Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

FOLIO Festival Literário 2018 - 27/09 - "Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel"

27 de Setembro - 19h00 \\\ FOLIO
Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel
Conversa com Anabela Mota Ribeiro e Pilar del Rio 
a propósito do lançamento do livro 
Último Caderno de Lanzarote,  (o último volume dos seus diários)
Edição Porto Editora
\\\ Casa José Saramago - Óbidos



Site Óbidos Vila Literária http://obidosvilaliteraria.com/

sábado, 3 de março de 2018

Congresso Internacional "José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel" - Informação do Professor Carlos Reis

"Por ocasião dos 20 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, realiza-se em Coimbra, de 8 a 10 de outubro próximo, um congresso internacional que assinalará a efeméride. 
O Congresso Internacional “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” é organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em coorganização com a Câmara Municipal de Coimbra. 
Mais informação no site do Centro de Literatura Portuguesa.
Por favor, partilhe."
Mensagem do Professor Carlos Reis publicada no Facebook


Congresso Internacional
"José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel"

"A 10 de dezembro próximo, cumprem-se 20 anos sobre a entrega do  Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a quem, até agora, foi concedido o mais  prestigiado de todos os galardões literários.  

Por ocasião desta efeméride, terão lugar diversas iniciativas que constituirão também uma oportunidade privilegiada para se reler e estudar a obra saramaguiana, bem como a trajetória cívica e cultural que o seu autor protagonizou,  na segunda metade do século XX e nos primeiros anos  do século XXI.   

Entende-se, por isso, ser pertinente organizar uma reunião científica com a projeção  que as circunstâncias justificam.  Assim,  o Congresso Internacional  “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” terá lugar de 8  a 10 de outubro  do corrente ano, no Convento São Francisco, em Coimbra. 

Aceda aqui à primeira circular e também à ficha de inscrição.

O Congresso Internacional “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” é organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em coorganização com a Câmara Municipal de Coimbra.  Apoios: Reitoria da Universidade de Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fundação José Saramago; Porto Editora."

Informação constante na primeira circular e que está disponível, aqui 
"Congresso Internacional
“José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”
Primeira circular
A 8 de outubro, cumprem-se 20 anos sobre o anúncio da atribuição do Prémio
Nobel da Literatura a José Saramago. A 10 de dezembro de 1998, José Saramago recebia
em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura.
Lembrando a efeméride, terão lugar diversas iniciativas que constituirão também
uma oportunidade privilegiada para se reler e estudar a obra saramaguiana, bem como a
trajetória cívica e cultural do seu autor.
Entende-se, por isso, ser pertinente organizar uma reunião científica com a
projeção que as circunstâncias justificam. Assim, terá lugar em Coimbra, de 8 a 10 de
outubro do corrente ano, no Convento São Francisco, o Congresso Internacional “José
Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel”. O congresso incluirá conferências, mesasredondas
e comunicações subordinadas ao seguinte temário:
 Representações da História em José Saramago
 A personagem saramaguiana: figuração e sobrevida
 Alegorias saramaguianas
 A poesia de José Saramago
 O teatro de José Saramago
 Representações transmediáticas da obra saramaguiana
 José Saramago polemista e doutrinador literário
 José Saramago cronista e jornalista
 A fortuna crítica de José Saramago
Convida-se a comunidade científica a apresentar propostas de comunicações
subordinadas aos temas referidos, bem como a formular inscrição, de acordo com o
seguinte calendário e preços:
 Primeira fase: até 15 de abril
o € 25.00: participantes sem comunicação
o € 35.00: participantes com comunicação
 Segunda fase: até 31 de julho
o € 35.00: participantes sem comunicação
o € 45.00: participantes com comunicação
o € 15.00: estudantes
As fichas de inscrição e propostas de comunicação (máximo: 300 palavras) devem
ser enviadas para congressosaramago@gmail.com. O resultado da arbitragem das
propostas apresentadas será comunicado até 31 de julho (primeira fase) e até 31 de agosto
(segunda fase). Pagamento de inscrições através da Loja Virtual da UC.
Como atividade paralela ao Congresso, será lançado um concurso de ensaios
destinado a estudantes do Ensino Secundário e incidindo sobre os romances Memorial do
Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis.
O Congresso Internacional “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” é
organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em
coorganização com a Câmara Municipal de Coimbra. Apoios: Reitoria da Universidade de
Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fundação José Saramago;
Porto Editora." 


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

"Literary Rebellion Images of Nobel Prize Laureates in Literature. An exhibition by Kim Manresa and Xavi Ayén."

"José Saramago Photo: Kim Manresa"

Nobel Museum, Stortorget 2, Gamla stan
23 September 2017 – September 2018

"What is a literary rebellion? Can literature change the world? To read and write is a slow pursuit, and often a solitary one. Still reading and writing are often seen as something threatening. Texts have been censored and banned, authors have been threatened, persecuted and even imprisoned for what they write.

In the photo exhibition Literary Rebellion, twelve Nobel Laureates in Literature are depcited in the Spanish photographer Kim Manresa’s gripping and beautiful images. The authors have in different ways used their writing as a way to question, create change and make resistance. Through their literature, they have in different ways worked to create and maintain spaces for the free word.

In the exhibit we ask ourselves how the power of literature to change the world can be expressed in individual authorships, and show examples of authors that have been noted for their ability to jolt their readers. Their ways of writing and acting as authors have had different consequences depending on their societies; some have been forced to write from exile.

Some examples are seemingly more obvious, like Svetlana Alexievich or Herta Müller, but others are more harmless at a first glance. The everyday and sometimes humourous poetry of Wisława Szymborskas can appear far from resistance and rebellion, but expresses an ideal of freedom that fends away totalitarian ideologies.

The photographer Kim Manresa is based in Barcelona and works in a documentary style with a strong social commitment. In his reports he often follows people that fight for themselves or for others. For more than a decade, Manresa has together with the journalist Xavi Ayén interviewed Nobel Laureates in Literature about their social egagement, which resulted in the book Rebeldía de Nobel. These stories make the basis for this exhibition.

The exhibition is produced in cooperation with curator Miguel Angel Invarato. All images are © Kim Manresa.

The Nobel Laureates in Literature whose authorships are highlighted in the exhibition are (in parenthesis the year in which they were awarded): Svetlana Alexievich (2015) Dario Fo (1997) Nadine Gordimer (1991) Imre Kertész (2002) Doris Lessing (2007) Toni Morrison (1993) Herta Müller (2009) Orhan Pamuk (2006) Kenzaburo Oe (1994) José Saramago (1998) Wole Soyinka (1986) Wisława Szymborska (1996)."

domingo, 8 de outubro de 2017

Na passagem dos 19 anos do anúncio da atribuição do prémio Nobel

https://www.youtube.com/watch?v=7_vKuX0_jk0

Faz 19 anos que a Real Academia sueca que atribui o prémio Nobel em diversas áreas, 
agraciava José Saramago com mais alto galardão da literatura. 
No anúncio do prémio Nobel da Literatura de 1998 foram apresentadas as palavras de reconhecimento da obra publicada até essa altura.
(...) "que através de parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia, nos permite apreender continuamente uma realidade ilusória."

domingo, 11 de dezembro de 2016

Documentário realizado pelo PCP em homenagem a José Saramago (2008)

Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,

"Homenagem do Partido Comunista Português a José Saramago por ocasião do 10.º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Literatura.
Com a presença de José Casanova, Louzã Henriques, Fernanda Lapa, José Santa-Bárbara, Baptista-Bastos, Joaquim Benite, José Sucena, Maria do Céu Guerra, Carmen Santos, Carlos do Carmo e Jerónimo de Sousa."
2.ª Parte
Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,

3.ª Parte
Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,



sábado, 10 de dezembro de 2016

Na data em que se assinalam os 18 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura (1998)

O momento da entrega do Diploma e Medalha, 
símbolos máximos e representativos da atribuição do Prémio Nobel

"Concert Hall" em Estocolmo - Suécia 
10 de Dezembro de 1998

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Recuperação do discurso de José Saramago, pode ser consultado aqui via FJS 

"Discurso pronunciado por José Saramago no dia 10 de dezembro de 1998 no banquete do Prémio Nobel

Há 16 anos José Saramago recebia o Prémio Nobel de Literatura em Estocolmo. Abaixo, o discurso proferido pelo escritor durante o banquete.

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto."



domingo, 23 de outubro de 2016

De Violante Saramago Matos "A memória do meu pai, o Nobel" via Público (Márcio Berenguer - 16/10/2016)

A reportagem pode ser recuperada e consultada, aqui

Publicada pelo jornalista Márcio Berenguer - 16/10/2016


"Violante Saramago Matos viajou ao passado até 8 de Outubro de 1998, dia em que se soube da distinção máxima da Academia Sueca para o seu pai, o escritor José Saramago. Sobre Bob Dylan diz: “Penso que foi uma forma da Academia reconhecer que a literatura não é feita apenas de romances"

A certa altura deixamos de falar sobre isso. Naquele ano de 1998 o Nobel não era um tema tabu. Simplesmente não era um tema. Não povoava as nossas conversas. Há muito que não. Antes conversávamos muito sobre ele. Ciclicamente, claro. Já era tempo de a Academia Sueca olhar para a língua portuguesa. Seria este ano o ano? Mas o reconhecimento ia sempre para outro lugar, para outro nome, que não este.

Naquele ano de 1998 já não falávamos sobre isso. É verdade.

Antes, tentávamos descodificar os sinais políticos — há sempre uma componente política nestas coisas —, olhar para quem tinha recebido antes e para quem poderia ser galardoado depois. Demorávamo-nos a discorrer sobre a actualidade, numa tentativa de antecipar o que poderia ou não vir. Percorrer os nobelizáveis e os outros, que não sendo, podiam vir a ser. Mas naquele ano não. Falávamos de outras coisas. De livros. De nós.

Era de manhã. A meio da manhã. É aí que me situo na memória daquele dia. Estava numa reunião na Câmara do Funchal. Era vereadora, na altura. Eleita como independente pelo Partido Socialista. Estava no meio de uma discussão com o Ricardo Silva, do PSD, responsável pelo urbanismo da cidade. Foi o [André] Escórcio que bateu à porta — ou melhor, entrou esbaforido pela sala adentro, chamando o meu nome. “Espera, espera”, disse eu com um gesto de enfado. Insistiu o Escórcio. Insistiu muito. Uma, duas, três vezes: “Violante, Violante, Violante.” A minha resposta sempre a mesma. Sempre a gesticular, cada vez mais exaltada. “Agora não. Agora não, já disse!” Insistiu: “O teu pai. É sobre o teu pai.” Parei de imediato. Já tinha toda a minha atenção. Gelei. Olhei-o de frente. “O meu pai? O que aconteceu ao meu pai?” “Estão a dizer que ganhou o Nobel.” A reunião terminou aí.     

Ele estava em Frankfurt, na Feira do Livro, e eu na Madeira. Em 1998, era como se ele estivesse no outro lado do mundo, numa ilha deserta. Não existiam as ligações rápidas, instantâneas, como agora. Era outra velocidade. Parece outro século. Era mesmo. Outro século, outro tempo. Liguei várias vezes. Perdi a conta de quantas. Ele deve ter feito o mesmo. Não sei. Sei que só a meio da tarde é que conseguimos falar. Foi ele que ligou, de um número que não era o dele. Não sei de quem era. Não perguntei. Importa? O que falámos? O que eu disse? Parabéns. Um beijo. Muitos. Mil beijinhos. Eu sei lá o que disse. Um amor que não se descreve, nem escreve. Um desejo imenso de o abraçar. Foi isso.

Tive de esperar. Um dia, dois. Foi uma semana de loucos. Nunca estamos realmente preparados para estas grandes coisas. Para as grandes emoções que nos assaltam assim, sem pedirem licença para entrar. Não conseguia reagir. Só o vi em Lisboa, quando chegou vindo de Lanzarote. Era eu entre muitos que o esperavam. Um Nobel português, num ano de Expo. É um pouco como agora, com a selecção na Europa e Guterres na ONU. Havia muito entusiasmo. Muita portugalidade. Um mar de personalidades no aeroporto. Senti, naquele momento, que todos ali tinham mais que ver com ele do que eu. Foi estranho sentir-me assim. Eu era a filha, a única filha. Só queria dar-lhe um beijinho, mas tive de esperar. Digo isto sem qualquer animosidade. Mas eu era a filha... não é?

Toda a minha vida cresci com este sentimento. Ainda o guardo. O de ser filha de. Durante anos fui filha de. É coisa boa quando a herança do nome dos pais nos enche o coração, mas é coisa difícil quando o tamanho do nome dos pais nos abafa o ser. Então é preciso saber emergir das águas daqueles dois caudais de talento, saber quem somos para além da grandeza deles, saber em que cruzamento — das duas ruas por onde correm dois nomes maiores da nossa cultura — fica a nossa esquina.

E ali estava eu agora. Naquela esquina do aeroporto. Ao olhar aquele homem, no meio da multidão, onde tantos viam frieza, distanciamento e má disposição, eu encontrava os afectos que transbordavam dos seus livros e das relações humanas, familiares. Um homem extremamente tímido, reservado, que vestia uma couraça para se proteger dessa timidez espantosa. E ele ali, no centro daquela celebração, e eu do outro lado do muro de pessoas. Tão próxima. Tão distante. A observar. Com um orgulho imenso no peito que levaria comigo — ainda o trago — para Estocolmo.

Não era só o prémio, o Nobel. Foram os fundamentos — “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia” — da Academia Sueca para distinguir José Saramago. O ser maior do que um escritor. Um filósofo, como o meu filho, ainda pequeno, um dia disse. Só esses fundamentos bastavam-me. Mas havia mais. Quanto orgulho consegue segurar uma pessoa?

No banquete, na câmara de Estocolmo, onde o meu pai se sentou ao lado da rainha, encontrei mais razões para vibrar por aquele homem que era meu pai. Há uma espécie de hierarquia naquela cerimónia. Uma hierarquia mal disfarçada. Os laureados são dispostos no salão obedecendo a uma qualquer ordem de importância. E eu estava ali, com ele, a Pilar e a minha filha (cada um dos premiados só tem direito a levar três pessoas) na mesa de honra. O Danilo [o marido] e o meu filho ficaram em cima, na plateia.

A gente abala quando vive um momento daqueles. Abana quando ouve aquele discurso. Aquelas palavras imensas. Ainda hoje as guardo. Os Discursos de Estocolmo e o Ensaio sobre a Cegueira continuam à minha cabeceira, vou regressando a eles amiúde.  

É uma maneira de celebrar José Saramago escritor. O país ainda o celebra. Festeja, mesmo. Deixa-me feliz saber isso — que depois de tantos anos ainda o lemos. Penso que ele também ficaria — ter presenciado, ter vivido a reconciliação com um país onde nasceu e cresceu foi importante para ele. Eu vi isso. Conversámos sobre isso —para lá dos Sousas Laras daquele Portugal pequeno, do Cavaco, com quem ele nunca mais falou. O que aconteceu com o Evangelho segundo Jesus Cristo deixou-o sentido. Triste, até. Quem não ficaria? Mas tudo isso foi ultrapassado.

Lê-lo é a maior homenagem. Continuar a mergulhar nos livros é festejar um autor, um homem, um pai que mais do que intransigente, que o era em questões de princípios, era essencialmente muito exigente. Basta ler com atenção a obra que deixou, que transcende a simples literatura. Se é que podemos falar de literatura simples.

Ele também era tudo menos simples. Recusava as respostas prontas. O sim e o não ficavam de fora das nossas questões. Queria que pensássemos. Era assim que ele era como pai, como escritor e como cidadão interventivo. Não existiam vários Saramagos. O que ele foi, o que ele era está ali, na obra que deixou. Estar a ler o meu pai é como estar a ouvi-lo falar, porque ele escrevia como falava. Não era um homem de sim e não, era um homem que respondia, procurando sempre uma explicação.

É assim que recordo o meu pai. É assim que guardo aquele ano de 1998, em que já não falávamos do Nobel e ele apareceu.

Depoimento recolhido pelo jornalista Márcio Berenguer"

sábado, 8 de outubro de 2016

Breve discurso no anuncio da atribuição do prémio Nobel, em 8 de Outubro de 1998

Via YouTube, aqui
em https://www.youtube.com/watch?v=7_vKuX0_jk0

"Bem vindos à Academia.
Este ano. a Academia atribuiu o prémio Nobel da Literatura ao escritor português José Saramago... José Saramago.
... que através de parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia, nos permite apreender continuamente uma realidade ilusória."

Breve discurso no anuncio da atribuição do prémio Nobel, em 8 de Outubro de 1998

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Imagens e recordações - 17 anos de Prémio Nobel

(A medalha)

(Pilar del Río e o vestido vermelho, que iria ter uma segunda vida)

(Momento de Pilar del Río aquando da instalação da FJS)

(Momento em que José Saramago recebe a distinção)

(O discurso que marcou uma nova etápa)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Nobel... pensamentos sobre o Nobel, em 1993 - Cadernos de Lanzarote Diário I (7/8/93)


7 de Agosto de 1993

«Parabéns de Jorge Amado e Zélia pelos prémios. Que outros virão, ainda maiores, acrescentam, aludindo ao que consta ter sido dito por Torrente Ballester - que um dia destes me chega aí um telefonema de Estocolmo... Se esta gente acredita no que diz, por que tenho eu tanta dificuldade em acreditar? Alguma vez se viu, um Nobel depois de outro Nobel? Viver com Pilar e telefonarem-me de Estocolmo? Será o impossível possível?»

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, página 94


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Assinala-se hoje os 17 anos da data do anúncio da atribuição do prémio Nobel a José Saramago (8/10/1998)

Via YouTube, aqui

"Bem vindos à Academia.
Este ano. a Academia atribuiu o prémio Nobel da Literatura ao escritor português José Saramago... José Saramago.
... que através de parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia, nos permite apreender continuamente uma realidade ilusória."

Breve discurso no anuncio da atribuição do prémio Nobel, em 8 de Outubro de 1998

terça-feira, 16 de junho de 2015

Kjell Espmark é mencionado no Blog/Livro "O Caderno 2", no post "Todos os nomes" (19/11/2008)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/12775.html

(Imagem da capa da obra realizada por Kjell Espmark, 
sobre a atribuição dos prémios Nobel da literatura - 2012)

"Todos os nomes"

"A dedicar exemplares de “A Viagem do Elefante” na editora durante uma boa parte da manhã. Na sua maioria irão ficar em Portugal como um recado para os amigos e companheiros de ofício dispersos nas lusitanas paragens, mas outros viajarão a terras distantes, como sejam o Brasil, a França, a Itália, a Espanha, a Hungria, a Roménia, a Suécia. Neste último caso, os destinatários foram Amadeu Batel, nosso compatriota e professor de literatura portuguesa na Universidade de Estocolmo, e o poeta e romancista Kjell Espmark, membro da Academia Sueca. Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf."

em "O Caderno 2"
Caminho, 19 de Novembro de 2008

(Kjell Espmark, no momento do 
discurso de apresentação)

A apresentação do Prémio Nobel, na cerimónia de entrega, lida por Kjell Espmark, pode ser consultado e lido, aqui

"Your Majesties, Your Royal Highness, Ladies and Gentlemen,"

"There is one type of writer who, like a bird of prey, circles time and again over the same territory. Book succeeds book, in progress towards a coherent picture of the world. José Saramago belongs to the opposite category, writers who repeatedly seem to want to invent both a world and a style that is new. In his novel The Stone Raft, he makes the Iberian peninsula separate and drift out into the Atlantic, an opening that provides a wealth of possibilities for a satirical description of society. But in his next book, The History of the Siege of Lisbon, no trace of this geological catastrophe is to be found. In Blindness: a Novel, the epidemic that deprives people of their sight is confined between the covers of the work. In his next novel All the Names, at the Population Registration Office nothing has been heard of any rampant spread of blindness, nor in previous works has there been anything to suggest the existence of this chillingly all-embracing agency. It is not Saramago's ambition to portray a coherent universe. On the contrary, he seems every time to be trying out a new model to apprehend an evasive reality, fully aware that each model is a crude approximation that could permit other approximate values, indeed one that requires them. He explicitly condemns anything that claims to be "the only version"; it is merely "another version among many". There is no overriding truth. Saramago's apparently contradictory images of the world have to be placed alongside each other to provide their own alternative accounts of an existence that is fundamentally protean and unfathomable.

In each and every one of these versions, the rules of common sense are suspended in some way. This is not uncommon in recent fiction. But here we are dealing with something different from narrative in which anything can happen - and does so all the time. Saramago has adopted a demanding artistic discipline which allows the laws of nature or common sense to be violated in one decisive respect only, and which then follows the consequences of this irrationality with all the logical rationality and exact observation it is capable of. In his novel The Year of the Death of Ricardo Reis, he makes a flesh and blood character of a figure that has only existed in the imaginary world, one of the guises adopted by the poet Pessoa. But this miracle gives rise to a masterfully realistic picture of Lisbon in the 1930s. Again, the severance of the Iberian peninsula that allows it to drift off into the Atlantic is a one-off violation of the natural order; what follows is a hilariously precise description of the consequences of this absurd aberration. In The History of the Siege of Lisbon the accepted order of things is subverted more discreetly. A proof-reader introduces a "not" into a book about the war of liberation against the Moors, thus altering the course of history. As penance he is made to write an alternative history that delineates the consequences of his amendment; this is once again a version that denies any claim to be the only valid one. In the same spirit, Saramago has also published a new, wonderful version of the narrative of the gospels, a version in which the contravention of the expected order is to be found in God's petty hunger for power so that the role of Jesus is redefined as one of defiance. Perhaps the greatest scope allowed to the fantastic is in Baltasar and Blimunda where the clairvoyant heroine gathers up the wills of the dying - energy that makes the aerial voyage in the book possible. But she too and her love are placed in an objectively described historical process, in this case the construction of the convent at Mafra that cost so much human suffering.

This rich work, with its constantly shifting perspectives and constantly renewed images of the world, is held together by a narrator whose voice is with us all the time. Apparently he is a story-teller of the old-fashioned omniscient variety, a master of ceremonies standing on the stage next to his creations, commenting on them, guiding their steps and sometimes winking at us across the footlights. But Saramago uses these traditional techniques with amused distance. The narrator is also adept in the contemporary devices of the absurd and develops a modern scepticism when faced with the omniscient claim to be able to say how things stand.The result is literature characterised at one and the same time by sagacious reflection and by insight into the limitations of sagacity, by the fantastic and by precise realism, by cautious empathy and by critical acuity, by warmth and by irony. This is Saramago's unique amalgam.


Dear José Saramago,

Anybody who tries in a few minutes to portray your work will end up articulating a series of paradoxes. You have created a cosmos that does not want to be a coherent universe. You have given us ingenious versions of a history that will not allow itself to be taken captive. You have taken the stage as the kind of narrator we feel we have long been familiar with - but with all of our contemporary liberties at your fingertips and imbued with contemporary scepticism about definite knowledge.Your distinguishing mark is irony coupled with discerning empathy, distance without distance. It is my hope that this award will attract many people to your rich and complex world. I would like to express the warm congratulations of the Swedish Academy as I now request you to receive this year's Nobel Prize for Literature from the hands of His Majesty the King."

10 de Dezembro de 1998
Versão portuguesa, publicada no Diário de Notícias, a 11/12/1998

"Há escritores tipo ave predadora, que descrevem círculos repetidos sobre o mesmo território, de livro para livro, buscando um retrato coerente do mundo". (...) "[Saramago] pertence a uma categoria contrária, a dos escritores que parecem querer sempre inventar um mundo e um estilo novos". [Assim, se a Península Ibérica fica à deriva em A Jangada de Pedra, não há traços dessa catástrofe geológica na História do Cerco de Lisboa; tal como a epidemia que é descrita em Ensaio sobre a Cegueira não deixa traços em Todos os Nomes.]

"[Na realidade], a ambição de Saramago não é retratar um universo coerente. Pelo contrário, parece, de cada vez, tentar criar um novo modelo de apreensão de uma realidade evasiva, consciente de que cada modelo é uma aproximação crua que pode admitir outros valores aproximados, na realidade um que os exige a todos. Ele condena explicitamente tudo que proclame ser "a única versão", é apenas "uma versão entre muitas".

"Em cada uma destas versões, as regras do senso comum estão suspensas de alguma forma. Isto não é invulgar na ficção recente. Mas aqui estamos a lidar com algo diferente da narrativa em que tudo pode acontecer - e acontece constantemente. Saramago adoptou uma exigente disciplina artística que autoriza as leis da natureza e do senso comum a serem violadas apenas num aspecto decisivo e que então segue as consequências desta irracionalidade com toda a racionalidade lógica e observação exacta de que é capaz." [A propósito, Espmark citou os casos de O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento.]

"Esta obra rica, com as suas perspectivas constantemente mutáveis e renovadas imagens do mundo, recebe a sua unidade de um narrador cuja voz está sempre connosco. Aparentemente é um contador de histórias da velha espécie omnisciente, um mestre de cerimónias de pé no palco, comentando-as, guiando os seus passos. Mas Saramago usa esta técnica tradicional com divertida distância. O narrador desenvolve um moderno cepticismo quando confrontado com a omnisciente proclamação de ser capaz de dizer em que pé estão as coisas. O resultado é uma literatura caracterizada, simultaneamente, por uma sagaz reflexão e por uma visão interior dos limites da sagacidade, pelo fantástico e por um realismo preciso, por uma empatia cautelosa e por uma acuidade crítica, pelo calor e pela ironia. Essa é a amálgama, única, de Saramago."

[Dirigindo-se directamente ao laureado, e usando o português] "Caro José Saramago, quem tentar, em poucos minutos, retratar a sua obra acaba por articular uma série de paradoxos. Criou um cosmos que não quer ser um universo coerente. Deu-nos versões engenhosas de uma história que não se deixa aprisionar. Entrou no palco como o género de narrador com que há muito nos familiarizámos - mas com todas as nossas liberdades contemporâneas nos seus dedos e imbuído de um cepticismo actual acerca do conhecimento definitivo. A sua marca distinta é a ironia associada a uma simpatia, distância sem distanciação. Espero que este prémio atraia muitas pessoas para o seu mundo rico e complexo. Desejo exprimir as felicitações da Academia Sueca ao mesmo tempo que lhe peço que receba o Prémio Nobel da Literatura das mãos de Sua Majestade o Rei."

Professor Kjell Espmark, membro da Academia Sueca e presidente do Comité Nobel

Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998"

sábado, 27 de dezembro de 2014

"Quando for crescido quero ser como Rita" José Saramago sobre Rita Levi-Montalcinia (Prémio Nobel de Medicina em 1986)

(Foto: Rita Levi Montalcini retratada junto a Marie Curie por Sofía Gandarias. 
A foto foi tirada no estúdio da pintora, em Madrid)


"Quando for crescido quero ser como Rita", afirmou José Saramago sobre Rita Levi-Montalcini. A neurologista, vencedora do Prémio Nobel de Medicina em 1986.


Em "O Caderno", dia 27 de Outubro de 2008
Caminho, 2.ª edição, páginas 90 a 92
"Quando for crescido quero ser como Rita" - José Saramago

"Esta Rita a quem quero parecer-me quando for crescido é Rita Levi-Montalcini, ganhadora do Prémio Nobel de Medicina em 1986 pelas suas investigações sobre o desenvolvimento das células neurológicas. Ora, Prémio Nobel é coisa que já tenho, logo não seria por ambição dessa grande ou pequena glória, as opiniões dos entendidos divergem, que estou disposto a deixar de ser quem tenho sido para tornar-me em Rita. De mais a mais estando eu numa idade em que qualquer mudança, mesmo quando prometedora, sempre se nos afigura um sacrifício das rotinas em que, mais ou menos, acabámos por nos acomodar.
E por que quero eu parecer-me a Rita? É simples. No acto do seu investimento como Doutora “Honoris Causa” na aula magna da Universidade Complutense, de Madrid, esta mulher, que em Abril completará cem anos, fez umas quantas declarações (pena que não tenhamos conseguido a transcrição completa do seu improvisado discurso) que me deixaram ora assombrado, ora agradecido, posto que não é fácil imaginar juntos e unidos estes dois sentimentos extremos. Disse ela: “Nunca pensei em mim mesma. Viver ou morrer é a mesma coisa. Porque, naturalmente, a vida não está neste pequeno corpo. O importante é a maneira como vivemos e a mensagem que deixamos. Isso é o que nos sobrevive. Isso é a imortalidade”. E disse mais: “É ridícula a obsessão do envelhecimento. O meu cérebro é melhor agora do que foi quando eu era jovem. É verdade que vejo mal e oiço pior, mas a minha cabeça sempre funcionou bem. O fundamental é manter activo o cérebro, tentar ajudar os outros e conservar a curiosidade pelo mundo”. E estas palavras que me fizeram sentir que havia encontrado uma alma gémea: “ Sou contra a reforma ou outro qualquer outro tipo de subsídio. Vivo sem isso. Em 2001 não cobrava nada e tive problemas económicos até que o presidente Ciampi me nomeou senadora vitalícia”.
Nem toda a gente estará de acordo com este radicalismo. Mas aposto que muitos dos que me lêem vão também querer ser como Rita quando crescerem. Que assim seja. Se o fizerem tenhamos a certeza de que o mundo mudará logo para melhor. Não é isso o que andamos a dizer que queremos? Rita é o caminho."



Mais algumas informações, via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Rita_Levi-Montalcini

"Rita Levi-Montalcini (Turim, 22 de Abril de 1909 — Roma, 30 de Dezembro de 2012) foi uma médica neurologista italiana.
Foi agraciada com o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1986 pela descoberta de uma substância do corpo que estimula e influencia o crescimento de células nervosas, possibilitando ampliar os conhecimentos sobre o mal de Alzheimer e a doença de Huntington. Desde 24 de Junho de 1974 era membro da Pontifícia Academia das Ciências.
Rita Levi-Montalcini foi designada em 1 de Agosto de 2001, directamente pelo presidente Carlo Azeglio Ciampi, senadora vitalícia da República Italiana , sendo a segunda mulher a ocupar este cargo, depois de Camilla Cederna.
Além do prémio Nobel, recebeu o título de doutora honoris causa de várias instituições universitárias: Universidade de Uppsala (Suécia), do Instituto Weizmann da Ciência (Israel), da McGill University do Canadá, da Universidade Complutense de Madrid, da Universidade Luigi Bocconi (Milão), da Universidade de Trieste e do Instituto Politécnico de Turim, na Itália, entre outras.
Recebeu o Prémio internacional Saint-Vincent, o prémio Feltrinelli e o prémio "Albert Lasker de Pesquisa Médica Básica". Em 22 de Janeiro de 2008 foi-lhe concedido o doutoramento "honoris causa" em biotecnologia industrial junto à Università Bicocca, de Milão.
Em 2009, ao completar 100 anos de idade, tornou-se a primeira vencedora do Prémio Nobel a alcançar um século de vida e também a mais idosa senadora vitalícia em actividade na história da República Italiana. Em 30 de Setembro de 2009, pelos seus estudos do sistema nervoso, recebeu o Wendell Krieg Lifetime Achievement Award, prémio instituído pela mais antiga associação norte-americana de neurociência - o Cajal Club."


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

"José Saramago: o nobel, 10 anos depois" - por Anabela Mota Ribeiro

Aqui, fica o último texto da jornalista Anabela Mota Ribeiro, cujo site, onde estão compilados os seus trabalhos (entrevistas e crónicas, de e sobre personalidades relevantes; publicadas em diversos órgãos de comunicação social), aqui deixo a minha recomendação de visita e leitura.

Publicado originalmente, no Jornal de Negócios, em Outubro de 2008

Link, para consulta em, http://anabelamotaribeiro.pt/62964.html

"José Saramago: o Nobel"

"Um momento de glória. Quando chega a uma escola nova e dá um único erro ortográfico no ditado: escreve “calsse” em vez de “classe”, e passa para a carteira do melhor. “Foi aqui, agora que o penso, que a história da minha vida começou”.
Outro momento. “Quando o PEN Clube me atribuiu o seu prémio pelo romance “Levantado do Chão”, contei esta história para assegurar às pessoas que nenhum momento de glória presente ou futura poderia, nem por sombras, comparar-se àquele. Tinha publicado o “Levantado do Chão” em 1980, ainda tinham que passar 18 anos para que me dessem o Prémio Nobel... Momento de glória, o que é que isso quer dizer?”
A Glória. “Uma sensação de glória só pode ser algo muito fugaz. O que constrói a glória é a visão dos outros. Já que os outros acham que têm motivo para isso, a pessoa começa também a achar. Imaginar que por causa do Nobel é que passei a andar num virote... A minha vida antes já era essa, desde os anos 70, final dos anos 60. Só multiplicou aquilo que vinha sucedendo já. Mas multiplicou por muito, tenho que dizer. Não mudou nada. Nem me pôs defeitos que não tivesse antes, nem introduziu qualidades que não fossem as minhas. A pessoa que sou não mudou. E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo que escreve”. São pequenas glórias praticamente quotidianas. Aqui ou em Espanha”.
José Saramago, 2006, em entrevista para o Jornal de Negócios a propósito da publicação do seu livro de memórias. Um livro em que recua até um tempo que deixou de existir. Mas que vive nele, porque ele fez-se nesse “fundo movediço, composto de restos, de detritos de tudo e de todos” onde fica a infância. “E há coisas que estão aí “ipsis verbis”, frases que ficaram durante 70 anos ou mais na minha memória. Até mesmo factos, pessoas e nomes que julgava esquecidos, quando comecei a escavar, de repente, subiram à superfície. O quarto onde se dormia, a varanda que dava para a Rua Heróis de Quionga, na Mouraria, a prostituta que me disse assim, eu tinha doze anos: “O menino quer vir para o quarto?”.
Fez-se na Azinhaga, nos quartos com serventia de cozinha nas casas partilhadas de Lisboa. Fez-se na aspereza dos dias. Na necessidade. Na humilhação. O que ficou desse tempo?
Um sapateiro que lhe perguntou: «Você acredita na pluralidade dos mundos?». A memória reconfortante do avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”. Citou-o no discurso do Nobel. A memória reconfortante da avó Josefa: “Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. (…) E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém”. Memória transformada em carta, publicada n’ A Capital em 1968 e publicada recentemente em postal.
Era um tempo em que José Saramago era Zezito. Que vive nele. Abeirou-se dessas memórias como quem abraça as árvores do seu quintal. “Terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”.
A morte rondou-o, há um ano. A gadanha pronta. Tê-lo-ia o inconsciente pressentido quando o parou nas memórias de infância? O consciente afirma que a ideia do livro existia há vinte anos. Mesmo assim. Foi um susto. Pilar agarrou-lhe pelos colarinhos e gritou-lhe que ele tinha de viver. Segurou-o. Novo milagre: o amor a prendê-lo à vida. O primeiro milagre é, segundo Eduardo Lourenço, toda a sua vida.
“Não tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966. O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o “Manual de Pintura e Caligrafia”, e o “Objecto Quase”. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever “Uma Viagem a Portugal”, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro_ ele já estava ganho”.
Pilar, “mais do que um anjo, uma mulher. Podia ser qualquer outra, dirá você. Pois, mas é esta. A diferença está aí. De anjo tem muito pouco. É de carácter demasiado forte”. A jornalista espanhola que apareceu na sua vida em 1986. Na agenda pessoal do escritor, permanece a folha de uma árvore, dourada pelo tempo, que assinala esses dias. Era para ter sido no dia 11 de Junho, e ele pensava que ela era Pilar de los Rios. Mas o encontro deu-se, na verdade, dias mais tarde, a 14, e ele riscou sobre o nome e sublinhou numa cor fluorescente: Pilar del Río.
Tudo mudou. Saramago tinha passado os 60, e não podia supor que tinha ainda uma vida inteira para viver. Nunca desligada da criança que havia sido. Nunca desligada das convicções que fizeram dele o homem de convicções que é. “Quero ter tempo para escrevê-la [a obra], reivindico tempo para escrevê-la. Mas não é a única prioridade, eu vivo neste mundo. E o que se passa, em primeiro lugar interessa-me, em segundo lugar impressiona-me, em terceiro lugar indigna-me, e tenho que dar voz a estes sentimentos. Passe-se a questão na América Hispânica, em África, na China. Não é que ande a dar lições de moral a todo o mundo. Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam”.
Pilar já estava quando a expectativa do Nobel existia. O amigo Jorge Amado escreve numa carta, em 1994: “Queridos Pilar e José, ainda não será desta que iremos os quatro, a Estocolmo, festejar o Nobel de José: um japonês nos atropelou. (…) PS: Para dizer toda a verdade, devo convir que os US$950,000 do Nobel cairiam muito bem no bolso de um romancista português ou brasileiro, pobres de marré marré”. Estava quando intelectuais como Susan Sontag os visitou em Lanzarote (1996). Ou quando se deram os encontros com Harold Bloom (2001) e George Steiner (2002).
Saramago estava no aeroporto de Frankfurt quando lhe comunicaram que “pela sua capacidade para tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas suportadas pela imaginação, a compaixão e a ironia” lhe era atribuído o Prémio Nobel da Literatura. No dia 8 de Outubro de há dez anos. O escritor quer continuar a ser o cidadão comprometido que sempre foi: “O Nobel dá-me a oportunidade de ser mais eu”. Em 2004 dirá: “Sim, tenho o Nobel, e quê? Nada mudou”. E por isso não é estranho que durante o banquete, na Suécia, tenha denunciado o incumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Foi nomeado, agraciado, reconhecido. Filho adoptivo desta e daquela cidade, sócio honorário deste e daqueloutro clube, honoris causa de mil e uma universidades. Recebeu medalhas, condecorações, títulos. Uma imensidão. Quais o terão tocado? Alguns exemplos: Leitor Emérito da Biblioteca Nacional. O Grande Colar da Ordem de Santiago, até aí reservada apenas a chefes de Estado. “Ensaio sobre a Cegueira” foi adaptado por Fernando Meirelles e abriu o último Festival de Cannes. A exposição “A consistência dos sonhos” mostrou numa sequência cronológica a sua vida, primeiro em Lanzarote, depois em Lisboa. Reconciliou-se um pouco com o país. Sócrates disse-lhe: “Gostamos muito de si”. Ele respondeu um “obrigadinho” sentido.
Há uns meses, regressou à ilha. A casa. Escreveu um romance cuja ideia é antiga. “A Viagem do Elefante” é um livro que podia não existir. Há um ano, não se acreditaria que ele existisse. Mas está pronto a sair. Terceiro milagre."

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hoje, tal como ontem, há 16 anos atrás...


José Saramago - Discursos Estocolmo - Português

Publicado por Fundação José Saramago
Discursos proferidos por José Saramago a 7 e a 10 de Dezembro de 1998, por altura da entrega do Prémio Nobel de Literatura, pela primeira vez atribuído a um escritor de língua portuguesa.


(Artista Bo Larsson
Caligrafista Annika Rücker)

“O Mago que era Mestre” a minha homenagem ao Mestre José Saramago - Evocação dos 16 anos da entrega do Prémio Nobel

Texto poema, escrito para assinalar o 16.º aniversário
Da cerimónia de entrega do prémio Nobel
Na Academia Sueca



“O Mago que era Mestre”

Não roubei palavras, as palavras nunca têm dono
Todos somos donos de todas as palavras
Uso-as como retratos do meu ser
Às vezes peço-as emprestadas
Outras vezes são-me oferecidas
Um dia, lá longe, tão longe, tão longínquo
Que da memória apenas guardo um afago
Um mago bateu à minha porta
Deixei-me abrir, abri a porta, como teria aberto antes
Abrirei se assim voltar a acontecer
Estupidamente não perguntei quem era, como que já o esperasse
Estupidamente não perguntei ao que vinha
Deixei-me abrir assim a porta, como quem abre o coração da sua casa
Ele não estava, estando, não estava
Não bateu só à minha porta
Não iria bater só à minha porta
O mago seguia o seu caminho
Por cada porta que passava, batia três vezes
Três vezes, como os antigos carteiros faziam para anunciar as novas que traziam
Quando abri a porta, o mago já ia longe
Percebi-lhe a sombra, caminhava, seguia
Percebi que a sombra de um homem é tão grande, quanto ele a possa imaginar
A sua sombra caminhava e crescia 
O mago seguia o seu caminho, caminhava, caminhando
Deixava as suas palavras
Colocava-as à beira de cada porta com cuidado
Não eram peças que pudessem ser arremessadas
Algumas portas estavam fechadas, numa eternidade enclausurada,
Eternamente cerradas em si
Nem toda ou qualquer pessoa está precisada de palavras
Nem toda a gente, debaixo da sua própria sombra, procura palavras
Muitas portas ficam fechadas
Muitas portas ignoram
Muitas portas procuram ficar fechadas para sempre, com suas janelas quais com olhos fechados
Janelas fechadas com mentes inertes, imóveis e estanques no que são
Alguns vêm à porta, escutar se os passos já foram, ignorando que as palavras podem ser mudas
Outros abrem a medo o postigo
Não raros, entreabrem a porta presa por uma corrente, não vão as palavras assaltar sem avisar e invadir esses antros receosos
Incautos e surpreendidos, muitos barram passagem à espuma das palavras
Essas, que de umas, trazem companhia, outras e mais outras, e mais e mais que se aproveitam
Ouvem-se portas bater
Que batam, quem das palavras não aprouver necessidade
Que batam, quem medo tenha de novas palavras
Que batam, por deseducação
Que batam, porque sim, e por distracção 
Ouvem-se portas bater
Confusos por não estar ninguém, que estando, deixava cuidadosamente as suas palavras
Uns que ainda as aproveitavam, outros nem tanto
Tantas palavras que assim esmoreciam e esfumavam, regressariam ao caminhante, talvez
Aqui e ali, pelo caminho fora, observa-se que muitos,
Muitos, mas muitos, tantos, mais do que o mago previra ou iria algum dia vir a prever 
Seguem o mesmo caminho
Colhendo-as, como que, quais pardais que esmiúçam as migalhas do chão

Tantos que seguem esse caminho
Também existem homens e mulheres, que com palavras dadas procuram outros significados
Mais significados para as respostas já dadas
Mais significados, que descobrem novas perguntas
Que buscam mais certezas para avolumar às suas incertezas primeiras
Que dos pesadelos das terras áridas buscam novos sonhos
Mas que mago será este, será mesmo um mago?
Se as suas palavras entregues a quem as aprouver não têm respostas
Não dará um mago a resposta a todas as perguntas?
Se as suas palavras depositadas mais perguntas levantam
Dizem que ouviram perguntar – para quê e o porquê de mais perguntas?
Não bastava já as que os idos tempos ainda não tinham resolvido
Mas que mago será este?
Quando os que abriram as portas, que das entranhas sopram urgência de respostas
Quando os que desorientados procuram novos sentidos e indicações que façam sentido
Um dia, lá longe, de tão longe, tão longínquo
Que das memórias guardo apenas um afago
 Tive a sorte de me baterem à porta
Tive a necessidade de procurar palavras
Muitos de nós tivemos a sorte de nos bateram à porta
Terríveis palavras, tormentas e atormentados
Cruas verdades, para os que se levantam do chão e das suas terras
Mais palavras para os que tentam construir “empresas” maiores que as suas capacidades,
Recordando de igual forma, os tempos dos caminhantes marítimos que empreendiam viagens longínquas
Viagens quem prometiam descobrir novos horizontes promissores 
O mago caminha, vai caminhando, altruísta, o caminho que o escolhia para que seus passos o seguissem
Não pedia que o seguissem
Não assobiava para se anunciar
Não havia qualquer murmúrio de chamamento
Não há memória que alguém testemunhasse 
O mago será mago?

Estranhamente o mago não era mago, que o sendo, não era
Não era feiticeiro, nem paladino, nem profeta de outras causas gastas
O mago que não era mago, abominava as outras palavras, as palavras que anunciavam as certezas
Seguia o seu caminho
Seguia… não carregava paus, cruzes e amuletos,
Seguia…  tocava às portas, e não estando para quem as abrisse, estava
Ouviram dizer muitos murmúrios sobre o mago
Ouviram dizer que o mago procurava que as pessoas saíssem debaixo da própria sombra e se libertassem
Abandonassem a caverna dos sentidos ensombrados onde se permitiram mergulhar
Sabe-se lá quantos são, os amarrados e mergulhados nesse assombro
Ouviram dizer, que alguns tinham visto um belo sol, tão belo, quanto aquele sol que se vê pela primeira vez
Outros tinham sentido um sol tão forte, como aquele que nos aquece a alma
Ou que o sol luminoso, tão luminoso como aquele que nos obriga a tapar o olhos com os dedos entreabertos 
Quanto sol seria necessário existir para que as pessoas o pudessem vislumbrar por cima das suas sombras
Houvera também quem tivesse dito que o vento que varre as folhas das árvores
Esses ventos fortes, tão fortes, poderiam não ser suficientes para abanar as consciências nubladas
Eólo poderia soprar eternamente, mas poderia não bastar para esta gesta
Mas o mago não trazia nenhum sol
Mas o mago não colocava nenhum floco de luz ao lado das palavras depositadas
O mago não deixava correr nenhum vento, maior que aquele que soprava na rua
Iluminava a alma de muitos sem anunciar a luz
Soprava a consciência de outros tantos sem lhes soprar 
Tocava à porta três vezes como os carteiros ainda fazem para anunciar as novas
Deixava as palavras a quem as procurava
Deixava palavras a quem por assombro as pudesse recolher
Deixava um trilho já caminhado a quem procura um novo sol
Que das sombras das casas fechadas, as janelas pudessem ser finalmente abertas de par em par
O mago batia às portas e seguia
As mentes que se agigantavam de novo, agora maiores que a sua própria sombra
Os medos que não desapareciam, mas que eram enfrentados
As consciências que subiam das cavernas
As sombras que subiam chaminés e trepavam muros intransponíveis
As sombras que eram obrigadas a desvanecer e a criar corpo
O mago, que mago será este?
Aqui e ali ia trazendo pessoas a uma nova luz a um novo sol
Sem querer ia destapando buracos de onde emergiam sombras
Outros que iam somando a mais alguns
Havia palavras havia luz
Havia perturbação havia inquietação
Inquietos que procuravam novas palavras
Iluminados que assumiam novas inquietudes
Qual legião de desassossegados brotavam das suas almas
Um dia, depois de muitas portas ter batido
Regressou, regressou… o caminho devolveu-lhe o regresso
O caminho conduziu-o pela tal encosta acima
O mago que não era mago, foi obrigado a pausar o seu passo de caminhante
O mago que não era mago, conduzido, regressou ao seu espaço
Sentou-se numa pedra, perto da sua Oliveira, ainda apanhando um pouco da sua sombra
Sua que não sendo, porque as árvores são como as pedras, e as pedras não são de ninguém 
Mas o mago pedia este espaço emprestado e dele ser servia
Os seus olhos apontavam o horizonte, para lá, muito para lá, 
Um horizonte, para lá de onde os nossos olhos alcançam
Aí é o horizonte, o lugar para onde enviamos a nossa mente quando buscamos um local para pensar
As pernas cansadas, de tanto percorrer caminhos
Os pés, doridos de tantos sulcos terem cavado pelas terras que pisaram
As mãos, essas pobres coitadas, poderiam estar esvaídas em sangue de a tantas portas terem batido
A sua Oliveira, porto de abrigo, como se de uma jangada tratasse
A sua Oliveira, que tão torcida estava, abria largas pernadas disformes
Desde tempos, que o tempo deste mago desconhecia, que já as suas raízes tinham cavado as terras fundas
Cada vez que o mago, aqui tornava
Cada vez que o mago por aqui passava
Aproximava-se da Oliveira e abraçava-a
Era assim que o mago pensava sentir o mundo, o pulsar das gentes e das terras
Seria aqui, que o mago que não era mago, vinha buscar mais palavras?
A árvore que sempre esperava o seu abraço, mesmo que o não pudesse esperar
Por um momento, tudo se fundia num só sentido, num sentir diferente
O homem, a sua árvore, a sua pedra… todos seus e uns dos outros
 As raízes da Oliveira, que sentem o pulsar do sangue bombeado
Os braços do mago que asfixiam o tronco, se mais pudessem, para sentir a seiva desta raiz profunda
Assim era desde que há memória, e que alguém estivesse presente para agora testemunhar
Mal o mago se pôs a caminho, que assim passou a ser
Desta vez, o mago pausou antes, a urgência impunha que se sentasse na pedra
Desta vez a árvore não foi abraçada
Este homem que habitualmente aqui passava para abraçar a Oliveira, desta vez, sentou-se
Simplesmente, unicamente, sem mais olhares para mascarar o remorso
Foi a pedra, cuja face estava enterrada no chão, sentiu a urgência de quem lhe chegava
A urgência tem um sentir diferente, o frio marmóreo 
Nada vibrava, nada tremia, faltava a energia, faltava a pressa de quem se lhe apoiava para descansar entre jornadas
Desta vez, aqui chegado, o mago que não era mago, não tinha urgência de seguir
Teria perdido a impaciência de retomar caminho
Naquela rua, naquela qualquer rua, o mago não bateu três vezes à porta
Naquela rua, lá longe, a gigante sombra do caminhante não está seguindo
Naquela rua, onde os cães não ladram, agora poisam as suas cabeças em cima das patas
Naquela rua, ali mesmo, os cães deixam cair lágrimas
Ali, como em todas as outras ruas, onde alguns tinha aberto a porta
Onde alguns recolheram palavras depositadas
Onde alguns, espalhados por todas as ruas
Abriram as suas portas e janelas, deixando entrar a luz que de lá de fora aprouvera existir
E desta vez, o mago que não era mago, não pôde testemunhar
Não testemunhou as portas e janelas abrindo, como se fossem peças de dominó, caindo, umas atrás das outras
A luz que entrava pelas portas dentro, a luz que servia para iluminar as palavras depositadas
Hoje as palavras não foram deixadas
Hoje alguns não recolheram as palavras
Não foram depositadas palavras emprestadas, para novas perguntas fazer amanhecer
Hoje, alguns, os que sentiram necessidade de abrir a porta,
Os outros, que entretanto, chegando e aproximando aos poucos, destes alguns
Largaram um suspiro ao vento
Largaram ao sopro do vento, uma força para que pelas terras pudesse empurrar novos ventos
Largaram um suspiro que levantasse todas as palavras semeadas
Palavras ditas, agora murmuradas entre lábios fechados, sussurrando pelos caminhos da sombra do mago
Um murmúrio silencioso e abafado ecoava
Tal não é a força do som do silêncio
O mago que não era mago, sentiu ao longe, tão longe, os murmúrios que ecoavam
A aragem que não era uma brisa, deixou de ser aragem
A brisa que não era vento, deixou de ser uma brisa
O vento que não era vento, era outra coisa
O mago que não era mago, adivinhava a chegada, sentia um regresso
Regressou, chegava até si…
Lá em baixo, os juncos e as canas oscilavam e adornavam junto ao riacho
Regressou, subia até si…

Era a hora, tinha chegado a hora
O mago que não era mago, levantou-se, ergue-se sobre si
Dos seus pés nascia uma sombra, uma sombra que o acompanhava, sua companheira
A sombra com que muitos homens e mulheres se sentiam encaminhados
Esta sombra que nascia dos seus pés, regressava também
A sua sombra que sempre abriu caminho para novas palavras
A sua sombra que sempre abriu novos caminhos a outras perguntas
Regressava agora ao tamanho do seu mundo
O mago que não era mago, que não o sendo, era
Erguido sobre a sua sombra que o ampara
Da algibeira retirou o coto, aquele que ontem teria sido o lápis com que ia depositando as palavras
Este coto depositado em cima da pedra, que aqui ainda se agiganta através da sua sombra
Da mesma pedra sentinela, de onde se contemplava o horizonte
Agora esta pedra, que deixará de observar o ali, lá longe, será guardiã do lápis que teria oferecido palavras
A sombra regressou ao tamanho do homem
O seu a seu dono, o lápis e a réstia de grafite em cima da pedra
A sombra regressada, fraca e assustada com a finitude do caminhante
O seu a seu dono, o mago que não era mago, era tornado mestre,
De mestre vestiu tal pele durante a vida
O mago que era mago, pela força da sua sombra que abraçava os homens e mulheres que escolhiam abrir as suas portas
O mago que caminhava, e que a sua sombra tantos caminhos teria desbravado para novas perguntas 
O mago que batia três vezes à porta, depositava cuidadosamente as palavras e seguia a sua sombra
O mago que se sentia mestre
O mestre erguido, dobrou-se e apanhou com as duas mãos um punhado de terra negra
Terra que é o princípio e o seu fim
A terra, a mãe original de todos nós e onde acabamos por ficar
Levantou as mãos e lançou ao ar o punhado de terra negra
Lançou ao vento, ao vento que era a força das vontades, estes grãos de terra
O vento carregado de murmúrios e de palavras ditas em silêncio
As palavras empurradas pelo vento, abraçavam agora cada grão de terra
Os ventos aqui chegados, com suas línguas melancólicas, deixaram cair lágrimas
Cada lágrima caída, cada palavra abraçada, cada gota entornada como uma troca
O mestre que terra mãe tinha acabado de lançar
O mestre que erguido sobre a sua sombra, sentia tocar sobre si o afago de todos os homens e mulheres
O mestre que de pé, sentia as gotas abraçadas e entrelaçadas com palavras dentro,
Sabia da urgência que o tinha feito sentar naquela pedra onde jaz o coto do lápis
Os ventos que ali depositaram as nossas gotas sofridas de tantas perguntas
Os ventos que ali descarregaram as nossas lágrimas 
Estes ventos retornaram os mesmos caminhos
Os ventos regressaram com estas novas
O carteiro que também era companheiro deste mestre, que mago não era
Regressou depois de passar os ventos
Regressou à sua gesta de todos os dias, todos os dias batia três vezes a cada porta
Tinha chegado a hora,
Chegava o tempo em que a urgência esmorecia a sua pressa
O mestre aproximou-se da sua Oliveira, e abraçou-a
Abraçou esta sua amiga, abraçou o seu tronco nodoso 
Apertou sobre o seu peito, apertou e entrelaçou os seus dedos
Encostou a face, e deixou-a descair
Tanto para a Oliveira como para o mestre foram segundos de eternidade
Foi um tempo sem fim
Foi um momento em que as raízes sentiram o lento pulsar do mestre
Foi um momento em que o mestre sentiu a paz em que esta Oliveira sempre viveu
A eternidade estava de regresso 
A eternidade tinha poisado sobre este mestre
A eternidade tinha poisado sobre o mestre, discípulo da pedra e da Oliveira
A Oliveira enraizada e entranhada na terra mãe, que sempre espera o nosso regresso
O outro enraizado sobre a sua Oliveira, donde todas as palavras tinham sido colhidas
Sentado à sua beira
Desta vez não depositou palavras
Desta vez, simplesmente se despediu…

Um dia um menino, subiu este monte, e ao lado da Oliveira colheu uma flor
Disse … sentiu dentro de si…, disse estas palavras
Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam

(Escrito por Miguel de Azevedo)

Texto poema, escrito para assinalar o 16.º aniversário
Da cerimónia de entrega do prémio Nobel
Na Academia Sueca