Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 21 de agosto de 2016

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira em "O Mirante" (13/06/2016) em alusão ao papel do revisor na "História do Cerco de Lisboa"

"O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente. Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa."

Texto de opinião sobre a importância e rudeza do trabalho de um revisor, por Eliezer Moreira, para "O Mirante" - Cartas do Brasil (13/06/2016), aqui
em http://omirante.pt/cartas-do-brasil/2016-06-13-Revisao-de-texto-uma-penitencia

(Capa da edição do Circulo de Leitores - 1990)

"O paulista Monteiro Lobato (1882-1948) não foi apenas um grande escritor, foi também um editor pioneiro no Brasil com a Cia. Editora Nacional, portanto, uma autoridade em matéria de livros, dominando desde a concepção do texto até o produto acabado na prateleira. Invoco sua figura para falar da coisa mais banal e nem por isso menos dramática quando se trata de escrever e publicar: o erro de revisão. Duas semanas atrás quase perdi o sono ao deixar sair aqui uma crônica com quatro sacis gritantes – quatro erros de digitação que o paginador Fábio Oliveira, assim que solicitado, me fez o imenso favor de eliminar. Falando certa vez a respeito dessa tragédia também conhecida como gralha ou pastel e que, no seu tempo, ainda se chamava erro tipográfico, Lobato assim se manifestou: “A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar”.

Se é assim com o livro, produto de elaboração demorada que comumente é lido e relido muitas vezes e por muitos olhos antes de ser impresso, o que dizer do texto jornalístico, que hoje se escreve e se publica quase simultaneamente no meio digital? Embora em geral curto, o texto de jornal nem por isso está menos sujeito ao acúmulo de gralhas. Algum tempo atrás, ao falar da obrigação de rever a própria escrita em sua coluna em O Globo, Elio Gaspari empregou o advérbio perfeito ao dizer que lera e relera aquele trabalho “piedosamente” antes de autorizar sua publicação. O termo supõe a ideia de penitência, daí sua exatidão, porque se o trabalho de escrever pode ser penoso ou gratificante, rever o próprio texto é sempre uma penitência. E uma penitência cada vez mais inevitável, já que a figura do revisor parece fadada a desaparecer das redações, se é que já não desapareceu.

E não é somente grande pena que esse animal indispensável esteja em risco de extinção, o seu fim seria também a consumação de uma eterna injustiça, porque injustiçado ele tem sido desde sempre. Falo com a autoridade de quem já reviu muito texto alheio durante muito tempo. O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente.

Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa. Tendo passado uma vida inteira num trabalho apagado e obscuro, um belo dia Raimundo Silva resolve acrescentar uma simples palavra – “não” – ao texto que está a revisar, e com isso muda completamente os rumos de toda uma história. Bem feito."

sábado, 13 de agosto de 2016

"30 anos a rever as palavras de Saramago" - Rita Pais, revisora da obra de José Saramago

Muito mais que revisora das obras de José Saramago.
Com este propósito recolho algumas palavras que constam na obra de João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago" (2009, Porto Editora), e que complementam ou introduzem a entrevista que recupero.

"E por falar deste assunto de gralhas e revisões chegou o dia combinado em que se foi à sede da Fundação José Saramago para escutar de viva voz o relato da colaboração entre o escritor e a pessoa que tratou de quase toda a sua obra - e que aguarda pelo próximo livro para preparar o original antes da impressão. Chama-se Rita Pais (n. 1952) e acha que teve sorte ao caber-lhe esta tarefa numa altura em que terminara a faculdade e conseguiu emprego na Editorial Caminho, onde José Saramago tinha entregado a peça A Noite para publicar. Depois de uma passagem breve por vários sectores da empresa, acompanhou de uma forma incipiente — «ele também estava a começar, apesar de ser um autor já conhecido mas ainda sem a projecção que viria a ter» — essa edição, o primeiro trabalho com que teve contacto. Depois, veio o romance Levantado do Chão mas como nesse ano estava também a dar aulas já só teve contacto com a obra numa fase de quase publicação. Depois desse romance, recorda, «não me lembro de ter ficado por passar os olhos por nenhum». Quando se lhe pergunta se José Saramago aceitava bem as suas sugestões, a resposta é que sim e «muito bem. É óbvio que as sugestões que eu lhe poderia fazer nunca seriam de fundo mas acontece com qual-quer autor ter uma repetição, haver um facto que foi já mais ou menos falado ou aflorado, uma personagem que tem o nome trocado» mas, ressalva, «quanto a erros de ortografia nem pensar, ele não dá», nem se lembra de ter encontrado um erro: «às vezes há algumas pequenas divergências porque, por exemplo, ele usa por sistema a forma arrepiar, que é perfeitamente legítima, e os leitores comentavam esse facto mas, digamos, é uma particularidade de escrita que o autor tem»." 
(Páginas 166 e 167)

"Rita Pais lembra-se de muitas histórias de uma relação em que começou jovem a rever os textos de José Saramago e na qual ainda, mesmo já não estando na Editorial Caminho, é a responsável pela preparação dos seus originais. Pelo meio destas três décadas existem muitas datas que a marcaram mas há uma que nunca esquece, a do anúncio do Prémio Nobel. Como já tinha estado quase tantas vezes perto de o ganhar «já nem ligávamos mas naquele dia estava na Caminho, tinha o rádio ligado, e lembro-me bem de quando se ouviu a notícia. Não sei explicar o que senti, ficámos paralisados por uns momentos e depois foi uma explosão dentro de nós. A seguir, os telefones não paravam, eram os jornais, as rádios, as televisões, do estrangeiro, até parecia que pela primeira vez na vida havia José Saramago! Pensei: E agora? Como é que vai ser isto com um Nobel? Agora vai ser muito mais complicado... Mas não, era a mesma a tranquilidade, a mesma disponibilidade, a mesma generosidade, nenhuma alteração». Quanto a livros preferidos, Rita Pais começa por destacar uma das suas epígrafes — «Se podes olhar vê, se podes ver repara» — só depois escolhe O Evangelho Segundo Jesus Cristo porque «é uma pintura, que não tem nada a ver com o religioso. É um livro que ultrapassa qualquer visão dos dogmas do cristianismo, dos evangelhos apócrifos. Não vou dizer que é o livro mais bem escrito, que é aquele em que as qualidades literárias mais sobressaem mas leio-o como se estivesse a descodificar um quadro e foi sempre aquele que mais me comoveu em termos de generosidade, de humanidade e quase de decifração do que é o ser humano»."
Página 172 

A obra mencionada de João Céu e Silva, e que aconselho vivamente a sua leitura, remete para as páginas 166 a 172, preciosos dados e momentos vividos ao longo dos tempos entre José Saramago e Rita Pais.





A presente entrevista é recuperada e pode ser consultada, em duas partes, aqui

"30 anos a rever as palavras de Saramago"
16 de novembro de 2012

Rita Pais foi a revisora dos livros de José Saramago durante cerca de 30 anos, na Editorial Caminho. Desde há cinco anos integra a equipa da Fundação José Saramago, após o convite que lhe foi estendido por José Saramago e Pilar del Río. As suas funções na instituição são diversas, mas trabalha principalmente no serviço educativo, que começou a funcionar neste outono. Também faz ocasionalmente algumas visitas acompanhadas e constata que o que os visitantes da fundação procuram é «algo físico, algo que represente o autor». «Quando digo às pessoas que já tenho 30 anos de trabalho com Saramago, olham para mim como se fosse um dinossauro [risos]. Desperta um interesse e uma curiosidade normais. Quando veem a Pilar, é ainda outra reação, mas quando as pessoas me veem, nota-se que há uma necessidade do tato, das histórias, até para entender melhor o escritor, que não era uma figura de ficção, era uma pessoa normal.» E é nessa acentuação do lado humano de uma pessoa que se desmistifica o autor.

O contacto com o público é uma novidade para Rita Pais, mas é algo que a satisfaz. «É muito gratificante para todos nós. Que eu tenha dado conta, ninguém tem saído triste ou dececionado da fundação. Há sempre muitos sorrisos, muitas lágrimas, muita emoção», afirma. Conta-nos que Saramago mantinha uma relação muito bonita com os seus leitores. «Aquela afabilidade, aquela palavra certa para cada um foi uma das coisas que me marcaram. Um dos atos poéticos a que assisti anos a fio foi de facto esse contacto com o público. Horas e horas em que aquela palavra amável, simpática, não parava», recorda.

Sente falta de ser revisora? Responde afirmativamente. «Ainda hoje recorro muito frequentemente ao dicionário em papel.» E vê como um privilégio o contacto que teve com alguns autores portugueses de várias gerações e as suas respetivas obras, que lhe passaram pelas mãos. «A Caminho tinha um catálogo de autores de eleição, e tive oportunidade, através do meu trabalho, de conhecer a literatura africana, por exemplo. Foi uma aprendizagem inestimável.»

Mas mudar de trabalho, ainda que para a fundação, não foi fácil. «Foi uma mudança difícil. Não é fácil mudar após 30 anos», confessa, sobre a saída da Caminho e o início do seu trabalho na fundação. «Para nós isto não é um emprego vulgar, é uma causa de amor.»

E trabalhar na instituição foi uma forma de manter a ligação ao autor e à sua obra, que tão bem conhece. «Foi uma forma de continuar ligada a José Saramago. A editora foi vendida, e eu ia começar do zero. Foi nessa altura que a Fundação José Saramago foi criada e, por um conjunto de coincidências, surgiu o convite. “Quero que venhas trabalhar para a Fundação Saramago”, disse-me ele. “Tens 20 minutos para pensar, e depois eu passo cá”», conta entre risos. «Fiquei emocionada. Disse sim, de imediato, mesmo sem saber o que era uma fundação.»

«Os revisores são como os guarda-redes»

Ficou bastante surpreendida ao ver o seu nome no texto de História do Cerco de Lisboa. «Isso foi uma surpresa. Nessa altura Saramago ainda estava em Portugal e às vezes passava pela editora. Um dia disse que tinha uma ideia para um livro novo que envolvia editores. Algum tempo mais tarde, quando já tinha uma estrutura, disse-lhe: “Ó José, francamente, toda a gente fala dos editores, mas ninguém menciona os desgraçados dos revisores, que aturamos tantas coisas. [Os revisores] são como os guarda-redes, ninguém fala deles, só quando deixam entrar golos.” Ele ficou um pouco pensativo e, passado algum tempo, disse que tinha mudado um pouco o curso da história.»

«Depois veio o original, eu comecei a ler e fiquei deslumbrada, não só porque lá estava um revisor, mas não fazia ideia de que iria incluir o meu nome», declara. «Na última fase do livro, faltava um caderno, que não me chegava às mãos. O editor, o senhor Coelho, dizia-me para não me preocupar com isso. Quando finalmente o livro saiu, Saramago apareceu com um exemplar na editora e disse-me para abrir o livro em determinada página e ler. Comecei a ler em voz alta e li o meu nome. Continuei a ler, mas parei depois quando me dei conta de que o meu nome lá estava. Só me lembro de ter largado o livro, de me ter levantado e de lhe ter dado um abraço. E ele era tão alto, e eu, tão baixinha… Dei-lhe um abraço daqueles que não se esquecem a vida inteira. Não sei se muitos autores teriam feito o que ele fez, lembrarem-se de uma revisora. Quando o livro saiu, creio que ele mencionou essa homenagem, e eu sinto-me privilegiada por o ter conhecido. Por ter tido essa dádiva de conviver com um autor dessa craveira. Foi uma atitude tão generosa, tão altruísta.»

«Já tive perdas de familiares, mas, a seguir ao meu pai, [o falecimento de José Saramago] foi a perda que mais senti. Fica uma grande saudade. Foi uma pessoa que ocupou um papel muito importante na minha vida, com quem aprendi muito sobre literatura.»

Leia aqui a segunda parte.

"30 anos a rever as palavras de Saramago – parte II"
16 de novembro de 2012

O primeiro contacto com Saramago

«Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o conheci. Estava no gabinete do diretor editorial, e ele disse-me que ia chegar um livro novo. De repente, disse: “Aí está o autor.” Levantei-me, e Saramago, com toda a naturalidade do mundo, disse: “Ah, esta é que é a Rita?”»

Começou a rever as obras de Saramago estava há pouco tempo na Editorial Caminho. «Entrei na empresa em 1976 e cerca de um ano e meio depois, em 1978, entrou Saramago. Os primeiros contactos foram feitos pelo editor, claro, mas percebi a certa altura que ele e outros autores começaram a ter confiança em mim, entrei com facilidade na escrita dele, e talvez por isso nos tenhamos aproximado. Criou-se uma empatia entre os dois.» Houve discordâncias? «Não eram propriamente discordâncias. Havia momentos em que propunha alterações. Nunca houve respostas ríspidas. Saramago dizia que ia pensar. Nunca nos zangámos. Ele nem sequer dava muito trabalho.» Nos seus últimos livros, admite que «recorria a uns certos castelhanismos, tinha tendência a usar pequenas expressões castelhanas.» Mas nada muito difícil de resolver.


Nunca lhe aconteceu sugerir melhoramentos além dos linguísticos. «Ele era perfeito. Às vezes era necessário ajustar concordâncias verbais e procurava as redundâncias. Enquanto pudemos, fizemos a revisão juntos, ou via telefone. Era fácil reconhecer o que ele queria e o que não queria. Num episódio do Memorial do Convento, assinalei a palavra «tissu» e coloquei um ponto de interrogação. Um dia ele chega, senta-se à frente da secretária e diz: «Então vamos lá ver esse tissu [risos].»

Um autor universal

«Embora dissesse que não sabia escrever para crianças, sabia ir ao encontro de todos os leitores.» Contudo, só se apercebeu da dimensão além-fronteiras do autor depois de ter começado a trabalhar na fundação. «Só tive noção da projeção internacional de José Saramago depois de ter vindo para a fundação. Pessoas de todas as partes do mundo contactam-nos. A minha perspetiva mudou. Na editora tinha uma perspetiva que se centrava na palavra, e de repente a palavra traduziu-se em 54 línguas.»

O seu trabalho foca-se agora na preservação desse legado universal do autor. «Fazemos tudo ao nosso alcance para preservar a sua memória, a sua obra», declara. Um trabalho que, como outro qualquer, tem dias menos fáceis, mas que a satisfaz. «Chegar aqui e olhar para a oliveira numa manhã difícil melhora o nosso dia», afirma, não sem relembrar que 30 anos deixam as suas marcas: «É uma vida de muita saudade. Dele e do meu trabalho.»

«… na parede o quadro de registo onde, podia vê-lo, se lia o seu nome,  na linha superior, e por baixo os nomes dos outros revisores que trabalhavam em casa, tendo, todos eles, no quadriculado adiante, indicações abreviadas de títulos de obras, datas, sinais coloridos, um organigrama simples, uma espécie de mapa da cidade dos revisores, não mais que seis. Podemos imaginá-los, cada um em sua casa, no Castelo, nas Avenidas Novas, talvez em Almada ou na Amadora, ou Campo de Ourique, na Graça, debruçados para as provas de um livro, lendo e emendando, e a doutora Maria Sara pensando neles, alterando uma data, trocando um verde por um azul, daqui a pouco tempo nem dará importância aos nomes, serão para ela um mero traçado gráfico que lhe suscitará ideias, associações, reflexos, por enquanto cada um destes nomes representa ainda uma informação a assimilar, Raimundo Silva primeiro, depois Carlos Fonseca, Albertina Santos, Mário Rodrigues, Rita Pais, Rodolfo Xavier…»

[História do Cerco de Lisboa. Lisboa: Editorial Caminho, 2006, pp. 168-169 (7.ª edição)]

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira publicado em "O Mirante" (13/06/2016)

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira
Publicado em "O Mirante" (13/06/2016), e pode ser recuperado aqui
em http://omirante.pt/cartas-do-brasil/2016-06-13-Revisao-de-texto-uma-penitencia

"O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente. Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa."

"O paulista Monteiro Lobato (1882-1948) não foi apenas um grande escritor, foi também um editor pioneiro no Brasil com a Cia. Editora Nacional, portanto, uma autoridade em matéria de livros, dominando desde a concepção do texto até o produto acabado na prateleira. Invoco sua figura para falar da coisa mais banal e nem por isso menos dramática quando se trata de escrever e publicar: o erro de revisão. Duas semanas atrás quase perdi o sono ao deixar sair aqui uma crônica com quatro sacis gritantes – quatro erros de digitação que o paginador Fábio Oliveira, assim que solicitado, me fez o imenso favor de eliminar. Falando certa vez a respeito dessa tragédia também conhecida como gralha ou pastel e que, no seu tempo, ainda se chamava erro tipográfico, Lobato assim se manifestou: “A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar”.

Se é assim com o livro, produto de elaboração demorada que comumente é lido e relido muitas vezes e por muitos olhos antes de ser impresso, o que dizer do texto jornalístico, que hoje se escreve e se publica quase simultaneamente no meio digital? Embora em geral curto, o texto de jornal nem por isso está menos sujeito ao acúmulo de gralhas. Algum tempo atrás, ao falar da obrigação de rever a própria escrita em sua coluna em O Globo, Elio Gaspari empregou o advérbio perfeito ao dizer que lera e relera aquele trabalho “piedosamente” antes de autorizar sua publicação. O termo supõe a ideia de penitência, daí sua exatidão, porque se o trabalho de escrever pode ser penoso ou gratificante, rever o próprio texto é sempre uma penitência. E uma penitência cada vez mais inevitável, já que a figura do revisor parece fadada a desaparecer das redações, se é que já não desapareceu.

E não é somente grande pena que esse animal indispensável esteja em risco de extinção, o seu fim seria também a consumação de uma eterna injustiça, porque injustiçado ele tem sido desde sempre. Falo com a autoridade de quem já reviu muito texto alheio durante muito tempo. O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente.

Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa. Tendo passado uma vida inteira num trabalho apagado e obscuro, um belo dia Raimundo Silva resolve acrescentar uma simples palavra – “não” – ao texto que está a revisar, e com isso muda completamente os rumos de toda uma história. Bem feito."


terça-feira, 18 de novembro de 2014

"História do Cerco de Lisboa" - e o Paradigma da Verdade Histórica



(...) A "História do Cerco de Lisboa", que não é História nem romance histórico. Sim é, no entanto, um livro onde se questiona aquilo a que chamamos a «verdade histórica». A acção passa-se em dois planos temporais, o século XII e o século XX, e tem como figura principal uma pessoa sem demasiada importância, para não dizer totalmente insignificante, como por outro lado são quase todos os meus personagens: nos meus livros não há heróis, não há gente muito formosa, talvez nem sequer as mulheres o sejam, ainda que, como em geral não as descrevo, o leitor possa recriar a imagem segundo as suas preferências. O autor prefere dar três ou quatro pinceladas, como pontos cardeais, mas nada de descrever metódica e minuciosamente rostos, alturas, figuras, gestos... o autor prefere que seja o leitor quem assuma essa tarefa e responsabilidade. Ora bem, o personagem principal da "História do Cerco de Lisboa" é um revisor de texto, o «conservador» por excelência, alguém que tem a obrigação de respeitar o que encontra escrito, a autoridade explícita e implícita do documento, de modo que não pode alterar nada (...)
(...) E no entanto, este homem (...) decide introduzir uma palavra que nega o que de facto é uma verdade histórica, verdade manifesta no livro que está a rever, obra de um historiador, e que tem como título «História do Cerco de Lisboa». (...)
(...) Irritado com a suficiência arrogante dos documentos históricos e com a evidente falsidade de alguns deles, o nosso revisor, onde o historiador havia escrito que os Cruzados, como de facto aconteceu, ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa, comete a ousadia, a barbaridade, o sacrilégio de introduzir a palavra «não». E o que acaba por ser publicado, o que aparecerá no livro, é que «os cruzados não ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa», o que significa, como disse antes, a negação de uma verdade rigorosamente histórica. (...)
Nesta obra, aparentemente a mais histórica de quantas escrevi, sustento que a verdade histórica não existe, que em muitos casos estou de acordo com Eça de Queirós quando dizia a Oliveira Martins que a história é provavelmente uma grande fantasia... (...)

em, "A Estátua e a Pedra"




Aqui um pequeno apontamento sobre Eça de Queirós e Oliveira Martins, mentores da chamada «Geração de 70» -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Geração_de_70
"Geração de 70 ou Geração de Coimbra foi um movimento académico de Coimbra do século XIX que veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do realismo.
Num ambiente boémio, na cidade universitária de Coimbra, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, entre outros jovens intelectuais, reuniam-se para trocar ideias, livros e formas para renovação da vida política e cultural portuguesa. Portugal vivia então uma autêntica revolução com os novos meios de transportes ferroviários, que traziam todos os dias novidades do centro da Europa, influenciando esta geração para as novas ideologias. Foi o início da Geração de 70.
Em Coimbra, este Grupo gerou uma polémica em torno do confronto literário com os ultra românticos do "bom senso e do bom gosto", disputa mais conhecida como a Questão Coimbrã. Mais tarde, já em Lisboa, os agora licenciados formaram o grupo Cenáculo. Em 1871, o grupo organizou uma série conferências no Casino Lisbonense, para discutir temas ligados à literatura, educação, religião e política. As conferências acabaram por ser proibidas pelo governo.
Depois das reuniões, a geração de oiro de Coimbra acabou por não conseguir fazer mais nada, muito menos executar os seus planos de revolucionar o país, e seus integrantes acabaram por se autodenominar "os Vencidos da Vida", por sugestão de Joaquim Pedro de Oliveira Martins. A denominação decorre claramente da renúncia dos membros do grupo às suas aspirações de juventude. O grupo incluía, além de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, José Duarte Ramalho Ortigão, António Cândido Ribeiro da Costa, Guerra Junqueiro, Luís de Soveral, Francisco Manuel de Melo Breyner (3.° conde de Ficalho), Carlos Félix de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1º Conde de Arnoso) e António Maria Vasco de Mello Silva César e Menezes (9.º conde de Sabugosa), entre outros. Eça de Queirós integrou o grupo a partir de 1889."