Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 21 de abril de 2020

Sobre a interpretação e poema "Nesta esquina do tempo" de José Saramago no canal RTP2 (18/11/2013)

"Magazine literário, com apresentação de Teresa Sampaio, dedicado ao livro "Nesta esquina do Tempo", poemas de José Saramago musicados por Luís Pastor, em edição bilingue (português e espanhol), comentado pelo canto-autor Luís Pastor e por Pilar del Río, com recurso à memória fílmica de uma inesquecível reunião de amigos, e pessoas improváveis, que festejaram a obra de Saramago no dia da inauguração da sua Biblioteca, em Lanzarote.

Nome do Programa: Ler+, Ler Melhor
Personalidades: Teresa Sampaio, Luís Pastor, Pilar del Río
Temas: Artes e Cultura
Canal: RTP 2
Apresentação e produção: Teresa Sampaio Realização: António Pinto

Pode ser recuperado e visualizado aqui
em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-jose-saramago-nesta-esquina-do-tempo/


sábado, 28 de janeiro de 2017

Poema "Eu luminoso não sou" publicado em "Provavelmente Alegria (1970)

"Eu luminoso não sou"

"Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem."

in, “Provavelmente Alegria” (1970)
Editorial Caminho, 1985 (3.ª Edição, Pagina 72)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Circo" poema de José Saramago cantado por Fernando Tordo (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"Fernando Tordo na Sociedad General de Autores y Editores aquando da edição do disco "Tributo aos Laureados Nobel - Tordo Canta". José Saramago assiste emocionado na plateia. Canção "Circo", poema de José Saramago, arranjos e direcção musical de Josep Mas (Kitflus). Canta Fernando Tordo"

"Circo"
"Poeta não é gente, é bicho coiso 
Que da jaula ou gaiola vadiou 
E anda pelo mundo às cambalhotas, 
Recordadas do circo que inventou. 

Estende no chão a capa que o destapa, 
Faz do peito tambor, e rufa, salta, 
É urso bailarino, mono sábio, 
Ave torta de bico e pernalta 

Ao fim toca a charanga do poema, 
Caixa, fagote, notas arranhadas, 
E porque bicho é, bicho lá fica, 
A cantar às estrelas apagadas."

JOSÉ SARAMAGO 
In, "Os Poemas Possíveis", 1.ª edição de 1966 
1.ª edição da Porto Editora de 2014


sábado, 3 de setembro de 2016

"Julieta a Romeu" e "Romeu a Julieta" Poemas de José Saramago - "Os Poemas Possíveis"

"Julieta a Romeu"
"É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade."
in, "Os Poemas Possíveis" 
Edição Porto Editora, página 104

"Romeu a Julieta"
"Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna."
in, "Os Poemas Possíveis" 
Edição Porto Editora, página 105

terça-feira, 14 de junho de 2016

"Catorze de Junho" poema declamado e inserido na obra de Luis Pastor "Nesta Esquina do Tempo"

Pode ser escutado, aqui via YouTube, pela voz de José Saramago

Catorze de Junho

"Cerremos esta porta.
Devagar. devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos,
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como num barco no mar, ou o pão na mesa,
Ou rumuroso leito.
Não se afastou o temo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo." 

(in Poesia Completa, Alfaguara, pág. 636-637)

O poema "Catorze de Junho" é declamado nesta obra de Luis Pastor

sábado, 4 de junho de 2016

"Protopoema" de José Saramago - "Provavelmente Alegria"

Declamado por Frank Serrano Rodriguez, pode ser assistido via YouTube, aqui 

"Protopoema"

"Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos 
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto. 
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os 
dedos. 
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, 
e tem a macieza quente do lodo vivo. 
É um rio. 
Corre-me nas mãos, agora molhadas. 
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de 
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para 
mim fluem. 
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o 
próprio corpo do rio. 
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os 
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que 
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa 
dos olhos. 
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas 
águas como os apelos imprecisos da memória. 
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga. 
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e 
firme pulsar do coração. 
Agora o céu está mais perto e mudou de cor. 
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo 
acorda o canto das aves. 
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu 
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o 
esplendor maior que acende a superfície das águas. 
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas 
da memória e o vulto subitamente anunciado do 
futuro. 
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar 
calada sobre a proa rigorosa do barco. 
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que 
as aves digam nos ramos por que são altos os 
choupos e rumorosas as suas folhas. 
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, 
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas 
verticais circundam. 
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra 
viva. 
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se 
juntarem às mãos. 
Depois saberei tudo." 

José Saramago
in,  "Provavelmente Alegria" 
Caminho, 3.ª edição, páginas 54 e 55 - 1985

domingo, 15 de maio de 2016

Poema de José Saramago "Não me peçam razões..." interpretado por Ódin Santos​ - XII Mostra de Teatro Escolar promovida pela Câmara Municipal de Sesimbra​ e produzida pelo ATL Caso Notável​


"O Cineteatro Municipal João Mota acolhe nos dias 14, 15 e 21 de maio, a XII edição da Mostra de Teatro Escolar, que apresenta várias peças preparadas por alunos da rede pública, solidária e privada.
Dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pelas escolas, promover o teatro junto da comunidade escolar e contribuir para o crescimento artístico e pessoal dos alunos do concelho são os principais objetivos da Mostra de Teatro. Durante os três dias vão passar pelo palco dezenas de jovens talentos. Os temas são diversos e foram trabalhados ao longo de vários meses pelos jovens atores, em conjunto com os professores."


Ódin Santos​ na sua participação da peça de teatro escolar promovida pela Câmara Municipal de Sesimbra​ encenada e produzida pelo ATL Caso Notável​

Facebook do ATL Caso Notável https://www.facebook.com/casonotavel.atl.centrodeestudo/?fref=ts

Pode ser visualizado via YouTube, aqui
em https://www.youtube.com/watch?v=XxHmWarshXo

"Não me Peçam Razões..."

Não me peçam razões, que não as tenho, 
Ou darei quantas queiram: bem sabemos 
Que razões são palavras, todas nascem 
Da mansa hipocrisia que aprendemos. 

Não me peçam razões por que se entenda 
A força de maré que me enche o peito, 
Este estar mal no mundo e nesta lei: 
Não fiz a lei e o mundo não aceito. 

Não me peçam razões, ou que as desculpe, 
Deste modo de amar e destruir: 
Quando a noite é de mais é que amanhece 
A cor de primavera que há-de vir. 

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" 

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Há-de haver..." poema de José Saramago musicado por Luis Cilia em 1969

https://www.youtube.com/watch?v=OLBSeTJrto0


"O seu segundo disco da triologia "la poesie portugaise de nos jours et de toujours" 
começa com este poema de José Saramago. Estávamos em 1969."

"Há-de haver..."
Um juntar de palavras escondido,
Há-de haver uma chave para abrir
A porta deste muro desmedido.

Há-de haver uma ilha mais ao sul.
Uma corda mais tensa e ressoante, 
Outro mar que nade noutro azul, 
Outra altura de voz que melhor cante. 

Poesia tardia que não chegas 
A dizer nem metade do que sabes: 
Não calas, quando podes, nem renegas 
Este corpo de acaso em que não cabes."

Original de José Saramago
"Os Poemas Possíveis"
Portugália Editora (1996)
Reedição Porto Editora, página 49

domingo, 8 de maio de 2016

"Tenho um irmão siamês" poema musicado por Manuel Freire para o seu trabalho "As Canções Possíves" - Publicado em Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970

Pode ser recuperado e visualizado, via YouTube, aqui

"Tenho um irmão siamês"
 poema musicado por Manuel Freire para o seu trabalho "As Canções Possíves" 
Publicado em "Provavelmente Alegria" - Caminho (1987) da 1.ª edição, Livros Horizonte (1970)

Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)

in Provavelmente Alegria, 
Caminho, 1987, 3.ª edição - 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970

sexta-feira, 6 de maio de 2016

"Manhã" Poema de José Saramago - "Provavelmente Alegria"

"Manhã"

"Altos os troncos, e no alto os cantos:
A hora da manhã, a nós descida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.

Confiança das tuas mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos."

in, "Provavelmente Alegria"
Caminho, página 39

Poema "Inventário" de José Saramago ("Os Poemas Possíveis") musicado por João Afonso para o CD "Nesta Esquina do Tempo"

Via YouTube, aqui

"Inventário"
"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

In, "Os Poemas Possíveis"

domingo, 3 de abril de 2016

Manuel Freire "Retrato do poeta quando jovem" poema de José Saramago


"Retrato do poeta quando jovem"

"Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Leves ondas se furtam para o lado
Com o rumor de seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
Na hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Uma ânsia de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história."

in, "Os Poemas Possíveis"
Publicado em 1966 pela Portugália Editora
Porto Editora, página 57 (2014)

sábado, 5 de março de 2016

Luís Cília (Viola) e Manuel Freire (Voz) interpretam poema "Dia Não" de José Saramago

O poema pode ser ouvido, aqui via YouTube,


Dia Não
"De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas."

in, "Os Poemas Possíveis" - 1966

quinta-feira, 3 de março de 2016

"Jogo do Lenço" Poema de José Saramago declamado por Maria do Céu Guerra ("Os Poemas Possíveis", 1966)

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui

"Poema do Livro "Provavelmente Alegria" de José Saramago, dito por Maria do Céu Guerra, incluido na homenagem que o PCP lhe fez por ocasião do 10.º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Literatura."

"Jogo do Lenço"

"Trago no bolso do peito 
Um lenço de seda fina, 
Dobrado de certo jeito. 
Não sei quem tanto lhe ensina 
Que quanto faz é bem feito. 

Acena nas despedidas, 
Quando a voz já lá não chega 
Por distâncias desmedidas. 
Depois, no bolso aconchega 
As saudades permitidas. 

Também o suor salgado, 
Às vezes, enxugo a medo, 
Que o lenço é mal empregado. 
E quando me feri um dedo, 
Com ele o trouxe ligado. 

Nunca mais chegava ao fim 
Se as graças todas dissesse 
Deste meu lenço e de mim, 
Mas uma coisa acontece 
De que não sei porque sim: 

Quando os meus olhos molhados 
Pedem auxílio do lenço, 
São pedidos escusados. 
E é bem por isso que penso 
Que os meus olhos, se molhados, 
Só se enxugam no teu lenço."


José Saramago, 
in, "Os Poemas Possíveis", 1966 

terça-feira, 1 de março de 2016

Poema de José Saramago lido por Carmen Dolores, in "Maio, trabalho, luta", Ed. Avante", 2010

Pode ser visualizado, aqui via YouTube

Poema de José Saramago lido por Carmen Dolores, in "Maio, trabalho, luta", Ed. Avante", 2010

"A propósito do 120.º aniversário do 1.º de Maio, a Editorial «Avante!» publica uma colectânea de 80 poemas de autores de 20 países. Esta obra é acompanhada de um DVD no qual cerca de 20 artistas portugueses dizem os poemas constantes do livro.

O volume é enriquecido com um Prefácio de José Casanova, no qual se evidencia a relação entre a poesia e a luta transformadora dos trabalhadores e dos povos, e se relatam os antecedentes históricos da celebração do 1.º de Maio, assim como os momentos marcantes dessa comemoração no nosso País."

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Texto de José Saramago "Intimidad" com música de Lucrecia Dalt e voz de Ainara Pardal (via RTVE

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Publicação original via página da RTVE, aqui em
http://www.rtve.es/m/alacarta/videos/palabra-voyeur/jose-saramago-intimidad/2865742/?media=tve

Sinopse
"Nuestro voyeur esta semana te quiere invitar a vivir y disfrutar de la poesía como nunca antes lo has hecho. Tarea que resulta sencilla cuando se escoge a uno de los más grandes autores de todos los tiempos, el escritor José Saramago. Viaja con nosotros a través de sus palabras y déjate llevar por el ritmo y la belleza que se esconde en cada verso de nuestra nueva entrega voyeur."

Título: "Intimidad"
Autor: José Saramago
Música: Lucrecia Dalt
Voz: Ainara Pardal

"Intimidad"

"En el corazón de la mina más secreta,
En el interior del fruto más distante,
En la vibración de la nota más discreta,
En la caracola espiral y resonante,
En la capa más densa de pintura,
En la vena que en el cuerpo más nos sonde,
En la palabra que diga más blandura,
En la raíz que más baje, más esconda,
En el silencio más hondo de esta pausa,
Donde la vida se hizo eternidad,
Busco tu mano y descifro la causa
De querer y no creer, final, intimidad."


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

"Espuma das Palavras" de Rui Santos - Uma revisitação sobre alguns traços da obra de Saramago

(Capa da edição "Espuma das Palavras")

Género - Poesia

Capa e ilustrações de Diane Sbardelotto

Pode ser consultado e descarregado gratuitamente, aqui



Sobre o opúsculo
“Espuma das palavras traz a relevo o exercício da força imaginativa do escritor como produto da relação com os acontecimentos de sua própria vida, das leituras e da aproximação que mantém com os principais temas de seu tempo” (Pedro Fernandes)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Na ilha por vezes habitada" - José Saramago

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui
(Voz de Soares Teixeira)

"Na ilha por vezes habitada" - José Saramago"

"Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.

Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste."

in, "Provavelmente Alegria"
Caminho, 3.ª edição, página 52



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pedro Barroso canta José Saramago - "Nasce Afrodite amor, nasce o teu corpo" (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado, aqui, via YouTube 

Do DVD de Pedro Barroso 40 anos de música e palavras - Afrodite - 
Poema de José Saramago e Música de Pedro Barroso


Afrodite 
"Ao princípio, é nada. Um sopro apenas, 
Um arrepio de escamas, o perpassar da sombra 
Como nuvem marinha que se esgarça 
Nos radiais tentáculos da medusa. 
Não se dirá que o mar se comoveu 
E que a onda vai formar-se deste frémito. 
No embalo do mar oscilam peixes 
E os braços das algas, serpentinos, 
À corrente se dobram, como ao vento 
As searas da terra, as crinas dos cavalos. 
Entre dois infinitos de azul avança a onda, 
Toda de sol coberta, rebrilhando, 
Líquido corpo, instável, de água cega. 
De longe acorre o vento, transportando 
O pólen das flores e os mais perfumes 
Da terra confrontada, escura e verde. 
Trovejando, a vaga rola, e fecundada 
Se lança para o vento à sua espera 
No leito de rochas negras que se encrespam
De agudas unhas e vidas fervilhantes, 
Ainda alto as águas se suspendem
No instante final da gestação sem par.
E quando, num rapto de vida que começa,
A onda se despedaça e rasga no rochedo,
O envolve, cinge, aperta e por ele escorre
- Da espuma branca, do sol, do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,
Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda
Afrodite  nasceu, nasceu o teu corpo."

in, "Os Poemas Possíveis"
Porto Editora, 2014, páginas 131 e 132
Publicado originalmente em 1966 pela "Portugália Editora"

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Poema «Lugar-comum do quadragenário»

José Saramago recupera este poema, escrito por altura dos seus quarenta anos, isto a propósito da menção que faz a Javier e María, na sua nova casa.
Depois destas três décadas passadas, Saramago refere-se assim:

"Como vejo eu isto, trinta anos depois? Sorrio, encolho os ombros, e penso: 
«Que coisas nós dizemos aos quarenta anos...»"

Lugar-comum ao quadragenário
"Quinze mil dias secos são passados,
Quinze mil ocasiões que se perderam,
Quinze mil sóis inúteis que nasceram,
Hora a hora contados
Neste solene, mas grotesco gesto
De dar corda a relógios inventados
Para buscar, nos anos que esqueceram,
A paciência de ir vivendo o resto."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário I"
página 144, 17 de Outubro de 1993