Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"José Saramago Nas suas palavras" edição de Fernando Gómez Aguilera

"Penso que há mais relação com a música dentro de uma obra do que aquilo que tem a ver com as referências explícitas à música. Quando, por exemplo, numa frase que acabo de escrever e em que já disse tudo o que tinha para dizer, eu sinto que me falta qualquer coisa, em termos de compasso musical. E pode acontecer que eu acrescente mais duas palavrinhas ou três, que não fazem falta nenhuma. Não fazem falta ao sentido, mas o tempo do compasso não pode ficar no ar."

“Provavelmente já chegou o dia em que não terei nada mais a dizer”, 
Público (Suplemento Mil Folhas), 
Lisboa, 12 de novembro de 2005 [Entrevista a Adelino Gomes].



sábado, 23 de dezembro de 2017

"José Saramago Nas suas palavras" edição de Fernando Gómez Aguilera

Além de escrever, e de fazê-lo da melhor forma que puder, [o escritor] não deve jamais esquecer que, além de escritor, ele é um cidadão; e, em sua atuação como cidadão, não deve esquecer que é um escritor. Não consigo entender o que leva um escritor a achar que seu compromisso pessoal se restringe exclusivamente à literatura e à sua obra. É o retorno ao egoísmo e à presunçosa torre de marfim. Talvez seja esse o maior dos erros dos últimos vinte anos, embora, por sorte, esses exercícios de autocomplacência estejam desaparecendo a partir da guerra da ex-Jugoslávia. O escritor não é um guia ou um político, e não pode viver, de forma esquizofrenica, separado do cidadão.

“José Saramago: ‘El mundo se está quedando ciego’”
"La Verdad", Murcia (15 de março de 1994) Entrevista a Gontzal Díez

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"José Saramago Nas suas palavras" edição de Fernando Gómez Aguilera

"A morte é uma coisa lixada […] não só porque nos retira da vida, ou nos empurra brutalmente para fora da vida, que é o mais correto, mas também porque tem muitíssimas vezes outra consequência: uma outra espécie de morte que se chama esquecimento."

"Ninguém empurra a morte, ela está sempre ao lado… Está tão ao lado que não é raro que se lhe toque. E quando se toca, já se sabe, a parte mais fraca é aquela que perde…"
João Céu e Silva, Uma longa viagem com José Saramago, Porto Editora, 2009



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

"José Saramago Nas suas palavras" edição de Fernando Gómez Aguilera

"Considero-me um escritor realista mas não um romancista realista. O romance é um lugar literário onde tudo pode e deve caber. O romance é a expressão total.
Aspiraria a que ele fosse uma espécie de suma, reunião de todos os géneros, lugar de sabedoria. Nele estão a epopeia, o teatro, a reflexão filosófica ou filosofante… Esta é a minha ambição. Está fora de questão discutir agora se o consigo ou não, mas é a isso que eu aspiro. E é por isso que o narrador nos meus romances tem um papel todo poderoso."

“O cerco a José Saramago”, Expresso, Lisboa, 22 de abril de 1989 [Entrevista a Clara Ferreira Alves].

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"José Saramago, En Sus Palabras, de Fernando Gómez Aguilera" por Roberto Maydana (Libros y Literatura, 28/12/2016)

"José Saramago, En Sus Palabras, de Fernando Gómez Aguilera" 
por Roberto Maydana (Libros y Literatura, 28/12/2016) 

Pode ser recuperado e consultado aqui
em http://www.librosyliteratura.es/jose-saramago-en-sus-palabras-de-fernando-gomez-aguilera.html


"El paso del tiempo hace que todo se olvide y ponerse a pensar en que dentro de una o dos generaciones tras nuestra partida pocos se acordarán de nosotros, es entrar en un terreno del cual uno no puede menos que salir angustiado. Para ser recordados por largo tiempo, muchos seres humanos intentan sobresalir en diversas actividades; así, disfrutaremos de por vida la música de Beethoven, los cuadros de Picasso o los goles de Maradona. En todas las formas posibles del arte, los artistas buscan el paso a la eternidad. Saramago, para quienes lo leímos, lo leemos y lo leeremos, es y será inmortal, tal vez no porque haya buscado en vida esa eternidad, sino, sobre todo, por haber vivido y honrado la vida sin pensarla como un camino a transitar para llegar a lo que, dicen, viene después, sino por haberla transcurrido con una responsabilidad terrenal y cotidiana que lo llevó a comprometerse más allá de las cómodas quejas desde el sofá.

José Saramago en sus palabras es una recopilación de centenares de frases, pensamientos y declaraciones en la prensa que el Nobel de Literatura hizo desde la segunda mitad de los años setenta hasta comienzos de 2009. De esta manera, no solo podremos ir recorriendo su pensamiento a lo largo del tiempo, sino sobre todo confirmando algo que los que lo conocemos no necesitamos ratificar: su capacidad crítica, inteligencia, lucidez y libertad a la hora de decir lo que sentía, sin censuras y poniendo siempre el eje en la defensa de los excluidos y la reivindicación de los derechos humanos.

Fernando Gómez Aguilera, poeta, ensayista y filólogo, fue el encargado de recolectar las palabras del genio portugués y es digno de destacar su trabajo, que, a lo largo de más de 500 páginas, nos ofrece un panorama completo acerca de los valores éticos de Saramago. El libro en sí, está estructurado en tres grandes capítulos (Quien se llama Saramago, Por el hecho de ser escritor y El ciudadano que soy) que a su vez se dividen en decenas de temas que abarcan todo el mundo opinable del autor, entre los que podemos destacar los dedicados a Dios, el pesimismo, la muerte, la literatura, la historia, el comunismo, Europa o Sudamérica.

Particularmente, no pude despegarme del libro en el apartado “novela” en el que se recopilan todas las declaraciones de Saramago sobre los diferentes libros que fue publicando y que me permitieron descubrir muchos datos no conocidos sobre el “detrás de escena” de la creación de sus publicaciones. “Lanzarote”, donde cuenta su relación con esa isla española en la que residió hasta el final de sus días, es también muy interesante, porque narran el dolor que le causó tener que dejar su país, pero al mismo tiempo el hecho de, a una edad avanzada, encontrar un lugar en el mundo y volver, de alguna manera, a comenzar.

Disfruté del libro tanto como sus mejores novelas y a medida que iba leyéndolo, reconocía una vez más que la línea entre escritor y ciudadano, en Saramago, no existió nunca, ya que en la vida no ficcionada mantenía los mismos valores y el mismo compromiso con el mundo que, en forma de parábolas, mostraba en sus grandes éxitos literarios.

Recomiendo Saramago en sus palabras a todos aquellos lectores del mundo que, al menos, haya leído cinco o seis de sus novelas, ya que este libro actuará como un excelente complemento para su obra literaria y al mismo tiempo como un buen compendio de su enorme y eterna sabiduría."

domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Crónica do escritor na rua" Prefácio de Fernando Gómez Aguilera

Capa da edição "As Palavras de Saramago"
Companhia das Letras - Brasil

Prefácio da obra da autoria de Fernando Gómez Aguilera
(que fez a edição e selecção para a obra)

"Crónica do escritor na rua"
"A intervenção na esfera pública constitui um dos traços centrais do perfil intelectual de José Saramago, um escritor que sempre recusou qualquer torre de marfim, e se manteve distante da introversão. “Aonde vai o escritor, vai o cidadão”, costumava reiterar, resoluto, desfazendo qualquer dúvida eventual sobre seu compromisso civil, assumido como imperativo cívico, emanante tanto de suas convicções políticas quanto da impregnação humanista - nihil humanum puto alienum mihi - que filtrava com brio pelo tecido da sua estrutura cultural e da sua musculatura de incansável e vigoroso polemista. Como acontecera com Albert Camus, não é possível desagregar a escrita de seus princípios em face das circunstâncias da realidade, quaisquer que sejam as consequências que decorram desse fato. O autor concentra, sem fissuras, na pessoa que é, o feixe de obrigações derivado de seus atos, tanto os específicos à literatura, como os próprios do exercício da cidadania ou os concernentes à vida pura e simples, porque, para Saramago, “a obra é o romancista”, e o romancista resulta da projeção da pessoa que o anima. Desse modo, a responsabilidade - também sua variante consanguínea, concretizada num arraigado senso do dever - afirma uma das categorias que ajudam a definir seu caráter, marcando o conjunto de valores que orientaram sua conduta ética, mas também seu fazer criativo e reflexivo.
A partir da sua eclosão como narrador, no início dos anos 1980, desenvolveu uma crescente e intensa tarefa de efusão de ideias, juízos e denúncias em foros e meios de comunicação internacionais, até tornar sua voz uma referência global, particularmente identificada com o pensamento crítico, a defesa dos excluídos e a reivindicação dos direitos humanos. A concessão do prêmio Nobel de Literatura em 1998, em vez de modular seu discurso enfático, contribuiu para acentuá-lo, para estimular sua conduta e ampliar o alcance das suas palavras. Hoje quase não se poderia entender adequadamente a figura do escritor sem levar em consideração sua faceta pública, que, vista em perspectiva, adquiriu a forma de uma espécie de sustentado comportamento ativista, aproveitando a plataforma oferecida pela imprensa e pelas tribunas para difundir suas ideias e combater os desvios que, a seu ver, perturbam a ordem do mundo e o bem-estar da humanidade. Mediante declarações, entrevistas e manchetes contundentes, Saramago compartilhava considerações sobre sua própria criação ou tratava abertamente de questões palpitantes de nosso tempo, elaborando um rico sistema de pensamento de raiz radical, mas também forjando-se uma face social que é parte substantiva da sua robusta figura. E praticou isso de tal modo que, ao mesmo tempo que contribuía para criar uma opinião e desenhar sua silhueta do mundo, ia construindo sua visibilidade pública como intelectual engajado, mais além do contundente espaço ocupado pelo homem de letras, de quem Harold Bloom diria em 2001:
"Saramago é extraordinário, quase um Shakespeare entre os romancistas. Não há nenhum ficcionista vivo nos Estados Unidos, na América do Sul ou na Europa que tenha a sua versatilidade. Dir-se-ia tão divertido quanto pungente. Sei que é um marxista, mas não escreve como um comissário e opõe-se aos impostores da Igreja católica. O seu trabalho ultrapassa tudo isso." 


(José Saramago e Fernando Gómez Aguilera, 
durante a exposição inaugurada em São Paulo, 2008)
Fotogragia via Fundación César Manrique (FCM), aqui

"Polémico e racionalista, sentencioso e imaginativo, original e provocador, político e combativo, sabia articular e mostrar uma refinada autoconsciência sobre seu trabalho, de maneira que, através das suas manifestações, pode-se rastrear uma fina percepção analítica das chaves da sua obra, cujos juízos e informações contribuem para esclarecê-la e compreendê-la. Além de se questionar sobre o papel do escritor, pensava em voz alta sobre a motivação de seus livros, vinculava-se à sua árvore genealógica literária específica, elucidava as relações e diferenças entre História e ficção ou entre Literatura e compromisso, aclarava sua concepção simultaneísta da temporalidade, desmitificava a criação e decifrava seu processo de formalização textual, a singularidade do seu estilo ou as reservas com que se aproxima dos gêneros, enquanto apostava em inovações ou em desenvolvimentos fronteiriços. 
Mas a sua capacidade de ponderação e de penetração no sentido oculto das coisas soube se deslocar da escrita para se pôr a serviço da investigação nas zonas obscuras da História, do ser humano e dos mecanismos de poder, de controle ideológico e de injustiça que condicionam nosso entorno, determinando o sentido da nossa vida. Resistindo às ideias recebidas, afiou seu bisturi, iluminado por uma pertinaz consciência insatisfeita instalada na interrogação permanente, numa confessada desconfiança e num pessimismo voltairianos que lançam um olhar desgostoso, irônico e melancólico sobre o real. Estendeu seus testemunhos, diversificados quanto a seus interesses - não só profissionais, mas, com frequência, sociais e políticos - , ao terreno dos valores éticos e da quebra dos direitos humanos. Censurou o fracasso da razão como moduladora do nosso comportamento individual e coletivo, denunciou o esvaziamento cerimonial da democracia - cujo paradigma contemporâneo ele questionava - e a hegemonia global do poder econômico por exigência de um mercado regido por códigos autoritários e amorais, num mundo que, crescentemente, se faz desumano. Não foram alheios a suas preocupações o tratamento das suas difíceis relações com Portugal, a defesa do iberismo transcontinental, a reprovação da Igreja, a análise severa do papel desempenhado pelos canais de informação, o reconhecimento dos erros do marxismo e a reivindicação, a partir da sua condição de militante comunista, de um novo pensamento de esquerda, construído em tensão com os desafios contemporâneos e capaz de superar as obsoletas fórmulas do passado. Em definitivo, nas observações expressas na imprensa, compartilhou fadigas filosóficas e políticas com a literatura - a qual, como fez Sartre, também não priva desses conteúdos -, ao mesmo tempo que mostrou sua vocação para falar e dialogar franca e polemicamente com seu presente. A prodigalidade com que o autor do Ensaio sobre a cegueira se relacionou com os meios de comunicação, sem levar em conta limites geográficos, serviu-lhe para transladar amplamente ideias e apreciações, apoiado numa viva capacidade de comunicação, num notório didatismo e na inclinação para difundir e compartilhar suas impressões, como se se tratasse de um estrito ato de militância, ou, antes, de pleno exercício da sua liberdade e responsabilidade social. O próprio escritor sempre foi muito consciente da frequência e da amplitude com que se difundia seu pensamento: “Minhas ideias são conhecidíssimas, nunca as disfarcei nem as ocultei. Minha vida é tão pública que se conhece tudo o que pensei sobre cada acontecimento”. Sem dúvida, um mecanismo lubrificado que, por seu colossal volume e ressonância, sustentou uma efusiva relação de atração com o público. José Saramago soube trabalhar os registos comunicativos manejando ideias fortes que problematizam as convenções, favorecidas por uma linguagem acessível, direta, sem aparente elaboração - no entanto, sempre digerida intelectualmente -, filtrada pelas regras do jornalismo e apoiada em grandes metáforas e sugestivas imagens. Além das suas inquietudes morais, sociopolíticas e literárias, em jornais e revistas, rádios e televisões, em encontros e conferências, deixou pormenorizado testemunho da sua biografia, das suas convicções e da sua índole.
Nesta compilação que agora é oferecida ao leitor há um amplo repertório de palavras do escritor português, extraídas exclusivamente de jornais, revistas e livros de entrevistas - cinco publicações de referência para conhecer o escritor, que recolhem suas conversas com Armando Baptista-Bastos, Juan Arias, Carlos Reis, Jorge Halperín e João Céu e Silva, além de uma monografia de Andrés Sorel -, num leque cronológico que abarca da segunda metade dos anos 1970 até março de 2009. Os trechos selecionados foram obtidos a partir da consulta de um vasto corpus de declarações publicadas em diversos países: Portugal, Espanha, Brasil, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Argentina, Cuba, Colômbia, Peru… Naturalmente, a paisagem resultante não pretende nem poderia ser completa, mas é exaustiva e suficientemente significativa do cabedal de atitudes e pensamento com que o prêmio Nobel português exerceu sua fecunda responsabilidade cívica através da mídia, em permanente vigília na hora de meditar e dialogar com seu tempo, construindo um autêntico espaço de resistência com capacidade de ecoar globalmente. Sua vertente de criador de opinião pública fica patente nas páginas que seguem, somente uma metonímia em relação à incomensurável mina de materiais jornalísticos que Saramago gerou mundo afora.
Sempre alerta à hora de interagir com a História e com o contexto, disposto a subverter os grandes relatos e a se manifestar publicamente com a possibilidade de alcançar largas camadas da sociedade, compareceu diante da imprensa sem cansaço e com incomum generosidade, movido pela necessidade imperiosa de exprimir abertamente o que tinha a dizer, sem artifícios, inibições ou duplo linguajar. E essa ampla rede de comunicação que ele teceu serviu-lhe, por sua vez, de incentivo e pretexto para refletir consumada e minuciosamente, também com continuidade, tanto sobre a sua produção como sobre a deriva da sua época. Saramago não sentia preferência pelo diagnóstico bucólico, nem se deve rastrear seu pensamento no espaço acomodado do consenso. Em geral, ele procurava o desassossego, porque entendia as funções criativas como instrumentos a serviço de um projeto cívico e humanizador, cuja fase prévia exige o desmascaramento e a hostilidade crítica que combata o desvio,
o erro. Do mesmo modo que a escrita exige a perturbação do idioma coisificado e da realidade estabelecida mediante a incorporação de novas formas linguísticas e configurações mentais não codificadas até o momento da sua aparição, pensar significa desestabilizar-se interiormente e desestabilizar o discurso consolidado. 
Nesse sentido, o reiterado pessimismo que o caracteriza - provocado pelo malestar com que reagia ante a situação do mundo e a deriva dos seres humanos - deve ser entendido não como uma claudicação, mas como uma energia que questiona a ordem convencional, que penetra e faz cambalear a fachada da aparência e do status quo para modificar a perspectiva e incorporar outros ângulos, leituras e protagonistas. Antecipa, pois, uma sacudida que desencadeia novas reconfigurações, com as quais se procura avançar, melhorar, apesar do ceticismo que envolve sua visão de mundo, mas sem atenazá-la nem estrangulá-la. Como em seu momento Gramsci apontara, trata-se de tornar compatível o pessimismo da razão com o otimismo da vontade. Solidamente ancorado numa arquitetura racional ilustrada, na coerência moral praticada ao longo da sua vida e na reinterpretação das ideias políticas comunistas - matizadas por certa heterodoxia -, Saramago soube alojar sua obra e suas reflexões no lugar do questionamento e da desconstrução do clichê. 
É este, enfim, um livro dos muitos possíveis que poderiam ser propostos sob a orientação que o anima e é, também, uma obra aberta, que não se esgota na literalidade que adota aqui, com a vontade, não obstante, de esboçar uma arquitetura ideológicosocial saramaguiana suficiente, de conformar uma identidade coerente. Os textos se apresentam organizados cronologicamente a partir de etiquetas ou núcleos temáticos que, em si, constituem conceitos recorrentes sobre os quais o escritor se pronunciou e dotou de sentido. Possuem, portanto, a virtualidade de atuar como articulações em torno das quais se desenvolve sua personalidade cultural, anotando alguns dos nódulos inabaláveis do seu mapa literário, intelectual e vital. Por sua vez, essas etiquetas conceituais se apresentam agrupadas em três grandes epígrafes que submergem na identidade de Saramago como pessoa, como escritor e como cidadão engajado. Naturalmente, os compartimentos não são estanques, nem no que concerne à
classificação das citações nem no que se refere à localização das entradas. O leitor talvez se inclinasse por outra ordenação, mas com toda certeza a ordem dos fatores não alteraria o produto final: a imagem fiel que projetam da personagem. Valorizadas com o horizonte que o transcurso dos anos oferece, estas declarações fragmentárias constituem hoje uma valiosa mina de informação e de apresentação de ideias e valores éticos, assim como uma estimulante prática de dissidência e de contestação pública. Nelas está Saramago, o testemunho de um livre-pensador no qual ecoam formidavelmente as tensões, anseios e fracassos de nosso tempo. Mas o mosaico oferecido neste livro também agrega um compêndio de sabedoria. Cada peça desse mosaico supõe um facho de luz e de sentido, configurando a imagem de uma personalidade brilhante e complexa, capaz de radiografar o ser humano e sua circunstância, de diagnosticar seus males e sugerir antídotos ou de confirmar decepções e frustrações. Saramago observa, analisa e tira conclusões poderosas formuladas mediante frases robustas e sugestivas. Essa coleção de agudezas, algumas vezes carregadas de matéria informativa, e outras, por seu fundo sentencioso - como corresponde à atitude grave e irônica com que o autor de Ensaio sobre a cegueira enfrentava a vida -, construídas como aforismos e máximas próprias da literatura paremiológica gnômica, tem o propósito de oferecer uma espécie de levantamento topográfico do pensamento e da visão de mundo do escritor, expresso através de suas próprias palavras, tal como foram recolhidas e publicadas pelas mass media, com o imediatismo, a espontaneidade e a expressividade característicos desse modo de comunicação escrita. Se preferir, o leitor também pode considerar o florilégio como um autorretrato sobre cujo traço é possível perceber os lineamentos maiores de sua fisionomia como romancista, pessoa e cidadão: uma crônica do seu imaginário profissional e vital. Do conjunto, desprende-se um tecido compacto e denso, alinhavado por uma invariável vontade de inteligência, de compreensão e de musculoso diálogo com a realidade,
entre cujos fios não será difícil reunir uma boa representação de perduráveis dicta memorabilia, nascidos da faculdade de aforista do prêmio Nobel português. Tchekhov, que se recusou a trabalhar com heróis e não cessou em seu afã de dessacralizar a literatura e o ofício do escritor - traços compartilhados por Saramago -, afirmou: “A originalidade de um autor se apoia não só em seu estilo, mas também em sua maneira de pensar”.
Fernando Gómez Aguilera

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Caim" ou a derradeira tentativa de humanizar a bondade



Em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Fernando Gómez Aguilera, ensaio complementar à obra, "o autor diante do reflexo da sua obra"
Páginas 57 a 59


(...) "A aparição de "Caim" em 2009 significou o regresso do autor ao tema da religião, encarado novamente de forma frontal; embora, nesta ocasião, situando-se no Antigo Testamento para ler literalmente e reescrever uma dezena de episódios extraídos do Génesis, do Êxodo e do Livro de Job, cuja característica comum é a violência e o absurdo lógico em que se sustentam. Confronta-se, pois. com um dos últimos grandes relatos vigentes esgrimindo o seu ateísmo anti-religioso, que o faz considerar a Bíblia um «manual de maus costumes», «um catálogo de crueldade». No final dos seus dias, regressa à literatura apetrechado do seu voltaireanismo mais radical, para combater a superstição e a irracionalidade do dogma e das crenças, que, na sua opinião, escravizam o homem, porque, no marco da fé, a felicidade repousa sobre a sua missão. Sai em defesa do livre arbítrio, do direito à liberdade individual e, diante do mito, esgrime lucidez e a razão como valores universais que protegem a dignidade humana, numa leitura alternativa, num dialogo crítico que recorre também ao riso irreverente, à sátira, para censurar um deus, fruto da criatividade humana, que, aos seus olhos, se comportava com modos arbitrários e soberbos, opressivos e cruéis. Saramago aceita e emprega a literatura como possibilidade de subversão do poder, como instrumento de pensamento e de rebeldia, de combate intelectual, apegado ao humanismo libertador que sempre orientou a sua visão do mundo." (...)



(...) "Caim conclui com uma «negação total» que, em boa medida, sintetiza a visão estratégica e desencantada do mundo que o acompanhou até ao final dos seus dias: «A terra está completamente corrompida e cheia de violências, só encontro nela corrupção, pois todos os seus habitantes seguiram caminhos errados, a maldade dos homens é grande, todos os seus pensamentos e desejos pendem sempre e unicamente para o mal, arrependo-me de ter criado o homem.» Inverter o sinal desse destino só podia estar nas nossas mãos. Daí que, para Saramago, fosse imprescindível uma revolução ética que, reivindicando o valor supremo da bondade, reconhecesse como  única prioridade o ser humano."

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fernando Gómez Aguilera destapa um pouco de "A Viagem do Elefante"

(Imagem de João Amaral, "A Viagem do Elefante" em BD)



(...) "Depois para deixar para trás um período de hospitalização em Lanzarote, que coincidiu com a fase mais aguda da sua doença, no início de 2008, retomou a escrita entretanto interrompida de "A Viagem do Elefante". E regressaria à ficção alentando por uma atitude de plena liberdade, descosendo, uma vez mais, as costuras do género, com uma nouvelle abordada desde o seu interior, ratificando o papel desempenhado pelo majestático e libérrimo autor-narrador por quem Saramago se sentia tão encantado. O arranque do conto, que se desenvolveria com um declarado propósito simbólico, parte de uma passagem por Salzburbo, cuja universidade o escritor visitou, em 1999, para pronunciar uma conferência. No hotel onde estava alojado - o Zum Elefanem -, reparou um diferentes reproduções que representavam um elefante em plena viagem, pelas quais se interessou. Tomou assim contacto com a aventura do exótico animal que, no século XVI, havia viajado de Lisboa até  Viena, como presente do rei D. João III de Portugal o Arquiduque Maximiliano de Áustria pelo seu casamento com Maria de Habsburgo. Mas, sobretudo, impressionou-o o grotesco final do admirável e sofrido viajante: as suas patas convertidas em recipiente para sombrinhas. Adoptando intelectualmente a atitude de ensaísta, Saramago articulou o relato com a expressa vontade de penetrar na medula da literatura, numa das metáforas mais substantivas, a da viagem, e dar à luz o seu texto mais cervantino, detendo-se no prazer da literatura pela literatura, quando a palavra e a invenção se convertem em puro discurso autónomo sobre a nossa existência, pois, como ele próprio admitiria, «ao falar do elefante, falo da vida humana». Nada de estranhar, pois desse mesmo modo havia lido o grande livro das letras hispânicas, interpretando Dom Quixote nascia quando Alonso Quijano partia, quando verdadeiramente começava a sua viagem de liberdade. (...)
Com uma frescura tonificante, retoma a circunstância portuguesa, para além de se fixar em figuras concretas, para levar ao leitor um humor desinibido, por vezes burlesco, que serve de contraponto à épica melancolia do paquiderme, cujo discreto e terno heroísmo não o eximirá de um destino implacável, se exceptuarmos o poder redentor da literatura, porque, tal como indica Saramago na epígrafe que ilumina o sentido da narrativa, «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam». (...)

Em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Ensaio de Fernando Gómez Aguilera
Páginas 56 e 57

(Imagem da encenação da peça de teatro, baseada na obra, pela ACERT)

Quem é Alonso Quijano, referido por Fernando Gómez Aguilera?
Aqui uma breve explicação, via Wikipédia em http://es.wikipedia.org/wiki/Alonso_Quijano

(Iluminura de Dom Quixote e seu fiel escudeiro)


"Alonso Quijano era el auténtico nombre del hidalgo don Quijote, personaje ficticio principal en la novela Don Quijote de la Mancha. Su procedencia se desconoce. Familiarmente, en su aldea natal se le conocía por el nombre de Alonso Quijano, el Bueno.
El porqué del nombre
Investigadores españoles han encontrado documentos históricos que avalan la historia de 'Don Quijote de la Mancha' y de las personas reales en que se basó Miguel de Cervantes para crear su célebre novela. Según 'ABC', en 1581 Pedro de Villaseñor, amigo de Cervantes, y Francisco de Acuña, intentaron matarse a lanzazos en el camino que unía los municipios manchegos de El Toboso y Miguel Esteban.
A diario, Villaseñor y Acuña, coetáneos de Cervantes, iban vestidos como caballeros medievales, y el historiador Francisco Javier Escudero y la arqueóloga Isabel Sánchez Duque consideran que el célebre dramaturgo pudo conocer estos hechos y parodió con su novela una historia y personajes reales.
"Encontramos que los Acuña intentaron matar a los Villaseñor vestidos de caballeros, con todo el aparataje medieval, y nos dimos cuenta de que la historia de Don Quijote no es inventada, es real: es lo que hacían los enemigos de los Villaseñor contra ellos. Increíble pero cierto, está documentado", afirmó Escudero.
Pero en 1573, según textos del Archivo Histórico Nacional español, se produjo un intento de asesinato de otro Villaseñor, Diego, y aquí aparece un tercer personaje, Rodrigo Quijada, que fue procesado aquel año. A su apellido, Quijada, pudo añadir Cervantes un sufijo despectivo que derivó en Quijote.
Escudero explica que El Quijote es "una parodia, una burla" y teniendo en cuenta que no se escriben novelas para burlarse de amigos, Cervantes debió crearla para "ridiculizar" a los enemigos de los Villaseñor, amigos de una de las máximas figuras de la literatura española.
"Todavía estamos en la fase preliminar y puede aparecer mucho más, pero lo que parece evidente es que El Quijote está dedicado a burlarse de esos enemigos de los Villaseñor que, posiblemente, también sean enemigos de Cervantes o a quienes Cervantes consideraba enemigos", añadió el historiador.
Los investigadores han encontrado media docena de documentos de Rodrigo Quijada, en los que se le retrata como "un personaje muy polémico que estuvo muy mal visto en todos los pueblos de la zona", y que, según su biografía, se merecía el maltrato que se le da al Quijote en la novela.
Además, todos estos personajes confluyen en un entorno geográfico conocido por Cervantes."


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O "Eu" e o "Outro" em "O Homem Duplicado" como resposta à interpretação do "homem"

A concepção desta obra - "O Homem Duplicado", é mais um passo dado, por José Saramago, no aprofundamento da interpretação do homem enquanto ser social. Este é considerado à partida, seu ponto primeiro de identificação e diferenciação sobre os restantes seres vivos, como estando dotado de consciência e sentimentos, reacções e acções, inteligência e capacidade para alcançar o bem pessoal e o bem comum, através da partilha e desenvolvimento de laços harmoniosos.
Representando o período "pós-estátua", há aqui uma real preocupação em retirar as várias camadas que suportam a superfície da estátua já esculpida, descobrindo-lhe a pedra, ou o seu mais profundo âmago, o que chamamos - a Identidade. 
Com este processo, de forma intencional, Saramago, como que coloca as suas mãos de escritor, dentro das personagens, não para as comandar como fantoches, mas para as abanar e mostrar o seu interior, fazendo-as assim descobrirem-se e darem a conhecer a sua identidade. O "Eu", o "Eu e o tu", o "Eu e o nós", o "Eu e os outros", e por fim, a soma destas identidades, na visão de José Saramago, nos irá permitir conhecer e perceber, logo à nascente, o espírito global da sociedade que determinada época (tempo), ou local (espaço) apresenta. A acção de cada um é multiplicada, replicada e reproduzida, naquilo que se torna no resultado e consequente consciência social, seja sob a perspectiva do olhar de uma família (Cipriano Algor com a sua filha e genro), de uma nação (a capital em o "Ensaio sobre a Lucidez") , ou do mundo em que vivemos (Alabardas, alabardas, Espingardas, Espingardas).
Esta preocupação é reproduzida transversalmente em toda a obra de José Saramago, independentemente do momento cronológico em que é gerado, seja numa fase inicial (e interrompida durante muitos anos), ou, seja em plena década de 70, já num momento mais activo da sua produção literária, em que o primado "dúvida" sobre a real intenção ou capacidade do ser humano, prevalece sobre a visão utópica que poderia ser adoptada.
Em minha opinião, com a devida ressalva de uma eventual interpretação menos atenta, Saramago criou diversos momentos chave ou "personagens", que o não sendo, foram tornadas influentes na reorientação dos actores e seus conflitos. São momentos de consciência profunda, onde a desorientação da personagem, ou, o conflito social e consequente falta de esperança, obrigam a uma intervenção que permita estabilizar o rumo da história. Lembro-me por exemplo, das diversas figuras caninas neste universo "Saramaguiano". O Achado de Cipriano Algor, em "A Caverna", o Constante de Pedro Orce, na "Jangada de Pedra", ou o cão das lágrimas em o "Ensaio sobre a Cegueira", são determinantes para os seus "companheiros" recuperarem a sua "identidade", ou o seu "eu". Esta ascensão de uma figura animal, em primeiro lugar retira o factor místico e do "inexplicável", de uma eventual intromissão no decorrer da história, e ganha o poder de fazer chamar cada um dos seus intervenientes à "razão" - redescoberta da identidade. 

Miguel de Azevedo



Em "A Estátua e a Pedra", Fernando Gómez Aguilera, traduz esta questão de forma límpida. Atendemos às suas palavras (Fundação José Saramago, páginas 50 e 51).   

(...) "Com "O Homem Duplicado", regressaria, de certo modo, a uma questão de que se havia ocupado em "Todos os Nomes", a da alteridade, enfrentada agora a partir de um ângulo complementar, o da identidade. Sem dúvida, trata-se de um dos grandes temas da arte e da literatura contemporâneas, explorado por Saramago sob a capa de romance de intriga, para colocar em manifesto as tensões entre o «eu» que se protege e exclui o «outro» que inevitavelmente nos constrói: «O que no fundo eu quero tratar é o tema do "outro". Se o "outro" é como eu, e o "outro" tem todo o direito de ser como eu, eu pergunto-me: até que ponto eu quero esse "outro" entre e usurpe o meu espaço? Nesta história, o "outro" tem um significado que nunca antes teve. Actualmente, no mundo, entre o "eu" e o "outro" há distâncias e não é possível superar essas distâncias, e por isso o ser humano cada vez consegue menos chegar a um acordo. As nossas vidas são compostas em cerca de 95% pela obra dos outros». (2007) (...)


  

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Fernando Gómes Aguillera dá uma "pincelada" no significado da metáfora de Saramago

... que através de parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia, nos permite apreender continuamente uma realidade ilusória ...
(Anúncio e pequena interpretação da entrega do prémio Nobel, pela academia sueca)

(imagem do filme Blindness, baseado no "Ensaio sobre a Cegueira")

(...) «A metáfora é sempre a melhor forma de explicar as coisas». Saramago oferecia assim as chaves da atitude que orientava os seus propósitos: representar situações através de analogias para torná-las mais compreensíveis. A sua vocação ilustrada encontrava assim apoio numa linha de escrita alegórica que equipou romances de projecção simbólica, carregados de ideias e valores, capazes de perfilar conflitos capitais do nosso tempo até desenhar uma espécie de amplo friso civilizacional: a crise da razão (Ensaio sobre a Cegueira, 1995), a necessidade do outro (Todos os Nomes, 2001), as agressões do mercado (A Caverna, 2000), o problema da identidade (O Homem Duplicado, 2002), a deterioração da democracia (Ensaio sobre a Lucidez, 2004), e a morte e o amor redentor (As Intermitências da Morte, 2007). Levanta um universo literário sustentado por tramas que por norma se iniciam numa situação impossível, extravagante, uma anomalia desenvolvida convincentemente através de concatenações dedutivas e desdobramentos cartesianos, em contextos abstractos, despojados de precisões temporais e locais, recorrendo, para além disso, a um marcado esquematismo, estratégias que reforçam o sentido didáctico, o seu alcance de Parábola em que se fundem a metáfora e o ensino. (...)

Por Fernando Gómes Aguillera
em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Páginas 49 e 50

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Citador #12 - Visão da concepção simultaneísta do tempo


A concepção simultaneísta do tempo...

em "A Estátua e a Pedra"
Página 47, FJS

(...) «Uma ideia minha, que expresso de maneira nada científica, é que o tempo não é uma sucessão diacrónica, em que um acontecimento vem atrás do outro. O que acontece projecta-se numa imensa tela e tudo fica ao lado de tudo. Como se o homem de Cro-magnon estive colocado nessa tela ao lago do David de Miguel Ângelo. Para o autor não há passado nem futuro. O que vai ser já está a acontecer. Para este autor, ao escrever os livros, as coisas passam-se assim..»

Na visão de Fernando Gómez Aguillera, faz aqui um paralelo com Benedetto Croce.

«Com efeito para Saramago, tal como para Benedetto Crocce, «Toda a história é História contemporânea» e, partindo dessa orientação, alojou o romance na memória do passado: com o empenho de desentranhar a sua circunstância concreta.» (...)

"Benedetto Croce (Pescasseroli, 25 de fevereiro de 1866 - Nápoles, 20 de novembro de 1952) foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano. Os seus escritos giram em torno de um largo espectro temático, sobretudo estética e teoria/filosofia da história. É considerado uma das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX."


domingo, 16 de novembro de 2014

Parabéns a José Saramago - 16 de Novembro de 1922


"Nasce a 16 de Novembro (n.a. 1922) - e não no dia 18, como consta na Conservatória do Registo Civil -, às 14,00 horas, na Rua da Lagoa, Azinhaga (Golegã, Ribatejo), no seio de uma família de camponeses. Os pais são José de Sousa, jornaleiro, e Maria da Piedade, doméstica. O próprio Saramago explicou a razão do atraso cronológico do registo oficial: "Foi o caso que o meu pai andava na altura a trabalhar fora da terra, longe, e, além de não ter estado presente no nascimento do filho, só pôde regressar a casa depois de 16 de Dezembro, o mais provável no dia 17, que foi domingo. É que então, e suponho que ainda hoje, a declaração de nascimento deveria ser feita no prazo de trinta dias, sob pena de multa em caso de infracção. [...] ficou-se à espera que ele regressasse, e, para não ter de esportular a multa (qualquer quantia, mesmo pequena, seria excessiva para o bolso da família), adiantaram-se dois dias à data real do nascimento, e o caso ficou solucionado." 

em "José Saramago: A Consistência dos Sonhos - Cronobiografia"
Fernando Gómez Aguilera - Caminho



"[O livro] leva uma história? Pois leva. Leva personagens, e episódios, e acidentes, e coisas mais ou menos interessantes, ou divertidas, ou dramáticas, mas sobretudo leva uma pessoa dentro, que é o autor. E a grande história será reconhecer o leitor isso mesmo. Porque quando o leitor reconhece, quando o autor lhe dá os meios para que seja reconhecido, então sim, estabelece-se uma relação afectiva, mais profunda, mais cúmplice, de maior comunicação entre o autor e o leitor."

«Os livros do nosso Desassossego. José Saramago»
Entrevista a José Manuel Mendes, 1993

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Caim, ou a Bíblia como um «manual de maus costumes»



(...) A aparição de Caim em 2009 significou o regresso do autor ao tema religião, encarado novamente de forma frontal; embora, nesta ocasião, situando-se no Antigo Testamento para ler literalmente e reescrever uma dezena de episódios extraídos do Génesis, do Êxodo e do Livro de Job, cuja característica comum é a violência e o absurdo lógico em que se sustentam. Confronta-se, pois, com um dos últimos grandes relatos vigentes esgrimindo o seu ateísmo anti-religioso, que o faz considerar a Bíblia um «manual de maus costumes», «um catálogo de crueldade». (...)
Sai em defesa do livre arbítrio, do direito à liberdade individual e, diante do mito, esgrime a lucidez e a razão como valores universais que protegem a dignidade humana, numa leitura alternativa, num diálogo crítico que recorre também ao riso irreverente, à sátira, para censurar um deus, fruto da criatividade humana, que, aos seus olhos, se comportava com modos arbitrários e soberbos, opressivos e cruéis.(...)
Caim conclui com uma «negação total» que, em boa medida, sintetiza a visão trágica e desencantada do mundo que o acompanhou até ao final dos seus dias: «A terra está completamente corrompida e cheia de violências, só encontro nela corrupção, pois todos os seus habitantes seguiram caminhos errados, a maldade dos homens é grande, todos os seus pensamentos e desejos pendem sempre e unicamente para o mal, arrependo-me de ter criado o homem.» Inverter o sinal desse destino só podia estar nas suas mãos. Daí que, para Saramago, fosse imprescindível uma revolução ética que, reivindicando o valor supremo da bondade, reconhecesse como única prioridade o ser humano.

Fernando Gómez Aguilera

Excerto, de "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Páginas 57 a 59



Entrevista via Youtube, em http://www.youtube.com/watch?v=_zzOrpNnXYc

Via Bibliografia Activa, Fundação José Saramago
Aqui, em http://www.josesaramago.org/caim-2009/

A história de Caim e Abel é narrada no livro de Génesis. Este teria sido o primeiro homicídio da história da humanidade. Abel era pastor de ovelhas e Caim, lavrador.
Possuído por ciúmes, Caim armou uma emboscada para seu irmão. Sugeriu a Abel que ambos fossem ao campo e, lá chegando, Caim matou seu irmão. (Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Caim_e_Abel 


Sinopse da Editorial Caminho
“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós , nem nós o entendemos a ele .” José Saramago
“Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.” (Hebreus, 11.4)


(capa da edição turca)


Sinopse da Companhia das Letras
Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajecto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.
Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogénito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irónica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.
A volta aos temas religiosos serve, também, para destacar o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: aqui, a capacidade de tornar nova uma história que conhecemos de cabo a rabo, revelando com mordacidade o que se esconde nas frestas dessas antigas lendas. Munido de ferina veia humorística, Saramago narra uma estranha guerra entre o homem e o senhor. Mais que isso, investiga a fundo as possibilidades narrativas da Bíblia, demonstrando novamente que, ao recontar o mito e confrontar a tradição, o bom autor volta à superfície com uma história tão actual e relevante quanto se pode ser.