Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

3 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Não tenho culpa de que o Evangelho volte tantas vezes a estas páginas. Quem o traz aqui são os leitores, os que gostaram e os que detestaram, aqueles que foram tocados no coração e aqueles a quem se lhes revolveu a bílis. Esta carta veio de Israel e assinam-na Martha e Yakov Amir." (...)

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domingo, 22 de janeiro de 2017

"Israel e os seus derivados" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (22/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/22841.html

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

"Israel e os seus derivados"
"O processo de extorsão violenta dos direitos básicos do povo palestino e do seu território por parte de Israel tem prosseguido imparável perante a cumplicidade ou a indiferença da mal chamada comunidade internacional. O escritor israelita David Grossmann, cujas críticas, em todo o caso sempre cautelosas, ao governo do seu país têm vindo a subir de tom, escreveu num artigo publicado há algum tempo que Israel não conhece a compaixão. Já o sabíamos. Com a Tora como pano de fundo, ganha pleno significado aquela terrível e inesquecível imagem de um militar judeu partindo à martelada os ossos da mão a um jovem palestino capturado na primeira intifada por atirar pedras aos tanques israelitas. Menos mal que não a cortou. Nada nem ninguém, nem sequer organizações internacionais que teriam essa obrigação, como é o caso da ONU, conseguiram, até hoje, travar as acções mais do que repressivas, criminosas, dos sucessivos governos de Israel e das suas forças armadas contra o povo palestino. Visto o que se passou em Gaza, não parece que a situação tenda a melhorar. Pelo contrário. Enfrentados à heróica resistência palestina, os governos israelitas modificaram certas estratégias iniciais suas, passando a considerar que todos os meios podem e devem ser utilizados, mesmo os mais cruéis, mesmo os mais arbitrários, desde os assassinatos selectivos aos bombardeamentos indiscriminados, para dobrar e humilhar a já lendária coragem do povo palestino, que todos os dias vai juntando parcelas à interminável soma dos seus mortos e todos os dias os ressuscita na pronta resposta dos que continuam vivos."

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

"Com Gaza" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (11/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/20742.html

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

"Com Gaza"
As manifestações públicas não são estimadas pelo poder, que não raro as proíbe ou as reprime. Felizmente não é esse o caso de Espanha, onde se têm visto sair à rua algumas das maiores manifestações realizadas na Europa. Honra seja feita por isso aos habitantes de um país em que a solidariedade internacional nunca foi uma palavra vã e que certamente o expressará no acto multitudinário previsto para domingo em Madrid. O objecto imediato desta manifestação é a acção militar indiscriminada, criminosa e atentatória de todos os direitos humanos básicos, desenvolvida pelo governo de Israel contra a população de Gaza, sujeita a um bloqueio implacável, privada dos meios essenciais à vida, desde os alimentos à assistência médica. Objecto imediato, mas não único. Que cada manifestante tenha em mente que já levam sessenta anos sem interrupção a violência, a humilhação e o desprezo de que têm sido vítima os palestinos por parte dos israelitas. E que nas suas vozes, nas vozes da multidão que sem dúvida estará presente, irrompa a indignação pelo genocídio, lento mas sistemático, que Israel tem exercido sobre o martirizado povo palestino. E que essas vozes, ouvidas em toda a Europa, cheguem também à faixa de Gaza e a toda a Cisjordânia. Não esperam menos de nós os que nessas paragens sofrem cada dia e cada noite. Interminavelmente."

domingo, 8 de janeiro de 2017

"Das pedras de David aos tanques de Golias" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (8 e 9/1/2009)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
Primeira parte dia 8 de Janeiro de 2009 - http://caderno.josesaramago.org/20424.html
Segunda parte dia 9 de Janeiro de 2009 - http://caderno.josesaramago.org/20584.html

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

"Das pedras de David aos tanques de Golias"
Este artigo foi publicado pela primeira vez há alguns anos. O seu pano de fundo é a segunda intifada palestina, em 2000. Atrevi-me a pensar que o texto não envelheceu demasiado e que a sua “ressurreição” está justificada pela criminosa acção de Israel contra a população de Gaza. Aí vai, portanto.

DAS PEDRAS DE DAVID AOS TANQUES DE GOLIAS
"Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilónia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro, foram redigidos depois do exílio da Babilónia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redactores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.Esta preocupação de exactidão temporal tem como único propósito oferecer à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno David e o gigante filisteu Golias, anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, enorme segundo todas as aparências, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo facto de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que, antes de ir enfrentar-se ao filisteu, apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola. Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de facto não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo do pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras."
(Continua)

Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

"Das pedras de David aos tanques de Golias" (e 2)
"Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestino para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as acções próprias resulatantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronómio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles é já um exercício de facto: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba."

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Israel" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (31/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/19421.html

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

"Israel"
"Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.

sábado, 19 de março de 2016

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites" - Adelino Gomes entrevista José Saramago (Público - 27/05/2002)

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites"
Adelino Gomes entrevista José Saramago - Público (27/05/2002)

A entrevista pode ser recuperada e consultada, aqui
em, http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/entrevistaAnoMorteRicardo.htm

"O livro está editado em 22 países. Em Portugal, vendeu quase 100 mil exemplares. Para muitos leitores, é o melhor romance de José Saramago. O autor acha que com ele tocou "o tecto". E chegou a Pilar, a jornalista espanhola, hoje sua mulher. Com o PÚBLICO, chegaram hoje às bancas mais 90 mil exemplares, no segundo livro da colecção Mil Folhas, vendido juntamente com o jornal a 5 euros.

José Saramago, 79 anos, acabara de regressar a casa, na ilha de Lanzarote, após mais uma das longas viagens e respectivo cortejo de compromissos que a concessão do Nobel só veio aumentar. As datas das próximas passagens por Portugal não coincidem com os prazos editoriais. Na impossibilidade de uma entrevista frente a frente, combina-se uma sessão de perguntas e respostas via Internet. Com direito a "repique", por parte do entrevistador. O tema é o livro que hoje o PÚBLICO distribui aos seus leitores. Mas Saramago aceita uma digressão pela polémica israelo-palestiniana, em que se envolveu após ter invocado Auschwitz quando se encontrava em Ramallah.


Contou, em mais do que uma ocasião, que o título "O Ano da Morte de Ricardo Reis" lhe surgiu num hotel, em Berlim. Pode especificar?
Passaram mais de 20 anos, não recordo o nome do hotel, se alguma vez o fixei. E não se tratou de um congresso, mas de um grupo viajante, daqueles que a Associação de Amizade Portugal-RDA organizava. Calhou-me ser o "porta-voz" da delegação, o que significou ter a meu cargo os discursos de agradecimento em todos os lugares e instituições que visitámos. Foi no final de um desses dias que a "coisa" aconteceu. Tinha visto em Lisboa um filme ("Anno Domini" não sei quantos, não recordo o nome do realizador) e, não sei porquê, ele veio-me à memória quando entrei no quarto do hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tinha publicado poucos meses antes "Levantado do Chão" e esta era a primeira ideia que me surgia para um novo livro. A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

É verdade que lhe acontece muitas vezes ter o título antes de escrever uma única palavra do livro?
Quase sempre. O Memorial esteve para chamar-se simplesmente "O Convento", mas como Agustina Bessa-Luís tinha publicado "O Mosteiro", achei que devia arredondar o título para não parecer que andava a inspirar-me em títulos alheios. Quanto a romances que começaram pelo título, são eles, por exemplo, "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "A Caverna" e este em que estou a trabalhar, "O Homem Duplicado".

Mas para aparecer um título deve haver antes uma ideia geral para a qual ele remete. Por exemplo, "Todos os Nomes" tem relação com uma busca de dados que andava a fazer sobre o seu irmão Francisco de Sousa, morto aos dois anos.
Alguns títulos, de facto, propõem imediatamente o que chama "uma ideia geral" da história. Não é, porém, o caso de "Todos os Nomes", que me apareceu num avião que me levava a Brasília. Já íamos a pouca altura, eu olhava a paisagem lá em baixo e de repente saltaram-me dentro da cabeça aquelas três palavras. Perguntei a mim mesmo que diabo quereria aquilo dizer e pensei que, tendo escrito um romance - "Ensaio sobre a Cegueira" - em que nenhuma personagem tem nome, poderia agora tentar outro em que apareceriam "todos os nomes". Uma espécie de contraponto. A ligação à busca de dados sobre o meu irmão Francisco em que andava empenhado deu-se algum tempo depois. Estava em Amherst, no estado norte-americano de Massachusetts, hospedado em casa do professor José Ornelas, e foi aí que se me desenhou na mente a história do funcionário do Registo Civil.

E quanto a "O Ano da Morte de Ricardo Reis"? Andava às voltas com Pessoa? 
Directamente, não andava às voltas com o Fernando Pessoa, mas todos nos lembramos que por aqueles anos (cinquentenário da morte, centenário do nascimento) era o Pessoa que andava às voltas connosco...

Começou a escrever o livro logo a seguir? Quanto tempo lhe levou? Esse tempo foi superior ou inferior ao normal? 
O Ricardo Reis teve de aguardar na fila que eu me livrasse do "Memorial", sobrou-lhe portanto a espera para chegar maduro ao momento de principiar a ser escrito. Creio que o trabalho de escrita não me ocupou mais de nove meses. Aliás, é esse, pouco mais ou menos, o tempo de que necessito para pôr um romance em pé.

Como concilia as exigências da editora (e dos leitores) com os eventuais caprichos da inspiração?
A minha relação com a Editorial Caminho não é desse tipo. Eles respeitam o meu trabalho, eu respeito o trabalho deles. Os prazos fixo-os eu a mim mesmo, não eles. E se alguma vez me atrasei na entrega de um original, foram bastante compreensivos para aceitar sem reserva as razões por que isso tivesse sucedido. Quanto aos leitores, não têm eles mais remédio que esperar pacientemente. Ou impacientemente, o que será melhor ainda...

Qual foi o livro que lhe levou mais tempo a escrever?
Talvez "História do Cerco de Lisboa".

E o de mais rápida elaboração?
"A Caverna".

Lembra-se do seu primeiro contacto com o heterónimo de Fernando Pessoa Ricardo Reis?
Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa.

Um espectador da vida, Ricardo Reis é, talvez de todos, o heterónimo com o qual José Saramago se identificará menos. Porquê então este privilégio que lhe concede ao fazê-lo "herói" do seu livro?
Quando mais tarde avancei no conhecimento de toda aquela "gente" - foi muito importante para mim a antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, cuja segunda edição, a que tenho, saiu em 1945 - e sobretudo comecei a penetrar mais profundamente no espírito do Reis, achei-me diante de algo que quase por instinto rechaçava, aquela sua ideia de que a sabedoria consiste em contentar-se cada um com o espectáculo do mundo... Pensava já então, e continuo a pensá-lo, que se a alguém o espectáculo do mundo contenta, ao menos que tenha a decência de não chamar sabedoria a essa atitude. Direi que "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele... Foi portanto para resolver o choque entre uma admiração sem limites e uma rejeição sem limites que escrevi o romance.

O próprio Fernando Pessoa pode dizer-se que esteve nos antípodas daquilo que José Saramago defende. Tanto no seu percurso pessoal como nas intervenções que ele foi fazendo na vida cultural e política do país. A sua admiração por Pessoa faz esse "distinguo"?
Todos sabemos que Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram. Mas realmente é difícil suportar com serenidade certas afirmações suas, como aquela de que a escravatura, afinal, não era um sistema assim tão mau...

Já agora, o mesmo quanto ao Padre António Vieira, cultor da língua, defensor dos índios e visionário do Quinto Império?
Provavelmente, para o Padre António Vieira, as visões de um Quinto Império não passaram de uma manha política (digo "manha" no melhor sentido da palavra), hoje sem particular significado, salvo para alguns "iluminados" que ainda imaginem por aí grandiosos futuros para Portugal. Quanto ao Quinto Império pessoano, esse era puro teatro. Não se vê que diabo de espiritualidade "futurante" poderia ter ele encontrado na modorrenta Lisboa dos anos 30...

Da sua lista de autores preferidos, constam outros escritores em que o fascínio pela obra literária não acompanhe a admiração pela pessoa? Pode especificar?
Falando de autores portugueses, confesso que não consigo ler aqueles a quem ao mesmo tempo não estime e respeite como pessoas. Sou menos exigente se se trata de autores estrangeiros.

Tem consciência de que esse é o "drama" de numerosos fãs da sua obra, que não o acompanham nas suas opções políticas e a quem nalguns casos essas opções repugnam até?
Se me lêem apesar de as minhas opções políticas lhes repugnarem (outra coisa seria se lhes repugnasse a pessoa que as tem), então o "drama" não é assim tão grande...

Alguma vez pensou em moderar a sua militância no terreno, de forma a alargar ainda mais a base de apoio literário de que goza no mundo, sobretudo a partir do Prémio Nobel?
A minha base de apoio literário nasceu simplesmente daquilo que escrevo, não de uma estratégia de autor ou de uma dosagem de ingredientes narrativos supostamente "abrangentes", para usar um termo do calão político. Moderar aquilo a que chama "a minha militância no terreno" para alargar ainda mais a dita base de apoio seria um cálculo indigno. Quem me quiser, terá de aceitar-me tal qual sou. Quanto aos outros, que vivam tão bem sem mim como eu vivo sem eles.

Disse uma vez numa entrevista: "Eu estou nos meus livros." Como explica que numerosos leitores (como se viu agora em Israel) adiram aos seus livros entusiasticamente mas reajam tão fortemente a posições políticas públicas suas?
Alguns críticos literários de Israel disseram que eu escrevi "Ensaio sobre a Cegueira" pensando no Holocausto e era voz corrente que um dos meus livros, suponho que o mesmo, havia sido lá escrito... Nada disto era verdade, simplesmente era o lado imaginário de uma relação privilegiada entre leitores e autor que se estabeleceu em Israel e que nunca alimentei de caso pensado. De certa maneira, consideravam-me um deles. Mesmo que para isso tivessem de saltar por cima de alguma interpelação minha, como aquela que sobre o conflito israelo-palestino se pode ler no "Evangelho segundo Jesus Cristo" (pp. 210-211 da edição portuguesa) e cuja parte final aqui deixo: "Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba." Nestas últimas palavras ("lho reconheçamos") está o nó da questão: Israel não reconhece o direito dos palestinos a viverem na sua própria terra, mas os judeus que leram aquilo fizeram de conta que não era nada com eles...

Acha que a sua opinião sobre a situação palestiniana vale a perda de milhares de leitores israelitas dos seus livros?
Ai de mim se quando vou dizer ou escrever alguma coisa começasse por pensar se com isso irei vender mais ou vender menos livros... Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

Não o impressiona o argumento daqueles que lembraram que os seus leitores se encontram em Israel e não na Palestina?
É um argumento estúpido e mesquinho, que denuncia uma mentalidade de avaro. A Israel não falta dinheiro para comprar livros, mas eu não me vendo a quem compre os meus, seja quem for e onde quer que esteja. Em todo o caso, que não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Já agora, tendo em conta o seu recente artigo "Das pedras de David aos tanques de Golias" (na imprensa internacional e no PÚBLICO de 03-05-02): reconhece que foi excessiva a comparação histórica que fez com a situação que prevalecia em Ramallah durante o cerco israelita? 
O meu artigo não retira nada às declarações que fiz em Ramallah. É simplesmente outra visão do problema. Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar. E se ainda há por aí quem tenha dúvidas, que consulte o "plano de paz" que Sharon levou a Bush para aprovação. Nele se contempla o reconhecimento de um Estado palestino sem capacidade militar e com o território reduzido, em que se criarão zonas de segurança para separar fisicamente israelitas e palestinos. O "plano" prevê um acantonamento permanente de tropas nos territórios palestinos, grades, vedações electrificadas e portas de acesso, como as que actualmente separam Gaza de Israel. Não é preciso ser um lince de inteligência para perceber que a aplicação de um tal "plano de paz" transformará definitivamente o chamado território palestino num enorme campo de concentração...

Voltando ao livro. Que métodos seguiu para reconstituir o ambiente de Lisboa naquele período (segunda metade dos anos 30), para além da consulta de jornais da época, abundantemente citados? Foi aos locais para melhor os descrever (Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, etc.)?
Apesar de ter apenas 13 anos em 1936, a minha lembrança do ambiente geral da cidade naquela época mantém-se bastante viva. Essa lembrança foi o pano de fundo de que me servi para fazer representar as minhas personagens. Mas, tal como refere, a substância dos factos colhi-a nos jornais, principalmente "O Século", pelas características populares que sempre o distinguiram: enquanto o "Diário de Notícias" afirmava ser o jornal de maior tiragem, "O Século" desforrava-se dizendo ser o de maior circulação... Não só visitei o Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, como escolhi o quarto - o 201 - em que iria alojar-se Ricardo Reis. Aos Prazeres fui também, claro. O resto teve de resolvê-lo a imaginação.

E quanto às personagens? Por exemplo as duas mulheres, Lídia e Marcenda, sendo figuras literárias [das "Odes" de Ricardo Reis], onde foi buscar o corpo e os tiques que lhes deu?
Marcenda não é uma "personagem literária" de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra aparece na ode "Saudoso já deste Verão que vejo" designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a carácter com a "minha" personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas...

O lançamento deste livro pelo PÚBLICO vai fazê-lo chegar a muita gente que de outra forma não o leria. Tendo em conta que entre os seus novos leitores se deverão encontrar muitos estudantes, que leituras lhes aconselharia a fazer para melhor compreenderem a história?
A leitura que eu próprio fiz, a da imprensa da época. Aprende-se muito a ler jornais 50 anos depois de terem sido publicados...

Foram vários os prémios atribuídos a "O Ano da Morte...". Qual a importância de que se revestiu, para si e para a sua "carreira", ter sido o Prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico "The Independent", num ano, 1992, em que concorriam, entre outros, livros de Gunter Grass e de Ismail Kandaré?
É fácil de imaginar se se souber que eu trabalhava nos Estúdios Cor quando esta editora, no princípio dos anos 60, publicou "O Tambor" de Gunter Grass. A publicação de "Terra do Pecado", em 1947, não tinha feito de mim um escritor, e "Os Poemas Possíveis" só seriam publicados em 1966. Literariamente, portanto, não existia. Ganhei em 1990 o prémio de "The Independent" em competição com Grass e, como se isto não fosse bastante, dão-me o Nobel antes de o darem a ele. É caso para dizer que não há justiça neste mundo...

Refere-se muitas vezes, nos "Cadernos de Lanzarote", à grande quantidade de leitores que tomam a iniciativa de lhe escrever ou de o interpelar de viva voz sobre os livros que escreve. Qual o lugar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nas preferências confessadas dos seus leitores?
Não faltam leitores que consideram ser "O Ano da Morte de Ricardo Reis" o meu melhor romance, mas não se me peça que concorde com eles, uma vez que iria contrariar aqueles outros leitores que, por razões não menos pertinentes, defendem outras preferências.

Qual o lugar dele na sua lista pessoal da obra escrita até agora? Porquê?
Apenas direi que nada poderia consolar-me se por alguma arte diabólica o "Ricardo Reis" desaparecesse da minha bibliografia. Não sei se é ele o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto. E toquei algo mais, se se me permite uma nota pessoal: foi "O Ano da Morte de Ricardo Reis" que nos juntou. Refiro-me a Pilar, claro está...


Frases

Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro.

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele...

Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram.

Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

(...) Não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar.

Não sei se ["O Ano da Morte de Ricardo Reis"] é o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

José Vericat entrevista José Saramago em Ramala (Cisjordânia - BBC em 02/06/2007)

Recuperação da breve entrevista que pode ser consultada e lida aqui,
em http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/misc/newsid_1902000/1902254.stm

O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramala com o escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1998. Suas recentes críticas a Israel no conflito do Oriente Médio, comparando os territórios palestinos aos campos de concentração nazistas, têm desatado uma incendiada polêmica.



BBC – Que propósito teve sua visita à Palestina?
Saramago – “A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos”.

BBC – Que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?
Saramago – “Vamos ver, isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo um conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social Palestina pela impossibilidade de comunicação”.

BBC – Que pensa de Israel?
Saramago – “Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.

Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os cascos azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém”.

BBC – Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje em dia e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular os campos de concentração?
Saramago – “Isso de Auschwitz foi evidentemente uma comparação forçada a propósito. Um protesto formulado em termos habituais quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que no há câmaras de gás para exterminar os palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária. Ninguém pode sair de seus povoados.

Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês lhes molesta muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra e em lugar de dizer Auschwitz, digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas, não é uma questão de mais trágico ou menos trágico, é o fato em si. Isto que está passando em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo”.

BBC – Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?
Saramago – “Aqui não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito, quer dizer, se fazem e se repetem infinitamente”.

BBC – O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?
Saramago “Uma novela que eu publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. Até estes dias eu era aqui um bestseller. Agora meus livros estão sendo retirados das livrarias. É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo como está e como é não vale a pena.

Esta sim que poderia ter [relevância] se os políticos se interessassem pela literatura. Se há algo sobre o que refletir é sobre a capacidade que temos, ou que não temos de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano e o respeito ao outro”.

BBC – Qual é o papel da literatura neste conflito?
Saramgo – “Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida não só do país, de um senão também do mundo”. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

José Vericat da "BBC", entrevistou Saramago em Ramalah - "O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino" (2002)


Momento em que José Saramago foi apresentado a Yasser Arafat


O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramalah com o escritor português José Saramago. (2002)

"O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino"

Entrevista pode ser lida e consultada, aqui
(também na versão espanhola)


BBC — Que propósito teve a sua visita à Palestina?
Saramago — A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos.

BBC — O que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?
Saramago — Vamos ver: Isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Aqui trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social palestina pela impossibilidade de comunicação.

BBC — Que pensa de Israel?
Saramago — Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.
Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os capacetes azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém.

BBC — Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje, e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular nos campos de concentração?
Saramago — Isso de Auschwitz foi, evidentemente, uma comparação a propósito. Um protesto formulado em termos habituais, quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que não há câmaras de gás para exterminar palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária: Ninguém pode sair de seus povoados.
Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês incomoda muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra, e em lugar de dizer Auschwitz digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas; não é uma questão de mais trágico ou menos trágico: É o fato em si. Isto que está acontecendo em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo.

BBC — Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?
Saramago — Não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito; quer dizer: se fazem e se repetem infinitamente.

BBC — O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?
Saramago — Uma novela que publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. (Até há alguns dias, eu era aqui um bestseller. Agora os meus livros estão sendo retirados das livrarias) É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo, como está e como é, não vale a pena.
Isto poderia ter relevância, se os políticos se interessassem por literatura. Se há algo sobre o que refletir, é sobre a capacidade que temos, ou que não temos, de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano, e o respeito ao outro.

BBC — Qual é o papel da literatura neste conflito?
Saramago — Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter, é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida, não só no seu próprio país, mas também no mundo.

BBC — A imprensa internacional publicou declarações atribuídas ao senhor referindo-se aos atos do exército israelense como atos “nazistas” e fazendo críticas bastantes duras ao governo de Israel. Qual é exatamente a sua posição diante do conflito no Oriente Médio?
Saramago — A declaração de que o exército israelense se tornou “judeu nazi” foi de um grande intelectual judeu (Yeshayahu Leibowitz, que morreu em 1994) respeitado tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista intelectual. Não estou usando essa espécie de guarda-chuva para me proteger de qualquer tempestade. Mas esta idéia de que algo de profundamente negativo, destrutivo, entrou no espírito de Israel, eu não fui a primeira pessoa a dizer. Hoje mesmo outros israelenses reconhecem isso.

BBC — Outra afirmação que o senhor teria feito sobre Israel, foi comparar a forma com que o governo israelense tem tratado os palestinos como uma espécie de apartheid…
Saramago — Não é uma espécie de apartheid, é rigorosamente um apartheid, e sobre isso só tem dúvidas quem não veio aqui nunca. Se alguém quiser ser informado, supondo que as autoridades militares permitam o acesso, a passagem nos postos de controle para chegar às aldeias e cidades palestinas que estão completamente isoladas, onde não se pode entrar e de onde não se pode sair sem a autorização do Exército, se se quer ver como isto é efetivamente, há que vir aqui.
A informação que nós temos, aquela que circula internacionalmente, dá sempre uma imagem de um lado e deixa outro praticamente omisso, ou apenas com as imagens de palestinos disparando para o ar quando acompanham os seus mortos. Eu não estou aqui dizendo que os israelenses são uns demônios e que os palestinos são uns anjos, não se trata disso, anjos e demônios há de um lado e de outro.
O que se passa é que a situação política aqui, a situação de guerra que se criou, teve como resultado a ocupação militar de praticamente todo o suposto território palestino, o isolamento de todas as aldeias e cidades palestinas e a impossibilidade de se circular no próprio território. Isso, se não é apartheid, como é que havemos de chamar?

BBC — O senhor diria que nos últimos anos, principalmente durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, essa situação tem se agravado?
Saramago — Ela tem se agravado nos últimos tempos. Mas, enquanto foi primeiro-ministro o sr. Barak, construíram-se mais assentamentos no interior do território palestino do que aqueles construídos quando foi primeiro-ministro o sr. Netanyahu. Quer dizer, o mesmo sr. Barak, que supostamente se propunha a fazer a paz, instalava cada vez mais assentamentos no interior dos territórios ocupados.
E aqui há um ponto que é necessário reconhecer: os assentamentos precisam do exército para se defender. Mas o exército precisa dos assentamentos para estar instalado ali. E desta lógica, que é uma lógica absolutamente infernal, não se consegue sair, porque efetivamente a paz que querem os governos de Israel não é uma paz justa, não é uma paz que reconheça efetivamente os direitos dos palestinos de ter um Estado, de ter uma identidade própria, uma vida que seja sua. Os palestinos são desprezados pela população de Israel, e isso não é demagogia, é a mais pura das verdades, e quem quiser confirmá-la que venha aqui.

BBC — O senhor falou sobre como a comunidade internacional vê esse conflito. O senhor não acredita que, principalmente depois de atos de extrema violência como o atentado de ontem (quarta-feira, em que 20 israelenses foram mortos numa explosão) fica mais difícil ainda para a comunidade palestina divulgar a sua luta, as suas reivindicações à comunidade internacional?
Saramago — Em primeiro lugar, eu não estou nem a justificar nem a defender este ato.
Todos os atos de violência praticados pelos palestinos são obstáculos à paz. Mas os atos de violência praticados pelo exército israelense não são obstáculos à paz… Aldeias arrasadas, milhares de mortos, gente expulsa em 1948… Fala-se do Holocausto judeu, mas também houve uma espécie de Holocausto palestino. Um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas em 1948.
Ainda ontem estivemos em Gaza, e 150 casas foram destruídas por tanques e escavadeiras. Aqui se castiga uma ação de violência praticada por um palestino com a destruição da casa, ou de casas, ou de uma aldeia. Então os atos de violência dos israelenses não são obstáculos à paz?

BBC — Nessa situação, que perspectivas o senhor vê para esse conflito? O senhor tem algum otimismo em relação ao plano de paz saudita, ou às atuais negociações?
Saramago — Eu não tenho nenhum otimismo, porque efetivamente o governo de Israel não quer a paz. Quer uma paz que lhe convenha, não uma paz justa que levasse em conta o direito do povo palestino de ter a sua própria vida. Sou completamente cético em relação ao êxito de qualquer plano.
E, recentemente, numa proposta dos Estados Unidos nas Nações Unidas, foi reconhecido que o povo palestino tem direito a viver no seu próprio Estado. Mas como se organiza esse Estado, se os assentamentos israelenses nos territórios ocupados são 205, e todos eles protegidos pelo exército e eles próprios armados? Como se quer falar num plano de paz que ignore essa realidade?

BBC — Devido às suas mais recentes declarações, tem havido em Israel um boicote aos seus livros. Como o senhor vê esse tipo de reação?
Saramago — Isso é natural. Acho que, no fundo, são reações de pessoas que não agüentam que se lhes diga a verdade. Retirar os meus livros das livrarias é, talvez, um primeiro passo, que pode levar a um segundo passo, que é queimá-los em praça pública. Tudo pode acontecer.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A Guerra de Israel contra a região da Palestina, em "Das pedras de David aos tanques de Golias"

Artigo original, publicado no jornal "Público", a 3 de Março de 2002.

"Das Pedras de David aos Tanques de Golias"

(Diário de Notícias, 29 de Março de 2002)

No "Caderno", volta a inserir esta crónica, e apresenta a seguinte explicação.

"Este artigo foi publicado pela primeira vez há alguns anos. O seu pano de fundo é a segunda intifada palestina, em 2000. Atrevi-me a pensar que o texto não envelheceu demasiado e que a sua “ressurreição” está justificada pela criminosa acção de Israel contra a população de Gaza. Aí vai, portanto."

1.ª parte (8 de Janeiro de 2009), em http://caderno.josesaramago.org/20424.html

2.ª parte (9 de Janeiro de 2009), em http://caderno.josesaramago.org/20584.html

"Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilónia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro, foram redigidos depois do exílio da Babilónia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redactores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.
Esta preocupação de exactidão temporal tem como único propósito oferecer à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno David e o gigante filisteu Golias, anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, enorme segundo todas as aparências, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo facto de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que, antes de ir enfrentar-se ao filisteu, apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola. Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de facto não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo do pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.

Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestino para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as acções próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronómio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles é já um exercício de facto: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.
As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba."