Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Entrega do Prémio Cidade de Lisboa (01/06/1982)


 Entrega do prémio Cidade de Lisboa, ao escritor José Saramago pelo livro Levantado do Chão. A esta cerimónia presidiu o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Abecasis (01/06/1982)

Pode ser consultada via Arquivo Municipal, aqui 

sábado, 25 de abril de 2020

25 de Abril - Continuar Abril - Continuar Saramago


Três obras emblemáticas de José Saramago 
onde o despontar e a presença do 25 de Abril de 1974 marca presença de forma muito vincada. 
O senhor "H" do manual, 
a redacção e as rotativas de A Noite 
os Mau-Tempo no Lavre que resistem à ditadura da fome

25 de Abril de '74

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Revista Blimunda #92 Fevereiro de 2020 "Entrevista a José Saramago por Ernesto Sampaio - Diário de Lisboa / Março de 1980

Publicado na edição #92 de Fevereiro 2020
"José Saramago e o Alentejo: Um livro “levantado do chão”
Entrevista por Ernesto Sampaio"


A edição pode ser consultada e descarregada gratuitamente aqui
em https://www.josesaramago.org/blimunda-92-fevereiro-de-2020/

Levantado do chão, assim se chama o último livro de José Saramago, recentemente lançado pela Editorial Caminho. «Do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira» — explica o autor, que também nos diz que «um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando o terminasse: Isto é o Alentejo». José Saramago, escritor, poeta, jornalista: aí o temos na nossa frente, simples, claro, frontal, para quem escrever é aproximar-se da vida, evocar-lhe as suas altas situações, e para quem a literatura é sempre conhecimento, transformação, libertação.

Diário de Lisboa — O seu livro baseia-se na história de vida de três gerações de uma família de trabalhadores rurais do Alentejo. Como nasceu essa ideia?
Se o 25 de Novembro não fosse o padrasto que é, eu diria que este livro tem no 25 de Novembro a sua paternidade. A situação em que então me achei, sem emprego nem esperança de o conseguir, pôs diante de mim a grande questão: que é que eu vou fazer? Claro que a exigência imediata era o estômago e a conservação do tecto. Deitei mão ao costumado recurso dos intelectuais desempregados: a tradução. Fique dito, de passagem, que até hoje já lá vão cerca de dez mil páginas traduzidas. Mas você falava do livro, perguntava como me veio a ideia... Se o pai é o 25 de Novembro, a mãe é o acaso. O meu primeiro movimento, isto no que toca a perspectivas de produção literária, tinha sido transportar-me para as terras ribatejanas onde nasci, levar a traduçãozinho em estaleiro (por sinal um volumoso tratado de psicologia) e tentar o livro campestre que eu andava a sentir necessidade de escrever. Motivos vários impediram a realização do projecto por aquelas bandas. Além disso, parecia-me errado ir cometer uma espécie de regresso ao ovo natal. Foi então que me ocorreu o contacto que estabelecera, em meados de 1975, com a UCP «Boa Esperança», de Lavre, por causa de uma entrega de livros para a biblioteca que eles andavam a organizar. Escrevi, perguntei se podia ir, como seria isso de comer e dormir, e se havia lugar onde trabalhar, um espaço para a máquina de escrever. Eles responderam: «Venha». E eu fui. Estive em Lavre, da primeira vez, dois meses, depois, por intervalos, umas tantas semanas mais, e quando de lá voltei trazia cerca de duas centenas de páginas com notas, casos, histórias, também alguma História, imagens e imaginações, episódios trágicos e burlescos, ou apenas do quotidiano banal, acontecimentos diversos, enfim, a safra que é sempre possível recolher quando nos pomos a perguntar e nos dispomos a ouvir, sobretudo se não há pressa. Andei por Lavre, Montemor-o-Novo, Escoural, por lugares de gente e descampados, passei dias inteiros ao ar livre, sozinho ou acompanhado de amigos, conversei com novos e velhos, sempre na mesma cisma: perguntar e ouvir.

Quando um alentejano se decide a falar ninguém o cala
Por fim, já nem fazia perguntas. Quando um alentejano decide falar, ninguém o cala. Além disso, também há alentejanos que escrevem. Não serão muitos? Eu tive a sorte de encontrar um. Você pode imaginar o que é estar em conversa com um velho rural de 70 anos, digo eu, dizes tu, e de repente ele abre ali uma gaveta, tira uns poucos cadernos de papel almaço, escritos em letra garrafal e firme, creia que até os erros de ortografia eram firmes: «Está aqui a história da minha vida.» Foi isto que me aconteceu. Levei para ao meu buraco a história de João Domingos Serra contada pelo próprio, li-a nessa mesma noite, a tremer de comoção e frio (era Março), e quando acabei tinha, finalmente, a trave mestra do que viria a ser o Levantado do Chão. Aquela vida verdadeira era como uma fiada de pedras postas a atravessar a corrente torrencial de dados em que já me ia submergindo. Por cima de tal podia agora circular a minha vontade. Mas a vida, se reparamos bem, só é o que vidas forem. A esta de João Serra juntaram-se outras, a do Machado, do Abelha, do Badalinho, do Catarro, do Cabecinha,da Mariana Amália, a de outro João, o João Basuga, meu amigo do coração, e tantos, tantos mais. Quem lhes quiser conhecer os nomes, falo dos que mais perto estiveram de mim, encontra-os na dedicatória do livro. também lá estão os nomes de dois mortos. Não há inconvenientes. Estes vivos e estes mortos fazem boa companhia uns aos outros. Enfim, se eu não tivesse, num dia daquele ardente Verão de 1975, levado livros a Lavre, não existiria este livro. Um espírito malicioso e facilmente hábil dirá que não há certeza de se ter ganho alguma coisa com isso. Ouso crer que não se perdeu.

Estão aí muitos livros por escrever
Pelo menos uma certeza eu ganhei: a de que estão aí muitos livros por escrever, de Norte a Sul, à espera. Eu fui a Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, e escrevi um. Não inventei nada, claro está, ao viajar até ao Alentejo. O que eu fiz, outros o fizeram antes de mim, nesse e outros lugares. Honra lhes seja feita. O meu receio é que poucos estejam dispostos a fazê-lo agora, quando mais necessário é.

Levantado do chão fala de gente real, utiliza testemunhos vivos, mas não é propriamente jornalismo. É literatura de elevada expressão poética. Fala-me dos problemas formais que teve de enfrentar para transformar a vida, que é o suporta da sua narrativa, no objecto estético em que o livro acaba por se transformar.
Boa pergunta, já lhe disse que quando regressei de Lavre trazia comigo uma montanha de apontamentos, notas, registos vários, gravações, documentos. Bastaria arrumar um pouco, sistematizar um pouco, limpar o supérfluo, acrescentar o comentário, aliteratar onde fosse conveniente, afinar o tom. Porém, não foi assim. Quando decidi instalar-me em Lavre, não era essa a intenção que levava. O que eu queria era escrever um romance, não uma reportagem, por mais útil e exemplar que ela pudesse ser, como tantas que felizmente têm vindo a ser escritas, algumas delas excelentes materiais para futuras obras. Mas a decisão de escrever um romance também não era pacífica. Um romance, sim senhor, mas que romance? Modelos, se eu os quisesse tomar, não me faltavam, e ilustres. Muita gente escreveu sobre o Alentejo, alguns escreveram certo e bem. E ainda escrevem. Para mim, poderia ser fácil e fazer-me beneficiar de uma certa e bem humorada condescendência. Assentar os pés nas pegadas marcadas pelos colegas e já aprovadas pela critica, seguir o itinerário, deixar-me ir. Ficava a história contada, o livro rematado, a obrigação cumprida sem excessivos riscos. Também isso não quis fazer. Mas, se sabia claramente o que não queria, tive de esperar que viesse a mim o que fosse meu. Estive em Lavre em 1976, o livro aparece em 1980, quatro anos depois. É certo que entretanto concluí outro romance, escrevi um livro de contos e uma peça de teatro, mas essencialmente, o que eu estive foi à espera de que terminasse o trabalho de germinação que sabia estar a fazer-se. Posso garantir-lhe, com toda a simplicidade e sem disso me gabar, que não tive de resolver quaisquer problemas formais, no sentido que a palavra «resolver» contenha de esforço, tentativa, rectificação, ajuste, pesquisa. Limitei-me a ter paciência, a não forçar o tempo. O livro foi escrito, por assim dizer, em dois períodos: o primeiro de dois dias, para as quatro páginas iniciais; o segundo de alguns meses, para o resto. Entre esses dois períodos tão desiguais, decorreu muito tempo.

«Só poderia escrever o livro se o contasse» 
Até que um dia compreendi (foi uma coisa súbita de que mal tenho memória) que só poderia escrever o livro se o contasse, isto é, transformando-me eu me narrador multiplicado, de fora de dentro, próximo e distanciado, grave e irónico, terno e brutal, ingénuo e experiente, um narrador que ao dizer a realidade, e para a dizer, fosse capaz de a inventar em cada momento. Percebi que isto só poderia ser feito se reconstituísse a oralidade na escrita, se fizesse da escrita discurso no sentido próprio, mas rejeitando sem piedade qualquer tentação de transcrição fonética, que é a pior das armadilhas. Sacrifiquei sem nenhum remorso o pitoresco, a cor local, o folclore. Com isto tudo, não tive de empurrar nenhuma porta, foi ela que se abriu quando me aproximei pelo caminho certo. A partir daí foi fácil. Diria que escrevi este livro com espírito liberto, com a espontaneidade do narrador que se abandona à imaginação e às arcas da memória para tornar diferente as histórias que ouviu, por saber, ou ser sua pessoal convicção, que a diferença é justamente o melhor que a história contém, ou virá a conter, se alguma vez mais vier a ser contada, por mim, por você, pelo leitor. Quer saber como eu me imagino? Imagino-me a contar este «Levantado do Chão» a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando me apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados, alusões directas ou indirectas a casos marginais, questões de famílias, boas ou más vizinhanças, e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova, é maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar, contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.

Obra aberta

Aqui há anos falou-se muito em obra aberta. 
Hoje vai-se dizendo o mesmo, mas com outro vocabulário. Ora, eu, que sou partidário da obra conclusa, no sentido inteiro levado ao extremo (mas existirá tal obra?), descubro-me hoje a reivindicar para este «Levantado do Chão» um estatuto de obra aberta. Aberta ao leitor e também constantemente aberta pelo leitor, solicitado pelo próprio discurso ou decurso do texto a introduzir nele a sua própria memoria e a sua própria imaginação. Tanto mais que eu o preveni logo no princípio: «Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira». Aqui tem o que o autor pensa, não de problemas formais que não teve, mas de questões formais que crê serem suscitadas por este livro. Fico curioso de saber o que pensa a critica. E mais curioso ainda de saber o que pensam os leitores. Mas onde está a comunicação entre o escritor e o leitor?

DL — O que foi, é e será para si o Alentejo, o homem alentejano?
Do que o Alentejo foi, creio que o meu livro dará uma ideia. Do que ele é, também este livro saberá dizer alguma coisa. Por exemplo, a repressão violenta, que em nada se distingue dos tempo do fascismo: exprime o mesmo ódio ao trabalhador agrícola. Quanto ao que o Alentejo será, não tenho dúvidas. Será uma terra de mulheres e de homens donos da sua vida. Quando? Isso não se dizer. Mas sei que gostaria de ainda poder ver no nosso País a fraternidade de trabalhadores que encontrei junto dos meus amigos do Alentejo. O que ali está em gestação é, em sentido literal, um homem português novo.

E a reacção sabe-o. Sabe e teme. Por isso é que são os insultos, os vexames, as agressões e as mortes. É o mundo velho a querer estrangular o mundo novo. No meio de tudo isto, que vem fazer o meu livro?
Hoje é um testemunho. Amanhã, faço votos por que seja um simples artefacto arqueológico, fora de uso, ou, quando muito, e não será pouco, um registo para a memória colectiva. Há-de ser possível dizer um dia: «Pensarmos nós que a vida no Alentejo foi assim...». É claro que não posso deixar de exprimir, um outro voto, mais egoísta: que mesmo nessa altura, graças a algum valor literário que hoje tenha e então conserve, ainda o Levantado do Chão seja lido. 


Ilustrações Manuel Ribeiro de Paiva
(algumas das que constam na publicação)






quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

"Invitation au voyage L’Alentejo de José Saramago" de Linda Lorin para o canal Arte (em Françês)

"Invitation au voyage
L’Alentejo de José Saramago / Malaisie / Le pont de Brooklyn"

A reportagem pode ser consultada aqui
em https://www.arte.tv/fr/videos/091152-007-A/invitation-au-voyage/?fbclid=IwAR3wdwIJNxuZtzrPDOha4Oq16PZGh-NtNHsjDcZ5r7dOUNncElcITcml32o

"Linda Lorin nous emmène à la découverte de notre patrimoine artistique, culturel et naturel. Dans ce numéro : L’Alentejo vibrant de José Saramago - So british, la Malaisie des Cameron Highlands - Sur le pont de Brooklyn, ça trompe énormément.

L’Alentejo vibrant de José Saramago
En 1976, José Saramago, alors journaliste au chômage, séjourne dans la région de l’Alentejo au Portugal. Le futur prix Nobel de littérature puise dans ces terres sèches et dans le destin tourmenté des travailleurs agricoles l’inspiration pour écrire "Relevé ""de terre", l’un de ses romans majeurs."


terça-feira, 17 de julho de 2018

Sobre António Mau-Tempo

(...) "grande contador de histórias, vistas e inventadas, vividas e imaginadas, e terá a arte suprema de apagar as fronteiras entre umas e outras" (...)
Levantado do Chão, pag. 124

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Levantei-me do Chão" de Carlos Marques baseado na obra de José Saramago (via revista Blimunda #46 - Março 2016)


A revista Blimunda, edição #46 de Março de 2016, apresenta em detalhe a sequência do espectáculo. Pode ser consultado e recuperado (download gratuito), aqui
em https://pt.scribd.com/doc/305720205/Blimunda-46-marco-de-2016

"Levantei-me do chão é um projecto de Carlos Marques/Algures, co-financiado pela Dgartes e pela autarquia de Montemor-o-Novo. Após andar por onde as personagens do Levantado do Chão de José Saramago andaram a sobreviver, o projecto chega finalmente a Lisboa, ao Auditório da Fundação José Saramago no dia 30 de março, sob a forma de concerto teatral em torno das palavras de Saramago. Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro. A partir de Levantado do Chão de José Saramago e outros textos: "Fall Collection" de Rui Pina Coelho; "O Medo de Existir" do José Gil, "A paisagem e as palavras que lá estão" de Fernanda Cunha, do discurso de Pilar Del Río aquando da sessão comemorativa dos 30 anos da obra, inspirado pelos filmes Network de Sidney Lumet e Asas do Desejo de Wim Wenders e Peter Handke; pela música de Gilberto Gil, Man Man, Zeca, Zé Mário, Fausto, Sérgio Godinho... entre tantos outros."

Fotografia e disposição cénica do palco

Dois repórteres, ouvem-se estrondos, bombas gritos.
Repórter 1 - Um enorme estrondo. Não se sabe de onde vem. Milhares de pessoas na rua.
Repórter 2 - Um enorme estrondo. Milhares de pessoas na rua. Uma enorme manifestação. Polícia nas ruas. Milhares.
Repórter 1 - Um estrondo. Este foi o maior. Estilhaços por todo o lado.
Repórter 2 - Há um cão imóvel. Um cão no meio da praça, parado.
Repórter 1 - Toda a gente na rua. Uma confusão enorme. Uma explosão. Um estrondo. Todos correm de um lado para o outro. Há uma massa enorme de gente que ocupou a praça principal da cidade e que – Ouve-se um novo estrondo  –Atenção, um novo estrondo. Há uma massa enorme de gente que ocupou a praça principal da cidade e que – Ouve-se um novo estrondo  – Mais um estrondo. Montras partidas. Há vidros por todo o lado.
Repórter 2 - Atenção. Há um homem na praça.
Repórter 1 - É um homem que perdeu o emprego e que veio para o meio da praça.
Repórter 2 - Parado? No meio da confusão. Toda a gente corre. Menos ele. É isso? Não sai dali há horas. Está ali parado há horas. No mesmo sítio.
Repórter 1 - Acho que mexeu uma mão.
Repórter 2 - Deve ser um marxiano, do planeta Marx. Do vermelho planeta Marx. O homem desempregado.
Repórter 1 - A praça encheu-se de gente. Toda a gente foge, de um lado para o outro.
Repórter 2 - O homem desempregado continua pregado no meio da praça – ESTRONDO
Repórter 1 - Outro estrondo, o maior, Há roupa, madeira, mobília – ESTRONDO 
Estilhaços por todo o lado, É impossível dizer o que se está a passar. Um estrondo.
Repórter 1 - O fumo dissipa-se, Há pouco ouviu-se mais uma explosão, Um estrondo. Deve ser um marxiano, do planeta Marx. Do vermelho planeta Marx.
Repórter 2 - O fumo dissipa-se, Tudo assenta, mais tarde ou mais cedo.
Repórter 1 - O que é que ele tem na mão?
Repórter 2 - Os estilhaços, Os pensamentos.
Repórter 1 - É um homem que perdeu o emprego e que veio para o meio da praça.
Repórter 2 - Com cartas de amor na mão?! Aquilo não são cartas de amor. Aquilo são… -
Repórter 1 - Não consigo ver. Parece um livro...
Repórter 2 - Parecem notas antigas ... que saíram de circulação.
Repórter 1 - Não consigo ver. Seguramente São papéis, mas não percebo bem o que...
Outro estrondo enorme.Um homem atravessa o palco coberto de panos brancos que escondem mobiliário. Levanta um muro ao fundo. Por baixo dos panos estão instrumentos, microfones, um enorme aparato do que antes foi um estúdio ou um palco de um concerto. Ele começa a tocar.

Canção 1 - "Luta pelo pão"
"Luta por trinta e três escudos
Luta pelas oito horas
Contra o medo da morte 
Luta por amanhã
Medo de fuzilamentos,
Contra a manipulação.
Luta por eleições livres
Luta por amanhã
Luta p´lo pão, 
Luta p´lo pão 
Luta, luta, luta, luto.
Contestação, Contradição, Reclamação
Impugnação, oposição, indignação 
Morreu a proletária ditadura
A ditadura do mercado já nasceu há muito 
Encurralados, crucificados
Nos malabarismos dos mercados
Luta por 40 horas
não à privatização luta pela água fresca
Luta pela alimentação"


"Canção 2 – Tanta palavra"
"Primeira Geração: Tempo do silêncio e da resignação 
Segunda Geração: Tempo das perguntas, levantem-me do  chão 
Terceira Geração: Tempo da resistência, levantem-se do  chão 
Quarta Geração: Tempo de liberdade, Levantados do chão 
Quatro Gerações, terríveis condições
mudança ao longo dos tempos
Muitas privações, efabulações, uma só família Mau Tempo 
Domingos e Sara casaram 5 filhos tiveram
O mais velho é João que casou com Faustina
Três filhos tiveram: António, Amélia e Gracinda
Amores e paixões no meio de contradições.
Tanta palavra, tanta página, tanto verso, tanto dizer 
O homem com que mais aprendi não sabia ler nem escrever 
António é narrador, Amélia vai pra Lisboa, Gracinda se enamorou
O coração disparou por Manuel Espada e mais tarde se casou
Um rebento tiveram, filha da liberdade Seu nome Maria Adelaide e acabou-se a austeridade 
Gente, solta e miúda, que veio com a terra
Mas que não está registada na mesa da escritura
Tanta palavra, tanta página, tanto verso, tanto dizer 
O homem com que mais aprendi não sabia ler nem escrever 
Cantemos ainda Lambertos, Norbertos, Latifundibertos, Etctribertos
Gente de origem germânica que não muda de nome,nascidos uns dos outros
Os donos da terra, que serão sempre os mesmos
Papões, comilões registados na escritura
Com o sangue nas mãos são martelos para os cães....
Aí está a terra, seus donos, o pão e o trabalho"

Após o espectáculo, Carlos Marques falou com o público, 
num momento em que todos sentiram fazer parte desta arte de palco

"Memória da Maria Adelaide"
"O que mais há na terra é paisagem, por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou. A paisagem é sem dúvida anterior ao homem. Não faltam cores a esta paisagem... tanta paisagem.
Um homem pode andar por cá uma vida inteira e nunca se achar, se já nasceu perdido. E tanto lhe fará morrer chegada a hora. É sabido que as paisagens morrem porque as matam, não porque se suicidem. Mas isto são histórias que levam séculos a contar.
Há livros que não têm pressa de ser lidos.
Há livros que não têm pressa de ser lidos.
Há uns anos atrás deram-me um livro que não conseguia ler. Lia uma página, duas e não conseguia passar dali. 
Não percebia nada, era confuso, não conseguia passar da segunda página.
Se calhar não tivemos nem poesia suficiente, nem teatro suficiente, nem música suficiente, arte suficiente, nem educação alargada que nos desse alguma coisa diferente disto tudo.
Opá, lê em voz alta – Então, li em voz alta.
Escutei as palavras, como se me pertencessem, como se fizessem parte da minha história. Mas até parece que é proibido consumir poesia... pode haver um perigo de contaminação! “Quando a palavra da poesia não convier à política, é a política que deve ser corrigida” disse a Sophia."



Canção 3 – "Song Train ou o Princípio"
"Chamo-me Domingos Mau-Tempo e sou sapateiro – Mau tempo trouxe vossemecê. É assim que começa a saga desta família. Numa carroça, Domingos, bêbado, sua mulher oprimida Sara e o filhote João de olhos azuis. 
De terra em terra Sara vai engravidando e totaliza cinco filhos e Domingos, na errância dos caminhos acabará por se enforcar. Sara acabará louca.
Com o suicídio do pai, é chegada a vez de João Mau Tempo de ser o novo homem da casa. Dono de coisa nenhuma, pois nem merenda leva quando cava.

Todos os dias levanta-se ainda noite fechada, caminha meio a dormir com o estômago frouxo até ao lugar do trabalho e “ós depois”, até o sol posto, para tornar a casa, outra vez de noite morto de fadiga, se não é já transe de morte.

Passa o tempo dá-se a Primeira Grande Guerra... e muito comia a guerra. À guerra vão os heróis, mas João não tem corpo de herói. Está crescido o rapaz! Mas não tem corpo.
Não tem corpo, mas apaixona-se. E quem é que nunca se apaixonou? Conhece o seu grande amor, Faustina, começam a namorar e decidem casar, porém como a família da donzela é contra, fogem, em pleno inverno, levando um pedaço de pão com chouriço para comer pelo caminho: de mãos dadas os dedos tremiam, e talvez rendidos pelo medo, pelo frio e pelo cansaço acharam-se deitados. Os olhos fecharam-se, o cérebro tentou parar o tempo, e o coração disparou.
E em pouco tempo perdeu Faustina a sua donzelia, e, quando terminaram, lembrou-se João do pão com chouriço, e como marido e mulher o repartiram.

Faustina minha mulher que comigo repartiste o pão com chouriço numa noite de inverno e ficaste com a saia molhada, tantas saudades. Isto dirá João quando morrer.
É bonita esta história, não é?
Três filhos tiveram: António, Amélia e Gracinda.
Enquanto isto o povo continua a viver oprimido pelos latifundibertos. É bom, dizia o “papãoberto” no seu jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler nem escrever nem contar nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, que só o trabalho dá dignidade e dinheiro.

Uns porém já se começam a levantar, naquele singular sentido que é acordar em pleno meio dia e descobrir que um minuto antes ainda era noite.

O tempo passa, os miúdos cresceram, e António, o filho mais velho, já começou a trabalhar, trabalhar, trabalhar..."



Canção 4 – "Oh minha mãe dos trabalhos"
"Ceifar, gadanhar, debulhar | malhar o centeio, tapar o palheiro,
Lavrar, enfardar, semear | espalhar o adubo, enxertar as vinhas
Podar, argolar, montear | abrir as covatas,
Cavar, varejar, ensacar | trabalhar, trabalhar, trabalhar

Oh minha mãe dos trabalhos, oh minha mãe dos trabalhos
Para que trabalho eu, ioai para quem trabalho eu
Trabalho mato o meu corpo, trabalho mato o meu corpo
Não tenho nada de meu, para quem trabalho eu

Diz-me lá patrão Alberto, Diz-me lá patrão Lamberto
Que triste pensar o teu, Que triste pensar o teu
Se não mudares de sentido, Se não mudares de sentido,
Morres tu e morro eu, Que triste pensar o teu…

Ó minha mãe tenho sede, Dê-me "auga", quero beber.
Tenho sede e tenho fome, Ninguém de mim quer saber.
O que aí vai, santo deus, de palavras tão bonitas, tão de enriquecer os léxicos, bem aventurados dos que trabalham. 

Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.

Salazar já havia assumido o poder. Entre os trabalhadores começa a haver burburinhos, reuniões clandestinas. Mas os patrões não são estúpidos. NÃO!!!

Sabem lá eles o que são greves, são rapaziada
mas quatro vão presos duma assentada e quando soltos:
Rapazes, tenham cuidado, nunca mais voltem a fazer terrorismo e não se iludam com doutrinas falsas.
E de repente a vida vira-te do avesso e descobres que o avesso é o teu lado certo.
Um jovem idealista, chamado Manuel Espada se destaca, por ser revolucionário."



Canção 5 – "Quotidiano"
Um homem olha para cima, desesperado outro tropeça
Um cantor estica a cara, uma criança chora na rua
Um homem tem uma pedra em cada mão
Outro grita à carga no meio da confusão
Que mundo é este em que vivemos? Tudo falha podes sempre chorar

Para te fazeres entender tens de por a música a tocar
Manuel Espada acabará por se apaixonar por Gracinda Mau Tempo, irmã de António que será grande contador de Histórias. E quem é que nunca se apaixonou?
Gostava de namorar contigo.
Ela respondeu, apenas olhando, foi quanto bastou. Mais tarde irão casar!
Vão ter filhos, vão ser felizes para sempre. Para sempre mesmo, porque já vivem numa sociedade justa. Livre. Que se questiona, que se organiza. Com igualdade de oportunidades. Homens e mulheres com os mesmos salários. Possibilidade de escolha.

A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Liberdade. A sério. 
E vivem da riqueza que produzem. Podia ter sido isto que aconteceu, mas não. Não foi nada disso que aconteceu. Mas podia ter sido. Brecht explica isto bem melhor que eu.

É o mesmo que acontece no romance com o Zé Gato. Um herói que não é bem um herói, mas podia ser ou então é-o em sonhos... nem sei bem. Eu gosto de pensar que é.O Zé Gato passava o tempo a roubar os ricos, nunca roubou os pobres. Roubava animais, hortaliças, as espingardas dos feitores, roubava tudo e claro está dinheiro. E nunca era apanhado... era assim tal como no faroeste: um justiceiro da série Bonanza.
Só anos mais tarde é que foi pilhado em Vendas Novas. Estava amantizado com uma mulher que vendia hortaliça. Dizem que foi ela que o denunciou, após uma acesa discussão, mas isso não sei. Dizem que o enviaram para Lisboa e depois foi para as colónias como polícia do estado... custa-me a crer, dizem também que o mataram em Lisboa. Dizem tantas coisas. Tinha coisas boas este Zé Gato... uma vez encontrou uma mulher a chorar que lhe contou que o Parrilhas (um da sua quadrilha) lhe tinha roubado o aviozito. O Zé Gato não esteve de modas, foi direito ao Parrilhas, parecia uma flecha, deu-lhe a maior sova da sua vida. Coitado do Parrilhas, mas foi bem feito! Dizem que só se meteu naquela vida de ladrão, porque não ganhava para comer no trabalho.

E depois vem aquele capítulo, mesmo no meio, na terceira geração, no tempo da resistência.
Germano Santos Vidigal por inteiro. Um livro composto páginas e páginas e páginas, reuniões clandestinas, torturas, ameaças, agitações políticas. Por 33 capítulos. No 17.º – praticamente a meio – levam--no dois guardas, levam-no da praça, à saída da porta juntam-se mais dois, parece mesmo de propósito, é tudo a subir, para o posto, como se estivesse a ver um filme sobre Cristo ou outro mártir qualquer. E já na sala vemos através daqueles olhinhos compostos, são dois olhinhos e cada olhinho é feito de mil olhinhos pequeninos naquele carreirinho – até parece que vemos cada punhada com a força de mil murros, e o sangue é um mar latifúndio.



Canção 6 – "Zé Gato"
"Sigismundo Canastro andava à caça, ele nem era nada desajeitado a caçar, não senhor. Nessa altura andava sempre com um canito que havia ensinado para andar nas caçadas. E num dia no meio do mato alevanta-se uma perdiz e ela vai como um raio. O Sigismundo mete a espingarda à cara e BUM ... mas nem com um bago de chumbo acertou no bicho. Mas o Constante, era assim o nome do canito, corre em direção à perdiz e sumiu-se-lhe. Por mais que o dono chamasse, assobiasse, o animal não aparecia.
Passados dois anos calhou ir para aqueles lados e de repente o que é que ele vê? O esqueleto do cão, ali de pé, a marrar o esqueleto da perdiz, e estavam naquilo há dois anos, cada qual na sua firmeza.Parece que estou a ver, o “Cãostante”, com o focinho esticado, a pata alevantada, não houve vento, nem chuva que lhe soltasse os ossos.

Não houve vento, ou chuva que lhe tirasse a firmeza. Qual coluna vertebral, erguida, firme, fiel.
Devia ter lido mais. Saber mais. Mais Constante. Devia ter contado mais histórias. Repetido a cassete mais vezes. Há uns anos atrás contava histórias para mudar o mundo,Hoje repito a cassete para que o mundo não me mude a mim. Para não me contentar com isto.

Devem achar que sou um marxiano, que acabei de aterrar do Planeta Marx, do vermelho planeta Marx e que venho aqui para os conquistar, para os colonizar.Passaram-se mais de 40 anos sobre a “madrugada que eu esperava. O dia inicial inteiro e limpo”. Gracinda casa-se com Manuel Espada terão uma menina – Maria Adelaide – é ela que assiste ao fim da ditadura. Não! É ela que assiste à festa de Abril."

Memória de Maria Adelaide
É como se tivesse vivido sempre com os olhos fechados e agora, enfim, os tivesse ‘abrido'.


Canção 7 – "Sou mulher de trabalho" a partir de “Canção Sem Maneiras” dos GAC
"Senhores, sou mulher de trabalho,
e falo com poucas maneiras, porque as maneiras,
são como a luva que calça o ladrão.
Às vezes, eu ponho-me a pensar,
na vida das trabalhadeiras, e nas canseiras,
com que ganhamos a fome e o pão.
Há tanta gente como eu, tantos que pensam como eu, 
Sou mulher de trabalho.
enquanto não formos nós a mandar, O fascismo que vai regressar.
Sou mulher de trabalho

A menina cresceu e cedo percebeu que não foi criada para ser princesa, mas tem sonhos. Quem não os tem?Maria Adelaide sonhou com uma senhora empunhando uma bandeira com as maminhas ao léu. Sonhou que fazia parte de uma democracici. Que tinha voz activa numa democracra... onde se discutia tudo até a própria demomomomo... e reparou que a senhora das maminhas ao léu era a própria dededede... e que estava junto de uma outra senhora que segurava um archote na mão e que lhe dizia “vai correr tudo bem”.

Às vezes, cheguei a acreditar,
que a nova democracia, acabaria, 
com o fascismo e a exploração.

Senhores, sou mulher de trabalho,
estou farta dessas brincadeiras,
E digo às minhas companheiras
Um mundo novo está para chegar.

E então a ocupação das terras alastra-se como os malmequeres:
Somos trabalhadores, não viemos roubar."


Canção 8 – "Medley interventivo" 
"Canta o Sérgio Godinho
 Já estou velho e cansado pela vida que eu passei 
Tantas vezes eu penei e por vezes maltratado 
Tudo o que por mim passou tudo o que por mim passou
Coisas que o tempo levou e não tornam a voltar 
Quem eu era já não sou


Canta o Fausto
Quando a CEE chegou
havia pilim por todo o lado e aí está o resultado do mal que nos causou
assim que a magana entrou
começou logo a correr mal desapareceu o capital foi dinheiro, 
foi o ouro ficaste sem teu tesouro 
Ó meu lindo Portugal Etc e tal.

Canta o José Mário Branco
Tudo quando é ruim Já nem sei o que vem a seguir (E7, Am7)
Até já mandaram vir Para cá o FMI (Dm, G, D)
Agora o Pobre que chore No meio desta trapalhada D, G, C, C dim)
Neste país moribundo Só há conversa fiada
Conversa fiada

Vamos dar emprego a toda a gente
Agora vai ser tudo diferente
Vamos votar para o bem da nação
Vamos levantar-nos do chão

Canta o Zeca Afonso
Meus Avós eram de cá Meus tios viveram aqui 
Os montes para mim É terra do melhor que há
Vá eu para onde vá
Nunca os esquecerei Tantas vezes os visitei 
Dos montes sempre gostei 

E por aí fora...
Parecia que a luta tinha acabado ali e que a democracicici resolveria tudo. Mas a verdade é que ninguém sabia muito bem para onde ir. O livro termina com o cão Constante
neste dia levantado e principal. E se Maria Adelaide começar a chorar não se admirem.

Ela teve o primeiro filho em 78...
Ela dizia-me – A crise surgiu por causa dos políticos Então, para acabar com a crise, dizia eu, os países deviam juntar-se e fazer dinheiro falso. Ela ria-se. Sabes, é complicado inventar uma máquina de fazer dinheiro.
Então não deveria haver países.
É isso, abolir as pátrias. Quero ser apátrida. Quero ser daqui, dali e de todos os lugares. Estou cansado de continentes, de federações, de uniões, de países. Farto defronteiras. Do norte do sul. De linhas imaginárias que nada imaginam senão ganância. Estou farto de tanto arame farpado. De tão altos muros. De tão curtas vistas.
Quero que se lixem as fronteiras, os passaportes e os cartões de cidadão.
Quero um mapa mundi do tamanho do horizonte, sem interrupções que não sejam as geográficas. Dos rios, serras, mares e oceanos. “Tanta paisagem”. E neste mapa sem muros, desejo ser apenas um ponto no território.Um ponto de fuga. Um ponto em movimento constante em direcção a lugar nenhum. Apaguem definitivamente o meu código postal. Quero ser Apátrida!

I wanna be a rock star.

Depois veio a adolescência... essa parte foi complicada, é melhor nem falar disso, mas lembro-me de pensar que gostaria de ser dono de um banco – acho que seria muito
bom a acumular dinheiro alheio."


Canção 9 – "I wanna be a rock star" 
"I wanna be a rock star.
Arreganhar os dentes na BRAVO, ou na “Super Som”.
Comprar uma Fender Stratocaster e um amplificador bem grande.
Fazer uma banda punk sei lá,Fazer um LP com a capa do muro de Berlim a cair.

Nevermind! O Grunge morreu e foi aí que comecei a ler... “Opá, lê em voz alta” – disse ela, agora vais para a Universidade.
Uau. Letras. Livros, jornais, música, teatro a potes, cultura... sai da toca moço. Adeus mãe. Naquele tempo o André, o Luís, o Nuno, o Marco.. a Patrícia. Parecia que podíamos mudar o mundo, sei lá!

Foi na faculdade que aprendi algumas palavras “importantes” por exemplo: Acordo, Barba, Boina, Crença, Contubérnio, Pernóstico, Verfremdungseffekt esta foi difícil. Foi o senhor Brecht quem me ensinou e outras, que agora não me lembro.
Quem cede nas palavras, cede nas ideias. Disse ela!
Depois veio a primeira entrevista – nem penses em ir de calças de ganga.
Está bem Maria Adelaide.
Porque é que me deviam contratar?
O que procuro com este trabalho?
Quanto penso receber com este trabalho?
Falar um pouco sobre mim?! – Então, gosto muito de correr, não. Eu gosto de ler, ir à praia... tenho um cão.O meu emprego de sonho? – De horário flexível e com boas – sabiam que na Noruega o horário de trabalho começa no momento em que apanhas o comboio para ires trabalhar.
Se sou uma pessoa versátil? Acho que sim... Acham que me vão perguntar coisas destas? Eu acho que eles tiram a pinta de um gajo e pronto, ou então já está tudo acertado antes. Querem lá saber. Quando muito perguntam-me se não me importo de ser fodido todos os dias e de ganhar uma merda.

Sabedoria popular:
Qual é coisa qual é ela: A mais constante de todas as medidas.

É um eixo para que determina os dias e as noites do Homem
Estes giram, giram, giram, quando o ganham só consomem
O que é?
Trabalhar, consumir e o medo de perder o emprego.
Mas que emprego?
Eu apenas tenho medo de perder a voz. Ou de ficar gago...Vai correr tudo bem. Respira."


Canção 10 – "Respira "
"Respira... vamos na luz da manhã
Vamos partir, sem ninguém saber.
Não há mais nada a fazer, nada a fazer, nada a fazer
Mas sabemos quem são, e onde estão,
Sabemos onde vivem por mais que se escondam
Temos coisas a dizer, não podem continuar a fugir de nós.Tens de encontrar o que deixaste lá no passado e te enfureceu
Estás de braços caídos, goela apertada, mas vai correr tudo bem.
Respira vamos na luz da manhã, vamos partir sem ninguém saber...

Os mortos acompanham-nos nesta caminhada, vamos todos, os vivos e os mortos e temos nome: Maus Tempo! Ter nome é ter condição política. Ter nome é assinar um fazer e o fazer é inscrever o nome. Inscrever o nome é ter coragem. É saber de que lado da trincheira se está. Sem nome temos o silêncio. Assinar com letra maiúscula é ser herói. Vivemos de convenções. É como a pontuação. Puras convenções. Porque é que não posso falar com a Maiúscula que me pertence?... Eu estou a falar em maiúsculas.Os homens “não nascem para morrer, mas para começar”. Cada nascimento é uma possibilidade de acontecer aquele acontecimento único que rompe o ciclo “natural” da história. Não há um único morto pela liberdade em cujo túmulo não cresça uma sementinha de liberdade, dando sementes também. Heróis, Ainda há heróis? Para fazer uma revolução? Não de cravos, nem de espingardas... mas de nomes. A revolução dos nomes. Não serão os heróis – os verdadeiros – heróis improváveis?

Eu não vos tenho que dizer que as coisas estão mal. Toda a gente sabe que estão. É uma depressão. Sabemos que o ar está a ficar irrespirável e que aquilo que comemosé só lixo.
Sentamo-nos em frente aos pêcês, ou têvês, ou vê-é-le-cês ou dabliu-cês, ou éle-éssedêss... tanto faz onde, enquanto a caixinha nos diz “é a vida! vemo-nos amanhã”

Mortos palestinianos e israelitas
Um novo grupo de formigas que foi solto num campo de trabalho,
O auto denominado estado islâmico pode estar a preparar um novo ataque,
Descobertas centenas de vítimas em contentores no Afeganistão,
Maus tempo que saltam muros na fronteira da Grécia
Maus-tempo que atravessam o mediterrâneo em frágeis barquinhos
Maus Tempo que esperam em filas nos hospitaisUm grupo de Maus Tempo que perdeu o emprego num despedimento colectivo 
Números de refugiados, números que nunca batem certo – dependendo do ponto de vista, é claro - e no fim surge uma notícia como que uma luz divina, que redime:

Nasceu um bebé panda no zoo de Pequim
É a vida, vemo-nos amanha

E um grande sorriso do pivot
Pelo meio ainda tiveste a oportunidade de ver um anúncio para te convencer a seres voluntário de uma mega empresa a troco de um livre trânsito num festival qualquer da moda, que ela própria patrocina – mas atenção tens de saber, pelo menos, três línguas, ter carta de condução e boa aparência, claro. E um tempo de antena para o qual já ninguém tem pachorra. E tudo isto é normal... como se fosse normal. Devia ter lido mais. Ser mais constante. (pausa)

Uivemos disse o cão. Não sei o que dizer desta crise, do preço das coisas, da mão de obra barata, dos combustíveis, dos impostos, da inflação, dos bancos, dos plafonamentos, dos números, défice... só sei que antes de tudo, temos que nos enfurecer. Arreganhar os dentes.

Levantar a cabeça como os cães e dizer: a minha vida tem valor. Porra (pausa) bom... peço-vos que se levantem das vossas cadeiras e que gritem comigo: estou raivoso e não vou aguentar mais esta merda! e só depois é que podemos falar sobre a inflação, a depressão, o emprego, a crise... mas primeiro temos que nos levantar das cadeiras e ficar raivosos.

Pausa

Eu gostaria de voltar a ser criança. 
Recriançar-me...Não consigo discutir em espaços públicos.
Cantar só com efeitos, desafino para caraças.Nunca escrevi uma música

Tenho horror a que descubram a fraude farfalhuda que sou
O meu maior medo? Perder a voz... ficar gago
Quando tusso olho para a mão a ver se não cuspi sangue
Não estou assim tão doente
Mas às vezes gosto de pensar que tenho uma costelinha de Tchekov...Brecht, está a ficar lá atrás!Não tenho história nenhuma a contar, já disse o que tinha a dizer.

Mais vale ter de levantar do chão do que nunca cair."



Canção 11 – "Constante" 
"Constante, Invariável firmeza, provém do lobo cinzento
Noventa e nove porcento, e já lhe cheirou a comida
Bom caçador, Vigoroso corredor, avança com máscaras de gás
Tu nem sabes do que é capaz e já ouviu da terra um tremor

Que dizia
Não vamos a lado nenhum, somos a ameaça preguiçosa
Não vamos a lado nenhum, Também não vamos pedir esmola
Não vamos aparecer nos escritórios, nem nas fábricas ou escolas
Nem tão-pouco às oficinas, muito menos aos estaleiros
Não vamos aos mercados, nem aparecer na TV,
Vamos ficar à espera e cair como um martelo"

Fim

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mais datas - "Levantei-me do Chão" a partir da obra de José Saramago "Levantado do Chão" Criação de Carlos Marques

Mais informação, aqui

"A partir de Levantado do Chão de José Saramago
Criação de Carlos Marques"

AGENDA 2016 
– 24 de Abril | Montemor-o-Novo 22:30 (Biblioteca Municipal, comemorações 25 de abril)
– 26 e 27 Abril | Montemor-o-Novo (Biblioteca Municipal, Serviço Educativo)
– 29 de Abril | Cabrela 21:30 (Casa do Povo)
– 30 de Abril | Cortiçadas de Lavre 21:30 (Centro Cultural)
– 17 e 18 Junho | Évora 21:30 Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

domingo, 3 de abril de 2016

Revolta dos camponeses em Montemor-o-Novo - "Levantado do Chão"

(...) "A Montemor vamos segunda-feira, reclamar o pão dos filhos e dos pais que os devem criar, Mas isso é o que sempre fizemos, e os resultados, Fizemos, fazemos e faremos, enquanto não poder ser diferente, Canseira que não acaba nunca, Um dia acabará, quando já estivermos todos mortos e ao de cima vierem os nossos ossos, se houver cães que os desenterrem, Vivos haverá bastantes quando chegar esse dia" (...) Página 308

Fotografia: Helena Mesquita

(...) "Já os gritos começaram, Queremos trabalho, queremos trabalho, queremos trabalho, não dizem muito mais do que isto, só daqui e dalém um insulto, ladrões, e tão baixo como se de os haver se envergonhasse quem o lança, e há quem grite, Eleições livres, agora que adianta, mas o grande clamor sobe e abafa todo o resto, Queremos trabalho, queremos trabalho, que mundo este haver quem de descansar faça ofício e quem trabalho não tenha, mesmo pedindo. Alguém o sinal deu, ou estaria combinado que durando o ajuntamento tantos minutos, ou então telefonou Leandro Leandres, ou o tenente Contente, ou o presidente da câmara espreitou pela janela, Lá estão os cães, fosse como fosse, a guarda montada desembainhou os sabres, ah, mãezinha, que até a gente se arrepia toda, só de ver esta coragem, esta carga de heróis, já me ia esquecendo do sol, deu nas lâminas polidas e foi uma luz divina, fica um homem a tremer de comoção patriótica, aqui veremos quem se nega. Rompem os cavalos a trote, que o espaço não dá para cavalarias mais arrebatadas, e logo ali vai ao chão um magote de gente que tenta escapar-se por entre as patas e as sabradas. Pode um homem ficar-se com este vexame, mas às vezes não quer, ou de repente cega, e então o mar levanta-se, levantam-se os braços, as mãos travam as rédeas ou trazem pedras apanhadas do chão, ou nos bolsos vieram, é o direito de quem outras armas não tem, e lá de trás voaram, o mais certo é não terem atingido ninguém, cavalo ou cavaleiro, uma pedra assim, ao acaso, se pedras houve afinal, quando cai vai morta. Era uma cena de batalha digna de figurar na sala do comando ou na messe dos oficiais, os cavalos empinados, a guarda imperial de sabre desembainhado, sovando de prancha ou fio, consoante calhava, a personagem insurrecta que corria para trás numa maré que logo tornava, malditos. Esta foi a carga do vinte e três de Junho, fixai bem a data na memória, meus meninos" (...) Página 313

Fotografia: Helena Mesquita

(...) "Está morto José Adelino dos Santos, apanhou com uma bala na cabeça e primeiro nem acreditou, sacudiu a cabeça como se lhe tivesse mordido um bicho, mas depois compreendeu, Ah malandros que me mataram, e caiu de costas, desamparado, não tinha ali a mulher que o ajudasse, fez-lhe o sangue uma almofada debaixo da cabeça, uma almofada vermelha, muito obrigado. Tornam a aplaudir no castelo, adivinham que desta vez foi a sério, e a cavalaria carrega, dispersa o povinho, é preciso recolher o corpo, ninguém sem aproxime." (...) Página 314

in, "Levantado do Chão"
Caminho

sexta-feira, 1 de abril de 2016

"Levantei-me do Chão" de Carlos Marques (Projecto Rise Up) - Teatro Meridional - 7 a 17 de Abril

Todas as informações aqui, 


Flyer de apresentação dos espectáculos


Informação constante na página do Teatro Meridional, aqui

"LEVANTEI-ME DO CHÃO 
a partir de Levantado do Chão de José Saramago

SINOPSE
Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade. Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto. Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado. Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
CRIAÇÃO, DRAMATURGIA, COMPOSIÇÃO MUSICAL E INTERPRETAÇÃO Carlos Marques APOIO À CRIAÇÃO Susana Cecílio  
DISPOSITIVO CÉNICO Nuno Borda de Água 
COMPOSIÇÃO MUSICAL João Bastos 
VÍDEO Rodolfo Pimenta 
DESIGNER GRÁFICA Susana Malhão 
FOTOGRAFICA DE CENA Município de Montemor-o-Novo 
PRODUÇÃO NA CRIAÇÃO Candela Varas 
RESIDENCIA ARTÍSTICA Espaço do Tempo 
PRODUÇÃO ALGURES COLECTIVO DE CRIAÇÃO APOIOS Secretaria de Estado da Cultura - Direcção Geral das Artes; Município de Montemor-o-Novo, Fundação José Saramago.


quinta-feira, 31 de março de 2016

Roteiro de leitura sobre a obra "Levantado do Chão"

Um roteiro não nos mostra o local físico, porém, 
nos orienta pelos caminhos a percorrer até ao seu destino.
São 68 pontos de interesse, onde se acompanham os caminhos percorridos pelas gerações da família "Mau-Tempo" entregues à vida escrava do campo, sob tortura dos latifundiários e a conivência da Igreja, aqui representada pelo padre Agamedes, e a vigilância da guarda e PIDE, 
criadas para proteger os grandes senhores das terras 
É a minha visão sobre a obra e a experiência de a tornar a ler. Apelidei-a de "Ensaio sobre a Penúria"
Rui Santos (3 a 30 de Março de 2016)

Edição da Porto Editora com titulo escrito por Mia Couto

Sinopse da obra, via Fundação José Saramago, aqui
"A transformação social. A contestação. Personagens em diálogos. As cruentas desigualdades sociais. Surgem as perguntas proibidas. Vai-se adquirindo consciência e espaço, para que tudo se levante do chão. Um livro composto por 34 capítulos. No 17.º está a tortura e a morte de Germano Santos Vidigal. Germano, o nome que significa irmão, o homem da lança. Apesar de vencido, o sacrifício da sua vida indica o caminho. «Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do setor seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto.»As mulheres são também chamadas à primeira linha das decisões neste belo romance de Saramago. O diálogo monossilábico entre marido e mulher da família Mau-Tempo vai-se alterando. Interessante observar uma narrativa que vai da submissão ao sentido de libertação, através de gerações."

---- Roteiro ----

1. Descrição "a paisagem" e os "soldados" criados para trabalhar a terra

2. Debaixo de chuva chegam a São Cristóvão. Marido, mulher e filho de colo, carroça e burro, duas arcas. Chove muito até à entrada de São Cristóvão. Pára a carroça e entra na taberna. Anuncia-se. Domingos Mau-Tempo, sapateiro. Vem com a família de Lavre e acaba de recolher a chave ma posse do taberneiro. Sara da Conceição sua mulher e mãe de João Mau-Tempo este de misteriosos olhos azuis


3. Fará 5 filhos e o seu destino será a forca perto de Monte Lavre. Laureano Carranca sogro que não aprovou o casamento de sua filha Sara com Domingos

4. Lamberto Horques Alemão, tornado alcaide-mor de Monte Lavre por Dom João I. Daqui poderão remontar os olhos azuis

5. Segundo filho Anselmo Mau-Tempo, e a caminho para Torre Gadanha e de seguida para Landeira. Desassossego que Sara da Conceição se atormenta. Filhos pequenos e tanta mudança


6. Padre Agamedes será o novo padrinho de João Mau-Tempo e compadre de Domingos Mau-Tempo. Da bebida de ambos na sacristia ao desentendimento. Sai a família de Landeira

7. Chega a República por telégrafo de terra em terra. A escassez, a fome, o jornal pago pelos senhores. Os filhos feitos. O latifúndio que não mudou da monarquia para a republica. Lamberto Horques e a sensação dos ventos insurrectos que o comandante da guarda fará por travar. Carregará o tenente Contente e seu esquadrão sobre os camponeses e os incitadores rebeldes


8. trinta e três foram apanhados mas só cinco, os cabecilhas vão prestas contas a Lisboa no Limoeiro

9. Os trabalhadores do norte que vêem às terras dos do sul trabalhar por menos e assim baixar a jorna deste. O feitor que manda chamar a guarda para malhar nos animais do sul

10. Landeira, Santana do Mato, Tarrafeiro e Afeiteira, paragens e outras viagens de Domingos Mau-Tempo e Sara da Conceição. Chega o terceiro filho, Domingos como o pai. Canha. João Mau-Tempo numa ida à fonte quase que morre afogado. Porrada do pai e a aflição da mãe.

11. Domingos Mau-Tempo fugiu de casa. Pede Sara a seu pai perdão e que a venha buscar. A Monte Lavre retorna. Domingos Mau-Tempo volta com pedido de desculpas e leva a família para Cortiçadas de Monte Lavre. Daqui para Ciborro. João Mau-Tempo já tem idade para ir à escola.


12. O episódio das noites de terça feira do homem que morava em Monte do Curral da Légua perto de Pedra Grande. De animais e lendas de lobisomens.

13. Domingos Mau-Tempo e os seus maus tratos e a bebida. A família que sofre pela vida e pelos tratos do pai. Fome e miséria. Domingos Mau-Tempo desapareceu e os próximos dois anos será maltês

14. Laureano Carranca pai de Sara recebe dois netos. Um predilecto porque lhe poderá dar algum proveito, José Nabiça, o outro João Mau-Tempo, filho de relação com um homem agora maltês era tratado como empecilho. Foi para as arrancas com o tio Joaquim Carranca. Trabalho duro mesmo para os homens quanto mais para uma criança.

15. Chega a Monte Lavre o anúncio de guerra na Europa.


16. Poderá ter Domingos Mau-Tempo aparecido nas Cortiçadas. Sara da Conceição foge para casa de uns parentes perto de Ponte Cava. Vem Domingos Mau-Tempo mais tarde pedir satisfações a José Picanço que lhe tinha dado asilo. Confronto entre homens e Domingos Mau-Tempo que volta costas à luta e segue, volta pelas costas de Monte Lavre até decidir enforcar-se.

17. Anda João Mau-Tempo com dez anos a cavar, perto da herdade Pedra Grande, por esmola. Depois na herdade de Norberto com Gregório Lameirão seu capataz para dar porrada pronta nos desgraçados. A família de Norberto aspirava a ir a Paris mal acabasse a guerra pela Europa e os mais novos já deixavam as terras de Lavre para vir morar para Lisboa.

18. De vez em quando chegam notícias das guerras, a da Europa e as de África. Poucos sabem ler em Monte Lavre, a guerra aqui é da fome e sobrevivência. Do czar deposto na Rússia e dos primeiros aviões na guerra.

19. Sara da Conceição e seu irmão juntaram-se em família de tios e primos.


20. Trabalho no Monte de Berra Portas, trabalho duro e mais porrada e fome. Soldada de miséria.

21. Morrerá Joaquim Carranca, assim ficou assim se foi.

22. João Mau-Tempo cresce, rapaz novo de trabalhos forçados. O de olho azul, bom bailador o que ajuda nos namoricos. Foi para a cortiça em Salvaterra de Magos. Chega à maioridade com a ida às sortes. Pode a tropa abrir as portas para a polícia ou a guarda em Lisboa. Nem uma nem outra, livrou-se com muito desgosto do serviço militar. Tem vinte anos.

23. De Augusto Pintéu, se contará como morreu na travessia de um pego com a suas mulas e carro nos lados do Pego da Carriça.

24. Foi João Mau-Tempo trabalhar para o monte Pendão das Mulheres entre Monte Lavre e Monte de Berra Portas, lá se irá enamorar de Faustina. A fama da família Mau-Tempo não lhes ajudará a que a família dela aceite a nova vida.

25. Lamberto e o seu feitor, o chicote para meter na linha os que para si trabalham. O seu feitor será considerado como Judas por trair os seus a troco de pouco mais e quanto mais trabalho lhe ls consiga arrancar mais próximo e considerado será.

26. O povo escravo e seus ofensores, a podridão e a fome.
A penúria, sempre a penúria. Os fiados de mercearia e as contas, sempre as contas


27. Dos trabalhos da carvoaria no Infantado. A visita às primas de Lisboa que trabalham no patrão Alberto.

28. João Mau-Tempo e Faustina, casados e três filhos. António o mais velho. Restantes são filhas. António guarda em pequeno os porcos e vai aprendendo as artes do trabalho da terra.

29. Alguém entra em casa com papel para assinar,  diz que é a favor dos nacionalistas espanhóis e contra os comunistas, em Évora e com transporte. João Mau-Tempo não pode recusar, este tal Requinta é dos que vai contar e ainda se arrisca a ter problemas. Não sabendo muito de política há dias descobriu uns papeis debaixo de uma pedra e que ficou para trás para ler.

30. Foram a Évora. Foros, Montemor, Santa Sofia e São Matias, o tal Requinta do recado segue como apoio ao evento. A praça de touros está cheia. Os vivas a Portugal e a Salazar contra os comunistas. Pelos espanhóis dos campos de Castela e Andaluzia. Pela igreja contra o perigo vermelho e ateu.


31. A debulhadora, máquina monstruosa que se alimenta de trigo. Da espiga sai o cereal para um lado e a palha para outro. Junto à máquina estão cinco homens. um mais velho e quatro rapazes. A violência do trabalho. A máquina mal consegue ser alimentada por estes homens. MANUEL ESPADA não aguenta mais e larga a máquina. Os três restantes acompanham-o. O feitor Anacleto acorre ao local por causa do silêncio. Vai à guarda fazer queixa e acusa-os de serem grevistas. Da guarda o tenente Contente pega nos seus homens e seguem até Monte Lavre para apanhar os grevistas. Daqui seguirão a Montemor onde apanharam um raspanete e por sorte lhes é perdoada ida a Lisboa prestar contas. Ficaram uns tempos sem trabalho até que episódio se foi desvanecendo

32. Sara da Conceição vive agora com o filho e nora. João Mau-Tempo e Faustina mais as duas netas, Gracinda e Amélia. Tem o pesadelo do marido que se enforcou na oliveira,  Domingos Mau-Tempo. Todas as noites sai de casa durante algum tempo, talvez para dar alguma privacidade ao casal. Um dia será apanhada louca e fora de si. De Lisboa, os familiares arranjam um lar em Rilhafoles para a receber. Morreu passado tempo.


33. A homilia do padre Agamedes e o elogio aos latifundiários e guardas que protegem o povo dos vermelhos. A organização e os papéis distribuídos às escondidas. João Mau-Tempo que é poucas missas duvida das palavras do padre. SIGISMUNDO CANASTRO aparece no adro. Ele que distribui "papéis" pergunta a João Mau-Tempo o que achou da missa.

34. António Mau-Tempo fez amizade com Manuel Espada, tem treze anos e aprende várias artes e trabalhos do campo. De terra em terra, virá a trabalho perto do mar na zona de Setúbal.

35. Histórias de malteses, do Zé Gato e sua quadrilha. Histórias de carnes e porcos roubados

36. Em Monte Lavre é tempo de ceifar. Na Europa terminada a II Guerra Mundial os ventos são de paz. As guerras agora são outras. Os homens não vão para o campo por menos de 33 escudos por dia, os feitores e capatazes não têm ordens para pagar mais que os 25 do ano passado. A Guarda que se apronta e o sermão habitual do padre Agamedes. Na praça reúnem de um lado os que exigem 33 escudos, do outro os feitores que não avançam dos 25, e em casa alguns que já cederam a este valor por necessidade e por vergonha agora se escondem.

37. Na praça o clima é tenso, Sigismundo Canastro apela à resistência, João Mau-Tempo desanima com os poucos que ficaram a lutar por melhor jorna. Vinte e dois homens reúnem-se na ribeira em Ponte Cava. Dali seguiriam pelas herdades a lutar por melhores jornas e mais apoiantes para se lhes juntarem nesta luta. Sigismundo Canastro e Manuel Espada e outros vão repetindo as mesmas palavras. Mais dinheiro que os patrões muito bem podem pagar mais. Mais se juntam e campos que param.

38. Vai o cabo Tacabo a casa de Humberto. Existem grevistas à solta a desestabilizar as terras. Os 22 que se encontraram e seguiram para junto das herdades estão identificados. Sigismundo Canastro, Manuel Espada e João Mau-Tempo e todos os outros estão presos no posto da guarda. Murmuram palavras de confiança e aguardam. Foram enviados para Montemor. Todos juntos num pátio à espera de serem interrogados. João Mau-Tempo e outros três são os primeiros. Tenente Contente e outro homem não fardado sentados à secretária. Começa o interrogatório. Os "aves" e outros papéis, a propaganda,  organização e nomes dos cabecilhas. Os quatro sao colocados cada um na sua sala para escreverem num caderno tudo o que sabem. Cada um coloca o seu nome e esperam pela pancada. Mais tarde são juntos aos restantes. João Mau-Tempo recebe inesperada visita. Padre Agamedes que tenta demovê-lo a denunciar dois indivíduos já referenciados, João Mau-Tempo resiste ao interrogatório sem dizer palavra. Na volta para o pátio passa pelos dois que quiseram que ele denunciasse. Afinal já estavam presos e muito mal tratados. Ele tinha passado esta provação. Vieram algumas famílias saber dos presos, vem também Faustina e as filhas Gracinda e Amélia. Manuel Espada há-de reparar e cumprimentar a irmã de António Mau-Tempo, a Gracinda. Hão-de sair de Montemor enamorados.


39. A praça de touros de Montemor está cheia de homens. Uns na arena presos. Outros de espingardas a guardá-los junto às bancadas. Germano Santos Vidigal foi apanhado e é levado por dois guardas. Numa sala igual à que amanhã João Mau-Tempo e os outros três escolhidos para denunciar um e outro cabecilha, está Germano Santos Vidigal a ser espancado por dois torturadores, Escarro e Escarrilho. Cospe sangue e dentes partidos, sons e dor mas não abrirá boca para qualquer denúncia. O chão ensanguentado tem a companhia de formigas, quando a maior passar por Germano Santos Vidigal ele tombará morto. Os guardas encontrarão forma de simular o enforcamento do torturado para que conste na certidão de óbito.

40. Episódios de penúria e esmolas da dona Clemência às quartas e sábados, quando dá uns feijões e umas fatias de toucinho às crianças. O bem que sente fazer e a sua alma que rejuvenesce nestes dias. Não dar esmola todos os dias será o seu cilício e também para não habituar mal as crianças que devem sofrer desde cedo para saber o que custa a vida.

41. Episódios da criação de filhos. João Mau-Tempo e Faustina, os filhos, António que tem o hábito de andar longe nos trabalhos, Gracinda que espera poder ter dote para casar e já irá a saber ler pela cartilha de João de Deus, Manuel Espada que já vai passando da entrada da porta e Amélia a mais nova que vai vivendo

42. António Mau-Tempo em breve será recruta e por ano e meio estará na tropa.


43. Novembro posto. Sigismundo Canastro sai de casa antes casa antes do sol levantar, deixa Joana Canastro, o mesmo acontecerá a Faustina e filhas que irão ver João Mau-Tempo, agora com 42 anos, sair sem saber para onde. Terra Fria é o local de destino. O Silva vai de bicicleta, que a deixará escondida. Será o terceiro a chegar e percebe-se que tem papel importante no encontro. Virão Francisco Petinga e João dos Santos. São camaradas, não há nomes por segurança, tal como as boinas não serão colocadas de copa para baixo para os nomes possam ser vistos. O Silva entregará "papéis", desta vez João Mau-Tempo ajudará Sigismundo talvez por ser novo nestas andanças. Falam dos patrões e da fome.

44. Manuel Espada e Gracinda Mau-Tempo casaram, ele com vinte e sete anos ela com vinte. As palavras do padre Agamedes e o tropa António Mau-Tempo que conseguiu chegar mesmo nas últimas para assistir ao casamento da irmã.

45. A boda e seu cerimonial, pouco abastada mas com direito a discursos. Padre Agamedes que de palavras lembra os grevistas que salvou, o desagrado destas palavras que António Mau-Tempo fez calar na boca do padre. As histórias deste militar, o levantamento de rancho que levou o pelotão para a formatura e sob ameaça de metralhadoras queriam os oficiais obriga-los a comer a comida que nem os porcos comeriam. Depois foi a vez de Sigismundo Canastro contar outra história, a do cão Constante que ia com ele à caça da perdiz e lá ficou um dia

46. Vai o guarda José Calmedo a Monte Lavre buscar João Mau-Tempo para ser testemunha de um caso de roubo de uns molhos de grãos. Diligência a ser tratada rapidamente no posto da guarda. O inquiridor ser o cabo Tacabo que de pronto lhe dá a ordem de prisão vinda de Vendas Novas por ser comunista. Chegado ao posto de Vendas Novas sabe que irá para Lisboa. Uma noite em claro na cela, a viagem de comboio, o barco e as ruas da capital. Chegado ao edifício e colocado num último andar, passado um dia seguirá para a prisão de Caxias onde fica 25 dias. De volta tem o inspector Paveia à espera e começa a luta. Setenta e duas horas de estátua e torturas. Espancado sem mais não.


47. Na sala ao lado, outro com igual sorte. Pergunta o inspector Paveia se João Mau-Tempo tem algo a dizer. É remetido para o Aljube, enquanto descansa uns dias e recupera para outra carga de porrada. Está quase morto, passa 48 horas sem se mexer. Passaram 5 dias na solitária e depois passou para a parte comunitária. O tabaco que havendo para um há para todos.

48. Voltou ao Terreiro do Paço para prestar declarações, de volta ao Aljube e depois a Caxias. Virá Faustina Mau-Tempo de Monte Lavre e sua comadre a encaminhará até à prisão de Caxias. Estamos em Agosto. Falha a hora de visita e por muito pouco lhes concedem 5 minutos. João Mau-Tempo terá outras visitas, entre elas as filhas, Gracinda e Amélia, o filho António e o genro Manuel Espada .


49. Passam os meses e está esquecido na prisão sem saber se para sempre. Saberá que Albuquerque seu suposto delator estava preso, assim como Sigismundo Canastro. Faz 6 meses e chega o dia da libertação. É posto fora, rápido e assim sem mais nem menos. De noite fria é João Mau-Tempo um homem perdido e abandonado em Lisboa. Terá o episódio de um homem que lhe dará apoio e guarida por uma noite. Ricardo Reis e Ermelinda sua esposa abrem a porta de casa, uma sopa quente e vinho, dormirá na cama do casal.

50. Chegará João Mau-Tempo a Monte Lavre e de seguida com a filha Amélia seguirão para Elvas. Serão 16 semanas nos arrozais, as febres e bicho de toda a ordem, será quase um campo de morte. Manuel Espada estará na cortiça que bem maneja o machado.

51. Os episódios dos senhores que iam aos tiros e tinham as suas ordens um lacaio que subia e descia montes a carregar um bidon que serviria de alvo, ou dos senhores que entregavam as terras para serem cultivadas e por se situarem perto de cursos de água retinham a porção das terras que dariam acesso à água para aceder ao regadio. E outras histórias de guardas que servem para proteger os latifúndios dos miseráveis esfomeados, ou daquela vez que Adalberto em passeio viu alguém nas suas terras no pastoreio de seiscentas ovelha e foi depressa chamar o cabo Tacabo ao que se veio a descobrir que o pastor era seu empregado, vergonha que se disfarçou com umas doações.


52. António Mau-Tempo e as histórias de espingardas e caçadas aos coelhos, sem mulher ou filhos seguiu para França onde o trabalho dava muito mais dinheiro e fama de rico para quem lá ia, mas que desconhecia a escravatura e o racismo para com estes estrangeiros que procuravam os trabalhos da apanha da beterraba. Voltará aos trabalhos por Monte Lavre, andará no campo com Manuel Espada e sua irmã Gracinda, grávida agora. Seguirá António Mau-Tempo para outro trabalho findo este. Manuel Espada e Gracinda Mau-Tempo ficarão. Ela terá uma filha, Maria Adelaide e sua mãe Faustina e Belisária uma velha aparadeira ajudarão ao parto.
O avô João Mau-Tempo, depois o tio António Mau-Tempo e só por fim, Manuel Espada que chega de longe e logo se despede para chegar antes do sol levantar, são as principais visitas de Maria Adelaide, menina de olhos azuis herdados do bisavô ou de histórias com quinhentos anos.

53. Tempo de eleições e o general Humberto Delgado que tinha ameaçado demitir Salazar, que outras artes a não permitiram, levou a que no latifúndio de Norberto a campanha da seara fosse mandada ficar em terra sem dar trabalho a estes homens. Foi lição para aprenderem a não apoiar quem não deviam. Outra vez e sempre o padre Agamedes apoiava estes senhores feitores, guardas e latifundiários. O povo esse serve para sofrer e ser castigado, sempre porque sim para não ficar mal acostumado. O povo se junta e vê perder a temporada de trabalho.


54. Sigismundo Canastro conversa com João Mau-Tempo e António Mau-Tempo e depois com Manuel Espada. Aprontam ida à câmara de Montemor pedir trabalho em manifestação. Vão-se juntando de vários lugares estas gentes para clamar o trabalho de pouco dinheiro. Do alto do castelo as famílias abastadas assistem aos manifestantes. A guarda, a pé ou a cavalo, com espingardas ou espada preparam-se para carregar forte e feio. Teme-se o pior.

55. Lançam os cavalos e suas parelhas montadas investindo contra os manifestantes, são lançadas pedras mas pouca mossa farão. De espada em riste, acertando em fio de lâmina ou de chapada, o vinte e três de Junho ficará marcado na história deste país. Os que estão a pé carregam a rajadas de metralhadora. Duas para o ar e a terceira para matar. Três corpos no chão, um que se levanta agarrado ao braço, outro que rasteja e o terceiro que não se mexe. Foi abatido, José Adelino dos Santos, disseram que era ali de Montemor. Das muralhas do castelo, os senhores das terras gritam para os matar sem piedade.


56. Chegará à beira do cadáver de José Adelino dos Santos o doutor Cordo. O formalismo do óbito tem de ser cumprido. Aparecerá Leandro Leandres dando nota a que o morto não estará morto aos olhos dos superiores interesses e que deverá ir para Lisboa com a maior urgência. Não cede o doutor Cordo que trata de feridos e doentes, acompanhar mortos não será de sua competência. Leandro Leandres responde à competência médica com a ameaça do regime. Dos que vieram de Monte Lavre ficou António Mau-Tempo em Montemor, por muito que lhe tivessem pedido tinha um episódio para cumprir, o das pedras que caíram nessa noite no telhado e janelas do posto da guarda. Passadas as primeiras horas da noite lá chegou a casa.

57. O latifúndio como um mar de fome e gente que não conhece outra coisa. De Peniche alguém que saltou o muro e houve fuga do forte prisional.  E houve também revoltas no navio Santa Maria. Dona Clemência muito se preocupa, o seu sossego que nunca teve acabou e o padre Agamedes que a oiça. Também a guerra em África e os pretos que se rebelam. Também se perdem as Índias de Goa, Damão e Diu. Dona Clemência preocupada com o que será destes novos ventos que cheiram a comunistas. Ano novo será ano bom nas palavras de dona Clemência. Continuam a chegar notícias de actos revoltosos, agora em Beja o quartel de infantaria três foi assaltado.

58. O homem como máquina parida e tratada o quanto baste para dar produção no latifúndio, e quando gasta ou avariada será substituída por outra. Assim ficarão os cemitérios cheios de velhos de pouca idade mas mortos pelo trabalho. Correm pelos latifúndios uma voz inconformada exigindo em surdina as 8 horas de trabalho. Os patrões revoltados contra estes mandriões operários do campo que querem trabalhar só 8 horas, dormir outras tantas e ainda ficar com 8 de sobra para gastarem o tempo a beber nas tabernas e a dar porrada nas mulheres e filhos.
A guarda foi reforçada em todos os lugares e agora aprumam a caça aos comunistas e aos papéis e "aves" deixados de propósito ou de armadilha para apanhar mais uns curiosos.

59. Pelos montes e descampados, nas casas de uns e de outros se reúnem e discutem o que fazer. As oito horas de trabalho, os quarenta escudos da jorna, e alguém que fala da dignidade humana, do episódio do pai e filho que foram apanhar bolotas por nada mais terem que comer e a guarda que os apanhou, a humilhação que aqueles guardas obrigaram a que pai e filho brigassem caso contrário apanhariam mais porrada no posto. Cheira subversão à guarda e ela aí está em peso.

60. Chega o dia de apresentar revolução no latifúndio. Nesse dia não foi de sol a sol, chegaram às oito horas e pegaram. Na herdade onde está Manuel Espada é ele que fala. Norberto ameaça que ali é trabalhar enquanto há sol. Todos voltarão à praça onde estão reunidos como que num plenário já previamente agendado. Será o cabo Tacabo que vem à frente questionar os grevistas. Quantos dias sem receber? Quantos dias resistem os latifúndios? E os fiados e atrasados quem e como se pagam?


61. João Mau-Tempo esteve dois meses no hospital em Montemor, veio para casa morrer. Morre com a família perto. Não está a Maria da Conceição que ainda serve os patrões em Lisboa, o irmão Anselmo que está para o norte e não se sabe dele, a filha Amélia que serve em Montemor e muito ajudo quando o pai esteve no hospital. Estão todos os que deveriam estar e não poderia faltar a neta Maria Adelaide, tem dezassete anos e se despedirá do seu avô que morreu nesta noite junto dos seus aos setenta e sete.

62. Maria Adelaide está na vinha em Pegões, já tem dezanove anos, para lá foi com oa vizinhos Geraldos para estes trabalhos. Vai a tarde passando e alguém fala de tropas em Lisboa. Maria Adelaide está alerta mas ali no meio do nada, tal como a notícia chegou assim se foi em pouca informação. Ainda no mês anterior se tinha ouvido falar de coisa parecida aquando da rebelião das Caldas da Rainha. Acabou a tarde e a revolução em Lisboa não chegou a Pegões. Noite alta no acampamento onde estes camponeses se juntam já se sabem as novidades do que se passa em Lisboa. Acabou o que se sabe e não se sabe ainda o que aí vem. Os Geraldos e Maria Adelaide seguem no dia seguinte para Monte Lavre. Apanhada a camioneta que por sorte trás lugares livres. Muito do que se fala ainda é especulação, caiu o Tomás e o Marcelo e agora duvidam que junta seja nome de novo governo.

63. Entram em Vendas Novas e há festa. A tropa está na rua em parada. Maria Adelaide sente uma luz nova e parece que acorda e percebe o que o pai, Manuel Espada fazia em ausências não justificadas e também sem necessidade de as explicar à família. Segredos e cumplicidades. Estão por estas horas muito preocupados os senhores latifundiários, está também a guarda que não servia para cuidar do povo, e o padre Agamedes que nem sim nem não dirá algo sobre a revolução antes que superiormente alguém dê uma directiva.



64. Vem aí o primeiro de Maio, livre e às claras sem problemas com a guarda. Passou o Abril e Maio em tempos de estranha liberdade. Mas os temores são sempre os mesmos e não desapareceram, não há trabalho e os mesmos latifundiários que outrora tornaram escravos esta gente, continuam sorrateiramente a pôr e dispor. As searas estão no chão e com as primeiras chuvas teriam que fazer as sementeiras. O que havia em condições de colher foi destruído pelos senhores. E a fome continua.

65. Quem tem continua a poder, seja enviando os dinheiros para o estrangeiro ou escondendo nos automóveis que os levam para depósito seguro. As fronteiras fecham agora os olhos ao contrabando

66. Vem o primeiro inverno depois de Abril igual a tantos outros. A mesma fome e miséria. Começam as terras a serem ocupadas pelos trabalhadores. Os horrores que sente dona Clemência porque estas gentes estão a profanar as terras dos seus antepassados.


67. Foram-se juntando. Manuel Espada e Sigismundo Canastro, António Mau-Tempo e outros mais em assembleia e decidiram nomear Manuel Espada porta voz, andaram duas semanas a avaliar a situação pelas herdades e deitaram comunicado para que todos os trabalhadores se juntassem no dia seguinte na herdade das Mantas. De todo o lado chegam máquinas e tractores com atrelados, uns a pé e outros montados nestas máquinas. Da herdade das Mantas seguem para outras, engrossam a coluna mais e mais. É a revolução no campo. São feitas as ocupações e respectivos inventários das existências e materiais. Esta gente não rouba e a guarda não sai do quartel.

68. Neste dia levantado, seguem os vivos e também os mortos. Todos os que a fome neste Alentejo sofreram. E também o cão Constante.