Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 13 de junho de 2016

4.º Aniversário da abertura da Casa dos Bicos

A "Declaração de Princípios", pode ser consultada, na página da Fundação José Saramago, aqui

Declaração de Princípios

"Os objectivos da Fundação José Saramago, nesta data criada, estão enunciados com toda a clareza nas disposições estatutárias pelas quais deverá reger-se. Não têm, portanto, que ser repetidos aqui em Declaração de Princípios. Contudo, pareceu-me apropriado, na circunstância, expressar de modo pessoal umas quantas vontades (ou desejos) que em nada contradizem os referidos objectivos, antes os poderão enquadrar num todo harmonioso e familiarmente reconhecível. Não me dou como exemplo a ninguém, porém, revendo a minha vida, distingo, ora firme, ora trémula, uma linha contínua de passos que não projectei, mas que, de maneira consciente ou não tanto, me fizeram perceber que nenhuma outra poderia servir-me, ao mesmo tempo que se me ia tornando cada vez mais claro que uma das minha obrigações vitais seria servi-la eu a ela. Ter conhecido Pilar, viver ao seu lado, só viria confirmar-me que tal direcção era a correcta, tanto para o escritor como para o homem. A direcção dos grandes valores, sim, mas também a direcção das pequenas e comuns acções que deles decorrem no quotidiano e que lhes darão a melhor validez das experiências adquiridas e das aprendizagens que não cessam. O paradoxo da existência humana está em morrer-se em cada dia um pouco mais, mas que esse dia é, também, uma herança de vida legada ao futuro, que o futuro, longo ou breve seja ele, deverá assumir e fazer frutificar. Nem por vocação, nem por opção nasceu a Fundação José Saramago para contemplar o umbigo do autor.

Sendo assim, entre a vontade e o desejo, eis as minhas propostas:

a ) Que a Fundação José Saramago assuma, nas suas actividades, como norma de conduta, tanto na letra como no espírito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em Nova Iorque no dia 10 de Dezembro de 1948.

b) Que todas as acções da Fundação José Saramago sejam orientadas à luz deste documento que, embora longe da perfeição, é, ainda assim, para quem se decidir a aplicá-lo nas diversas práticas e necessidades da vida, como uma bússola, a qual, mesmo não sabendo traçar o caminho, sempre aponta o Norte.

c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo.

Bem sei que, por si só, a Fundação José Saramago não poderá resolver nenhum destes problemas, mas deverá trabalhar como se para isso tivesse nascido.

Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo.

Lisboa, 29 de Junho de 2007

José Saramago"




domingo, 19 de julho de 2015

Projecto #unchainmee - Pela ABOLIÇÃO de animais nos circos - Saramago e a parceria da Fundação José Saramago

Já pararam para pensar....
Que os animais utilizados para diversão das plateias, SÃO TORTURADOS?
Que os animais são mantidos em absolutas condições de ENCARCERAMENTO em JAULAS?
Que os animais são sujeitos a condições de TORTURA durante os "TREINOS"?
Que as doenças e danos fisicos que condicionem a sua rentabilidade da utilização, leva ao SEU ABANDONO, MORTE e não raras vezes como ALIMENTAÇÃO para outros animais?

Projecto #unchainmee - Pela ABOLIÇÃO de animais nos circos


Actor João Lagarto lê o texto "Susi"


"Susi"
"Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais nos espectáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos. Mais deprimentes do que esses parques, só os espectáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis. Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje, graças aos inúmeros documentários sobre a vida animal que as televisões passam a toda a hora, se é educação que se pretende, ela aí está à espera."

(Foi por esta elefanta que Saramago interveio, seu nome Susi) 

"Perguntar-se-á a que propósito vem isto, e eu respondo já. No zoológico de Barcelona há uma elefanta solitária que está morrendo de pena e das enfermidades, principalmente infecções intestinais, que mais cedo ou mais tarde atacam os animais privados de liberdade. A pena que sofre, não é difícil imaginar, é consequência da recente morte de uma outra elefanta que com a Susi (este é o nome que puseram à triste abandonada) partilhava num mais do que reduzido espaço. O chão que ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis patas deste animais que talvez ainda tenham na memória a macieza do solo das savanas africanas. Eu sei que o mundo tem problemas mais graves que estar agora a preocupar-se com o bem-estar de uma elefanta, mas a boa reputação de que goza Barcelona comporta obrigações, e esta, ainda que possa parecer um exagero meu, é uma delas. Cuidar de Susi, dar-lhe um fim de vida mais digno que ver-se acantonada num espaço reduzidíssimo e ter de pisar esse chão do inferno que para ela é o cimento. A quem devo apelar? À direcção do zoológico? À Câmara? À Generalitat?
P. S.: Deixo aqui uma fotografia. Tal como em Barcelona há grupos – obrigado - que têm pena de Susi, na Austrália também um ser humano se compadeceu de um marsupial vitimado pelos últimos incêndios. A fotografia não pode ser mais emocionante."

(Assistência ao Koala)

Post publicado em 19 de Fevereiro de 2009, 
Blog "Caderno" e livro "O Caderno", Caminho, páginas 198 e 199

A Fundação José Saramago associou-se a este projecto, no apoio institucional e de divulgação da iniciativa, bem como na cedência das instalações para a apresentação dos vídeos de apoio e denuncia da causa. 
Poderá pensar-se que pode ser um assunto desconexo com os princípios desta instituição, virada no seu âmago para a vida e divulgação da obra de José Saramago entre outros desenvolvimentos baseados no aspecto literário, mas cumpre desde a sua instituição e formação alicerçada no espírito do autor e sua intervenção cívica em outros aspectos sociais. 
Na "Declaração de Princípios" (ver http://www.josesaramago.org/declaracao-de-principios/), e pelo punho de Saramago é idealizado que "A direcção dos grandes valores, sim, mas também a direcção das pequenas e comuns acções que deles decorrem no quotidiano e que lhes darão a melhor validez das experiências adquiridas e das aprendizagens que não cessam. O paradoxo da existência humana está em morrer-se em cada dia um pouco mais, mas que esse dia é, também, uma herança de vida legada ao futuro, que o futuro, longo ou breve seja ele, deverá assumir e fazer frutificar.", onde reforça explicitamente outras preocupação sobre as causas da defesa do meio ambiente, e aqui nesta alínea, esta luta é o espelho da sua intervenção junto de tribos ameaçadas pelos grandes interesses económicos das multinacionais que os "governos" residentes dão secular apoio, ou na defesa pontual de um animal, como foi o texto sobre a elefanta Susi, dois exemplos entre mil. Recordando a alínea c) da "Declaração de Princípios", fica vincado o pragmatismo e desconfiança de que o tempo de intervir é cada vez mais urgente. 
"c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo"

O QUE É ESTE PROJECTO?

(Imagem do projecto #unchainmee)

Informação e vídeos em http://www.unchainmee.com/
“Cada Animal Preso no Circo tem uma Cara” é o início de uma campanha internacional de ajuda ao resgate de todos os Animais domésticos e selvagens que trabalham ainda em Circos por todo o mundo.

Por todo o mundo há cada vez mais países a abolir o uso de Animais no Circo, devido ao importante e eficaz trabalho de Associações de defesa de direitos dos Animais.

Muitas organizações dedicam-se também ao resgate, reabilitação física e psicológica e transferência destes Animais para santuários onde possam viver uma vida sem encarceramento nem exploração.

Para apoiar este trabalho um grupo de cidadãos da área das artes e espectáculo juntou-se para criar 12 filmes que mostram a vida de escravidão que todos os animais, sejam eles domésticos ou selvagens, continuam a viver no Circo. Além da questão moral de fundo -- não temos o direito de explorar e manter ninguém em cativeiro para nossa diversão.

Em Portugal, participam neste projecto as muito conceituadas actrizes e actores: RITA BLANCO, ADRIANO LUZ, MARIA JOÃO LUÍS, JOÃO LAGARTO, CARLA BOLITO, FILIPE DUARTE, ANA BRANDÃO, RUBEN ALVES, MITÓ MENDES, MARCELLO URGEGHE, MANUELA COUTO E DIOGO AMARAL.

Sobre #unchainmee 

#unchainmee é um grupo informal de cidadãos a nível nacional e internacional, que se juntou para esta primeira campanha que defende a abolição de animais de qualquer espécie em Circos.

Sendo todos os membros de #unchainmee admiradores do circo enquanto arte e espectáculo com humanos, consideram inaceitável que animais de tantas espécies continuem a ser encarcerados e forçados a actuar.

No seio desta iniciativa nasceu uma produção internacional da autoria da realizadora Teresa Ramos que arranca agora em Portugal com 12 filmes que relatam histórias verdadeiras de animais que viveram no circo e foram resgatados. À semelhança da primeira fase portuguesa, estas histórias serão relatadas também noutros países e representadas por prestigiados actores dos mesmos.

Sobre Regulamentação versus Resgate e Libertação

A lei portuguesa, por exemplo, esquece a defesa e libertação dos animais ainda presos no circo, apenas proíbe a sua reprodução (e apenas de espécies selvagens) permitindo ainda a sua exploração.

Mas mesmo esta lei não é cumprida, visto que, na altura do Natal, continua a ser comum ver os circos apresentarem leões e tigres bebés, para oportunidades fotográficas com espectadores, quando isso é ilegal.

Uma observação do comportamento dos animais que se encontram encarcerados nos circos permite concluir que os sintomas de confinamento, como os movimentos repetitivos, as estereotipias, a coprofragia e tantos outros que estão muito bem documentados por médicos veterinários e biólogos especializados em etologia, demonstram bem a vida de escravidão a que são forçados os animais quando são mantidos nos circos.

Uma das histórias relatadas, a da Elefanta Shirley, mostra que, se os próprios zoos mais avançados do mundo começam a reconhecer, aberta e honestamente, que não conseguem oferecer aos seus animais a qualidade de vida e o espaço suficiente para lhes darem existência decente, então não há como conceber que os circos – ambulantes por natureza e com sistemas de jaulas como únicos alojamentos para os animais – possam manter os animais em boas condições.

Por Fim 

#unchainmee salienta também que este é um problema que afecta igualmente animais de espécies selvagens e de espécies domésticas (estas muito esquecidas ao olhos da lei e do público no mundo inteiro), como de resto se demonstra através das histórias que os filmes contam. A conclusão que se apresenta é de que todos os animais – e não apenas de espécies selvagens – que se encontram nos circos devem ser resgatados e colocados em santuários onde possam recuperar e preservar a sua integridade. O público deve ser incentivado a escolher apenas circos onde não haja Animais."

(Vídeo promocional da campanha)







terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Crónica "Cada vez mais sós" numa visão sobre a sustentabilidade do planeta Terra

"c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo."

Citação constante na Declaração de Princípios, da Fundação José Saramago,
em, http://www.josesaramago.org/declaracao-de-principios/

Considero a crónica "Cada vez mais sós", como sendo, talvez, uma das mais importantes peças literárias de José Saramago, assumindo uma característica unificadora, e ao mesmo tempo, demonstrativa dos seus pensamentos e preocupações.
Neste texto, aflora superficialmente o seu gosto pela ciência e cultura cientifica, ao mesmo tempo, em que assume a reflexão filosófica, com a constatação do isolamento do planeta Terra, como único local habitável, ao ponto de nos deixar sozinhos num imenso e inatingível universo, do qual não se conhecem os seus limites. Por outro lado, também, carrega num dos elementos chave do seu pensamento - o ser humano - poderá(?), o homem ser capaz de assumir a responsabilidade de preservar e fazer perdurar o legado único deste planeta, ou seja, a "vida"? Remata a crónica, com a descrença em relação à indiferença humana, perpetuada no egoísmo que colectivamente está imbuída, demonstrando na realidade o paradigma em que se encerra. O homem, enquanto agente consumidor ávido por defeito e destruidor dos seus recursos naturais, ainda não tomou consciência de que a sua conduta poderá num futuro, levar à sua própria extinção.   
Esta crónica é, como assumia linhas atrás, unificadora e demonstrativa de grande parte do pensamento que José Saramago, nos terá deixado, num tom urgente e carregado de algum dramatismo.
Visionário ou apenas demasiado atento à realidade, neste mundo que no final da década de sessenta, altura em que esta crónica foi publicada no jornal A Capital, ainda não estaria em "cima da mesa" dos governantes, assuntos que por estes "dias", embora politicamente adiados, fazem parte da banalidade das nossas vidas. Hoje, convivemos pacificamente com o degelo irrevogável das calotes glaciares, com a destruição da camada do ozono, com o ataque das petrolíferas na exploração de petróleo em locais da natureza protegidos, com a massificação das desflorestações da florestas, com a extinção em massas de muitas espécies de animais... com, com, com... um sem número de agressões, para as quais José Saramago foi activista através das suas palavras.
Na "Declaração de Princípios" pela qual a Fundação José Saramago, segue o seu "norte", ficou perpetuado este seu valor estruturante para a humanidade. Mas, como é referido, pela indiferença humana em relação aos princípios mais básicos e fundamentais para a espécie humana - "quem vier atrás que feche a porta..."   



"Cada vez mais sós"


"Venho por este meio pedir desculpa aos meus três leitores. Há tempos escrevi neste mesmo lugar uma crónica a que chamei "Um Azul para Marte". Era uma pequena utopia, um breve exercício de imaginação -  mas era também um amargo relance de olhos para os materiais que constituem isto a que chamamos civilização terrestre. Afinal, o Planeta Vermelho, o tal dos canais misteriosos, o que inspirou a Bradbury essas "Crónicas Marcianas", parece estar tão morto como a lua. Dizem-no as fotografias: aquelas crateras tornaram-se, para nós, sinónimo de aridez, desolação, abandono. Esperemos que ao menos haja por lá algum vento, para que o planeta não esteja tão sozinho.
Sozinhos estamos nós, pelos vistos. O sistema solar já não dá grandes esperanças. Júpiter é mole, fluído, não tem consistência para suportar as duras passadas do homem; em Saturno, a temperatura anda pelos cento e cinquenta graus negativos, há metana e amónia, gases nada aconselháveis para pulmões humanos; em Mercúrio, o chumbo estaria sempre derretido no lado voltado para o sol; Úrano e Neptuno são tão frios que os gases familiares só poderão encontrar-se em estado líquido; de Plutão, basta que se diga que é de quatro mil milhões e meio de quilómetros a sua menos distância em relação ao sol; de Vénus parece não haver também muito a esperar; e Marte é a nossa mais recente desilusão.
De maneira que estamos sozinhos. À roda do Sol anda uma coroa de planetas cuja única pedra preciosa - esmeralda, rubi, diamante - é a terra. O resto são poeiras, fornalhas, vórtices de gelo. E aqui, onda e vida foi possível (com poeiras também, algumas fornalhas, gelo que baste), não achámos nada melhor do que inventar processos de igualar em aridez, desolação e abandono, os planetas companheiros. E tão empenhados parecemos nisto que já não nos é impossível abrir vastos poços atómicos, obedecendo ao estilo paisagístico da lua, e agora de Marte: uma espécie de lugar-comum da orografia: a cratera.
Deste meu modesto buraco (perdoe o leitor, mas tudo são buracos, poços, crateras), acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta visa são dois dias, quem vier atrás que feche a porta - mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazia infinito de morte, escuridão e malogro.
Aceitemos que estamos sozinhos. Aceitemo-lo sem desespero. Neste lado da galáxia, num insignificante sistema solar, eis a nossa pátria. Povoam-na três biliões de pessoas, outros satélites vivos que talvez não possam subsistir fora dele. Aceitemos então que estamos sozinho, e, a partir daí, façamos a nova descoberta de que estamos acompanhados - uns pelo outros. Quando pusermos os olhos no céu estrelado, com a furiosa vontade de lá chegar, mesmo que seja para encontrar o que não é para nós, mesmo que tenhamos de resignar-nos à humilde certeza de que, em muitos casos, uma vida não bastará para fazer a viagem - quando pusermos os olhos no céu, repito, não esqueçamos que os pés assentam na terra e que é sobre esta terra que o destino do homem (esse nó misterioso que queremos desatar) tem de cumprir-se. Por uma simples razão de humanidade."

Cróníca originalmente publicada no jornal A Capital, entre 1968 e 1969

em, "Deste Mundo e do Outro - Crónicas"
Caminho
3.ª edição, páginas 215 a 217



Informação sobre as referidas "Crónicas Marcianas" de Ray Bradbury
Aqui, via Wikipédia, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Crônicas_Marcianas

"Crônicas Marcianas (no original "The Martian Chronicles") é um livro de contos de ficção científica de 1950, de autoria do escritor estadunidense Ray Bradbury (222 páginas – Editora Doubleday), cujo tema recorrente é a colonização de Marte por humanos com problemas e eventualmente vindos de uma Terra sob a iminência de ser devastada pela Guerra Atômica. Há também conflitos entre aborígenes marcianos com os novos colonizadores. O estilo do livro varia de contos a novela episódica, com histórias de Bradbury originariamente publicadas nos anos de 1940 em revistas de ficção científica. Bradbury mencionou Sherwood Anderson e As Vinhas da Ira de John Steinbeck como influências na estrutura do livro. A obra é similar em sua estrutura a outro livro de contos de Bradbury, chamado The Illustrated Man, que também usa uma história para ligar várias outras entrelaçadas.
Como na “Série da Fundação” de Isaac Asimov, As crônicas marcianas seguem uma “história futura”. Assim, os contos quando reunidos seriam capítulos de uma narrativa maior. O livro é dividido em três partes, pontuadas por duas catástofres: a extinção recente dos marcianos e os paralelos com a iminente extinção da raça humana. A primeira parte (período de janeiro a abril de 2000) detalha as tentativas dos terrestres de explorarem Marte. Na história-chave "—And the Moon be Still as Bright" (-E a Lua ainda brilha) é revelado que a Quarta Exploração descobriu o perecimento dos marcianos por uma praga causada por germes trazidos por uma das explorações anteriores. A segunda parte (dezembro de 2001—novembro de 2005) é quando os terrestres colonizam o desértico planeta e ocasionalmente fazem contato com poucos marcianos sobreviventes. Mas os colonizadores estão mais preocupados em transformarem o planeta em uma segunda Terra. Contudo, com a ameaça de guerra na Terra, a maioria volta ao lar. Com a guerra nuclear, o contato entre Marte e Terra é interrompido. Na terceira parte (dezembro de 2005—outubro de 2026) há os efeitos do pós-guerra e os poucos sobreviventes humanos se tornando os novos marcianos, fazendo uma ponte com "—And the Moon be Still as Bright" e com isso havendo um retorno ao começo.
Na edição de 1997 as datas avançaram em 31 anos (o período agora seria de 2030 a 2057), inclui o conto "The Fire Balloons" e substitui "Way in the Middle of the Air" por um conto de 1952 chamado "The Wilderness", datado de maio de 2034 (equivalente a maio de 2003 na primeira cronologia)."