago - A trilogia começou por ser involuntária, isto é, não pensada antes. Também não se tornou voluntária, no sentido de corresponder a algo deliberado e planificado. As ideias surgem quando surgem, valem o que valem, e os livros vão aparecendo. Há um nexo entre eles, evidentemente, mas recuso-me a usar palavras como trilogia, tetralogia ou pentalogia... A expressão caiu no gosto dos jornalistas, por isso voltam sempre a referi-la. Deixemo-la, não merece tanto.

Folha de S.Paulo - Em livros como "Todos os Nomes", o sr. já relatou o processo de uma investigação. Na "segunda parte" de "Ensaio sobre a Lucidez", porém, essa busca se aproxima dos contornos da clássica literatura policial. Como o sr. se sentiu ao fazer essa incursão ao quase policial?
Saramago - Não se tratou propriamente de uma incursão ao policial. Sendo a história o que é, havendo um governo com a sua autoridade e as suas polícias, havendo uma insurreição cívica, era natural que o desenvolvimento fosse por aí. Mas não é policial tudo o que o parece. É policial "Crime e Castigo", de Dostoiévski?

Folha de S.Paulo - Como anda seu projeto de "policial" sobre Alexandre Dumas?
Saramago - Dentro de algumas semanas regressarei ao projeto.

Folha de S.Paulo - Por que o sr. já disse que "Ensaio..." é o seu testamento?
Saramago - Não penso em morrer nestes próximos dias. Se chamei testamento ao "Ensaio sobre a Lucidez" foi por nele ter escrito algumas coisas que nunca havia dito antes. Quando terminei o "Ensaio sobre a Cegueira" também me recordo de dizer: "Agora já posso morrer". Como se vê, não morri. Ainda."

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras

domingo, 27 de setembro de 2015

"El voto en blanco" de Miguel Koleff publicado no HoyDía Córdoba (Argentina - 24/09/2015)

Baseado no romance de José Saramago "Ensaio sobre a Lucidez", e que pode ser consultado, aqui em http://www.hoydia.com.ar/magazine/9618-el-voto-en-blanco

«…que pesaba mucho más como ausencia» (Adriana Lisboa)
por Miguel Koleff
Especial para HDC

"Transitamos jornadas electorales, de modo que no viene nada mal pararnos un minuto para pensar en lo que realmente significa el derecho de votar. Nos han enseñado que a través del sufragio contribuimos –de manera soberana- a elegir nuestras autoridades. La ley nos impone esa obligación al tiempo que ratifica un derecho. Es cierto que también prevé la posibilidad de introducir un sobre vacío si no nos identificamos con los partidos en pugna. Sin embargo el voto en blanco –de él estamos hablando- no goza de mucha simpatía en general. Incluso, se lo homologa a una falta de coraje ciudadano. Si uno confiesa abiertamente esa opción, a la salida de un comicio, puede ser tildado de irresponsable y genuflexo cuando no de traidor y poco comprometido con las instituciones. Pesa un mal irremediable sobre este ejercicio de libertad que es tan lícito como el voto efectivo. Saramago no se salvó de ese estigma cuando en el año 2004 publicó “Ensayo sobre la lucidez” y llevó el tópico a la ficción, ya que los medios oficiales de entonces –envalentonados como estaban contra su persona- rápidamente lo fustigaron acusándolo de anarquista, antidemócrata, e instigador de actos de rebelión al orden constitucional.  Nada más desacertado que todo eso. La sutil ironía saramaguiana pasaba y pasa todavía, por un costado ignorado que es difícil de asumir con idoneidad: la capacidad de decir «no» a un orden de cosas que conspira contra los propios principios.

La novela en cuestión se concentra en las elecciones municipales de una capital en la que la mayoría de los habitantes se inclina por el voto en blanco, superando el 73% en la primera vuelta y el 80% en la segunda. Son circunstancias imprevistas ante las cuales el poder de turno se rinde por el atenazamiento de la gobernabilidad puesta en discusión. Ahora bien, antes de hipotetizar sobre el curso de los acontecimientos narrativos, es oportuno preguntarse qué pasa en realidad cuando se apela a ese recurso en una convocatoria cívica en lugar de escoger la abstención. O sea, ¿qué se quiere expresar en ese acto? Por lo pronto, un rechazo voluntario a una o a más opciones que se presentan y que no se adecuan ni al pensamiento ni a la ideología ni tampoco a la escala de valores y credibilidad de quien lo hace carne. Hay que decir –en este sentido-  que, a través de esa acción, el votante  está sincerando un punto de vista y actuando en consecuencia. Está también cumpliendo un deber cívico y ejerciendo el derecho que le es concomitante. Algo muy distinto de lo que supone negarse a votar, ignorar los comicios o anular un voto manipulando contra él. 

Si nos tomáramos un poquito de tiempo y analizáramos esta cuestión con diligencia veríamos que la opción traída a colación no es desdeñable, pero para ello hay que desnaturalizar el sesgo de tibieza que se le imprime y, sobre todo, arremeter contra su destino de ignominia. Lo podemos hacer, extrapolando los contextos y considerando una situación diferente de la electoral. Por ejemplo, es un buen recurso para sentar nuestra perspectiva y hacerlo sin violencia manifiesta cuando nos sentimos ninguneados: se está por cortar una torta a la que tenemos derecho pero no fuimos invitados al ágape. En lugar de reclamar, hipostasiar, juzgar o estereotipar al enemigo, podemos «votar en blanco», esto es, no asentir con el procedimiento de exclusión y hacerlo saber, sin propiciar una desbandada. La declaración de ausencia vale por lo que pesa y evita la indigestión. La metáfora del color blanco –sin que implique la idea de rendición a la que se suele asociar- tiene alguna fuerza expeditiva en este marco. No ofende ni afrenta abiertamente, pero protege y efectiviza de manera explícita el desacuerdo. Nos hace saber a nosotros y también a nuestros interlocutores que el juego se está realizando por fuera del tablero y que las posiciones están lejos de llegar a un consenso. Puede tener efectos inmediatos o no pero a la larga instalan legitimidad por la omisión. Es un vacío que llena fácilmente las entrelíneas. 

Una lectura más profunda del texto de Saramago permite avanzar en esta dirección al remarcar –en todo momento- la responsabilidad del acto, en primer lugar, y la autodeterminación, en segunda instancia. Viendo las cosas desde este prisma hasta puede tratarse de una acción noble y digna de alguien que sabe lo que está haciendo y por qué lo hace, diferente de aquella dictada por el oportunismo político de ocasión. No estamos obligados de manera ninguna a comulgar con proyectos que nos resultan ajenos e incluso atentatorios a nuestra identidad cívica.

Por el contrario, tan responsable y vehemente puede ser el acto de votar en blanco en una elección o en otra situación particular de la vida, que despierta la intolerancia acallada de muchos co-partícipes. Y si no, veamos lo que pasa en la novela de Saramago. en la que el gobierno opta por acusar a la población de practicar un crimen contra la democracia en lugar de hacer un examen de consciencia sobre las eventuales causas que llevaron a esa situación. Y –además- le hace pagar caro el error, imputándole responsabilidades que le exceden. El atentado terrorista auto-gestado en la estación de metro a raíz de una bomba colocada en las inmediaciones es una muestra. Y la elección de un chivo expiatorio, el pathos que lo demuestra, ya que sin la construcción de un culpable es imposible garantizar el orden y restituir el control. Por este motivo, la «mujer del médico» es elegida como carnada y víctima propiciatoria, acusada de ser la líder intelectual de la revuelta cívica. Este personaje, recuperado de una novela anterior (“Ensayo sobre la ceguera”, 1995) no padeció la ceguera blanca que infligió a todos los habitantes de la misma ciudad cuatro años antes de estos sucesos. La identidad  del color –de la ceguera y de los votos- funciona como una buena coartada para hacer justicia por manos propias. El juego saramaguiano, como vemos, se direcciona hacia una fórmula que invierte el sentido común: 

«El voto en blanco es una manifestación de ceguera tan destructiva como la otra, O de lucidez, dijo el ministro de justicia, Qué, preguntó el ministro del interior, que creyó haber oído mal, Dije que el voto en blanco puede ser apreciado como una manifestación de lucidez por parte de quien lo usó». (Saramago, 2004, p. 172) 

Aun puesta en boca de un personaje secundario, la alocución del ministro de justicia dice mucho más de lo que sus detractores quieren que diga. Y el autor portugués se encarga de ratificar estas palabras al afirmar el poder de pronunciamiento del colectivo a través de su lábil gesto de resistencia." 

"Fuentes Consultadas:  
Saramago, J. (2004) 
Ensaio sobre a lucidez. São Paulo: Companhia das Letras. 
Traducción al español de Alfaguara."

sexta-feira, 6 de março de 2015

Texto "Indignado" - Feira do Livro de Bogotá (Colômbia) - Apresentação da obra "Ensaio sobre a Cegueira" Novembro de 2004

Recuperação do texto publicado na revista "Blimunda" #10, de Março de 2013

"Em novembro de 2004 José Saramago visitou a Biblioteca Luís Ángel Arango, de Bogotá, para uma conversa com Jorge Orlando Melo, director da Biblioteca, a propósito do livro Ensaio sobre a Lucidez. No mês que antecede o início da Feira do Livro de Bogotá, que terá Portugal como país convidado, parte dessa conversa é agora publicada na Blimunda."

(José Saramago durante a "Feria Internacional del Libro" em Bogotá, Colômbia)

"A conclusão é muito fácil: os políticos preferem a abstenção ao voto em branco. Com a abstenção viveram sempre e encontraram uma forma de a justificar: pela chuva, pelo sol, pela praia, pela gripe, pela doença, ou simplesmente porque à pessoa não lhe apeteceu votar. Não é o mesmo que 40% de eleitores tenham intenção de votar e, porque as propostas existentes não lhes interessam, decidem votar em branco. 
Penso que não se pode dizer, com toda a ligeireza do mundo, que vivemos em democracia quando essa democracia não dispõe de meios nem de qualquer instrumento para controlar ou para impedir os abusos do poder económico. 
Acima daquilo a que chamamos o poder político há outro poder não democrático, o económico, que a partir de cima determina a vida do outro poder que está por baixo. 
Ao FMI manobram-no representantes das cinco grandes potência do mundo. Por isso para os outros países não há nada a fazer: ou se submetem, aceitam as condições, ou então fecha-se-lhes a torneira.
Isto parece-me muito claro e dou-vos um exemplo. Houve um tempo em que toda a ambição, a ilusão de um governo que se prometia aos cidadãos era o que se chamava então de pleno emprego, o que significaria emprego para toda a gente e para toda a vida. Era um ideal inalcançável, mas pelo menos falava-se disso. Em 20 anos, ou até em menos tempo, passámos do pleno emprego para a realidade brutal do emprego precário, a que eufemisticamente chamo mobilidade social. Como é que isto aconteceu? 
No fundo, é como um exercício de prestidigitação assombrosa, pelo meio do qual o poder económico, muito respeitado, fez saber aos governos que precisamos de ter as mãos livres, que se temos de encerrar umas fábricas, pois que as cerremos e não peçamos contas, levamo-las para outro país onde os salários são mais baixos e onde os horários de trabalho não têm limite. Então, como uma ordem que cai do céu, pouco a pouco, sem nos darmos conta, passamos ao emprego precário. Isto fez-se de maneira tal que já ninguém recorda, ou comportamo-nos como se não nos recordássemos de que houve um tempo, não tão distante assim, em que se falava de emprego para toda a gente. 
Agora vivemos nisto. Empresas que contratam trabalhadores por uma hora, aquilo a que em Espanha se chama contrato-lixo. O pior de tudo é que é como se nos tivessem arrancado um dente com anestesia. Arrancaram o dente, não sofremos nada, mas agora sentimos que há um vazio que é a preocupação, o medo de perder o trabalho. Isso é o que chamamos de democracia. É uma fachada. Não quero dizer que por trás dessa fachada não exista nada, pois todos os dias se constrói, todos os dias se tenta e todos os dias algo se consegue, mas não no fundamental, que constitui o velho e permanente problema: o poder. Quem detém o poder, como chegou ao poder, para que fim o tem, e o que há que aceitar, porque é uma evidência que os governos se transformaram nos comissários políticos do poder económico, o concubinato entre o poder político e o poder económico existe desde sempre. Creio que a democracia é o menos mau de todos os sistemas políticos, mas poderíamos reinventá-la, e para isto apenas se requer que lhe demos os meios adequados, que são as convicções dos cidadãos, a capacidade de intervenção de cada um de nós para que a democracia, simplesmente, seja como deve ser, e a verdade é que não o é.
Neste livro há uma frase que, no fundo, resume o romance, condensa-o, concentra-o em pouquíssimas palavras: «Quando nascemos é como se assinássemos um pacto para toda a vida, mas pode chegar o momento em que nos perguntemos quem é que assinou isto por mim». Creio que isso nos acontece. A Saulo, que perseguia os cristãos, de repente aparece-lhe uma luz imensa, cai do cavalo e escuta uma voz que diz: «Por que me persegues, Saulo?». E aí converteu-se. Claro que não aspiro a tanto, não sou tão ingénuo a ponto de poder dizer que com esta frase mudei o mundo, mas vai chegar o dia em que perguntaremos quem é que assinou isto por mim e não se ouvirá uma voz que diga por que me persegues, mas talvez possamos dizer-nos uns aos outros «óptimo, andamos a pensar nisso». 
Há uns anos reuniram-se dez escritores e filósofos para debater algo tão interessante e ao mesmo tempo tão inútil como apresentar dez propostas para o milénio, como se o milénio estivesse preocupado com as propostas, e eu era um deles. Todos tomaram o tema proposto de forma séria e apresentaram propostas para o milénio, evidentes quase todas, e eu, que sou muito mais consciente das minhas próprias limitações, propus regressar a essa coisa tão simples, tão estupenda, tão magnífica, tão deslumbrante, que é o pensamento. Pensar, regressar à filosofia. 
Agora mesmo, em todo o mundo estão a realizar-se milhares de congressos, milhares de mesas redondas, milhares de simpósios, e posso assegurar, sem medo de me equivocar, que há uma única coisa que não se está a discutir: a democracia. É como se fosse um dado descoberto de uma vez por todas e para sempre, e portanto sobre ele não vale a pena falar e eu digo que, pelo contrário, sim, vale a pena, falar interminavelmente, pensar, reflectir, discutir com os nossos entes mais próximos, clarificar coisas. Nós vivemos no que se pode chamar hoje, sem nenhum exagero, um deserto de ideias; não há ideias, não há ideias novas, não há ideias que mobilizem, não há ideias que façam levantar as pessoas da sua resignação, parece que todos nos resignámos a uma espécie de fatalidade que não aceita mudanças. Mas as ideias tão-pouco nascem assim do nada, é a própria sociedade a que tem de gerá-las e, quando tal ocorrer, começaremos a ter alguma coisa. 
Se a vida privada acabou de alguma forma, a consciência privada, para usar o mesmo termo técnico, sofreu um atentado semelhante. A liberdade, e agora falo da liberdade de consciência, por vezes arrisca-se a converter-se em algo utópico, com muito pouco conteúdo. 
Tivemos liberdade para torturar, para matar, para assassinar, e tivemos liberdade para lutar, para ir em frente, para tentar manter a dignidade. É aterrador o uso que se pode fazer de uma palavra. O importante é que exista a presença de um sentido de responsabilidade cívica, de dignidade pessoal, de respeito colectivo; se se mantém, se se constrói, se não se aceita cair na resignação, na apatia, na indiferença, isto pode ser uma semente para que algo mude. 
O que vai provocar a palavra semente? Algo que amanhã dará flores e frutos. Acredito muito que, se houver debate, é possível mudar as coisas, mas não podemos limitar-nos a esse debate que por vezes aparece nos meios de comunicação, que é uma coisa entre uma determinada família de comunicadores, de jornalistas, de políticos também, que no fundo manipulam os conceitos, como temos visto, como é claro para todo o mundo. Enquanto não ser puder mudar o que está por cima (o poder económico), vai ser muito difícil. 
Hoje, quando passámos ao lado de um cemitério de Bogotá, falava com a minha mulher sobre o epitáfio que escreveria na lápide, supondo que os restos ficassem ali, e então disse que poria «Indignado». E realmente digo indignado por dois motivos: um pessoal e o outro egoísta. Indignado por estar morto, não há direito, realmente, e o outro, pior, indignado por ter passado pela vida e não ter podido mudá-la. Isto é terrível." 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Aristóteles - do seu tratado sobre a Política

Na senda da explicação do valor original e substantivo da "palavra", Saramago nesta conferência caminha a passos largos para trazer a "política" e "democracia" à baila, num processo demonstrativo e metamorfoseado destes conceitos.
Talvez, e tomando por certa esta ideia, desde que o homem é um ser colectivo, também o é enquanto ser político, nas decisões do quotidiano, na gestão da sociedade em que se insere, isto, de forma mais ou menos organizada. Aqui entra a alusão à ideia de Aristóteles, no seu tratado "Política".
Sendo um aspecto que José Saramago, de forma mais implícita ou explícita, com palavras directas ou inserindo-as numa alegoria, o vinha demonstrando.

Na obra "Ensaio sobre a Lucidez", talvez o testemunho mais ético e político de Saramago, a "democracia" é colocada em vários patamares. A democracia de quem vota em branco. A democracia de quem não aceita os resultados do duplo sufrágio. A democracia dos "governantes" que abandonam a capital. A democracia da conspiração do qual resulta a detonação de uma bomba e consequências que daí advém. A democracia do insubordinado Presidente da Câmara perante a linha oficial do partido/governo. E por último, a democracia dos que abatem o "Cão das Lágrimas" e a "Mulher do Médico".
Estas "democracias", ou "A Democracia" em diferentes patamares, são o motivo da reflexão sobre o peso e significado das palavras. A política aristotélica, com mais de dois mil anos, sendo um elemento reflexivo, não tem a mesma repercussão na governação dos povos nos dias que correm. A representação dos povos pobres em Aristóteles, hoje é suplantada pela artificial implementação de um estado social, mínimo e exíguo, para comportar os mais desfavorecidos.
Atente-se, então na transcrição das palavras de José Saramago.


"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada..."

(...) Aristóteles - embora nunca tenha estudado na universidade, li Aristóteles - dizia no seu tratado de "Política" que um governo realmente democrático deveria necessariamente, por lógica matemática, por pura aritmética, integrar no seu seio mais pobres que ricos porque, dizia ele "os pobre são mais que os ricos", logo, se o governo da "polis" tem, por exemplo, vinte pessoas, dezassete teria de ser pobres e os três restantes ricos.
Acrescentava Aristóteles que não é que os ricos não devam estar representados no governo da "polis", claro que sim, mas em proporção justa. Esta ideia utópica, uma entre tantas, tem dois mil e tal anos, foi enunciada por um senhor que viveu na Grécia e que continuamos a considerar um mestre. E colocou, preto no branco, esta afirmação revolucionária, nunca realizada e que provavelmente jamais será levada a cabo. Claro que o que estava implícito, ainda que Aristóteles não o tenha dito, era que devia existir um partido de pobres, mas talvez não tenha falado disso porque se deu conta de que um partido de pobres não tem muito para prometer, e se não promete não ganha as eleições. (...)

em, "Democracia e Universidade"
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 27 e 28
Conferência realizada na Universidade Complutense de Madri em 2005


"Abro com duas citações de Aristóteles, ambas extraídas da "Política". A primeira delas, curta, sintética, diz-nos que "em democracia, os pobre são soberanos, com exclusão dos ricos, porque são eles o maio número, e porque a vontade da maioria é lei". (...) Eis o que nos diz a citação segunda: "A igualdade (no estado) pede que os pobres não tenham mais poder que os ricos, que não sejam eles os únicos soberanos, mas que o sejam todos na proporção do número existente de uns e outros. Este parece ser o meio de garantir ao Estado, eficazmente, a igualdade e liberdade". (...)
(...) Não resisto a recordar-vos, sofrendo com a minha própria ironia, que, para o discípulo de Platão, o Estado era a forma superior da moralidade... (...)

em, "Verdade e Ilusão Democrática
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 59 e 60
Conferência em Santiago do Chile, abril de 2003
"Las Conferencias de la moneda"
Aqui, link http://www.josesaramago.org/democracia-e-universidade-2010/



Aristóteles, segundo Wikipédia, aqui em http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristóteles
Aristóteles (em grego antigo: Ἀριστοτέλης, transl. Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Em 343 a.C. torna-se tutor de Alexandre da Macedónia, na época com treze anos de idade, que será o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em 335 a.C. Alexandre assume o trono e Aristóteles volta para Atenas, onde funda o Liceu.
Aristóteles era natural de Estagira, na Trácia, sendo filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Filipe II. É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e fisiologia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remontava há dez gerações.
Segundo a compilação bizantina Suda, Aristóteles era descendente de Nicômaco, filho de Macaão, filho de Esculápio.
Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela academia platônica e nela permaneceu vinte anos, até a morte de Platão, no primeiro ano da 108a olimpíada (348 a.C.).
Em 347 com a morte de Platão, a direção da Academia passa a Espeusipo que começou a dar ao estudo acadêmico da filosofia um viés matemático que Aristóteles (segundo opinião geral, um não-matemático) considerou inadequado, assim Aristóteles deixa Atenas e se dirige, provavelmente, primeiro a Atarneu convidado pelo tirano Hérmias e em seguida a Assos, cidade que fora doada pelo tirano aos platônicos Erasto e Corisco, pelas boas leis que lhe haviam preparado e que obtiveram grande sucesso.
Durante 347 a.C e 345 a.C, dirige uma escola em Assos, junto com Xenócrates, Erasto e Corisco e depois em 345/344 a.C. conhece Teofrasto e com sua colaboração dirige uma escola em Mitilene, na ilha de Lesbos e lá se casa com Pítias, neta de Hérmias , com quem teve uma filha, também chamada Pítias e Nicômaco. Em 343/342 a.C Filipe II escolhe Aristóteles como educador de seu filho Alexandre, então com treze anos, por intercessão de Hérmias.
Pouco se sabe sobre o período da vida de Aristóteles entre 341 a.C e 335 a.C, ainda que se questiona o período de tempo da tutela de Alexandre, alguns estimam em apenas dois ou três anos e outros em sete ou oito anos.
Em 335 a.C. Aristóteles funda sua própria escola em Atenas, em uma área de exercício público dedicado ao deus Apolo Lykeios, daí o nome Liceu. Os filiados da escola de Aristóteles mais tarde foram chamados de peripatéticos. Os membros do Liceu realizavam pesquisas em uma ampla gama de assuntos, os quais eram de interesse do próprio Aristóteles: botânica, biologia, lógica, música, matemática, astronomia, medicina, cosmologia, física, história da filosofia, metafísica, psicologia, ética, teologia, retórica, história política, do governo e da teoria política, retórica e as artes. Em todas essas áreas, o Liceu coletou manuscritos e assim, de acordo com alguns relatos antigos, se criou a primeira grande biblioteca da antiguidade.
Em 323 a.C, morre Alexandre e em Atenas começa uma forte reação antimacedônica, em 654 a.C. por causa de sua ligação com Alexandre, Aristóteles foge de Atenas e se dirige a Cálcides, onde sua mãe tinha uma casa, explicando, "Eu não vou permitir que os atenienses pequem duas vezes contra a filosofia" uma referência ao julgamento de Sócrates em Atenas. Ele morreu em Cálcis, na ilha Eubeia de causas naturais naquele ano.1 Aristóteles nomeou como chefe executivo seu aluno Antípatro e deixou um testamento em que pediu para ser enterrado ao lado de sua esposa.
Política - A política aristotélica é essencialmente unida à moral, porque o fim último do estado é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. O estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual, e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. A política, contudo, é distinta da moral, porquanto esta tem como objetivo o indivíduo, aquela a coletividade. A ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política, de que acima se falou.
Em Ética a Nicômaco Aristóteles descreve o assunto como ciência política, que ele caracteriza como a ciência mais confiável. Ela prescreve quais as ciências são estudadas na cidade-estado, e os outros - como a ciência militar, gestão doméstica e retórica - caem sob a sua autoridade. Desde que rege as outras ciências práticas, suas extremidades servem como meios para o seu fim, que é nada mais nada menos do que o bem humano.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Saramago e a temática do "voto em branco" 22 de Abril de 1975 até 2004


Caminho
Os Apontamentos - Crónicas políticas
2.ª Edição - Abril 1990

O branco em discussão
22 de Abril de 1975

Este branco que se discute não é o vinho a que esse nome damos, nem é já (felizmente) o português que por terras coloniais andava como colonizador e opressor. O motivo da polémica que, em todos os tons, lavra de Norte a Sul do País é o denominado voto em branco. Dizem uns (di-lo também a Comissão Nacional de Eleições) que o voto em branco é a resposta cívica daqueles eleitores que, conscientes do seu dever de votar, estão igualmente conscientes de que o esclarecimento político colhido ao longo deste ano não foi, afinal, tão claro como todos desejaríamos. Replicam outros que aconselhar o voto em branco (naquele caso) é pouco menos que insultar o eleitor, e que os 365 dias decorridos foram bastantes e sobejantes para que um povo que nunca exerceu a política se transformasse em perspicaz aferidor destes nada menos que doze partidos concorrentes.
Se traçássemos um risco vertical na página e escrevêssemos de um lado e do outro, isto é, à esquerda e à direita, os partidos, grupos e movimentos que preconizam ou não o voto em branco para o eleitor indeciso, veríamos que, com pouquíssimas excepções, a distribuição se faria segundo (precisamente) a tradicional divisão entre direita e esquerda, englobando a primeira o centro, como na prática política é uso acontecer. Aliás, ao longo destas últimas semanas não houve quem não dissesse o que pensava sobre o assunto, com maior ou menor sobriedade e em alguns casos com tanta exaltação que faz pensar serem mais importantes, no  entendimento de alguns, os votos em branco do que os assinalados com a cruzinha recomendada.
Quanto a nós, toda esta questão assenta num equívoco propositado e que propositadamente se disfarça. Tudo se resume à contabilidade dos votos, à cegueira, à obsessão de querer ter mais votos do que o vizinho, parceiro ou inimigo, mesmo que isso se consiga à custa das angústias do eleitor inseguro, muitas centenas de milhares de vezes analfabeto, no interior da guarita e perante um papel impresso que é, para tanta gente, uma charada indecifrável. Em tudo se admite que uma pessoa interrogada responda «não sei», e isto é honesto e respeitável. Mas, quando se trata de votar, há quem pense que esta resposta não deveria ser permitida... Provavelmente, esse tão categórico cidadão ficaria indignado se, procurando orientar-se em lugar desconhecido, recebesse uma indicação de acaso da parte de alguém que não tivesse a coragem ou a simples honradez de dizer «não sei»... Não faltariam aí protestos contra a falta de civismo do mau encaminhador.
É preciso que fique esclarecido que o voto em branco ou inutilizado com um traço também é voto. É voto que deve merecer tanto respeito como aquele que se exprime firmemente por uma opção partidária. O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma. O voto em branco é uma forma de protestar contra quarenta e oito anos de fascismo que, eles sim, são os verdadeiros responsáveis por esta discussão tão pouco clara, em que se procura pescar votos como em águas turvas se pescam peixes cegos...


É deveras interessante, observar e interpretar o contexto em que uma crónica, realizada em condições num país em urgência civil, acabado de sair de meio século de fascismo, que dominou um povo pobre e com recursos de todas as ordens nada abundantes.
Este povo, saído da guerra colonial e do abismo fascista, acorda num outro abismo. Decidir autonomamente, por si e para os seus, com todas as vicissitudes que os supostos novos ventos de liberdade e democracia poderiam trazer.
Nesta crónica, realço a interpretação do que era aos olhos de Saramago o valor do voto em branco. Tão legitimo como o voto partidário ou o nulo, este será também a expressão de um sinal ou sentimento - «O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma.» 
O "Ensaio sobre a Lucidez", aborda o mesmo voto em branco. 30 anos depois, da crónica publicada no Diário de Notícias, e compilada no livro de Crónicas Políticas - Os Apontamentos, o romance transmite uma outra perspectiva do acto - Ir, votar, mas de forma supostamente diferente, não previsível.
Aqui, colectivamente, o povo de uma capital decide votar maioritariamente em branco. Não é o "Eu", que pode querer votar como um acto de democracia e de direitos conquistados, mas o "Povo", como entidade colectiva que toma uma atitude contra o sistema instituído. 
Em "O Ensaio sobre a Lucidez", a história mostrará o acto colectivo (do povo), que o confirma em novo acto eleitoral, e um Governos com as suas estruturas de decisão que julgam, tal qual um tribunal de costumes, abandonar a capital e deixar a população à sua mercê.
Esta população que votou em consciência, abandona e liberta-se do sistema de poder instituído, ao permanecer na capital. A fuga dos governantes torna-se no momento épico das consequências do voto em branco.


Caminho - 2004 - 2.ª edição
Informação à obra, no sita da Fundação José Saramago - Bibliografia activa - aqui http://www.josesaramago.org/ensaio-sobre-lucidez-2004/

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%. Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar.Ensaio sobre a Lucidez, o romance mais recente de José Saramago, constitui uma representação realista e dramática da grande questão das democracias no mundo de hoje: serão elas verdadeiramente democráticas? Representarão nelas os cidadãos, os eleitores, um papel real, e não apenas meramente formal?