Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 20 de dezembro de 2015

"José e Pilar Um filme cheio de vida" (Público 14/10/2010)

"José e Pilar Um filme cheio de vida", por Isabel Coutinho, aqui
em http://www.publico.pt/temas/jornal/jose-e-pilar-um-filme-cheio-de-vida-20399926


"Com o documentário Autografia/Um Retrato de Mário Cesariny, Miguel Gonçalves Mendes recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004. Regressa hoje ao festival com José e Pilar, o filme da sessão de abertura, já esgotadíssima, na Culturgest

Há uma certa escuridão naquele corredor do Museu Nacional de Arte Antiga, mas a câmara de Miguel Gonçalves Mendes aproxima-se e o espectador do documentário José e Pilar percebe que o homem que está a olhar para a vitrina da exposição Encompassing the Globe é o Prémio Nobel da Literatura português.

José Saramago, absorto nos seus pensamentos, contempla o banco que pertenceu ao arquiduque da Áustria, Maximiliano II, e foi feito com os ossos do elefante que lhe foi oferecido pelo seu tio, João III de Portugal. A peça, agora de museu, está ligada ao romance A Viagem do Elefante que Saramago escreveu durante os anos em que a câmara do realizador português entrou dentro da intimidade do Nobel e da sua mulher, Pilar del Río.

Pode ser visualizado aqui, via YouTube


Quando fez José e Pilar, Miguel Gonçalves Mendes tinha um objectivo: não dar aos espectadores a sensação que estavam a ver um documentário. "Não quis que fosse um documentário tradicional, com um lado pedagógico, a falar do homem e da obra", explica o realizador. Isso já estava feito em outros suportes (livros, reportagens de televisão, etc.). O que lhe interessava era contar esta história como se fosse uma narrativa clássica em termos de estrutura: "Um homem que quer escrever um livro, que adoece, que tem medo de não conseguir acabar o livro, mas consegue recuperar e não só acaba esse romance, como ainda tem uma ideia para outro."

Se no documentário Autografia/Um Retrato de Mário Cesariny, pelo qual Miguel Gonçalves Mendes recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, se sentia haver alguém a despedir-se, no sentido quase testamentário, em José e Pilar há sofreguidão de vida e de desejo de viver. "De José e de Pilar, aquilo que mais me fica é que a vida é só esta, ponto final. E, no caso de José, como ele diz, tudo lhe aconteceu demasiado tarde, há um caso de urgência." O escritor morreu no dia 18 de Junho de 2010 e o filme foi montado antes de ele morrer. "No dia em que morreu, jurámos a nós próprios não tocar em nada da montagem", conta Mendes. "Seria um processo suicida, íamos destruir o filme todo." Na altura, um amigo lembrou ao realizador: "Miguel, o filme é dos vivos para os vivos."

Um filme sem falsidades

"Eu tenho ideias para romances. Ela [Pilar] tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante", diz a determinada altura, brincalhão, José Saramago. Mas é claro que sabia. Miguel Gonçalves Mendes acompanhou o casal por vários locais do mundo durante mais de três anos, tem filmadas cerca de 240 horas de material e passou um ano e meio na mesa de montagem. Fez uma primeira versão de José e Pilar com seis horas, outra de três e a versão final que abre hoje, às 21h00, a VII edição do DocLisboa, na Culturgest, em Lisboa, tem duas horas.

José Saramago viu a versão de três horas. Muitas vezes, durante a rodagem, o escritor teve dúvidas sobre a pertinência de se filmarem determinadas coisas, explica Miguel Mendes, mas quando viu o resultado disse-lhe que, mais do que um filme sobre ele e Pilar, era um filme sobre a vida. "Pareceu-lhe mais interessante do que estava à espera", conta Pilar del Río, num e-mail enviado ao P2 a partir de Milão. "Riu-se com algumas cenas, achámos que estávamos feios noutras, inteligentes por vezes, fortes nas discussões... Ficámos surpreendidos ao ver como representávamos pouco, com o estarmos sem maquilhagem, de estar o José, de roupão, como se não existissem câmaras...", diz. Sentiram que parte da vida deles voltava, que tinham o privilégio de a ver como numa máquina do tempo, com naturalidade, porque "é um filme sem falsidades, cheio de verdade, de pequenas coisas, de vida, simplesmente", continua Pilar. O retrato que Miguel fez do vosso quotidiano é real? Revê-se nele? "Absolutamente. Miguel foi um retratista fiel, embora com personalidade própria. Fez o retrato que qualquer pintor quereria assinar. Sabe manejar os pincéis e a câmara. E os tempos. Tem carácter como realizador, chegará longe."

Em José e Pilar assistimos à rotina do dia-a-dia, à inauguração da biblioteca, aos cães a rondar a casa, ao casamento, a funerais, ao regresso à Azinhaga e a Castril, à criação da fundação, aos momentos da doença. Numa das cenas mais impressionantes vemos José Saramago na cama do hospital a olhar para um computador onde, em directo, está a ser transmitida a imagem dos amigos e família a desejarem-lhe "Ano Feliz 2008".

Sabe que eu te amo, né?

Momentos interessantes são também aqueles que se passam no México na Feira de Guadalajara e no Brasil, quando o autor de Memorial do Convento foi lá lançar A Viagem do Elefante. Há a conferência de imprensa em que José se queixa que os jornalistas lhe fazem sempre as mesmas perguntas onde quer que vá. Uma jovem aproxima-se do escritor e repete várias vezes algo que o escritor não percebe ("Saramago, eu te amo"), acabando por lhe segredar ao ouvido: "Você sabe que eu te amo, né?" O escritor português desmancha-se a rir. O editor brasileiro Luiz Schwarcz e a sua mulher, Lilia, antropóloga, em casa de quem Saramago ficava no Brasil, emocionaram-se muito. "O humor do filme nos agradou imenso, como vocês diriam. Não temos muito a dizer. Sentimos muito do que privamos ao ter José e Pilar sempre em casa", responderam por e-mail. Este filme tem a capacidade de emocionar e de fazer rir quem o vê. Os protagonistas, José e Pilar, não se emocionaram, simplesmente reviveram. E riram-se de algumas coisas que se passaram e que a câmara viu.

Para Pilar del Río, não há nenhuma lição a tirar deste filme, "só a experiência de compartilhar com alguém muito amado, com José Saramago, parte da sua vida, entrar na sua intimidade, porque Saramago abriu as suas portas e expôs-se". "Parece-me isso tão admirável que eu, sim, estou emocionada ante o exemplo magnífico, da generosidade assombrosa de José Saramago neste filme, na sua vida. Como o filme revela."

José e Pilar chega aos cinemas portugueses a 18 de Novembro e terá antestreia a 16 de Novembro, data do aniversário de Saramago."




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Roteiros de Leitura da obra "O Homem Duplicado"

Roteiro de Leitura
"O Homem Duplicado"
Caminho, 2002

Um roteiro não nos mostra o local físico, porém, 
nos orienta pelos caminhos a percorrer até ao seu destino.
São 83 pontos de interesse, em sucessão e não antecipáveis, tal como se pode imaginar e idealizar num trajecto entre o ponto de partida e o de chegada. Pelo meio, um caminho percorrido. 
Mil vozes e imagens transporta este "O Homem Duplicado".
(9 a 23 de Novembro de 2015)


1. Tertuliano Máximo Afonso (TMA) professor de Historia do ensino secundário TMA

2. Homem divorciado, com quase 40 anos, solitário e a solidão

3. Aluga filme Quem Porfia Mata Caça, sugerido pelo colega de matemática

4. Alusão ao livro de estudo das antigas civilizações mesopotâmicas

5. O filme que é visionado e a insónia que o desperta e faz de novo percorrer o filme

6. O primeiro espanto e o choque... a descobeta de um actor em tudo igual a TMA

7. Ligeiras diferenças fisionómicas, o cabelo e o bigode, a cara mais magra

8. O filme tem 5 anos e TMA descobre através de uma fotografia que há cinco anos não tinha diferenças em relação ao actor

9. A insónia e as novas perguntas. O que é ser um erro?

Imagens do filme "Enemy" baseado na obra em análise
Aqui link para mais informações em https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Duplicado_(filme)

10. Amanhece e a consciência fala. A consciência chama-se Senso Comum. Perguntar ou não ao colega o porquê da sugestão de um filme antigo e de segunda categoria!? Teria alguma outra intenção? Dar passos, mas quais passos. Deixar tudo como está

11. O confronto com o seu eu reflectido no espelho

12. Na escola o encontro com o colega de matemática, as trocas de impressões sobre as culpas do mundo. A pergunta fulminante que atinge TMA

13. A ira dos mansos e os humores da Antiguidade e do Agora

14. Alusão de TMA em reunião de professores ao método de ensino da História. Deveria começar no presente até ao passado. A força dos gestos e subgestos

15. No vídeo clube compra a cassete que tinha alugado e traz mais 6

16. A procura do nome do actor por exclusão de repetições dos elencos dos filmes

17. A mensagem no gravador de Maria da Paz (MP) e do colega de matemática. A alusão à ex-mulher. A reflexão com o senso comum

18. A resposta para o gravador de MP

19. É identificado o dia da semana, que sendo uma sexta feira permite alugar todos os filmes disponíveis na loja. Alusão ao tipo de cidade onde a acção se desenrola

20. Um continuo que pede a presença do senhor doutor no gabinete do director da escola. A conversa no gabinete sobre a forma de ensinar a História e que continuou ao almoço. 

21. Passagem pelo vídeo clube. 36 cassetes para alugar já à sua espera. Fim de semana para apurar da lista de nomes qual o do seu igual. Filmes de fraca qualidade e o actor sempre presente em papéis secundários


22. A visita supresa de MP. O pânico de TMA por ter as cassetes à vista e dar uma justificação falsa mas credível
23. MP visita TMA na sequência das mensagens trocadas nos gravadores de mensagens. Queria ter uma resposta e uma esperança
24. TMA cedeu ao pânico e amou mais uma vez MP. Sairam de casa como casal. Chegou a casa como homem a procura da sua cópia.
Em A Deusa do Palco descobre-o, chama-se Daniel Santa-Clara (DSC)

25. Começou a procura de DSC. Os nomes pela lista telefónica. 3 nomes com o mesmo apelido. 2 telefonemas e sem avanços, ao terceiro telefonema do outro lado dizem que já alguém tinha procurado a mesma pessoa

26. Os 3 contactos feitos, TMA decide enviar uma carta à produtora dos filmes a pedir informações de DSC. Não pode enviar com seu nome e morada. Dá uma falsa desculpa a MP para enviar com os dados dela. Aceita mas fica no ar a dúvida dela. Caminhos falsos e falsificações. TMA perde o controlo na relação que queria romper

27. A carta escrita e a assinatura de MP falsificada pronta a seguir para o marco do correio. Antes uma última tentativa. Telefona para o número que nunca foi atendido sem sucesso

28. Telefona a Carolina Máximo (CM) a mãe de TMA. Uma conversa preocupada. A mãe ansiosa

29. A carta colocada no marco e os filmes entregues no clube de vídeo


30. O colega de matemática que o acha estranho desde que viu o filme. O director que lhe propõe um trabalho para as férias dando razão à forma como TMA pretende ensinar a História, da frente para trás

31. Duas semanas de marasmo. MP telefona do banco a comunicar a chegada da resposta à carta. Recolhe a carta e fica a saber o seu conteúdo. Uma fotografia autografada por DSC e uma carta informando o nome verdadeiro do actor - António Claro - e a morada da residência

32. É para lá que vai. A busca de AC o homem e não o actor é mais efectiva e sólida. O senso comum entra no carro para lhe dar os últimos avisos. Confronto entre TMA e o seu senso comum

33. Volta a casa. Tem o nome e morada falta o número de telefone que está na lista telefónica. E agora, pergunta-se

34. Telefona para AC e atende uma mulher. A mulher reconhece a voz de AC. Gera-se a confusão. TMA pergunta por DSC e não por AC. Desliga fica no ar a suspeição

35. TMA opta por procurar um disfarce para não ser reconhecido na incursão à rua de AC

36. Jantar com MP. Ela confronta-o com a carta e seu conteúdo. Conflito e suspeição. Na chegada à casa de MP,  TMA decide confessar as mentiras mas sem se pronunciar sobre a razão das mesmas. Clima de paz entre os dois. MP contenta-se em saber que a mentira existe e que a verdade chegará

37. TMA disfarçado com barba postiça visita a área onde mora AC

38. Fica a dúvida será TMA o original ou a sua cópia

39. Deu o passo seguinte. Telefonou e atendeu a mulher de AC. Com AC apresenta-se e falam da voz, das parecenças físicas e sinais que ambos têm. AC exige não voltar a ser incomodado


40. AC conversa com a mulher. Helena (H). Dúvida e inquietação. Que quererá TMA? Serão mesmo iguais? E quem será um ou o outro? Fica a pairar o temor. TMA sente-se confortável, fez o que tinha e podia fazer
41. A busca de TMA e a sua inquietação foi transferida para cada de AC e H. Pairam sombras nesta casa

42. Noite de sonhos ou pesadelos para H e que na manhã seguinte procura a morada de TMA na lista telefónica

43. AC sai de casa e vai em direcção da rua onde TMA vive. Coloca um bigode para disfarce. TMA em casa trabalha no documento sobre a forma de ensinar a disciplina de História. Não se cruzam

44. O narrador anuncia que TMA não voltará à escola e ao ensino. A saber depois

45. AC vai para casa e adensa a incerteza e incómodo do passo a tomar. Tem nova personagem para preparar, um advogado

46. AC telefona a TMA. Marcam um encontro para tirar as dúvidas. Num local fora da cidade que AC enviará os dados da localização por carta. Um irá armado sem balas o outro não

47. Encontro com MP, perde-se a chama definitivamente?
48. TMA põe a barba postiça e faz reconhecimento da casa onde se irá encontrar com AC

49. TMA telefona à mãe CM. Da promessa da visita em breve até à prometida conversa franca entre ambos

50. Chega o momento do encontro. AC incrédulo. TMA preparado. As comparações fisionómicas, os sinais, cicatrizes. A menção à forma como TMA chegou a AC. Os telefonemas aos 3 DSC e que já tinha sido contactado por outro homem que não o TMA

51. A comparação da data de nascimento e hora ou a presunção de que o primeiro a nascer será o original do seu duplicado


52. TMA nasceu 31 minutos depois de AC. Ficou em clara desvantagem. Morrerão ao mesmo tempo ou com diferença de 31 minutos. E a prova do teste de ADN recusada por ambos. Despediram-se. Terminou o momento de crise. O encontro e comprovação das semelhanças físicas

53. De volta a casa TMA tem o senso comum dentro do carro. O diálogo de TMA vem a dar por concluído este episódio. O senso comum dá-o por agora iniciado

54. Inesperadamente TMA envia a barba postiça para AC. H e AC têm um confronto verbal pelo que será o futuro. Ignorar o impossível ou manter vivo o pensamento. H mostra-se sofredora

55. TMA visita a mãe. O cão Tomarctus e a tentativa de se furtar à conversa com CM

56. AC lembra-se da conversa com TMA, a da carta a pedir a morada dele

57. H vive numa completa letargia alimentada a comprimidos. O conhecimento da existência de TMA é um foco de destruição do casal

58. A ida de AC à produtora mostrou-se frutífera, uma funcionária consegue localizar uma carta enviada não por TMA mas por MP

59. AC assume agora a posição de ataque. Deixa mensagem a TMA a exigir novo encontro, telefonará sem dizer nada a MP a quem passará a seguir os seus passos, e H não será conhecedora destes dados

60. AC tem o primeiro contacto visual com H e segue-a de autocarro até ao trabalho
61. TMA conta à mãe CM as razões do seu desassossego, o encontro com AC e a relação sôfrega com MP

62. Regressado a casa. A paz no espírito. Tem mensagens no gravador do telefone. Director e o colega de matemática. A 3a é de AC exigindo novo encontro. Da paz ao terror num ápice

63. O banho frio para acalmar e só depois as chamadas que ficaram por ouvir. A 4a foi de um silêncio de quem não quer falar, a última de MP em tom de cobrança e mágoa. TMA devolve a chamada, promete-lhe amor e vida em conjunto

64. Decorrem alguns dias em que TMA despacha o trabalho para entregar ao director para depois pensar na mudança de casa. Viverá com MP e sua mãe, deixará a sua cada

65. AC desloca-se a casa de TMA numa atitude de vingança. TMA mexeu num assunto que tomou dimensões incontroláveis. AC pretende colocar MP em jogo já que H sofreu um choque que a abalou e à relação




66. Entre TMA e AC existe um confronto verbal e quase físico de agressão. A jogada de AC sobre TMA é de vingança. Faz-se passar pelo namorado e terá combinado levar MP a passar uma noite na casa de campo. Resignação de TMA. AC prepara o disfarce levando roupa e o carro de TMA. Momento alto de crise

67. AC faz de TMA na sua casa de campo onde está vingando a ousadia inicial do seu duplicado. Não deixa de ser um encontro sexual. MP é uma mulher feliz

68. TMA em casa decide como se tratasse de uma jogada de xadrez tomar posição. Pega nas roupas e haveres que AC deixou na mudança e toma-os para se colocar na figura de AC. Segue para casa dele e leva consigo o livro dos mesopotâmicos

69. No elevador tem companhia. O senso comum a quem desvenda o seu plano. TMA dormirá com H e deixará a AC a amarga surpresa de quando retornar a sua casa ter de explicar que na noite anterior ter dormido com H sem o saber. Está na sua casa de campo com MP sem saber que TMA está nesse momento na sua casa

70. TMA passa uma noite de sexo e pesadelos. O conforto de H e o sexo de novo presente

71. A manhã é de paz. TMA com a ansiedade de sair de casa para não ser confrontado por AC. O tempo que passa e o sentimento de permanência que vai aumentando. H sai para ir às compras

72. Passa o tempo e não há sinal de AC. TMA sai do apartamento à pressa. H em choro

73. TMA ao sair do apartamento decide primeiro telefonar para casa de MP. Alguém atende e diz que MP e o seu noivo morreram num acidente de automóvel

74. TMA cai num assombro de culpa. A culpa moral e o peso da consciência

75. Para onde irá? É um noivo, professor de Historia e filho morto. Não poderá assumir a vida de AC. Procura um hotel para passar a noite e reflectir sobre os passos a dar de seguida

76. Agonia crescente. Liga para casa na esperança da mãe já ter chegado. Ninguém atende à 1a e na segunda tentativa deixa recado no gravador de chamadas. Espera que ela oiça. Deixa os dados do hotel onde está e o nome do cão Tomarctus

77. A mãe chega ao hotel e TMA revela toda a história. Fica a saber que o acidente acontece porque o carro foi atirado para debaixo de um camião

78. Na manhã seguinte compra os jornais e fica a saber que o carro é atirado para debaixo do camião e o os ocupantes MP e AC iriam a esbracejar

79. TMA leva o jornal da notícia do acidente e apresenta-o em casa de H. H surpresa porque pensa que AC saiu ontem de casa sem dar mais notícias e agora é confrontada com a sua presença e o mundo lhe desaba aos pés. AC não está e o seu duplicado se apresenta a dar a notícia da morte. Devolve o anel e a carteira e outros haveres

80. MP deitada ao lado de TMA que supunha ser o seu noivo e não AC descobre a marca da aliança retirada. O acidente é consequência desta descoberta

81. TMA e H, o desenrolar da conversa leva a que ela proponha ao duplicado que ocupe o lugar de AC. A cena termina num abraço e de aliança novamente ao dedo de TMA

82. CM chorará o filho que não morreu e H fingirá que AC não está morto

(Capa da edição actual da Porto Editora)

83. TMA agora AC sentado a ler o seu livro que o acompanha durante toda a história. Toca o telefone e do outro lado alguém pergunta por DSC, a conversa que TMA tinha originalmente efectuada e agora repetida por um terceiro duplicado. Marcam de imediato um encontro. TMA sob capa de AC sai vestido com a arma carregada. Adivinha-se mais uma morte

sábado, 6 de junho de 2015

"José & Pilar" O filme documentário



Sinopse
"A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo – ou, pelo menos, em torná-lo melhor.

José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, “tudo pode ser contado doutra maneira”.

Mais informação aqui

FICHA TÉCNICA E EQUIPA

TÍTULO: “José e Pilar”

GÉNERO: Longa-metragem documental

DURAÇÃO: 125’

SUPORTE: HDV 16x9

IDIOMA ORIGINAL: Português / Castelhano

PRODUÇÃO: JumpCut (Portugal)

CO-PRODUÇÃO: EL DESEO (Espanha) e O2 Filmes (Brasil)

PRODUTOR ASSOCIADO: Abel Ribeiro Chaves / OPTEC, Lda

TELEVISÕES ASSOCIADAS: SIC (Portugal), YLE (Finlândia), SVT (Suécia)

EQUIPA


REALIZAÇÃO: Miguel Gonçalves Mendes (Portugal)

PRODUTORES: Agustín Almodóvar / Bel Berlinck / Esther García / Fernando Meirelles / Miguel Gonçalves Mendes 

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Daniel Neves (Portugal)

MONTAGEM: Cláudia Rita Oliveira (Portugal)

SOM:  Olivier Blanc, Adriana Bolito, Bárbara Álvarez Plá, Hugo Alves

MISTURA: Alessandro Laroca e Armando Torres Jr. (Brasil)

FOTOGRAFIA DE CENA: Susana Paiva (Portugal)

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Ana Jordão/ Daniela Siragusa (Portugal)




terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Janela Aberta" do antigo RCP de Aurélio Gomes - ...quando Saramago apareceu de surpresa no programa

Já aqui tinha mencionado (abrir link abaixo) o episódio em que José Saramago e Pilar del Río, surpreenderam com a sua visita, Aurélio Gomes e restante equipa, numa emissão do programa "Janela Aberta" do extinto Rádio Clube Português. Esta emissão, dizia respeito à estreia do filme "Blindness", baseado na obra "Ensaio sobre a Cegueira", e que a dupla radiofónica que conduzia o programa, interagia com o seu auditório com vendas colocadas, criando uma simbologia e paralelismo metamorfoseado com a história principal do filme e da obra.
Este post, vem agora recuperar e completar o meu anterior, com a inserção das palavras de Saramago a propósito da visita e que estão inscritas no blog do "Caderno" e no livro. Também não podia de deixar a minha palavra de admiração ao trabalho desenvolvido por Aurélio Gomes, e que faço por acompanhar. 

Aqui, link do post anterior
em, http://desaramago.blogspot.pt/2014/11/aurelio-gomes-teve-surpresa-de-receber.html

Aqui, link da inserção do texto de Saramago no blog,
em, http://caderno.josesaramago.org/11750.html

(fotografia com Aurélio Gomes e Teresa Gonçalves, recolhida do blog de Laurinda Alves)

"R.C.P."
"As iniciais significam Rádio Clube Português, creio que não deverá haver um português que o ignore. Hoje, dia 13 de Novembro, que é quando escrevo estas breves linhas, resolveu o R. C. P. dedicar parte da sua emissão à estreia de Blindness, o filme dirigido pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles a partir do meu Ensaio sobre a Cegueira. Pilar, que só produz ideias boas, achou que deveríamos fazer uma visita de cortesia à estação e aos apresentadores da «Janela Aberta», que assim se chama o programa em causa. Lá fomos a coberto do mais absoluto sigilo e certos de ir causar uma surpresa que não seria desagradável. O que não imaginávamos era que a nossa surpresa poderia ser ainda melhor. Os dois apresentadores estavam cegos, tinham os olhos vendados por um pano preto… Há momentos que logram ser, ao mesmo tempo, emocionantes e prazeirosos. Foi o caso deste. Deixo aqui a expressão da minha gratidão e do meu profundo reconhecimento pela prova de amizade que nos deram."

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

em, "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

"José & Pilar" o filme, a reflexão


(...) "não tenho medo da morte, não tenho medo do inferno, não tenho medo, digamos..." (...)
José Saramago




"Um dia escrevi que tudo é autobiografia; que a vida de cada um de nós estamos contando enquanto fazemos e dizemos; nos gestos, na maneira como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto no chão. Queria eu dizer, então, que vivendo rodeado de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais. Seja como for, que os leitores se tranquilizem: este Narciso que hoje se contempla na água, desfará, amanhã, com sua própria mão, a imagem que o contempla". - José Saramago
Difícil dizer qual dos dois é mais lindo, José Saramago ou sua companheira e fiel escudeira, a jornalista espanhola a jornalista Pilar Del Río.
Miguel Gonçalves Mendes dirige o filme a partir da coleta de 240 horas de material sobre o cotidiano de José e Pilar que, portanto, são os próprios atores de seus personagens.
O filme se desenvolve em torno da criação e lançamento do livro "A Viagem do Elefante", de Saramago.
Os quatro anos de filmagens resultaram em um filme inicial com 6 horas de duração, das quais Saramago pode assistir a uma versão com 3 horas, antes de morrer.
A edição do filme durou mais de um ano e meio.
Para convencer o casal a filmar, o diretor Miguel Gonçalves Mendes levou 6 meses.
O resultado é um filme surpreendente onde somos levados ao dinâmico e cultural universo de Saramago e Pilar, nos deparando com um relacionamento belíssimo de dois seres que fazem jus ao adjetivo "humanos".
Saramago, o comunista ateu que quando o vestiam com roupa de marca, pedia que arrancassem com a tesoura a etiqueta da Armani, nos presenteia com passagens belíssimas de sua vida, já perto dos 84 anos de idade, sempre ativa e produtiva.
Destaque para suas declarações sobre religião,após a leitura de um trecho de seu livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", onde Jesus clama, sobre seu pai "Homens, perdoai-lhe, por que ele não sabe o que faz": "É uma aldrabice, pá, uma aldrabice completa... Eu fui uma ou duas vezes à missa, quando tinha 6 anos, mas eu não... Enfim, aquilo não me convenceu nada, pá. E fui eu quem disse a minha mãe: 'não, eu não vou a isso...' E não fui... E Nunca mais... E não tive nenhuma crise religiosa, e não tenho medo da morte, não tenho medo inferno, não tenho medo, digamos, do castigo eterno pelos pecados... Que pecados? Pecados? O que é isso, o pecado, pá? Quem é que inventou o pecado? A partir do momento em que se inventa o pecado, o inventor passa a dispor de um instrumento de domínio sobre o outro, tremendo! E foi o que a igreja fez, e já não faz tanto, porque, coitados, já não têm nem metade do poder que tinham, é mais uma farsa, mais uma farsa trágica... Deus... Onde está? Antigamente, dizia-se: 'está no céu'. Mas, o céu não existe! Não há céu! Não há céu! O que é isso, pá, céu? Há o espaço. Há 13 mil milhões de anos-luz. Imagina, pá...
Os limites do universo se encontra há 13 mil e 700 milhões de anos-luz... Anos-luz! Onde está deus? Quem quiser crer, creia e acabou-se! Eu digo em alto e bom som, que não, enfim, para mim, não. E repara que com 83 anos já seria uma boa altura para começar a pensar no futuro, quer dizer, uma pessoa, durante a vida, pode fazer umas quantas tonterias, dizer umas quantas barbaridades a respeito do senhor deus, mas quando chega aos 83 tem de, deveria começara a ter um bocadinho de cuidado com o que diz. Mas isso não muda nada a realidade. A realidade continua a ser igual a de sempre: nascer, viver e morrer, e acabou. Mais nada. Que isso não aconteça. Espero morrer lúcido e de olhos abertos. Pelo menos gostaria, que fosse assim".
A força e o carácter de Pilar, se reflectem bem no trecho do filme em que ela declara:
"A mim o que me parece é que a razão tem que prevalecer sobre a vontade. Isso parece o que há de mais frio e o que há de mais forte que se pode dizer, mas creio que somos racionais, e temos a obrigação de ser racionais e de não nos deixar levar, jamais, pelo instinto. Ou seja, recuso-me, recuso-me a chorar e a ficar insatisfeita e deprimida. "Ah, mas é que a depressão existe..." Sim, pois sim, mas tomamos uns comprimidos e vamos trabalhar, ponto! Sou a favor dos fármacos. Ouve, uma vida inteira sofrendo com dores quando há a Medicina, que nos ajuda, e vêm agora uns quantos gurus dizer: "Não... É que fazem mal!" Não, o que faz mal é passar mal! É preciso desdramatizar! Sobretudo nós, os privilegiados... Eu não posso estar e não posso me dar ao luxo de estar desesperada, nem sem esperança, nem triste, porque tenho tudo, e mais, tenho, inclusive, a força para combater, o que é o maior privilégio!"

(poster promocional do filme)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Filme baseado na obra de José Saramago "A Jangada de Pedra"


Aqui via Fundação José Saramago, http://www.josesaramago.org/jangada-de-pedra-1986/

1986, «Em “A Jangada de Pedra” (…) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)


Filme baseado na obra "A Jangada de Pedra"



terça-feira, 28 de outubro de 2014

"José e Pilar" o filme



Descrição retirada do mesmo link. 

"Um dia escrevi que tudo é autobiografia; que a vida de cada um de nós estamos contando enquanto fazemos e dizemos; nos gestos, na maneira como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer, então, que vivendo rodeado de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais. Seja como for, que os leitores se tranquilizem: este Narciso que hoje se contempla na água, desfará, amanhã, com sua própria mão, a imagem que o contempla". - José Saramago

Difícil dizer qual dos dois é mais lindo, José Saramago ou sua companheira e fiel escudeira, a jornalista espanhola a jornalista Pilar Del Río.

Miguel Gonçalves Mendes dirige o filme a partir da coleta de 240 horas de material sobre o cotidiano de José e Pilar que, portanto, são os próprios atores de seus personagens.

O filme se desenvolve em torno da criação e lançamento do livro "A Viagem do Elefante", de Saramago.

Os quatro anos de filmagens resultaram em um filme inicial com 6 horas de duração, das quais Saramago pode assistir a uma versão com 3 horas, antes de morrer.

A edição do filme durou mais de um ano e meio.

Para convencer o casal a filmar, o diretor Miguel Gonçalves Mendes levou 6 meses.

O resultado é um filme surpreendente onde somos levados ao dinâmico e cultural universo de Saramago e Pilar, nos deparando com um relacionamento belíssimo de dois seres que fazem jus ao adjetivo "humanos".

Saramago, o comunista ateu que quando o vestiam com roupa de marca, pedia que arrancassem com a tesoura a etiqueta da Armani, nos presenteia com passagens belíssimas de sua vida, já perto dos 84 anos de idade, sempre ativa e produtiva.

Destaque para suas declarações sobre religião,após a leitura de um trecho de seu livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", onde Jesus clama, sobre seu pai "Homens, perdoai-lhe, por que ele não sabe o que faz": "É uma aldrabice, pá, uma aldrabice completa... Eu fui uma ou duas vezes à missa, quando tinha 6 anos, mas eu não... Enfim, aquilo não me convenceu nada, pá. E fui eu quem disse a minha mãe: 'não, eu não vou a isso...' E não fui... E Nunca mais... E não tive nenhuma crise religiosa, e não tenho medo da morte, não tenho medo inferno, não tenho medo, digamos, do castigo eterno pelos pecados... Que pecados? Pecados? O que é isso, o pecado, pá? Quem é que inventou o pecado? A partir do momento em que se inventa o pecado, o inventor passa a dispor de um instrumento de domínio sobre o outro, tremendo! E foi o que a igreja fez, e já não faz tanto, porque, coitados, já não têm nem metade do poder que tinham, é mais uma farsa, mais uma farsa trágica... Deus... Onde está? Antigamente, dizia-se: 'está no céu'. Mas, o céu não existe! Não há céu! Não há céu! O que é isso, pá, céu? Há o espaço. Há 13 mil milhões de anos-luz. Imagina, pá...
Os limites do universo se encontra há 13 mil e 700 milhões de anos-luz... Anos-luz! Onde está deus? Quem quiser crer, creia e acabou-se! Eu digo em alto e bom som, que não, enfim, para mim, não. E repara que com 83 anos já seria uma boa altura para começar a pensar no futuro, quer dizer, uma pessoa, durante a vida, pode fazer umas quantas tonterias, dizer umas quantas barbaridades a respeito do senhor deus, mas quando chega aos 83 tem de, deveria começara a ter um bocadinho de cuidado com o que diz. Mas isso não muda nada a realidade. A realidade continua a ser igual a de sempre: nascer, viver e morrer, e acabou. Mais nada. Que isso não aconteça. Espero morrer lúcido e de olhos abertos. Pelo menos gostaria, que fosse assim".

A força e o caráter de Pilar, se refletem bem no trecho do filme em que ela declara:
"A mim o que me parece é que a razão tem que prevalecer sobre a vontade. Isso parece o que há de mais frio e o que há de mais forte que se pode dizer, mas creio que somos racionais, e temos a obrigação de ser racionais e de não nos deixar levar, jamais, pelo instinto. Ou seja, recuso-me, recuso-me a chorar e a ficar insatisfeita e deprimida. "Ah, mas é que a depressão existe..." Sim, pois sim, mas tomamos uns comprimidos e vamos trabalhar, ponto! Sou a favor dos fármacos. Ouve, uma vida inteira sofrendo com dores quando há a Medicina, que nos ajuda, e vêm agora uns quantos gurus dizer: "Não... É que fazem mal!" Não, o que faz mal é passar mal! É preciso desdramatizar! Sobretudo nós, os privilegiados... Eu não posso estar e não posso me dar ao luxo de estar desesperada, nem sem esperança, nem triste, porque tenho tudo, e mais, tenho, inclusive, a força para combater, o que é o maior privilégio!"