Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 28 de julho de 2017

'Precisamos de ideias dos intelectuais para a sociedade', diz Pilar del Río na Flip (via Estadão 27/07/2017)

A notícia foi publicada por Guilherme Sobota - "O Estado de S. Paulo" em 27 Julho 2017 e pode ser recuperada aqui

"Pilar del Río em Paraty, nesta quinta-feira, 27 
Foto: Guilherme Sobota/Estadão"

"Jornalista espanhola e presidente da Fundação José Saramago ainda ironizou que os pensadores capazes não podem ficar especulando sobre o 'gerúndio'"

"PARATY - Conhecida também por sua postura firma na defesa dos direitos humanos frente à Fundação José Saramago, a jornalista espanhola Pilar del Río cobrou, em coletiva de imprensa na Flip, de pensadores e intelectuais ideias para que a sociedade global consiga sair das crises em que se meteu. “De quem virão as ideias? Dos partidos políticos? Não, precisamos das universidades, dos pensadores, criadores, intelectuais, dos aristocratas da sociedade, que não são os que têm dinheiro, mas o que têm ideias”, comentou. "Os intelectuais capazes disso não podem ficar pensando no 'gerúndio'", ironizou.

Pilar falou a jornalistas na manhã desta quinta-feira, 27. Ela participa de uma mesa na programação oficial nesta sexta-feira, 28, às 17h15, com mediação do escritor Alexandre Vidal Porto.

Ela falou também sobre o trabalho da Fundação José Saramago. “Há milhões de seres humanos que são excluídos do presente e do futuro, e talvez tenha sido nós (pensadores e intelectuais) que permitimos que isso tenha acontecido. Talvez não tenhamos cumprido com nossa obrigação quanto ao futuro.” A Fundação tem um trabalho permanente de resgate da Declaração Universal de Deveres Humanos, proposta formulada por Saramago para o discurso do Prêmio Nobel, em 1998.

Pilar está em Paraty também por conta da parceria com a Fundação Casa de Jorge Amado. Um livro, Jorge Amado e José Saramago - Com o Mar Por Meio, com a troca de cartas entre os dois foi lançado e uma Casa em Paraty foi montada para receber programação e celebrar a obra de ambos. “Fico muito feliz que esses dois autores, conhecidos por seu respeito à diversidade e às mulheres, tenham sido incluídos na programação institucional dessa Flip que relembra Lima Barreto”, comentou."


sábado, 13 de agosto de 2016

"Pilar del Río diz estar no Brasil por ‘dever cívico’" - Entrevista por ocasião da visita à FLIP em Paraty (01/07/2016)

Em Paraty pela primeira vez, viúva de Saramago prepara edição ilustrada por J. Borges

SC - EXCLUSIVO - PARATY RJ - FLIP 2016 - 01/07/2016 - Pilar del Río na Casa Cais. 
Foto: Barbara Lopes | Agencia O Globo - Agência O Globo

Recuperação da entrevista concedida ao "O Globo", aqui 
em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/pilar-del-rio-diz-estar-no-brasil-por-dever-civico-19631863

PARATY - Pilar del Río, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”, como escreveu certa vez numa dedicatória o português José Saramago (1922-2010), seu marido nos últimos 22 anos de vida, tardou a chegar, é bem verdade, não só à vida do escritor, como à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Apesar dos inúmeros convites da organização do evento e da homenagem da festa feita ao escritor no ano da sua morte, em 2010, a jornalista e “presidenta” da Fundação Saramago nunca havia conseguido ir a Paraty. Esta é a primeira vez, e Pilar participa da programação da Casa Cais, que neste ano funciona como uma embaixada afetiva da língua portuguesa na cidade, idealizada e dirigida pela compositora Luana Carvalho.

Com a participação de nomes como o escritor angolano José Eduardo Agualusa, o artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos, o escritor e professor de Letras da PUC-Rio Fred Coelho, o cineasta português Miguel Gonçalves Mendes e os cantores Marina Lima e Pedro Luís, o espaço vai abrigar debates e apresentações gratuitas até amanhã. Pilar conversa hoje com a jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro, às 15h30m, e depois exibe o filme “José e Pilar”, de Gonçalves Mendes.

Ao GLOBO, Pilar conta que está envolvida num projeto especial: um grande encontro, póstumo e inédito, “entre os dois Josés”, Saramago e o artista brasileiro José Francisco Borges. Ideia de um editor argentino radicado em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, a crônica fantástica “O lagarto”, escrita por Saramago em 1972 (texto em que o autor vislumbra uma flor vermelha caída no Chiado, e a Revolução dos Cravos só aconteceria em Portugal dois anos depois), ganhou xilogravuras exclusivas do artista pernambucano, que, aos 81 anos, abriu uma exceção para fazer esse trabalho, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

É a sua primeira vez na Flip, apesar de convites e homenagens em edições anteriores. Por que vir só agora?
Este é um ano muito particular. Vir ao Brasil, estar com pessoas que respeito e que não querem retroceder em direitos adquiridos, na educação, na cultura, nos valores partilhados, na liberdade, em suma, considero-o um dever cívico. Uma festa de cultura não pode viver arredada da realidade. Luana Carvalho e a Casa Cais convidaram-me a participar, e decidi aceitar. Será uma ocasião para voltar a falar de José Saramago e da necessidade que temos de continuar a ler os seus livros.

De que forma é possível aproximar ainda mais as literaturas de Portugal e Brasil? Apesar de compartilharem a língua, por que ainda há muitas lacunas de conhecimento entre ambas?
Os cidadãos, os leitores, nós, somos aqueles que aproximam as duas culturas, literaturas, formas de lidar com o idioma. É obrigação dos estados mostrar o que se vai fazendo, abrir as portas. Mas as pontes são construídas por nós, peça a peça, livro a livro, palavra a palavra. Lacunas... Muitas vezes devem-se a processos empresariais, editoriais, mais do que tudo.

A aproximação Brasil-Portugal permite uma infinidade de livros. Como “O lagarto”, que refresca a crônica de José Saramago com xilogravuras exclusivas de J. Borges. Como surgiu a ideia do livro?
Surgiu por proposta de um editor argentino, que vive há muitos anos em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, que já havia feito um livro com um texto de Saramago e ilustrações de Manuel Estrada chamado “O silêncio da água”. A ideia foi pegar um texto publicado anteriormente, que tivesse autonomia e que permitisse ser ilustrado. Ficamos muito contentes com a resposta positiva do J. Borges, que abriu uma exceção e aceitou ilustrar esse texto de José Saramago, e pensamos que é um diálogo muito enriquecedor o que se estabeleceu entre os dois “Josés”.

Quando deve ser publicado no Brasil?
Não consigo adiantar uma data para já, isso depende da Companhia das Letras, editora que publica a obra de José Saramago deste lado do Atlântico, mas pensamos que será muito em breve. Em Portugal, haverá uma exposição com as xilogravuras em Óbidos. A apresentação mundial será feita no contexto do Folio, o festival literário de Óbidos, em setembro. Aparecerá então uma primeira edição do livro, que sairá em várias línguas nos próximos meses.

O que há de especial nesse texto?
É um texto publicado em 1972 no livro “A bagagem do viajante”, que pode ser lido por jovens e adultos e que, tal como outros textos de José Saramago, encontra ainda hoje, mais de 40 anos depois da sua publicação, novas leituras atuais. Tal como, por exemplo, em “A maior flor do mundo”, trata-se de um José Saramago que não faz concessões facilitistas e cria um texto em que dialoga com o universo dos contos de fadas, com o fantástico, a partir da história de um lagarto que passeia pelas ruas do Chiado, em Lisboa.

O que a senhora gostaria de fazer em Paraty: tem alguma mesa de debates em que está especialmente interessada, algum autor que queira conhecer, algum passeio que queira fazer?
A minha vontade é ser apanhada pela surpresa. O que implica o risco de não gostar. Ou seja, mais do que procurar os autores que gosto de ler, procurarei aqueles que ainda não li ou cujo pensamento conheço menos bem. Mas confesso que tenho uma especial curiosidade em relação às vozes femininas, tantas vezes esquecidas, descuradas... Além de imergir na poesia da homenageada deste ano (Ana Cristina Cesar), quero sentir a força de mulheres não recatadas, que fazem do mundo inteiro o seu lar, na cultura e na sociedade.

domingo, 24 de julho de 2016

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" de Isabel Coutinho (jornal Público - 22/07/2016)

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" - de Isabel Coutinho (jornal Público, 22/07/2016)

"Na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, 
com os portugueses que estiveram na última edição, lançaram-se ideias para o futuro."

O artigo de Isabel Coutinho, publicado no jornal Público, pode ser recuperado e consultado aqui em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-casa-portuguesa-na-flip-de-paraty-1739162

A sessão na FLIP em que participou Ricardo Araújo Pereira
Fotografia: Walter Craveiro / FLIP

"A ideia de propor que o escritor homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) seja, no próximo ano, o Prémio Nobel português José Saramago (1922- 2010) ou, caso isso não seja concretizável, conseguir pelo menos que haja uma Casa Portuguesa José Saramago durante o evento em Paraty, foi anunciada na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, que no final da tarde de quinta-feira decorreu na Fundação José Saramago, em Lisboa, e reuniu alguns dos portugueses que estiveram na 14.ª edição do festival, no final de Junho.

“Era bom até que ao mais alto nível se montasse uma estratégia para se ter uma embaixada na FLIP e ali apresentarmos a nossa cultura”, lançou Paulo Ferreira, consultor editorial da Booktailors, que pediu permissão a Pilar del Río, da Fundação Saramago, para revelar ali a ideia que tinham tido em Paraty, onde estiveram pela primeira vez na festa literária que é a referência nos festivais de língua portuguesa e não só. “Uma casa José Saramago que sirva de montra do que se faz na literatura portuguesa" e que ajude à relação entre os dois países, acrescentou Tito Couto, também da Booktailors.

José Saramago nunca participou na FLIP,  apesar de ter sido convidado para ir a Paraty. Mais tarde, no ano em que morreu, em 2010, a festa literária brasileira homenageou-o numa das suas mesas, apresentando em estreia excertos do documentário José & Pilar e uma conversa com o realizador Miguel Gonçalves Mendes. Nessa altura Pilar voltou a ser convidada mas considerou que “era demasiado cedo” e não foi.

Este ano a presidente da Fundação Saramago participou na programação paralela da FLIP a convite da Casa Cais, da cantora e produtora brasileira Luana Carvalho. Tal como participaram a jornalista Anabela Mota Ribeiro e o escritor José Eduardo Agualusa, que estiveram no evento na condição de curadores do Folio- Festival Literário Internacional de Óbidos, que vai ter a sua segunda edição de 22* de Setembro a 2 de Outubro. O festival português estabeleceu uma relação com a Casa Cais que virá depois ao Folio com uma embaixada que trará Luana Carvalho e ainda a poeta carioca Alice Sant'Anna, o músico Pedro Sá e uma exposição do músico e artista visual Domenico Lancellotti que estava na casa em Paraty.

"Foi estupendo ter ido este ano", disse Pilar del Río que mesmo antes de partir já entendia a FLIP como algo muito português, não só pela cobertura na imprensa, como pelos relatos das pessoas que por lá passavam. " Paraty parecia profundamente português, embora estivesse do outro lado do Oceano. Era como se fosse algo nosso." No entanto foi uma surpresa. "Por um lado reúnem-se milhares de pessoas por causa da literatura. Por outro, é um projecto económico, cultural, um projecto de moda" com o qual podemos  aprender muito e ver como promover literatura ou produtos culturais em Portugal.

A editora da Tinta-da-China Bárbara Bulhosa, que já assistiu a cinco edições da festa, todos os anos contrata algum autor que descobriu em Paraty. A editora, que está também a publicar no Brasil, acaba de lançar especialmente para aquele país a colecção Grandes Escritores Portugueses, que se iniciou com Os Passos em Volta, de Herberto Helder, Breviário do Brasil, de Agustina Bessa-Luís, e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Antero de Quental. E outros autores, como Eduardo Lourenço, se seguirão. O projecto é financiado pelo Instituto Camões, pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e pelo Turismo de Portugal, o que lhe permite não perder dinheiro. 

“Enquanto editora, foi fundamental a ida à FLIP, porque no primeiro ano em que abri a Tinta-da-China Brasil a Dulce Maria Cardoso foi a autora portuguesa convidada. Vendemos muitos livros e foi muito importante para a editora”, explica. Seguiram-se Almeida Faria, Alexandra Lucas Coelho, Matilde Campilho (que no Brasil tem outra editora) e, este ano, Ricardo Araújo Pereira. Apesar de a festa concentrar naqueles dias grande parte da elite intelectual brasileira, Bárbara lembrou que é composta de "público que lê" e de "público que sabe que há ali uma festa". “A organização não é elitista” e “somos sempre muito bem recebidos”.

Tito Couto lembrou que “falamos da FLIP como se fosse um festival”, mas na realidade “são 15 festivais”, além “da programação oficial com espaço próprio, a Tenda dos Autores, com centenas largas de pessoas e cá fora outras tantas a assistir pelos ecrãs”, e “na própria cidade há umas quinze casas” geridas por editoras, jornais ou associações de editoras que também têm programação de manhã à noite, com debates sucessivos. “As casas estão cheias com plateias de 40 a 50 pessoas, é-se completamente submerso em ofertas de debates do mais variado tipo. A própria atitude de quem vai para a FLIP está mais próxima do ambiente dos Santos [populares] do que de um festival literário.”

Ricardo Araújo Pereira como convidado deste ano, entre a Prémio Nobel da Literatura, Svetlana Alexievich e o norueguês que vendeu milhões de livros, Karl Ove Knausgård, achou que é bizarro estar lá ao lado deles. Apesar de Anabela Mota Ribeiro que moderava a conversa ter dito que o humorista português “deu show de bola”, como diriam os brasileiros, este sentiu-se como se estivesse num daqueles puzzles que na Rua Sésamo se costumava apresentar às crianças com uma banana, uma laranja, um sapato e a pergunta: “O que está mal aqui?”: “A minha experiência é ser o sapato em todos os sítios em que estou”, fez rir a plateia Ricardo Araújo Pereira.

Mas é isso que atrai em Paraty, além de aquele lugar ser extraordinariamente bonito. “Há também uma coisa em Paraty que não encontrei em mais nenhum sítio, a expectativa de que as mesas, mais do que uma conversa entre autores que estão a falar das coisas que escrevem, seja uma performance: há a expectativa, no público e até nos jornalistas, de no fim se decidir quem é que cortou duas orelhas e um rabo, quem saiu vitorioso de uma espécie de contenda", diz o humorista.

 “Os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, sentimos isso também com as vendas que conseguimos”, diz Tito Couto. A empresa, que organiza acontecimentos literários, faz agenciamento de escritores e tem uma área de consultadoria para editores, está há cerca de um ano e meio com a estratégia de colocar os seus autores no mercado brasileiro, tendo conseguido a publicação de 13 autores portugueses naquele país, num total de 25 obras já lançadas ou a lançar durante o ano de 2017.

Na Companhia das Letras será publicado o Prémio José Saramago 2015, Bruno Vieira Amaral, com o romance As Primeiras Coisas bem como uma nova tradução de Frederico Lourenço - sabe-se apenas que se trata de uma das mais importantes obras da História - que será anunciada em breve, saindo primeiro em Portugal e depois no Brasil. Também Teolinda Gersão vai ver A Cidade de Ulisses e Os Anjos, na editora carioca Oficina Raquel, que já publicou Maria Teresa Horta, e onde Mário Cláudio irá também editar Retrato de Rapaz e O Fotógrafo e a Rapariga. Luís Aguilar, com Mourinho Rockstar, na Grande Área, e Jogada Ilegal, na Gryphus, editora que tem publicado vários livros de José Eduardo Agualusa. E Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida, na Rovelle. Noutras editoras serão publicadas ainda obras de Ana Cristina Silva, Maria Conceição Caleiro, Miguel Real, Joel Neto, Miguel Miranda e Pedro Vieira.

Corrigidas as datas em que se vai realizar o Folio, é a 22 de Setembro que se inicia o festival e não a 28"