Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta cante alentejano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cante alentejano. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de março de 2016

Trabalhos do campo e dos camponeses mencionados em "Levantado do Chão" e a alusão ao "Cante Alentejano"

Interpretação do Cante Alentejano e sons descritos nos trabalhos dos camponeses em "Levantado do Chão", exibidos na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, 
local iconográfico base para a construção do "Memorial do Convento".

Aqui a representação e união simbólica das duas obras

Vídeo pode ser assistido, via Youtube, aqui

(...) Que os trabalhos de homem são muitos. Já ficaram tidos alguns e outros agora se acrescentam para ilustra-ao geral, que as pessoas da cidade cuidam, em sua ignorância, que tudo é semear e colher, pois muito enganadas vivem se não aprenderem a dizer as palavras todas e a entender o que elas são, ceifar, carregar molhos, gadanhar, debulhar à máquina ou a sangue, malhar o centeio, tapar palheiro, enfardar a palha ou o feno, malhar o milho, desmontar, espalhar o adubo, menear cereais, lavrar, cortar, arrotear, cavar o milho, tapar as craveiras, podar, argolar, rabocar, escavar, montear, abrir as covatas para estrume ou bacelo, abrir valas, enxertar as vinhas, tapar a enxertia, sulfatar, carregar as uvas, trabalhar nas adegas, trabalhar nas hortas, cavar a terra para os legumes, varejar a azeitona, trabalhar nos lagares de azeite, tirar cortiça, tosquiar o gado, trabalhar em poços, trabalhar em brocas e barrancos, chacotar a lenha, rechegar, enfornar, terrear, empoar e ensacar, o que aqui vai, santo Deus, de palavras, tão bonitas, tão de enriquecer os léxicos, bem-aventurados os que trabalham, e que faria então se nos puséssemos a explicar como se faz cada trabalho e em que época, os instrumentos, os apeiros, e se é obra para homem ou para mulher e porquê. (...)

in, "Levantado do Chão"
Caminho, páginas 89 e 90 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Unesco declara o "Cante Alentejano" Património Cultural e Imaterial da Humanidade

"A transformação social. A contestação. Personagens em diálogos. As cruentas desigualdades sociais. Surgem as perguntas proibidas. Vai-se adquirindo consciência e espaço, para que tudo se levante do chão. Um livro composto por 34 capítulos. No 17.º está a tortura e a morte de Germano Santos Vidigal. Germano, o nome que significa irmão, o homem da lança. Apesar de vencido, o sacrifício da sua vida indica o caminho. «Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do setor seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto.»As mulheres são também chamadas à primeira linha das decisões neste belo romance de Saramago. O diálogo monossilábico entre marido e mulher da família Mau-Tempo vai-se alterando. Interessante observar uma narrativa que vai da submissão ao sentido de libertação, através de gerações."

A obra "Levantado do Chão", ou dos dias em que gerações de homens e mulheres, viveram a pobreza do campo. As lutas, as vidas, as cores e cheiros alentejanos, na visão de José Saramago. Destas agruras de um povo, nasce uma voz, coral, o "Cante Alentejano"


(O artista albanês, Saimir Strati está a construir o maior mosaico em rolhas de cortiça do Mundo em Ponte Sor, no Centro de Artes e Cultura.)





"São sete ou oito grupos de perto e longe. Cantam os trabalhos e os dias, os amores e as paisagens.
Estão duas mil pessoas a ouvi-los pela noite fora, em silêncio, só aplaudindo no fim de cada canção, à entrada de cada grupo, mas neste caso quase nada, porque é sabido que mal se podem bater palmas quando os homens começam a mover-se, lentamente, naquele movimento pendular dos pés, que parecem ir pousar onde antes haviam estado, e no entanto avançam.
O tenor lança os primeiros versos, o contratenor levanta o tom, e logo o coro, maciço como o bloco dos corpos que se aproximam, enche o espaço da noite e do coração. O viajante tem um nó na garganta, a ele é que ninguém poderia pedir-lhe que cantasse. Mais facilmente fecharia os punhos sobre os olhos para não o verem chorar."

José Saramago, "Viagem a Portugal"
Publicado no Facebook, da Fundação José Saramago,
em https://www.facebook.com/fjsaramago?fref=photo



(imagem das ceifeiras alentejanas, onde no trabalho braçal do campo, 
as mulheres tinham autorização para cantar as modas)

Menção identificativa, do "Cante Alentejano" no site da Unesco
http://www.unesco.org/culture/ich/index.php?lg=en&pg=00011&RL=01007

"Cante Alentejano is a genre of traditional two-part singing performed by amateur choral groups in southern Portugal, characterized by distinctive melodies, lyrics and vocal styles, and performed without instrumentation. Groups consist of up to thirty singers divided into groups. The ponto, in the lower range, starts the singing, followed by the alto, in the higher range, which duplicates the melody a third or a tenth above, often adding ornaments. The entire choral group then takes over, singing the remaining stanzas in parallel thirds. The alto is the guiding voice heard above the group throughout the song. A vast repertoire of traditional poetry is set to existing or newly created melodies. Lyrics explore both traditional themes such as rural life, nature, love, motherhood and religion, and changes in the cultural and social context. Cante is a fundamental aspect of social life throughout Alentejano communities, permeating social gatherings in both public and private spaces. Transmission occurs principally at choral group rehearsals between older and younger members. For its practitioners and aficionados, cante embodies a strong sense of identity and belonging. It also reinforces dialogue between different generations, genders and individuals from different backgrounds, thereby contributing to social cohesion."