José Saramago.
Uma visão apaixonada, sobre o homem que da Estátua descobriu a Pedra.
Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"
(...) "Ensaio sobre a Cegueira" é a história de uma cegueira fulminante que ataca os habitantes de uma cidade. Poderia tratar-se de uma epidemia, de uma praga, isso não está explicado no livro nem importa, a única coisa que se diz é que a gente perde a visão. (...)
(...) Mas o autor crê que já estamos cegos com os olhos que temos, que não é necessário que nenhuma epidemia de cegueira venha a assolar a humanidade." (...)
em, "A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Páginas 34
(...) "O cão das lágrimas esgueirou-se pela escada
acima, roçou como um sopro as saias da velha, que nem
se apercebeu do perigo que acabara de passar por ela, e
foi pôr-se ao lado da mulher do médico, donde anunciou
aos ares a proeza cometida. A velha do primeiro andar,
ouvindo ladrar com tamanha ferocidade, temeu, mas
sabemos quão demasiado tarde, pela segurança da sua
despensa, e gritou esticando o pescoço para cima, Esse
cão tem de estar preso, não vá matar-me aí alguma
galinha, Fique descansada, respondeu a mulher do
médico, o cão não tem fome, já comeu, e nós vamo-nos
embora agora mesmo, Agora, repetiu a velha, e houve na
sua voz um quebramento como de pena, era como se
estivesse a querer ser entendida de um modo muito
diferente, por exemplo Vão-me deixar aqui sozinha,
porém não pronunciou uma palavra mais, só aquele
Agora que nem pedia resposta, os duros de coração
também têm os seus desgostos, o desta mulher foi tal que
depois não quis abrir a porta para despedir-se dos
desagradecidos a quem tinha dado passagem franca pela
sua casa. Ouviu-os descer a escada, falavam uns com os
outros, diziam, Cuidado, não tropeces, Põe a mão no meu
ombro, Segura-te ao corrimão, são palavras de sempre,
mas agora mais comuns neste mundo de cegos, o que lhe
pareceu estranho foi ouvir uma das mulheres dizer, Aqui
está tão escuro que não consigo ver, que a cegueira desta
mulher não fosse branca já era, só por si, surpreendente,
Intérprete Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música
Registo Áudio
Título Ensaio sobre a Cegueira
Tipo de Registo Áudio Música
Tipo de Suporte CD
Faixas 1-22
Número de Pistas 2
Duração 00:76:00
Intérpretes da Gravação Sara Belo (soprano), Sílvia Filipe (mezzo-soprano), Inês Homem de Melo Marques (voz de criança) Coros do Círculo Portuense de Ópera Orquestra Nacional do Porto Jorge Salgueiro (direcção)