Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta musicalidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta musicalidade. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de janeiro de 2021

Faleceu Carlos do Carmo

Carlos do Carmo emprestou a sua Caligrafia na reedição da obra de José Saramago 

"O que farei com este livro?"

Faleceu aos 81 anos 🥀 

sábado, 13 de agosto de 2016

José Saramago e Azio Corghi no "Mil Folhas" do jornal Público (Março de 2006)

O presente artigo pode ser recuperado e consultado, aqui
em http://josesaramago.blogspot.pt/2006/03/jos-saramago-e-azio-corghi-no-mil.html

O suplemento "Mil Folhas", editado hoje com o jornal Público, publica um artigo sobre a ópera O dissoluto absolvido, a qual estreia hoje à noite no Teatro Nacional de São Carlos. Pela sua manisfesta relevância didáctica, aqui fica transcrito o texto de Cristina Fernandes:

"D. Giovanni: "Absolvido, mas por quanto tempo?"

O próximo espectáculo da temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos (com estreia marcada para hoje, às 20h, e repetições nos dias 20, 22, 24 e 26) propõe três obras curtas em um acto, obras que de diferentes maneiras se manifestam em ruptura com as convenções ou os códigos instituídos: "Erwartung" (Espera), de Schoenberg; "Sancta Susanna", de Hindemith (estreia em Portugal); e "Don Giovanni, Il Dissoluto Assolto" (O Dissoluto Absolvido), com libreto do escritor José Saramago e música de Azio Corghi (n. 1937), que terá a sua estreia mundial nesta ocasião. A direcção musical será de Marko Letonja e a encenação de Andrea De Rosa.
Depois de "Blimunda", baseada no "Memorial do Convento", e de "Divara-Água e Sangue", a partir do drama teatral "In Nomine Dei", Don Giovanni constitui a terceira colaboração entre o compositor italiano e o escritor português no domínio do teatro musical, com a particularidade de Saramago ter escrito desta vez um libreto de raiz. Corghi apenas adaptou alguns detalhes no momento de dar "voz musical" ao libreto.
A edição da Editorial Caminho do texto original de Saramago é acompanhada por um interessantíssimo texto de Graziella Seminara que relata com grande detalhe a forma como os dois autores foram construindo e discutindo a obra através de uma intensa troca de "emails". Saramago parte de Da Ponte para fazer uma releitura pessoal do mito que transforma o sedutor em seduzido e que lhe retira a conclusão moralista e a punição por uma entidade sobrenatural. A punição do libertino chega pelas mãos de D. Elvira, D. Ana e D. Otávio que se unem para lhe causar a humilhação maior negando as suas conquistas e a sua virilidade, que o famoso catálogo (trocado às escondidas por um livro em branco por D. Elvira) não mais poderá testemunhar...
"Era certo que sempre havia pensado que D. Giovanni não podia ser tão mau como o andavam a pintar desde Tirso de Molina, nem Dona Ana e Dona Elvira tão inocentes criaturas, sem falar do Comendador, puro retrato de uma honra social ofendida, nem de um Don Otavio, que mal consegue disfarçar a covardia sob as maviosas tiradas que no texto de Lorenzo da Ponte vai debitando", escreve o escritor José Saramago no prefácio desta obra teatral.
Don Giovanni aceita corajosamente a punição que lhe é proposta por um comendador preso numa estrutura gerida por convenções, não procurando salvaguardar-se hipocritamente num perdão corruptor da sua responsabilidade ética. Será salvo por Zerlina, parecendo despertar para uma nova existência assinalada também simbolicamente pelo catálogo que Leporello queima na lareira. Mas a dúvida fica no ar, colocada pelo enigmático manequim de D. Elvira: "Absolvido, mas por quanto tempo?"
A ópera, encomendada pelo Teatro alla Scala de Milão para figurar num programa com "Sancta Susanna", de Hindemith, esteve para ser estreada em Milão no ano passado mas o período conturbado vivido pelo prestigiado teatro italiano há cerca de um ano, que levou à demissão de Muti e a várias greves dos músicos, fez com que a estreia mundial transitasse para Lisboa.

A dupla Corghi e Saramago

Azio Corghi já escreveu sete obras musicais sobre textos de Saramago, sendo esta a terceira colaboração no campo da ópera. Para o compositor italiano a literatura é uma grande fonte de inspiração quando se trata de encontrar temas teatrais. O que mais o fascina em Saramago, "um homem que denuncia as injustiças do mundo mas que tem uma grande sede de viver", é o facto de cada obra literária do escritor português conter tudo lá dentro: "romance, poesia, teatro, música!", disse Corghi ao PÚBLICO.
A música começou a ser composta antes de o libreto estar completamente pronto, mas foi sendo ajustada em função das longas conversas que os dois autores iam tendo por "email", ditando o texto vários dos procedimentos musicais. "O próprio Saramago partiu do texto de Da Ponte, por exemplo logo no Prólogo com D. Elvira e Leporello, introduzindo a famosa ária do catálogo. E no decurso da ópera cita várias vezes o texto de Da Ponte. Havia uma indicação clara para eu pegar na ária de Leporello, mas tratando-se de uma releitura da história, faço um trabalho de ironia através das citações."
Esta obra difere muito de "Blimunda" e "Divara" uma vez que se tratava de "histórias trágicas bastante mais densas". Para Corghi "o D. Giovanni reflecte uma outra ligeireza - uma certa elegância e "souplesse", que tentei também recuperar na música." Num processo inverso ao de "Divara" no "Dissoluto Absolvido" as personagens masculinas cantam e as femininas falam: "Não se trata de um "parlato" livre mas de um "parlato" rítmico escrito sobre a música. Do "parlato" passam ao "sprechgesang" ou mesmo ao canto", explicou o compositor. "Duas das actrizes também são cantoras e conseguem realizar muito bem este trabalho."
Cada personagem tem uma expressão musical própria, mas ao contrário do que fez Mozart, Corghi não se preocupa em caracterizar tipos sociais (aristocráticos ou populares). "As personagens são caracterizadas por timbres e temas musicais (alguns derivados de cantos populares italianos). Sempre trabalhei com citações musicais, com homenagens musicais onde se pode revisitar toda uma história. Para além dos temas populares usei temas da música clássica que são inseridos como provocação ou ironia. No início, quando o coro sussurra, cria uma espécie de vento, depois ouve-se o tema da ária da Calúnia de Rossini... Nesse momento chegam D. Ana, D. Elvira e D. Otavio que irão caluniar D. Giovanni, dizer que é impotente, que nunca conquistou nenhuma mulher."
Às citações musicais contrapõem-se situações de forte intensidade dinâmica e variedade tímbrica, favorecidas por uma orquestra imponente. Uma vez que o projecto nasceu por iniciativa do Teatro alla Scala de Milão e se destinava a um programa que também incluía "Sancta Susanna" Corghi optou por usar uma orquestra de grandes dimensões semelhante à que é usada por Hindemith. "Juntei-lhe ainda - não sei se por paixão se pelo facto de conhecer muito bem os instrumentistas da Orquestra do Teatro alla Scalla - uma grande secção de percussão que confere à obra um sabor muito rítmico, que também existe nos cantos populares. Diverti-me a procurar soluções orquestrais e tímbricas. Há também um trabalho de "espelhos" no tecido musical, que refletem a polirritmia, polimetria", continua o compositor italiano.
O coro masculino tem um papel importante como comentador da acção (à maneira da tragédia grega), mas também colocando perguntas e respostas. Permanecerá por detrás do palco até ao final da obra. As suas intervenções oscilam entre os jogos fonéticos e a clareza das palavras. Corghi refere que tanto "intervém como "venticello" [vento], quando acompanha o tema rossiniano da calúnia, murmurando e sussurando, como pode explodir nos momentos mais enfáticos das intervenções do Comendador." A ambiguidade dos seus comportamentos é jogada sobre a exclamação e a interrogação e no Intermezzo cantará "a cappella", a "berceuse" do tema de Zerlina.

Uma obra provocatória

Tal como Don Giovanni também "Sancta Susanna" na ópera de Hindemith recusa arrepender-se do seus desejos carnais, sofrendo o supremo castigo de ser emparedada viva. Baseada no drama homónimo de August Stramm, faz parte do conjunto das três primeiras óperas, de Paul Hindemith, todas em um acto, criadas no início dos anos 20: "Mörder, Hoffnung der Frauen" (1921), "Das Nusch-Nuschi" (1921) e "Sancta Susanna" (1922). Reflexo do estado de espírito que se sucede à bárbara carnificina da primeira Grande Guerra, as obras causaram escândalo por causa dos seus libretos que chocaram a moral burguesa pela forma explícita e, por vezes provocatória, como abordam a sexualidade.
"Erwartung", composta em dezassete dias nos finais de 1909 é uma das primeiras obras atonais de Schoenberg e um exemplo emblemático do Expressionismo. Trata-se de um monodrama em que uma mulher procura no meio de um bosque, com crescente e cada vez mais torturante ansiedade, o homem a quem apaixonadamente ama e pelo qual sente um implacável ciúme, encontrando-o por fim morto.
O maestro Marko Letonja considera que a ideia do director do Teatro Nacional de São Carlos, Paolo Pinamonti, de colocar a "Erwartung" de Schoeberg entre a ópera de Hindemith e a ópera de Corghi é muito pertinente. "Temos duas óperas do início do século XX e uma criação recente, sendo muito interessante encontrar os pontos de contacto e as divergências. Em Schoenberg e Hindemith o Expressionismo é abordado de dois pontos de vista completamente diferentes. Ambas as obras retratam uma intensa evolução das emoções e solicitam um canto muito expressivo, embora sem frases em "cantabile" no sentido clássico. Na composição de Corghi os homens cantam e as mulheres falam. No Schoenberg, uma mulher fala e canta. No Hindemith cantam todos. Mas o "sprechgesang" está presente nas três obras.", disse ao PÚBLICO o maestro.
A evolução psicológica das personagens nas obras de Hindemith e Schoenberg é um dos aspectos mais fascinantes mas também um dos maiores desafios da interpretação. "Uma coisa é o que se sente, outra é o que se pensa. Em "Erwartung" temos o bosque e o medo por um lado e por outro as recordações. Há muitas perguntas em aberto. A protagonista tinha morto ou não o marido? Schoenberg e Freud nunca se encontraram, mas é quase certo que Schoenberg estudou alguns dos seus casos de histeria. Na "Sancta Susana" Klementia conta um episódio que depois volta a acontecer. Trata-se de expressões visíveis mas também do desenvolvimento mental das personagens. Além das dificuldades de interpretação dramática há também grandes desafios técnicos", diz o maestro. Schoenberg escreveu "Erwartung" para um soprano dramático, mas a partitura tem muitas passagens na oitava baixa. "Estou muito contente por ter Brigitte Pinter a fazer o papel. É uma cantora como uma tessitura entre o meio-soprano e o soprano, um meio-soprano com agudos, portanto ideal. É um papel terrível, meia hora de música com três intervalos de uns 15 segundos para cantora! Supera a Isolda de Wagner em dificuldade."
Esta é a primeira obra de Corghi que Marko Letonja dirige mas a tarefa não foi difícil para ele porque "a partitura era muito clara", explica. "Era como se a música escrita me falasse. Pelo contrário em Schoenberg senti mais a necessidade de analisar o que ele escreveu antes e depois. "Erwartung" situa-se após o período da música pós-romântica e antes do dodecafonismo. Um dos pontos mais fascinantes da partitura é a polifonia. Há poucas linhas dobradas, a orquestra é tratada como uma enorme orquestra de câmara chegando a haver 15 linhas ao mesmo tempo que se cruzam.""

sábado, 4 de junho de 2016

Canção de homenagem a José Saramago pelos "Le Voix du 7 sois" (13/04/2010)


"This song is homage for The Portuguese novelist and Nobel Prize-winner José Saramago who headed as a honorary president of 7sois 7luas festival."

Time: April 13th, 2010
Location: Portugal, Vila Real de Santo Antonio
Event: Live concert performed by "Le Voix du 7 sois" - the ensemble of 7sois 7luas festival.
Composed by Stefano Saletti
Lyrics: Hebrew, Spanish, Portugese relies on Saramago's Protopoema from "Le piccole memorie".

sábado, 7 de maio de 2016

Antevisão de "Blimunda" de Maria João Avillez (Público, 9 de Maio de 1991)

Antevisão de "Blimunda"
Por Maria João Avillez - "Público" (9 de Maio de 1991)

Pode ser recuperado e consultado, via site do jornal Público, aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/antevisaoBlimunda.htm

"Um dia longínquo de l984, José Saramago recebe em casa uma carta que o deixa perplexo: a editora italiana Suvini Zerboni escreve-lhe para o informar que o compositor Azio Corghi está interessado em fazer uma ópera a partir do "Memorial do Convento". O escritor relê a carta, continua a achá-la "insólita", não responde. E passa o caso à Sociedade Portuguesa de Autores, para que aprofundasse aquela sugestão singular. 
"A verdade é que eu fiquei um pouco céptico... Transformar um romance português numa ópera italiana?", recorda ele, sorrindo. 
A editora reincide, o compositor não desarma. Quase um ano depois, José Saramago tem em Roma o seu primeiro encontro com Azio Corghi, de quem entretanto ouvira já alguns discos e "muito boas referências" artísticas e profissionais.
"O 'Gargantua' de Rabelais fora, por exemplo, um excelente trabalho do Azio... Mas porventura o que contou mais foi o facto de eu ter gostado dele", diz José Saramago. "É um homem de grande lhaneza, muito simples e dono de uma grande competência técnica. Mas é alguém de tal forma simples e discreto que enquanto não se ouve a sua música temos que adivinhá-la... Descobri um compositor apaixonado pelo 'Memorial do Convento', pela história, pelos valores do livro. Meses depois, voltámos a encontrar-nos em Milão, e estas duas conversas deixaram as coisas claras... Foi um encontro feliz."
E assim nasceu "Blimunda"... Numa noite de Maio de 1990 e num berço de ouro, o Scala de Milão. Um ano depois, "Blimunda" tem para si outro palco de ouro, o do São Carlos, enquanto aguarda o de Turim e ainda outras chamadas de prestígio, que a irão levar, se tudo se concretizar, a Toronto, Los Angeles, São Francisco, ao Met de Nova Iorque. E palcos primeiros da Europa manifestaram já a intenção de produzir novas encenações deste libreto. 
Hoje, José Saramago ainda se confessa um autor quase involuntário desta ópera. Encontro-o, camisola verde-escuro, camisa às riscas verde e branco, na casa onde mora, um pequeno andar debruçado sobre uma rua "de silêncio e de paz", que mais parece uma aldeia em plena Lapa. Bebemos um café que vem "ali de baixo", conversamos, o telefone nunca parará de tocar. 
"O libreto da 'Blimunda' vem com dois nomes, o meu e o do Azio Corghi, mas o trabalho essencial é dele... A minha contribuição foi mais uma troca de impressões, uma discussão de proposta de soluções, um trabalho de acompanhamento, muito mais do que um fazer real. Mas ele insistiu com grande delicadeza em que o libreto contivesse os nossos dois nomes..."
Daqui a quatro dias, sentado na plateia do Teatro de São Carlos, José Saramago terá provavelmente dificuldade em dizer o sentimento com que viveu essa noite. E lembrar-se-á, com certeza, dessa outra noite de Maio, quando, há um ano, sentado no Scala, viu pela primeira vez surgir a "sua" Blimunda. Já uma Blimunda outra, que não lhe pertencendo continuava a ser sua. 
Por dentro do escritor vive um homem pudico que não se molda a explicitar sentimentos ou a publicitar emoções. As suas mãos desenham incessantemente gestos e círculos no ar e, de vez em quando, a sua ligeira gaguez tornar-se-á mais lenta. E será sempre num registo contido que hoje olhará para trás e se recordará dessa outra noite fria de Primavera, em Itália. 
"É difícil... Foi sobretudo emocionante. É que nunca posso separar-me daquela ideia de que sou um português de Portugal. Há uma ligação profundíssima, uma raiz e tudo o que tem a ver com ela. Lembro-me de mim e da minha emoção ali sentado, diante daqueles actores, dos cenários, a ouvir uma história que eu escrevera... Tive por vezes a garganta apertada. Era como se eu, sabendo que parte daquilo era meu, não tivesse ao mesmo tempo a certeza de o merecer. Senti-me orgulhoso mas também muito humilde. E houve um sentimento de responsabilidade. Sabe... (sorri), não é um sentimento fácil... ou simples. Será talvez ingénua esta ideia de se ser responsável pelo país a que se pertence... Enfim, não tenho que dizer senão isto."
No S. Carlos, entretanto, vive-se também a azáfama - e que azáfama! - dos grandes momentos, e a contagem do tempo, tal como ali perto, no Teatro Nacional, inverteu já o seu ritmo: a partir de agora a contagem do tempo é descrescente. Há rostos ansiosos, uma atmosfera de tensão, no ar cruzam-se várias línguas numa algaraviada indescritível, o chão está juncado de mil fios, uma sofisticadíssima aparelhagem de mistura de som ocupa uma parte da plateia, fazem-se ensaios de luzes. A confusão tem aquela marca inconfundível da véspera das estreias. 
"Houve aqui dois cavaleiros que muito se bateram pela 'Blimunda'. O José Ribeiro da Fonte e o Manuel José Vaz, directores deste teatro. Gosto de dizer e de reconhecer isso", afirma José Saramago, na penumbra da plateia. 
No palco, vão lentamente nascendo os cenários de Michel Le Bois, a sala é envolvida pelas vozes de Blimunda e Baltasar - Kathia Lytting e William Lewis -, os figurinos de Jacques Schmidt cruzam a cena. A orquestra vai tomando o seu lugar e os cantores Fernando Serafim, Marina Ferreira e Jorge Brás de Carvalho também já se encontram prontos para um dos últimos ensaios. Pelos bastidores, na plateia, em cena, agitam-se centenas de pessoas - assistentes, técnicos, cantores, actores, elementos do coro, uma leva de figurantes. Daqui a algumas horas chegará ainda o octeto vocal madrigalista Swingle Singers. 
Todo este espectáculo - à sua maneira também ele uma superprodução -, assente numa carpintaria forte e em efeitos cénicos que prendem o olhar, foi produzido - e cronometrado - pela imaginação de Jerôme Savary, o encenador que Lisboa descobriu com a "Zazou", em recente noite de pompa, circunstância e espectáculo. 
Saramago:
"O livro é o livro, a música é a música, mas há o... encenador. E eu achei a encenação magnífica! Se o livro abre caminhos para soluções cénicas, o Savary explorou esses caminhos com efeitos cénicos deslumbrantes. Um dos factores do êxito da ópera em Milão foi certamente esta encenação... "
O escritor olha Kathia Lytting no palco e emociona-se: "Ela tem o temperamento e a voz duma diva... É uma wagneriana..."
A soprano é bela e jovem e sedutora. Há um ano, quando pela primeira vez cantou "Blimunda", estava grávida. Viveu com tanta intensidade o seu personagem que disse a si própria que se lhe nascesse uma filha teria o mesmo nome. 
"Assim foi, assim é: nasceu uma menina, chama-se Blimunda...", recorda, sorrindo, José Saramago. 
Blimunda-mulher, heroína desse fresco memorável que é o "Memorial do Convento". Hoje, passados que são já alguns anos sobre o momento e o acto da escrita, ainda a ama, como então, o escritor?
Pausa.
"Essa senhora fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim... Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me, com uma força que a partir de certa altura me limitei a... acompanhar. Aquele sentimento pleno da personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem palavras de amor... Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as dizer... E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas... Julgo que isso resulta da personagem feminina. É ela que impõe as regras do jogo... Porquê? (sorriso) Porque é assim na vida... A mulher é o motor do homem. (Pausa) Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm duvidas, são personagens masculinos com complexos... As mulheres, não."
José Saramago tem hoje os seus seis romances traduzidos em vinte e seis línguas. O escritor ri: "Do finlandês ao hebreu, do grego ao búlgaro..." E depois: "Tenho uma reduzida capacidade de acompanhar tudo isso. Há certos tradutores que têm o escrúpulo de pedir esclarecimentos, de apresentar duvidas. Mas (suspiro), há outros que não perguntam nada. Há um ou outro caso em que faço uma revisão aqui, em Portugal. Mas claro que se trata, no geral, de uma verificação que me escapa. "
A fama, o sucesso, o dinheiro, a invulgar notoriedade que hoje rodeia a sua assinatura, parecem não impedir a sua aparente serenidade ou contenção. Está-lhe no carácter essa forma de respirar perante os outros. Mas nas entrelinhas resvalam muitas vezes palavras reveladoras da vaidade, e sobre elas, não raro, desliza a sombra do orgulho.
"Essa espuma é lisonjeira, todos gostam de ser estimados... E eu acredito na sinceridade disso... Às vezes, todas estas solicitações ou este barulho podem ser opressivos, porque me roubam tempo e disponibilidade. Sobre o dinheiro, gostaria apenas de dizer que vivo do meu trabalho. Desejaria que isso fosse para os outros um direito e uma possibilidade. Mas gostava de voltar a isso da responsabilidade, porque no fundo, o sentimento principal é esse... Não é por importância, mas por verificar - através das reacções e das atitudes em Portugal ou lá fora, no estrangeiro - que transporto comigo uma certa responsabilidade... Eu quase diria que sou representante da língua que falamos, da nossa cultura... E não evito esta impressão de levar o meu país comigo..." 

domingo, 24 de abril de 2016

"Grândola" cantada por Luis Pastor e João Afonso e restantes companheiros presentes na casa de José Saramago e Pilar del Río em Tías Lanzarote

Relembrar e comemorar Abril - 42 anos de Abril - 1974/2016

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"El sábado de la semana pasada tuvimos la fortuna de conocer a Joao Afonso, el sobrino de José Alfonso. Fué en la biblioteca de Saramago en Tías - Lanzarote. Allí coincidió el grupo de artistas que visitaba la isla con motivo del concierto de Luis Pastor y su nuevo disco Duos. Fue una reunión íntima que terminó acariciada por poemas y canciones. Y no pude evitar coger la cámara y ponerme a grabar para socializar el pasaje." de Fernando Berlín da RadioCable.com

domingo, 3 de abril de 2016

Manuel Freire "Retrato do poeta quando jovem" poema de José Saramago


"Retrato do poeta quando jovem"

"Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Leves ondas se furtam para o lado
Com o rumor de seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
Na hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Uma ânsia de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história."

in, "Os Poemas Possíveis"
Publicado em 1966 pela Portugália Editora
Porto Editora, página 57 (2014)

terça-feira, 15 de março de 2016

Espectáculo "Levantei-me do Chão" A partir de Levantado do Chão de José Saramago - Criação de Carlos Marques

Toda a informação pode ser consultada, através do site 

O projecto de Carlos Marques, também se encontra disponível via Facebook, aqui

(Capa do trabalho)

Agenda 2016 
– 10 Março | Coimbra – TAGV
– 30 Março | Lisboa “Levantei-me do chão – Lado B” Lançamento do CD “Levantei-me do Chão, Vínil) Fundação José Saramago
– de 7 a 17 Abril | Lisboa (Quarta a Sábado 21:30 e Domingos às 16) Teatro Meridional
– 17 e 18 Junho  | Évora  – Teatro Garcia de Resende (CENDREV)

Equipa Artística
Carlos Marques Criador, Composição Músical e Actor
Susana Cecílio Apoio à criação
Nuno Borda de Água Dispositivo cénico
João Bastos Composição Músical
Rodolfo Pimenta Vídeo
Susana Malhão Designer Gráfica
Produção durante o processo de criação Candela Varas
ALGURES, Colectivo de Criação 

"Este espectáculo é um manifesto poético e efémero sobre o “Levantado do Chão”, um solo fragmentado, portátil e maleável (capaz de se adaptar a vários espaços e públicos).

Levantamos o pó dos tempos, levantamos um livro bem lá no alto, levantamos ainda cabeça e o corpo, e acima de tudo tentamos levantar-nos como comunidade.

Um músico de hoje conta e canta as histórias do livro – Serão necessárias novas músicas de intervenção? – Numa conversa franca com o espectador vamos descobrindo a musicalidade nas palavras e nas ideias de Saramago. Aqui reflete-se sobre a democracia – que mundo queremos afinal? E tudo isto num concerto.

Um solo de um contador de histórias carregado da memória afectiva da leitura e da importância dos conhecedores da obra do Nobel, ou um músico de canções avulsas oriundas das palavras de saramago e, ainda, um actor submerso num texto inédito e assumidamente fragmentado.

Um espectáculo baseado no livro onde se diz – à laia de mito –  que o autor descobriu o estilo saramaguiano de narrar."

Promo #1 - aqui via YouTube

"Se no primeiro espectáculo em torno da obra, reflectimos sobre o estado da nossa democracia, neste reflectiremos sobre a condição humana. A metáfora da pedra e da estátua que Saramago usou para descrever as duas fases da sua criação literária adapta-se na perfeição ao que será agora o nosso objecto artístico: se na primeira fase enquanto escritor, na qual se inclui “Levantado do Chão”, o autor descreve a superfície da pedra, numa segunda fase após “Evangelho Segundo Jesus Cristo” há uma tentativa de descrever o interior da pedra, ou seja existe a ambição de alcançar um entendimento do interior do ser humano, filosoficamente falando.

O propósito é levar estas reflexões em torno das palavras de Saramago a muitos lugares, conseguir criar um objecto que comunique com as diversas comunidades onde se inscreve.

Saramago um dia afirmou, numa entrevista conduzida por Ernesto Sampaio, que se imaginava “a contar este Levantado do Chão a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados (…) e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova. É maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.” Levantado do chão é um livro para ser contado e cantado em voz alta, bem alta!!

Este é um solo de um contador de histórias que gosta de estar ali. Um solo de um músico de intervenção. Um solo de actor que se inquieta com o estado das coisas. Este é um trabalho de uma equipa séria e divertida.

Este é um regresso a uma casa onde tudo foi intenso. Uma casa que foi abandonada e que está fechada apanhando pó. Uma casa cheia de utopias – até parece uma palavra distante. Quando era miúdo agarrava na guitarra e tocava as músicas do Zeca, do Fausto e do Godinho com aquele desejo ter vivido aqueles tempos. E questionava-me se naquela altura eu teria tido a lucidez para me aperceber para saber de que lado da trincheira devia estar."

Promo #2 - aqui via YouTube

"E agora? Falemos do agora. Será que entretanto entaiparam a casa que não tinha muros no jardim? Será que em cada instante sabemos de que lado da trincheira estamos. Será que conseguimos sempre pensar pela nossa cabeça? Será que estamos sempre certos e centrados nas nossas opções? Será que existe esse questionamento, ou essa vontade?

Em situações delicadas politicamente vamos sempre lá atrás buscar os hits das lutas passadas para tentar galvanizar uma massa (conformada) que não tem curiosidade de saber para onde nos estão a puxar. Trazemos para o presente essas músicas porque nos identificamos ou, talvez, porque já são património de uma união em épocas difíceis/vitoriosas – é mais fácil assim, dirão uns.

Mas dessa forma não se banalizarão as épocas, a luta e a própria música? E será que as lutas de hoje são as mesmas de então? Seremos nós como os nossos pais?

Serão precisas novas músicas e mais do que isso novos heróis artistas nestes tempos confusos. Não que queira inscrever o meu nome como herói – talvez em sonhos gostasse dessa ideia, mas não fui talhado para isso -, apenas vou fazendo a minha parte. Porém, talvez a arte devesse ter essa função. Essa inscrição! Talvez seja necessário que ela perca tudo… que ela passe por uma carestia! Talvez para sermos heróis tenhamos de estar ainda mais F**** já me faltam as palavras. Primeiro temos de fazer o que não queremos para depois fazermos o que realmente queremos? Que mundo queremos afinal?

Parafraseando Fausto Bordalo Dias “a ditadura proletária já morreu, mas nasceu a ditadura dos mercados.” E se eu tivesse a oportunidade de conhecer estes tais senhores dos mercados apenas lhes poderia dizer: A MINHA GUITARRA É CONSTANTE E ROSNA! É tempo de levantar do chão!"

terça-feira, 1 de março de 2016

"Jangada de Pedra" - Mário Laginha Trio

"Jangada de Pedra" - Mário Laginha Trio

Via página da Fundação José Saramago, aqui
"Inéditos de Mário Laginha em homenagem a José Saramago e Fernando Pessoa
No dia 18 de Novembro de 2015, na companhia de Alexandre Frazão e Bernardo Moreira, o pianista Mário Laginha subiu ao palco do Pequeno Auditório do CCB para um concerto que tinha como título “A Biblioteca dos Músicos” e que integrava a programação dos Dias do Desassossego’15.
O repertório incluía duas canções inéditas compostas por Mário Laginha especialmente para aquele concerto, respondendo a um desafio lançado pela Casa Fernando Pessoa (CFP) e a Fundação José ‪#‎Saramago‬ (FJS).
O concerto daquela noite abriu com "Jangada de Pedra", tema composto em homenagem a José Saramago, apresentando-se mais tarde o tema "Desassossego", dedicado a Fernando Pessoa. Durante o espetáculo, o pianista leu também excertos de obras escolhidas por si estabelecendo um diálogo entre as canções que executava e o desassossego que os livros lhe provocam – mote do programa proposto pela FJS e a CFP.
Ainda com os ecos da edição de 2015, e quando já se trabalha na preparação da próxima edição dos Dias do Desassossego, que acontecerá entre 16 e 30 de Novembro, datas do nascimento de José Saramago e da morte de Fernando Pessoa, a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago disponibilizam as duas composições compostas por Mário Laginha em homenagem aos dois grandes nomes da literatura mundial que foram tocadas em primeira mão no concerto “A Biblioteca dos Músicos”.
O nosso muito obrigado aos músicos, e em especial a Mário Laginha, pelo profissionalismo e afecto com que participaram neste projeto.
Ouvir o tema "Jangada de Pedra":
Ouvir o tema "Desassossego":
Captação e edição de imagem: Márcia Lessa
CCB – Pequeno Auditório, 18 de novembro de 2015
Concerto “A Biblioteca dos Músicos”, pelo Mário Laginha Trio, integrado na programação dos Dias do Desassossego’15
Organização da Casa Fernando Pessoa e da Fundação José Saramago"


https://www.youtube.com/watch?v=snkntZaES5s

Sinopse do vídeo
"Quando já se prepara a edição dos Dias do Desassossego'16, os ecos dos dias que vivemos em 2015 continuam a fazer-se ouvir. Do desafio lançado a Mário Laginha nasceram dois novos temas, um dedicado a Fernando Pessoa e outro a José Saramago, que depois de terem sido ouvidos em primeira mão a 18 de novembro no CCB ficam agora disponíveis.
"Jangada de Pedra. Para José Saramago", de Mário Laginha
Captação e edição de imagem - Márcia Lessa
Gravado ao vivo no Pequeno Auditório do CCB, 18 de novembro de 2015
Concerto "A Biblioteca dos Músicos", integrado no programa dos Dias do Desassossego 2015, organização da Fundação José Saramago e da Casa Fernando Pessoa"

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pedro Barroso canta José Saramago - "Nasce Afrodite amor, nasce o teu corpo" (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado, aqui, via YouTube 

Do DVD de Pedro Barroso 40 anos de música e palavras - Afrodite - 
Poema de José Saramago e Música de Pedro Barroso


Afrodite 
"Ao princípio, é nada. Um sopro apenas, 
Um arrepio de escamas, o perpassar da sombra 
Como nuvem marinha que se esgarça 
Nos radiais tentáculos da medusa. 
Não se dirá que o mar se comoveu 
E que a onda vai formar-se deste frémito. 
No embalo do mar oscilam peixes 
E os braços das algas, serpentinos, 
À corrente se dobram, como ao vento 
As searas da terra, as crinas dos cavalos. 
Entre dois infinitos de azul avança a onda, 
Toda de sol coberta, rebrilhando, 
Líquido corpo, instável, de água cega. 
De longe acorre o vento, transportando 
O pólen das flores e os mais perfumes 
Da terra confrontada, escura e verde. 
Trovejando, a vaga rola, e fecundada 
Se lança para o vento à sua espera 
No leito de rochas negras que se encrespam
De agudas unhas e vidas fervilhantes, 
Ainda alto as águas se suspendem
No instante final da gestação sem par.
E quando, num rapto de vida que começa,
A onda se despedaça e rasga no rochedo,
O envolve, cinge, aperta e por ele escorre
- Da espuma branca, do sol, do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,
Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda
Afrodite  nasceu, nasceu o teu corpo."

in, "Os Poemas Possíveis"
Porto Editora, 2014, páginas 131 e 132
Publicado originalmente em 1966 pela "Portugália Editora"

sábado, 23 de janeiro de 2016

"Grândola Vila Morena" - Saramago, Pilar del Río, Luis Pastor e João Afonso (entre outros) em Tías Lanzarote

Pode ser ouvida via YouTube, aqui 

As palavras de Fernando Berlín da RadioCable (http:www.radiocable.com)
"El sábado de la semana pasada tuvimos la fortuna de conocer a Joao Afonso, el sobrino de José Alfonso. Fué en la biblioteca de Saramago en Tías -Lanzarote-. Allí coincidió el grupo de artistas que visitaba la isla con motivo del concierto de Luis Pastor y su nuevo disco Duos. Fue una reunión íntima que terminó acariciada por poemas y canciones. Y no pude evitar coger la cámara y ponerme a grabar para socializar el pasaje." (30/07/2006) 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Banda sonora do filme documentário "José e Pilar" Noiserv

Informação postada pela banda, aqui
em https://www.facebook.com/noiserv/posts/10153817733316678?fref=nf

"Olá Olá!
Há uns meses, tinha ficado esgotada a versão em CD da banda sonora do filme José and Pilar, da qual faz parte a música Palco do Tempo e uma série de outras músicas minhas.
Finalmente, para quem tenha interesse, já se encontra de novo disponível através do site em baixo !
Beijinhos e Abraços a todos!"


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

"Para onde vai a música?" em os "Cadernos de Lanzarote Diário III" - 3 de Fevereiro de 1995

"Para onde vai a música? Isto me perguntava enquanto ouvia, no auditório dos Jameos del Agua (esse assombroso tubo vulcânico onde se diria que os sons estão a desprender-se da própria rocha), a 3'. Sinfonia de Henrik Górecki, um compositor polaco nascido em 1939, de quem não tinha tido notícia até hoje. Segundo o calendário, esta música, sendo de 1976, é contemporânea, mas o que está claro, mesmo para um mal informado como eu, é que a sua estética flutua por cima das épocas todas, com preferência pelo canto gregoriano e por uma espécie de neoprimitivismo modal. O mais curioso, porém, é esta composição de Górecki ter-se transformado em autêntico objecto de culto nos dois ou três últimos anos, principalmente, ao que parece, entre o público jovem. Que não era o que se encontrava nos Jameos del Agua: oitenta por cento da assistência compunha-se de turistas idosos, para quem qualquer música provavelmente serviria, desde que o concerto estivesse incluído no programa de animação da agência de viagens... Não sei se gostei do que ouvi, precisaria de pelo menos uma audição mais para pôr alguma ordem nas minhas contraditórias impressões. Em sentido rigoroso, clássico, do termo, não se trata de uma sinfonia: o que Górecki nos propõe são três andamentos (lento: sostenuto tranquilo ma cantabile, largo: tranquilissimo, cantabilissimo, dolcissimo, legatissimo, e lento: cantabile semplice), com participação vocal, em todos, de um soprano. Como pode isto agradar a um público criado a biberões de rock duro, é para mim um mistério. A peça tem como subtítulos Dos Cantos de Aflição ou Das Lamentações, e é, se não me equivoco demasiado (caso bem fácil de acontecer), menos uma sinfonia, ainda que em amplíssimo sentido, que uma cantata para voz solo. Vou escrever ao Mário Vieira de Carvalho. Nestes casos , como se dizia na aldeia, o melhor, sempre, é ir a fonte limpa." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário III
Caminho, páginas 34 e 35

Aqui fica a obra em questão


Pode ser visualizada via YouTube, aqui


"This is the complete version without any cuts of the third symphony by Henryk Górecki.
Composer : Henryk Mikołaj Górecki - 1933 - 2010 (Polish).
Composition : Symphony nº3 - Symphony of Sorrowful Songs (1991).

Movement List:
00:00 - Movement : I - Lento, Sostenuto tranquilo ma cantabile
26:47 - Movement : II - Lento e Largo, Traquillissimo.
36:32 - Movement : III - Lento - Cantabile, Semplice"

sábado, 17 de outubro de 2015

"Johann Sebastian Bach - Cello Suite No 6 in D major, BWV 1012" em "As Intermitências da Morte"

Pode ser visualizado via YouTube, aqui 

"Johann Sebastian Bach - Cello Suite No 6 in D major, BWV 1012"
Mstislav Rostropovich, cello

(...) Enquanto o cão corria ao quintal para descarregar a tripa, o violoncelista pôs a suite de Bach no atril, abriu-a na passagem escabrosa, um pianíssimo absolutamente diabólico, e a implacável hesitação repetiu-se. A morte teve pena dele, Coitado, o pior é que não vai ter tempo para conseguir, aliás, nunca o têm, mesmo os que chegaram perto sempre ficaram longe. Então, pela primeira vez, a morte reparou em toda a casa não havia um único retrato de mulher, salvo de uma senhora de idade que tinha todo o ar de ser a mãe e que estava acompanhada por um homem que devia ser o pai. (...)
in, "As Intermitências da Morte"
Caminho, página 183

Via Mary Emy  | ;-) | 
A musicalidade na obra de ‪#‎saramago‬ 
Os andamentos e movimentos de ênfase ou de ruptura, o seu apoio e o contrário... 
uma das constantes na obra de José Saramago é a presença da música. 
Aqui presente em "As Intermitências da Morte", será o Violoncelista (como personagem) o elemento do contraponto e reequilíbrio... (será? )

domingo, 11 de outubro de 2015

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

Pode ser visualizado e ouvido, via YouTube

Jogo do Lenço

"Trago no bolso do peito 
Um lenço de seda fina, 
Dobrado de certo jeito. 
Não sei quem tanto lhe ensina 
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas, 
Quando a voz já lá não chega 
Por distâncias desmedidas. 
Depois, no bolso aconchega 
As saudades permitidas.

Também o suor salgado, 
Às vezes, enxugo a medo, 
Que o lenço é mal empregado. 
E quando me feri um dedo, 
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim 
Se as graças todas dissesse 
Deste meu lenço e de mim, 
Mas uma coisa acontece 
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados 
Pedem auxílio do lenço, 
São pedidos escusados. 
E é bem por isso que penso 
Que os meus olhos, se molhados, 
Só se enxugam no teu lenço."

José Saramago, In Os Poemas Possíveis

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Luis Pastor "Con Saramago en la voz" - entrevista à Revista Ñ Clarín (Irene Amuchastegui 23/09/2015)


(Foto de Luis Pastor que acompanha a entrevista)

A entrevista pode ser consultada aqui, 

De Irene Amuchastegui, 23/09/2015

"En su comentario para el álbum En esta esquina del tiempo , José Saramago compara la voz del español Luis Pastor, “áspera y al mismo tiempo suave”, con las de “los grandes trovadores del siglo pasado”. Y formula una invitación de la concisión más contundente: “Oigámoslo”. El disco reúne poemas del escritor portugués, musicalizados e interpretados por Pastor. El texto de presentación sentencia: “El tiempo cabe todo en la duración de un disco”. Este se publicó en edición bilingüe en 2006, en Europa, y acaba de aparecer en español en la Argentina, donde Luis Pastor nunca había actuado, hasta ahora. En su primera visita a Buenos Aires, también estrena su primer tango y su propia cuenta de Facebook. La cuenta acaba de crearla su hijo Pedro, también músico, en la computadora del lobby del hotel, y debuta en la red con un anacrónico: “Nos modernizamos”, lleno de irónico encanto para un cantautor de los de la vieja guardia. En cuanto al tango, “Uno de mayo”, es un poema de Luis García Montero, granadino de su misma generación, a quien conoció por un libro que le regaló Joaquín Sabina. “Me va a acompañar mi hijo, que toca mejor que yo. Yo no sé tocar un tango. Yo estoy en la frontera de todas las músicas: hago mornas de Cabo Verde sin haber estado allí, hago fados de Portugal y ahora he dejado fluir la copla, que está en mi origen, y de la que había escapado para convertirme en el cantautor que quería ser. Entre España, Cabo Verde y Lisboa, vienen y van las músicas que hago, Atlántico por medio. A veces, tocan también estas costas, porque más allá de todas mis influencias portuguesas y africanas, tengo algo muy latino. Cuando tenía 16, como era un ‘niño de copla’ que tenía que aprender a ser otro cantante, además de los nuestros, como Paco Ibáñez, o de los portugueses, como José Afonso, yo cantaba “A desalambrar” de Viglietti y escuchaba a Mercedes Sosa, a Atahualpa, a los grandes. Yo siempre he estado ahí”.

–Es curioso, entonces, que no hayas venido antes.
–Lo explica mi propia trayectoria: soy un cantautor que viene de una tradición de finales de los años 60 y de los 70, donde la canción no era una vía para volverse famoso, ganar dinero, dar “el salto”. He viajado sólo cuando me han llamado: a Nicaragua en los 80, con mi banda, a Chile, a Brasil… Pero nunca me había planteado hacer una gira. No soy ambicioso. Nunca me he fiado de oficinas ni representantes… Mi primer manager ha sido un cura obrero. El anti-manager. Por otro lado, en los 90 sentía que había mucha gente que me tenía que descubrir en España misma, porque las nuevas generaciones no se paraban a escuchar. El cantautor había quedado estigmatizado como un tipo aburrido, un matraquero, un panfletero… un coñazo.

–En “¿Qué fue de los cantautores?” hablás de aquellos que aún resisten “en sus trincheras”. ¿Recuperaron espacio?
–En la España de fines de los 70, el cantautor empieza a ser denostado, como un tipo que, muerto Franco, no tenía razón de ser. Yo lo sufrí en mi persona, cuando me retiré tres años en el 79 y volví en el 81 con disco nuevo: aquella misma gente que antes había hablado bien de mí en las radios y en los medios, de pronto me negaba el pan y la sal. Pero a mí me ha salvado que soy, sobre todo, un ser musical: más allá de toda mi historia política y de barrio, de trabajador, de obrero y de militante, fui un niño que a los 7 años cantaba a Joselito. Me transformé en el cantautor que quería ser y he persistido en ese camino. En los 90 hice la obra más bonita posible. Yo creo que ahí está por fin mi triunfo: haber aprendido con los años a contarme en canciones. Porque yo era un niño sin estudios. Fui un trabajador desde los 9 años, sólo estuve en la escuela 4 años.

–¿Te faltaban herramientas para lograr la expresión a la que aspirabas?
–No me faltaban porque descubrí a los poetas y fui a por ellos, buscando lo que yo quería decir y ellos decían mejor que yo. Me prohibieron el primer disco, cuando tenía 20 años: de once canciones, me prohibieron diez. Mi primer single fue “Con dos años”, de Miguel Hernández, y un poema de Pablo Neruda que se llamaba “La huelga” y para pasar la censura tuve que rebautizar “La huelga del ocio”. Claro, el hecho de musicar a grandes poetas a mí me puso el listón muy alto y me he exigido siempre cierto nivel en mis letras. La vida a veces es circular: en los últimos diez años, desde el disco de Saramago, siento que vuelvo al punto de partida. He vuelto a musicar poetas y escribo menos yo. Aunque las letras del último disco ( ¿Qué fue de los cantautores?) son todas mías y tengo otras cosas esperando por ahí, he vuelto a los poetas. Cuando terminé En esta esquina del tiempo me puse a leer a los poetas canarios y encontré todo un mundo. Luego, hace unos años fue el centenario del nacimiento de Miguel Hernández. Yo no lo leía desde el 79. Lo releí y descubrí a otro Miguel: cuando era joven, yo iba buscando la lucha, la cárcel, la guerra y ahora encontré a un Miguel pletórico de imágenes de una fuerza que ningún poeta ha sabido expresar. Miraba los versos y decía: esto es una copla, esto es flamenco… He musicado de una pegada veinte poemas y se los he regalado a Carmen Linares, la más grande cantaora de flamenco, que montó un espectáculo en el que la mitad del repertorio es ese. Al grupo Jarcha le di otros nueve poemas musicados de Miguel. Yo nunca los grabé, pero quiero hacerlo.

–¿Cómo surgió el proyecto de En esta esquina del tiempo?
–Con Saramago nos conocimos en un programa de televisión y quedamos amigos para siempre. Cada vez que íbamos a cantar a Lanzarote con Lourdes, mi mujer, lo visitábamos. Uno de esos días me ha regalado su poesía completa. Al despedirme le he dicho: “Te voy a musicar”. Y él me ha dicho: “A ver si es verdad”. Ahí arrancó todo. Cuando monté en el avión y vi esos poemas, que tienen 45 años, pues él no volvió a escribir poesía, sentí que me estaban esperando. Eran para mí. Al leerlos me parecía que ya la música estaba puesta. Ha surgido sin pretenderlo. Al llegar a casa, he compuesto 18 temas en tres días de una semana: lunes, miércoles y viernes.

–¿Cómo reaccionó Saramago al escuchar por primera vez el material?
–Estábamos en mi casa con José, Pilar del Río, Miguel Ríos y su mujer. Yo había grabado una maqueta en una hora. Nos sentamos a escuchar, pongo la primera canción y Miguel dice: “Qué bonita música”. La segunda y Miguel comenta: “Qué música más bonita”. Ya a la tercera, José le retruca: “Bueno, las letras tampoco están mal…”

–Volviste a trabajar sobre poemas de Saramago para una versión teatral de El viaje del elefante. ¿Cómo fue eso?
–Vino un director de teatro a pedirme que hiciera las músicas y las letras para esa obra. Y yo le he dicho: “No, Saramago apunta en sus poemas lo que luego desarrolla en sus novelas. Verás cómo para cada escena vamos a encontrar dos o tres poemas”. Y así fue. Es maravilloso el encuentro de una novela convertida en obra de teatro que a su vez se nutre de su poesía… José hubiera flipado."

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Carlos do Carmo canta poema de José Saramago - "Aprendamos o rito" in "Os Poemas Possíveis"


Pode ser visualizado, aqui via YouTube


"Aprendamos o rito"
Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.
Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes:
Nas perguntas que fazes é que mentes.
Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.

In "Os Poemas Possíveis", Editorial Caminho, 3.ª ed., p. 81

domingo, 6 de setembro de 2015

Jorge Salgueiro - "Ensaio sobre a Cegueira, um Requiem pela Humanidade"

Breve trecho que pode ser visualizado aqui 

"Oporto National Orchestra and Oporto Opera 
Chorus plays Exultate Jubilate from "Blindness, A Requiem for Humankind" 
conducted by the composer (Jorge Salgueiro)"


Do blog "A Nossa Rádio" de Álvaro Ferreira, um artigo sobra as adaptações musicais da sua obra - Indispensável Leitura

Artigo original pode ser consultado e visualizado, aqui
em http://nossaradio.blogspot.pt/2010/06/jose-saramago-na-musica-portuguesa.html

(Fotografia que acompanha o artigo de Álvaro Pereira no blog mencionado)

Provavelmente o melhor artigo sobre as adaptações musicais dos textos de José Saramago

"Muito antes do compositor italiano Azio Corghi (*), se ter debruçado sobre a produção romanesca e teatral de José Saramago, já a obra poética do autor – que compreende os livros "Os Poemas Possíveis" (Portugália, 1966), "Provavelmente Alegria" (Livros Horizonte, 1970) e "O Ano de 1993" (Futura, 1975) – merecera a atenção de grandes compositores e intérpretes portugueses. Luís Cília, durante o exílio em França, foi o primeiro a musicar e a cantar a poesia de Saramago, na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" (1967, 1969 e 1971), portanto, cerca de três décadas antes da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Seguiu-se Manuel Freire, com os poemas "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (1971), "Ouvindo Beethoven" (1973) e "Dia Não" (1978), que viriam a ser regravados com novos arranjos, em 1999, no álbum "As Canções Possíveis". Com os outros nove poemas que completam o alinhamento deste CD, Manuel Freire afirmou-se o mais dedicado intérprete da poesia de José Saramago, e quiçá o que melhor a cantou.
Embora de forma mais avulsa, também Pedro Barroso, Carlos do Carmo, Mísia, Amélia Muge, Fernando Tordo e Marco Oliveira juntaram os seus nomes à galeria dos que deram voz cantada aos versos do grande escritor.
Aqui fica o rol das versões conhecidas, perfazendo as três dezenas, considerando-se as regravações que alguns poemas tiveram. É muito provável que a lista esteja incompleta e, nessa conformidade, os leitores ficam convidados a indicar as eventuais ausências (contacto: ajferreira74@gmail.com).
A ordem é cronológica e alfabética (no caso de temas pertencentes ao mesmo disco).

1. Contracanto – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967)
2. Dia Não – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
3. Há-de haver – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
4. Não me peçam razões – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
5. Poema à boca fechada – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971)
6. Venham leis – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
7. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in EP "Dulcineia", Zip Zip, 1971; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
8. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in EP "Abaixo D. Quixote", Sassetti, 1973; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
9. Dia Não – Manuel Freire (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)
10. Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo – Pedro Barroso (in LP "Água Mole em Pedra Dura", Sassetti, 1978; CD "Cartas a Portugal", Strauss, 2000)
11. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in LP "Mais do Que Amor é Amar", Philips/Polygram, 1986, reed. Philips/Polygram, 1996)
12. Fado Adivinha – Mísia (in CD "Fado", BMG Ariola, 1993)
13. Nenhuma Estrela Caiu – Mísia (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)
14. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira", EMI-VC, 1999)
15. A Ponte – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
16. Circo – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
17. Dia Não – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
18. Dispostos em Cruz – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
19. É Tão Fundo o Silêncio – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
20. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
21. Jogo do Lenço – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
22. Nem Sempre a Mesma Rima – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
23. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
24. Retrato do Poeta Quando Jovem – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
25. Tenho a Alma Queimada – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
26. Tenho um Irmão Siamês – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
27. Se Não Tenho Outra Voz – Amélia Muge (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)
28. Fado Adivinha II – Mísia (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/EMI-VC, 2005)
29. Circo – Fernando Tordo (in CD "Tributo a los Laureados Nobel", Factoría Autor, 2005)
30. Retrato do Poeta Quando Jovem – Marco Oliveira (in CD "Retrato", HM Música, 2008)

A estas versões cantadas, acrescentam-se as gravações de poesia dita/recitada. Além dos espécimes presentes em edições discográficas, como é o caso do poema "Circo", recitado por Vítor de Sousa no CD "No Palco da Poesia" (Ovação, 1995, reed. 2000), há que considerar os registos existentes no arquivo sonoro da RDP, na voz de António Cardoso Pinto, Paulo Rato e outros.
Sem prejuízo da transmissão de excertos de entrevistas de José Saramago, era expectável e desejável que a direcção de programas da Antena 1, nos dias em que Portugal se despediu do seu (primeiro e único, até agora) Nobel da Literatura, deitasse mão aos seus poemas – os cantados e os recitados – e os desse a ouvir, se não na íntegra, numa boa parte. Mas não. Será que Rui Pêgo e os seus adjuntos não tinham conhecimento da existência de tão importante acervo fonográfico? Se não tinham, podiam ter-se dignado perguntar a quem os soubesse informar. Enfim... mais um triste episódio que põe a nu as gritantes deficiências que se vêm verificando no serviço público de radiodifusão.

(*) Azio Corghi compôs as seguintes obras, baseadas em livros/textos de José Saramago: "Blimunda" (1989 - ópera, a partir do romance "Memorial do Convento"); 
"Divara" (1993 - ópera, a partir da peça "In Nomine Dei"); 
"La Morte di Lazzaro" (1995 - cantata dramática); 
"Cruci-Verba" (2001 - para voz recitante e orquestra, a partir do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"); 
"De Paz e de Guerra" (2002 - cantata para coro e orquestra); 
"Il Dissoluto Assolto" (2005 - ópera, a partir da peça "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido").

Em Portugal, Jorge Salgueiro é autor de "Ensaio sobre a Cegueira: um Requiem pela Humanidade" (2004 - ed. Tradisom, 2005), composto para a adaptação dramática do romance "Ensaio sobre a Cegueira", levada à cena pela companhia de teatro "O Bando", em co-produção com o Teatro Nacional de São João (Porto)."

Poema "Ouvindo Beethoven" musicado por Manuel Freire - "Os Poemas Possíveis" de 1966

Pode ser visualizado e ouvido, via YouTube, aqui em

"OUVINDO BEETHOVEN"
Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

"Os Poemas Possíveis", 1966