Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 14 de fevereiro de 2016

"In Nomine Dei" Centro Andaluz de Teatro - Sevilha (Dezembro de 2007) e recuperação de entrevista com Azio Corghi (Público 14/07/2001)

Vídeo de apresentação, pode ser visualizada via YouTube, aqui

Vídeo de apresentação da peça de teatro "In Nomine Dei", 
representada no Centro Andaluz de Teatro - Sevilha, em Dezembro de 2007.
Direcção de José Carlos Plaza, em colaboração com o Teatro Nacional Dona Maria II.


Crónica de Cristina Fernandes para o jornal "Público" (14/07/2001), pode ser consultada aqui, 
em https://www.publico.pt/noticias/jornal/o-som-das-letras-159817

"A ópera "Divara-Água e Sangue", baseada no drama teatral "In Nomine Dei", de José Saramago, estreia em Portugal. Razão para uma conversa com Azio Corghi, o compositor que se deixou fascinar pela forma como o escritor habita a História e que tentou recriar a sua obra através dos sons.

Dez anos depois de "Blimunda", a ópera de Azio Corghi (n. 1937) baseada no romance "Memorial do Convento", de José Saramago, o público português terá finalmente a oportunidade de conhecer a segunda colaboração entre o compositor italiano e o Nobel português. "Divara-Água e Sangue", a partir do drama teatral "In Nomine Dei" terá a sua primeira apresentação na próxima terça-feira, dia 17, no Teatro Camões, em Lisboa, numa nova encenação assinada por Christop Nel. A produção original teve a sua estreia no Städtische Bühnen de Münster em Outubro de 1993, por ocasião do aniversário dos 1200 anos daquela cidade alemã, e resultou da encomenda de uma obra musical apropriada à ocasião e que evocasse acontecimentos históricos, neste caso as sangrentas lutas entre protestantes, católicos e anabaptistas ocorridas nos inícios do século XVI. Depois deste projecto, a união artística entre Corghi e Saramago tem-se mantido em obras de menores dimensões, como a cantata "Lázaro", inspirada em "Evangelho Segundo Jesus Cristo", já estreada no São Carlos, ou "Sotto l'Ombra", para voz recitante e conjunto instrumental, que será apresentada na próxima edição italiana do festival Sete Sóis, Sete Luas, assinalando o aniversário de José Saramago, no dia 17 de Novembro. 

Qual foi o seu primeiro contacto com a obra de José Saramago?
Foi em 1984 através de "Memorial do Convento", pouco depois de este ter sido traduzido e publicado em Itália, com grande sucesso. Senti-me muito identificado com Saramago, com as suas ideias, a sua visão do mundo, a sua grande humanidade, a sua relação com a vida e com a história... A História com "H" maiúsculo e a história com "h" minúsculo. Depois da leitura, tive uma espécie de iluminação: a de também poder habitar a História através da música. Consegui contactar com Saramago e ele acedeu a que o livro fosse convertido num libreto, com Blimunda no centro da trama. Foi a nossa primeira colaboração. A obra estreou no Scala de Milão e foi depois apresentada em Lisboa.O projecto "Divara" nasceu nessa noite, em Lisboa...Exactamente. Nasceu de uma conversa entre mim, José Saramago, Mimma Guastoni (directora da editora Ricordi) e o maestro Will Humburg. Humburg tinha sido recentemente nomeado director da orquestra de Münster. Aproximavam-se as comemorações dos 1200 anos da cidade e a ideia de uma nova ópera para integrar o programa das comemorações surgiu de imediato. Poucos meses depois, Saramago e eu fomos convidados a ir a Münster para ver a cidade e o seu museu. Nessa ocasião, tivemos a ideia de encontrar um argumento de raízes históricas e optámos pelo sanguinário episódio da luta entre protestantes, cristãos e anabaptistas. Estávamos em 1991 e não tínhamos ainda consciência de como este tema era actual. Em 1993, quando a ópera foi estreada, tinha entretanto começado a guerra na ex-Jugoslávia. Creio que a actualidade do tema contribuiu muito para o sucesso de "Divara", que foi reposta em vários teatros: no Festival Ferrara Musica, em Catânia, novamente na Alemanha... Vê-la por fim chegar a Lisboa é uma grande honra - sobretudo poder ver a ópera numa nova produção, o que para um compositor contemporâneo é muito raro e difícil. Estou muito curioso por ver o trabalho de Christop Nel. Na conversa que tive com ele, fiquei fascinado com a sua leitura. É uma leitura mais psicológica, bastante próxima das teses de Saramago do ponto de vista dramatúrgico. 

Qual a razão da substituição do título original do livro, "In Nomine Dei", por "Divara"?
A rainha Divara é uma personagem com pouco peso na história de Münster, mas nós tornámo-la importante. Saramago substituiu o seu eu narrativo pelos olhos desta mulher que vê toda esta violência, os jogos de poder, a destruição, a guerra, a imposição de uma ideologia. Tal como em "Blimunda", tratava-se de habitar a História através de uma personagem feminina, que diz grandes verdades. É muito significativa a frase que ela profere antes de morrer: "Senhor, quando dirigirás directamente a palavra a nós mulheres em vez de falares através da boca dos profetas?" Esta ideia é também um ponto de referência em Saramago. É sempre uma personagem feminina que pode ver... Como Blimunda em "Memorial do Convento", ou Madalena em "Evangelho segundo Jesus Cristo". 

A escrita de Saramago sugeriu-lhe uma linguagem ou um estilo musical próprio?
Um dos aspectos que mais me fascinam em Saramago é a sua forma de habitar a História. Tentei também habitá-la com música, através da utilização de referências de outros tempos, de outros séculos. Uma das personagens que concebi - não sei se o encenador a irá manter...- é a do compositor Franz Liszt. Liszt usou um coral dos anabaptistas na sua monumental Fantasia para órgão ["Ad nos, ad salutarem undam"] e fez uma grande composição sobre o tema. Na minha ópera este tema insere-se em simultâneo com outros corais luteranos, mas também com referências irónicas a outras épocas, por exemplo, a "Don Giovanni" de Mozart, ou a "História do Soldado", de Stravinski. Utilizei estes temas como se fossem pedaços de História, tal como o faz Saramago. Por outro lado, a escrita de Saramago tem um fluir contínuo. Este sugeriu-me uma linguagem musical que fizesse uso de temas que se sobrepõem e que caracterizam as personagens. Não são propriamente "Leitmotivs" wagnerianos, mas estão em constante devir. É também uma linguagem que flui e que me permitiu afastar-me do tipo de ópera que escrevi antes, que tinha uma estrutura com formas fechadas, mais à italiana. No caso de "Divara", optei por um estilo de derivação expressionista, ligado a um teatro muito forte, no qual a palavra tem um papel determinante. 

Tanto em "Divara" como em "Blimunda", não existem apenas cantores, mas também actores. Que critério usou para seleccionar as personagens que falam e as personagens que cantam?
Depois da estreia, muitos jornais escreveram: "As mulheres cantam, os homens falam." Os homens estão todos absorvidos pelas lutas de poder e por isso falam. As mulheres estão submetidas à violência. Para reagir, para exprimir a sua solidariedade, conseguem comunicar mais e melhor através do canto. Divara é a personagem que canta sempre. Só fala no fim, quando está prestes a morrer. No final, enquanto os homens se massacram, ressurgem todas as mulheres que sofreram, e cantam em conjunto: a mulher que reincarna Giuditta - que pensa matar o bispo, mas que afinal é morta - , a última mulher de Jan Van Leiden que é assassinada pelo marido diante de todos, a mãe que viu morrer os filhos... É uma ópera feita de guerra, poder, violência. As mulheres conseguem encontrar uma força de vida que provém da sua solidariedade. Há também uma forte denúncia desta violência. Divara é a única que não renuncia a nenhuma das suas ideias. É morta e torturada, mas não renuncia. 

Qual o papel da electrónica em "Divara"?
É muito importante. Por um lado, permite a utilização de microfones de modo a escutar-se bem as vozes dos actores em qualquer espaço. Por outro, permite usar novos movimentos de som no espaço em conjunto com a orquestra. A sua concretização dá-se em conjunto com a direcção do maestro. É um processo muito complexo, que necessita de muitos técnicos e músicos para a sua realização. Cinco anos depois de Blimunda a tecnologia tinha avançado muito, sobretudo no domínio da electrónica ao vivo, com a criação de sequenciadores que podem funcionar bem com os gestos do maestro e que me permitiram um trabalho mais apurado. 

A sua obra musical combina a mais avançada tecnologia com as referências ao passado. Como compositor, como encara a dualidade entre tradição e inovação?
Vivemos na era da globalização, da comunicação veloz, num mundo que muitos apelidam de "pós-moderno". Tudo o que acontece pode ser imediatamente conhecido noutro lado. A nossa cultura é continuamente posta em confronto com outras culturas, com outras visões do mundo. Tal como Saramago na sua escrita, penso que a minha forma de abordar a linguagem musical está bastante longe daquilo que há anos se chamava "coerência linguística". Ou seja: está longe da convicção de que a evolução da linguagem musical resultava de uma série de mutações que tendiam para o novo, para o que nunca se tinha feito antes. Hoje, isso não é possível. Há muita coisa nova, mas a inovação nas questões de linguagem já não pode colocar-se nos mesmos moldes dos anos posteriores a Darmstadt. Um som novo não significa nada fora de um contexto linguístico ou fora do uso que se lhe quer dar para comunicar. Hoje fala-se em contaminação, em relações com outras culturas. Nos EUA, isto é possível porque as culturas coexistem, convivem umas com as outras. Na Europa, é muito diferente, temos fortes raízes culturais com as quais devemos fazer a nossa história. Há que encontrar soluções de comunicação também no campo da música. Foi por este motivo que escolhi o teatro musical, porque esta é já uma forma contaminada, com vários géneros artísticos dentro. Sou um homem do meu tempo, a minha ambição é comunicar."

sexta-feira, 27 de março de 2015

Bibliografia Dramaturgica de José Saramago - Dia Mundial do Teatro

No Dia Mundial do Teatro, recupera-se via página da Fundação José Saramago, a identificação das obras publicadas e catalogadas no âmbito da Dramaturgia e/ou Teatro. Porém, não se pode esquecer que a riqueza da obra legada por Saramago, permitiu que, obras enquadradas em outros géneros literários, de onde se destacam os romances, contos e poesia, tivessem uma perfeita adaptabilidade na arte da encenação teatral. Deste facto, o "Memorial do Convento", e mais recentemente, "A Viagem do Elefante", ficam profundamente registados como magníficas obras literárias adaptadas ao teatro, demonstrando a versatilidade da escrita do autor. 

Aqui ficam as sinopses relativas à Dramaturgia, e que podem ser consultadas




"A Noite" - 1979
«Depois de ter feito jornais, escreveu sobre eles. Foi em “A Noite”, a primeira obra dramática de Saramago que o escritor dedica a Luzia Maria Martins, a pessoa que o “achou capaz de escrever uma peça”. Seria mesmo. A noite de que se fala nesta peça ficou para a história: de 24 para 25 de Abril. A acção passa-se na redacção de um jornal em Lisboa e autor avisa: “Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.” Nem outra coisa seria de esperar. A ironia passa também pela história desta noite em que administradores e redactores entram em conflito. Uns a gritar que a máquina “há-de parar” e outros a defender que ela “há-de andar”. Quando o escreveu, Saramago já sabia que, para o bem e para o mal, a máquina tinha continuado a andar. “A Noite” chegou aos palcos em Maio de 1979 pelo Grupo de Teatro de Campolide. Com encenação de Joaquim Benite e direcção musical de Carlos Paredes, a peça contava, entre outros, com a participação de António Assunção no papel do chefe de redacção Abílio Valadares.»

("A Noite", esteve em cena no palco do Teatro da Trindade)



"Que farei com Este Livro?" - 1980
«A pergunta é formulada por Camões, quase no final da obra, e o livro a que se refere não poderia ser outro se não “Os Lusíadas”. Que farei com este livro? Saramago decidiu fazer mais uma peça de teatro, uma obra cuja acção decorre em Almeirim e Lisboa, entre Abril de 1570 e Março de 1572, ou “com menor rigor cronológico, mas com maior exactidão, entre a chegada de Luís de Camões e Lisboa, vindo da índia e Moçambique, e a publicação da primeira edição de ‘Os Lusíadas'”. Entre personagens históricas também há lugar para os tais representantes do povo e para o escritor, todos a acompanhar a edição de “Os Lusíadas”. Ou de um outro livro qualquer. “Se eu fosse esmolar pelas ruas e praças talvez me dessem dinheiro para comer. Mas não mo dariam se seu dissesse que o destinava a pagar ao livreiro que me imprimisse o livro.” Foi Camões ou Saramago a dizê-lo?»

("Que farei com Este Livro?" encenado por Joaquim Benite, 
no Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada)



"A Segunda Vida de Francisco de Assis" - 1987
«”Grande sala. Ambiente geral discreto e severo. Mesa comprida, cadeirões, cofre, telex, vários telefones, um terminal de computador. (…) Está reunido um conselho.” Assim se entra no mundo da “política”, segundo José Saramago. “A Segunda Vida de Francisco de Assis” é mais uma incursão no drama, desta vez à volta de um tema bem actual: o capitalismo, a qualidade, as chefias, a política, as eleições, a bolsa, as valorizações e desvalorizações dos produtos e das pessoas. E uma luta entre a razão e a força. Estamos em 1986, já há computadores, mas muita coisa mudou. “As coisas já não são o que eram”, diz a certa altura uma das personagens. “Houve muitas mudanças e nem todas estão à vista. Algumas nunca saem daquele cofre. São as que convém manter em segredo. “E Francisco? Também mudou, claro. Nesta segunda vida, aprendeu algumas lições e aparece a lutar contra a pobreza. “É a pobreza que deve ser eliminada do mundo”, diz. Mais uma vez Saramago usa a ironia para fazer as suas críticas. “A pobreza não é santa. Tantos séculos para compreender isto. Pobre Francisco.”»

(as famosas capas amarelas)



"In Nomine Dei" - 1993
«”Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida?” Não faz sentido? “Se os cães tivessem inventado um Deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado do seu canino Deus? “Estas considerações podiam ser tomadas como ofensivas, mas José Saramago trata de se defender: “Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome de Deus – “In Nomine Dei” – para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso.” “Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana”, explica o autor. “Que o leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.”»

(encenação, Sevilha 2007)



"Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido" - 2005
«Partindo da ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido em que Don Giovanni é condenado aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, José Saramago, em Don Giovanni ou O dissoluto absolvido reanaliza o mito: será Don Giovanni culpado? E o Comendador, e Dona Ana, e Dona Elvira, e Don Octávio? Serão um modelo de virtudes? Onde está a culpa? Onde está a virtude? Onde está a hipocrisia?»

(capa edição brasileira, Companhia das Letras)


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dados biográficos de Azio Corghi e sua frutuosa colaboração nas obras de José Saramago



Azio Corghi

Referência a Azio Corghi, no jornal El Pais (Espanha)

"El escritor José Saramago estrena en Alemania una ópera sobre el integrismo religioso"

de Stefan Scheuermann, Munster (2 de Novembro de 1993)

"La opera Divara, agua y sangre, con partitura del compositor italiano Azio Corghi y libreto del portugués José Saramago se estrenó el pasado domingo en el teatro Stdtische Bühnen de Münster (Alemania). Basada en la obra teatral del escritor titulada In nomina Dei, gira en torno al integrismo religioso y la tolerancia, basándose en el movimiento anabaptista que pretendió establecer el imperio milenario de Sion en la ciudad de Münster entre 1534 y 1536. La obra ha sido realizada por encargo de la pequeña capital de Westfalia que celebra este año su 1.200 aniversario.

Se trata de la segunda colaboración de Saramago con Corghi, cuyo primer trabajo al alimón fue la opera Blimunda, basada también en una de sus novelas, Memorial do Convento, estrenada en la Scala de Milán y que obtuvo muy buenas críticas. El estreno de Münster al que asistieron compositor y libretista, puede ayudar a la promoción de la obra del escritor portugués en Alemania.Como viene siendo habitual en la obra de Saramago, que se define como un comunista ateo que "no ha tenido nunca una crisis religiosa y por tanto vive tan feliz como cuando nació", de nuevo en Divara se dedica a un tema religioso. Si hubo una pregunta inquietante en la Europa de principios del siglo XVI fue cuál era la manera más cómoda de pasar al otro mundo. Los nombres de Calvino o Martín Lutero aún permanecen en la memoria popular. Pero hubo cientos de teólogos, profetas y visionarios que anduvieron pescando almas por Europa. En 1527, uno de ellos, Melchor Hoffmann sembró la semilla del reformismo en la zona de Münster. La historia de sus seguidores, los anabaptistas, se presta como pocas a la dramatización, lo que han hecho autores como Emst Bloch y Friedrich Dürrenmatt, entre otros.

Dos líderes anabaptistas, Jan Matthys, el teórico, y Jan van Leiden, el rey de la nueva Jerusalén, establecieron en Münster un sistema colectivista, sin propiedad privada, en el que se practicaba la poligamia y el amor libre y en el que la única ley era el Evangelio. El personaje más interesante sin embargo, fue la mujer de Van Leiden, Divara, una magna mater que ha acaparado la atención de todos los que han escrito sobre aquel acontecimiento, ya que encarna a un pacífico mundo femenino opuesto a la crueldad de los hombres. El experimento acabó muy mal, el gobierno degeneró en despotismo y el redentor en dictador. Finalmente, las tropas del obispo de Münster acabaron con "la nueva Jerusalén" y en una matanza escalofriante, ejecutaron a centenares de herejes, restableciendo el orden tradicional.

Tragedia con banda sonora

La versión operística de Saramago-Corghi de esta apasionante historia, sin embargo, no aporta nada nuevo, quedándose en una tragedia con banda sonora en mal estado. La orquesta, bajo la batuta de Will Humburg y apoyada por sonidos pregrabados y numerosos altavoces, se limitó a emitir sonidos y ruidos. Los cantantes, entre largos recitativos, agudos extremos y numerosos gritos, arriesgaron la integridad de sus cuerdas vocales y la de los tímpanos del público. Hay una clave, que el propio Corghi explica en el programa de mano: la nota re simboliza a Cristo, mientras la es la muerte. El aficionado erudito provisto de un oído ejemplar podrá sumergirse en los problemas existenciales que nos azotan, pero alguien menos capacitado se queda con el susto provocado por los constantes cambios entre fortisimos y pianisimos o los efectos especiales, como la extracción de filetes del cuerpo del Rey de Jerusalén. La sofisticada puesta en escena de la ópera desconcertó al público."


Parte de interpretação, via Youtube
"Cruci-Verba" di Azio Corghi - 2012
per voce recitante, coro e orchestra
Orchestra della Svizzera italiana
diretta da Enrique Mazzola
voce recitante: Sonia Bergamasco


Biografia de Azio Corghi, via "Casa Ricordi",
em http://www.ricordi.it/catalogue/composers/azio-corghi/

"Azio Corghi was born at Cirié, near Turin. Until 1950 he divided his studies between those of painting and music. In 1956 he enrolled at the Conservatory of Turin, where he attended the classes of piano and music history held by M. Zanfi and Massimo Mila respectively. In 1962 he moved to Milan and attended the Conservatory of Milan, studying composition, choral music, conducting (choral and orchestral) and vocal polyphonic composition with Bruno Bettinelli, A. Bortone, A. Votto and G.Farina respectively. In 1967 he won the Ricordi-Rai competition with his Intavolature, which was performed at La Fenice in Venice. He taught at the Conservatory of Turin, then at the Conservatory of Milan. In 1973 the Fondazione Rossini of Pesaro and Casa Ricordi entrusted him with the preparation of the critical edition of Rossini’s L’italiana in Algeri. For the 1989-1990 season Blimunda, an opera with a libretto by the composer and José Saramago was staged at La Scala. A jury chaired by Goffredo Petrassi awarded him the “Omaggio a Massimo Mila” prize for his teaching activities. For the Rossini bicentenary he composed Suite dodo, after Rossini’s Péchés de vieillesse, while his ballet “un petit train de plaisir” was performed in Pesaro and broadcast live throughout the world. On 31 October 1993 Divara (“Wasser und Blut”), a music drama with a libretto by the composer and Saramago, was staged in Münster. He was appointed academician of Santa Cecilia, coordinator of the courses and professor of composition at the Accademia Petrassi. On the invitation of the 2nd “Umberto Micheli” International Piano Competition he composed the concerto study “...ça ira!”. For the Donizetti centenary celebrations he was commissioned to transcribe some ariettas from Nuits d’été à Pausilippe. Ona commission from La Scala, he composed Tat’jana, an opera based on Chekhov. In 2000, on a commission of the Rai Orchestra, he composed Amori incrociati, after the Decameron in a version by Aldo Busi. In 2001, for the Städtische Bühnen Münster he wrote Cruci-Verba, a reading and comment from Saramago’s Gospel according to  Jesus Christ on Liszt’s Via Crucis. For the Bellini centenary he composed “...malinconia, ninfa gentile” for the Teatro Massimo Bellini in Catania. The Accademia di Santa Cecilia chaired by Luciano Berio commissioned him to write De paz e de guerra, on a text by Saramago. On 8 July 2004, on a commission from the Accademia Chigiana, his ¿Pia?, a music-drama dialogue freely based on Marguerite Yourcenar’s Dialogue in the Swamp was produced at the Teatro dei Rozzi in Siena. In 2005 he wrote Il dissoluto assolto, a one-act piece of music theatre with a libretto by himself and Saramago, a co-production of the Teatro San Carlos of Lisbon and La Scala in Milan. On 29th January 2007 Filarmonica della Scala, conducted by Riccardo Chailly, world premiered Poema Sinfonico, a piece commissioned for the 25th anniversary of the orchestra. The Ensemble Punto It, to commemorate the 500th anniversary of the birth of Andrea Palladio, commissioned him Giocasta. The opera  is a reinterpretation (from a modern perspective in the libretto by Maddalena Mazzocut-Mis) of Sophocles’ Oedipus Rex, the tragedy that was performed in 1585 (with music by Andrea Gabrieli) to inaugurate the Teatro Olimpico and in this venue the opera took place on 19th June 2009."

sábado, 3 de janeiro de 2015

"In Nomine Dei", de José Saramago, Sevilha, 2007

"O Senhor deteve no ar a mão da Sua justiça e a Sua voz disse: «Apressai-vos porque o tempo do sangue é chegado, já se ouve a lâmina do cutelo rangendo na pedra de amolar, o terror faz correr os animais condenados, mas o Meu braço os alcançará onde quer que se acolham, nem antes nem depois da hora marcada por Mim no princípio dos tempos»."

Voz de Matthys, apóstolo anabaptista
Segundo acto, quadro 1
"In Nomine Dei", Caminho, 3.ª edição, página 63

"Vídeo de apresentação da peça de teatro "In Nomine Dei", 
representada no Centro Andaluz de Teatro - Sevilha, em Dezembro de 2007.
Direcção de José Carlos Plaza, em colaboração com o Teatro Nacional Dona Maria II.
Link da apresentação, na voz de José Saramago, 

"In Nomine Dei" é uma peça de teatro de José Saramago, lançada em 1993. A acção decorre na cidade alemã de Münster, entre maio de 1532 e Junho de 1535. Retrata a história, baseada em factos reais, das lutas entre Protestantes e Católicos. Neste peça, Saramago expõe todo o seu potencial enquanto romancista, levando ao limite a linguagem das personagens, numa acção intensa capaz de prender o leitor do inicio ao fim. "


Sinopse da obra "In Nomine Dei"
Caminho, 3.ª edição, página 9

«”Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida?” Não faz sentido? “Se os cães tivessem inventado um Deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado do seu canino Deus? “Estas considerações podiam ser tomadas como ofensivas, mas José Saramago trata de se defender: “Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome de Deus – “In Nomine Dei” – para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso.” “Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana”, explica o autor. “Que o leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.”»