Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 29 de maio de 2016

"Breve Meditação sobre Um Retrato de Che Guevara" para a revista "Casa de las Américas" - (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 12/12/1996)

12 de Dezembro (de 1996)
Roberto Fernández Retamar pediu-me, para a revista Casa de las Américas, um artigo sobre Ernesto Che Guevara. Com o título «Breve Meditação sobre Um Retrato de Che Guevara», escrevi isto: 
«Não importa que retrato. Um qualquer: sério, sorrindo, de arma na mão, com Fidel ou sem Fidel, discursando nas Nações Unidas, ou morto, de tronco nu e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisesse acompanhar o rasto do mundo que teve de deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas crianças que estavam por nascer. Sobre cada uma destas imagens poder-se-ia discorrer profusamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objectividade prosaica do historiador ou simplesmente como quem se dispôs a falar do amigo que percebe ter perdido porque o não chegou a conhecer... 
«Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e de vermelho, que se tornou em imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto férteis que nunca haveriam de murchar em rotinas e cepticismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o injusto, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou seguro à parede por meios precários, esse retrato assistiu a debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, minorou desânimos, acalentou esperanças. Foi olhado como um Cristo que tivesse descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água com que se matariam todas as sedes e transformar essa mesma água no vinho com que se beberia ao esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano. 
«Mas foi também usado como adorno incongruente em muitas casas da pequena e da média burguesia intelectual portuguesa, para cujos habitantes as ideologias políticas de afirmação socialista não passavam de um mero capricho conjuntural, forma supostamente arriscada de ocupar ócios mentais, frivolidade mundana que não pôde resistir ao primeiro choque da realidade, quando os factos vieram exigir o cumprimento das palavras. Então, o retrato de Che Guevara, testemunha, primeiro, de tantos inflamados anúncios de compromisso e de acção futura, juiz, agora, do medo encoberto, da renúncia cobarde ou da traição aberta, foi retirado das paredes, escondido, na melhor hipótese, no fundo de um armário, ou radicalmente destruído, como se gostaria de fazer a algo que tivesse sido motivo de vergonha. 
«Uma das lições políticas mais instrutivas, nos tempos de hoje, seria saber o que pensam de si próprios esses milhares e milhares de homens e mulheres que em todo o mundo tiveram algum dia o retrato de Che Guevara à cabeceira da cama, ou em frente da mesa de trabalho, ou na sala onde recebiam os amigos, e que agora sorriem de terem acreditado ou fingido acreditar. Alguns diriam que a vida mudou, que Che Guevara, ao perder a sua guerra, nos fez perder a nossa, e portanto era inútil ficar a chorar, como uma criança, o leite derramado. Outros confessariam que se deixaram envolver por uma moda do tempo, a mesma que fez crescer barbas e alargar as melenas, como se a revolução fosse uma questão de cabeleireiro. Os mais honestos reconheceriam que o coração lhes dói, que sentem nele o movimento perpétuo de um remorso, como se a sua verdadeira vida tivesse suspendido o curso e agora lhes perguntasse, obsessivamente, aonde pensam ir sem ideais nem esperança, sem uma ideia de futuro que dê algum sentido ao presente. 
«Che Guevara, se tal se pode dizer, já existia antes de ter nascido, Che Guevara, se tal se pode afirmar, continuou a existir depois de ter morrido. Porque Che Guevara é só o outro nome do que há de mais justo e digno no espírito humano. O que tantas vezes vive adormecido dentro de nós. O que devemos acordar para conhecer e conhecer-nos, para acrescentar o passo humilde de cada um ao caminho de todos.» 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 265 a 267 - 12/12/1996

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sobre a fome no mundo ou o grito recorrente e constante de José Saramago - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" e "Os Poemas Possíveis"

17 de Novembro (de 1996)
"Novas notícias da fome, desta vez muito mais animadoras. A Conferência da FAO, reunida em Roma nestes dias, acaba de aprovar uma resolução no sentido de que sejam reduzidos para metade, até ao ano 2015, os 800 milhões de famintos que existem actualmente... 
Espera-se que os restantes 400 milhões possam morrer daqui até lá: ficaria resolvido dessa maneira o problema da fome no mundo."
in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, página 255

Pode ser visualizado, via YouTube aqui

Poema "Fala do Velho do Restelo ao astronauta"

Aqui, na Terra, a fome continua, 
A miséria, o luto, e outra vez a fome. 

Acendemos cigarros em fogos de napalme 
E dizemos amor sem saber o que seja. 
Mas fizemos de ti a prova da riqueza, 
E também da pobreza, e da fome outra vez. 
E pusemos em ti sei lá bem que desejo 
De mais alto que nós, e melhor e mais puro. 

No jornal, de olhos tensos, soletramos 
As vertigens do espaço e maravilhas: 
Oceanos salgados que circundam 
Ilhas mortas de sede, onde não chove. 

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa 
Onde come, brincando, só a fome, 
Só a fome, astronauta, só a fome, 
E são brinquedos as bombas de napalme.

in, "Os Poemas Possíveis" (1966)

Impressões de Nova Iorque para o jornal "Público" - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (de 11 a 14 de Novembro de 1996)

11 de Novembro 
Posto a escrever para o Público as minhas impressões de Nova Iorque, eis o que saiu: 
«Será Nova Iorque realmente uma cidade? Não será antes um enorme estúdio de cinema, com ruas, avenidas, táxis, autocarros, ascensores, escadas rolantes e carruagens de metropolitano para nos levarem a cenários onde em cada momento se filmam todos os guiões possíveis, e alguns inimagináveis? Há empenas e gárgulas para a nova versão de Batman, cornijas e ventiladores para outro Blade Runner, torres e frontões para um Citizen Kane de nova geração. Há edifícios sem estilo classificável, em cuja contemplação o gosto de um europeu se desorienta, em que as referências estéticas se confundem, mas que os olhos não quereriam abandonar. O Hotel Theresa, na Rua 125, em pleno Harlem negro, é um desses. Visto de fora, mais parece um set desocupado, à espera dos actores e das câmaras para voltar a viver, fantasticamente, as velhas ficções da luz e da sombra. Na rua, alguns brancos olham surpreendidos a alta frontaria, depois vão ao Teatro Apollo, logo adiante, ver os cartazes, e aí sai-lhes ao caminho um homem de barbas, transportando em cada mão um saco de plástico, que lhes pergunta se são por Deus ou pelo Diabo. Não parecia estar muito interessado nas respostas, tal-vez por saber que, também ali na Rua 125, o verdadeiro sentido das coisas é não terem sentido nenhum...» 

«A água do lago é opaca, espessa, custa a crer que seja o nadar natural que faz avançar os patos. Provavelmente navegam a motor... Chove. As gotas miúdas que vão caindo reúnem-se nas folhas e nos ramos das árvores, depois deixam-se tombar em pingos grossos sobre as cabeças dos contemplativos. Nesta atmosfera cinzenta, Central Park parece libertar-se da reclusão, das grades que o limitam, dos arranha-céus que o rodeiam, e tornar-se num simples bosque do mundo. No alto da rocha que ergue do interior da terra um ombro gigantesco, é possível imaginar que ainda estamos em 1626, quando os índios algonquins estavam para vender a ilha por 50 florins, o mesmo que 24 dólares de hoje, e algum deles, olhando deste lugar a paisagem aberta, se perguntava, duvidoso, se o negócio iria valer a pena. Talvez seja a ele que se quis representar na estátua do caçador índio que faz companhia, em The Mall, a alguns varões ilustres do lado de cá do Atlântico, nada mais nada menos que Beethoven, Schiller, Walter Scott, Shakespeare, Cristóvão Colombo. Se assim foi, da memória dos índios é tudo quanto por aqui resta. A um outro que também foi mais ou menos índio, mas mais bem pago, John Lennon, ainda lhe põem flores...» 

"Blindness" 
Capa da edição EUA - "Ensaio sobre a Cegueira"

12 de Novembro 
Mais Nova Iorque: 
«Deveriam chamar-lhe a Avenida-da-Sorte-Que-Chegará-Um-Dia. Cobrir-se de diamantes, por exemplo, é o mais fácil que há no mundo: basta ir comer o croissant do pequeno-almoço diante das montras de Tiffany's, como fez a esperta da Audrey Hepburn, embora nem toda a gente goze do privilégio de ter um pescoço como o dela e sejam menos ainda os que aguentam um minuto levar na cara aquela expressão de felicidade tonta. Nova Iorque sem 5.a Avenida seria uma aldeia, vai-se a Nova Iorque porque está lá a 5.a Avenida. Se a 5.a Avenida estivesse em A-dos-Cunhados, iríamos a A-dos-Cunhados. A 5." Avenida, como a Pasárgada de Manuel Bandeira, tem tudo, e nem é preciso ser amigo do rei: basta mostrar um cartão de crédito (dourado por causa do status) e ter no banco saldo que se veja. Com pouco dinheiro, ou mesmo sem nenhum, onde se pode entrar é na New Yok Public Library, que, mais do que rica, é milionária em livros. Para quem goste, claro. O que não se recomenda é sentar-se a ler o Elogio da Loucura do Erasmo de Roterdão com os diamantes de Tiffany's pendurados ao pescoço. Que, em compensação, podem ser levados sem escândalo à Catedral de Saint Patrick, que tem cem metros de altura e é riquíssima em graças.» 

«A aldeia de Nova Iorque é o bairro de Greenwich Village, como a aldeia de Paris é o bairro do Marais e o bairro de Campo de Ourique a aldeia de Lisboa. Já se sabe que as diferenças são enormes, mas o que conta é serem aldeias todos eles, isto é, terem, cada um, uma maneira própria de viver, habitar e conversar com os vizinhos que não resulta das diversidades de língua, de religião ou de raça. Harlem, socialmente, sendo negro, não é uma aldeia, é um gueto, como China Town. O que define Greenwich Village... Digamos que Greenwich Village é uma coisa que se sente, que se percebe, que nos roça a pele com a sua respiração, que está feito de casas pequenas, de lojas antigas, de toldos, de flores, de ruas com princípio e fim à vista, e, se deve aos músicos, aos pintores e aos escritores que nele viveram alguma da harmonia, da cor e do silêncio em que se envolve, mais certo é ser, e sê-lo magnífica e humana-mente, um espaço. Um espaço que não se sabe por que milagre vem resistindo à gula do mundo financeiro e aos apetites das grandes empresas. Ou terá esta aldeia, afinal, mais poder do que discretamente faz parecer? Que existem associações de vizinhos, diz-se. Por que terão elas tanta força, e as dos Campos de Ourique tão pouca? Por que será?» 

«Little Italy é uma sombra do que foi. Depois da Segunda Guerra Mundial chegou a ter perto de duzentos mil habitantes, mas hoje vê-se reduzida a umas escassas ruas entaladas entre Soho e China Town, e tão mal defende o diminuto território que, numa esquina da Mulberry Street, do seu lado, já China Town, atravessando a linha de Canal Street que separou durante gerações chineses e italianos, tem instalada a sua primeira cabeça-de-ponte comercial. Não tarda que, nos restaurantes napolitanos que ainda restam, o spaghetti comece a ser servido com dois pauzinhos, em vez das peças bárbaras que são o garfo e a colher. Tudo parece a caminho de perder-se nesta Itália menor. O próprio S. Januário, apesar de serem dias de festa anual, não se encontra onde mandava a obrigação, no palanque arma-do ao ar livre, com bandeirinhas vermelhas da coca-cola, a receber as homenagens dos fiéis: recolheram-no à segurança da igreja, parece que por medo de que outros fiéis menos respeitosos ou mais necessitados viessem roubar-lhe os dólares que lhe foram pregados à túnica, em momentos de férvida mas passageira exaltação religiosa. Se ao menos uma gota de sangue seco fizesse o milagre de liquefazer-se em Little Italy...» 

"Baltasar and Blimunda" 
Capa da edição EUA - "Memorial do Convento" 

13 de Novembro 
Continua Nova Iorque: 
«Deve-se acreditar nos guias turísticos, tanto aqueles que são para ler como aqueles que são para ouvir: sempre dizem a verdade. Se um deles afirma, por exemplo, com intenções ditirâmbicas, que Nova Iorque não é a capital do estado de Nova Iorque nem a capital dos Esta-dos Unidos, acautelemo-nos de pensar logo que nos está a mentir ou a divertir-se à nossa custa, não seja que depois nos diga que Nova Iorque é, simplesmente, a capital do mundo, e tenhamos de dar-lhe razão. E se outro, tendo-nos levado a Wall Street, declarar, como a coisa mais natural da vida, que a população do globo é governada e dominada por este financial district, não duvide-mos, porque uma vez mais a verdade acabou de falar. Perceberemos então melhor a vaga impressão de que andávamos ali a fazer figura de parvos rematados, olhando tudo aquilo — o Stock Exchange, o Citybank, o Morgan Guaranty, o Chase Manhattan Bank, o Federal Reserve Bank of New York — como algo que, pelo facto de o podermos olhar, também nos pertencesse, como nos pertencem, sem serem nossos, o rio que passa, a montanha que está, o céu que continua. Wall Street é um monstro frio que, só de pensar, arrepia. As suas entranhas são homens frios. Um sol que me aqueça, por favor.» 

«É ela, The Lady. Tem uma coroa de raios na cabeça, levanta no braço um archote de chamas douradas... Naquele filme sem palavras do Chaplin, os emigrantes correram em massa à amurada do navio, rindo e fazendo gestos, como um coro de ópera a expressar sentimentos de alegria. A Liberdade estava ali a iluminar o caminho ao povo, que, logo, em colunas lentas, homens a um lado, mulheres a outro, vai passando pelo interrogatório dos serviços de imigração. Aos demasiado velhos, aos diminuídos, aos doentes sobretudo, não será permiti-da a entrada, mesmo que isso signifique separar famílias. Alguns irão ter de regressar no mesmo barco: The Lady olhará impassível. Hoje o ferry leva-nos a Staten Island, a ilha onde é tratado o lixo de Nova Iorque. Não é para ver o lixo que estamos navegando, mas a cidade que o produz. Poucos panoramas neste mundo serão tão deslumbrantes como a parte sul de Manhattan, o estupendo ciclorama a mover-se devagar, os planos mudando de profundidade, os arranha-céus a procurarem o melhor sítio para se mostrarem... Na água, colocadas em linha, de espaço a espaço, umas bóias movem-se com as ondas e fazem soar o sino que têm suspenso. A beleza do que se vê cede ao mistério do que se ouve.» 

«A inscrição da placa de bronze, ao lado da porta, informa: Trotsky viveu aqui. Estamos no East Village, onde nos anos 60 floresceram os hippies e agora prosperam os promotores imobiliários que vão empurrando para Brooklin e New Jersey os artistas e os jovens. Trotsky desceu os degraus desta casa para ir à Biblioteca da 5.a Avenida, acompanhado certamente, muitas vezes, por Bukharine. Seria interessante averiguar (se é que não se sabe já: os arquivos existem para satisfazer curiosidades) que livros foram os que consultou ali durante o tempo da sua residência em Nova Iorque, que ideias alheias terá incorporado às suas, ou, pelo contrário, rejeitou. Seria interessante, mas gratuito. O pensamento socialista (digo pensamento) é hoje um campo de destroços, um amontoado de ossos em que as formas originais mal se reconhecem e onde só a imagem de Marx se distingue, precisa, nítida, ao fundo. Mais do que reconstituir agora um esqueleto e cobri-lo de uma falsa pele, mais do que animá-lo com mecanismos que repetiriam os mesmos movimentos e instalá-lo no museu, imaginando tê-lo na vida, o que urge é varrer o terreno e abri-lo outra vez à invenção. Sem esquecer nada, sobretudo os erros.» 

"The Gospel According to Jesus Christ" 
Capa da edição EUA - "Evangelho segundo Jesus Cristo"

14 de Novembro 
Fim de Nova Iorque: 
«Numa hora de crepúsculo, com a lua já nascida, um casal desses de cinema, um casal a fingir que o era, veio sentar-se neste banco a olhar a ponte de Queensboro. É a última imagem de Manhattan. O diálogo não tem importância (as palavras de Woody Allen — «Esta cidade é magnífica, digam o que disserem» — tanto servi-riam para Lisboa como servem para Nova Iorque), o que tem importância é o silêncio do olhar enquanto a boca fala. São os momentos mais fugazes do dia, aqueles que precisamente mais desejaríamos que não findassem, a luz que pouco a pouco vai esmorecendo, que ainda se prende à flor da água, na folhagem mais alta duma árvore, no perfil do rosto que se move. Um dia que des-de a manhã até à noite não fosse mais que uma contínua luz do crepúsculo vespertino, talvez pudesse mudar os seres humanos e o destino do mundo... Muitos outros casais, de verdade, ou por suas razões fingindo, se sentaram neste mesmo banco a esta hora, alguns só porque viram Manhattan e quiseram imaginar-se como Woody Allen e Muriel Hemingway, repetir o pobre diálogo deles, sem compreenderem que esta luz pede apenas que a olhem. Admite palavras, é certo, mas com a condição de que não ofendam o silêncio.» 

«A Broadway é uma rua comprida, com uns 20 quilómetros, que percorre Manhattan de norte a sul. Se alguém nos disser que a conhece bem, de duas uma: ou é amante da marcha e veio a Nova Iorque fazer o que com menos despesa podia ter feito na sua terra, isto é, andar, ou, mais provável, chama Broadway a uma área que tem Times Square como centro e os limites nas Ruas 42 e 45. Os nova-iorquinos chamam-lhe Theater District, o que aclara melhor as coisas: a gente vem aqui para se divertir. (No extremo oriental da Rua 42 está o edifício das Nações Unidas, onde a diversão é pouca, mas o teatro muito.) De dia, Times Square parece um estaleiro, com os telhados e as fachadas chupados pelas armações metálicas dos anúncios. À noite só há lugar para a luz, ali as pessoas tornam-se insignificantes, perdem identidade e sentido, como se não passassem de figuras menores de um espectáculo pobre. A excitação é artificial, calculada. Porta sim, porta não, relampejantes como naves espaciais, esfuziantes de néon, há teatros de strip-tease e cinemas pomo: a vida é fácil em Times Square. Um grupo de rap, no passeio, ensaia passos à espera de que se junte público. Em Times Square tudo é o que parece. Mesmo Victor/Victoria...» 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 248 a 255 (de 11 a 14 de Novembro de 1996)

sexta-feira, 20 de maio de 2016

5.° Congresso do sindicato Comisiones Obreras de Canárias - Entrevista para a revista Tierra Canaria (#3 - 1996)

Entrevista publicada nos "Cadernos de Lanzarote Diário IV"

7 de Outubro (de 1996)
Por ocasião do 5.° Congresso do sindicato Comisiones Obreras de Canárias, entrevistou-me a revista Tierra Canaria. Como me pareceu que a conversa não ficaria a destoar nestes Cadernos (bem pelo contrário), aqui a deixo: 

Como se materializa o compromisso do artista, do escritor ou do intelectual com o seu tempo e a sociedade em que está inserido? 
Gostaria de dizer que as minhas origens camponesas determinaram as minhas ideias políticas, mas isso, já o sabemos, não é uma condição necessária nem suficiente. Seja como for, desde muito novo compreendi que um mundo assente na desigualdade de oportunidades e na exploração de um ser humano por outro, jamais será um mundo justo. Compreendi muito cedo que é um erro pedir «mais justiça social»: o que há que exigir é «justiça social» simplesmente, porque onde exista um «mais» sempre haverá a possibilidade de um «menos», isto é, a possibilidade de reduções sociais selectivas ou generalizadas, como está a acontecer agora mesmo. No meu oficio de escritor, penso não me ter afastado nunca da minha consciência de cidadão. Defendo que aonde vai um, deve ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as minhas convicções políticas, mas isso não significa que alguma vez tenha posto a literatura ao serviço da minha ideologia. O que significa, isso sim, é que no momento em que escrevo estou expressando a totalidade da pessoa que sou. 

Explique-nos, do ponto de vista social, a alegoria da cegueira de que trata o seu último livro. 
No meu romance Ensaio sobre a Cegueira tentei, recorrendo à alegoria, dizer ao leitor que a vida que vivemos não se rege pela racionalidade, que estamos usando a razão contra a razão, contra a própria vida. Tentei dizer que a razão não deve separar-se nunca do respeito humano, que a solidariedade não deve ser a excepção, mas a regra. Tentei dizer que a nossa razão está a comportar-se como uma razão cega que não sabe aonde vai nem quer sabê-lo. Tentei dizer que ainda nos falta muito caminho para chegar a ser autenticamente humanos e que não creio que seja boa a direcção em que vamos. 

Estamos vivendo a construção de uma Europa onde a classe trabalhadora vê como aumenta o desemprego, como se reduzem os investimentos sociais, como se deteriora o serviço público de saúde... Que pensa a este respeito? 
Isso a que chamamos «construção duma Europa uni-da» não passa duma falácia de mau gosto. A relação de poder entre os diversos Estados europeus continua a ser a que foi sempre: países que mandam, países que obedecem. Que aqueles, por táctica, simulem diluir a sua autoridade e o seu domínio numa aparência de consenso geral; que estes, pelo pouco que lhes restou de soberania nacional, finjam discutir de igual para igual - é algo que só pode enganar os ingénuos. O que sucede é que ninguém se atreve a dizer que a rainha Europa vai nua. Nem sequer o facto de levar atrás de si quase vinte milhões de desempregados foi suficiente para desencadear um protesto digno desse nome. No meio de tudo isto, o movimento sindical europeu dá mostras de não ter outra estratégia que não seja recolher agradecido (a isso chamam negociar...) as esmolas de um capitalismo triunfante. 

Que opina das políticas de liberalização desenfreada, de diminuição da capacidade do Estado, da privatização das empresas públicas? 
Desgraçadamente estamos a passar das promessas do Estado-providência à realidade que é o Estado-vampiro. Ao mesmo tempo que os impostos directos e indirectos sobem, o Estado foge às suas obrigações e deixa os cidadãos nas mãos de empresas privadas que se regem exclusivamente por uma lógica de lucro. Auguro que mais cedo ou mais tarde, o cidadão terá de fazer a si mesmo a pergunta: «A quem está servindo um Estado que não nos serve?» Então alguma coisa poderá começar a mudar. 

Estamos vivendo momentos em que, rapidamente, se deterioram valores como o princípio de solidariedade, se afastam as possibilidades e esperanças dos que vi-vem de um salário quanto à distribuição das riquezas... Qual é a sua opinião? 
As pessoas vivem hoje sob a ameaça permanente do desemprego. Numa situação como esta não é fácil pensar em algo mais que sobreviver. Talvez isso ex-plique a diminuição da capacidade mobilizadora dos sindicatos. Por outro lado, as indústrias de divertimento de massas, em particular a televisão e o futebol, vão anulando de forma insidiosa o que ainda restava de espírito cívico e de vontade de participação. Há milhões de espanhóis para quem o Barça e o Real Madrid são importantes todos os dias da semana, há milhões de espanhóis para quem Espanha não é importante um único dia do ano... 

Por onde considera que deve ir a esquerda social depois da cultura do pragmatismo que nos leva a uma suposta queda dos valores das utopias? 
Deixemos de falar de utopias, se continuamos a chamar utopia ao direito de viver com dignidade, sem mais temores que os que resultam da precariedade da própria existência. Não se pode continuar a falar de esquerda quando os partidos socialistas europeus se converteram em partidos de centro: o Partido Trabalhista britânico acaba de mostrar até que ponto a ideia de socialismo foi pervertida. Há que inventar, sobre as novas realidades económicas e sociais, uma esquerda nova, herdeira e continuadora das melhores tradições socialistas, capaz de levar os trabalhadores a uma reflexão sobre a situação concreta de um mundo sob o domínio de um neoliberalismo para quem o ser humano deixou de ter qualquer importância. 

Os parâmetros de convergência marcados em Maastricht afectam directamente a Portugal e a Espanha. V. que conhece a realidade de ambos os países, que consequências trarão às suas respectivas classes trabalhadoras? 
Numa palavra: as piores. Todos os governos da Europa o sabem, mas todos o calam. Diante disso, que fazem os sindicatos? Em meu entender, nada que se veja. Com perdão. 

in,. "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 232 a 236 (7/out/1996)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

"Prefácio para um livro" - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (03/10/1996)

3 de Outubro (de 1996)
Prefácio para um livro: 
Antes de construir o primeiro barco, o homem sentou-se na praia a olhar o mar. Ali esteve todo um dia e toda uma noite, a ver como subia e baixava a maré, a ver levantarem-se ao largo as ondas, a ouvir o fragor delas quando se desfaziam na linha de rebentação, e depois o suspiro delicado da espuma ao ser sorvida pela areia. A necessidade o trouxera. O alimento que a terra tantas vezes lhe negou, pródiga de secas, pestes e dilúvios, o mar lho oferecia sem medida, não pedindo, em troca, mais do que a simples moeda da coragem. E também o dom da invenção e a aventura do conhecimento. Juntar umas tábuas, tecer uma rede, moldar um anzol, impelir o barco para a água, de pouco iria servir-lhe sem a lição das correntes e dos ventos, das mudanças do céu, do passo das nuvens, do estremecimento dos cardumes. Para tanto, um homem sozinho não bastaria. Outros homens chegaram, e mulheres, e crianças, o estrondo contínuo das vagas e os silvos do ar amedrontaram a alguns e fizeram-nos recuar para as terras do interior, mas esses, um dia, vindo olhar de cima das falésias a aldeia que se formara na franja de areia, deram com o mesmo mar, sereno agora, brilhando ao sol como uma dança de cristais, as ondas apenas sussurrando sob o voo das gaivotas. Então desceram. Fugir da morte pode tornar-se num modo de fugir da vida. 
As personagens que povoam José, o romance de Armando Palacio Valdés, são descendentes daqueles homens que diante do mar temeram e ousaram, aqueles que fizeram o barco e lançaram a rede, que arrancaram o peixe às sombras submarinas, que quantas vezes se afundaram nelas, de olhos abertos e com os pulmões cheios de água. Então o pranto humano teve de soar mais forte na natureza que todos os tufões nascidos dela, simplesmente porque o homem é o único animal capaz de chorar. E de sorrir. É diante do mar - do mar de Rodillero, do mar do mundo - que o riso e a lágrima assumem uma importância absoluta. Dir-se-á que mais profundamente a assumiriam diante do universo, mas esse, digo eu, está demasiado longe, fora do alcance duma compreensão comum. O mar é o universo perto de nós. 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 230 e 231 (03/10/1996)

sábado, 14 de maio de 2016

Testemunho de uma carta recebida de Itália (Micaela Bottinelli) - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (26/09/1996)

26 de Setembro (de 1996)

"Uma carta de Varese (Itália). Escreve-a Micaela Bottinelli. Tem 27 anos, é licenciada em Filosofia e frequentou ultimamente um curso de direcção cénica na Escola de Arte Dramática Paolo Grassi de Milão. Descreve-me em pormenor dois estudos-espectáculos que concebeu e que foram representados na escola, um com o título 7 soli e 7 lune, sobre Memorial do Convento, outro com o título INRI, sobre O Evangelho segundo Jesus Cristo. Envia-me quatro desenhos de cena, que tenho pena de não poder reproduzir aqui, mas que não resistirei à tentação de emoldurar... Micaela Bottinelli assistiu à estreia de A Morte de Lázaro, na Igreja de São Marcos, em Milão, e diz-me que vai tentar arranjar maneira de assistir aos ensaios de Divara, que no princípio do próximo ano se há-de representar em Catânia. Começo a pensar seriamente se não deveria suspendera escrituração destes Cadernos e passar a publicar as cartas que recebo (e que em grande parte os alimentam), cobrando os seus signatários, naturalmente, os direitos de autor respectivos... Um volume dedicado, todo ele, à safra epistolar originada pelo Evangelho, por exemplo, seria um êxito literário e editorial que deixaria na sombra o romance e o autor dele... Em meu entender, não haverá obras verdadeiramente completas enquanto estiver a faltar-lhes o contraponto das opiniões escritas dos leitores. Ninguém escreveu a Eça de Queiroz? Ninguém, por carta, disse a José Rodrigues Miguéis o que pensava da Escola do Paraíso? Ninguém, tendo-se deslumbra-do com o Húmus de Raul Brandão, escreveu a dizê-lo? Pedem-se investigadores, pedem-se editores. A ideia é boa, aproveitem-na. Ou terão os escritores um coração tão duro, que rasgam as cartas depois de as lerem? 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 225 e 226 (26/09/1996)

domingo, 8 de maio de 2016

"Todos os Nomes" e o mistério sobre a morte do irmão Francisco na inspiração desta obra ("Cadernos de Lanzarote Diário IV - 1996)

Sinopse da obra apresentada na página da Fundação José Saramago, e que pode ser aqui consultada, em http://www.josesaramago.org/todos-os-nomes/
"O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro."

Capa da edição grega (1999)

27 de Agosto (de 1996) 
"Prossegue o mistério da morte de meu irmão Francisco. Julgava eu, recordando o que tantas vezes ouvi dizer a minha mãe, que ele tinha sido internado, sofrendo de difteria, no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, onde viria a falecer, mas o Instituto, depois de buscar nos arquivos, informa-me de que nenhum Francisco Sousa filho dos nossos pais deu ali entrada. Teria, afinal, morrido em casa? Se assim foi, como é possível não ter eu conservado qualquer recordação do lutuoso acontecimento, por muito criança que fosse então? Teria ido morrer a outro hospital? É mais do que duvidoso, uma vez que o tratamento de casos clínicos daquela natureza tinha como lugar próprio (e talvez mesmo obrigatório) o Instituto Câmara Pestana. É certo que o desconhecimento destes e outros privilégios da civilização lisboeta, compreensível em quem só há poucos anos viera da bisonha Azinhaga para a cidade, poderia ter levado os meus pais a descuidar da gravidade do mal, acabando-se-lhes, por assim dizer, o filho nos braços. De todo o modo, não creio: meu pai estava na Polícia de Segurança Pública, com certeza falou da doença do filho aos colegas, e algum destes, ou um superior, não deixariam de encaminhá-lo caridosamente aonde convinha. Seja como for, porém, morresse onde morresse o mano Francisco, como é que o registo do seu falecimento não consta na Conservatória da Golegã? Que passo deverei dar agora? Pedir a alguém que percorra por mim os labirintos arquivísticos dos cemitérios de Lisboa, à procura de um Francisco Sousa que parece não querer aparecer? É que não é a mesma coisa requerer a um funcionário o favor de pesquisar uns poucos de livros antigos numa conservatória de província ou os registos de um estabelecimento hospitalar especializado, e esquadrinhar as infinitas, as vertiginosas listas mortuárias desses lugares aonde toda a vida vai parar..."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 207 (27/08/1996)

Cada da edição brasileira - Companhia das Letras (1997)

21 de Setembro (de 1996) 
"Esta manhã, ainda deitado na cama, entre as névoas do primeiro despertar, tal como se na minha frente fossem flutuando peças soltas de um mecanismo que, por si mesmas, procurassem os seus lugares e se encaixasssem umas nas outras, comecei a distinguir, de um extremo a outro, o desenvolvimento do enredo de Todos os Nomes, esse romance cujo título nasceu, em Janeiro, num avião que descia para Brasília, e que, para mostrar-se (definitivamente?), precisou que um outro avião me trouxesse a Amherst. Estava a pensar, de um modo vago, sonolento, nos esforços que tenho feito para encontrar a pista do meu irmão, e de repente, sem qualquer relação aparente, começaram a desfilar-me na cabeça as personagens, as situações, os motivos, os lugares de uma história que não chegaria a existir (supondo que a virei a escrever) se o óbito do Francisco de Sousa tivesse sido registado na Conservatória da Golegã, como deveria..." 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 222 (21/09/1996)



"Não sei o que tenho em Beja" prefácio para livro da Camara Municipal de Beja a pedido de José Manuel Mendes ("Cadernos de Lanzarote Diário IV - 10/08/1996)

10 de Agosto (de 1996)
"Há tempos, José Manuel Mendes pediu-me que escrevesse algo sobre Beja, destinado a um livro que a Câmara Municipal tinha na ideia publicar, com textos dos escritores que passaram pela sua Biblioteca. Embora a Viagem a Portugal pareça estar aí a demonstrar o contrário, nunca me sinto à vontade de cada vez que tenho de produzir este tipo de prosas, mas, vindo de quem vinha o pedido, não tive mais remédio que fazer do aperto decisão e espremer a cabecinha, a ver o que sairia. O que saiu apareceu-me agora em letra impressa: o livro estava à minha espera quando regressei de El Escorial. A releitura foi quase novidade, tão mal me lembrava do que havia escrito. Aqui deixo, portanto, este Não sei o que tenho em Beja, como se tivesse acabado de sair do estaleiro: 
«Isto de cidades, no fundo, é como as pessoas. Damos com elas no caminho e na vida, umas vezes paramos a ver, a conversar, outras vezes, ou porque levávamos pressa, ou porque nos mostraram cara fechada, encontro pode ser que tenha havido, se encontro era, mas conhecimento a sério é que não. Durante muitos anos não fui nada viajeiro, levava a vida apertada, os carros eléctricos, ainda que isto pareça invenção minha de agora, consumiam-me em metade do mês a verba para transportes, e se é certo que sempre me restava o recurso natural de fazer a pé o caminho entre a casa e o trabalho, e volta, está claro que não me iria pôr a andar por esse Alentejo fora, para ir saber o que tinha em Beja. E não é que eu não tivesse sido, em tempos que evidentemente já lá vão, um andarim de mais que razoáveis dotes: cinquenta quilómetros com a mochila às costas para ir acampar nas margens da lagoa de Albufeira, além na península de Setúbal, fazia-os eu sem mais ajudas que os pés com que nasci e sem olhar para trás. Mas ir a Beja, está-se a ver, seria outra maratona. Imagine-se: à torreira do sol, por esses descampados, ainda por cima tendo de resistir à tentação de umas aldeias, vilas e cidades que me sairiam ao caminho a oferecer, consoante os casos, o simples refrigério de uma sombra e de um copo de vinho, um caldo, uma talhada de melão, ou, no caso de me picar a curiosidade das artes, que já então me entravam desses arrebatos, a penumbra silenciosa de um museu com figuras antigas a olhar para mim. O mais certo era não conseguir chegar a Beja. 
«O tempo, como sabemos, tanto muda como não. Vezes sem conta dá-lhe para ficar sentado, sabemo-lo quando as pessoas, se lhes perguntamos como vai a vida, respondem encolhendo os ombros: «Sempre na mesma, sempre na mesma.» De repente, o diabo do tempo, não se sabe o que lhe deu, levanta-se, mexe-se, corre, pula, tira os nossos bens donde os tínhamos e arruma-os pela ordem que lhe apetece, fecha, tranca e condena umas portas, abre outras de par em par, recorta uma janela onde havia uma parede cega, é, como já ficou dito, um vivo demónio. Foi assim que comecei a fazer umas quantas viagens, poucas, modestas, primeiro pelos arredores, depois mais adiante, por aí fora, na direcção dos três pontos cardeais, no outro estava o mar, aí nem com botas de cortiça, até que cheguei a Beja. 
«Se dessa vez tinha lá alguma coisa, não dei por isso. Andava com tanta literatura na cabeça que todo o meu afã foi assomar-me ao janelão donde, como se conta, a freira Mariana, às escondidas das colegas ciumentas, fazia sinais de lenço ao cavaleiro de Chamilly. O que eu queria perceber era se semelhantes manejos de sentimentaria, com seu quê de ridículo, poderiam objectivamente compaginar-se com as febris palpitações de um coração feminino que ousara trocar o Senhor por um bigode francês. Concluí que não. Ou bem que ela acenava com o lenço, ou bem que se retorcia nas ânsias de um amor culpado e pecador. Decidi esquecer a freira e o cavaleiro e ater-me apenas às cartas, à literatura, o que foi erro rematado. Ainda me faltava comer muito pão e muito sal, ainda tinha muito que viver antes de compreender que o espírito nunca está na letra, está sempre na pessoa que a escreveu, mesmo quando a pessoa se resignou a parecer menos que a sua própria letra. 
«Passaram os anos, e eu sem saber o que tinha em Beja. Voltei lá uma vez, outra vez, vi o dentro e o fora, o baixo e o alto, pisei o chão e respirei o ar, andei por praças, ruas, igrejas e museus, disse e ouvi, perguntei-me se a colina onde está seria colina de verdade, se não foi a inúmera gente que ali viveu - romanos, visigodos, sarracenos, cristãos, e, antes de todos, aqueles primeiros de quem não sei o nome nem a história -, se não teriam sido eles que, construindo incessantemente sobre ruínas e demolições, foram levantando sobre a planície rasa a enorme mamoa prenhe de restos, de detritos, de fragmentos, de colunas, de pórticos, de umbrais, de pedras do lar, de ecos de palavras, de gritos de dor, de risos, de morte, de vida. Imaginei um poço que desces-se por ali verticalmente, através de todos aqueles mundos, pondo à vista a composição e a espessura da felicidade e da desgraça, da fome e da fartura, do certo e do errado de cada dia, até alcançar o nível da planície, onde ainda estão as cinzas da primeira fogueira e o sinal de um pé descalço. Pensei que provavelmente era isto o que eu tinha em Beja, o mesmo que em qualquer outro lugar por onde tivesse a humanidade passado. 
«Depois veio o tempo em que a planície e as colinas alentejanas se puseram a estremecer de um gozo novo, quando abrir a terra para depor a semente se tornou em acto sacral, quando os homens e as mulheres repetiam os gestos antigos e os encontravam novos. Andei por lá, mas não por Beja, a escrever um livro, a levantá-lo do chão, como quem recolhe as cinzas de uma fogueira e o desenho de um passo. Foi por essa altura que um amigo, tão honrado de vida como de nome, me disse com expressão risonhamente repreensiva: «Vocês ficam todos lá por Évora...» A partir desse dia, comecei a suspeitar de que o que eu tinha em Beja, afinal, era uma dívida, não uma conta que tivesse deixado por pagar, não um empréstimo vencido e não liquidado, uma dívida como assim, aparentemente sem quê nem porquê, mas essas, se calhar, são as piores, as que mais custam a levar, as dívidas que não têm por trás o rosto de um credor. Quem depois me viu caminhar por aquelas ruas, becos e travessas, espreitando aos portais, farejando às esquinas, como quem anda à procura de algo que nem sequer conhece, não podia imaginar que pesos eu ia carregando na consciência. Soubera, finalmente, o que tinha em Beja, mas o que tinha em Beja não era nada que pudesse apagar de mim. E assim vivemos, ela e eu, até há mais ou menos um ano. 
«Convidaram-me a falar em Beja sobre intolerâncias antigas e modernas, e eu lá fui, apesar de cansado doutras andanças semelhantes. A conferência era na Biblioteca Municipal, um edifício novo, funcional, de organização excelente, apenas com o senão de uma escadaria de acesso perigosamente empinada, como se de súbito ao arquitecto tivesse faltado o terreno ou como se deliberadamente a tivesse ali posto para avisar os leitores de que os caminhos do conhecimento tudo podem ser, menos caminhos de facilidade. Fizeram-me visitar a Biblioteca, secção por secção, quase livro por livro, e eu não precisei de fingir nem o sentimento nem as palavras para felicitar quem tinha a responsabilidade do seu governo. Para terminar, levaram-me a ver a secção infantil, ampla, desafogada, com pequenas cadeiras e pequenas mesas, almofadas coloridas, o paraíso da leitura, pensei eu, lembrando-me dos duros assentos daquela outra biblioteca municipal onde fiz, adolescente, as minhas primeiras aprendizagens literárias. 
«Nisto estava, crendo não ter mais para ver, quando o meu guia me fez entrar numa espécie de caverna armada a um lado do grande salão de leitura. «E isto?», perguntei. «Os miúdos gostam de vir ler para aqui», responderam-me, enquanto entrávamos curvados. Não duvidei, na verdade eu próprio tive vontade de pedir um livro e estender-me naqueles coxins, como se estivesse dentro de um ovo, com um céu de pano por cima da cabeça, esquecido da conferência, resolvido a começar a aprender tudo outra vez, desde o princípio. Imaginei uma criança a entrar ali com o tesouro de um livro na mão, e sair de lá com esse outro tesouro maior que é o livro lido. Senti-me subitamente em paz, não devia já nada a Beja, o que eu tinha agora em Beja não era uma dívida, mas uma esperança. A esperança de que uma daquelas crianças, saídas da gruta de Ali-Babá e as Quarenta Lições, venha a escrever um dia, sobre Beja, o livro que eu não escrevi.» 

in "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 196 a 200 (10/08/1996)


sábado, 30 de abril de 2016

"Narrador Inexistente" Conferência de encerramento do curso de verão da Universidade Complutense - El Escorial / Madrid - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (09/08/1996)

in "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, páginas 191 a 196 

9 de Agosto (de 1996) 
"Para a conferência de encerramento dos Cursos de Verão da Universidade Complutense, em El Escorial, retomei o tema do «Narrador Inexistente», já provocadoramente presente no papel que há dois anos fui debitar a Edmonton (Canadá), por ocasião de um Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada. Claro que o mundo das teorias literárias não mudou de rumo por eu ter dito o que lá disse, nem tão-pouco irá mudar agora, mas não resistirei, sempre que venha a propósito, e mesmo sem a propósito nenhum, a meter o meu remo na água ao contrário da corrente. Diz-se que cada doido tem a sua mania, e a minha, se doido sou, é esta. Eis uma parte do que li em El Escorial: 

«Nesta minha contestação, claro está, não irei ao ponto de negar que a figura duma abstracção denominada Narrador possa ser apontada e exemplificada no texto, pelo menos, com todo o respeito o digo, segundo uma lógica dedutiva bastante similar à da demonstração ontológica da existência de Deus efectuada por Santo Anselmo... Aceito, até, a probabilidade de variantes ou desdobramentos de um alegado Narrador central, com a tarefa de expressarem uma pluralidade de pontos de vista e juízos considerada, pelo Autor, útil à dialéctica dos conflitos. A pergunta que me faço, e isto é o que verdadeiramente mais me interessa, é se a atenção obsessiva prestada pelos analistas de texto a tão escorregadia entidade, propiciadora, sem dúvida, essa atenção, de suculentas e gratificantes especulações teóricas, não estará contribuindo para a redução do Autor e do seu pensamento a um papel de perigosa secundaridade na compreensão complexiva da obra. Aclararei que, quando falo de pensamento, não estou a retirar dele as sensações e os sentimentos, os anseios e os sonhos, todas as vivências do mundo exterior e do mundo interior sem as quais o pensamento se tornaria, quiçá (arrisco-me a pensá-lo...), em um puro pensar inoperante. 

«Abandonando desde agora qualquer precaução oratória, o que aqui estou assumindo, afinal, são as minhas próprias dúvidas e perplexidades sobre a identidade real da voz narradora que veicula, nos livros que tenho escrito e em todos os que li até agora, aquilo que derradeiramente creio ser, caso por caso, e quaisquer que sejam as técnicas empregadas, o pensamento do Autor. O seu próprio, pessoal (até onde nos é possível tê-lo), ou, acompanhado-o, misturando-se com ele, os pensamentos outros, históricos ou contemporâneos, cientemente ou incientemente tomados de empréstimo, para alcance dos objectivos e satisfação das necessidades discursivas, descritivas ou reflexivas da narração. 

«E também me pergunto se a resignação ou a indiferença com que que o Autor, hoje, parece aceitar a apropriação, por um Narrador academicamente abençoado, da matéria, da circunstância e da função narrativa, que em épocas anteriores, como autor e como pessoa, lhe eram exclusiva e inapelavelmente imputadas, não serão, essa resignação e essa indiferença, uma expressão mais, assumida ou não, e mais ou menos consciente, de um certo grau de abdicação de responsabilidades mais gerais. 

«Que fazemos, os que escrevemos? Nada mais que contar histórias. Contamos histórias os romancistas, contamos histórias os dramaturgos, contamos também histórias os poetas, contam-nas igualmente aqueles que não são, e não virão a ser nunca, poetas, dramaturgos ou romancistas. Mesmo o simples pensar e o simples falar quotidianos são já uma história. As palavras proferidas, e as apenas pensadas, desde que nos levantamos da cama, pela manhã, até que a ela regressamos, chegada a noite, sem esquecer as do sonho e as que o sonho vierem a tentar descrever, constituem uma história com uma coerência interna própria, contínua ou fragmentada, e poderiam, como tal, em qualquer momento, ser organizadas e articuladas numa história escrita e torna-das literatura. 

«O escritor, esse, tudo quanto escrever, desde a primeira palavra, desde a primeira linha, será em obediência a uma intenção, às vezes clara, às vezes obscura - porém, de certo modo, sempre discernível e mais ou menos óbvia, no sentido de que está obrigado, em todos os casos, a facultar ao leitor, passo a passo, dados cognitivos comuns a ambos, para que ele possa, sem excessivas dificuldades, entender o que, pretendendo parecer novo, diferente, talvez mesmo original, já é afinal conhecido porque, sucessivamente, vai sendo reconhecido. O escritor de histórias, manifestas ou disfarçadas, é um exemplo de mistificador: conta histórias para que lhas aceitem como críveis e duradouras, apesar de saber que elas não são mais do que umas quantas palavras suspensas naquilo a que eu chamaria o instável equilíbrio do fingimento, palavras frágeis, permanentemente assustadas pela atracção de um não-sentido que as empurra para o caos, para fora dos códigos convencionados, cuja chave a cada momento ameaça perder-se. 

«Não esqueçamos, porém, que, assim como as verdades puras não existem, também as puras falsidades não podem existir. Porque se é certo que toda a verdade leva consigo, inevitavelmente, uma parcela de falsidade, que mais não seja por insuficiência expressiva das palavras usadas, também certo é que nenhuma falsidade chegará a ser tão radical que não veicule, mesmo contra as intenções do embusteiro, uma parcela de verdade. Nesse caso, a mentira poderia conter, por exemplo, duas verdades: a sua própria, elementar, isto é, a verdade da sua própria contradição (a verdade encontra-se oculta nas próprias palavras que a negam...), e uma outra verdade, aquela de que acabou por tomar-se veículo, comporte ou não essa nova verdade, por sua vez, uma parcela de mentira. 

«De fingimentos de verdade e de verdades de fingimento se fazem, pois, as histórias. Contudo, e a despeito do que, no texto, se nos apresenta como material evidência, a história que ao leitor mais deverá interessar não é, em minha opinião, a que a narrativa lhe propõe. Uma ficção não está formada somente por personagens, conflitos, situações, lances, peripécias, surpresas, efeitos de estilo, jogos malabares, exibições ginásticas de técnica de narração - uma ficção (como toda a obra de arte) é, acima de tudo, a expressão ambiciosa de uma parcela identificada da humanidade, isto é, o seu autor. Pergunto-me, até, se o que determina o leitor a ler não será a esperança não consciente de descobrir no interior do livro - mais do que a história que lhe vai ser contada - a pessoa invisível, mas omnipresente, do autor. Tal como creio entender, o romance é uma máscara que esconde e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Provavelmente (digo provavelmente...), o leitor não lê o romance, lê o romancista. 

«Com isto não pretenderei sugerir ao leitor que se entregue, durante a leitura, a um trabalho de detective ou de antropólogo, procurando pistas ou removendo camadas geológicas, no fundo das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, se encontraria escondido o Autor... Muito pelo contrário: o que digo é que o Autor está no livro todo, que o Autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor. Verdadeiramente, não creio que tenha sido para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece--me, até, que, ao dizê-lo, não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem querer faltar ao respeito devido ao autor de L'Éducation sentimentale, poderia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: Flaubert esqueceu-se de nos dizer que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de todas as condições e idades, nela viviam, casa, rua e cidade reais ou inventadas, tanto faz. Por-que a imagem e o espírito, e o sangue e a carne de tudo isso, tiveram de passar, inteiros, por uma só entidade: Gustave Flaubert, isto é, o homem, a pessoa, o Autor. Também eu, ainda que tão pouca coisa em comparação, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e em O Evangelho segundo Jesus Cristo não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão... 

«O que o autor vai narrando nos seus livros não é a sua história pessoal aparente. Não é isso a que chamamos o relato de uma vida, não a sua biografia linearmente contada, quantas vezes anódina, quantas vezes desinteressante, mas uma outra, a vida labiríntica, a vida profunda, aquela que dificilmente ousaria ou saberia contar com a sua própria voz e em seu próprio nome. Talvez porque o que haja de grande no ser humano seja demasiado para caber nas palavras com que a si mesmo se define e nas sucessivas figuras de si mesmo que lhe povoam um passado que não é apenas seu, e que por isso lhe escapará sempre que tentar isolá-lo ou isolar-se nele. Talvez, também, porque aquilo em que somos mesquinhos e pequenos é a tal ponto comum que nada de muito novo poderia ensinar a esse outro ser pequeno e grande que é o leitor... 

«Finalmente, talvez seja por algumas destas razões que certos autores, entre os quais me incluo, privilegiam, nas histórias que contam, não a história que viveram ou vivem (fugindo assim às armadilhas do confessionalismo literário), mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser também mentiras. Bem vistas as coisas, sou só a memória que tenho, e essa é a única história que quero e posso contar. 

«Quanto ao Narrador, se depois disto ainda houver quem o defenda, que poderá ele ser senão a mais insignificante personagem de uma história que não é a sua?» 

(Nota: textos em bold do blogger)
in "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, páginas 191 a 196 (09/08/1996)

sábado, 23 de abril de 2016

Prefácio do livro "Terra" - "Para o livro de fotografias de Sebastião Salgado" - Cadernos de Lanzarote Diário IV (28/07/1996)

(...) "Sentimo-nos confortáveis em dizer que, além de ser um dos – senão o maior – fotógrafo da actualidade, trata-se de um grande amigo da Fundação José Saramago.
Salgado e Saramago aproximaram-se em meados dos anos 90, quando o fotógrafo preparava um livro em que retratava o quotidiano dos camponeses “sem-terra” no Brasil. Nos Cadernos de Lanzarote, Saramago relata a visita que recebeu de Salgado em 1996 e o pedido que lhe foi feito. “Sentámo-nos ao redor da mesa da cozinha, fomos passando as fotografias de mão em mão, quase em silêncio, com um nó na garganta e os olhos afogados. Sebastião Salgado veio aqui para me pedir que escreva umas páginas para o livro. Assim farei, embora de antemão saiba que, diante do que acabei de ver, todas as palavras sobram, todas são de mais. Ou de menos.”
“Quando propus a participação dele no livro, foi muito mais que a introdução. Foi uma ação que a gente fez em conjunto, um manifesto”, recordou Salgado em 2010.
O livro Terra, que foi lançado em 1997, conta com 109 fotografias a preto e branco tiradas por Salgado entre 1980 e 1996. Além do prefácio de Saramago, o trabalho também teve a participação de Chico Buarque, que compôs duas canções inspiradas nas imagens – o livro vinha acompanhado de um CD com quatro músicas do cantor brasileiro. Os direitos autorais da obra foram doados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra).
Recentemente, Sebastião Salgado finalizou o projecto Genesis, resultado de oito anos de andanças do fotógrafo, por 32 países do mundo, entre tribos indígenas e lugares dos mais inóspitos do mundo. A exposição pode ser vista em Madrid até ao dia 4 de maio."
Fundação José Saramago (8 de Fevereiro de 2014)

Pode ser recuperado e consultado, via FJS, aqui 

Prefácio também publicado nos "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 181 a 187

28 de Julho (de 1996)
"Para o livro de fotografias de Sebastião Salgado:"
"Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a ideia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamolo já, quem veio a supor-tar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar. 

Sebastião Salgado, Betinho e José Saramago - 1997

Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar — as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco. 

Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem-nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea maxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído. É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia acontecido. 

 Betinho, José Saramago e Sebastião Salgado em 1997, no Brasil (Foto: Leandro Aversa/Globo)

Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que, segundo os tempos e os costumes, pode-ria vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito anúncio, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até aí havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragrável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas. Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão. 

Posto diante de todos estes homens reunidos, de to-das estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: «A partir de hoje chamar-me-eis Justiça.» E a multidão respondeu-lhe: «Justiça, já nós a temos, e não nos atende.» Disse Deus: «Sendo assim, tomarei o nome de Direito.» E a multidão tornou a responder-lhe: «Direito, já nós o temos, e não nos conhece.» E Deus: «Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito.» Disse a multidão: «Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite.» Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeira-mente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando as mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas. 

No dia 17 de Abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, perto de uma povoação chamada Eldorado dos Carajás (Eldorado: como pode ser sarcástico o destino de certas palavras...), 155 soldados da polícia militarizada, armados de espingardas e metralhadoras, abriram fogo contra uma manifestação de camponeses que bloqueavam a estrada em acção de protesto pelo atraso dos procedimentos legais de expropriação de terras, como parte do esboço ou simulacro de uma suposta reforma agrária na qual, entre avanços mínimos e dramáticos recuos, se gastaram já cinquenta anos, sem que alguma vez tivesse sido dada suficiente satisfação aos gravíssimos problemas de subsistência (seria mais rigoroso dizer sobrevivência) dos trabalhadores do campo. Naquele dia, no chão de Eldorado dos Carajás ficaram 19 mortos, além de umas quantas dezenas de pessoas feridas. Passados três meses sobre este sangrento acontecimento, a polícia do estado do Pará, arvorando-se a si mesma em juiz numa causa em que, obviamente, só poderia ser a parte acusada, veio a público declarar inocentes de qual-quer culpa os seus 155 soldados, alegando que tinham agido em legítima defesa, e, como se isto ainda lhe parecesse pouco, reclamou processamento judicial contra três dos camponeses, por desacato, lesões e detenção ilegal de armas. O arsenal bélico dos manifestantes era constituído por três pistolas, pedras e instrumentos de lavoura mais ou menos manejáveis. Demasiado sabe-mos que, muito antes da invenção das primeiras armas de fogo, já as pedras, as foices e os chuços haviam sido considerados ilegais nas mãos daqueles que, obrigados pela necessidade a reclamar pão para comer e terra para trabalhar, encontraram pela frente a polícia militarizada do tempo, armada de espadas, lanças e alabardas. Ao contrário do que geralmente se pretende fazer acreditar, não há nada mais fácil de compreender que a história do mundo, que muita gente ilustrada ainda teima em afirmar ser complicada de mais para o entendimento rude do povo. 

Pelas três horas da madrugada do dia 9 de Agosto de 1995, em Corumbiara, no estado de Rondônia, 600 famílias de camponeses sem terra, que se encontravam acampadas na Fazenda Santa Elina, foram atacadas por tropas da polícia militarizada. Durante o cerco, que durou todo o resto da noite, os atacantes usaram metralhadoras e gases lacrimogéneos. Os camponeses resistiram com espingardas de caça. Quando amanheceu, a polícia, fardada e encapuçada, de cara pintada de preto, e com o apoio de grupos de assassinos profissionais a soldo de um latifundiário da região, invadiu o acampamento, varrendo-o a tiro, derrubando e incendiando as barracas onde os sem-terra viviam. Foram mortos dez camponeses, entre eles uma menina de 7 anos, atingida pelas costas quando fugia. Dois polícias morreram também na luta. 

Sebastião Salgado fotografa José Saramago com a sua "Leica" - García Campos /EFE (1997)

A superfície do Brasil, incluindo lagos, rios e montanhas, é de 850 milhões de hectares. Mais ou menos metade desta superfície, uns 400 milhões de hectares, é geralmente considerada apropriada ao uso e ao desenvolvimento agrícolas. Ora, actualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, salvo as áreas que têm vindo a ser ocupadas por explorações de pecuária extensiva (que, ao contrário do que um primeiro e apressado exame possa levar a pensar, significam, na realidade, um aproveitamento insuficiente da terra), encontra-se em estado de improdutividade, de abandono, sem fruto. Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e económica, vagando entre o sonho e o desespero, existem 4 milhões e 800 mil famílias de rurais sem terras. A terra está aí, diante dos olhos e dos braços, uma imensa metade de um país imenso, mas aquela gente (quantas pessoas ao todo? quinze milhões? vinte milhões? mais ainda?) não pode lá entrar para trabalhar, para viver com a dignidade simples que só o trabalho pode conferir, porque os voracíssimos descendentes daqueles homens que primeiro haviam dito: «Esta terra é minha», e encontraram semelhantes seus bastante ingénuos para acreditar que era suficiente tê-lo dito, esses rodearam a terra de leis que os protegem, de polícias que os guardam, de governos que os representam e defendem, de pistoleiros pagos para matar. Os 19 mor-tos de Eldorado dos Carajás e os 10 de Corumbiara Foram apenas a última gota de sangue do longo calvário que tem sido a perseguição sofrida pelos trabalhadores do campo, uma perseguição contínua, sistemática, desapiedada, que, só entre 1964 e 1995, causou 1635 vítimas mortais, cobrindo de luto a miséria dos camponeses de todos os estados do Brasil, com mais evidência para Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Pernambuco, que contam, só eles, mais de mil assassinados. 

E a Reforma Agrária, a reforma da terra brasileira aproveitável, em laboriosa e acidentada gestação, alternando as esperanças e os desânimos, desde que a Constituição de 1946, na sequência do movimento de redemocratização que varreu o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, acolheu o preceito do interesse social como fundamento para a desapropriação de terras? Em que ponto se encontra hoje essa maravilha humanitária que haveria de assombrar o mundo, essa obra de taumaturgos tantas vezes prometida, essa bandeira de eleições, essa negaça de votos, esse engano de desesperados? Sem ir mais longe que as quatro últimas presidências da República, será suficiente relembrar que o presidente José Sarney prometeu assentar 1 milhão e 400 mil famílias de trabalhadores rurais e que, decorri-dos os cinco anos do seu mandato, nem sequer 140 mil tinham sido instaladas; será suficiente recordar que o presidente Fernando Collor de Melo fez promessa de assentar 500 mil famílias, e nem uma só o foi; será suficiente lembrar que o presidente Itamar Franco 
garantiu que faria assentar 100 mil famílias, e se ficou por 20 mil; será suficiente dizer, enfim, que o actual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu que a Reforma Agrária irá contemplar 280 mil famílias em quatro anos, o que significará, se tão modesto objectivo for cumprido e o mesmo programa se repetir no futuro, que irão ser necessários, segundo uma operação aritmética elementar, setenta anos para insta-lar os quase 5 milhões de famílias de trabalhadores ru-rais que precisam de terra e não a têm, terra que para eles é condição de vida, vida que já não poderá espe-rar mais. Entretanto, a polícia absolve-se a si mesma e condena aqueles a quem assassinou. 

O Cristo do Corcovado desapareceu, levou-o Deus quando se retirou para a eternidade, porque não tinha servido para nada pô-lo ali. Agora, no lugar dele, fala-se em colocar quatro enormes painéis virados às quatro direcções do Brasil e do mundo, e todos, em grandes letras, dizendo o mesmo: UM DIREITO QUE RESPEITE, UMA JUSTIÇA QUE CUMPRA."

in,"Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 181 a 187 (
28 de Julho de 1996)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A árvore genealógica literária de José Saramago (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 21/07/1996)

21 de Julho (de 1996)
"Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua árvore genealógica literária, isto é, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presunção de relações ou equivalências de mérito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Também se pedia que, em brevíssimas palavras, fosse dada a justificação dessa espécie de adopção ao contrário, em que era o «descendente» a escolher o «ascendente». A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma árvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que hão-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamentação, foi esta: Luís de Camões, porque, como escrevi no Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar; Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brandão, porque demonstrou que não é preciso ser-se génio para escrever um livro genial, o Húmus; Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal; Kafka, porque provou que o homem é um coleóptero; Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses; Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual; Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV" 
Caminho, página 179, 21 de Julho de 1996

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Para o magazine espanhol El Semanal, uma abordagem sobre fotografias que retratam a "marcha sobre Munique" de Hitler (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 15/07/1996)

15 de Julho (de 1996)

"El Semanal, um magazine dominical que vem sendo distribuído por uns quantos jornais espanhóis que, suponho eu, não dispõem de meios para produzir os seus próprios suplementos, propôs a alguns escritores que escrevessem um comentário de três páginas sobre fotografias que eles mesmos escolheriam de um largo conjunto de imagens célebres, desde os dias de Niepce e Daguerre até este tempo em que estamos. A minha escolha foi rápida e o comentário, pensado e repensado, veio a dar no que segue: 

«No dia 8 de Novembro de 1923, um antigo cabo do exército bávaro, chamado Adolfo Hitler, entrou na sala subterrânea da Cervejaria Bürgerbrãu, onde a flor da burguesia "bem pensante" de Munique se encontrava reunida para discutir a situação política - e disparou um tiro de pistola para o tecto. Desde a invenção das armas de fogo, não é raro que apareça um tiro a substituir as palavras (quer as de quem tinha falta de outros argumentos quer as de quem simplesmente deixara de os ter porque a bala lhe levara a vida), mas este Hitler sabia já, pela experiência ganha como agitador desde que em 1919, por indicação dos militares, ingressou no Partido Operário Alemão, quanto podem valer os discursos capazes de despertar nos auditores a ambição, a sede de domínio ou o desejo de desforra. Não tinha precisado de ler em Shakespeare a fala de Marco António aos Romanos para conhecer a arte oratória de levar consciências ao engano: neste caso nem tanto era preciso, pois não fez mais do que convencer os burgueses de Munique de que ele, Adolfo Hitler, era o homem que o destino escolhera para salvar a Alemanha, cujos interesses e necessidades, tal como os entendia a burguesia, eram em tudo coincidentes com os dela própria. Arrebatando com a inflamada arenga uma assembleia que ao princípio se lhe mostrara contrária, Hitler anunciou a nomeação de "um novo governo nacional alemão", proclamou que assumia a sua presidência, e, certamente inspirado pelo exemplo da marcha dos fascistas italianos sobre Roma, propôs a imediata preparação, "a fim de salvar o povo da Alemanha", de uma marcha sobre Berlim, "essa Babilónia de iniquidades", disse. E terminou profetizando: "Amanhã, ou haverá um governo nacional alemão, ou seremos cadáveres os que aqui estamos." 
«Como, não obstante o entusiasmo, os novos aliados não deram à ideia da "marcha sobre Berlim" um apoio suficiente, Hitler decidiu substituí-la por uma "marcha sobre Munique", ou, com mais exactidão (visto que em Munique já estavam...), um desfile armado até ao Feldherrnhalle, o chamado "santuário dos generais". Certo de ter do seu lado a maioria da população da cidade e apostando na fragilidade da obediência das forças militares ao governo, Hitler lançou o seu golpe de Estado. A esperança de triunfo não durou mais que poucos minutos. Quando a manifestação já se aproximava do Feldherrnhalle, na Kõnigplatz, um pequeno destacamento de polícia cortou-lhe o caminho. Apanhada de surpresa quando estava convencida de ter a vitória ao alcance da mão, a tropa nacional-socialista debandou, deixando atrás de si catorze mortos. Hitler, que havia fugido sem glória do local do combate, foi detido dois dias depois. Julgado em Fevereiro do ano seguinte por um tribunal que notoriamente simpatizava com os seus projectos políticos, foi condenado a cinco anos de prisão por delito de alta traição, com perspectiva de suspensão da pena passados seis meses. Viria a ser amnistiado em Dezembro de 1924. No castelo de Landsberg, que foi o seu cárcere, Hitler escreveu a primeira parte de Mein Kampf. 
«Passaram treze anos sobre estes acontecimentos: estamos agora em Novembro de 1936, e Adolfo Hitler é, desde 1933, único amo e senhor na Alemanha. Exceptuando a sombra incómoda da vitória da Frente Popular em França, no mês de Maio, e, três meses antes, a da Frente Popular em Espanha, entretanto já a braços com o levantamento franquista, a Europa só tem motivos de satisfação para dar ao fascismo em geral e a Hitler em particular: no princípio de Março, as tropas alemãs entram na Renânia, desmilitarizada desde o fim da Primeira Guerra Mundial; três semanas mais tarde, no mesmo mês, as eleições para o Reichstag, cuidadosamente preparadas, dão 98,8% dos votos aos nacionais-socialistas; em 11 de Abril, em Portugal, o governo de Salazar cria a Mocidade Portuguesa, organização para a juventude, segundo os modelos fascistas; em Maio, Mussolini proclama o Imperium; em 17 de Junho, Heinrich Himmler é nomeado chefe das polícias alemãs; em 27 de Junho, o ex-comunista Jacques Doriot funda o Partido Popular Francês, que, denominando-se a si mesmo "partido da paz", apoia a Alemanha nazi; em 4 de Julho, a Sociedade das Nações levanta as sanções que haviam sido aplicadas à Itália em consequência da invasão da Etiópia; em 11 de Julho conclui-se um acordo de amizade entre a Alemanha e a Áustria; em 30 de Setembro, Salazar cria a Legião Portuguesa, milícia paramilitar fascista; em Outubro, o catolicismo austríaco impõe-se como regime monolítico e autoritário; em 24 de Outubro, a Alemanha reconhece de jure o império italiano; em 1 de Novembro, Mussolini emprega pela primeira vez a expressão "Eixo Berlim-Roma". Faltam poucos dias para que o governo de Franco seja reconhecido pela Alemanha e pela Itália, apenas alguns mais para que a Alemanha e o Japão assinem o pacto anti-Komintern. A Segunda Guerra Mundial está cada vez mais perto. 
«É um Hitler triunfante que nesta fotografia vemos desfilar com o seu séquito. Leva as mãos cruzadas à altura do cinturão do uniforme, postura sua que voltaremos a ver muitas vezes e que nenhum dos que o seguem se atreve a imitar. O cenário, com as estranhas chaminés fumegando, poderia pertencer a uma ópera wagneriana, poderia ser, por exemplo, a forja de Alberich no Ouro do Reno, mas se Adolfo Hitler, para dar maior solenidade à comemoração do 13.° aniversário da "marcha sobre Munique", mandou que tocasse uma orquestra, a música só poderá ter sido a que, no final da mesma ópera, acompanha a entrada dos deuses no Valhala. Na realidade, todos estes homens se crêem deuses. Já não andam à conquista do poder, têm-no, usam-no sem limites, o mundo só existe para os servir. Há treze anos, quando daqui saíram para forçar os generais bávaros - o que vemos na fotografia é a fábrica de cerveja Bürgerbrãu... -, um simples destacamento de polícia foi capaz de desbaratá-los. Hoje são donos de um exército, são donos de um povo inteiro - e preparam a guerra. 
«Poderia ser uma ópera de Wagner, poderia ser também um cenário de Blade Runner, e os que marcham um bando de criminosos. Foram um bando de criminosos.» 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 172 a 176 (15 de Julho de 1996)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Sobre a fotografia" publicado em os "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (26/04/1996)



26 de Abril (de 1996)
"Sobre a fotografia: 
Não há nenhum motivo para sorrirmos ao ciclope, ao monstro de um só olho que é a câmara fotográfica. E, apesar disso, nunca estamos tão desarmados como diante duma objectiva. Ao princípio cremos poder enganá-la, ou porque fechámos o rosto e endurecemos o olhar, ou porque simulámos a expressão que a memória do espelho nos disse ser a mais favorável. Nesse momento começa uma luta entre a paciência do fotógrafo e a resistência de quem se lhe opõe. A paciência do fotógrafo é infinita, a resistência de quem está a ser fotografado acabará sempre por quebrar-se. Cada disparo do obturador atinge um ponto vital das defesas, aos poucos a muralha vai sendo derrubada, até que, por fim, as verdades que por trás dela se escondiam começam a aparecer, não ainda as verdades todas, mas uns quantos fragmentos delas, e também o medo do fotografado de que o processo continue até à exaustão de si mesmo. Em geral, não se chega tão longe. Piedoso, o fotógrafo pára no último instante, detém o fotografado quando ele já vai a cair no abismo, e tudo mais ou menos se recompõe. Mais ou menos. Mal refeito do susto, o fotografado suspira julgando-se livre, enquanto o fotógrafo se afasta a pensar nos bocadinhos de alma que leva dentro da caixa, como o pescador à linha vai contando os peixes que roubou ao cardume."
in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 123 e 124

quarta-feira, 6 de abril de 2016

"Da impossibilidade deste Retrato" para a exposição da Fundação Calouste Gulbenkian "Um Rosto para Fernando Pessoa" (Julho de 1985)

O presente texto serviu de apresentação do catálogo da exposição da Fundação Calouste Gulbenkian "Um Rosto para Fernando Pessoa" (Julho de 1985). Foi recuperado e incluído como entrada do dia 22 de Abril de 1996, em "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (Caminho, páginas 119 a 122)

Pode ser consultado online, aqui
http://caderno.josesaramago.org/36890.html (1.ª parte)
http://caderno.josesaramago.org/37120.html (2.ª parte)

"Pepe Dámaso, o excelente pintor canário a quem já uma vez me referi nestas páginas (v. Cadernos - III, 8 de Agosto), está a ultimar os trabalhos que levará em Julho a Lisboa e que serão apresentados na casa Fernando Pessoa. O objecto da exposição, já se calcula, é o dito Pessoa, que não pára de inquietar os pintores. Dámaso veio hoje de Las Palmas pedir-me umas palavras para o catálogo, trazendo como custódio o cônsul de Portugal, Manuel Pereira da Silva. O meu gosto seria simplesmente dar-lhe o que escrevi, vai fazer onze anos, a convite de José Sommer Ribeiro, para a exposição Um Rosto para Fernando Pessoa, na Fundação Caloute Gulbenkian. Não poderá ser, terei de inventar algo novo, mas é pena, porque estou certo de que nunca serei capaz de fazer melhor sobre o tema. A tal ponto que não resisto a passar aqui o que escrevi naqueles já tão distante dias, som o título Da Impossibilidade Deste Retrato:

António Dacosta "Sonho de F.P. Debaixo de uma Latada numa Tarde de Verão" (1982-1983)
Pintura inserida na exposição, a que José Saramago se refere neste texto de apresentação do catálogo da Fundação Calouste Gulbenkian "Um Rosto para Fernando Pessoa" (Julho de 1985)

"Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma das fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade? O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual?

De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade, e, tendo em conta a ocorrente multiplicação das suas imagens, provocada por apetites sobreexcitados de representação e facilitadas por um domínio generalizado das técnicas, o homem dos heterónimos, já voluntariamente confundido nas criaturas que produziu, entrará no negro absoluto em muito menos tempo que o outro de uma cara só, mas de vozes também não poucas. Acaso será esse, quem sabe, o perfeito destino dos poetas, perderem a substância de um contorno, de um olhar gasto, de um vinco na pele, e dissolverem-se no espaço, no tempo, sumidos entre as linhas do que conseguiram escrever, se do rosto sem feições nem limites ainda alguma coisa vem intrometer-se, está garantido o dia em que mesmo esse pouco será definitivamente lançado fora. O poeta não será mais que memória fundida nas memórias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declará-lo fosse primeira invenção sua. Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia.

Entretanto, o pintor vai pintando o retrato de Fernando Pessoa. Está no princípio, não se sabe ainda que rosto escolheu, o que se pode ver é uma levíssima pincelada de verde, se calhar vai sair daqui um cão dessa cor para pôr em conjunção com um jockey amarelo e um cavalo azul, salvo se o verde for apenas o resultado físico e químico de estar o jockey em cima do cavalo, como é sua profissão e gosto. Mas a grande dúvida do pintor não tem que ver com as cores que há-de empregar, essa dificuldade resolveram-na os impressionistas de uma vez para sempre, só os homens antigos, os de antes, não sabiam que em cada cor as cores estão todas: a grande dúvida do pintor é se há-de ter uma atitude reverente ou irreverente, se pintará esta virgem como S. Lucas pintou a outra, de joelhos, ou se tratará este homem como um triste coitado que realmente foi ridículo a todas as criadas de hotel e escreveu cartas de amor ridículas, e se, assim autorizado pelo próprio, poderá rir-se dele pintando-o. A pincelada verde, por enquanto, é somente a perna do jockey amarelo posta do lado de cá do cavalo azul. Enquanto o maestro não sacudir a batuta, a música não romperá lânguida e triste, nem o homem da loja começará a sorrir entre as memórias da infância do pintor. Há uma espécie de ambiguidade inocente nesta perna verde, capaz de se transformar em verde cão. O pintor deixa-se conduzir pela associação de ideias, para ele, perna e cão tornaram-se em meros heterónimos de verde: coisas bem mais inacreditáveis do que esta têm sido possíveis, não há que admirar. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do pintor enquanto pinta. 

O retrato está feito, vai juntar-se às dez mil representações que o precederam. É uma genuflexão devota, é uma risada de troça, tanto faz, cada uma destas cores, cada um destes traços, sobrepondo-se uns aos outros, aproximam o momento da invisibilidade, aquele negro absoluto que não reflectirá nenhuma luz, sequer a luz fulgurante do sol, que faria então à breve cintilação de um olhar, em frente a apagar-se tão cedo. Entre a reverência e a irreverência, num ponto indeterminável, estará, talvez, o homem que Fernando Pessoa foi. Talvez, porque também isso não é certo. Albert Camus não pensou duas vezes quando escreveu: “Se alguém quiser que o reconheçam, basta que diga quem é”. No geral dos casos, o mais longe a que chega quem a tal aventura ouse propor-se é dizer que nome lhe puseram no registo civil.

Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e Reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta, mas pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, com que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, ou direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê? O braço levanta-se, enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou azul, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.

Mas os pintores vão continuar pintando."