Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Crónica "O grande teatro do mundo" publicada em "As opiniões que o DL teve" (14/12/1972)

"O grande teatro do mundo"
14 de dezembro de 1972

"A representação teatral de ações simultâneas não foi invenção do nosso tempo, ao contrário do que poderão pensar a pessoas inclinadas a acreditar que o passado terá sido pouco mais do que um espesso casulo ou um ovo de trevas. Um palco que hoje se estrutura em vários níveis e planos, e onde os atores que gesticulem e falem em articulação ou não com outros atores, repete mistérios medievais e representações mais recuadas ainda. 
Tudo isto são banalíssimas verificações, certamente o pretexto adequado a uma reflexão anacronicamente moralista, pois se trata, como anuncia o título, de ver o mundo como um palco imenso de ações simultâneas, muitas delas decorrentes umas das outras, outras ainda marcadas pelo absurdo dos contrastes. Também a reflexão não terá nada de original. Este modo de ser do mundo é o responsável pela multidão de misantropos que arrastarão a vida numa áspera derrota, recusando-se a ser peso na balança e cúmplices no absurdo. Infelizmente para eles o mundo inclui-os na sua grande máquina misturadora: tudo é gente transportada nos remoinhos movediços da História, girando ao parecer no mesmo lugar, e contudo avançando no fluido inapreensível do tempo. Talvez seja a insensível fricção desse fluido que envelhece os homens como a água que corre sobre as pedras, as desgasta, as reduz a lâminas, a areia, e, por fim a átomos invisíveis... 
Revertamos, porém, ao ponto: o mundo é, evidentemente, um palco imenso de ações simultâneas, de que partem três homens para a Lua, fortes de ciência e técnica, e onde centenas de outros homens se esforçam humildes por tomar lugar numa carruagem de metropolitano, num autocarro, num elétrico, num simples táxi, se possível... E isto para só falarmos no angustiante, mas no entender de muita gente pitoresco, problema dos transportes, porque se contemplarmos o plano da moral comezinha veremos cinquenta religiões, entre pequenas e grandes, difundirem por todos os meios palavras de paz, enquanto as guerras metodicamente vão fazendo pela vida... e pela morte. Repare-se também no presidente Thieu do Vietname do Sul, que benevolamente condescende em tréguas de Natal, sob condição (ou pouco menos) de que a guerra prossiga depois desse breve intervalo que provavelmente nem bastará para enterrar decentemente os mortos. Veja-se, para não sair daquelas partes do mundo, como um povo tem vindo a ser literalmente sangrado há dezenas de anos, não obstante o clamor de protesto que a todas as horas se levanta das nações. Atente-se nos altíssimos e luxuosos edifícios de cujos terraços quaisquer honestos olhos distinguirão o vexame dos bairros de lata, agora cosmopolitamente rebatizados como bidonvilles. Tome-se a medida do conforto e veja-se como ela se recusa a assentar no corpo de quem nasceu sobre estrelas malévolas. 
Esta enumeração não acabaria nunca, mesmo que pretendêssemos dedicar-lhe as colunas inteiras do jornal. O teatro do mundo é realmente grande e capaz de conter a multiplicação de todas as disformidades e injustiças, sobre a capa pacificadora de uma resignação infinita que se exprime na desolada verificação de que o mundo já assim era quando nascemos, razão bastante boa para que aos olhos de muita gente assim deva continuar... Entretanto, neste teatro absurdo o pano vai caindo, para cada um de nós, na altura devida. É uma espécie de roleta russa em que todos acabaremos por ser alvejados. Em todo o caso, mesmo sem misantropia excessiva, haveremos de convir que o mundo assim organizado merecia bem que o pano caísse de vez. Universalmente. Tranquilizemo-nos, porém: o homem é o animal mais resistente da Terra, porque se nutre de um a alimento invisível chamado esperança. 

in, "As opiniões que o DL teve", 1.ª edição de 1974
14 de Dezembro de 1972
Edição Porto Editora, edição de 2014) páginas 74 a 76

domingo, 7 de agosto de 2016

Crónica "Um regulamento a favor do fogo" em "As opiniões que o DL teve" (12 de Junho de 1972)

A presente crónica foi publicada faz 44 anos, escrita pelo punho de José Saramago. 
Enquando cronista na altura mostrava a sua preocupação e estranheza, hoje quando os rapazes da altura já são avós, recipero o carácter intemporal e a veracidade com que hoje nos deparamos nas consequências do desordenamento e falta de protecção da mancha florestal portuguesa. Isto obriga a uma preocupante reflexão - tal como ontem, hoje continuamos a ouvir falar de Oleiros e de povoações escondidas como Bogas de Baixo pelas piores razões. 
Rui Santos

"Um regulamento a favor do fogo" 12 de junho de 1972

"Com a chegada do verão, destes grandes calores que tornaram as matas e os pinhais inflamáveis como estopa, é certo e sabido que começam por esse país fora os incêndios. Devoram as encostas das serras, deixam-nas negras, despidas, terras de desolação onde, por muitos anos, se erguerão apenas os troncos queimados. Neste tempo se levantam inúmeras vozes a pedir proteção para o nosso património florestal, já de si tão escasso. A vulnerabilidade das nossas matas, se bem pensamos nela, é, a toda a hora, um convite à ruína total. Depois o tempo refresca, vem a chuva, adia-se a catástrofe para o ano. 
Na falta de um sistema de defesa eficiente, conta-se sempre com a dedicação e a ousadia das populações que, mal se ouve o sinal do fogo, correm montes e vales, gritando, ofegando, para irem atacar o incêndio, sem curarem de saber a quem pertencem as árvores que as chamas vão furiosamente destruindo. Acudir ao fogo é obrigação cívica a que ninguém foge, e não têm sido poucos os atos de grande coragem praticados nessas ocasiões, com total desinteresse, pois ninguém pensa em apresentar depois a fatura dos serviços prestados. Também não há veneras nem condecorações: estes episódios passam-se em serranias anónimas, longe das vistas da grande publicidade. 
Já os incêndios começaram a sua tarefa, e, lá para diante, não se passará um dia sem que o inferno lavre num ponto qualquer do País. E tudo será como de costume, e repetir-se-ão casos como este de que hoje falamos, acontecido numa povoação chamada Bogas de Baixo, próximo do Fundão. Ali, os sinos da igreja chamaram os habitantes ao combate. E foram todos, os novos e os velhos, as mulheres e as crianças. Fazia vento, e, como sempre acontece nessas circunstâncias, o fogo saltava do árvore em árvore, propagando-se pelas ramadas superiores, inutilizando os trabalhos no chão. Diante da ameaça cada vez maior, telefonou-se para povoações em redor e mais pessoas acorreram ao fogo, animando-se umas às outras, usando uma experiência já antiga, vinda de gerações. Por fim conseguiu-se travar o alastramento do incêndio. O desastre não foi total. 
E os bombeiros? Após algumas dificuldades de comunicação, e graças à intervenção de terceiras pessoas, foi possível chamar os da vila próxima. Também se recorreu aos serviços dos bombeiros de outra vila, a de Oleiros, mas o comandante destes disse que «não podia mandar deslocar os seus homens para concelho diferente, sem que o comandante dos bombeiros do concelho onde havia o sinistro os requisitasse». Segundo a fonte onde colhemos estas informações, o comandante de Oleiros mostrou-se «muito compreensivo», chegando a oferecer-se para um entendimento com o Fundão. Ficaram os combatentes Voluntários e paisanos à espera do que viesse, mas nada se conseguiu. Enquanto os pinheiros de Bogas de Cima ardiam, enquanto as gentes da terra se afadigavam a lutar por bens que só a poucos pertenciam, um artigo de regulamento impedia o auxílio que deveria poder ser dado por uma corporação de bombeiros, mas que não foi porque o concelho era outro... 
Estranhos casos se passam em Portugal! Muito mais estranhos ainda quando nos lembramos de que, durante a recente visita do presidente do Conselho a Castelo Branco, um dos mais brilhantes números dos festejos foi um longuíssimo desfile de bombeiros, com dezenas de viaturas. Vindos de muitos quilómetros e concelhos em redor... E não havia fogo." 

in, "Os Apontamentos"
Porto Editora, edição que compila 2 livros de crónicas
Páginas 54 e 55

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Crónica "Ter pouco e desbaratar" (02/06/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica "Ter pouco e desbaratar" publicada no "Diário de Lisboa", sobre a preservação e defesa do património cultural nas suas diversas vertentes, quer seja ao nível dos monumentos, como também no aspecto do acervo bibliográfico dos escritores.
Na leitura das crónicas, "está lá tudo".
Rui Santos

"Ter pouco e desbaratar"

"Por muito que à nossa vaidade patriótica custe reconhecê-lo, não somos um país abundoso de obras de arte. Temos um clima que guarda entre os excessos uma benigna constância, esta paisagem feminina, macia - mas, salvo as consabidas e por vezes valiosíssimas exceções, não soubemos edificar neste habitat uma estrutura plástica homogénea e numerosa. Ao longo da História, poucos foram os centros culturais duradouros, ou, quando existentes, estiveram muito mais voltados para as severidades e securas de uma religião inimiga dos gozos do mundo, do que para o culto sensual da arte, prazer das mãos e dos olhos. As guerras, os incêndios, os terramotos, destruíram ou danificaram irremediavelmente muito do pouco que se criou. Hoje, encontramo-nos na modesta situação dos remediados que se limitam a defender, melhor ou pior, o que possuem. Mesmo isto, porém, é duvidoso. Estarão convenientemente protegidos os grandes monumentos, as grandes obras de arte (em relação à sua segurança, nem sempre), mas o mesmo não se poderá dizer da pequena obra, da escultura maneirinha, do azulejo anónimo, da pintura de mestre secundário, que alargam sobre o País uma rede mediana, mas preciosa. O inventário desta riqueza de pobre está incompleto. Acresce que o dispositivo legal de proteção se mostra, em muitos casos, incapaz de penetrar e vencer as barreiras do interesse particular quando não é de todo inadequado por revelarem de foro privilegiado as obras em causa. Multiplicam-se os casos de igrejas despojadas do seu acervo artístico, substituído por exemplares de uma arte religiosa convencional, mais interessada em representações sentimentalistas do que em expressões de arte autêntica. Esculturas de antigos canteiros, talvez inábeis, mas dotados de um génio popular merecedor de toda a atenção, cedem o seu lugar nos nichos ou nos altares a banais figuras, talvez canonicamente respeitáveis, mas artisticamente nulas. Há também o que se vai encontrando no chão, ao acaso de escavações ou segundo planos conscientes: pequenas ruínas, mosaicos romanos, vestígios de um passado anterior. Quando tais descobertas se fazem, não é raro embandeirarmos em arco: sobe-nos o acontecimento à cabeça e pouco falta para nos considerarmos mais ricos do que ninguém. Mas o tempo passa, rapidamente a emoção ao rés do quotidiano, e o achado lá fica, exposto ao tempo (que para as obras de arte nunca é benigno), exposto quantas vezes aos atentados, às depredações, às violências, aos roubos. Então levantam-se umas vozes tímidas, uns protestos desanimados, logo abafados no grande alheamento geral. E o empobrecimento continua. Não é diferente o que se passa no campo do nosso espólio bibliográfico. Temos sido grandes fornecedores de bibliotecas colecionadores estrangeiros que dispõem de fartos orçamentos e não discutem preços, em chocante contraste com a penúria de meios ou a estreiteza de vistas de algumas autoridades nacionais. E assim, rapidamente, mudam de proprietário tesouros bibliográficos que teríamos o rigoroso dever de guardar, para honra de quem os escreveu e de quem tinha sabido defendê-los até estes mal-agradecidos dias de hoje. 
Tem-se falado muito, ultimamente, de responsabilidades. Ora, neste como em tantos outros setores, conviria que tal palavra assumisse o seu verdadeiro sentido e se tornasse, assim, mais do que um simples jogo de sons, norma de comportamento e exigência." 

in "As opiniões que o DL teve"
05/06/1972

(NR: Bold meu)

domingo, 12 de junho de 2016

Crónica "Cataclismo, ou talvez não" (25/5/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica "Cataclismo, ou talvez não" publicada no "Diário de Lisboa", sobre a capacidade do ser humano não providenciar a sustentabilidade dos recursos naturais do planeta.
Na "Declaração de Princípios" da Fundação José Saramago, e sendo este um assunto de enorme preocupação para José Saramago, pelo seu punho deixou escrito na alínea c), "Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo." (29/06/2007)
Na leitura das crónicas, "está lá tudo".
Rui Santos

José Saramago acompanhado de Betinho e Sebastião Salgado - Rio de Janeiro, 1997

"Cataclismo, ou talvez não"
(25 de maio de 1972)

"De vez em quando, e com uma regularidade que poderia levar a acreditar em revezamento premeditado, surgem vozes de alarme contra a rapidez com que se vão consumindo as reservas naturais do planeta, agravada por aquilo a que passou a chamar-se, maltusinamente, «explosão demográfica». Em regra, tais declarações são proferidas por autoridades competentes, não vezes adornadas pelo toque superlativo de um Prémio Nobel.
Veio agora o Dr. Dennis Gabor, cientista inglês distinguido com aquele prémio, avisar-nos de que a humanidade poderá ter apenas mais quarenta anos de vida, se a explosão demográfica não cessar. E que «no ano 2010, a Terra será tão paupérrima que nem os fertilizantes serão suficientes para evitar o descalabro». Sugere pois que se inicie o cultivo de plâncton, «em vez de se destruir essa extraordinária riqueza por meio da poluição». 
É possível que o Dr. Gabor tenha razão, que a tenham todos quantos, cientistas ou apenas profetas, andam pelo mundo nesta nova cruzada apocalíptica, a anunciar o fim dos tempos. Talvez haja, de facto, gente a mais, e a poluição, em todas as suas formas, ganha certamente proporções de cataclismo. Quanto aos recursos da Terra, se nos lembrarmos de que nada se pode tirar donde não haja, não custa a acreditar que se caminha para uma pauperização das fontes de energia e de subsistência que permitiram, até agora, melhor ou pior, a vida dos homens. 
Resta saber, porém, se o remédio está, como disse o Dr. Gabor, em «fazer congregar a evolução da ciência inteiramente em novas conceções biológicas», o que pode significar uma forma de planificação eugenística para «poupar a humanidade a uma crise de crescimento desmesurado». Tudo se passaria, se não interpretamos mal, como se o número de habitantes da Terra tivesse de ser cientificamente controlado em cada geração de acordo com os alimentos disponíveis, algo como o que sempre aconteceu entre as espécies animais, que têm de sofrer passivamente as flutuações da pitança e de resignar-se à redução a níveis viáveis quando a sua própria «explosão demográfica» venha a tornar-se insuportável. 
Mas o homem é o ser racional entre todos os seres que constituem a população animal da Terra. Pela razão que em si habita, libertou-se da sujeição cega à natureza e afeiçoou-a às suas necessidades. Errou muitas vezes, emendou-se e insistiu no caminho, e hoje, vivida uma história de milénios, acha-se, ao que parece, diante da possibilidade de desaparecer da face da Terra, não, como chegou a imaginar-se, através do desastre nuclear, do envenenamento radiativo, mas simplesmente, absurdamente, porque comeu tudo quanto havia para comer, ao mesmo tempo que sujava a mesa e a toalha... 
Importa pois saber (se, como se presume, não há nenhuma entidade demoníaca friamente apostada em fazer-nos desaparecer do mundo...) em que mãos se encontram de facto os destinos da humanidade. Já hoje centenas de milhões de seres humanos não comem quanto deveriam, embora os alimentos existentes bastassem para tal, se fossem produzidos e distribuídos em estrito acordo com as necessidades da humanidade. Estes males só poderão agravar-se com o aumento da população e com o desperdício das riquezas naturais, mas isto não há de significar que a «recessão demográfica» por alguns desejada se faça em termos de discriminação entre povos ricos e pobres. Pelo princípio dos vasos comunicantes, o lado «cheio» tende preencher o lado «vazio», porventura esvaziado para que isso mesmo aconteça... 

in "As opiniões que o DL teve"
25/05/1972

(NR: Bold meu)

sábado, 11 de junho de 2016

Crónica "A resistência renegada" (9/3/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica publicada no "Diário de Lisboa", crítica sobre a forma como o esquecimento propositado de alguns, semeiam o branqueamento dos factos e atrocidades cometidas contra o ser humano, ou o paradigma de que se reveste a reescrita da história.
Rui Santos 

Fotografia de 1983 - Marcha pela Paz

"A resistência renegada"
9 de março de 1972

"Nas épocas de convulsão, de crise continuada, os homens dividem-se por categorias de comportamento: aqueles que vivem acima da sua própria cabeça e aqueles que vivem abaixo dos seus próprios pés. Se há uma guerra e um país é ocupado, os primeiros são os resistentes, os segundos os colaboracionistas. A massa que flutua entre estes dois extremos tem como característica principal a passividade, mas mesmo esta se partilha entre a resistência e a colaboração. Donde se concluirá, se a interpretação não é forçada, que a neutralidade é impossível e contrária à própria natureza humana, para abusar uma vez mais desta cansada expressão... 
A última guerra (referimo-nos à que ocorreu entre 1939 e 1945, não à guerra de hoje ou de ontem, aqui ou além) pôs em confronto ou ao lado dos exércitos nacionais um outro exército, sem uniformes e às vezes sem armas, que passou à História com o nome comum e heróico de Resistência. Não é exagerado dizer-se que este exército e as razões da sua existência e ação não se extinguiram nunca. Desde o fim da guerra (daquela) sempre tem havido quem ocupe e quem resista... 
Julgar-se-ia, porém, que quando a morte passasse a rasoira niveladora, deitando definitivamente os que de pé se batiam contra ou a favor da humanidade, quando o tempo assentasse as cinzas sobre as cinzas - julgar-se-ia, dizemos, que só aos vivos e ao futuro competisse a próxima luta e que aos mortos coubesse apenas a função de exemplo, para edificação das gerações. Parece, contudo, que não é assim. Os vivos lutam numa frente tão ampla que chegam a combater contra os mortos, e o que temos diante dos olhos é também uma necromaquia - se a palavra existe... Que se há de pensar, por exemplo, diante desta notícia assustadora vinda de Roma: «No cemitério de Milão foram arrancadas placas dos túmulos dos resistentes mortos pela libertação da Itália.» 
Sítios que julgaríamos serem lugares de meditação, fontes de coragem, surgem subitamente como alvo de um ódio irracional que contra as próprias pedras inertes se encarniça. Os homens que são pó debaixo daquelas pedras viraram as costas à tranquilidade, à segurança, à própria vida, porque para eles a pátria havia sido algo de concreto e realmente vital, e não um conceito abstrato, vazio de sentido, sem raízes nem sol por cima delas. E é talvez a força do seu testemunho silencioso que está desencadeando o furor daquele perigo que se suporia extinto ou, quando muito, adormecido por longo tempo. Agora se vê que a fera se move, que tenta uma vez mais a conquista do mundo, em nome dos mesmos princípios básicos da sua doutrina. 
Em Milão, arrancam-se pedras com os nomes de homens que lutaram pela liberdade da Itália, a troco de coisa nenhuma. Em Washington, os membros do Partido Nazi Norte-Americano passeiam-se fardados, levando à frente o seu Führer particular e vão defender os racistas brancos, que nós julgámos terem todas as condições para se defenderem a si próprios... O dragão ensaia as forças, afia as unhas, tateia à procura de pontos fracos - e a História avisa-nos de que este é somente o primeiro passo. Outros se seguirão, numa espécie de engendramento contínuo de violências, se estes sintomas não forem rigorosamente interpretados. Se o mundo que hoje laboriosamente acede à democracia não se opuser com firmeza ao alastrar do Grande Mal." 

in "As opiniões que o DL teve"
09/03/1972

(NR: Bold meu)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Crónica "O Dia Internacional da Mulher" (8/3/72) - "As opiniões que o DL teve"

Crónica publicada no "Diário de Lisboa", sobre a precária condição feminina e a crítica mordaz contra os direitos por cumprir e reconhecer. 44 anos depois muitos deles, os direitos, estão por cumprir.
Rui Santos  

Pintura de José Santa-Bárbara, retratando a mulher do médico e o cão das lágrimas, 
personagens da obra "Ensaio sobre a Cegueira"


"O Dia Internacional da Mulher"
(8 de março de 1972)

"Comemora-se hoje o Dia Internacional da Mulher. Os modos de assinalar a data hão de variar certamente de país para país, e não cremos que o nosso se inclua no número dos mais pródigos em manifestações: a verdade é que somos bastante avessos a exprimir publicamente o que pensamos, quando de facto pensamos alguma coisa. 
No caso presente, temos até fortes dúvidas sobre uma geral compreensão do que signifique a existência de um Dia Internacional da Mulher, quando se sabe que a ninguém passou pela cabeça instituir o Dia Internacional do Homem... Um espírito irónico insinuaria que, sendo o mundo dos homens, mal parecia que eles se festejassem a si mesmos, quer em termos de confraternização quer em termos de reivindicação. Há um Dia Internacional da Mulher como há um Dia Internacional da Criança, e esta aproximação já nos dirá melhor que é no plano da sujeição que estes dois seres (a criança e a mulher) se encontram. O Dia Internacional da Mulher serve, enfim, para relembrar o que foi a difícil caminhada dessa parte da humanidade a que os homens vão buscar, com mais ou menos hipocrisia, as redenções de que dizem carecer: a mãe, a irmã, a noiva, a esposa... 
Mas o Dia Internacional da Mulher há de servir também para mostrar quão longe ainda está a mulher de pacificamente aceitar como possível o mundo em que vive. Em todos os planos de promoção (social, intelectual, jurídico, económico e político), a mulher segue o homem. Com mais rigor diríamos que a mulher é mantida atrás do homem: muitas das suas conquistas são apenas aparência, e, quando se tornam reais, correm o risco de, com maior ou menor rapidez, perderem conteúdo e poder de aplicação prática. Na maior parte dos casos, o tempo e os interesses dos homens encarregam-se de neutralizar as conquistas alcançadas: a emancipação (no plano económico, através do trabalho remunerado, no plano intelectual, graças ao desenvolvimento da instrução, e no plano político, pela obtenção dos direitos de voto e de elegibilidade) encontra-se ainda hoje limitada por mil e uma pequenas teias. À volta da mulher continua a tecer-se o emaranhado casulo que a manteve isolada do mundo. Há exceções, bem sabemos, mas essas, ao que dizem, só existem para confirmar a regra... 
Vai longe o ano de 1971 em que o Olympe de Gouges escrevia a sua «Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã»; já vai igualmente longe a época de Mrs. Pankhurst, aquela inglesa que criou, no princípio do século, a União Feminina Social e Política, e que mereceu, com as suas companheiras de missão e de luta, o apodo displicente, senão desprezativo, de «sufragista». Mas é apenas de ontem, de 1952, para sermos mais exatos, a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, aprovada, por maioria, pela Assembleia Geral das Nações Unidas... Veja-se o que o tempo teve de andar e o que as mulheres tiveram de esperar: e, mesmo assim, a Convenção não foi aprovada por unanimidade. O pior mal, porém, não é que tenha havido países contrários a essa aprovação, mas sim que até mesmo nos países que deram voto favorável, ao nível de representação nacional, vida quotidiana continue a ser para as mulheres urna contínua luta para que se não percam os frutos escassos da vitória. 
O Dia Internacional da Mulher deveria ser, sobretudo, um lia de exame de consciência para os homens. O verdadeiro pecado original, se bem pesarmos o significado das palavras, talvez seja esta milenária discriminação que fez do mundo um lugar governado por metade das pessoas que nele vivem: os homens. Não todos, evidentemente..." 

in "As opiniões que o DL teve"
08/03/1972

(NR: Bold meu)