Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A censura do "Evangelho segundo Jesus Cristo" e algumas reacções (Fonte: Observador)

"O veto ao Evangelho de Saramago, 25 anos depois"
Publicado no site "Observador", autoria de Joana Stichini Vilela (25/04/2017), pode ser recuperado na integra, aqui

"Público" artigo de Torcato Sepúlveda de 25 de abril de 1992

(...) «A 25 de Abril de 1992, faz agora 25 anos, uma notícia remetida para o terço inferior de uma das páginas da secção de Cultura do jornal Público avança, “Sousa Lara corta nome de Saramago”. Antetítulo: “Prémio Literário Europeu” (PLE). Em causa está O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o sexto romance do autor depois de, em 1980, com Levantado do Chão, ter saltado das notas de rodapé para um papel de destaque na história da literatura portuguesa. “Não representa Portugal”, justifica Sousa Lara ao jornalista do Público. “Não me pediram um julgamento sobre a obra inteira de Saramago, mas sobre este livro. Ora, há questões pessoais que me modelam, às quais não me oponho por questões de consciência pessoal.”

Saramago escusa-se a comentar. Só sabe da notícia pelo próprio jornalista. “O Torcato [Sepúlveda] ligou-nos para casa e o José ao princípio disse, ‘Palavra? Nah, não é possível’. Estava quase divertido”, conta a viúva, Pilar del Río, 67 anos. “[Quando se confirmou] Ficou tão dececionado e tão magoado… Não por causa do prémio. Mas porque o Governo do seu país tinha feito uma coisa de que ele tinha vergonha. Dizer, ‘este livro não, porque ofende’.”

O Evangelho Segundo Jesus Cristo “era um romance de grande ousadia”, lembra o editor de Saramago na Caminho, Zeferino Coelho. “O ateísmo militante de Saramago já era conhecido. Agora, pegar em Deus, em Cristo, e transformá-los em personagens de romance, ainda por cima um romance negativo, isso foi uma grande ousadia.” Na sua opinião, Saramago tinha noção do efeito que o livro causaria e terá sido essa uma das razões por que o escreveu. O autor gostava de provocar o debate. Só não contava com a censura.»

«A 14 de Abril, avançará o jornal O Independente, Sousa Lara recebe do Instituto Português do Livro e da Leitura (IPLL) um ofício com a sugestão de três nomes para candidatos ao PLE: Saramago, Pedro Támen e Fiama Hasse Pais Brandão. A lista fora elaborada depois de consultados a Associação Portuguesa de Escritores, o Pen Club e o Centro Português de Escritores Literários. Artur Anselmo, então presidente do IPLL, informa Lara de que também obtiveram o apoio dos Escritores Literários os nomes de Hélia Correia, com A Casa Eterna, e de Sophia de Mello Breyner, pelo Obra Poética – Volume II. Dois dias depois, Lara assina um primeiro despacho com a sua escolha: Fiama, Támen e Sophia. A 20 de Abril, Artur Anselmo responde, “proponho, a título pessoal, o Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís”. Lara junta o nome de Agustina ao despacho. Nem Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura, nem Maria José Nogueira Pinto, secretária de Estado Adjunta, estariam a par destas movimentações.»

Fax de Agustina Bessa-Luís enviado à SPA - Sociedade Portuguesa de Autores
manifestando a sua posição perante a censura da obra de Saramago

(...) «Santana Lopes só sabe do veto na véspera da notícia do Público. Sousa Lara argumentaria que se tratava de uma “competência delegada”. De acordo com O Independente, na estreia do filme “Aqui D’El Rei”, Maria José Nogueira Pinto terá comentado com o secretário de Estado: “Parece que há um problema com o Saramago”.

Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”
Quatro dias depois o caso vai parar à Assembleia da República durante o debate parlamentar sobre a Cultura. A intervenção de Lara ficará para a história. Se por boas ou más razões, depende da perspetiva. O subsecretário de Estado começa por argumentar que o caso não devia ter sido tornado público. Depois, alega que “a obra ataca o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, divide-os.”

No Público, Torcato Sepúlveda comenta, “tal raciocínio evoca, com efeito, o Tribunal do Santo Ofício”. Sucedem-se as acusações de censura. A palavra “inquisição” nas suas várias declinações, enunciada pelas mais variadas personalidades literárias e da cultura, propaga-se pelas páginas dos jornais. Promovida a escândalo, a polémica internacionaliza-se. Surgem relatos e reações nos jornais espanhóis ABC, El País e El Mundo, nos franceses Libération e Le Monde, no italiano La Stampa, e na Folha de São Paulo. Até o ministro da cultura francês se manifesta. Para Jack Lang a censura de que o “Evangelho” foi alvo é “inaceitável”.

Entretanto, o eurodeputado socialista João Cravinho tenta levar o caso ao Parlamento Europeu. A 9 de Maio, o Expresso noticia: “O Presidente do Parlamento Europeu, Egon Klepsch, envia carta a Jacques Delors [presidente da Comissão Europeia] pedindo explicações sobre o afastamento de Saramago à candidatura ao PLE.”

Por cá, Támen e Fiama recusam a candidatura ao PLE. Já o poeta David Mourão Ferreira é dos mais vocais. Numa mensagem escrita defende que o primeiro-ministro devia “ter pedido desculpas públicas” ao escritor e que é Cavaco Silva “quem deve ser responsabilizado pelo estado novo a que chegou o grotesco e tenebroso processo das candidaturas portuguesas”. Já Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”

Entretanto, uma sondagem do jornal Público indica que 63,3 por cento dos habitantes de Lisboa e Porto acham que o “Evangelho” devia fazer parte da lista de candidatos ao PLE. O Expresso também consulta o cidadão comum e divulga resultados que apontam para um equilíbrio maior na sociedade portuguesa: 57 por cento dos inquiridos está contra a exclusão.»

«Ao longo destas semanas, José Saramago desdobra-se em entrevistas e declarações. A sua casa, um pequeno T1+1 na Rua dos Ferreiros à Estrela, em Lisboa, converte-se em central telefónica. “Um inferno”, resume Pilar del Río. “Não só por causa deste caso mas também porque Saramago era a pessoa mais conhecida de Portugal tirando os futebolistas.”

Na opinião de Artur Anselmo, tudo não passou de uma “lamentável intromissão da esfera política na esfera cultural. E não teve só a ver com Portugal. Teve a ver com todos os países que faziam parte da então CEE.” Este é capaz de ser o único ponto em que há acordo entre todos os intervenientes: ao contrário do previsto no regulamento do prémio, a decisão não devia ser política – embora os dois anteriores governantes por quem passaram listas da mesma natureza, em 1990 e 1991, se tivessem limitado a dar o seu aval às sugestões das entidades consultadas. Quanto a 1992, com o fim do júri, volta tudo ao início: Támen, Fiama… e Saramago.

Nos jornais, há sobretudo declarações de solidariedade, mas também se desenterram acusações de censura. Recorda-se o Verão Quente de 1975, altura em que o militante comunista esteve à frente do Diário de Notícias: “Pessoalmente, quero servir a construção do socialismo. E o DN vai ser um instrumento nas mãos do povo português para a construção dessa linha já adotada pelo Conselho Superior de Revolução…” O diretor do Expresso, José António Saraiva, cria um cenário em que o PCP subiu ao Governo e Saramago é secretário de Estado da Cultura para provocar: “Na hipótese de um livro, mesmo notável – mas crítico em relação ao comunismo –, ser indigitado para um prémio, Saramago dar-lhe-ia ou não o seu apoio? Muito provavelmente não.”

Ao mesmo tempo, as vendas do romance disparam. A 21 de maio, já vai nos 135 mil exemplares, só em Portugal. Pouco depois, torna-se um dos mais procurados na Feira do Livro de Madrid e entra para o Top 10 espanhol. Pilar del Río diz desconhecer quantos livros se venderam ao todo. Remete para a Caminho, que por sua vez passa a bola para a Porto Editora, que detém atualmente os direitos da obra do Nobel mas declara não poder avançar essa informação. Adianta, porém que o “Evangelho” continua a vender-se “todas as semanas”, longe, porém, dos números do principal best-seller de Saramago, “Memorial do Convento”.

Saramago diz precisar de tranquilidade. Já há bastante tempo que o casal procurava uma casa para comprar nos arredores de Lisboa. Mafra, por exemplo, lembra Zeferino Coelho. Por coincidência, a 1 de maio, uma semana apenas depois de estalar a polémica, vão visitar a irmã de Pilar a Lanzarote, em Espanha. “Descobrimos o princípio do mundo”, lembra Pilar. “E aí fui eu que disse, ‘por que não nos mudamos para Lanzarote?’ Todos os criadores dizem a dada altura, ‘iria viver para uma ilha deserta’. Pois alguns o dizem e o fazem.”

A notícia cai com estrondo em Portugal: Saramago abandonaria o país na sequência do veto de Sousa Lara. Em entrevista ao Público, o escritor tenta clarificar: “Há uma coincidência que eu não busquei”. Pilar começa por admitir que foi em parte por causa desta questão que resolveram mudar-se – “foi muito duro para um escritor a polémica que se montou, ter de responder ao mundo” –, para depois desvalorizar: “Coincidiu”.

“Ingrato e repugnante”
Na Fundação Saramago, em Lisboa, a Presidenta – como insiste em formular a palavra – limpa distraída um retrato a óleo do escritor com um lenço de papel. As obras do Terminal de Cruzeiros, mesmo em frente à Casa dos Bicos, enchem tudo de pó. Conversa rodeada de artefactos da vida e obra do Nobel, incluindo um top 10 da Bertrand da década de 1990 em que apenas dois livros não são dele: Vai Onde te Leva o Coração, em 7º, e Aparição, em 10º. Há alguma acidez no discurso, mas sobretudo amargura: “Este episódio é ingrato e repugnante”; “Não significou nada para Saramago”; “’Desilusão’? Não. Para nos desiludirmos temos de ter estado iludidos”; “Saramago está a anos de luz de toda esta situação e de toda esta gente. Pensam que Saramago estava preso a uma decisão de um Governo que já não existia, que tinha membros presos? Por amor de Deus. Saramago tinha seguido navegando pelo mundo e os outros continuavam por aí.”

Seja qual for a interpretação, a verdade é que o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que coincide com a mudança para Lanzarote, assinala um ponto de viragem na obra do escritor. “Ele dizia que até ao ‘Evangelho’ escrevia sobre a estátua”, explica Zeferino Coelho. “A partir do ‘Evangelho’ passou a escrever sobre a pedra.” A primeira é a superfície; a segunda o seu interior. “Já não é o homem em determinada circunstância. O que lhe importa é a alma humana no que ela tem de universal.”

Saramago explica esta evolução em 1998, na Universidade de Turim, numa palestra mais tarde publicada em livro e intitulada “Da Estátua à Pedra” (em que afirma ainda e de forma taxativa que o Evangelho Segundo Jesus Cristo é não só o seu romance que “gerou mais polémica” mas também “a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote”).

O primeiro romance desta nova fase chama-se Ensaio Sobre a Cegueira. “Que eu acho”, prossegue Zeferino Coelho, “e até lho disse várias vezes – ele não concordava – que é o melhor romance dele.”

Entre um e outro livro passam quatro anos. O interregno é atípico, mas a vida do escritor está cada vez mais cheia. Além de que a matéria ficcional que agora o ocupa é de uma dureza inusitada. “A certa altura cheguei a dizer: ‘Não sei se consigo sobreviver a este livro.’”, contaria ao Expresso em 1995. “Foi como se tivesse dentro de mim uma coisa feia, horrível, e tivesse de sacá-la. Mas não saiu, está no livro e está dentro de mim.”

Saramago era um pessimista. Para ele, a irracionalidade estava a tomar conta de um mundo contemporâneo ao serviço do lucro e do mercado. Na opinião do autor de Biografia – José Saramago (Guerra & Paz), João Marques Lopes, “os efeitos da polémica e do veto poderão ter contribuído para o aprofundamento do pessimismo”, afirma por email, “mas creio que são secundários face às mudanças geo-políticas e ideológicas do ‘mal-chamado’ socialismo real em 1989-1991.” Quanto a Lanzarote? “Há quem relacione a ‘secagem’ do estilo barroco com a orografia desprovida de vegetação e de arvoredo. Acho que pode estar correto.” Pilar concorda: “Talvez a austeridade de Lanzarote [tenha sido uma influência]”.

“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma Sousa Lara. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer cota-parte nessa causa.”
Adaptado ao cinema em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, Ensaio Sobre a Cegueira é porventura o livro mais importante no percurso internacional de Saramago. A edição americana sai em 1998 e é recebida com entusiasmo pela imprensa. “Lembro-me de uma recensão publicada no Los Angeles Times que o classificava como um romance sinfónico”, conta Zeferino Coelho. “Isto em Agosto, Setembro. Em Outubro dão-lhe o Prémio Nobel. Pode ter empurrado um bocadinho.” O romance aparece em destaque no texto de atribuição, “Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título ‘Ensaio Sobre a Cegueira’.”»

quarta-feira, 9 de março de 2016

No dia em que novo Presidente da República toma posse...



11 de Outubro (de 1995)
"Cavaco Silva saiu do PSD e anunciou a sua candidatura à presidência da República. Para não escapar ao nariz-de-cera de qualquer candidato, tanto dos passado como dos futuros, já foi prometendo que será «o presidente de todos os portugueses». Como quem diz «O que lá vai, lá vai.» Se Portugal não perdeu de todo a vergonha, este homem inculto e autoritário nunca será presidente da República. Mas se, por um absurda viesse a ser, presidente «meu» é que ele não seria, fossem quais fossem as circunstâncias. Em tal caso, exigiria simplesmente dos serviços de secretaria de Belém que retirassem o meu nome dos ficheiros que lá têm. Não quereria ter de vir a recusar a saudação a um presidente que foi primeiro-ministro do governo que exerceu censura sobre um livro. Não cabe nas minhas forças evitar a existência dos «dráculas», mas nada poderá obrigar-me a apertar-lhes a mão." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, página 174 (11/10/1995)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Cavaco Silva presta vassalagem à censura

Aqui reacção e testemunho de Pilar del Río, via Jornal de Negócios, 
em http://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/pilar_del_rio_qualifica_condecoracao_de_cavaco_silva_a_sousa_lara_de_triste_fim.html

"Parece que tem uma mala cheia de condecorações que tem de entregar antes de se ir embora", ironizou Pilar del Río, em declarações ao Negócios, sobre a toada de homenagens que tem ocupado Cavaco Silva nestes dias que antecedem o fim do seu mandato presidencial.
Esta tarde, o Presidente entregou a Ordem do Infante D. Henrique a Sousa Lara, cujo mandato no último Executivo de Cavaco Silva ficou marcado pela polémica relacionada com o veto do então número dois da Cultura ao livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo", da autoria de José Saramago, que em 1998 venceria o prémio Nobel da Literatura.
"Coitados, um e o outro", foi a frase escolhida pela jornalista espanhola para se referir à distinção hoje entregue em Belém por Cavaco Silva a Sousa Lara. Ainda assim, Pilar del Río diz-se "muito feliz que esteja a fechar-se este parêntesis da história de Portugal", referindo-se ao final do mandato de Cavaco que culmina no próximo dia 9 de Março.
Este final da era cavaquista é qualificado como um "triste fim", com Pilar del Río a acrescentar que "não é um fim pela porta pequena, mas por uma janela escondida". Mas mais do que uma crítica a Sousa Lara, a antiga companheira do consagrado escritor português considera que "o problema é de quem outorga".

Do site da Presidência da República, aqui

"Presidente (Cavaco Silva) agraciou personalidades da Academia e da Cultura e Casa do Artista
O Presidente da República condecorou, no Palácio de Belém, um grupo de personalidades da Academia e da Cultura, bem como a Casa do Artista.

Foram agraciadas as seguintes entidades, com os respetivos graus das Ordens Honoríficas:
(...)
- Prof. Doutor António Costa de Albuquerque de Sousa Lara, Professor Catedrático – Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (...)

O vídeo da polémica, via YouTube, aqui

"Quando o senhor sub-secretário de estado, Sousa Lara, era inevitável dizer o nome, me acusa a mim de ter divido os portugueses, esqueceu, esqueceu-se, ou talvez não tenha lido nunca o Evangelho segundo São Mateus, ou talvez tenha lido uma antologia dos evangelhos todos, conspurgada dos elementos perturbadores, e então talvez não tenha lido nunca que Jesus declarou que não vinha trazer a paz mas a espada."
José Saramago

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Crónica "As Palavras" e as voltas dadas à censura (A Capital, 17 de Maio de 1968)


Crónica publicada no jornal "A Capital", em 17 de Maio de 1968

Na "Biografia José Saramago" de João Marques Lopes (Guerra e Paz, página 49), é referido «como aconteceu a muitos escritores e jornalistas durante o regime fascista, José Saramago também viu textos seus serem censurados. Assim a crónica "As Palavras" (...) foi truncada, pois os censores terão considerado que frases como "Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar" seriam uma critica velada ao cerceamento da liberdade de expressão então imperante entre nós.».
Aqui fica a crónica.



"As Palavras"

"As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.

E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates, o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem tão fluidas como o «precioso líquido». Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envolta também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz-surpresa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isto atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.

Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.

Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.

Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

Publicado no livro de crónicas "Deste Mundo e do Outro"

domingo, 2 de novembro de 2014

Saramago e a "censura" - entrevista ao Público (Maio de 1992)


Imagens da peça de teatro "A Noite"
Obra baseada na história de um jornal na véspera do 25 de Abril de 1974




In PÚBLICO de 10 de Maio de 1992
José Saramago critica responsáveis da Cultura
"É a terceira vez que sou censurado por Sousa Lara"
Por Torcato Sepúlveda

Em entrevista ao PÚBLICO, o romancista José Saramago não poupa o Governo português. O responsável é ele e não o regulamento do prémio. "A CE não podia esperar que isto acontecesse". E defende a Frente Nacional para a Defesa da Cultura.

... a velhinha máquina de escrever...

Como se sente na pele de um escritor censurado, dezoito anos depois da Revolução de Abril? Por que antes do 25 de Abril, era normal para si ser censurado...
Sim era normal. Não tanto como escritor - porque os livros que publiquei antes do 25 de Abril nunca foram objecto de censura - mas como jornalista. Em 1972 e 1973 trabalhei no "Diário de Lisboa" com funções de editorialista e todos os dias se guerreava com a censura.
Não esperava que, depois do 25 de Abril, se repetissem comportamentos desses, nessa altura institucionalizados. Embora a exclusão do meu romance "Evangelho Segundo Jesus Cristo" tenha também um carácter institucional, porque não foi uma medida extemporânea. É uma decisão tomada por uma instância do Governo e foi no exercício de uma autoridade governamental que a decisão foi tomada. Quanto ao meu estado de espírito: estou triste e indignado. Sinto-me também estupefacto: nos primeiros dias após a decisão governamental, perguntava-me se isto estava de facto a acontecer.
Mas Governo, secretário de Estado da Cultura e subsecretário de Estado da Cultura tiveram a resposta que mereciam: repúdio. O que não diminui a indignação, contaminada por um sentimento de tristeza profunda. Mais: tendo acontecido, como é possível que primeiro-ministro, secretário de Estado e partido do Governo procurem ladear isto, tentando encontrar uma solução para o que não tem solução. O facto é brutal e não pode ser diminuído, sejam quais forem os artifícios de retórica ou de baixa dialéctica política, ou de cabotinismo.

Considera este caso apenas português? Não se tratará de um precedente que amanhã pode permitir a um governo qualquer da CE tomar uma medida semelhante? Este caso não se tornou já europeu?
As Comunidades não esperavam que isto acontecesse no interior delas. Estou certo que na comunidade europeia, no seu conjunto ou nas instâncias onde o regulamento foi inventado e o prémio foi criado, não passou pela cabeça de ninguém que isto pudesse acontecer, e por isso não elaboraram normas preventivas.
Eu não estou tão contra o facto de os governos apresentarem os seus candidatos, desde que funcionem como simples caixa de correio. Instituições responsáveis e competentes, designadas para fazer uma escolha, apresentam aos governos, por uma questão de mero funcionamento administrativo, os candidatos. E os governos deveriam limitar-se - e nos anos anteriores assim sucedeu - a pôr o carimbo: "Siga". Eu próprio já fui candidato a este prémio, e o Governo de então era chefiado por este primeiro-ministro. Quem dirigia na Secretaria de Estado da Cultura teve o bom senso de não intervir. O absurdo deste caso é que houve também a intervenção do chamado factor pessoal. Há pessoas no PSD que não cometeriam a asneira do senhor Sousa Lara. Poderiam pensar que era um horror que o meu livro representasse Portugal, mas não se atreveriam a intervir, por mero respeito democrático. Este senhor não. Demais, com o seu ar tão elegante, bem educado... Se o físico das pessoas diz alguma coisa, o rosto de Sousa Lara, o seu modo tão suave parecem incompatíveis com tal atitude. Lembro-me, porém, que nas galerias de pintura, quer aqui, quer em Espanha, os retratos de inquisidores apresentam semelhanças, uma espécie de ar de família, entre o senhor Sousa Lara e os seus antepassados do Santo Ofício.

Insisto. Não terão sido as Comunidades Europeias demasiado optimistas em relação a si próprias?
Foram, claro que foram...

...amanhã, um governo chefiado pelo senhor Le Pen pode fazer o mesmo com Thar ben Jelloun, porque é de origem árabe. As Comunidades devem saber que os monstros vivem nelas.
Sim, sim. Mas mais do que a CE somos nós que temos de saber que os monstros vivem dentro de nós. E vivem aqui, vivem em Espanha, vivem na Alemanha, vivem em toda a parte. E estão a levantar a cabeça. E se é certo que a CE pode, perante casos como este e outros de natureza diversa, tomar medidas, também é certo que as medidas devem ser tomadas no interior de cada país, de cada sociedade, nas relações internas de toda a ordem e nas relações com os outros. Não devemos esperar que a a CE decida comportamentos, regras, métodos para evitar que coisas destas aconteçam, mas criar aqui os anticorpos contra o mal. Quando o senhor Sousa Lara diz no Parlamento que este caso não deveria ter sido tornado público, defende o triunfo da hipocrisia.

Estes casos estão a tornar-se frequentes. O embaixador de Marrocos achou que o filme de João César Monteiro, "Recordações da Casa Amarela", poderia chocar a mentalidade muçulmana. Já não é um ministro ou um secretário de Estado a emitir julgamentos restritivos sobre uma obra de arte. É um simples funcionário... Dentro de cada um de nós habitará um Intendente Pina Manique?
Bom, essas pulsões são inseparáveis da natureza humana. Mas não foi por acaso que a sabedoria popular criou este dito: "Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão". O grande mal que pode acontecer às democracias - e penso que todas elas sofrem em maior ou menor grau dessa doença - é viverem da aparência. Isto é, desde que que funcionem os partidos, a liberdade de expressão, no seu sentido mais directo e imediato, o Governo, os tribunais, a chefia do Estado, desde que tudo isto pareça funcionar harmonicamente, e haja eleições e toda a gente vote, as pessoas preocupam-se pouco com procedimentos gravemente antidemocráticos.
Na relação do senhor Sousa Lara comigo, este não é o primeiro episódio. Já este ano, o que me leva a crer que tudo isto tem origem no "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Foi enviado, penso que em Fevereiro, um pedido de subsídio para que eu me deslocasse a Paris, à Expolangues, e o senhor subsecretário de Estado, não fez censura porque não tomou decisão alguma: exerceu o veto de gaveta. Mais grave porém: recentemente, em Abril, a Universidade francesa de Clermont-Ferrand convidou-me para lá ir. E mais uma vez foi feito, através do Instituto Português do Livro e da Leitura [IPLL], o pedido de apoio para a viagem. O IPLL limitou-se a passar o pedido a quem tem o poder de decidir, mais uma vez ao senhor Sousa Lara. Que respondeu que não haveria subsídio para mim e que ele sugeria outro escritor. Sei o nome do escritor alternativo, que não tem nada que ver com o assunto com certeza. Mas a Universidade de Clermont-Ferrand respondeu: "Está muito bem, mas quem nós queremos cá é o senhor Saramago. E eu lá fui, o Estado português não gastou um tostão. Portanto, o veto para o Prémio Literário Europeu é o terceiro caso de censura que sofro este ano.

Em declarações ao "Expresso" sugeria, com tristeza e melancolia, a hipótese de abandonar Portugal. Saramago será mais um vencido da vida? Um vencido do reino da estupidez?
Há uma coincidência que eu não busquei. Acontece que dentro de alguns meses, mas isto estava já decidido antes, vou viver alternadamente aqui e fora de Portugal. Por razões que não tenho que explicar, mas que se prendem com desejo de tranquilidade. A vida está a tornar-se-me cada vez mais difícil e tenho que encontrar calma para fazer o que tenho ainda a fazer, porque não cheguei ao fim com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Nessa conversa com Clara Ferreira Alves, do "Expresso", dadas as circunstâncias em que ocorreu, era inevitável que eu exprimisse indignação, protesto, dizendo: "Qualquer dia vou embora". Mas as alterações na minha vida estavam previstas. Não abandonarei a minha terra, a não ser que este ou outro Governo cometesse a asneira de me transformar em ovelha negra, coisa para a qual não vejo grandes razões.

Até certa altura, os intelectuais exerciam uma espécie de poder moral sobre a sociedade. Mas com a crise do comunismo, os "clercs" - talvez com medo de serem acusados de comunismo - refugiaram-se na luta puramente cultural. Ramalho Ortigão até sobre a poda das árvores falou em "As Farpas". Aqui parece residir o grande defeito da Frente Nacional para a Defesa da Cultura. Falaram do IVA nos livros mas não se importaram com o IVA no pão e no leite. E metade da população portuguesa não vive tão bem como isso... Parece que os intelectuais se têm afastado afectivamente do resto da população.
Os escritores, as pessoas a quem chamamos intelectuais, eram gente de ideias gerais. E sobretudo havia uma diferença, que para mim é radical, profundíssima, quanto à situação da comunicação social no tempo e à comunicação social hoje. Os escritores de então, um Fialho, com "Os Gatos", para falarmos apenas dos nossos, um Ramalho e um Eça, com "As Farpas", toda essa gente que intervinha socialmente pela pena, supria as deficiências da comunicação. No caso concreto, da imprensa. Hoje, a situação está invertida. O que levava os escritores no século passado a fazerem jornalismo e nas suas próprias obras literárias a fazerem qualquer coisa que tinha que ver com o jornalismo no sentido da informação, da edificação do leitor, da construção da sua mentalidade, do seu sentido crítico, tudo isso passou, ou tudo isso deveria ter passado, para a comunicação social de massa. O escritor achou-se fora desse processo. É a própria evolução tecnológica, o desenvolvimento das comunicações de massa que exclui o escritor dessa tarefa. Não significa que um ou outro não o faça, mas não é dele que a população de um país espera isso. Procura-o na imprensa, na rádio e na televisão. E nós sabemos como o faz. A televisão, por exemplo, asfixia-nos com imagens, imagens não tratadas, que nos submergem, mas no fim de um telejornal, informação, nenhuma.
É preciso não tomar a reacção ao IVA, e tudo o que levou à criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura como defesa de interesses corporativos, pânico de gente que vai vender menos livros. Uma visão mesquinha. O que se deveria ter visto neste movimento, a que se chamou Frente, o que parece ter chocado muita gente, e Nacional, o que parece ter chocado ainda mais - a comparação era fácil, em França há o Front National; jogar assim com as palavras é lamentável - é o mal estar que o IVA despoletou. Porque não surgiram apenas ataques à Frente, descobriu-se uma preocupação, que já não pode ser mantida em silêncio, sobre o estado da cultura em Portugal. A Frente aparece por causa disso, mas não é isso que lhe dá o sentido verdadeiro. Como também não é a famosa reestruturação dos serviços da Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Sobre a qual reestruturação não sei se é boa se é má. Tirando a questão da Biblioteca Nacional e a do IPLL, o resto, a redução das direcções gerias, não sei se é bom se é mau. Não estudei o assunto. E há que dizer que não me interessa muito. Pode até provar-se amanhã que, de um ponto de vista meramente estrutural, se está perante uma boa solução ou uma solução aceitável.
A questão é saber se a política cultural do Governo está orientada no sentido de corrigir os profundos males, que não são apenas de estrutura de serviços. São males enraizados na nossa educação e na nossa mentalidade. Não se pede que o Estado seja o médico que vai tratar de tudo, mas pede-se que o Estado cumpra a sua obrigação. Porque o resto não é com ele, é com os cidadãos todos e, neste caso, com os chamados intelectuais.
O que não faz sentido é que se diga que a frente não apresentou soluções. Peço um minuto de reflexão: reúnem-se mais de setenta associações de diversa índole - que vão das desportivas, às ecológicas, às culturais em geral, às profissionais - que até então não tinham estabelecido qualquer contacto umas com as outras (e não estabeleceram ainda, porque a Frente não está estruturada para reunir em plenário com toda esta gente para tomar decisões, não há sede, não há secretaria, não há fundos) e quer-se que ela apresente propostas... É impossível que a Frente apresente propostas e sobretudo que as apresente imediatamente, como se as já tivesse no bolso, como se antes de ser Frente já andasse a estudar tudo isto. E na hora de se declarar Frente dissesse: "Aqui estão". Há a ideia - que espero vá para diante - de fazer um exame objectivo da cultura em Portugal. Relatores, apoiados por comissões, analisarão dez, ou doze, ou quinze áreas culturais. Que serão estudadas profundamente. As comunicações serão depois debatidas durante dois ou três dias, não sei bem, porque tudo isto está ainda verde. Este levantamento permitirá depois a formulação de propostas. Mas por favor dêem-nos tempo...
No fim disto, em meu entender- mas aqui há diferenças de opinião - a Frente acaba. Porque depois serão as setenta associações que fazem parte dela que devem continuar o trabalho.

O que parece é que o José Saramago, tal como alguns críticos da Frente, tem a preocupação do real, do concreto...
Se os bibliotecários se juntaram à Frente é por razões da sua própria actividade. Isso é que deveria ter sido investigado, e foi isso que grande parte da comunicação social não fez. Compreendo os articulistas e os cronistas que se pronunciaram contra a Frente. Mas uma coisa me deixou magoado: há pessoas que pelo seu passado e pela sua própria responsabilidade não têm o direito de formular a sua opinião de qualquer maneira. Não perdoo que Joaquim Vieira, director adjunto do "Expresso", na sua coluna "Quente e Frio", diga coisas como "pela média etária, a Frente parece-se muito com o bureau político do PCUS". Não sei a que média etária se refere, a das organizações que formam a Frente? De qualquer maneira disse-o. E isto reflecte duas coisas: desprezo pela velhice e anticomunismo primário.

Santana Lopes, em entrevista à revista "Grande Reportagem", de Maio, afirma que Saramago já o elogiou duas vezes: na Semana de Bordéus e numa sessão da Mundial Confiança, aquando da estreia da "Blimunda", no São Carlos. É verdade?
É mentira. O senhor secretário de Estado utiliza alguns factos para construir um discurso que só a ele interessa. Estive em Bordéus e falei com ele, de facto: para lhe dizer que ele tinha de defender em Bruxelas a nossa identidade, se não "eles" comiam-nos. Estive presente na sessão da Mundial Confiança, mas não lhe disse nada. O senhor secretário de Estado é que não apareceu na estreia de "Blimunda". Não o vi lá. Se ele disser que esteve, convém que apresente testemunhas.

Censura e Inquisição - Opinião e pensamento de José Saramago


A arte que transporta a Liberdade... os povos se que se exprimem através da arte.

José Saramago foi polémico, considera uns.
José Saramago foi incómodo. muitos o sentem.
José Saramago foi desassossegado, sempre inquieto.

Via Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura_em_Portugal)
"Em 1992, o subsecretário da Cultura, António Sousa Lara, vetou a candidatura do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, ao Prémio Literário Europeu, justificando tal decisão dizendo que a obra não representava Portugal mas, antes, desunia o povo português. Em consequência do que considerou ser um acto de censura por parte do governo português, Saramago mudou-se em 1993 para Espanha, passando a viver em Lanzarote, nas ilhas Canárias."

Este episódio poderá ser marcante, na e da cultura portuguesa, um entre muitos exemplos.
A censura em democracia, circula sem lápis azul... por certo e de certo que quem sente a censura, ela lhe aparece sob a forma mais subtil - o lápis transparente.

O pensamento primeiro, ou dos primeiros que me surge, transporta o peso de uma ideia - Portugal país milenar, de invasões e descobertas, nação una à volta da mesma língua, percorreu meio mundo divido através de uma negociada (tratado de Tordesilhas), onde a cultura há muito que não merece um ministério. Um edifício estatal que proteja e promova as diferente artes e língua.

Nas entrevistas que José Saramago concedeu, muitas vezes aflorou o tema da censura e suas formas de se manifestar, como um sensor das mentalidades e públicas virtudes.
O homem, o democrata, deu por diversas vezes o corpo às balas... demasiadas vezes sozinho.

Um dia, este homem, que amava o seu país - deverá ter pensado... estou farto do lápis azul...



Jornal de Letras
5 de Novembro de 1991
José Carlos de Vasconcelos

"Evangelho Segundo Jesus Cristo" é apresentado

A ideia que Saramago alimentava sobre alguma polémica com a Igreja

(...)
Então ainda pode ser excomungado...
Posso. Mas não penso que a Igreja me tome tanto a sério ao ponto de excomungar...

O tome tanto a sério ou tome tanto a sério o romance?
Acho que a Igreja vai fazer de conta que o livro não existe. O que não significa que não surjam por aí alguns ataques, mas não será a Igreja directamente como instituição que vai produzir uma nota ou um comunicado.

É capaz de dar um editorial da Rádio Renascença...
Sim, um editorial da Rádio Renascença é capaz de dar (risos)...

Isso diverte-o ou preocupa-o?
Nem me diverte nem me preocupa. Cumpri uma espécie de dever: tinha de escrever um livro, está escrito. O que possa acontecer depois atingir-me-á, de uma maneira ou de outra, mas de certa maneira as questões que se vierem a pôr não são comigo. São com o livro. Sou o seu autor e único responsável, não o podem retirar de circulação.

Já não há inquisição...
Não há inquisição, não há censura. (...)

Nesta entrevista, transparece o sentimento da liberdade do autor. É um romance, uma obra, o homem não concebe por estes dias a inquisição e a censura. Não redondo.


Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

Passados anos... a censura sempre existiu... no tempo e à distância, atenta-se nestas palavras

(...) ... que aliás é (o «senso comum») uma personagem importante do teu último romance...
... um pouco de senso comum: em 1992 era governo o PSD, que pela pena ou a palavra de um subsecretário de estado da Cultura cometeu contra mim um acto de censura que não foi desautorizado pelo secretário de estado, nem pelo primeiro-ministro, nem por ninguém. Protestei, falou-se muito, inclusive na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, saí de Portugal e vim para aqui para Lanzarote. A seguir, veio um governo do PS, com quem tive relações normais, cordiais - para além de as ter, antigas, com alguns dos seus membros. Depois, regressou o PSD ao Governo. E o que eu disse é que não colaboraria com um Governo que cometeu um acto de censura do mais descarado e insultuoso da inteligência e do qual nunca pediu desculpa. E não tenho que colaborar, como se não tivesse acontecido nada, com instituições oficiais que dependem desse Governo. Que me peçam desculpas públicas (não através de uma cartinha confidencial), e a questão resolve-se. Ninguém deste Governo, a que pertencia o actual primeiro-ministro, se insurgiu contra o que se passou. Pelo contrário, chegou a haver um jantar de homenagem ao Sousa Lara! Então que queres que faça? Que não tenha vergonha na cara? O que lhes falta a eles, sobra-me a mim. Ah!, mas o prejudicado é o País... Por muito que me prejudique o País, nunca será tanto como eles o prejudicaram cometendo, com a divulgação internacional que se sabe, um acto de censura contra um escritor português que por acaso, uns anos mais tarde, veio a receber o Prémio Nóbel. (...)


Passado um ano, em Março de 2004, o assunto volta à baila. Talvez mais incisivo e decidido.

Revista Visão
25 de Março de 2004
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Como vai o «mal de amor» pela Pátria de Saramago?
O mal de amor de José Saramago pela Pátria é conhecido. Pago todos os impostos em Portugal e voto em Portugal. Se não vivo em Portugal é porque fui maltratado, publicamente ofendido pelo Governo de Cavaco Silva, de que era secretário de Estado da Cultura Santana Lopes e subsecretário de Estado Sousa Lara. E no Governo, a que pertencia Durão Barroso, não se levantou uma única voz dizendo «isto é um disparate, isto não se faz»! Outro dia, alguém falou no caso ao primeiro-ministro (Durão Barroso), que disse querer arrumar o assunto: vinha a Espanha e teria muito gosto em almoçar comigo. Assim, durante o almoço, provavelmente entre a fruta e o queijo, ele diria «vamos pôr uma pedra sobre o assunto, não se fala mais nisso»; e eu diria, «sim senhor, vamos pôr». Só que comigo as coisas não são assim. Ofensa pública, desculpas públicas. (...)