Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 6 de abril de 2020

domingo, 15 de novembro de 2015

"José Saramago: O Amor Possível" de Juan Arias (Edição Manati - 2003)


"O que é a fé? A fé é uma renúncia, renúncia ao saber."


Mas é fato que ainda não encontramos nenhuma civilização capaz de prescindir, livre e completamente, do desejo da existência de Deus. Há quem diga que, se eliminarmos as guerras e as religiões dos livros de história, não sobrará nada, que se poderiam queimar os livros.  
É pior que isso, porque muitas das guerras foram, e continuam a ser, guerras de religião. Se começarmos a pensar nisso, veremos que as religiões dificilmente unem a humanidade, ao contrário, no mais das vezes a dividem. Há coisas imperdoáveis, como as chamadas descobertas de novos povos. Lá iam as caravelas em busca de terras onde havia outros povos, e que é o que faz o padre quando chega ao outro mundo? Diz-lhes: "Vossos deuses são falsos, eu trago comigo o verdadeiro". Isso é um pecado, e recorro agora à teologia, isso é um pecado de soberba, porque é imperdoável que alguém tenha a ousadia, o descaramento de dizer: "Trago comigo o verdadeiro Deus". Isso significa que os deuses que eles tinham deveriam ser eliminados, e a melhor forma de eliminar um deus é eliminar a pessoa que acredita nesse deus. E mais. Vamos imaginar que Deus existe: se existe Deus, não há mais que um deus; se há Deus, só pode existir um deus; então, todas as formas de adorá-lo são válidas, são todas iguais, tanto faz que se diga que é Jesus crucifica-do, o sol, a montanha, um animal ou uma flor. Para Deus, se Deus existe, dá no mesmo que a expressão física, material, se se quiser, dessa essência que seria Deus seja a montanha, o sol ou lá o que for. Por isso volto ao que dizia antes: que, para poder negar Deus, é preciso que eu o tenha aqui, na cabeça, como tenho o diabo, o mal e o bem. 

Mas você não acha que, com os mesmos argumentos com que você o nega, alguém pode dizer o contrário, quer dizer, que sente no seu interior a consciência de que ele pode existir?
A chamada fé é algo que eu não entendo. O que é a fé? A fé é uma renúncia, renúncia ao saber.

in, "José Saramago: O Amor Possível"
de Juan Arias
Manati, edição de 2003
Traduzido por Rubia Prates Goldoni
Páginas 101 e 102

José Saramago e a constatação sobre o mal e as religiões

"Deus é cruel, invejoso e insuportável" - Via YouTube 

(...) Como te atreveste, assassino, a contrariar o meu projecto, é assim que me agradeces ter-te poupado a vida quando mataste Abel, perguntou o senhor, Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria perante a tua verdadeira face, Então a nova humanidade que eu tinha anunciado, Houve uma, não haverá outra e ninguém dará pela falta, Caim és, e malvado infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembras-te das crianças de sodoma. Houve um grande silêncio. (...) 
in, "Caim"
Caminho, páginas 180 e 181

sábado, 19 de setembro de 2015

Todos os nomes ou a ordem alfabética que Deus refere a Jesus em "O Evangelho segundo Jesus Cristo"


(...) "Adalberto de Praga, morto com um espontão de sete pontas, 
Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, 
Afra de Ausburgo, morta na fogueira, 
Agapito de Preneste, morto na fogueira, pendurado pelos pés, 
Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com cravos, 
Águeda de Sicília, morta com os seios cortados, 
Alfégio de Cantuária, morto a golpes de osso de boi, 
Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, 
Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, 
Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, 
Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, 
António de Rivoli, morto à pedrada e queimado, 
Apolinário de Ravena, morto a golpes de maça, 
Apolónia de Alexandria, morta na fogueira depois de lhe arrancarem os dentes, 
Augusta de Treviso, morta por decapitação e queimada, 
Aura de Óstia, morta por afogamento com uma mó ao pescoço, 
Áurea de Síria, morta por dessangramento, sentada numa cadeira forrada de cravos, 
Auta, morta à frechada, 


Babilas de Antioquia, morto por decapitação, 
Bárbara de Nicomedia, morta por decapitação, 
Barnabé de Chipre, morto por lapidação e queimado, 
Beatriz de Roma, morta por estrangulamento, 
Benigno de Dijon, morto à lançada, 
Blandina de Lião, morta a cornadas de um touro bravo, 
Brás de Sebaste, morto por cardas de ferro, 
Calisto, morto com uma mó ao pescoço, 
Cassiano de Ímola, morto pelos seus alunos com um estilete, 
Castulo, morto por enterramento em vida, 
Catarina de Alexandria, morta por decapitação, 
Cecília de Roma, morta por degolamento, 
Cipriano de Cartago, morto por decapitação, 
Ciro de Tarso, morto, ainda criança, por um juiz que lhe bateu com a cabeça nas escadas do tribunal, Claro de Nantes, morto por decapitação, 
Claro de Viena, morto por decapitação, 
Clemente, morto por afogamento com uma âncora ao pescoço, 
Crispim e Crispiniano de Soissons, mortos por decapitação, 
Cristina de Bolsano, morta por tudo quanto se possa fazer com mó, roda, tenazes, flechas e serpentes, Cucufate de Barcelona, morto por esventramento, 

chegando ao fim da letra C, Deus disse, Para diante é tudo igual, ou quase, são já poucas as variações possíveis, excepto as de pormenor, que, pelo refinamento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-nos por aqui, Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando no que podia, 

Donato de Arezzo, decapitado, 
Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana, 
Emérita, queimada, 
Emílio de Trevi, decapitado, 



Esmerano de Ratisbona, amarraram-no a uma escada e aí o mataram, 
Engrácia de Saragoça, decapitada, 
Erasmo de Gaeta, também chamado Telmo, esticado por um cabrestante, 
Escubículo, decapitado, 
Ésquilo da Suécia, lapidado, 
Estêvão, lapidado, 
Eufémia da Calcedónia, enterraram-lhe uma espada, 
Eulália de Mérida, decapitada, 
Eutrópio de Saintes, cabeça cortada por uma acha-de-armas, 
Fabião, espada e cardas de ferro, 
Fé de Agen, degolada, 
Felicidade e os Sete Filhos, cabeças cortadas à espada, 
Félix e seu irmão Adaucto, idem, 
Ferreolo de Besançon, decapitado, 
Fiel de Sigmaringen, maça eriçada de puas, 
Filomena, flechas e âncora, 
Firmin de Pamplona, decapitado, 
Flávia Domitília, idem, 
Fortunato de Évora, talvez idem, 
Frutuoso de Tarragona, queimado, 
Gaudêncio de França, decapitado, 
Gelásio, idem mais cardas de ferro, 
Gengoulph de Borgonha, corno, assassinado pelo amante da mulher, 
Gerardo Sagredo de Budapeste, lança, 
Gereão de Colónia, decapitado, 
Gervásio e Protásio, gémeos, idem, 
Godeliva de Ghistelles, estrangulada, 
Goretti Maria, idem, 
Grato de Aosta, decapitado, 
Hermenegildo, machado, 
Hierão, espada, 
Hipólito, arrastado por um cavalo, 
Inácio de Azevedo, morto pelos calvinistas, estes não são católicos, 
Inês de Roma, esventrada, 
Januário de Nápoles, decapitado depois de ter sido lançado às feras e atirado para dentro de um forno, Joana d'Arc, queimada viva, 
João de Brito, degolado, 
João Fisher, decapitado, 


João Nepomuceno de Praga, afogado, 
Juan de Prado, apunhalado na cabeça, 
Júlia de Córsega, cortaram-lhe os seios e depois crucificaram-na, 
Juliana de Nicomedia, decapitada, 
Justa e Rufina de Sevilha, uma na roda, outra estrangulada, 
Justina de Antioquia, queimada com pez a ferver e decapitada, 
Justo e Pastor, mas não este que aqui temos, de Alcalá dë Henares, decapitados, 
Killian de Würzburg, decapitado, 
Léger d'Autun, idem depois de lhe arrancarem os olhos e a língua, 
Leocádia de Toledo, fraguada do alto de um rochedo, 
Liévin de Gand, arrancaram-lhe a língua e decapitaram-no, 
Longuinhos, decapitado, 
Lourenço, queimado numa grelha, 
Ludmila de Praga, estrangulada, 
Luzia de Siracusa, degolada depois de lhe arrancarem os olhos, 
Magino de Tarragona, decapitado com uma foice serrilhada, 
Mamede de Capadócia, estripado, 
Manuel, Sabel e Ismael, o Manuel com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, todos degolados, 
Margarida de Antioquia, tocha e pente de ferro, 
Mário da Pérsia, espada, amputação das mãos, 
Martinha de Roma, decapitada, 
os mártires de Marrocos, Berardo de Cobio, Pedro de Gemianino, Otão, Adjuto e Acúrsio, degolados, os do Japão, vinte e seis crucificados, alanceados e queimados, 
Maurício de Agaune, espada, 
Meinrad de Einsiedeln, maça, 
Menas de Alexandria, espada, 
Mercúrio da Capadócia, decapitado, 


Moro Tomás, idem, 
Nicásio de Reims, idem, 
Odflia de Huy, flechas, 
Pafnúcio, crucificado, 
Paio, esquartejado, 
Pancrácio, decapitado, 
Pantaleão de Nicomedia, idem, 
Pátrocles de Troyes e de Soest, idem, 
Paulo de Tarso, a quem deverás a tua primeira Igreja, idem, 
Pedro de Rates, espada, 
Pedro de Verona, cutelo na cabeça e punhal no peito, 
Perpétua e Felicidade de Cartago, a Felicidade era escrava da Perpétua, escorneadas por uma vaca furiosa, 
Piat de Tournai, cortaram-lhe o crânio, 
Policarpo, apunhalado e queimado, 
Prisca de Roma, comida pelos leões, 
Processo e Martiniano, a mesma morte, julgo eu, 
Quintino, pregos na cabeça e outras partes, 
Quirino de Ruão, crânio cortado em cima, 
Quitéria de Coimbra, decapitada pelo próprio pai, um horror, 
Renaud de Dortmund, maço de pedreiro, 
Reine de Alise, gládio, 
Restituta de Nápoles, fogueira, 
Rolando, espada, 
Romão de Antioquia, língua arrancada, estrangulamento, 

ainda não estás farto, perguntou Deus a Jesus, e Jesus respondeu, Essa pergunta devias fazê-la a ti próprio, continua, e Deus continuou, 

Sabiniano de Sens, degolado, 
Sabino de Assis, lapidado, 
Saturnino de Toulouse, arrastado por um touro, 
Sebastião, flechas, 
Segismundo rei dos Burgúndios, atirado a um poço, 
Segundo de Asti, decapitado, 
Servácio de Tongres e de Maastricht, morto à tamancada, por impossível que pareça, 
Severo de Barcelona, cravo espetado na cabeça, 
Sidwel de Exeter, decapitado, 
Sinforiano de Autun, idem, 
Sisto, idem, 
Tarcísio, lapidado, 
Tecla de Icónio, amputada e queimada, 
Teodoro, fogueira, 
Tibúrcio, decapitado, 
Timóteo de Éfeso, lapidado, 
Tirso, serrado, 
Tomás Becket de Cantuária, espada cravada no crânio, 
Torcato e os Vinte e Sete, mortos pelo general Muça às portas de Guimarães, 
Tropez de Pisa, decapitado, 
Urbano, idem, 
Valéria de Limoges, idem, 
Valeriano, idem, 
Venâncio de Carnerino, degolado, 
Vicente de Saragoça, mó e grelha com puas, 
Virgílio de Trento, outro morto por tamancos, 
Vital de Ravena, lança, 
Vítor, decapitado, 
Vítor de Marselha, degolado, 
Vitória de Roma, morta depois de ter a língua arrancada, 
Wilgeforte, ou Liberata, ou Eutrópia, virgem, barbuda, crucificada, 

e outros, outros, outros, idem, idem, idem, basta. Não basta, disse Jesus, a que outros te referes, Achas que é mesmo indispensável, Acho, Refiro-me àqueles que, não tendo sido martirizados e morrendo de sua morte própria, sofreram o martírio das tentações da carne, do mundo e do demónio, e que para as vencerem tiveram de mortificar o corpo pelo jejum e pela oração, há até um caso interessante, um tal John Schorn, que passou tanto tempo ajoelhado a rezar que acabou por criar calos, onde, nos joelhos, evidentemente, e também se diz, isto agora é contigo" (...) 

in, "O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Páginas 381 a 385

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Sofía Gandarias" post no Livro/Blog "O Caderno" ... Auschwitz e deus...

http://caderno.josesaramago.org/41158.html

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"Sofía Gandarias"

"À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”. É evidente que Deus não leu Kafka e, pelos vistos, Ratzinger também não. Não leram nem sequer Primo Levi, que está mais perto do nosso tempo e nunca se serviu de alegorias para descrever o horror. Se se me permite a ousadia, eu aconselharia ao papa que visitasse, com tempo e olhos de ver, esta exposição de Sofía, que escutasse com atenção as explicações que lhe fossem dadas por uma pintora que, sabendo muito da arte que cultiva, muito sabe também do mundo e da vida que nele temos feito, os que crêem e os que não crêem, os que esperam e os que desesperam, e os outros, os que fizeram Auschwitz e os que perguntam onde estava Deus. Melhor seria que nos perguntássemos onde estamos nós, que doença incurável é esta que não nos deixa inventar uma vida diferente, com deuses, se quiserem, mas sem nenhuma obrigação de crer neles. A única e autêntica liberdade do ser humano é a do espírito, de um espírito não contaminado por crenças irracionais e por superstições talvez poéticas em algum caso, mas que deformam a percepção da realidade e deveriam ofender a razão mais elementar. Acompanho o trabalho de Sofía Gandarias desde há anos. Assombra-me a sua capacidade de trabalho, a força da sua vocação, a mestria com que transfere para a tela as visões do seu mundo interior, a relação quase orgânica que mantém com a cor e o desenho. Sofía Gandarias é, toda ela, memória. Memória de si mesma, como qualquer, em primeiro lugar, mas também memória do que viveu e do que aprendeu, memória de tudo o que interiorizou como algo próprio, memória de Kafka, de Primo Levi, de Roa Bastos, de Borges, de Rilke, de Brecht, de Hanna Arendt, de quantos, para tudo dizer numa palavra, se debruçaram do poço da alma humana e sentiram a vertigem.Nota: Texto para a exposição “Kafka, o visionário”, de Sofía Gandarias, que poderá visitar-se na Haus am Kleistpark de Berlim a partir do dia 28 deste mês. (14 de Maio de 2009)"

domingo, 26 de julho de 2015

"Los hombres han inventado un Dios que nos da unos ratos malísimos" Entrevista de Francesc Valls para o "El País" (24/10/1994)

"Los hombres han inventado un Dios que nos da unos ratos malísimos"
"El País" por Frances Valls, Barcelona - 24/10/1994

A entrevista pode ser consultada e lida, aqui
em http://elpais.com/diario/1994/10/24/cultura/782953204_850215.html

(Fotografia via "El País")

Comunista preocupado por Dios y las guerras santas; revolucionario para quien la revolución siempre es asesinada; demócrata que ve la democracia muerta cuando el voto entra en la urna. Este nadador contra corriente es el escritor José Saramago (Azinhaga, Portugal, 1922), quien esta semana ha presentado su libro Casi un objeto (Alfaguara).

La carcoma era vengadora. El justiciero y antifascista anóbido, con sus galerías, hizo caer a Oliveira Salazar, el dictador portugués, de su silla. Quien relata esa historia es un amigo de carcomas y topos. José Saramago abre túneles bajo superficies aparentemente sólidas y duras con su palabra. El libro de relatos Casi un objeto, que acaba de publicar Alfaguara, es un ejemplo. (El libro fue presentado ayer en Crisol por el crítico Miguel García Posada. Hoy, en la Casa de América, Ángeles Caso entrevistará en público a Saramago y Charo López leerá alguno de sus relatos).

Pregunta. ¿Se cayó Salazar de su silla?

Respuesta. Es un hecho histórico que se sentó en una silla, se rompió la pata y dio consigo en el suelo. El relato La silla es la descripción de una lucha contra el dictador, contra el fascismo. Salazar se cae porque la carcoma, a lo largo de los años, se ha comido la madera.

P. Pero ahora que la carcoma ha triunfado, ¿se siente defraudado por la forma en que ha evolucionado la revolución de los claveles en Portugal?

R. Todas las revoluciones, más tarde o más temprano, acaban en su contrario. Ocurrió con la francesa, que dio paso al emperador. Luego con la Revolución de Octubre de 1917. El destino de las revoluciones es convertirse en su opuesto.

P. Acaba de publicarse su libro In nomine Dei, libreto de la ópera Divara, agua y sangre. Es la historia de dos anabaptistas que dirigieron una experiencia colectivista en Münster. Acabó en dictadura. ¿Ha sucedido lo mismo en los países del llamado socialismo real?

R. Las revoluciones acaban siempre traicionadas por una razón sencilla: por la renuncia de los ciudadanos a participar. En el caso de Münster se entró en una situación en que la propiedad no existía; era un caso de una pureza total que muy pronto se acabó. Eso también ocurre en el funcionamiento normal de las democracias. La enfermedad mortal de las democracias es la renuncia del ciudadano a participar. Los primeros responsables somos nosotros al delegar el poder en otra persona que, a partir de ese momento, pasa a controlarlo y a usarlo.

P. ¿Qué alternativa hay?

R. La alternativa no es más que la participación del ciudadano todos los días.

P. Eso tiene difícil articulación en un sistema político.

R. En un sistema como el actual, sí. Cuando el ciudadano vota expresa de forma suprema su conciencia. Pero ese momento coincide con su renuncia a intervenir. La paradoja es que justo cuando el voto entra en la urna él renuncia a participar. Hay que buscar sistemas distintos para el ejercicio de la ciudadanía. No podemos decir que los políticos tienen la culpa. Nosotros somos los principales responsables.

P. La mayoría, no obstante, opina que la democracia parlamentaria es el menos, malo de los sistemas conocidos.

R. Sí, pero ésa es una manera muy hábil de impedir que se busque algo mejor. Eso lleva a la gente a hacer la operación mental que consiste en transformar lo menos malo en mejor. Al decir el menos malo estamos diciendo el mejor. Y uno se lo cree y no busca más. Hay que buscar una democracia que lo sea. El mundo además está regido por un poder no democrático, el financiero. Elegimos al alcalde, al presidente. Pero el otro poder es el que auténticamente gobierna el mundo. Aníbal Cavaco Silva [primer ministro portugués] o Felipe González se encuentran por ahí, salen en la prensa o en la televisión. Pero hay un poder del que no se habla nunca en los medios y es el poder financiero, y ésos son los que gobiernan. Felipe González y Cavaco Silva no gobiernan. Bueno, sí... Yo en mi casa también lo hago. El poder real está en otro sitio.

P. Usted sigue siendo militante del Partido Comunista de Portugal.

R. Sí.

P. Y uno de los militantes comunistas mis preocupados por Dios o, mejor, por las repercursiones de la existencia de Dios en la tierra.

R. Los problemas de Dios no me preocupan. Me preocupan los problemas de los hombres que se inventaron un Dios que no hace más que darnos ratos malísimos. Quizás Dios exista (yo no lo creo), pero no tiene sentido que nos matemos en nombre de Dios.

P. Los problemas religiosos le persiguen. El Evangelio según Jesucristo le comportó problemas en Portugal (el Gobierno vetó que concurriera a un premio europeo porque podía herir la sensibilidad religiosa del pueblo portugués).

R. Me fui a vivir a Lanzarote. Y estoy contento; de una cosa mala a veces surge una cosa buena. Pero eso no significa que haya roto con Portugal. Ahora me voy a Lisboa, lo que pasa es que no quiero nada con el Gobierno.

P. Las maletas del viajero relata una tragedia a causa de una frontera.¿Son o no un problema las fronteras?

R. No tengo ninguna prevención contra el nacionalismo. Es necesario revisar el concepto de nacionalismo. Hace 50 años, con los nacionalismos de tipo fascista, un pueblo pretendía dominar a otro. Ahora la cosa es distinta y tiene más que ver con el instinto de supervivencia en tiempos de globalización, económica, cultural, lingüística. Hay que revisar la idea de los nacionalismos para rescatarlos de la derecha.

24 de octubre de 1994

quarta-feira, 24 de junho de 2015

"Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho 2014" atribuído a Manuel Frias Martins pela obra «A Espiritualidade Clandestina de José Saramago»

O detalhe da notícia pode ser consultada e lida, aqui
em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=779004

"«Há mais mistérios entre Saramago e Deus do que possamos prever». 
A frase é da investigadora brasileira Selma Ferraz, que José Tolentino Mendonça citou, em Fevereiro último, na crítica que assinou no semanário Expresso ao livro «A Espiritualidade Clandestina de José Saramago». A obra, vista pelo crítico como um «interessantíssimo ensaio», acaba de valer ao autor, Manuel Frias Martins, o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho 2014."

(Montagem cénica, da obra de Manual Frias Martins, 
conjuntamente, com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Caim", 
obras abordando a temática de Deus e religão)  


Nesta sua sexta edição, o galardão, promovido em parceria pela Associação Portuguesa de Escritores e a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, distinguiu por unanimidade a obra escrita pelo crítico, professor universitário e ensaísta português.

O livro, editado pela Fundação José Saramago, choca com o assumido ateísmo de Saramago, conforme se percebe com uma rápida leitura do prólogo: «(…) as obras de Saramago se dirigem inequivocamente aos interesses e às necessidades práticas dos leitores (…) apontando ao mesmo tempo para a espiritualidade como expressão intensa da verdade.»  

O Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho foi instituído em 2010 e distingue, anualmente, uma obra de ensaio literário, publicada em livro, com o valor monetário de 7.500 euros.

«Trata-se de uma homenagem que pretende perpetuar o grande ensaísta Eduardo Prado Coelho, falecido em 2007, que doou ao nosso município o seu espólio bibliográfico de 12.500 títulos, disponível para consulta na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco», explica a propósito o presidente da Câmara Municipal, Paulo Cunha.

O Grande Prémio de Ensaio premiou em 2014, José Gil; em 2013, Rosa Maria Martelo; em 2012, João Barrento; em 2011, Manuel Gusmão e em 2010, Vítor Aguiar. A data da cerimónia de entrega do prémio será divulgada oportunamente.

Sinopse de «A Espiritualidade Clandestina de José Saramago»
Saramago pertence àquele grupo de escritores que parecem ter lido em toda a parte ou vivido em todo o lado, mapeando o humano por sinais identificáveis por todos ao mesmo tempo e decifrados por cada um à sua maneira. Tanto as suas construções ficcionais das atmosferas judaica e cristã como as observações subsidiárias que encontramos dispersas por entrevistas e artigos refletem uma amplitude de referências culturais onde se abriga um extraordinário ecletismo filosófico e religioso ou, dito de outra maneira, um conhecimento amplo do fundo cultural e religioso da humanidade, o qual é não raras vezes encarado como desafio à razão e à imaginação do próprio escritor. Possuidor de um espírito inquieto quando à humana condição e de um coração ávido de justiça, o homem José Saramago é uma espécie de abrigo intelectual de um escritor que mistura criativamente os inúmeros conseguimentos do pensamento humano independentemente da sua proveniência histórica ou geográfica.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"O sagrado e o romance em O evangelho segundo Jesus Cristo" - Ensaio da autoria de João Vianney Cavalcanti Nuto

Este ensaio é mencionado por João Céu e Silva, em "Uma longa viagem com José Saramago" - Porto Editora, página 258, a propósito da temática constante na obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", onde o "belo" se entrecruza e caminha em paralelo com as "heresias".
O ensaio de João Vianney Nuto, é um interessante exercício sobre esta temática.

Albrecht Dürer, Crucifixion 
Imagem retratada em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"

Aqui, via Wikipédia, link para consulta do artista

"Albrecht Dürer (Nuremberga, 21 de Maio de 1471 — Nuremberga, 6 de Abril de 1528) foi um gravador, pintor, ilustrador, matemático e teórico de arte alemão e, provavelmente, o mais famoso artista do Renascimento nórdico, tendo influenciado artistas do século XVI no seu país e nos Países Baixos. A sua maestria como pintor foi o resultado de um trabalho árduo e, no campo das artes gráficas, não tinha rival. As suas xilogravuras, consideradas revolucionárias são ainda marcadas pelo estilo gótico. É considerado como o primeiro grande mestre da técnica da aguarela, principalmente no que diz respeito à representação de paisagens. Os seus interesses, no espírito humanista do Renascimento, abrangiam ainda outros campos, como a geografia, a arquitectura, a geometria e a fortificação.
Conseguiu chamar a atenção do imperador Maximiliano I para o seu trabalho, tendo sido por ele nomeado pintor da corte em 1512. Viveu, provavelmente, duas vezes na Itália em adulto. Em 1520, depois da morte do imperador, partiu para os Países Baixos, visitou muitas das cidades do norte e conheceu pintores e homens de letras, como Erasmo de Roterdão. Nos seus últimos anos, em Nuremberga, partindo de estudos de teoria da Arte italianos de autores que o antecederam, ocupou-se principalmente com a elaboração de tratados sobre a medida e proporções humanas, perspectiva e geometria como elementos estruturantes da obra de arte.
Chegou até nós uma quantidade apreciável de documentos pessoais e autobiográficos, como cartas, textos e desenhos acompanhados de anotações minuciosas que permitem uma boa compreensão da sua obra. Esta documentação é ainda enriquecida por diversas fontes que derivam da fama conquistada por Dürer numa idade relativamente jovem."



Ensaio da autoria de João Vianney Cavalcanti Nuto

Aqui, link para consulta geral, em http://www.jornaldepoesia.jor.br/joaovianney2.html

O sagrado e o romance em "O evangelho segundo Jesus Cristo"

O evangelho segundo Jesus Cristo, ao contrário dos romances “históricos” de Saramago, não se baseia propriamente na historiografia, mas no texto bíblico. Contudo não se pode negar que a relação entre o texto bíblico e a obra de José Saramago aborda problemas semelhantes àqueles apresentados pelo texto historiográfico em Memorial do Convento e História do Cerco de Lisboa. Que semelhanças pode haver entre um texto historiográfico e um texto religioso, como é o caso da Bíblia? Outra questão diz respeito aos traços estilísticos-ideológicos próprios de um discurso épico, no sentido de heróico, que é parodiado tanto no Memorial do convento como em História do cerco de Lisboa. Também encontramos esse tipo de paródia de certa concepção de herói em O evangelho segundo Jesus Cristo. Pretendemos, neste ensaio, analisar as semelhanças entre a abordagem do texto bíblico e do texto historiográfico por Saramago – e também a paródia do discurso heróico. Para isto, verificaremos as possíveis relações entre a Bíblia, a História e a epopéia, para, então, analisarmos os processos de estilização e paródia contidos no romance.
A primeira questão diz respeito à noção de verdade e de como alcançá-la, sendo a obra de Saramago bastante crítica quanto à noção de verdade absoluta. Antes de tudo, é preciso distinguir a concepção a relação da História e da memória com a verdade. A Bíblia não é um texto historiográfico; mas, assim como a epopéia, é um texto que tem função de memória. Assim como a História, na concepção de Aristóteles, a Bíblia conta “o que aconteceu”[1] , a verdade, ou mais precisamente, aquilo que é aceito como verdade pelos fiéis. Aqui encontramos tanto a semelhança como a diferença em relação à História. Se a História pretende contar “o que aconteceu” – ou pelo menos a reconstituição, ou interpretação, possível –, essa verdade, no ofício do historiador, precisa ser investigada[2]. Já no mito, no texto sacro e na epopéia (pelo menos em seus primórdios) a verdade é revelada. No caso do texto religioso a verdade é tanto mais verdadeira porque sagrada.
Lembremos, a propósito, que a narrativa bíblica, por ser um texto religioso, incorpora diversos mitos, dentre eles, a criação do mundo e do homem, a origem do mal, da dor e da morte; e o mito, como diz Eliade, é uma historia verdadeira. Somente quando temos consciência da formação do cânone bíblico, com exclusão dos chamados evangelhos apócrifos[3] , somente quando conhecemos os trabalhos de tradução e exegese por parte dos teólogos da Igreja, é que a Bíblia adquire um sentido histórico: o sentido de uma pesquisa sobre o passado; ou seja: somente quando pesquisamos é que a Bíblia se torna histórica. Não é esta, porém, a leitura que se faz da Bíblia pelos crentes, que é uma leitura de fé. Vista desta maneira, a narrativa bíblica não é história no sentido estrito do termo, mas, assim como o relato do cerco de Lisboa, não deixa de ser fonte de uma verdade com a qual Saramago polemiza.
Em O evangelho segundo Jesus Cristo, a noção de verdade absoluta é constantemente questionada e criticada, desde a interpretação da gravura de Albrecht Dürer, descrita na abertura do romance: “Lá atrás no mesmo campo onde os cavaleiros executam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. (...). Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava.”[4] O narrador faz questão de frisar que a Bíblia também não oferece os fatos “como eles foram”, mas versões, como naquela resposta ríspida de Jesus a Maria: “Um filho não trata desta maneira a mãe que lhe deu o ser, farão que o tempo, as distâncias e as vontades busquem para elas traduções, interpretações, versões, matizes que mitiguem a brutalidade e, se tal é possível, dêem o dito por não dito ou ponham a dizer o seu contrário, assim se escreverá no futuro que Jesus disse, (...) Deixa-me proceder, não é preciso que mo peças. (...).”[5] Mas, ao criticar as versões, tampouco se oferece o romance como um portador da verdade absoluta, pois, como acontece nos outros romances de Saramago, o próprio narrador questiona a fala que atribui ao personagem: “(...) razão por que, faltando o seu testemunho, seja lícito duvidar da autenticidade da filosófica reflexão, que quanto ao fundo quer quanto à forma, tendo em conta a mais do que óbvia contradição entre a notável propriedade dos conceitos e a ínfima condição social de quem os teria produzido”. [6]
Ora, questionar uma verdade sacra, mesmo sem querer substitui-la por outra verdade inquestionável, por si só já é uma heresia. E a heresia perpassa todo romance, ao oferecer versões que questionam, ou mesmo contrariam, certos dogmas da Igreja Católica como a virgindade de Maria, o papel do Diabo, a natureza de Deus e sua relação com Cristo. Neste processo tudo o que é sagrado é submetido à crítica, sendo, portanto, dessacralizado. Contudo essa dessacralização não resulta em uma sátira, pois não é intenção do romance zombar do sagrado, mas torná-lo mais humano. Exemplo disto é o questionamento da idealização de Maria. Em O evangelho segundo Jesus Cristo, Maria é uma mulher comum, oprimida como as demais da Judéia. Um pouco tola, não tem a aquela doce majestade de suas imagens nas igrejas. No entanto, sentimos por certa ternura por aquela mãe adolescente, perplexa com os acontecimentos estranhos relacionados com nascimento do primogênito; e pela mulher madura que custa a compreender e aceitar o destino do filho. Os sucessivos estados de gravidez de Maria subvertem aquela imagem de virgem imaculada, conforme negação explícita dessa pureza idealizada, no trecho que se segue: “Maria está outra vez limpa, de verdadeira pureza não se fala, evidentemente, que a tanto não poderão aspirar os seres humanos e as mulheres em particular (...)”.[7] Nem mesmo é dado a Maria o privilégio de ter sido a escolhida do Senhor: “Então, o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor só ia a passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável, e então, se ainda lembras de como estas necessidades manifestavam apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus.”[8] Encontramos aqui um efeito de ironia que advém não somente da informação, como também pelo estilo, completamente prosaico, com que o anjo informa a Maria o desígnio divino, em total desacordo com o tom solene do texto bíblico.
Outras heresias, em O evangelho segundo Jesus Cristo, são a natureza e função do Diabo e de Deus, bem como o conflito entre Deus e Jesus. No início, percebemos vagos indícios, que depois se confirmam, de que o anjo que veio anunciar a concepção de Maria é o próprio Diabo. Esta identificação não surpreende se atentarmos para a origem de uma das palavras usadas para identificar o Diabo: demônio. O termo vem do grego daimon, que, na mitologia pagã, era “um espírito mediador entre deuses e homens, muitas vezes o espírito de um herói morto”.[9] Informa Luther Link que “dáimon e daimônion também significavam um espírito perverso, dominador, tendo sido esta a única acepção desenvolvida no Novo Testamento e por muitos dos primeiros padres. Os apologistas alexandrinos helenizados dos séculos II e III, por exemplo, interpretaram os demônios platônicos – que não eram particularmente bons nem maus – como anjos caídos perversos”.[10] Como observa Luther Link, a caracterização maligna dos demônios era uma forma de combater o paganismo: “Assim fizeram com vistas a formar uma nova equação: deuses pagãos = demônios maus = diabos. Tal equação justificava condenar a adoração de deuses pagãos. ‘A coisas que os gentios sacrificam, é aos diabos que sacrificam’, escreveu Paulo”. [11]
Contudo, a maior heresia, em O evangelho segundo Jesus Cristo, consiste no papel ambíguo do Diabo, um dilema que muito preocupou a teologia cristã. Se o Diabo tem como papel supliciar os pecadores e os hereges, então o Diabo colabora com a ordem imposta por Deus: incube-se, no além, do mesmo serviço sujo dos torturadores da Inquisição aqui na terra.[12] Mas o Diabo é também o adversário de Deus. É exatamente este o significado da palavra satan, em hebraico.[13] A interpretação que prevaleceu é a de que o Diabo era inicialmente um anjo, Lúcifer, que, por seu orgulho, rebelou-se contra Deus e tenta arrastar a humanidade para o Inferno. Em O evangelho segundo Jesus Cristo, o Diabo é um colaborador, mas também é um adversário, pois colabora contrariado, já que é o próprio que Deus rejeita a proposta do Diabo de acabar com o Mal: “quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal (...) Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus.”[14] Assim, o narrador de O evangelho segundo Jesus Cristo, concordando com Orígenes e Santo Agostinho, entre outros teólogos, mostra que o Mal não existiu sempre: passou a existir com a revolta de Satã. Entretanto, o narrador discorda de toda da ortodoxia católica, ao mostrar que o Mal permanece não apenas porque Deus permite sua existência provisória, mas porque ele assim o exige. É ambíguo também o papel do Diabo, como tentador de Cristo, já que os anos que passa com Jesus no deserto são também anos de aprendizado, em que Jesus, tendo o Diabo como mestre, é confrontado com questões perturbadoras que contribuem para o seu amadurecimento. Este caráter ambíguo do Diabo torna-o menos terrível que a aquela figura criada pelo imaginário medieval. O Diabo de Saramago é uma entidade até mesmo simpática, que orienta Jesus nos seus anos de formação; e uma figura prometeica diante de um Deus despótico. Por isto é que o Diabo, que, segundo Dante, “já foi belo e hoje é feio”, não tem aparência grotesca consagrada pela iconografia medieval[15] : suas aparições, apesar de impressionantes, nada têm de pavorosas.
A imagem de Deus, por outro lado, assusta não pela sua aparência, que, aliás, é bastante convencional: “É um homem grande e velho, de barbas fluviais espalhadas sobre o peito, a cabeça descoberta, cabelo solto, a cara larga e forte, a boca espessa, que falará sem que os lábios pareçam mover-se”.[16] Mas Deus assusta por sua onipotência e despotismo. Como afirma Maria de Magdala, “Deus é medonho”[17] ; e Jesus recorda-se dos seus contatos com Deus: “Jesus viu o deserto, a ovelha morta, o sangue na areia, ouviu a coluna de fumo suspirando de satisfação, e disse, Talvez, talvez, porém uma coisa é ouvi-lo em sonho, outra será vivê-lo em vida.”[18] Diante desse Deus, ambicioso e autoritário, que não hesita em sacrificar seu próprio filho para poder expandir o culto a sua pessoa, é que se revela o verdadeiro cálice amargo de Jesus: a lista de mártires do catolicismo, com seus respectivos suplícios, pois, assim como em Memorial do convento, encontramos, em O evangelho segundo Jesus Cristo, o traço épico do catálogo dos heróis, transformado em um catálogo de mártires[19] . Tão herético quanto surpreendente é o desfecho do romance, quando Jesus se rebela, decidindo enganar o pai, substituindo sua condição de filho de Deus, pela de um simples rebelde contra Roma: “(...) mas, se no lugar dele puséssemos um simples homem, já não poderia Deus sacrificar o Filho (...) Um simples homem, sim, mas um homem que se tivesse proclamado o mesmo rei dos Judeus, que andasse a levantar o povo para derrubar Herodes do trono e expulsar os romanos, isto é que vos peço, que corra um de vós ao Templo a dizer que eu sou esse homem”.[20] Nesse contexto, muda também o papel de Judas de Iscariote, que, de traidor, passa a ser colaborador de Jesus: “Foi então que se ouviu, clara, distinta, por cima do alvoroço, a voz de Judas de Iscariote, Eu vou, se assim o queres”.[21] Naturalmente toda esta versão implica questionamentos perturbadores para os crentes, que estão acostumados a somente repetir verdades tidas como absolutas, e, em sua maioria, ignoram os expurgos realizados na formação do cânone bíblico: o textos apócrifos, com suas versões alternativas. Há, portanto, certa afinidade entre os evangelhos apócrifos –banidos do cânone bíblico por serem considerados heréticos – e O evangelho segundo Jesus Cristo. Mas este, até mesmo por assumir sua condição de ficção, não pretende, de maneira alguma, substituir uma verdade inquestionável por outra.


A atenuação da superioridade de Jesus: 
uma profanação delicada

Em Memorial do convento e O evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago incorpora elementos estilísticos-ideológicos próprios da epopéia, os quais critica através da polêmica e da paródia. Haveria também esses elementos na Bíblia? Assim como a epopéia, o texto religioso é narrado em tom solene – com pouco clima para a introdução do cômico – e tem função de memória, transmitindo uma verdade sagrada. Incorporando mitos, apresenta o maravilhoso (os milagres), tem como protagonistas pessoas superiores a nós (Deus, os anjos, os profetas, o messias), e também apresenta cenas bélicas, como a batalha de Jericó, ou de grande mobilização nacional, como a travessia do Mar Vermelho. Lembremos, contudo, que O evangelho segundo Jesus Cristo tem como principal fonte os evangelhos – o que não descarta a possibilidade de Saramago ter consultado outras fontes, como os evangelhos apócrifos, o Velho Testamento e livros sobre a história da Igreja Católica. E os evangelhos parecem bem mais afastados da epopéia que as narrativas do Velho Testamento.
A primeira é diferença é estilística: os versos heróicos na epopéia; os versículos nos evangelhos. Contudo, também os evangelhos apresentam o tom solene, próprio para falar de coisas grandiosas e divinas acontecidas “naquele tempo” (“in illo tempore”). Mas mesmo esse tempo não é tão recuado quanto o da epopéia, pois os apóstolos – a quem é atribuída a autoria dos evangelhos – teriam conhecido Jesus pessoalmente. Nem são bélicas as ações do messias. Vejamos, então, em o que os evangelhos teriam em comum com a epopéia, no que diz respeito ao critério aristotélico dos objetos de imitação. Diz Aristóteles que a epopéia tem como protagonistas pessoas superiores a nós. Ocorreria o mesmo nos evangelhos? A resposta só pode ser afirmativa se tivermos em mente uma outra concepção de superioridade, radicalmente diferente do heroísmo clássico, pois como afirma Harold Bloom “nenhum estudioso foi capaz de realizar uma comparação convincente do pensamento grego e da psicologia hebraica, no mínimo porque os dois modos parecem irreconciliáveis”.[22] Se Aquiles e Ulisses são guerreiros e de classe superior; Jesus é um messias, filho de um humilde carpinteiro. Mas tem Jesus muito em comum com os protagonistas da epopéia e da tragédia, por ser, assim como Aquiles e Édipo, aquele cujas decisões determinam o destino do seu povo; como Moisés, Jesus é um líder supremo, “o caminho, a verdade e a vida”.
Outro traço que Jesus tem em comum com os heróis clássicos é o fato de ter sido concebido pelo próprio Deus; portanto, Jesus continua a tradição clássica dos semideuses – embora o dogma da Santíssima Trindade o tenha feito confundir-se com o próprio Deus, o que não acontece com os heróis e outros seres da mitologia pagã. É o próprio Deus, no romance de Saramago, quem confirma essa tradição: “Como não tinha nenhum [filho] no céu, tive de arranjá-lo na terra, não é original, até em religiões com deuses e deusas que podiam fazer filhos uns com os outros, tem-se visto vir um deles à terra, para variar, suponho, de caminho melhorando um pouco uma parte do género humano pela criação de heróis e outros fenómenos (...)”.[23] Na epopéia clássica, o caráter semidivino dos heróis lhes confere qualidades extraordinárias, como força, coragem e inteligência excepcionais –havendo até mesmo uma espécie de superioridade do erro ou do defeito, a hybris, que, pelas conseqüências não apenas individuais como coletivas estaria na origem da noção de trágico. Nos evangelhos, Jesus, por ser filho de Deus, também tem qualidades excepcionais de inteligência e liderança, mas não empunha armas; comanda multidões, mas não exércitos[24] . Na epopéia clássica a epopéia clássica, os vencedores são premiados com as suas conquistas – embora o sentido do trágico dos gregos não permita que essas conquistas sejam fácil e longamente fruídas, sempre se enfatiza a fragilidade do ser humano, mesmo dos semideuses. Jesus, apesar de condenado e executado, apesar de não ser imperador na terra, também é recompensado, mas seu reino “não é deste mundo”. Seu maior heroísmo consiste em ser sacrificado na terra, para reinar ao lado de Deus.
“Nem sequer devia ser concebível uma santidade que não conhecesse a força dos homens e a fraqueza que às vezes nessa força há”, diz o narrador do Memorial do convento. A tensão dominante em O evangelho segundo Jesus Cristo, em relação à Bíblia, reside justamente na atenuação da superioridade de Jesus Cristo. Esta atenuação não chega a atingir rebaixamento grotesco – como o caracteriza Bakhtin –, que encontramos somente na descrição de Herodes, quando o narrador se refere aos “vermes que infestam os órgãos genitais da real pessoa e que, esses sim, a estão devorando em vida”.[25] E também ao mostrar Herodes “arrastando um corpo que fede de putrefacção, apesar dos perfumes de que leva embebidas as roupas e ungidos os cabelos pintados, a Herodes só o mantém vivo a fúria”.[26] Este tipo de rebaixamento jamais acontece na descrição de Jesus, nem da sagrada família, que não são, de maneira alguma, satirizados. Contudo, tampouco apresenta aquela aura veneranda própria de tudo que é sagrado: o Jesus de Saramago é dessacralizado, tornando-se, pela exposição de suas dúvidas e fraquezas, um homem mais próximo de nós. Podemos afirmar, parafraseando o título de um romance de Sérgio Sant’Anna [27], que Saramago realiza uma profanação delicada – embora muitos fiéis não concordem o adjetivo –, que atinge não somente a figura de Jesus, como também toda a sagrada família –(como já vimos a respeito de Maria). Isto torna o Jesus de Saramago mais humano que o Jesus da Bíblia, que é plenamente seguro de si e de sua missão. Como o costuma acontecer com os heróis clássicos, quase nada sabemos sobre a infância e adolescência do Jesus da Bíblia – exceto aquele episódio em que Jesus discute com os doutores. Mas, ao contrário do que acontece na epopéia, a Bíblia não faz a mínima referência à vida amorosa de Jesus, pois entre as virtudes do messias está a castidade – virtude que será preservada nos heróis das canções de gesta, guerreiros, porém castos.
A primeira diferença, em nível diegético, entre o Jesus da Bíblia e o de Saramago está no fato de que grande parte do romance abrange a adolescência de Jesus: o seu período de formação. O Jesus bebê é uma criança como as outras, sem nada que revele a sua origem divina: “Jesus, mas ele ainda não pode saber que é este o seu nome, por enquanto não passa de um pequeno ser natural, como o pinto duma galinha, o cachorro duma cadela, o cordeiro duma ovelha (...)”.[28] Inicialmente, Jesus, que ignora sua condição de filho de Deus, também é um adolescente como os outros, embora bem mais esperto, como comenta o narrador: “(...) a juventude é assim, egoísta, presunçosa, e Jesus, que ele saiba, não tem motivos para ser diferente dos da sua idade”.[29] Contudo, para a ortodoxia católica, com sua valorização da ascese, a profanação mais grave é a descrição da vida amorosa de Jesus, que, como faz questão de mostrar o narrador do romance, sente desejo sexual, como qualquer homem: “O corpo de Jesus deu um sinal, inchou no que tinha entre as pernas, como acontece a todos os homens e a todos os animais, o sangue correu veloz a um mesmo sítio, a ponto de se lhe secarem subitamente as feridas (...)”.[30] Mais adiante, Jesus é iniciado sexualmente pela prostituta Maria de Magdala, que se torna sua companheira. Não deixa de ser irônico que o erotismo, tão reprimido pela Igreja, seja descrito aqui, em belos termos do Velho Testamento, pela estilização das palavras do rei Salomão: “As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela (...)”.[31] Daí por diante, encontramos Jesus vivendo “em concubinato” assumido com Maria de Magdala. E é esse encontro com Maria de Magdala, assim como o primeiro encontro com Deus, que marca a passagem para a maioridade de Jesus. E nessa relação de Jesus com Maria de Magdala prossegue a celebração, já ocorrida nos romances anteriores, dos relacionamentos amorosos ilegítimos, porém autênticos e fortes. É a partir do encontro com Deus e com Maria Magdala que Jesus conhece não somente sua condição divina, como também as terríveis conseqüências desse privilégio. E é a partir daí que Jesus torna-se mais seguro de si. Mas essa segurança é resultado de um amadurecimento gradual, em que acompanhamos todas as dúvidas e hesitações, assim como o remorso, herdado do pai, José, que não avisara aos pais das outras crianças de Belém que seus filhos iriam ser assassinados.
Vemos, então, em O evangelho segundo Jesus Cristo, um José e um Jesus que não estão acima das fraquezas dos homens, mas dois homens, que, sendo santos, nem por isto são imaculados. Vemos também, no Jesus de Saramago, a sua inexperiência, que o narrador relata com leve ironia, primeiro no episódio da mulher adúltera, em que Jesus recomenda que só atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado: “Arriscou-se muito o nosso Jesus porque podia ter acontecido que um ou mais dos apedrejadores, por serem de coração endurecido e estarem empedernidos nas práticas do pecado em geral, dessem ouvidos de mercador à admoestação e prosseguissem no apedrejamento, sem medo, eles próprios, à lei que estavam aplicando, por ser destinada às mulheres”.[32] A ironia torna-se um humor mais explícito no episódio do exorcismo, em que os espíritos malignos são autorizados a ocuparem os porcos, cujo resultado foi inesperado: “Os porqueiros, furiosos, atiravam de longe pedras a Jesus e a quem estava com ele, e já vinham a correr aí com o propósito, justíssimo, de exigir responsabilidades ao causador do prejuízo, um x por cabeça, a multiplicar por dois mil, as contas são fáceis de se fazer. Mas não de pagar”.[33]
As inquietações de Jesus revelam, desde o início, pelo menos um traço de superioridade: sua inteligência e seu espírito indagador. Ironicamente é uma qualidade perturbadora, que torna o Jesus de Saramago também um herege, não só em relação à tradição bíblica mais antiga, como também em relação aos próprios evangelhos. E, para exercitar esse espírito questionador seja plenamente realizado por Jesus, o narrador lhe empresta estilemas do um gênero apropriado para destronar as verdades absolutas: o diálogo socrático[34] , pois Jesus discute com seus oponentes “como se na cartilha socrática tivesse aprendido as artes da maiêutica analítica”.[35] Contudo, ao contrário dos sofistas, Jesus não tem como objetivo somente convencer os adversários, mas conhecer melhor a si mesmo, a Deus e aos homens: “(...) O que quero saber é sobre a culpa, Falas de uma culpa tua, falo de culpa em geral, mas também da culpa que eu tenha mesmo não tendo pecado directamente (...)”.[36] Com ironia, Saramago apresenta o próprio Jesus como primeiro questionador da verdade absoluta dos evangelhos. Por este e outros procedimento O evangelho segundo Jesus Cristo confronta a verdade oficial da bíblia com as versões marginais: as heresias. 


Notas:

[1] ARISTÓTELES. Poética. Tradução, prefácio, introdução, comentário e apêndices de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, s.d. p. 115.

[2] Segundo Huizinga, storia, no dialeto jônico de Heródoto, significa “aquilo que se consegue saber através de inquérito”. Opõe-se, portanto, à noção de revelação divina. Cf. HUIZINGA, J. Über eine Definition des Begriffs Geschichte. In: ______ . Geschichte und Kultur: gesammelte Aufsätze. Tradução de Werner Kaegi. Stuttgart: Alfred Kröner Verlag, 1954. p. 6.

[3] Salma Ferraz observa que “[alguns dos evangelhos apócrifos (Proto-evangelho de Tiago, Evangelho pseudo-Tomé, Evangelho árabe da infância, Evangelho apócrifo segundo Felipe, Evangelho apócrifo de Nicodemus) são citados em diversas vezes para preencherem os chamados ‘vazios’ da narrativa bíblica, ou seja, aqueles momentos em que o texto bíblico se cala sobre determinado período de tempo, como, por exemplo, o que teria acontecido com Cristo dos doze aos trinta anos.” FERRAZ, S. O quinto evangelista: o (des)evangelho segundo José Saramago. Brasília: Editora da UnB, 1998. p. 35.

[4] SARAMAGO, J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p.18.

[5] Ibid. p. 346. 

[6] Ibid. p. 108.

[7] Ibid. p. 101.

[8] Ibid. p. 311-312.

[9] LINK, L. O Diabo: a máscara sem rosto. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 25.

[10] Id. 

[11] Id. 

[12] Mas, no mosaico de Torcello, esse trabalho é realizado pelos próprios anjos (cf. LINK, Op. cit. p. 123). Luther Link observa também que os instrumentos utilizados pelos diabos, na iconografia medieval, são os mesmos utilizados pela Inquisição. 

[13] LINK, L. Op. cit. p. 24.

[14] SARAMAGO, J. Op. cit. p. 392-393.

[15] Exceto naquele momento em que nada em direção a Jesus e Deus, quando por um breve vislumbre de Jesus, lembra um porco resfolegando. Mas aqui parece que a intenção é mostrar que o Diabo não tem a mesma onipotência do Senhor: “(...) à distância era outra vez como um porco com as orelhas espetadas, ouviam-se resfolgos bestiais, mas um ouvido fino não teria dificuldade de perceber que havia também ali um som de medo, não de afogar-se, que ideia, o Diabo, acabámos de sabê-lo mesmo agora, não acaba, mas de ter de existir para sempre. (O Evangelho segundo Jesus Cristo. p. 393.) 

[16] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 364.

[17] Ibid. p. 309.

[18] Id.

[19] Ibid. p. 381-385.

[20] Ibid. p. 436.

[21] Ibid. p. 437.

[22] BLOOM, H. Abaixo as verdades sagradas: poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Tradução: Alípio Correa de Franca Neto, Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 41.

[23] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 366.

[24] Posteriormente, já na Europa cristã da Idade Média, os heróis reúnem as qualidades do guerreiro e do santo (ex: Rolando, Joana D’Arc).

[25] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 86. 

[26] Id. 

[27] Um crime delicado.

[28] Ibid. p. 89.

[29] Ibid. p. 222.

[30] Ibid. p. 270.

[31] Ibid. p. 282.

[32] Ibid. p. 352

[33] Ibid. p. 356.

[34] Lembremos que o diálogo socrático, segundo Bakhtin, é um dos gêneros que originaram o romance. (Cf. Bakhtin, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Editora UNESP/HUCITEC, 1990. passim).

[35] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 231.

[36] Ibid. p. 211.


Bibliografia:

BLOOM, H. Abaixo as verdades sagradas: poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Tradução: Alípio Correa de Franca Neto, Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
FERRAZ, S. O quinto evangelista: o (des)evangelho segundo José Saramago. Brasília: Editora da UnB, 1998.
LINK, L. O Diabo: a máscara sem rosto. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BRIDI, M. V. O evangelho de Saramago: a Paixão de Cristo em perspectiva. In: LOPONDO, L. (org.). Saramago segundo terceiros. São Paulo: Humanitas/FFLHCH/USP, 1998. p. 111-130.
SARAMAGO, J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
SEGOLIN, F. O evangelho às avessas de Saramago ou o divino demasiado humano ou o Deus que não sabe o que faz. CADERNOS CESPUC DE PESQUISA. José Saramago: um nobel para as literaturas de língua portuguesa. Belo Horizonte: CESPUC, 1999. p. 13-19.
SILVA, T. C. C. O evangelho segundo Jesus Cristo ou a consagração do sacrilégio. CADERNOS CESPUC DE PESQUISA. José Saramago: um nobel para as literaturas de língua portuguesa. Belo Horizonte: CESPUC, 1999. p. 50-60."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Depois do ataque a o jornal satírico "Charlie Hebdo" - Algumas ideias sobre as intolerâncias religiosas

Mensagem divulgada pelas redes sociais

(...) "É inevitável, as religiões, como as revoluções, devoram os seus filhos. Há nas religiões um contínuo processo de devoramento em que Deus é como um Moloch que necessitasse do sacrifício humano. Imaginando que Deus existe — e não lhe concedo o beneficio da dúvida —, Deus não pode, por boa lógica, criar seres para os destruir. O cristianismo na sua derivante católica, que é a que conhecemos melhor, é uma história de sofrimentos contínuos. (...)

(...) Mas as religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por, seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos. É um jogo entre poderes que se debatem em circunstâncias históricas diferentes. Veja-se as cruzadas, uma crença contra outra crença, uma guerra não entre um Deus e outro, Alá, mas entre dois livros, a Bíblia e o Corão. Do ponto de vista do meu bom senso é absurdo. (...)

Extractos da entrevista de Clara Ferreira Alves a José Saramago, originalmente publicada no jornal "Expresso", em 2/11/1991

Com a tag #JeSuisCharlie esta imagem correu mundo,
testemunhando o horror que originou um repúdio consensual 


(...) "No seu discurso aquando da cerimónia da entrega do Nobel fez um balanço doso livros que tinha publicado até então e fez questão de na parte de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" reforçar, mais uma vez, publicamente a sua habitual contrariedade em relação ao papel da Igreja. Essa será uma das marcas da vida de José Saramago? 

É. É uma das marcas, digamos, da minha vida e da minha personalidade. A questão é que a Igreja Católica, é a essa que nos referimos, confundiu-se muitas vezes — demasiadas vezes — com uma associação de criminosos. Inventou a Inquisição para vigiar o grau de fidelidade às crenças cristãs, sobretudo na sua versão católica, e a partir daí organizar um sistema repressivo implacável e de uma crueldade absolutamente diabólica que nega qual-quer direito que a Igreja suponha ter para interferir na vida de cada um. Que, no fundo, é o que ela quer, a Igreja não está nada preocupada com a minha alma ou com a sua — ela própria tem muitas dúvidas sobre essa questão de haver alma — porque o que quer controlar é o meu corpo e o seu corpo e para purificar-se e assim acumulou um passivo nestes dois mil anos de uma lista de mortos interminável por causas distintas. É uma banalidade dizer que Deus nunca cá esteve em baixo a ver o que é que estava bem e o que é que estava mal, a deixar os seus conselhos ou as suas críticas. Nunca, nunca aconteceu e não acontecerá, Deus simplesmente não existe ou, como eu digo no In Nomine Dei, Deus é apenas o nome que tem, não é mais nada. Mas é o poder, poder de tal forma descarado e insolente que pretende introduzir-se em todos os aspectos da vida humana — no comportamento sexual, no cumprimento de regras que não vieram das estabelecidas por seres humanos —para controlar os seres humanos e isto há que denunciá-lo. Mas, o poder da Igreja Católica está de tal forma enraizado no corpo social e na mente das pessoas que não vejo como é que se possa sair disto. Com o Vaticano II, a Igreja fez uma espécie de esforço, o chamado aggiornamento, para se adaptar à sociedade humana em marcha tal como acontece com os touros quando saltam a barreira. A isso chamam-lhe crença natural... O touro está na praça mas lembra-se de que há um sítio onde tinha estado antes, num lugar um pouco sujo e mal cheiroso mas onde estava melhor. Como não pode regressar ao campo, quer voltar para o curro porque ali está, ou crê que está, em segurança e a Igreja tem que voltar sempre à sua crença natural e a crença natural da Igreja é o autoritarismo e é a intolerância. Uma intolerância que começa por ser em relação a outras religiões, por isso a longuíssima história das guerras de religião, enquanto no interior de si mesma mantém uma vigilância constante sobre os actos e se possível os pensamentos dos fiéis para ver se mijam ou não fora do penico. No fundo é isto, não se pode ter confiança nessa gente, principalmente quando sabemos que foram tantas e quantas vezes cúmplices de um poder político e político-militar implacável que recorreu à tortura sistemática que a Igreja abençoou. Basta ver o exemplo de Franco que quando saía de uma igreja fazia-o debaixo do pálio! O pior de tudo, é que nós vivemos num engano e a questão posta n' "As Intermitências da Morte" é bastante clara porque a única justificação ou a única razão que dá força à Igreja é a morte. Porque foi a sua existência, e continua a ser, que permite à Igreja Católica representar a comédia e dizer às pessoas «portem-se bem porque terão no Além o prémio ou o castigo, se se portarem mal».



Logo no início de "As Intermitências da Morte", o cardeal diz: «Sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há Igreja»... 
O único fundamento que a Igreja Católica tem para tentar manter-se de pé e continuar é defender com unhas e dentes, com bons ou maus argumentos, ou de qualquer maneira, a ressurreição. Porque se não há ressurreição não há Igreja. Se os corpos não ressuscitam e se as almas, ou o que quer que seja, não têm uma duração maior que a vida em que situação é que ficaria a Igreja? Para chegar a um suposto julgamento ou a uma decisão que não se sabe quem é que vai tomar sobre o destino que se há-de dar para toda a eternidade — castigo ou prémio — em que é que fica a Igreja? Em nada... Dominam os pensamentos, criam coisas que não existiam antes como, por exemplo, o pecado. Inventar o pecado foi uma manobra absolutamente genial porque se eu faço qualquer coisa, a Igreja aparece a dizer que isso é pecado, não importa que eu pergunte «É pecado porquê?» porque não têm uma explicação. Não podem dizer que receberam um e-mail do céu a dizer «Cuidado que fulano tal e fulana estão aí a cometer vários pecados». Não, simplesmente lideram em função do risco que, para a manutenção da própria Igreja, pode representar uma desobediência, uma heresia e um protesto contra os métodos da própria Igreja. Tudo isso é um mecanismo de repressão e, ao mesmo tempo, uma fábrica que produz uma ideologia que nos mantém atados." (...)

em, "Uma longa viagem com José Saramago
de João Céu e Silva
Porto Editora, páginas 254 a 256

Imagem metafórica com alusão aos atentados de 11/9, 
agora com lápis não censurados contra os ódios e fanatismos religiosos


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

"Deus como problema" em O Caderno (16/10/2008)... ou a possibilidade da paz na humanidade

"Ataque a escola em Peshawar causou 141 mortos, foi o mais sangrento no Paquistão"


"Peshawar, Paquistão, (16/12/2014) - O exército paquistanês informou que 141 pessoas, 132 das quais crianças, foram mortas hoje no ataque de um comando talibã a uma escola para filhos de militares em Peshawar, o mais sangrento ataque terrorista da história do Paquistão.
O pior até agora tinha sido um atentado que causou 139 mortos em Carachi (sul) em 2007 aquando do regresso ao país da antiga primeira-ministra Benazir Bhutto.
O porta-voz do exército paquistanês, general Asim Bajwa, disse ainda, numa conferência de imprensa, que 124 pessoas, entre as quais 121 crianças, ficaram feridas no ataque que durou mais de seis horas e que terminou com a morte dos seis elementos do comando talibã."

Uma pequena notícia, o mundo ocidental por breves instantes, ficou horrorizado com a matança. 
Não foi um acidente.
Foi um massacre.
Foi uma execução em massa.
Em nome de um "deus".
No blog "O Caderno", Saramago coloca a questão central:

"Deus como problema, 
Deus como pedra no meio do caminho, 
Deus como pretexto para o ódio, 
Deus como agente de desunião"




Extracto de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"
Jesus descobre os prazeres da carne com Maria de Magdala

(...) "A cama não é aquela rústica esteira estendida no chão, com um lençol pardo lançado por cima, que Jesus viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse, Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo.. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento. Não aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito." (...)

"Evangelho Segundo Jesus Cristo"
Caminho, 1991
Páginas 281 a 283



Original para ser consultado em http://caderno.josesaramago.org/6909.html

Leitura em "O Caderno" (Caminho, 2.ª edição)
16 de Outubro de 2008, páginas 71 a 76

"Deus como problema"
"Entre todas as coisas improváveis do mundo, ocupa um dos primeiros lugares a hipótese de que o cardeal Rouco Varela venha a ler este blog. Em todo o caso, uma vez que a Igreja Católica continua a afirmar que os milagres existem, a ela e a eles me confio para que, sob os olhos do ilustre, instruído e simpático purpurado, caiam um dia as linhas que se seguem. Há muitos mais problemas que o laicismo, considerado por sua eminência responsável do nazismo e do comunismo, e é precisamente de um deles que se fala aqui. Leia, senhor cardeal, leia. Ponha o seu espírito a fazer ginástica.

"Deus como problema"

Não tenho dúvidas de que este arrazoado, logo a começar pelo título, irá obrar o prodígio de pôr de acordo, ao menos por esta vez, os dois irredutíveis irmãos inimigos que se chamam Islamismo e Cristianismo, particularmente na vertente universal (isto é, católica) a que o primeiro aspira e em que o segundo, ilusoriamente, ainda continua a imaginar-se. Na mais benévola das hipóteses de reacção possíveis, clamarão os bem-pensantes que se trata de uma provocação inadmissível, de uma indesculpável ofensa ao sentimento religioso dos crentes de ambos os partidos, e, na pior delas (supondo que pior não haja), acusar-me-ão de impiedade, de sacrilégio, de blasfémia, de profanação, de desacato, de quantos outros delitos mais, de calibre idêntico, sejam capazes de descobrir, e portanto, quem sabe, merecedor de um castigo que me sirva de escarmento para o resto da vida. Se eu próprio pertencesse ao grémio cristão, o catolicismo vaticano teria de interromper os espectáculos estilo cecil b. de mille em que agora se compraz para dar-se ao trabalho de me excomungar, porém, cumprida essa obrigação disciplinária, veria caírem-se-lhe os braços. Já lhe escasseiam as forças para proezas mais atrevidas, uma vez que os rios de lágrimas choradas pelas suas vítimas empaparam, esperemos que para sempre, a lenha dos arsenais tecnológicos da primeira inquisição. Quanto ao islamismo, na sua moderna versão fundamentalista e violenta (tão violenta e fundamentalista como foi o catolicismo na sua versão imperial), a palavra de ordem por excelência, todos os dias insanamente proclamada, é “morte aos infiéis”, ou, em tradução livre, se não crês em Alá, não passas de imunda barata que, não obstante ser também ela uma criatura nascida do Fiat divino, qualquer muçulmano cultivador dos métodos expeditivos terá o sagrado direito e o sacrossanto dever de esmagar sob o chinelo com que entrará no paraíso de Maomé para ser recebido no voluptuoso seio das huris. Permita-se-me portanto que torne a dizer que Deus, sendo desde sempre um problema, é, agora, o problema.Como qualquer outra pessoa a quem a lastimável situação do mundo em que vive não é de todo indiferente, tenho lido alguma coisa do que se tem escrito por aí sobre os motivos de natureza política, económica, social, psicológica, estratégica, e até moral, em que se presume terem ganho raízes os movimentos islamistas agressivos que estão lançando sobre o denominado mundo ocidental (mas não só ele) a desorientação, o medo, o mais extremo terror. Foram suficientes, aqui e além, umas quantas bombas de relativa baixa potência (recordemos que quase sempre foram transportadas em mochila ao lugar dos atentados) para que os alicerces da nossa tão luminosa civilização estremecessem e abrissem fendas, e ruíssem aparatosamente as afinal precárias estruturas da segurança colectiva com tanto trabalho e despesa levantadas e mantidas. Os nossos pés, que críamos fundidos no mais resistente dos aços, eram, afinal, de barro.É o choque das civilizações, dir-se-á. Será, mas a mim não me parece. Os mais de sete mil milhões de habitantes deste planeta, todos eles, vivem no que seria mais exacto chamarmos a civilização mundial do petróleo, e a tal ponto que nem sequer estão fora dela (vivendo, claro está, a sua falta) aqueles que se encontram privados do precioso “ouro negro”. Esta civilização do petróleo cria e satisfaz (de maneira desigual, já sabemos) múltiplas necessidades que não só reúnem ao redor do mesmo poço os gregos e os troianos da citação clássica, mas também os árabes e os não árabes, os cristãos e os muçulmanos, sem falar naqueles que, não sendo uma coisa nem outra, têm, onde quer que se encontrem, um automóvel para conduzir, uma escavadora para pôr a trabalhar, um isqueiro para acender. Evidentemente, isto não significa que por baixo dessa civilização a todos comum não sejam discerníveis os rasgos (mais do que simples rasgos em certos casos) de civilizações e culturas antigas que agora se encontram imersas em um processo tecnológico de ocidentalização a marchas forçadas, o qual, não obstante, só com muita dificuldade tem logrado penetrar no miolo substancial das mentalidades pessoais e colectivas correspondentes. Por alguma razão se diz que o hábito não faz o monge…

Uma aliança de civilizações poderá representar, no caso de vir a concretizar-se, um passo importante no caminho da diminuição das tensões mundiais de que cada vez parecemos estar mais longe, porém, seria de todos os pontos de vista insuficiente, ou mesmo totalmente inoperante, se não incluísse, como item fundamental, um diálogo inter-religiões, já que neste caso está excluída qualquer remota possibilidade de uma aliança… Como não há motivos para temer que chineses, japoneses e indianos, por exemplo, estejam a preparar planos de conquista do mundo, difundindo as suas diversas crenças (confucionismo, budismo, taoísmo, hinduísmo) por via pacífica ou violenta, é mais do que óbvio que quando se fala de aliança das civilizações se está a pensar, especialmente, em cristãos e muçulmanos, esses irmãos inimigos que vêm alternando, ao longo da história, ora um, ora outro, os seus trágicos e pelos vistos intermináveis papéis de verdugo e de vítima.Portanto, quer se queira, quer não, Deus como problema, Deus como pedra no meio do caminho, Deus como pretexto para o ódio, Deus como agente de desunião. Mas desta evidência palmar não se ousa falar em nenhuma das múltiplas análises da questão, sejam elas de tipo político, económico, sociológico, psicológico ou utilitariamente estratégico. É como se uma espécie de temor reverencial ou a resignação ao “politicamente correcto e estabelecido” impedissem o analista de perceber algo que está presente nas malhas da rede e as converte num entramado labiríntico de que não tem havido maneira de sairmos, isto é, Deus. Se eu dissesse a um cristão ou a um muçulmano que no universo há mais de 400 mil milhões de galáxias e que cada uma delas contém mais de 400 mil milhões de estrelas, e que Deus, seja ele Alá ou o outro, não poderia ter feito isto, melhor ainda, não teria nenhum motivo para fazê-lo, responder-me-iam indignados que a Deus, seja ele Alá ou o outro, nada é impossível. Excepto, pelos vistos, diria eu, fazer a paz entre o islão e o cristianismo, e, de caminho, conciliar a mais desgraçada das espécies animais que se diz terem nascido da sua vontade (e à sua semelhança), a espécie humana, precisamente.

Não há amor nem justiça no universo físico. Tão-pouco há crueldade. Nenhum poder preside aos 400 mil milhões de galáxias e aos 400 mil milhões de estrelas existentes em cada uma. Ninguém faz nascer o Sol cada dia e a Lua cada noite, mesmo que não seja visível no céu. Postos aqui sem sabermos porquê nem para quê, tivemos de inventar tudo. Também inventámos Deus, mas esse não saiu das nossas cabeças, ficou lá dentro como factor de vida algumas vezes, como instrumento de morte quase sempre. Podemos dizer “Aqui está o arado que inventámos”, não podemos dizer “Aqui está o Deus que inventou o homem que inventou o arado”. A esse Deus não podemos arrancá-lo de dentro das nossas cabeças, não o podem fazer nem mesmo os próprios ateus, entre os quais me incluo. Mas ao menos discutamo-lo. Já nada adianta dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. Discutamos essa invenção, resolvamos esse problema, reconheçamos ao menos que ele existe. Antes que nos tornemos todos loucos. E daí, quem sabe? Talvez fosse a maneira de não continuarmos a matar-nos uns aos outros."