Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quinta-feira, 19 de abril de 2018

"20/04: Lola Dueñas e Pilar del Río apresentam «O Lagarto», em Madrid" Via Fundação José Saramago

Informação aqui 
em https://www.josesaramago.org/20-04-lola-duenas-e-pilar-del-rio-apresentam-o-lagarto-em-madrid/

"Na sexta-feira (20), às 18h, na Livraria Alberti, em Madrid, será apresentada a edição espanhola do livro «O Lagarto», que une as palavras de José Saramago e as ilustrações do artista brasileiro J.Borges.

Publicado em Espanha pela Editorial Lumen, «El Lagarto» será apresentado por Pilar del Río, autora da tradução do conto para o espanhol, e pela atriz espanhola Lola Dueñas."


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

"Um conto de fadas desencantado" de Bernardo Carvalho baseado no conto "O Lagarto"

O texto de análise de Bernardo Carvalho foi publicado no "Blog da Letrinhas" e pode ser recuperado e consultado aqui em http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Um-conto-de-fadas-desencantado

Mais informações sobre a editora que edita a obra de José Saramago no Brasil, pode ser acedida em http://www.blogdacompanhia.com.br/ e http://www.companhiadasletras.com.br/

"Um conto de fadas desencantado" por Bernardo Carvalho

"Desde criança, ouço dizer que a literatura de cordel é um vestígio da Idade Média. Daí que não podia imaginar outra coisa além de uma história medieval quando soube da edição de um conto de fadas escrito por José Saramago e ilustrado por J. Borges, mestre pernambucano da xilogravura e da literatura de cordel. Na verdade, o conto de Saramago não tem nada de fadas. O autor toma a precaução de deixar isso bem claro logo no primeiro parágrafo. Ninguém mais acredita em fadas.

O lagarto do título é o que nos resta do dragão. De imaginário e extraordinário na sua existência há apenas o fato de aparecer de repente numa rua de Lisboa. Saramago, homem da razão num tempo em que a razão dá sinais de fraquejar, tenta resistir como pode. Alerta que sua história é o que hoje cabe à nossa desilusão: um conto sem fadas. Até a metamorfose simbólica do lagarto, cercado de polícias nas ruas de Lisboa, estará limitada ao que pode haver de menos imaginário e menos mágico (o vermelho sangue) para terminar na imagem surrada de uma pomba, representação inverossímil da paz onde tudo a contradiz.

Imagem do trabalho em xilogravura de J. Borges 

"O lagarto é um oximoro: um conto de fadas desencantado. É o esforço de um sopro de utopia onde a imaginação já não se aguenta em pé, constrangida pelo lugar-comum. E é por isso que as ilustrações de J. Borges ganham aí um papel ainda mais encantador, porque continuam aludindo, sem pudor nem medo, a um universo mágico que já não pode existir. Como nos quadros de Bruegel, são vestígios do encanto possível, não de fadas, mas do homem comum, num tempo que insiste em nos impor o clichê medieval das trevas."

***

"Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Estreou com Aberração e desde então tem se destacado como um dos melhores escritores contemporâneos brasileiros, traduzido para diversos idiomas. É autor de Simpatia pelo demônio, Nove noites e Reprodução."

sábado, 22 de outubro de 2016

FOLIO 2016 - “O Lagarto” de José Saramago e com ilustrações de J. Borges na Porto Editora


Via página da Fundação José Saramago, aqui

“O Lagarto” de José Saramago e com ilustrações de J. Borges na Porto Editora

"Este mês de setembro, a Porto Editora dá à estampa O Lagarto de José Saramago, conto inicialmente publicado em A Bagagem do Vaijante (1973).
Com ilustrações, originalmente em xilogravura, de J. Borges, este novo livro será lançado mundialmente a 22 de setembro no contexto do 
FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos."







Via página da Fundação José Saramago, aqui

"Na quinta-feira (22), pelas 18h30, no âmbito do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, será apresentado «O Lagarto», livro publicado pela Porto Editora e que une as palavras de José Saramago com o traço do artista popular brasileiro J. Borges.

A sessão, que acontece no Museu Abílio, em Óbidos, contará com a presença de Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, Alejandro García Schnetzer, editor independente que concebeu o projeto, e Manuel Alberto Valente, editor responsável pela obra de José Saramago na Porto Editora. Pelas 17h45, o trio de música nordestina “Só Lapada” recepcionará os convidados à entrada da vila de Óbidos.

Também será inaugurada uma exposição com as xilogravuras feitas especialmente para o livro. A entrada é livre, sujeita à lotação da sala. Para ver o programa completo do FOLIO aceda: www.foliofestival.com/

O Lagarto é um conto breve incluído em A Bagagem do Viajante (1973), volume que reuniu as crónicas escritas por José Saramago para o diário A Capital e para o semanário Jornal do Fundão. A história narra o aparecimento, no Chiado, de um misterioso lagarto, cuja presença surpreende os transeuntes e mobiliza os bombeiros, o exército e a aviação.

Quem é J.Borges:
Nasceu em Bezerros (Pernambuco, Brasil) no ano de 1935. Aos 20 anos começou a vender cordéis nas feiras. Em 1964 assinou o seu primeiro trabalho autoral. Tornou-se gravurista para ilustrar os cordéis que produzia. Durante a vida escreveu algumas centenas de cordéis. Ilustrou o livro As palavras Andantes, de Eduardo Galeano, e expôs o seu trabalho em vários lugares do mundo, entre eles EUA, Suíça, França, Alemanha, Venezuela, Itália e Cuba. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Atualmente vive na sua cidade natal, num local que foi transformado num espaço artístico, o Memorial J.Borges, onde ensina a arte da xilogravura aos mais novos."





A sala da exposição decorada com o texto do conto e das gravuras

O processo da impressão por Xilogravura



A sala da exposição decorada com o texto do conto e das gravuras

"Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco"



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Apresentação de «O Lagarto», de José Saramago e J. Borges – 22/09, no Festival Literário de Óbidos

A presente informação foi publicada pela Fundação José Saramago, e pode ser recuperada, aqui

Na quinta-feira (22), pelas 18h30, no âmbito do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, será apresentado «O Lagarto», livro publicado pela Porto Editora e que une as palavras de José Saramago com o traço do artista popular brasileiro J. Borges.



"A sessão, que acontece no Museu Abílio, em Óbidos, contará com a presença de Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, Alejandro García Schnetzer, editor independente que concebeu o projeto, e Manuel Alberto Valente, editor responsável pela obra de José Saramago na Porto Editora. Pelas 17h45, o trio de música nordestina “Só Lapada” recepcionará os convidados à entrada da vila de Óbidos.

Também será inaugurada uma exposição com as xilogravuras feitas especialmente para o livro. A entrada é livre, sujeita à lotação da sala. Para ver o programa completo do FOLIO aceda: www.foliofestival.com/ "



"O Lagarto é um conto breve incluído em A Bagagem do Viajante (1973), volume que reuniu as crónicas escritas por José Saramago para o diário A Capital e para o semanário Jornal do Fundão. A história narra o aparecimento, no Chiado, de um misterioso lagarto, cuja presença surpreende os transeuntes e mobiliza os bombeiros, o exército e a aviação.

Quem é J.Borges:

Nasceu em Bezerros (Pernambuco, Brasil) no ano de 1935. Aos 20 anos começou a vender cordéis nas feiras. Em 1964 assinou o seu primeiro trabalho autoral. Tornou-se gravurista para ilustrar os cordéis que produzia. Durante a vida escreveu algumas centenas de cordéis. Ilustrou o livro As palavras Andantes, de Eduardo Galeano, e expôs o seu trabalho em vários lugares do mundo, entre eles EUA, Suíça, França, Alemanha, Venezuela, Itália e Cuba. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Atualmente vive na sua cidade natal, num local que foi transformado num espaço artístico, o Memorial J.Borges, onde ensina a arte da xilogravura aos mais novos."

* Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"O Lagarto" ... está a chegar!! Apresentação no FOLIO dia 22/09


"Um livro muito especial está prestes a chegar às livrarias! 
"O Lagarto" junta José Saramago e J. Borges, um mestre da arte popular brasileira.
O lançamento desta novidade será no dia 22 de setembro, 
no FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos."

Publicado pela Porto Editora e partilhado pela Fundação José Saramago
Aqui o link da agenda do FOLIO - https://folio2016.sched.org/?s=lagarto


domingo, 21 de agosto de 2016

Edição #51 Agosto 2016 da revista "Blimunda" - Já disponível para consulta e download

"Em setembro os leitores de José Saramago terão nas mãos um novo livro, fruto do trabalho de um atento e interessado editor independente e da genialidade de dois grandes nomes da cultura em língua portuguesa. Alejandro García Schnetzer, argentino radicado em Barcelona, foi o mentor do encontro entre as palavras de José Saramago e o inconfundível traço do artista brasileiro J. Borges. Umas e outro compõem O Lagarto – texto publicado no começo dos anos 70 como crónica num jornal e posteriormente incluído em A Bagagem do Viajante.
Há quatro décadas, quando José Saramago, em Lisboa, escrevia crónicas para jornais, no interior do estado de Pernambuco as xilogravuras de J. Borges começavam a ser conhecidas além do universo da literatura de cordel – género literário que une versos rimados com ilustrações, contando assim uma história. Nos anos 90, quando o português recebeu a consagração definitiva com o Prémio Nobel de Literatura, o brasileiro obteve o merecido reconhecimento internacional com as gravuras que criou para um livro de Eduardo Galeano.
José Saramago admirava o trabalho de J. Borges, tinha em casa algumas gravuras do artista brasileiro,
mas não chegou a conhecê-lo. Agora, seis anos depois da morte do escritor, dá-se, por fim, esse feliz encontro. As xilogravuras feitas especialmente para ilustrar o livro são uma linda homenagem ao Prémio Nobel e um importante contributo para que a história de um lagarto que aparece no Chiado renasça, mais de 40 anos depois de escrita. «Um texto só sobrevive quando muda, e um livro só existe se é lido; senão é um cubo de papel», defende García Schnetzer na entrevista que a Blimunda deste mês publica.
O Lagarto, edição que a Porto Editora em breve apresentará aos leitores, permite que o texto de José
Saramago seja lido e relido de outra maneira. E, assim, volte a existir."
Página 4 

(Capa da edição #51)

A presente edição pode ser descarregada gratuitamente e consultada, aqui
em http://www.josesaramago.org/blimunda-51-agosto-2016/

Sinopse da edição apresentada pela Fundação José Saramago

«Um livro só existe se é lido; senão é um cubo de papel», diz Alejandro García Schnetzer na entrevista publicada na Blimunda deste mês. Ele é quem está por trás de O Lagarto, que une as palavras de José Saramago ao traço do artista popular brasileiro J. Borges. À revista, o editor contou sobre o processo de criação desse livro que agora chega aos leitores portugueses.

Mais do que cubos de papel foi o que a escritora e editora portuguesa Carla Maia de Almeida viu na visita que fez à Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique. Criada em 1949, numa tentativa de se trazer um pouco de cultura a um país arrasado pela guerra, a biblioteca reúne hoje mais de 600 mil livros. «É uma espécie de paraíso», relata Carla Maia no texto que escreve especialmente para a revista.

Livros na estrada, On the Road, é um projeto que leva – sobre rodas – autores em língua portuguesa aos turistas que visitam Lisboa. Sara Figueiredo Costa passou um tarde com os responsáveis pela iniciativa – uma ideia da livraria Fonte de Letras, de Évora – e relata aos leitores da Blimunda o que viu.

Na secção Visita Guiada, Andreia Brites foi até ao Porto para conhecer a editora Tcharan.

Ainda nas páginas da Blimunda, um artigo sobre o encontro realizado na Fundação José Saramago que teve por objetivo pensar em estratégias para que a cultura portuguesa tenha uma participação mais efetiva na Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil.

Boas férias e boas leituras!"

Epigrafe da presente edição

sábado, 13 de agosto de 2016

"Pilar del Río diz estar no Brasil por ‘dever cívico’" - Entrevista por ocasião da visita à FLIP em Paraty (01/07/2016)

Em Paraty pela primeira vez, viúva de Saramago prepara edição ilustrada por J. Borges

SC - EXCLUSIVO - PARATY RJ - FLIP 2016 - 01/07/2016 - Pilar del Río na Casa Cais. 
Foto: Barbara Lopes | Agencia O Globo - Agência O Globo

Recuperação da entrevista concedida ao "O Globo", aqui 
em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/pilar-del-rio-diz-estar-no-brasil-por-dever-civico-19631863

PARATY - Pilar del Río, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”, como escreveu certa vez numa dedicatória o português José Saramago (1922-2010), seu marido nos últimos 22 anos de vida, tardou a chegar, é bem verdade, não só à vida do escritor, como à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Apesar dos inúmeros convites da organização do evento e da homenagem da festa feita ao escritor no ano da sua morte, em 2010, a jornalista e “presidenta” da Fundação Saramago nunca havia conseguido ir a Paraty. Esta é a primeira vez, e Pilar participa da programação da Casa Cais, que neste ano funciona como uma embaixada afetiva da língua portuguesa na cidade, idealizada e dirigida pela compositora Luana Carvalho.

Com a participação de nomes como o escritor angolano José Eduardo Agualusa, o artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos, o escritor e professor de Letras da PUC-Rio Fred Coelho, o cineasta português Miguel Gonçalves Mendes e os cantores Marina Lima e Pedro Luís, o espaço vai abrigar debates e apresentações gratuitas até amanhã. Pilar conversa hoje com a jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro, às 15h30m, e depois exibe o filme “José e Pilar”, de Gonçalves Mendes.

Ao GLOBO, Pilar conta que está envolvida num projeto especial: um grande encontro, póstumo e inédito, “entre os dois Josés”, Saramago e o artista brasileiro José Francisco Borges. Ideia de um editor argentino radicado em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, a crônica fantástica “O lagarto”, escrita por Saramago em 1972 (texto em que o autor vislumbra uma flor vermelha caída no Chiado, e a Revolução dos Cravos só aconteceria em Portugal dois anos depois), ganhou xilogravuras exclusivas do artista pernambucano, que, aos 81 anos, abriu uma exceção para fazer esse trabalho, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

É a sua primeira vez na Flip, apesar de convites e homenagens em edições anteriores. Por que vir só agora?
Este é um ano muito particular. Vir ao Brasil, estar com pessoas que respeito e que não querem retroceder em direitos adquiridos, na educação, na cultura, nos valores partilhados, na liberdade, em suma, considero-o um dever cívico. Uma festa de cultura não pode viver arredada da realidade. Luana Carvalho e a Casa Cais convidaram-me a participar, e decidi aceitar. Será uma ocasião para voltar a falar de José Saramago e da necessidade que temos de continuar a ler os seus livros.

De que forma é possível aproximar ainda mais as literaturas de Portugal e Brasil? Apesar de compartilharem a língua, por que ainda há muitas lacunas de conhecimento entre ambas?
Os cidadãos, os leitores, nós, somos aqueles que aproximam as duas culturas, literaturas, formas de lidar com o idioma. É obrigação dos estados mostrar o que se vai fazendo, abrir as portas. Mas as pontes são construídas por nós, peça a peça, livro a livro, palavra a palavra. Lacunas... Muitas vezes devem-se a processos empresariais, editoriais, mais do que tudo.

A aproximação Brasil-Portugal permite uma infinidade de livros. Como “O lagarto”, que refresca a crônica de José Saramago com xilogravuras exclusivas de J. Borges. Como surgiu a ideia do livro?
Surgiu por proposta de um editor argentino, que vive há muitos anos em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, que já havia feito um livro com um texto de Saramago e ilustrações de Manuel Estrada chamado “O silêncio da água”. A ideia foi pegar um texto publicado anteriormente, que tivesse autonomia e que permitisse ser ilustrado. Ficamos muito contentes com a resposta positiva do J. Borges, que abriu uma exceção e aceitou ilustrar esse texto de José Saramago, e pensamos que é um diálogo muito enriquecedor o que se estabeleceu entre os dois “Josés”.

Quando deve ser publicado no Brasil?
Não consigo adiantar uma data para já, isso depende da Companhia das Letras, editora que publica a obra de José Saramago deste lado do Atlântico, mas pensamos que será muito em breve. Em Portugal, haverá uma exposição com as xilogravuras em Óbidos. A apresentação mundial será feita no contexto do Folio, o festival literário de Óbidos, em setembro. Aparecerá então uma primeira edição do livro, que sairá em várias línguas nos próximos meses.

O que há de especial nesse texto?
É um texto publicado em 1972 no livro “A bagagem do viajante”, que pode ser lido por jovens e adultos e que, tal como outros textos de José Saramago, encontra ainda hoje, mais de 40 anos depois da sua publicação, novas leituras atuais. Tal como, por exemplo, em “A maior flor do mundo”, trata-se de um José Saramago que não faz concessões facilitistas e cria um texto em que dialoga com o universo dos contos de fadas, com o fantástico, a partir da história de um lagarto que passeia pelas ruas do Chiado, em Lisboa.

O que a senhora gostaria de fazer em Paraty: tem alguma mesa de debates em que está especialmente interessada, algum autor que queira conhecer, algum passeio que queira fazer?
A minha vontade é ser apanhada pela surpresa. O que implica o risco de não gostar. Ou seja, mais do que procurar os autores que gosto de ler, procurarei aqueles que ainda não li ou cujo pensamento conheço menos bem. Mas confesso que tenho uma especial curiosidade em relação às vozes femininas, tantas vezes esquecidas, descuradas... Além de imergir na poesia da homenageada deste ano (Ana Cristina Cesar), quero sentir a força de mulheres não recatadas, que fazem do mundo inteiro o seu lar, na cultura e na sociedade.

domingo, 24 de julho de 2016

«O Lagarto» de José Saramago e J. Borges, chega em setembro (Fundação José Saramago)

Publicado na página da Fundação José Saramago, pode ser recuperado e consultado aqui
em http://www.josesaramago.org/lagarto-jose-saramago-j-borges/

"«O Lagarto», de José Saramago e J. Borges, chega em setembro"

"Em setembro chega às livrarias portuguesas O Lagarto, livro que une as palavras de José Saramago ao traço do artista brasileiro José Francisco Borges, conhecido como J. Borges. O projeto, que nasce da ideia original do editor argentino Alejandro García Schnetzer, será publicado pela Porto Editora em colaboração com a Fundação José Saramago, terá design da Silvadesigners, e propõe uma nova leitura da crónica com o mesmo título escrita por José Saramago em 1972.


Passados mais de 40 anos da publicação de O Lagarto no livro A Bagagem do Viajante, o texto ganha novas leituras trazidas pelas ilustrações do “génio da arte popular”, nas palavras do New York Times. O artista brasileiro, que ficou conhecido internacionalmente ao ilustrar em 1993 o livro Palavras Andantes, de Eduardo Galeano, produziu um conjunto de xilogravuras que dialogam com o texto do Prémio Nobel português.


A 22 de Setembro, o FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos inaugura uma exposição das matrizes das xilogravuras e das ilustrações que J. Borges fez para as palavras de José Saramago.

Saramago conhecia e gostava muito do trabalho de J.Borges (…) dizia que para ele J.Borges compreendia e explicava o mundo de forma aparentemente simples e ao mesmo tempo profunda. Este Borges aproximava-se, para Saramago, dos seus avós na forma de olhar o mundo. Além disso, Saramago tinha muito apreço pelos trabalhos de criação. Na sua mesa de trabalho, por exemplo, estava um crucifixo que um artesão lhe dera de presente após ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Para ele não era uma homenagem a um homem crucificado mas sim ao homem que fez aquela peça e que a compartilhou. Criar é compartilhar, e agora dois Josés presenteiam-nos com uma obra que deve ser compartilhada. Um grande presente.
(Palavras de Pilar del Río ao Jornal do Commercio, do Brasil, a propósito do livro)


Quem é J.Borges:

Nasceu em Bezerros (Pernambuco, Brasil) no ano de 1935. Aos 20 anos começou a vender cordéis nas feiras. Em 1964 assinou o seu primeiro trabalho autoral. Tornou-se gravurista para ilustrar os cordéis que produzia. Durante a vida escreveu algumas centenas de cordéis. Ilustrou o livro As palavras Andantes, de Eduardo Galeano, e expôs o seu trabalho em vários lugares do mundo, entre eles EUA, Suíça, França, Alemanha, Venezuela, Itália e Cuba. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Atualmente vive na sua cidade natal, num local que foi transformado num espaço artístico, o Memorial J.Borges, onde ensina a arte da xilogravura aos mais novos."


Crónica "O lagarto",
publicada na obra "A Bagagem do Viajante"

"De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isto de fadas foi chão que deu uvas, já ninguém acredita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo é rirem-se de mim. Afinal de contas, será a minha simples palavra contra a troça de um milhão de habitantes. Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará. 
A história é de fadas. Não que elas apareçam (nem eu o afirmei), mas que história há-de ser a deste lagarto que surdiu no Chiado? Sim, apareceu um lagarto no Chiado. Grande e verde, um sardão imponente, com uns olhos que pareciam de cristal negro, o corpo flexuoso coberto de escamas, o rabo longo e ágil, as patas rápidas. Ficou parado no meio da rua, com a boca entreaberta, disparando a língua bífida, enquanto a pele branca e fina do pescoço latejava compassadamente. 
Era um animal soberbo. Um pouco soerguido, como se fosse lançar-se numa súbita corrida, enfrentava as pessoas e os automóveis. O susto foi geral. Gentes e carros, tudo parou. Os transeuntes ficaram a olhar de longe, e alguns, mais nervosos, meteram pelas ruas transversais, disfarçando, dizendo consigo próprios, para não confessarem a cobardia, que a fadiga, lá diz o médico, causa alucinações. 
Claro que a situação era insustentável. Um lagarto parado, uma multidão pálida nos passeios, automóveis abandonados em ponto morto — e de repente uma velha aos gritos. Nem foi preciso mais nada. Num ápice a rua ficou deserta, os lojistas correram as portas onduladas, e uma rapariga que vendia violetas (era o tempo delas) largou o cesto, e as flores rolaram pelo chão, de tal maneira que fizeram em volta do lagarto um círculo perfeito, como uma grinalda de aromas. O animal não se mexeu. Agitava devagar a cauda e erguia a cabeça triangular, farejando. 
Alguém devia ter telefonado. Ouviram-se apitos, e as duas saídas da rua foram cortadas. De um lado, bombeiros com o material todo; do outro, forças armadas com todo a material. Havia quem dissesse que o lagarto era venenoso, quem afirmasse que as escamas resistiam à bala. A velha continuava a gritar, embora ninguém soubesse onde. A atmosfera carregava-se de pânico. Uma esquadrilha de aviões passou no céu, em observação, e do lado do Rossio começou a ouvir-se o chiar característico dos carros, de assalto. O lagarto deu alguns passos, rompendo a grinalda de violetas. A velha foi transportada de urgência para o hospital. 
A história está quase a acabar. Chegámos precisamente ao ponto em que as fadas intervêm, embora por manifestação indirecta. Reunidas todas as forças disponíveis, foi dado sinal de avançar. Agulhetas de um lado, baionetas do outro, e o trovejar dos carros roncando na subida — lançou-se o ataque geral. Das janelas, pessoas a seu salvo davam conselhos e opiniões. Mas tudo contra o lagarto. 
O qual lagarto, de repente (por intervenção das fadas, não esqueçam), se transformou numa rosa rubra, cor de sangue, pousada sobre o asfalta negro, como uma ferida na cidade. Desconfiados, os atacantes hesitaram. A rosa crescia, abria as pétalas, rescendia, lavava de perfume as fachadas encardidas dos prédios. A velha no hospital perguntava: que foi que aconteceu? E então a rosa moveu-se rapidamente, tornou-se branca, as pétalas mudaram-se em penas e asas — e uma pomba levantou voo para o céu azul. 
Uma história assim só podo acabar em verso: 

Calados, muitos recordam, 
Na prosa das suas casas, 
O lagarto que era rosa, 
Aquela rosa asas.

Há por aí quem não acredito? Eu bem dizia: isto de fadas já não é nada o que era."

in "A Bagagem do Viajante"
Caminho, 4.ª edição, páginas 95 a 97