Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 1 de maio de 2020

Assinalamos a data histórica do 1.º de Maio

Fotografia no pós 25 de Abril de 1974
José Saramago numa intervenção e acção de esclarecimento



Cartaz do artista plástico José Santa-Bárbara alusivo ao 1.º de Maio


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"Vontades Uma leitura de Memorial do Convento" de José Santa-Bárbara

Capa da edição

José Santa-Bárbara

Encontro de "Josés"

Momentos



Baltasar Mateus o Sete-Sóis


"Porque come Blimunda pão antes de abrir os olhos de manhã, Sim, Se o vieres a saber um dia, será por ela, por mim não, Mas sabe a razão, Sei, E não ma diz, Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples coisa comparando com Blimunda." - Memorial do Convento

Rei D. João V - "Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça." - Memorial do Convento

Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Terceiro Centenário da Colocação da Primeira Pedra do Convento de Mafra e o Memorial do Convento como exepcional obra de divulgação

Memorial do Convento - 1982
Via página da Fundação José Saramago, aqui

«Um romance histórico inovador. Personagem principal, o Convento de Mafra. O escritor aparta-se da descrição engessada, privilegiando a caracterização de uma época. Segue o estilo: “Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra… Era uma vez a gente que construiu esse convento… Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes… Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido”. Tudo, “era uma vez…”. Logo a começar por “D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa a até hoje ainda não emprenhou (…). Depois, a sobressair, essa espantosa personagem, Blimunda, ao encontro de Baltasar. Milhares de léguas andou Blimundo, e o romance correu mundo, na escrita e na ópera (numa adaptação do compositor italiano Azio Corghi). Para a nossa memória ficam essas duas personagens inesquecíveis, um Sete Sóis e o outro Sete Luas, a passearem o seu amor pelo Portugal violento e inquisitorial dos tristes tempos do rei D. João V.» 
(Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998)


José Saramago em diversos momentos junto ao Palácio Nacional de Mafra,
que serviu de inspiração para a sua obra


A arte de José Santa-Bárbara, aqui Baltasar Sete Sóis e Blimunda Sete Luas
Do catálogo da exposição "Vontades Uma leitura de Memorial do Convento"

Cartaz alusivo à comemoração

Pode ser consultada informação sobre o assunto, aqui

"Terceiro Centenário da Colocação da Primeira Pedra do Convento de Mafra."

"Estamos perante o monumento português que melhor reflecte o que podemos chamar de Obra de Arte Total: arquitectura, escultura, pintura, música, livros, têxteis… enfim, um património tipologicamente diversificado, coerentemente pensado e criteriosamente encomendado para este Palácio/Convento/Basílica/Tapada e que aqui configura uma realidade única.

Com efeito, numa área com cerca de 40.000 m2, temos implantado um notável projecto de arquitectura que foi executado sem hiatos nem soluções de remedeio. De facto, aqui tudo é marcado por uma marca de qualidade que só a generosidade joanina podia e sabia exigir: excelência de materiais, soluções arrojadas e requinte de execução.

A Arquitectura modela funcionalidades ligadas por quilómetros de corredores e mais de 150 escadarias. A Engenharia perpassa por todo o monumento, desde o zimbório aos subterrâneos. Para Mafra, escolheram-se os melhores e escolheu-se do melhor: Ludovice e Custódio Vieira na arquitectura, Trevisani e André Gonçalves na pintura, Wolkmar Machado e Domingos Sequeira na pintura mural, Monaldi e Machado de Castro na escultura, Witlockx e Levache nos carrilhões, são alguns daqueles que contribuíram para configurar este património.

Quando visitamos este monumento sentimos que é uma experiência diferente. Diferente porque as singularidades que aqui são vivenciáveis não têm paralelo em qualquer outro sítio: um complexo Hospitalar do século XVIII, dois Carrilhões monumentais do século XVIII, um conjunto (único) de Seis Órgãos de tubos e uma das que por muitos é considerada como sendo a mais bonita Biblioteca histórica do mundo configuram este património que, na sua génese, é um Palácio do Rei, um Palácio da Rainha, um Convento franciscano, uma Basílica e uma Tapada."

sábado, 15 de outubro de 2016

José Santa-Bárbara, artista plástico... um criador

Recuperação de fotografia tirada no atelier de José Santa-Bárbara 
na companhia de José Saramago



"Vontades Uma leitura de Memorial do Convento" de José Santa-Bárbara

Blimunda "Nunca te olharei por dentro" - Óleo sobre Tela (60*73cm)
de José Santa-Bárbara (Informação livro/catálogo "Vontades")

Um dos episódios mais importantes da obra - O desfazer do jejum de Blimunda


Detalhe da obra

 Baltasar Mateus

Baltasar Mateus o Sete-Sóis e Blimunda a Sete-Luas


sábado, 16 de abril de 2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

José Santa-Bárbara e Graça Morais, dois artistas plásticos assinando novas edições de obras de José Saramago

A Silvadesigners tem a responsabilidade de criar as capas das edições da obra de José Saramago, que estão a ser republicadas pela Porto Editora. 
Depois das famosas capas amarelas da Caminho, as edições da Porto Editora são contempladas com um detalhe que acrescenta valor estético a cada obra. Trata-se da escrita manuscrita pelo punho de diversas personalidades, de elevadíssimo valor enquanto criadores das artes e reflexões filosóficas produzidas sobre a condição do ser humano e a sociedade em que vivemos.

Mais informação, através do site da Silvadesigners, aqui

As obras já apresentadas


A Viagem do Elefante, Mário de Carvalho 
A Caverna, Eduardo Lourenço 
A Noite, Armando Baptista-Bastos 
As Pequenas Memórias, Gonçalo M. Tavares 
Ensaio sobre a Lucidez, Dulce Maria Cardoso
Manual de Pintura e Caligrafia, Júlio Pomar 
O Homem Duplicado, Lídia Jorge
As Intermitências da Morte, Valter Hugo Mãe
História do Cerco de Lisboa, Álvaro Siza Vieira 
Os Apontamentos, Maria do Céu Guerra 
Levantado do Chão, Mia Couto
Poemas Possíveis, Almeida Faria 
Provavelmente Alegria, Nuno Júdice
Que farei com este livro?, Carlos do Carmo
Ensaio sobre a Cegueira, Chico Buarque

A captação do momento que servirá para a concepção das capas

 José Santa-Bárbara


Graça Morais

sábado, 12 de março de 2016

"Aproximação a uma textura do pintor" - Sobre José Santa-Bárbara

"Aproximação a uma textura do pintor" 

A unidade e o plural
Algumas das obras de José Saramago apresentam a curiosidade de as suas personagens serem identificadas e incorporadas na acção desprovidas de nome próprio. É o caso do "Manual de Pintura e Caligrafia" com a simples e residual identificação através de letras maiúsculas, ou os dois "Ensaios", o da Cegueira e Lucidez, e também em "As Intermitências da Morte". Nestas obras existem características da personagem que se sobrepõem ao seu nome, entre outros são o caso por exemplo do violoncelista, da mulher do médico, do presidente da câmara. As personagens foram assim identificadas ao mesmo tempo que o autor criou espaço e estrutura para uma aproximação à causa (ou acção) em detrimento da sua nomeação. A causa ou a acção é plural e não reduzida pelo individuo, lá caberão todos os nomes. 
Ao invés, outras obras como o "Levantado do Chão" ou o "Memorial do Convento", revestem-se de um carácter plural, onde a nomeação dos seus interpretes são acima de tudo sinónimo de unificação de classes da sociedade que se encontram menos representadas ou em posição de subalternidade e dependência para com os poderes instituídos. Será transversal e constante em toda a sua obra, as vozes e palavras dos considerados mais fracos e desprotegidos. As "vozes" e a coloquialidade que se manifestam em diversos momentos; por exemplo, nas lutas dos camponeses das terras alentejanas ("Levantado do Chão") ou dos operários na construção do Convento de Mafra ("Memorial do Convento"), ultrapassam a dimensão física que cada nome pode personalizar enquanto unidade ou individuo, para se revestir de uma dimensão absolutamente colectiva.
Em suma, a atribuição de um nome à personagem ou a recusa da sua nomeação, produzirão o mesmo efeito - a transmissão da voz e da mensagem de todos através de um, seja ele o "cão das lágrimas" ou a "Blimunda".

José Santa-Bárbara    
A obra do artista plástico e pintor José Santa-Bárbara (que aqui recupero duas pinturas emblemáticas), no que se refere à sua abordagem da temática Saramaguina, é no meu entendimento sem querer de alguma forma ser redutor, a soma das vontades e desassossegos que José Saramago gerou em cada personagem. 
Algo que me fascina profundamente nesta complementaridade entre "Josés", Saramago e Santa-Bárbara, e que me permite perceber a existência de uma atmosfera de cumplicidade, absoluto conhecimento mútuo das obras e quase transferência de conteúdos (pintor e escritor), é a forma como o pintor consegue absorver o espírito, tanto ao nível da cena do livro e personagem, como da obra em termos gerais, para dar corpo e textura visual a algo que em geral não é identificável ou identificado por palavras do escritor e transportar assim para a tela o corpo de um sentimento ou sensação de personagem.

Aqui presto a minha homenagem ao artista José Santa-Bárbara, criador destas sensações que aqui quis deixar testemunho.

Rui Santos (12/03/2016)   

Aqui deixo o enquadramento das pinturas com alusão a fonte do texto
"O cão das Lágrimas" Pintura a óleo de José Santa-Bárbara

(...) "A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele. Quando enfim levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu tinha diante de si um grande mapa (...) 

(...) Os cães foram ficando para trás, alguma coisa os distraiu pelo caminho, ou estão muito habituados ao bairro e não querem deixá-lo, só o cão que tinha bebido as lágrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro da mulher e do mapa, tão bem preparado pelo destino, incluía também um cão. O certo é que entraram juntos na loja, o cão das lágrimas não estranhou ver pessoas estendidas no chão, tão imóveis que pareciam mortas, estava habituado, às vezes deixavam-no dormir no meio delas, e quando era hora de se levantarem, quase sempre estavam vivas. (...)

(...) Acordem, se estão a dormir (...) 

(...) Tem, porém, a palavra comida poderes mágicos, mormente quando o apetite aperta, até o cão das lágrimas, que não conhece linguagem, se pôs a abanar o rabo, o instintivo movimento fê-lo recordar-se que ainda não tinha feito aquilo a que estão obrigados os cães molhados, sacudirem-se com violência, respingando quanto estiver ao redor (...)

in, "Ensaio sobre a Cegueira"
Caminho, páginas 226 e 227 (1995)


Blimunda "Nunca te olharei por dentro" - Óleo sobre Tela (60*73cm)
de José Santa-Bárbara (Informação livro/catálogo "Vontades")

(...) "Se começa a chover, não teremos onde recolher-nos, depois levanta os olhos para as nuvens, é uma única placa sombria, cor de ardósia, Se as vontades são nuvens fechadas, quem sabe se não ficarão presas nestas, tão escuras e grossas que nem o próprio sol se vê por, trás delas, e Blimunda respondeu, Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti está, Ou de ti, Ou de mim, pudesses tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem, Mas tu nunca viste a minha nuvem, nem a tua, Ninguém pode ver a sua própria vontade, e de ti jurei que nunca te veria por dentro, mas tu, Baltasar Sete-Sóis, minha mãe não se enganou, quando me dás a mão, quando te encostas a mim, quando me apertas, não preciso ver-te por dentro, Se eu morrer antes de ti, peço-te que me vejas, Morrendo tu, vai-se-te a vontade do corpo, Quem sabe. (...)

in, "Memorial do Convento"
Caminho, página 139 (1982, 20.ª edição de 1990)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

"Vontades Uma leitura de Memorial do Convento" de José Santa-Bárbara


"Vontades Uma leitura de Memorial do Convento" de José Santa-Bárbara
Caminho, 2001 (2.ª Edição, 2013)


Textos de José Saramago, Carlos Reis, Orlando da Costa, Sérgio Ribeiro e Rogério Ribeiro

 

24 Pinturas (das quais 14 Óleo sobre tela e restantes 
em Têmpera vinílica sobre papel colado)
11 Pinturas de estudo


sábado, 30 de janeiro de 2016

"Casa dos Bicos" sede da FJS, alguns elementos da sua história

Pequena abordagem da evolução histórica da "Casa dos Bicos" (baseada na fotografia postada na página do Facebook da Fundação José Saramago), datada de 1951; de onde se recua até ao século XIX, e daí até aos nossos dias.

A página da Direcção-Geral do Património Cultural, classifica o edifício "Casa de Brás de Albuquerque (Casa dos Bicos)", e cuja informação histórica pode ser aqui consultada, 
"A Casa dos Bicos é um dos raros exemplares da arquitectura renascentista que subsistiu da Lisboa manuelina. Foi mandada edificar por Brás de Albuquerque, cortesão de reconhecida e esmerada cultura humanista, devendo-se também ao seu patrocínio a construção da magnífica Quinta da Bacalhôa. 
Em 1521 Brás de Albuquerque integrou a comitiva real que conduziu a Infanta D. Beatriz, filha de D. Manuel, a Itália para seu o casamento com o duque Carlos III de Sabóia; aí, o conselheiro do Venturoso terá contactado com os modelos eruditos da arquitectura renascentista italiana. Ao voltar a Portugal, cerca de 1523, mandou erguer nos terrenos fronteiros à Ribeira Velha e à Alfândega que haviam pertencido ao vice-rei Afonso de Albuquerque, seu pai, um edifício inspirado nos palácios dei diamanti italianos, com loja, sobreloja e dois andares nobres, havendo alguns autores que atribuem a obra ao arquitecto régio Francisco de Arruda. 
A estrutura original ficou bastante danificada devido ao terramoto de 1755 e ao incêndio que se lhe seguiu. A fachada principal, que ficava virada à actual Rua Afonso de Albuquerque, caiu, e os dois andares cimeiros de todo o edifício ruíram. Em 1772 o edifício foi parcialmente reconstruído, mas a estrutura quinhentista ficou irremediavelmente alterada. Ao longo do século XIX a casa sofreu as mais variadas vicissitudes, chegando a ser utilizada como armazém de bacalhau por largas dezenas de anos. 
Cerca de 1960 a Câmara de Lisboa adquiriu a Casa dos Bicos, contratando em 1968 o arquitecto Raul Lino para executar um projecto de adaptação do espaço a museu. No entanto, a obra foi adiada, e somente em 1981 foi desenhado o plano de recuperação da Casa dos Bicos, pela mão do arquitecto Santa Rita. O espaço foi então adaptado às novas funções museológicas, sendo acrescentados ao edifício os dois andares que perdera com o terramoto. A fachada foi reconstruída segundo imagens antigas de Lisboa que mostram a estrutura original da casa de Brás de Albuquerque. 
De planta rectangular, o edifício distingue-se pela sua invulgar fachada, em que o aparelho de pontas de diamante de gosto renascentista - que originou a designação popular de Casa dos Bicos - se conjuga com as janelas contemporâneas inspiradas na linguagem decorativa manuelina, cuja distribuição irregular imprime ritmo à fachada. No piso térreo foram abertas portas de moldura regular com diferentes dimensões. A disposição original do espaço interior foi profundamente alterada para poder albergar os núcleos de museologia. 
Entre 1986 e 2002 o edifício albergou a extinta Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Actualmente, é a sede da Fundação José Saramago. 
Catarina Oliveira - DGPC, Julho de 2012"

A fachada da Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago
Nas janelas, obra do artista plástico José Santa-Bárbara, baseada no "Memorial do Convento"
"Edição especial de Memorial do Convento, de José Saramago, comemorativa 
do vigésimo aniversário da sua primeira edição, em Outubro de 1982. 
É ilustrada com pinturas de José Santa-Bárbara que se incluem no ciclo «Vontades. 
Uma leitura de Memorial do Convento»." (Fonte: Bibliografia FJS)


Casa dos Bicos e a Oliveira transplantada da
Azinhaga, terra natal de José Saramago
Ponto de encontro e de acesso aos visitantes da Fundação José Saramago
(Na foto, a criança e a continuidade - Fotografia Helena Mesquita)


"Lisboa 1951 - Casa dos Bicos - Fotografia de Alfred Franz Adolf Ehrhardt"
Fotografia colocada na página do Facebook da Fundação José Saramago, aqui

Do blog "Lisboa de Antigamente" é feita uma abordagem histórica 
à construção e história da conhecida "Casa dos Bicos" Pode ser consultado, aqui 

(Rua dos Bacalhoeiros, 10/10F (Século XIX)
Paulo Guedes, in Arquivo Municipal de Lisboa

(Rua dos Bacalhoeiros, 10/10F (Século XIX)
José Artur Leitão Bárcia, in Arquivo Municipal de Lisboa

Mais informação, na página do Facebook, aqui




terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - José Santa-Bárbara "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento"

É unânime afirmar-se que só as grandes obras literárias merecem ser adaptadas em outros formatos.
Seja no teatro ou cinema, banda desenhada ou pinturas. O "Memorial do Convento" foi publicado em 1982 e já teve 54 edições, a última das quais em 2014 pela Porto Editora, e traduzido para um número de países que torna a obra com carácter universal (http://www.josesaramago.org/memorial-do-convento-1982/)
Aqui recupero e destaca-se a obra do artista plástico José Santa-Bárbara, "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento" que o Professor Carlos Reis, também estudioso da obra de José Saramago, deu especial destaque e relevo.
Das suas palavras e que podem ser consultadas no site "Figuras da Ficção", em https://figurasdaficcao.wordpress.com/category/jose-santa-barbara/ deixo com a devida referência ao autor o seguinte:

(Capa do catálogo Vontades)

«A 19 de agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento.
O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro medium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como o catálogo a testemunha: trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com uso de diferentes técnicas e predominância do óleo  e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos recorrem ao pastel, com uma exceção (uma aguarela). A feição geral das obras  revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática.

Um dos episódios mais importantes da obra - O desfazer do jejum de Blimunda

Trata-se, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, “A ara de Cheleiros”, “Infanta gatinhando”, “Os fazedores do capricho” e sobretudo  “Os passatempos d’El-Rei”. Para além disso, o pintor fixou-se em temas e em contextos que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição, a construção da passarola voadora. Aqueles componentes ideológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado de D. João V, que a História, digamos, oficial fixou com o cognome de Magnânimo.

Ilustração do Rei Dom João V

Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise de um diálogo  desenvolvido em função da triangulação História-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor quem nota que Saramago “deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha, Baltasar Mateus, Blimunda”; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: “Torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo…”

Baltasar Mateus o Sete-Sóis e Blimunda a Sete-Luas

 Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: “Aqui fica a minha «leitura» d’aquilo que para mim é a verdadeira História” (Santa-Bárbara, 2001: [4]). Como quem diz (repare-se nas aspas): há uma «leitura» outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a “verdadeira História” requer a questionação (ideológica, bem entendido) da versão oficial que uma outra História tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento.  Ilustrações do cabeçalho:   pormenores de quadros de Vontades). - 28/12/2012 

Baltasar Mateus