Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 24 de julho de 2016

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" de Isabel Coutinho (jornal Público - 22/07/2016)

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" - de Isabel Coutinho (jornal Público, 22/07/2016)

"Na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, 
com os portugueses que estiveram na última edição, lançaram-se ideias para o futuro."

O artigo de Isabel Coutinho, publicado no jornal Público, pode ser recuperado e consultado aqui em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-casa-portuguesa-na-flip-de-paraty-1739162

A sessão na FLIP em que participou Ricardo Araújo Pereira
Fotografia: Walter Craveiro / FLIP

"A ideia de propor que o escritor homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) seja, no próximo ano, o Prémio Nobel português José Saramago (1922- 2010) ou, caso isso não seja concretizável, conseguir pelo menos que haja uma Casa Portuguesa José Saramago durante o evento em Paraty, foi anunciada na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, que no final da tarde de quinta-feira decorreu na Fundação José Saramago, em Lisboa, e reuniu alguns dos portugueses que estiveram na 14.ª edição do festival, no final de Junho.

“Era bom até que ao mais alto nível se montasse uma estratégia para se ter uma embaixada na FLIP e ali apresentarmos a nossa cultura”, lançou Paulo Ferreira, consultor editorial da Booktailors, que pediu permissão a Pilar del Río, da Fundação Saramago, para revelar ali a ideia que tinham tido em Paraty, onde estiveram pela primeira vez na festa literária que é a referência nos festivais de língua portuguesa e não só. “Uma casa José Saramago que sirva de montra do que se faz na literatura portuguesa" e que ajude à relação entre os dois países, acrescentou Tito Couto, também da Booktailors.

José Saramago nunca participou na FLIP,  apesar de ter sido convidado para ir a Paraty. Mais tarde, no ano em que morreu, em 2010, a festa literária brasileira homenageou-o numa das suas mesas, apresentando em estreia excertos do documentário José & Pilar e uma conversa com o realizador Miguel Gonçalves Mendes. Nessa altura Pilar voltou a ser convidada mas considerou que “era demasiado cedo” e não foi.

Este ano a presidente da Fundação Saramago participou na programação paralela da FLIP a convite da Casa Cais, da cantora e produtora brasileira Luana Carvalho. Tal como participaram a jornalista Anabela Mota Ribeiro e o escritor José Eduardo Agualusa, que estiveram no evento na condição de curadores do Folio- Festival Literário Internacional de Óbidos, que vai ter a sua segunda edição de 22* de Setembro a 2 de Outubro. O festival português estabeleceu uma relação com a Casa Cais que virá depois ao Folio com uma embaixada que trará Luana Carvalho e ainda a poeta carioca Alice Sant'Anna, o músico Pedro Sá e uma exposição do músico e artista visual Domenico Lancellotti que estava na casa em Paraty.

"Foi estupendo ter ido este ano", disse Pilar del Río que mesmo antes de partir já entendia a FLIP como algo muito português, não só pela cobertura na imprensa, como pelos relatos das pessoas que por lá passavam. " Paraty parecia profundamente português, embora estivesse do outro lado do Oceano. Era como se fosse algo nosso." No entanto foi uma surpresa. "Por um lado reúnem-se milhares de pessoas por causa da literatura. Por outro, é um projecto económico, cultural, um projecto de moda" com o qual podemos  aprender muito e ver como promover literatura ou produtos culturais em Portugal.

A editora da Tinta-da-China Bárbara Bulhosa, que já assistiu a cinco edições da festa, todos os anos contrata algum autor que descobriu em Paraty. A editora, que está também a publicar no Brasil, acaba de lançar especialmente para aquele país a colecção Grandes Escritores Portugueses, que se iniciou com Os Passos em Volta, de Herberto Helder, Breviário do Brasil, de Agustina Bessa-Luís, e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Antero de Quental. E outros autores, como Eduardo Lourenço, se seguirão. O projecto é financiado pelo Instituto Camões, pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e pelo Turismo de Portugal, o que lhe permite não perder dinheiro. 

“Enquanto editora, foi fundamental a ida à FLIP, porque no primeiro ano em que abri a Tinta-da-China Brasil a Dulce Maria Cardoso foi a autora portuguesa convidada. Vendemos muitos livros e foi muito importante para a editora”, explica. Seguiram-se Almeida Faria, Alexandra Lucas Coelho, Matilde Campilho (que no Brasil tem outra editora) e, este ano, Ricardo Araújo Pereira. Apesar de a festa concentrar naqueles dias grande parte da elite intelectual brasileira, Bárbara lembrou que é composta de "público que lê" e de "público que sabe que há ali uma festa". “A organização não é elitista” e “somos sempre muito bem recebidos”.

Tito Couto lembrou que “falamos da FLIP como se fosse um festival”, mas na realidade “são 15 festivais”, além “da programação oficial com espaço próprio, a Tenda dos Autores, com centenas largas de pessoas e cá fora outras tantas a assistir pelos ecrãs”, e “na própria cidade há umas quinze casas” geridas por editoras, jornais ou associações de editoras que também têm programação de manhã à noite, com debates sucessivos. “As casas estão cheias com plateias de 40 a 50 pessoas, é-se completamente submerso em ofertas de debates do mais variado tipo. A própria atitude de quem vai para a FLIP está mais próxima do ambiente dos Santos [populares] do que de um festival literário.”

Ricardo Araújo Pereira como convidado deste ano, entre a Prémio Nobel da Literatura, Svetlana Alexievich e o norueguês que vendeu milhões de livros, Karl Ove Knausgård, achou que é bizarro estar lá ao lado deles. Apesar de Anabela Mota Ribeiro que moderava a conversa ter dito que o humorista português “deu show de bola”, como diriam os brasileiros, este sentiu-se como se estivesse num daqueles puzzles que na Rua Sésamo se costumava apresentar às crianças com uma banana, uma laranja, um sapato e a pergunta: “O que está mal aqui?”: “A minha experiência é ser o sapato em todos os sítios em que estou”, fez rir a plateia Ricardo Araújo Pereira.

Mas é isso que atrai em Paraty, além de aquele lugar ser extraordinariamente bonito. “Há também uma coisa em Paraty que não encontrei em mais nenhum sítio, a expectativa de que as mesas, mais do que uma conversa entre autores que estão a falar das coisas que escrevem, seja uma performance: há a expectativa, no público e até nos jornalistas, de no fim se decidir quem é que cortou duas orelhas e um rabo, quem saiu vitorioso de uma espécie de contenda", diz o humorista.

 “Os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, sentimos isso também com as vendas que conseguimos”, diz Tito Couto. A empresa, que organiza acontecimentos literários, faz agenciamento de escritores e tem uma área de consultadoria para editores, está há cerca de um ano e meio com a estratégia de colocar os seus autores no mercado brasileiro, tendo conseguido a publicação de 13 autores portugueses naquele país, num total de 25 obras já lançadas ou a lançar durante o ano de 2017.

Na Companhia das Letras será publicado o Prémio José Saramago 2015, Bruno Vieira Amaral, com o romance As Primeiras Coisas bem como uma nova tradução de Frederico Lourenço - sabe-se apenas que se trata de uma das mais importantes obras da História - que será anunciada em breve, saindo primeiro em Portugal e depois no Brasil. Também Teolinda Gersão vai ver A Cidade de Ulisses e Os Anjos, na editora carioca Oficina Raquel, que já publicou Maria Teresa Horta, e onde Mário Cláudio irá também editar Retrato de Rapaz e O Fotógrafo e a Rapariga. Luís Aguilar, com Mourinho Rockstar, na Grande Área, e Jogada Ilegal, na Gryphus, editora que tem publicado vários livros de José Eduardo Agualusa. E Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida, na Rovelle. Noutras editoras serão publicadas ainda obras de Ana Cristina Silva, Maria Conceição Caleiro, Miguel Real, Joel Neto, Miguel Miranda e Pedro Vieira.

Corrigidas as datas em que se vai realizar o Folio, é a 22 de Setembro que se inicia o festival e não a 28"

terça-feira, 14 de junho de 2016

"Fundação José Saramago abre hoje na Casa dos Bicos para desassossegar" - Foi assim que Isabel Coutinho do jornal "Público" noticiou o evento (13/06/2012)

A Presidenta Pilar del Río e António Costa, na altura Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Fotografia de Enric Vives-Rubio

Foi assim que Isabel Coutinho do jornal "Público" noticiou o evento (13/06/2012)
O artigo pode ser aqui recuperado,
em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/fundacao-jose-saramago-abre-hoje-na-casa-dos-bicos-para-desassossegar-1550126

"Fundação José Saramago abre hoje na Casa dos Bicos para desassossegar"  

"Uma exposição dedicada à obra e à vida do Nobel da Literatura português, parte da sua biblioteca pessoal e a do amigo Vasco Gonçalves podem ser visitadas na Casa dos Bicos. Saramago está sempre presente.

As luvas brancas que Pilar del Río traz calçadas enquanto arruma a biblioteca na Casa dos Bicos, em Lisboa, foram usadas por José Saramago numa cerimónia honoris causa. Nestes dias têm ajudado a presidenta da Fundação Saramago a transportar caixas, pendurar quadros e organizar papéis neste edifício quinhentista da Rua dos Bacalhoeiros, que durante os próximos seis anos vai albergar a sede da instituição fundada pelo Nobel da literatura português. 

"Saramago usou-as durante uma cerimónia de um doutoramento honoris causa. Espero que a universidade não se importe... Ele não se importaria, porque estão a ser usadas para a sua obra", diz a viúva do escritor durante uma vista de jornalistas à casa que, em 2008, foi cedida à Fundação Saramago pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) por dez anos. Ali decorrem os últimos preparativos para a abertura ao público, marcada para hoje.

A cerimónia oficial de inauguração realiza-se às 11h30, com a participação do presidente da CML, António Costa. Por constrangimentos de espaço, é destinada apenas a convidados e à comunicação social, mas a Fundação José Saramago abrirá as portas ao público à tarde, entre as 14h e as 16h. 

Na cerimónia será apresentado um vídeo em que o autor de "História do Cerco de Lisboa" fala dos objectivos da fundação. Além dos discursos oficiais, falará o espanhol Fernando Gómez Aguilera, comissário da exposição "José Saramago. A Semente e os Frutos", que ocupa o primeiro andar da nova Casa dos Bicos, cujas obras de readaptação foram feitas pela dupla de arquitectos Manuel Vicente e João Santa-Rita.

A Casa dos Bicos, que tem uma importante jazida arqueológica a nível subterrâneo, abrirá todos os dias úteis das 10h às 18h e, aos sábados, das 10h às 14h. Em Junho, a entrada é grátis, depois passa a ser paga: o bilhete custará três euros para os portugueses e "entre cinco e seis euros" para os estrangeiros. A fundação vai viver dos direitos de autor da obra do escritor, que morreu a 18 de Junho de 2010, e do trabalho que se for fazendo nesta instituição, que assume como norma de conduta, nas suas actividades, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e que tem por missão dar particular atenção aos problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta. 

"Não temos qualquer outro apoio oficial e os tempos estão difíceis para conseguir mecenato. Por isso, o público vai ter de pagar entrada", explica Pilar del Río.

Parte da biblioteca pessoal de Saramago está agora guardada neste edifício, e será possível aceder ao resto dos seus livros (o essencial continua na sua biblioteca em Lanzarote), a partir de equipamento electrónico. A Casa dos Bicos tem ainda disponíveis áreas de trabalho para investigadores que estejam a estudar e a organizar o espólio. No terceiro andar, além da biblioteca e do auditório existe um espaço dedicado ao político e ex-primeiro-ministro português Vasco Gonçalves (1922-2005). 

A presidenta da fundação explica ao PÚBLICO que não irão existir outros espaços "porque José Saramago já não está cá para decidir, e também não caberiam mais". Saramago e Vasco Gonçalves eram amigos e o escritor respeitava muito o político e não queria que a sua biblioteca se dispersasse depois da sua morte. "Colaboraram juntos algum tempo, e José considerava-o um ser humano de uma qualidade extraordinária. Ele não queria que a biblioteca de Vasco Gonçalves - ainda por cima são os seus livros anotados - se dispersasse por respeito a um homem fundamental na revolução democrática e que foi muito mal interpretado por interesses muito concretos", afirma Pilar del Río.

No primeiro andar, Ana Saramago Matos, neta do escritor, está ocupada com os acabamentos da exposição "José Saramago: a Semente e os Frutos", que hoje abre ao público e que nasce da mostra "A Consistência dos Sonhos", que em 2008 esteve no Palácio de Ajuda em Lisboa, e também teve a curadoria de Fernando Gómez Aguilera, presidente da Fundação César Manrique, em Lanzarote. Essa exposição foi agora adaptada e ajustada ao espaço de exposições da Casa dos Bicos. A Semente retrata o início do percurso literário de Saramago, desde as suas origens na aldeia ribatejana da Azinhaga, com a evocação dos avós Josefa e Jerónimo, passando pelos anos de escrita jornalística e de militância cívica e política. 

A máscara de Beethoven

José Saramago costumava dizer que não se pode fazer nada sem se ter lido. Por isso a exposição inicia-se com as traduções que fez ao longo da sua vida, entre as quais a da obra "Ana Karenine". Os "frutos" referidos no título da exposição estão patentes nos manuscritos, nos livros em diferentes línguas e na consagração trazida pelo Nobel de 1998. A máscara branca de Beethoven de que se fala em Claraboia (Caminho) está pendurada na parede. Quando tinha vinte e tal anos, José Saramago passou por uma montra e viu uma máscara de Beethoven e não a comprou porque era cara. "O que é incrível é que aos setenta e tal anos Saramago foi a Bona, à cidade natal de Beethoven, encontrou a tal máscara e comprou-a", conta Pilar aos jornalistas entre as vitrinas com cadernos de notas, agendas em que o escritor organizava o dia-a-dia, cartas e fotografias com amigos de todo o mundo. Pode ver-se ainda a reconstituição do primeiro escritório onde Saramago escreveu, que era também um dos núcleos da exposição na Ajuda, e há equipamento de áudio com entrevistas, discursos e ainda vídeos. Tal como acontece na casa-museu em Lanzarote, a Casa dos Bicos tem uma loja onde os visitantes podem comprar livros de José Saramago em várias línguas e artigos com a marca da instituição.

A Fundação Saramago na Casa dos Bicos quer ser um centro emissor de ideias, debates, polémicas. "José Saramago dizia que escrevia para desassossegar. Nós estamos aqui para desassossegar também. Aquilo que as pessoas têm de encontrar aqui, e que temos de ser capazes de lhes dar, é o espírito de Saramago: nos papéis ou nos objectos que vão ver, mas também na dinâmica de trabalho e na programação que se faz", conclui Pilar del Río.

Notícia corrigida no dia 14/06 às 12h32, A Casa dos Bicos é um edifício quinhentista e não seiscentista

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sobre o arquivo da Biblioteca Nacional de Portugal - Texto “Depois de Ein­stein já não há por aí quem ouse”

“Na ver­dade, ninguém sabe para o que nasce. Nem as pes­soas, nem os livros”
Última frase que pode ser lida na imagem digitalizada

José Saramago doou algum do seu espólio à BPN, e que pode ser consultada nos links que se indica.


Esta crónica de Isabel Coutinho do jornal Público, foi publicada no suple­mento Ípsilon, do dia 2 de Julho de 2010, e pode ser aqui consultada através do link, 

"Numa carta de 22 de Março de 1994, José Sara­m­ago escrevia: “Um dia destes, com vagar, vou dar uma volta aos meus des­or­de­na­dos arquivos. Há car­tas, papéis, man­u­scritos que não tenho o dire­ito de con­ser­var como coisa minha, pois na ver­dade per­tencem a todos.” E pouco depois, entre­gou à Bib­lioteca Nacional de Por­tu­gal (BNP) a primeira parte da doc­u­men­tação que faz agora parte do fundo da BNP e que foi aumen­tada em anos posteriores.

Quem conta esta história é Fátima Lopes, do Arquivo de Cul­tura Por­tuguesa Con­tem­porânea, na nota explica­tiva que se pode ler na secção Colecção José Sara­m­ago da Bib­lioteca Nacional Dig­i­tal, no “site” da BNP. Foi por causa da exposição “José Sara­m­ago: a con­sistên­cia dos son­hos”, que esteve no Palá­cio Nacional da Ajuda, em 2008, que foi cri­ado o espaço ded­i­cado ao escritor.

A BNP con­siderou que con­tribuiria, com­ple­men­tar­mente, para a divul­gação dos méto­dos de tra­balho de José Sara­m­ago através da dig­i­tal­iza­ção dos man­u­scritos de sua auto­ria exis­tentes no Arquivo de Cul­tura Por­tuguesa Con­tem­porânea, escreve, por sua vez, o direc­tor da Bib­lioteca Nacional, Jorge Couto. “Neste con­junto destaca-se ‘O ano da morte de Ricardo Reis’ (edi­tado em 1984) quer pela importân­cia do livro no con­texto da pro­dução literária sara­m­aguiana, quer porque os mate­ri­ais preparatórios, incluindo uma agenda de 1983 adap­tada ao ano de 1936, per­mitem anal­isar a metodolo­gia adop­tada na elab­o­ração dos seus romances, bem como as cor­recções e aper­feiçoa­men­tos que intro­duzia nos dac­tilo­scritos, ao tempo em que ainda uti­lizava máquina de escr­ever”, acrescenta.

Esta agenda tem uma capa azul e foi escrita por Sara­m­ago a tinta azul, com risca­dos e sub­lin­hados a mar­cador verde. É de 1983 mas os dias da sem­ana foram emen­da­dos pelo autor para a fazer cor­re­spon­der a uma agenda de 1936.
Mas avisa a Bib­lioteca Nacional: “Con­tém ano­tações diárias reti­radas da leitura da imprensa da época, sobre a vida quo­tid­i­ana e política: boletins mete­o­rológi­cos, venci­men­tos de escrit­urários ou con­tín­uos, a falta de carne em Lis­boa, nomes de sabonetes e de pro­du­tos de cos­mética, falec­i­men­tos de fig­uras da cul­tura por­tuguesa ou estrangeira, espec­tácu­los de teatro ou musi­cais, com locais e preços, numerosas refer­ên­cias aos prin­ci­pais acon­tec­i­men­tos históri­cos ocor­ri­dos em Por­tu­gal, Espanha e tam­bém na restante Europa durante o ano de 1936, período em que decorre a acção do romance.”

No “site” os leitores podem per­cor­rer a agenda página a página (em PDF ou JPG). Estão lá tam­bém os apon­ta­men­tos de Sara­m­ago para a escrita do romance (onde se percebe como o livro era arqui­tec­tado pelo autor), uma “Biografia de Ricardo Reis” (onde se lê: “Não casou. Se teve amantes no Brasil, não as chega a ter depois de regres­sar a Por­tu­gal”); uma “Sín­tese (absurda, idiota, necessária) das odes de RR” e apon­ta­men­tos históri­cos de 1936. Está tam­bém disponível para con­sulta “O Embargo I e II” (dac­tilo­scrito com emen­das) e “As opiniões que o D.L. teve / José Sara­m­ago”, com­pi­lação de alguns dos tex­tos que ao longo de quase dois anos, 1972–73, foram pub­li­ca­dos por Sara­m­ago, anon­i­ma­mente, no “Diário de Lis­boa”. E ainda o autó­grafo assi­nado “Depois de Ein­stein já não há por aí quem ouse”, que ter­mina com a frase: “Na ver­dade, ninguém sabe para o que nasce. Nem as pes­soas, nem os livros”. Pois é.

Colecção José Sara­m­ago na BNP



domingo, 20 de dezembro de 2015

"José e Pilar Um filme cheio de vida" (Público 14/10/2010)

"José e Pilar Um filme cheio de vida", por Isabel Coutinho, aqui
em http://www.publico.pt/temas/jornal/jose-e-pilar-um-filme-cheio-de-vida-20399926


"Com o documentário Autografia/Um Retrato de Mário Cesariny, Miguel Gonçalves Mendes recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004. Regressa hoje ao festival com José e Pilar, o filme da sessão de abertura, já esgotadíssima, na Culturgest

Há uma certa escuridão naquele corredor do Museu Nacional de Arte Antiga, mas a câmara de Miguel Gonçalves Mendes aproxima-se e o espectador do documentário José e Pilar percebe que o homem que está a olhar para a vitrina da exposição Encompassing the Globe é o Prémio Nobel da Literatura português.

José Saramago, absorto nos seus pensamentos, contempla o banco que pertenceu ao arquiduque da Áustria, Maximiliano II, e foi feito com os ossos do elefante que lhe foi oferecido pelo seu tio, João III de Portugal. A peça, agora de museu, está ligada ao romance A Viagem do Elefante que Saramago escreveu durante os anos em que a câmara do realizador português entrou dentro da intimidade do Nobel e da sua mulher, Pilar del Río.

Pode ser visualizado aqui, via YouTube


Quando fez José e Pilar, Miguel Gonçalves Mendes tinha um objectivo: não dar aos espectadores a sensação que estavam a ver um documentário. "Não quis que fosse um documentário tradicional, com um lado pedagógico, a falar do homem e da obra", explica o realizador. Isso já estava feito em outros suportes (livros, reportagens de televisão, etc.). O que lhe interessava era contar esta história como se fosse uma narrativa clássica em termos de estrutura: "Um homem que quer escrever um livro, que adoece, que tem medo de não conseguir acabar o livro, mas consegue recuperar e não só acaba esse romance, como ainda tem uma ideia para outro."

Se no documentário Autografia/Um Retrato de Mário Cesariny, pelo qual Miguel Gonçalves Mendes recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, se sentia haver alguém a despedir-se, no sentido quase testamentário, em José e Pilar há sofreguidão de vida e de desejo de viver. "De José e de Pilar, aquilo que mais me fica é que a vida é só esta, ponto final. E, no caso de José, como ele diz, tudo lhe aconteceu demasiado tarde, há um caso de urgência." O escritor morreu no dia 18 de Junho de 2010 e o filme foi montado antes de ele morrer. "No dia em que morreu, jurámos a nós próprios não tocar em nada da montagem", conta Mendes. "Seria um processo suicida, íamos destruir o filme todo." Na altura, um amigo lembrou ao realizador: "Miguel, o filme é dos vivos para os vivos."

Um filme sem falsidades

"Eu tenho ideias para romances. Ela [Pilar] tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante", diz a determinada altura, brincalhão, José Saramago. Mas é claro que sabia. Miguel Gonçalves Mendes acompanhou o casal por vários locais do mundo durante mais de três anos, tem filmadas cerca de 240 horas de material e passou um ano e meio na mesa de montagem. Fez uma primeira versão de José e Pilar com seis horas, outra de três e a versão final que abre hoje, às 21h00, a VII edição do DocLisboa, na Culturgest, em Lisboa, tem duas horas.

José Saramago viu a versão de três horas. Muitas vezes, durante a rodagem, o escritor teve dúvidas sobre a pertinência de se filmarem determinadas coisas, explica Miguel Mendes, mas quando viu o resultado disse-lhe que, mais do que um filme sobre ele e Pilar, era um filme sobre a vida. "Pareceu-lhe mais interessante do que estava à espera", conta Pilar del Río, num e-mail enviado ao P2 a partir de Milão. "Riu-se com algumas cenas, achámos que estávamos feios noutras, inteligentes por vezes, fortes nas discussões... Ficámos surpreendidos ao ver como representávamos pouco, com o estarmos sem maquilhagem, de estar o José, de roupão, como se não existissem câmaras...", diz. Sentiram que parte da vida deles voltava, que tinham o privilégio de a ver como numa máquina do tempo, com naturalidade, porque "é um filme sem falsidades, cheio de verdade, de pequenas coisas, de vida, simplesmente", continua Pilar. O retrato que Miguel fez do vosso quotidiano é real? Revê-se nele? "Absolutamente. Miguel foi um retratista fiel, embora com personalidade própria. Fez o retrato que qualquer pintor quereria assinar. Sabe manejar os pincéis e a câmara. E os tempos. Tem carácter como realizador, chegará longe."

Em José e Pilar assistimos à rotina do dia-a-dia, à inauguração da biblioteca, aos cães a rondar a casa, ao casamento, a funerais, ao regresso à Azinhaga e a Castril, à criação da fundação, aos momentos da doença. Numa das cenas mais impressionantes vemos José Saramago na cama do hospital a olhar para um computador onde, em directo, está a ser transmitida a imagem dos amigos e família a desejarem-lhe "Ano Feliz 2008".

Sabe que eu te amo, né?

Momentos interessantes são também aqueles que se passam no México na Feira de Guadalajara e no Brasil, quando o autor de Memorial do Convento foi lá lançar A Viagem do Elefante. Há a conferência de imprensa em que José se queixa que os jornalistas lhe fazem sempre as mesmas perguntas onde quer que vá. Uma jovem aproxima-se do escritor e repete várias vezes algo que o escritor não percebe ("Saramago, eu te amo"), acabando por lhe segredar ao ouvido: "Você sabe que eu te amo, né?" O escritor português desmancha-se a rir. O editor brasileiro Luiz Schwarcz e a sua mulher, Lilia, antropóloga, em casa de quem Saramago ficava no Brasil, emocionaram-se muito. "O humor do filme nos agradou imenso, como vocês diriam. Não temos muito a dizer. Sentimos muito do que privamos ao ter José e Pilar sempre em casa", responderam por e-mail. Este filme tem a capacidade de emocionar e de fazer rir quem o vê. Os protagonistas, José e Pilar, não se emocionaram, simplesmente reviveram. E riram-se de algumas coisas que se passaram e que a câmara viu.

Para Pilar del Río, não há nenhuma lição a tirar deste filme, "só a experiência de compartilhar com alguém muito amado, com José Saramago, parte da sua vida, entrar na sua intimidade, porque Saramago abriu as suas portas e expôs-se". "Parece-me isso tão admirável que eu, sim, estou emocionada ante o exemplo magnífico, da generosidade assombrosa de José Saramago neste filme, na sua vida. Como o filme revela."

José e Pilar chega aos cinemas portugueses a 18 de Novembro e terá antestreia a 16 de Novembro, data do aniversário de Saramago."




domingo, 23 de novembro de 2014

Saramago Um estilo diferente de escrever

Quem conheceu José Saramago, ao ponto de poder dizer alguma coisa sobre a sua pessoa, alguma coisa que acrescente ao conhecimento da sua personalidade, e ao mesmo tempo, que possa identificar o que lhe influenciou o modo de escrever e pensar, poderá falar na musicalidade da sua pessoa. Tenho ouvido e lido de e em diversas fontes, que Saramago era música, era som, era melodia. 
Não raras vezes, se encontram nas suas obras, referências à musica clássica - o "Violoncelista" em "As Intermitências da Morte", é exemplo disso.
A musica, a sensibilidade especial para as diversas artes, a leitura intensiva e estudo de aspectos não relacionados com a feitura de livros, as viagens que fez pelo mundo, tudo poderão ter sido aspectos influenciadores e facilitadores do momento em que recolhidamente estruturava o pensamento, e ao fim do dia, o poderia transpor para o papel. 
Com o "Levantado do Chão", às 22 ou 23 páginas dactilografadas, Saramago confidencia a João Céu e Silva, a adopção de um novo estilo de escrever, como que este lhe tivesse aparecido por "milagre" ou artes mágicas, e assim o manteve, com as devidas adaptações em função do que ia escrevendo, durante todo o resto da sua obra - e que, terá sido muito do que o diferenciava de outros autores de escrita dita "convencional".
Este facto, esta alteração da escrita, do tal momento em que o discurso directo e indirecto estão presentes, toda a movimentação e deslocação da pontuação, fez muita confusão no meio literário nacional, muito dado a um eventual seguidismo e pouco inventivo.
A escrita transcreve ideias, imagens, situações, emoções e razões... a escrita é fazer "raptar" o leitor para dentro da página e arrastá-lo durante todo o livro, isto se, sempre que possível numa única "viagem". O leitor tem de pegar no texto, tem de deixar-se conduzir pelo narrador, pelo autor, pelas personagens... o caminho do leitor, por mais linear ou sinuoso, que seja dentro da leitura, tem de chegar ao fim. 
A obra de José Saramago, é isto.
Por diversos motivos, muitos leitores consideram o estilo de Saramago maçudo, denso, e um não sei números de características escapatórias para justificar o fecho do livro e colocá-lo de imediato na estante. Alguns destes muitos leitores, que ao não se darem por vencidos, retornam uma e outra vez, "aprendem" uma nova forma de ler, vivendo as palavras escritas. E a aprendizagem passa por ler. Ler, em voz muda, mas sonora dentro da cabeça. Ler, em voz alta e ressoando as palavras dentro da cabeça. Ler, mas ouvir o som. Sentir o som das palavras. Sentir as linhas e os momentos falados das personagens. Eis a leitura, muito ajudada pela forma de escrever de forma única, muitas vezes contra natura, mas que criou um mundo "Saramaguiano".
Se algum dia, alguém disser a meu lado que não gosta de ler Saramago, ou que não o consegue ler - simplesmente direi - "Leia em voz alta, mas que dentro de si oiça as personagens a contar a história"   




"E começa a escrevê-lo (n.r. "Levantado do Chão") já num outro estilo?
Chego à página 22 ou 23 dactilografada e de repente - acho que tenho de aceitar a existência de um milagre. Apesar de ateu, apesar de racionalista e de tudo isso, parece que tenho de acreditar na existência de um milagre! - estava a escrever com tudo aquilo que é a escrita normal, pontos de interrogação, travessões, isto e aquilo, e ninguém tinha nada que me apontar - era assim que se escrevia - e, sem tê-lo decidido, sem tê-lo pensado antes, levado pelo próprio fluxo da história que eu estava a contar, passo àquilo que logo se transforma no estilo que me é característico. Claro que quando cheguei ao fim do livro tive de voltar atrás para pôr aquelas 22 ou 23 páginas de acordo com o  que vinha depois. É aí que começa tudo! Não é um processo que se repita mecanicamente porque há diferenças de livro para livro, mas no essencial aquilo que eu comecei a escrever em 1979, aquela forma integrante de discurso directo e discurso indirecto e tudo o mais, nasceu ali e manteve-se. E mantém-se até hoje, não num livro como este "As Pequenas Memórias", que não podia ser escrito assim, mas que está presente no que estou a trabalhar agora, num outro livro que retoma o estilo embora de uma maneira diferente. Enfim, logo se verá, quando eu acabar de escrevê-lo."

em, "Uma Longa Viagem com José Saramago"
João Céu e Silva
Porto Editora
Pág. 73

( ... numa sessão de autógrafos, ladeado pelo seu editor Zeferino Coelho da antiga Caminho)


Aqui, em http://www.instituto-camoes.pt/revista/mundliterjs.htm

Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas
Número 3 · Outubro-Dezembro de 1998

Kim Yong-Jae, do Departamento de Português da Universidade de Pusan, Coreia do Sul, traça uma visão sobre o mundo literário e escrita de Saramago

"Esforço em fazer reviver a História e identidade portuguesa através de uma nova linguagem

O Mundo Literário de José Saramago é constituído por quatro elementos fundamentais : Primeiro, a dúvida do homem moderno numa dupla lógica de assumir uma posição crítica sobre o passado e, ao mesmo tempo, aprender com o passado. Segundo, a introdução dos elementos sobrenaturais, ou seja, fantásticos, não se distanciando, no entanto, do mundo real. Terceiro, a tentativa de uma nova linguagem que altera a sua expressão gráfica e pontual, respeitando a sintaxe da narrativa comum. Por último, a viagem não só no mundo real, mas também no interior do Homem através da imaginação. Com estes elementos de 'tempo', 'sobrenatural', 'torrencialidade da narrativa' e 'a viagem' que se interpenetram as suas obras procuraram a utopia através de alusões alegóricas, críticas e éticas.
Assim, Saramago tem vindo a tentar, nas obras publicadas desde "Levantado do Chão", a harmonia entre a realidade e a imaginação através de trabalhos que pretendem unir numa só empreitada os planos expressivos da fala, do pensamento e da escrita. Por isso, uma relação de quase simbiose entre o narrador e a matéria narrada, o discurso interior e as tensões internas do discurso narrativo são importantes na compreensão as suas obras. O que se denota facilmente nos seus romances é o espírito renovador e experimental em procurar um estilo muito pessoal e, ao mesmo tempo, solto e torrencial.
Na realidade, utiliza só vírgula e ponto final, não distinguindo discursos directos e indirectos, de modo que os seus romances têm de ser lidos diferentemente dos outros romances. Isto significa que o texto exige uma atenção especial aos leitores, dando-lhes a impressão de estarem envolvidos directamente no mundo real e, ao mesmo tempo, fictício, ambos construídos nas suas obras.
Para além do elaborado trabalho de linguagem, Saramago aborda profundamente os problemas de Portugal contemporâneo e da identidade do povo lusitano. Além de apresentar o rumo que Portugal deverá seguir e a sua visão do mundo, Saramago procura a identidade do homem perdida na sociedade moderna. Talvez através do seu estilo torrencial, que às vezes o toma difícil de ler, esteja a procurar a identidade de Portugal após a sua adesão à União Europeia.
Concluindo, a grandeza das obras de Saramago reside no esforço de evocar a História e a identidade da 'pátria perdida', juntamente com a procura de uma nova linguagem literária em que se afirma o seu espírito experimental."

Isabel Coutinho, elaborou o seguinte trabalho.


"Saramago - O escritor que brinca com a pontuação" 

"Vamos fazer um jogo: «A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço, e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais, e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti, Porquê, sorriu a mulher, Porque és bela, Não me conheceste no tempo da minha beleza, Conheço-te na beleza desta hora. O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se, Sabes quem sou, o que faço, de que vivo, Sei, Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo, Não sei nada, Que sou prostituta, Isso sei, Que me deito com homens por dinheiro, Sim, Então é o que eu digo, sabes tudo de mim, Sei só isso.»

Ao fim das primeiras linhas, o leitor atento terá percebido que está a ler qualquer coisa que saiu da imaginação do escritor português José Saramago. Trata-se de um excerto de O Evangelho segundo Jesus Cristo, romance publicado em 1991, onde é visível a maneira peculiar como o prémio Nobel da Literatura usa a pontuação na sua escrita. 

Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica, apesar de o escritor já fazer parte do cânone literário: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas. 

Mas se tem a ideia de que José Saramago eliminou nos seus textos a pontuação, os académicos e o autor dizem-lhe que essa ideia é errada. O prémio Nobel da Literatura português inovou na maneira como utiliza o ponto final e a vírgula – ele prefere chamar-lhe os sinais de pausa –, marcando a frase com um outro ritmo dado pela oralidade. Saramago subverteu a norma: pôs tudo em estado de desordem, revolucionou.

Se este é um aspecto claramente inovador da sua obra, não está isento de controvérsia. Para o professor universitário Carlos Reis, da Universidade de Coimbra e reitor da Universidade Aberta, só os comentadores apressados e os críticos que o não leram é que dizem que Saramago não usa pontuação — «um disparate sem remissão possível».  Saramago «usa pontuação, mas reinventa-a de acordo com um outro ritmo prosódico, que é o da oralidade de quem fala a língua», explica. O autor redescobre sentidos ocultos nas palavras que o nosso uso quotidiano nelas acabou por desgastar, diz.
Manuel Gusmão, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, também considera inovador o tipo de frase que veio a caracterizar o escritor: uma frase onde podemos «encontrar o narrador a dialogar com uma ou mais personagens, ou duas personagens que dialogam». Saramago, conclui Gusmão, traz assim o diálogo para o interior da instância narrativa — «como se também ele concordasse que a unidade mínima da linguagem em acção é o diálogo».

Onde está o princípio?

Tudo terá começado no «ensaio de romance» Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1977. Essa é a opinião da professora universitária Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, que acaba de publicar José Saramago. Foi nessa obra que o autor ensaiou, pela primeira vez, a sua técnica de construção romanesca e nunca mais a abandonou. Todos os seus futuros romances estão contidos em Manual de Pintura e Caligrafia, tal como todos os seus grandes temas futuros estão lá. Desde o «ateísmo confesso», passando pelo «papel de primordial importância concedido à mulher» até ao carácter humanista e humanitário. Arnaut diz que estão lá também as marcas que pautarão o estilo saramaguiano – um «peculiar uso dos sinais de pontuação ou outras entropias sintácticas e semânticas». 

Mas, a acreditar nas palavras do Nobel, foi durante a escrita de Levantado do Chão, romance publicado em 1980, que José Saramago se viu perante uma outra forma de narrar. Já tinha escrito vinte e tal páginas, quando lhe surgiu esta nova maneira de contar e voltou atrás, reescrevendo tudo desde o princípio para uniformizar o estilo.

O escritor já explicou várias vezes esse processo. «Era como se eu lhes tivesse a contar a eles a história que eles me tinham contado. E, como você sabe, quando falamos, não usamos sinais de pontuação. Temos pausas [de respiração] e até, como eu digo nos meus livros, os dois únicos sinais de pontuação, o ponto e a vírgula, não são sinais de pontuação, são uma pausa, uma pausa breve e uma pausa longa. No fundo, como também digo muitas vezes, falar é fazer música», disse em 2004 numa entrevista ao semanário Expresso. O escritor não estava a dizer mais do que já tinha escrito em Cadernos de Lanzarote – Diário II (1994):  «(...) É como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não precisa de pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras.»

Na entrevista publicada sábado no semanário Sol, o escritor explica mais um pouco: «O processo não é mecânico, não passa automaticamente de livro para livro, há ligeiríssimas diferenças – tão ligeiras, que se calhar só eu consigo aperceber-me delas. O leitor comum achará que é o mesmo: Ah, ele eliminou a pontuação.»

Essas diferenças fazem a obra do escritor dividir-se por vários ciclos, diz Arnaut. O primeiro ciclo caracterizado por marcas de «portugalidade intensa», directa ou indirectamente enraizado na realidade portuguesa, vai desde o Manual Pintura e de Caligrafia (1977) até O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991). E é em alguns dos livros deste ciclo, veja-se Memorial do Convento e História do Cerco de Lisboa, que aparecem páginas e páginas sem parágrafos, onde o escritor deixa de usar de forma canónica a pontuação (e o leitor pode ter de ler várias vezes para perceber e se só dias mais tarde recomeça a leitura pode ter de voltar atrás). 

Um segundo ciclo começa com Ensaio sobre a Cegueira (1995) e vai até Ensaio sobre a Lucidez (2004), momento em que o escritor passa para temas mais universais e há uma maior aproximação ao cânone do português. Encontramos uma maior linearidade na exposição dos acontecimentos, a clareza passa por maior narratividade e o leitor comum já não voltará atrás na sua leitura. 

O terceiro ciclo inicia-se em 2005 com a publicação de As Intermitências da Morte. E a autora da obra José Saramago explica: «Romance em que o autor parece abandonar o tom e a cor cinzentos que caracterizavam os romances anteriores para adoptar tonalidades narrativas que chegam a despertar o sorriso aberto nos leitores. Além disso, verificamos uma maior aproximação ao que se diz ser a pontuação correcta.»

José Saramago chamou-lhe, aliás, «uma espécie de ressimplificação», situando-a a partir de Ensaio sobre a Cegueira, numa conversa com Carlos Reis (in Diálogos com José Saramago). «Hoje verifico que há como que uma recusa minha de qualquer coisa em que eu me divertia, que era uma espécie de barroquismo, qualquer coisa que eu não conduzia, mas que de certo modo me levava a mim; e estou a assistir, nestes últimos dois livros (o Ensaio sobre a Cegueira já mostra isso muito claramente e este que estou a escrever também), a uma necessidade maior de clareza.»

O romance histórico

E tudo o que Saramago faz é inovador? Ana Paula Arnaut responde que a questão não é tanto se já foi feito, mas a forma e a intensidade como é feito: «Não uma coisa nova, mas de uma maneira nova.» Por exemplo, no romance de José Cardoso Pires O Delfim, já está tudo lá de uma maneira embrionária.

Mas o que há de mais inovador na obra do Nobel português? O modo como José Saramago «perturbou a tradição do romance histórico», diz Manuel Gusmão; ou fez «a inscrição da História na ficção», diz Carlos Reis. E falamos agora daquela que é uma das mais interessantes características da produção saramaguiana: a subversão da «história oficial», de acordo com três ingredientes fundamentais – as traves mestras da história, a sua extraordinária capacidade imaginativa e «fontes menos oficiais», explica Ana Paula Arnaut.

Saramago tem uma «extraordinária capacidade» para descobrir «sentidos novos e temas por inventar» numa ficção e num teatro que se tornaram referências canónicas da nossa literatura, afirma por sua vez Carlos Reis. Saramago «reclama» a história, porque a chama de novo à nossa atenção, dando-lhe uma nova leitura. 

O Nobel português inventa factos, mistura o maravilhoso com o empírico, o conhecimento do presente com o reconhecimento ou as novas versões do passado, diz Gusmão. «Joga ironicamente a ficção contra o relato histórico", mostrando "como uma tradição e história dos pobres, dos explorados, oprimidos e vencidos se pode construir contra a história dos vencedores».

A sua inovação no romance é ao mesmo tempo «erudita e popular», explica a professora Maria Alzira Seixo, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É erudita, porque «tem bases historiográficas sólidas», quer nos livros sobre eventos do passado, quer nos romances onde procedeu a investigações próprias e elabora conjecturas para a compreensão de uma época ou de uma figura. E é popular, «pois inventa uma expressão oralizada, que tem a ver com o saber tradicional comunitário (como em Levantado do Chão), criando a sua frase característica», explica Alzira Seixo. E, apesar de os seus livros serem poeticamente muito elaborados, não deixam de ser pedagógicos, transmitindo ensinamentos com uma forte dimensão ética e ao alcance de todos. «São ainda um exemplo raro, na pós-modernidade, da criação literária que se alia a valores humanos e colectivos, como bem se vê em Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte.»

Como os mais novos o vêem

Numa literatura em que Saramago se tornou um cânone, os escritores mais novos já ganham prémios com o nome de Saramago e é normal que lhes perguntemos o que acham do Nobel. O primeiro inquirido é José Luís Peixoto, que recebeu o Prémio Literário José Saramago 2001. É o «conhecimento do humano», aquilo que Peixoto encontra de «mais intenso e original» na obra do Nobel português. O domínio da narrativa e da língua são colocados ao serviço desse elemento central: «O ser humano, tanto no que toca à sua força, como às suas fragilidades e contradições.» Saramago inovou na forma como, em cada livro, construiu novas parábolas que se distinguem pela grande ironia e imaginação com que são construídas.

O premiado em 2005, Gonçalo M. Tavares, diz que o que há de mais «estimulante na obra de José Saramago é o desenvolvimento ficcional de uma ideia impossível». «O desenvolvimento desta espécie de realidade paralela é de tal forma minucioso e pormenorizado, que a certo momento o leitor esquece que se partiu de uma hipótese inverosímil e parece estar perante algo que sempre foi assim», continua o escritor. «Olhamos de novo para a realidade e sem uma epidemia de cegos parece que algo falta ou que algo mente.»

Válter Hugo Mãe, o escritor que assina sem maiúsculas (não é uma influência de Saramago), que ganhou o prémio em 2007, diz que o seu grande feito, naquilo em que acrescenta algo à literatura portuguesa e mundial, tem a ver com «a busca incessante de chegar ao colectivo dos homens, seduzindo-o para a grande história humana no sentido de amigar as gentes e combater toda a exclusão». Nos livros de Saramago, o homem é universal, visto a partir das suas raízes, como qualquer anónimo enredado numa aventura. O escritor distingue-se assim «por levar à literatura uma grande coerência ideológica, extremamente humanista, que recupera a força das grandes histórias numa projecção sempre colectiva e nada egocêntrica». E isso é muito raro num escritor, diz Válter Hugo Mãe. Ponto final" 

Público do dia 23 de Abril de 2008 :: 24/04/2008