Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Quero que as coisas nunca mais voltem ao normal" Entrevista a Fernando Meirelles ao portal brasileiro UAI (Mariana Peixoto, 12/04/2020)

(foto: Ricardo Matsukawa/Divulgação)

"'Quero que as coisas nunca mais voltem ao normal', diz Fernando Meirelles
Cineasta e ambientalista, Fernando Meirelles afirma que a pandemia do novo coronavírus talvez seja a última oportunidade de reformularmos nossa relação com o planeta e um estilo de vida que não estava correto"

Entrevista de Mariana Peixoto publicada no portal UAI em 12/04/2020
Pode ser consultado e recuperado aqui


“A única coisa mais aterradora do que a cegueira é ser a única pessoa que consegue enxergar.” A frase é do escritor José Saramago (1922-2010) e ganhou a voz da atriz Julianne Moore, intérprete da única mulher que continua capaz de ver, depois que uma epidemia viral cega toda a população, no Ensaio sobre a cegueira criado pelo escritor português e levado ao cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles em 2008.

A mulher que mantém a capacidade de enxergar assiste, em meio ao caos crescente, a comportamentos marcados pelo egoísmo, autoritarismo e violência sexual. Vinte e cinco anos após sua publicação, o livro do Nobel português de literatura voltou à tona, por razões mais do que óbvias. “Saramago dizia que a humanidade era uma experiência que não deu certo”, afirma Fernando Meirelles. Na entrevista a seguir, franca, sem meias palavras, como lhe é de praxe, o cineasta reflete sobre o meio ambiente, a política, o cinema, a família. O mundo dele, o seu, o nosso, não serão os mesmos pós-COVID 19. “Seria uma pena desperdiçarmos a oportunidade para repensar. Talvez a última oportunidade.”


Impactados, profissional e pessoalmente, todos estamos diante dos acontecimentos. Em que medida a pandemia está afetando sua produtora, a O2 Filmes? O que é possível fazer agora?
A O2 Filmes estava rodando três séries e preparando mais duas quando o mundo parou. As filmagens foram interrompidas de um dia para o outro, com previsão de retomar entre junho e julho. Campanhas de publicidade também foram adiadas na boca do gol. A produtora estava funcionando a todo vapor e, em três dias, deu uma freada de 90%. Se fecharmos o ano no zero a zero, vamos comemorar. Mas esta é a hora de engolir o choro e fazer o que tem que ser feito. O poeta e amigo Tadeu Jungle tinha um poeminha impresso em uma camiseta de que eu gostava muito. Na frente dizia: TUDO PODE. Era poderoso. Quando ele ia embora se lia nas costas: PERDER-SE. Nossa civilização é muito menos sólida do que queremos acreditar.

E no nível familiar? É hora de nos recolhermos com aqueles que nos são mais caros?
Goste ou não, a convivência agora é mandatória. Você vai ter que encarar! Sorte para quem tem uma família funcional e amorosa. Sou um destes. Sinto por quem estava naquelas de empurrar as insatisfações com a barriga usando a distância. Agora é hora de entrar em contato. Seria um bom momento para assistir Entre quatro paredes (1944), peça do Sartre em que a conclusão a que chegam os personagens é que o inferno são os outros. Mas o tropeção joga a gente para a frente – ou para fora de casa, depois que passar o surto.

Além da pandemia do novo coronavírus, há também uma epidemia de cegueira em curso? Que relações você traça entre o que está ocorrendo e a história de Saramago que filmou?
Só agora soubemos que esta pandemia e as outras que virão estavam anunciadas há um tempo. Aquele TED Talk de 2015 do Bill Gates parece uma consulta a um vidente, mas mesmo quem assistiu não enxergou o que ele dizia. Nossa mente parece trabalhar com filtros para enxergar só o que precisa. Lembro que quando a minha mulher ficou grávida, eu via grávidas em todo lugar. Achava que estava acontecendo um boom de nascimentos no mundo. Filtros. Saramago dizia que a humanidade era uma experiência que não deu certo, seu Ensaio sobre a cegueira fala sobre isso e sobre a nossa incapacidade de ver o que está na nossa frente.

Que reações positivas você viu por parte dos governos mundo afora?
Apesar de um ou outro vacilo, no geral as reações dos governos ao redor do mundo pareceram rápidas e responsáveis, mesmo tendo que adotar medidas duras que comprometem o futuro próximo. No Brasil, se tivéssemos um governo no modelo que o Partido Novo propõe, o do Estado mínimo, estaríamos ferrados. É fato que muitos empresários estão fazendo doações, mas por sorte temos um Estado mais forte que pode fechar o comércio, criar estruturas hospitalares da noite para o dia, defender os cidadãos, importar ventiladores, testes e máscaras. A iniciativa privada diria que não é problema dela ou tenderia a mandar o pessoal de volta ao trabalho. Eu me recuso a entrar num pingue pongue ideológico, mas esta experiência é uma oportunidade para quem acredita na lógica do mercado como solução para todos os problemas rever alguns conceitos.

Como você comentou no Twitter, os esquilos já voltaram para o jardim da sua casa. Que pontos positivos você enxerga como decorrência do isolamento social?
Depois de 10 anos, um casal de pandas do Ocean Park, em Hong Kong, acasalou esta semana porque fecharam o parque, dando a eles alguma privacidade. Golfinhos voltaram ao canal de Veneza. Em cidades no Norte da Índia, agora os Himalaias podem ser vistos depois de 30 anos. Há sinais assim por todos os lados, os esquilos no meu jardim são só mais um deles. Será que colocaremos o pé no freio quando tudo passar? Ou vamos correr ansiosos para retomar o ritmo frenético? Não posso falar pelo mundo, mas eu aprendi algumas coisas e espero voltar com a voltagem mais baixa, viver menos como se estivesse numa prova de 100 metros rasos e mais como se caminhasse num parque. Seria uma pena desperdiçarmos a oportunidade para repensar. Talvez a última oportunidade. Outro dia me mandaram uma pergunta: 'E se o vírus for o anticorpo?'. Pareceu mais que uma boa piada.

Que mundo você imagina para depois da COVID-19?
Podemos enveredar para um mundo mais autoritário, onde a monitoração e o controle do cidadão passem a ser vistos como normal. Onde a falta de empregos que se seguirá leve à consolidação da perda de conquistas de quem trabalha todo dia. Ou podemos pegar o outro viés, onde a solidariedade que está pipocando em todo canto floresça como um vírus e os cidadãos assumam o seu destino. O que eu gostaria? Que as coisas nunca mais voltassem ao normal, porque aquele normal de normal não tinha nada.

Você filmou O jardineiro fiel (2005) no Quênia. Qual a sua opinião sobre os países africanos neste momento?
Ouvi um biólogo indiano/americano que afirma com muita segurança que a vitamina D é uma prevenção decisiva. O que as pessoas atribuíram ao frio do inverno onde tudo começou, ele diz que, na verdade, foi a falta de sol que fez o vírus explodir nos países do Norte e em playboys nos países do Sul (ele não usou o termo playboy). Por outro lado, mostrava que em países como o Mali, onde a população vive sob o sol do Saara, o vírus não foi para a frente. De fato, na África o bicho ainda não pegou. Espero que o biólogo esteja certo. De qualquer maneira, pelo sim ou pelo não, já peguei um bronze.

Como uma pessoa que viaja muito mundo afora, como você se sente em relação ao desafio da sustentabilidade do planeta? 
É curioso como este vírus, que ameaça 2% da humanidade por um período curto, conseguiu nos mobilizar e mudar nossos hábitos tão rapidamente, enquanto a crise do clima, que ameaça toda a humanidade definitivamente, tipo extinção, não consegue gerar um décimo das medidas necessárias para podermos enfrentar o baque que vem. Isso deve ter relação com nosso foco no presente. Uma gripe com risco de hospital na semana que vem, para a maioria, é imensamente mais preocupante do que um problema cujas previsões catastróficas são só para 2100. Caramba, acorda! Em 2100, minha neta vai ser 17 anos mais jovem do que a minha mãe hoje. Está na porta.

O que um cidadão responsável deve fazer neste momento e o que um cidadão responsável e famoso pode fazer agora?
O cidadão responsável e que possa se dar ao luxo de não se expor deve seguir as recomendações, seja famoso ou não. Tem famosos muito mobilizados na ajuda a comunidades, gente que não está só no Twitter, mas com a mão na massa. E tem famoso, como os Malafaias que, como o demo, parecem ter vindo para confundir, iludir, piorar o que já não está fácil.

Seu próximo filme é sobre a crise  do clima. Você já está repensando esse projeto? 
Como estou em fase de desenvolvimento de roteiro, esta crise não afeta tanto o projeto, mas eu e o Bráulio Mantovani, roteirista, estamos pensando se devemos trazer a história até o momento pós-vírus. A ideia me parece interessante, mas ainda não sei como fazer isso sem perder o foco. Tem que esperar decantar para ver como fica.

O streaming está aparecendo como tábua de salvação para muita gente durante a pandemia. Acredita que toda a cadeia audiovisual será repensada? O cinema não será o mesmo pós-COVID?
Essa COVID-19 parece vir em ondas, por isso há uma grande parte da indústria que acredita que os cinemas não serão reabertos até o final do ano. Se isso acontecer, haverá um bom tempo para consolidação de novos hábitos, o que pode afetar fortemente as salas. Fora isso, em geral os festivais de Telluride, Veneza e Toronto são as plataformas para lançamento dos filmes fortes do ano que concorrerão a Oscars. Este ano, é possível que todos festivais sejam cancelados. Também sem lançamentos em salas, não haverá quase nada para ser premiado. Algo muito transformador deve acontecer no setor sem seus mercados e eventos principais. 


segunda-feira, 20 de abril de 2020

"El don envenenado de la mirada" de Miguel Alberto Koleff no HoyDia (16/04/2020)

"El don envenenado de la mirada"
Por Miguel Alberto Koleff
16/04/2020

Publicado no HoyDia Noticias de Córdoba - Argentina

Pode ser consultado e recuperado, aqui
em https://www.hoydia.com.ar/cultura/68374-el-don-envenenado-de-la-mirada.html



"No es seguro que la pandemia del coronavirus nos alcance el cuerpo físico pero sí es un hecho que ya se apoderó de nuestra mente haciéndonos prisioneros del pánico. La expresión más cabal se pone en evidencia a la hora de amarrotar mercaderías en los supermercados a la vez que nos sobreexponemos al contacto de la multitud durante esa hazaña. Da la impresión de que, si construimos un almacén paralelo al fondo de nuestra casa, estamos más protegidos del mal e, incluso, inmunes a sus efectos. Un extraño convencimiento nos hace pensar que podemos socavar la enfermedad y pasarle al lado sin sufrir consecuencias. Y lo que ocurre verdaderamente es que –en esta encrucijada- podemos ser alcanzados al menor suspiro por un cruce circunstancial, por un accidente, por un encuentro fortuito, por un desatino…

Claro que hay que cuidarse y cuidar a los demás pero sin falsas presunciones creyendo tener la solución en nuestras manos ya que –en casos así- el azar se vuelve imponderable y el destino nos vigila desde una hendija. Precisamente, este malabarismo de lo impredecible es el que lleva al pensador francés Georges Didi-Huberman a hacer interactuar los términos «similar» y «simultáneo» en un brevísimo artículo con ese nombre, para demostrar el funcionamiento de la sincronicidad. Toma, para ello, el curioso ejemplo de una partida de dados que –más allá del juego en el que se inscribe- convoca la fatídica suerte que le cabe a sus destinatarios. Tres dados arrojados al mismo tiempo devengan resultados diferentes que van desde un extremo al siguiente. El prefijo «simul» que vincula los dos vocablos (y las dos acciones) conjura esa circunstancia.

En su razonamiento, el filósofo imagina a tres sujetos como partes responsables de la apuesta y decide que «a uno le toca la vida; al otro, la herida; al tercero, la muerte» (Didi-Huberman, 1998, p. 23). No explica cómo llegan a ese lugar ni tampoco las motivaciones personales que los instalaron en ese sitio. Ninguno sabe de antemano el resultado ni tampoco se anima a cuestionarlo pero cada uno por su lado confía en ser el afortunado. Tanto así que, en medio de la contienda, no abdica de sus oportunidades. El accidente automovilístico se produce después pero sigue cálculo a cálculo el pronóstico de los dados. Uno se consume en el interior de los despojos y queda reducido a «esa gran superficie de sangre que va aumentando en silencio» (p. 24), otro mensura los gravísimos daños y no deja de requerir ayuda, mientras que el tercero resiste, atontado, desde fuera. Ha sido expulsado del coche y puede testimonar con horror la sina de sus compañeros de viaje. Didi-Huberman sintetiza con estas palabras el perfil de la escena:

Ese es el sentido de la tirada de dados –tres dados similares arrojados simultáneamente-: al tercero, le toca ser reducido a una mancha que solo avanza con el poder de la muerte. Al segundo, la locura y lo infinito, tal vez hasta la muerte, de los sufrimientos físicos. Al primero, sin duda para siempre, el don envenenado de la mirada (p. 24).

La pandemia del coronavirus puede homologarse perfectamente a este desafío que –para el autor- toma la forma de una tragedia con un saldo fatal irreversible. La resolución silogística no es difícil de prever, tampoco sus alcances. No podemos negar el número de víctimas fatales que engrosará las estadísticas, tampoco desconocer ese otro conjunto que quedará ileso pero que soportará el grave impacto el resto de sus vidas. Menos aún, la existencia de un último grupo, tal vez el más expansivo formado por sobrevivientes, a los que le cabe sostener «para siempre, el don envenenado de la mirada». Es necesario detenernos en estos mientras sea posible contar con el efecto benéfico de sus ojos todavía altivos a los fines de hacer productiva la supervivencia.

Llegado a este punto de la argumentación, me interesa convocar al debate, el libro del nobel portugués José Saramago publicado en 1995: Ensayo sobre la ceguera. Primero, porque parece calcado a la realidad que estamos viviendo ya que el universo narrativo de la pandemia que comienza a expandirse (la ceguera blanca) mucho se asemeja a la que nos rodea aunque sus síntomas sean diferentes; y después, porque se anima a dar una prudente respuesta al acto de responsabilidad solidaria que exige una coyuntura como la actual a través de la metáfora de la visión. No se puede decir que Saramago ignore la «rivalidad de la suerte» (p. 24) que describe Didi-Huberman porque lo hace muy bien y el marco de la ficción es una muestra extraordinaria de esa lógica ambivalente que trae aparejada la distopía. Pero la clave que enriquece esta perspectiva radica en el papel del testigo ocular, de aquel que puede ver todo lo que le está pasando a su lado y el modo como procesa su misión de cara al futuro.

Precisamente, en el caso del autor lusitano, le cabe sólo a una única mujer conservar la vista cuando todos han quedado ciegos y por eso puede dar cuenta –con incisión e sin impostura- el curso de los acontecimientos desde el inicio destemplado hasta el caos en que se transforma durante su apogeo. Pero esta virtud no se desarrolla sin el peso de la herida y por eso, muchas veces la misma protagonista –entronizada como heroína- prefiere quedarse ciega también antes de cargar el deber que lleva encima. No lo hace, sin embargo. Resiste y avanza hasta el final porque –a su modo- se sabe conductora del resto de humanidad que todavía nos hermana como especie. En un bellísimo diálogo que mantiene sobre el final con una de las apestadas a las que guía y conduce, afirma sin ambages: «Hoy es hoy, mañana será mañana, y es hoy cuando tengo la responsabilidad, no mañana si ya estoy ciega, Responsabilidad de qué, La responsabilidad de tener ojos cuando otros lo han perdido» (Saramago, 1995, p. 287).

En el capítulo final de la novela, la pandemia llega a su fin porque el primer ciego recupera la vista y así lo hacen todos los demás, de manera escalonada y en orden creciente en un breve lapso. El coronavirus también llegará su fin –al menos en forma masiva- pero no estamos todavía en condiciones de medir sus consecuencias. Hasta hoy ha mostrado la fase más oscura del ser humano, la del consumismo servil y capitalista que no piensa en las necesidades del prójimo y que se autoenajena en el propio sustento. Tal vez mañana sea otra cosa. No lo sabemos a ciencia cierta pero no perdemos nada con esperar. Lo que sí está claro es que no hay tiempo para derrochar y que los que poseen los ojos bien abiertos tienen que ayudar a los que ya lo cerraron o van en ese camino. La novela de José Saramago abre un interrogante que estamos prontos para responder y que nos marcará como humanidad. No tengamos fe pero tampoco desalentemos la esperanza. Quien sabe, el juego del azar nos depare una alternativa inapreciable a esta altura y que valga la pena.
Fuentes consultadas
Didi-Huberman, G. (1998). Similar y Simultáneo. En G. Didi-Huberman, Fasmas (págs. 23-24). Cantabria: Shangrila.
Saramago, J. (1995). Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Caminho. Traducción al español de Alfaguara"

domingo, 5 de abril de 2020

Notas sobre o "Ensaio sobre a Cegueira" - Revista Blimunda #93 Março2020

A revista Blimunda pode ser descarregada gratuitamente, tal como todas as anteriores edições

Páginas 66 a 98

Notas sobre o "Ensaio sobre a Cegueira"

Em 1993, algumas semanas depois de se ter mudado para a ilha de Lanzarote, José Saramago deu início a um projeto que já orbitava sobre a sua cabeça: um romance sobre uma cegueira branca que ataca os habitantes de uma cidade. Durante pouco mais de dois anos, o escritor trabalhou na escrita
de Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995. “No fundo, o que o livro quis expressar é muito simples: se somos assim, que cada um se pergunte porquê”, disse o autor uns anos depois, numa conferência.
Nos últimos meses, com a pandemia de um super-vírus que nos obriga ao confinamento em casa e levanta questões sobre a nossa capacidade de vivermos em coletividade, o romance de José Saramago passou a ser muito citado e recordado.
Durante os meses em que esteve envolvido no projeto, José Saramago deixou anotadas no seu diário as dificuldades e aflições com que se deparou ao escrever o romance, assim como as descobertas e aprendizagens que ele trouxe. A Blimunda deste mês recupera algumas notas do diário do escritor que fazem referência ao Ensaio sobre a Cegueira e que podem servir para os interessados em ler ou reler o romance.

Cadernos de Lanzarote I (1993)
20 de abril
Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira, e durante uns minutos tudo me pareceu claro — exceto que do tema possa vir a sair alguma vez um romance, no sentido mais ou menos consensual da palavra e do objeto. Por exemplo: como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? Quantos anos serão precisos para que se encontrem substituídas, por outras, todas as pessoas vivas num momento dado? Um século, digamos que um pouco mais, creio que será bastante. Mas, neste meu Ensaio, todos os videntes terão de ser substituídos por cegos, e estes, todos, outra vez, por videntes… As pessoas, todas elas, vão começar por nascer cegas, viverão e morrerão cegas, a seguir virão outras que serão sãs da vista e assim vão permanecer até à morte. Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo «clássico» do «conto filosófico», inserindo nele, para servir as diferentes situações, personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada. 

21 de abril
Chegou uma cópia da segunda edição de In Nomine Dei. Mais cinco mil exemplares, que se vão juntar aos dez mil da edição inicial. Pergunto: que se passa, para que uma peça de teatro atraia tanta gente? Já não é só o romance que interessa aos leitores? Terá isto que ver, apenas, com a simples fidelidade de quem se habituou a ler-me? Ou será que, neste tempo de violência e frivolidade, as «questões grandes» continuam a roer a alma, ou o espírito, ou a inteligência («moer o juízo» é uma expressão com muito mais força) daqueles que não querem conformar-se? Se assim é, espero que venham a sentir-se bem servidos com o Ensaio sobre a Cegueira…

21 de junho
[…] Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após outra, até substituírem, por completo, as que têm visão: podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.

2 de agosto
Escrevi as primeiras linhas do Ensaio sobre a Cegueira. 

15 de agosto
Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará António ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero é ter de levar pela mão essas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos. Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, que quando alguém lhe apareça na narrativa se pergunte se é a primeira vez que tal sucede, se o cego da página cem será ou não o mesmo da página cinquenta, enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.

20 de agosto
Uma hipótese: talvez esta necessidade imperiosa de organizar uma lembrança coerente do meu passado, dessa sempre, feliz ou infeliz, única infância, quando a esperança ainda estava intacta, ou, ao menos, a possibilidade de vir a tê-la, se tenha constituído, sem que eu o pensasse, como uma resposta vital para contrapor ao mundo medonho que estou a caminho de imaginar e descrever no Ensaio sobre a Cegueira. 

22 de agosto
Começo a compreender melhor a relação que a gente nova tem com os jogos de computador, e como é fácil ficar prisioneiro do teclado e do que vai acontecendo no ecrã. Nos últimos dois dias, pouco atraído pelo Ensaio, cheio de espinhos, que ainda vai no primeiro capítulo, dediquei-me a investigar um pouco mais uma máquina (chamo máquina ao computador…) que até agora só me tinha servido para escrever.

30 de agosto
Terminado o primeiro capítulo do Ensaio. Um mês para escrever quinze páginas… Mas Pilar, leitora emérita, diz que não me saí mal da empresa.

25 de novembro
Em que ponto está o Ensaio sobre a Cegueira? Parado, dormindo, à espera de que as circunstâncias ajudem. Mas as circunstâncias, mesmo quando parecem propícias, não perdem a sua volubilidade natural, precisam de uma mão firme e boa conselheira. Até ao fim do ano (por causa da viagem às terras do Mais Antigo Aliado, e depois as festas, com a casa cheia de gente), não terei mais remédio que deixá-las à solta (falo das circunstâncias, claro) mas logo a seguir tratarei de as prender curto. Entretanto, vou escrevendo umas quantas coisas como esta que a revista Tiempo, de Madrid, me pediu, sobre a anunciada criação do Parlamento de Escritores […].

17 de dezembro
Voltei—timidamente—ao Ensaio. Modifiquei umas quantas coisas, e o capítulo ficou bastante melhor: a importância que pode ter usar uma palavra em vez de outra, aqui, além, um verbo mais certeiro, um adjetivo menos visível, parece nada e afinal é quase tudo.

Cadernos de Lanzarote II (1994)
3 de janeiro
Zeferino Coelho regressou hoje a Lisboa. Enquanto cá esteve leu tudo quanto tenho escrito nos últimos tempos: estes Cadernos, o capítulo do Ensaio, as notas para as Tentações. Propôs-me levar já os Cadernos, para publicar em abril um primeiro volume. O trabalho que tive para contrariar-lhe a ideia não precisou de ser grande, mas obrigou-me a pensar sobre o que quero fazer, ou melhor, sobre a ordem por que haverão de sair estes livros, por enquanto ainda só promessas deles. Concluí que devo lançar-me de vez ao Ensaio e não ir buscar desculpas cómodas ao tempo que as Tentações e os Cadernos vão continuar a tomar-me. Nestas duas semanas pouco poderei adiantar (primeiro vem o José Manuel Mendes, depois aparecerá o João Mário Grilo com a equipa de filmagem), mas, passadas elas, terei de voltar ao trabalho, desviar os olhos deste céu, deste mar, destas montanhas. Contra o meu desejo, duramente. (Há dias saiu-me «brutalmente»… Enfim, palavras.) […]

29 de abril
Sentei-me a trabalhar no Ensaio sobre a Cegueira, ensaio que não é ensaio, romance que talvez o não seja, uma alegoria, um conto «filosófico», se este fim de século necessita tais coisas. Passadas duas horas achei que devia parar: os cegos do relato resistiam a deixar-se guiar aonde a mim mais me convinha. Ora, quando tal sucede, sejam as personagens cegas ou videntes, o truque é fingir que nos esquecemos delas, dar-lhes tempo a que se creiam livres, para no dia seguinte, desprevenidas, lhes deitarmos outra vez a mão, e assim por diante. A liberdade final da personagem faz-se de sucessivas e provisórias prisões e libertações.

8 de julho
O Ensaio saiu do atoleiro em que tinha caído há já não sei quantos meses. Pode vir a cair noutro, mas deste safou-se. Há uns poucos dias que eu tinha decidido deixar de lado dois capítulos que se haviam convertido numa daquelas armadilhas onde se pode entrar com toda a facilidade, mas donde não se sai. O novo rumo parecia-me animador, abria perspetivas. Em todo o caso, ainda não me sentia completamente seguro. Foi então que andando por aí, hoje, ao vento, me sucedeu algo muito semelhante ao episódio de Bolonha, quando, depois de meses sem saber o que poderia fazer com a ideia do Evangelho, nascida em Sevilha, toda a sequência do livro — enfim, quase toda — se me apresentou com uma claridade fulgurante. Estava na Pinacoteca, vira a pintura da primeira sala à esquerda da entrada, e foi ao entrar na segunda (ou teria sido na terceira?) que os pilares fundamentais da narrativa se me definiram com tal simplicidade que ainda hoje me pergunto como foi que não tinha visto antes o que ali me parecia óbvio. Não era nada de complicado, basta ler o livro. Neste caso — o do Ensaio— a «revelação» não foi tão completa, mas sei que vai determinar um desenvolvimento coerente da história, antes atascada e sem esperanças. Todos os motivos que vinha dando, a mim mesmo e a outros, para justificar a inação em que me achava — viagens, correspondência, visitas —, podiam, afinal de contas, ter sido resumidos desta maneira: o caminho por onde estava a querer ir não me levaria a lado nenhum. A partir de agora, o livro, se falhar, será por inabilidade minha. Antes, nem um génio seria capaz de salvá-lo.

24 de julho
Uma coisa seria querer fazer um romance sem personagens, outra pensar que seria possível fazê-lo sem gente. E esse foi o meu grande equívoco quando imaginei o Ensaio sobre a Cegueira. Tão grande ele foi que me custou meses de desesperante impotência. Levei demasiado tempo a perceber que os meus cegos podiam passar sem nome, mas não podiam viver sem humanidade. Resultado: uma boa porção de páginas para o lixo.

26 de outubro
João Cabral de Melo Neto recebeu hoje, aqui em Madrid, das mãos da rainha, o Prémio Reina Sofía de Poesia Iberoamericana. Disse-me que perdeu a visão central, as suas primeiras palavras foram mesmo: «Estou cego», e eu só pude abraçá-lo com força. Mais tarde pensei nos meus cegos do Ensaio e achei-os insignificantes diante da realidade pungente daqueles olhos perdidos. Cego, João Cabral, o maior poeta de língua portuguesa vivo, com perdão de outros que também são grandes… O discurso de agradecimento, lido pelo embaixador do Brasil, foi muito belo, de uma serenidade profunda, como de alguém que, por cima das tristes dores da vida, está em paz consigo mesmo.

Cadernos de Lanzarote III (1995)
8 de janeiro
Há tempos prometi a Lakis Proguidis, para o seu L’atelier du roman, um ensaio sobre Ernesto Sábato, para o qual até já dispunha de título, uma vez que, como é minha incorrigível tineta, batizo sempre a criança antes de ela ter nascido. Chamar-se-ia O Olhar Sobrevivente. O condicional já está aí a dizer que a promessa não chegou a ser cumprida. Talvez regresse um dia a esse projeto, mas nunca antes de me libertar da legião de cegos que me rodeia. Aliás, é bem possível que o título me tenha vindo, por desconhecidos caminhos, daquele «olhar sobrevivente» que, em sentido literal, existe no Ensaio sobre a Cegueira. Isso e, por diferentes vias, o Informe sobre Cegos do mesmo Sábato (onde o número de cegos não conta comparado com os do Ensaio…), é o que provavelmente me terá levado ao título desse outro «ensaio» que ficou por escrever.

12 de janeiro
[…] José Manuel Mendes pergunta-me num fim de carta: «Como vai o Ensaio?» Vou responder-lhe com uma palavra simples: «Avança.» Provavelmente, ele pensará: «Enfim… já não era sem tempo.» 

15 de janeiro
Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos. Objeto Quase, por exemplo, ficaria perfeito se só contivesse a página que leva a citação de Marx e Engels. Lamentavelmente, a crítica salta por cima dessas excelências e vai aplicar as suas lupas e os seus escalpelos ao menos merecedor que vem depois. Não foi esse o caso de um certo crítico que, atento à matéria, não deixou passar em claro a epígrafe da História do Cerco de Lisboa, aquela que diz: «Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás.» São palavras do Livro dos Conselhos, confirmava com toda a seriedade, movido provavelmente por uma reminiscência, de direta ou indireta via, do Leal Conselheiro de D. Duarte. Ora, convém dizer que são também palavras do Livro as que irão servir agora de epígrafe ao Ensaio sobre a Cegueira, em andamento. Estas rezam assim: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» Espero que o bem-intencionado crítico, tendo refletido sobre a profundidade do asserto, não se esqueça, com idêntica circunspeção, de mencionar a fonte, salvo se, desta vez, tomado de súbita desconfiança ou de científico escrúpulo, se decidir a perguntar: «Que diabo de Livro dos Conselhos é este?»

16 de janeiro
O Livro dos Conselhos não existe.

4 de março
Dia de chuva e frio em Braga. Colóquio de inauguração da Feira do Livro, com a escritora espanhola Soledad Puértolas e Luísa Mellid Franco, que foi a moderadora. Apesar do mau tempo, que terá retido muita gente em casa, o auditório esteve cheio durante as duas horas que o colóquio durou. Soledad Puértolas falou em castelhano (a sorte dos espanhóis, que os portugueses sejam tão benévolos…) e foi escutada com a maior atenção. Deve ter ido satisfeita com o público de Braga. Quanto a mim, porque não tinha nenhum livro recente que pudesse servir-me de bengala, resolvi levantar um pouco mais o véu que ainda cobre o Ensaio sobre a Cegueira e desenvolver algumas reflexões a propósito. À medida que ia falando, tornava-se-me cada vez mais claro quanto a mim próprio me inquieta o pessimismo deste livro. Imago mundi lhe chamei, já em conversa com o Luiz Francisco Rebello, visão aterradora de um mundo trágico. Desta vez, a expressão do pessimismo de um escritor de Portugal não vai manifestar-se pelos habituais canais do lirismo melancólico que nos caracteriza. Será cruel, descarnado, nem o estilo lá estará para lhe suavizar as arestas. No Ensaio não se lacrimejam as mágoas íntimas de personagens inventadas, o que ali se estará gritando é esta interminável e absurda dor do mundo.

18 de junho
Voltei ao Ensaio. Com a disposição firme de levá-lo desta vez ao fim, custe o que custar. Durante todo o tempo que andei por fora, amigos e conhecidos não pararam de me perguntar pelos meus cegos. Chegou a altura de eles responderem por si mesmos.

15 de julho
Pausa de vinte e quatro horas no Ensaio para apresentar em Las Palmas o livro de Juan Cruz, Exceso de Equipaje, que é uma brilhante demonstração da arte do fragmento intimista e da observação do quotidiano imediato. Fez-me bem o derivativo, aliviei a tensão que me andam a causar os cegos, conheci gente simpática e inteligente, reencontrei amigos, como o poeta Manuel Padorno, e Toni, Luz e María del Carmen, as professoras do Coletivo Andersen.

9 de agosto
Terminei ontem o Ensaio sobre a Cegueira, quase quatro anos após o surgimento da ideia, sucesso ocorrido no dia 6 de setembro de 1991, quando, sozinho, almoçava no restaurante Varina da Madragoa, do meu amigo António Oliveira (apontei a data e a circunstância num dos meus cadernos de capa preta). Exatamente três anos e três meses passados, em 6 de dezembro de 1994, anotava no mesmo caderno que, decorrido todo esse tempo, nem cinquenta páginas tinha ainda conseguido escrever: viajara, fui operado a uma catarata, mudei-me para Lanzarote… E lutei, lutei muito, só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que a toda a hora se me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isto não fosse bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais. Seria agora a altura de fazer a pergunta de que nenhum escritor gosta: «Que ficou dessa primeira ideia?» (Não gostamos porque preferiríamos que o leitor imaginasse que o livro nos saiu da cabeça já armado e equipado.) Da ideia inicial direi que fi cou tudo e quase nada: é verdade que escrevi o que queria, mas não o escrevi como o tinha pensado. Basta comparar a inspiração de há quatro anos com aquilo que o Ensaio veio a ser. Eis o que então anotei, com nenhumas preocupações de estilo: «Começam a nascer crianças cegas. Ao princípio sem alarme: lamentações, educação especial, asilos. À medida que se compreende que não vão nascer mais crianças de visão normal, o pânico instala-se. Há quem mate os filhos à nascença. Com o passar do tempo, vão morrendo os “visuais” e a proporção “favorece” os cegos. Morrendo todos os que ainda tinham vista, a população da terra é composta de cegos apenas. Um dia nasce uma criança com a vista normal: reação de estranheza, algumas vezes violenta, morrem algumas dessas crianças.O processo inverte-se até que — talvez — volte ao princípio uma vez mais.» Compare-se… Quanto à palavra inspiração que aí ficou atrás, esclareço que a empreguei em sentido estritamente pneumático e fisiológico: a ideia andava flutuar por ali, no oloroso ambiente da Varina da Madragoa, eu inspirei-a, e foi assim que o livro nasceu… Depois, pensá-lo, fazê-lo, sofrê-lo, já foi, como tinha de ser, obra de transpiração…

10 de agosto
Chegaram a Lanzarote, e instalámo-los cá em casa, José Luis García Sánchez e Rosa León. Vieram para a estreia, em Canárias, de Suspiros de España (y Portugal), que ele dirigiu. Motivos para a viagem, apenas os da amizade, porquanto não é costume dos realizadores de cinema andarem atrás dos seus fi lmes, a estreá-los aqui e ali. Não sei como se agradece isto. Rosa e José Luis tiraram-se do seu trabalho, viajaram de Madrid a Lanzarote, muito mais para me festejarem a mim do que para receberem, eles, aplausos. A rever e a corrigir o Ensaio, não poderei fazer-lhes toda a companhia que deveria, mas dei hoje com eles uma rápida volta pela ilha, de que me resultou uma estranha impressão: encerrado em casa há tanto tempo, dei por que me inquietava o mundo exterior.

18 de agosto
Lá foram, uma cópia para Zeferino Coelho, outra para Maria Alzira Seixo, ele porque é o editor, ela por ter escolhido o Ensaio para tema do estudo que prometeu escrever para um volume que Giulia Lanciani está a preparar sobre o autor destes Cadernos. Daqui por poucos dias já saberei o que pensam estes primeiros leitores. Primeiros depois de Pilar, claro está. E que disse Pilar? Que o livro é bom. Será? Leitora exigente e criteriosa é ela, sem dúvida, mas sempre temo que se deixe iludir (enganar, cegar), pouco que seja, pelos sentimentos. Um pensamento que me tem ocupado nestes dias: há vinte anos chamei «ensaio de romance» ao Manual de Pintura e Caligrafia (a designação só aparece na primeira edição, a da Moraes), hoje ponho ponto final num romance a que dei o nome de Ensaio. Vinte anos de vida e de trabalho para ir dar, por assim dizer, ao mesmo sítio: de falta de persistência e sentido de orientação não poderão acusar-me… 

20 de agosto
Zeferino Coelho telefonou para dizer que gostou do livro. O autor apreciou sabê-lo e disse consigo mesmo que, agora sim, o Ensaio está terminado. Mas Zeferino também avisou que a disquete que lhe enviei, juntamente com o escrito, e que deveria conter o romance, estava em branco… A minha falta de jeito para as informáticas foi confirmada uma vez mais. Felizmente que o José Serrão, responsável pelos assuntos gráficos da editora, me deu, pelo telefone, passo a passo, com paciência e competência, as instruções que antes eu havia saltado e trocado. Fiquei felicíssimo, como um garoto, quando pude comprovar que, finalmente sim, o romance tinha sido copiado inteirinho do disco duro para a disquete. Mas logo me perguntei: copiado, como? E como foi possível que a passagem de um a outro tenha sido praticamente instantânea? Que o romance esteja por aí algures dentro do computador, aonde os meus olhos não podem chegar, admito-o, tenho de admiti-lo. Mas que ele se encontre agora neste objeto tosco de plástico e metal que seguro com dois dedos e que, à vista, não difere em nada de quando estava vazio, isso é que não consigo fazer entrar-me na cabeça. Mais de trezentas páginas, mais de cem mil palavras, estão metidas aqui dentro? Digo-me: estão, mas não são. Estão porque as reencontro de cada vez que quiser ler a disquete no computador, mas ao mesmo tempo não são porque não podem existir lá como palavras, têm de ser uma outra coisa, algo inapreensível, algo volátil, como (estranha semelhança esta) as palavras dentro do cérebro. Não estão, e contudo são. Que monólogo não teria o Hamlet para dizer se Shakespeare vivesse hoje…

6 de outubro
Em Lisboa, para o lançamento do Ensaio sobre a Cegueira e o mais que se há de ver. Assinar livros, dar entrevistas, repetir o já redito, perguntar-me uma e muitas vezes se vale a pena, e apesar disso continuar, porque direi a mim mesmo que o devo fazer. Miguel Torga não concedia autógrafos, Herberto Helder não dá entrevistas: quanto a mim, ainda que me pusesse a procurá-las, sei que não conseguiria encontrar razões para não assinar a um leitor o livro que escrevi e para não lhe explicar porquê e como o fiz. É uma fraqueza, reconheço, mas lembro-me do que dizia a minha eterna avó Josefa, a propósito doutras histórias: «O que o berço deu, a tumba o leva», o que, aplicado ao meu berço e ao meu caso, teria de significar que quando nasci, lá naquela rua da Azinhaga a que chamam da Alagoa, já estava fadado para vir a dar autógrafos e entrevistas, coisa em que nem mesmo a dita e confiada avó acreditaria, vendo com que competência eu mudava a palha das pocilgas ou Jorge desnocava a nuca aos coelhos com uma pancada seca do cutelo da mão… Ai, os destinos!

2 de novembro
Disseram-me que no lançamento do Ensaio terão estado presentes entre quinhentas e seiscentas pessoas. De facto, custava a crer no que os olhos viam: aquela sala do Hotel Altis, enorme, completamente cheia de gente amiga, nada mais que para ver e ouvir o autor e o apresentador, que foi, belissimamente, o Francisco José Viegas. «Ora, ora, aquilo é tudo marketing, é propaganda, é publicidade…»,rosnaram com certeza os meus inimigos de estimação, como lhes chama Zeferino Coelho. Sim, publicidade, a mesma publicidade, caríssima, sofisticada e avassaladora,que os editores usam desde o cursus publicus do imperador Augusto: enviar convites pelo correio. Claro que no meu caso não deve ser esquecida a ação do departamento de agitprop do Partido, cuja eficácia mobilizadora, desta vez, até lá conseguiu levar, imagine-se, um primeiro-ministro, António Guterres…

16 de novembro
Encontro no gravador de chamadas as vozes de Eduardo Lourenço e de Baptista-Bastos, um a falar de Providence, outro de Lisboa, e ambos dizendo coisas bonitas sobre o Ensaio. Não podia desejar melhores presentes de aniversário. E como estes são dos que se devem guardar, aqui ficam, cuidadosamente transcritos. O estilo é de facto o homem: as chamadas são, cada uma delas, o retrato psicológico de quem as fez. Eis o que disse o BB: «É o Baptista-Bastos, para o Zé. Zé Saramago, querido amigo, olha, estou a telefonar-te pelo seguinte: é que escreveste um grande romance. Acabei ontem de ler, com grande cuidado, com grande aprazimento, e escreveste um grandessíssimo romance, e o resto é conversa. É para te dizer isto e dar-te um grande abraço, que as felicitações são para mim porque li um grande romance. Outro grande abraço para ti, Zé, e um beijinho para a Pilar.» Do Eduardo Lourenço: «Bom dia, meu caro José. Devo ser o último a dar-te os parabéns pelo Prémio Camões. Já tentei telefonar, mas nunca te apanho. Um prémio mais do que merecido. Vou escrever-te a propósito do livro, do teu livro, que me deixou perplexo e que gostaria de comentar contigo, por carta ou em público. Para já,repito, é um livro de muito impacto e de muita importância. Merecia ser discutido por aquele país, e não só. Um grande abraço, Eduardo.» Obrigado, amigos, obrigado, em nome desta reconfortada alma. 

Cadernos de Lanzarote IV (1996)
22 de fevereiro
A primeira crítica, em Espanha, ao Ensaio sobre a Cegueira, apareceu hoje num jornal de Las Palmas de Gran Canaria, La Província. Do que o seu autor, Ángel Sánchez, escreveu, extraio duas passagens que me pareceram particularmente interessantes. A primeira: «Insiste [o autor] no recurso de partir de um ponto qualquer da realidade mais corrente para ir derivando no sentido da ficção pura e dura, até ao ponto de permitir ao imaginário que, num dado ponto da narração, devore a realidade corrente do ponto de partida ou a ponha ao seu serviço.» A segunda: «Submetidos [os protagonistas] como estão às pequenas misérias da sua proteção e sobrevivência, não deixam por isso de ver a luz da razão e formulá-lo no seu veículo oral. Se continuam a razoar, alguma esperança resta. Filosofarão portanto à sua maneira, coisa em que o autor continua a ter parte ativa — as mais das vezes—com esse seu humor desprendido e essa lógica relativista, que no caso português parece ser a amarga poesia do “fatum / fado”, memoriosamente expressada pelo idioleto, mais um rasto de subtil humor britânico bastante percetível.» Este tipo de observações, que não costuma encontrar-se na crítica portuguesa, ajuda a compreender melhor o que se lê. Acho eu.

23 de maio
A apresentação do Ensaio fez-se no Círculo de Bellas Artes (nunca perceberei por que tenho de dizer el arte no masculino e bellas artes no feminino…). José Antonio Marina, o autor dessas obras magnífi cas, estimulantes, que são Teoria da Inteligência Criadora (que não alcançou ainda em Portugal os leitores que merecia) e Ética para Náufragos, e que acaba de publicar nestes dias El Laberinto del Sentimiento, fez uma apresentação em que houve tanto de inteligência quanto de generosidade, orientando o diálogo que travámos sobre a razão e os seus absurdos, e em que me esforcei por manter-me à altura, sem sempre o conseguir… Num certo momento, dei por mim a perguntar-me angustiado: «Poderá a razão, realmente, razonar sobre si mesma?»

12 de junho
Em Milão, para o lançamento de Cecità, título italiano do Ensaio sobre a Cegueira. Sete entrevistas em sete horas foram as que me arrancaram hoje, sem ao menos ter sido respeitado o intervalo para comer a que qualquer trabalhador tem direito: o almoço no hotel foi extensamente conversado, com um jornalista sentado à minha direita, comendo, fazendo perguntas e tomando notas.

20 de junho
Juan Cruz achou que o Ensaio sobre a Cegueira devia ser apresentado também aqui [Lanzarote], e eu, que sou o mais dócil dos autores dóceis, concordei.
Valeu a pena. A sala grande do museu da Fundação César Manrique encheu-se de pessoas para quem sou já um deles e que como tal me festejaram.

7 de outubro
[…] No meu romance Ensaio sobre a Cegueira tentei, recorrendo à alegoria, dizer ao leitor que a vida que vivemos não se rege pela racionalidade, que estamos usando a razão contra a razão, contra a própria vida. Tentei dizer que a razão não deve separar-se nunca do respeito humano, que a solidariedade não deve ser a exceção, mas a regra.
Tentei dizer que a nossa razão está a comportar-se como uma razão cega que não sabe aonde vai nem quer sabê-lo. Tentei dizer que ainda nos falta muito caminho para chegar a ser autenticamente humanos e que não creio que seja boa a direção em que vamos.

Em 2015, para assinalar o 20º aniversário da publicação do Ensaio sobre a Cegueira, a Porto Editora e a Fundação José Saramago prepararam o livreto Arquitetura de um romance, que reúne anotações e discursos de José Saramago sobre a construção do romance. Link para a publicação:
https://www.josesaramago.org/wp-content/uploads/delightful-downloads/2015/11/CJS-ESCBR_20154312_F01_02.pdf
Fotografias de Jorge Silva — Sara, Rafa, Matt, Sari, Vinícius, Maria, Tito, Jorge e Leonor estão em quarentena na Quinta dos Salgueiros, Idanha-a-Nova.

terça-feira, 20 de março de 2018

do "Ensaio sobre a Cegueira" nas palavras de José Saramago

"Este é um livro francamente terrível 
com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo… 
São 300 páginas de constante aflição. 
Através da escrita, tentei dizer que não somos bons 
e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." 
José Saramago

Acervo pessoal


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"Why a classic portuguese novel should be on your to-read list" By Sarah Ládípọ̀ Manyika (Via OZI.COM) - 26/11/2017 - com incidência na tradução "Blindness" obra de José Saramago (original "Ensaio sobre a Cegueira")

"Why a classic portuguese novel should be on your to-read list"
By Sarah Ládípọ̀ Manyika (Via OZI.COM) - 26/11/2017


A presente critica literária pode ser consultada e recuperada aqui


"We’re starting a new feature at OZY Books: the building of a global bookshelf. Every other month, our book section editor will pick a selection we think you might enjoy. It might be one you’ve never heard of, or perhaps about a place you’ve never visited. We start with a classic: Blindness, by José Saramago, has stood the test of time. There’s something for everyone — plot, philosophy, allegory, passion, despair and triumph.

SO WHAT’S THE STORY?
A plague of blindness descends on an unnamed city. Within hours, internment camps are erected to keep the blind and contaminated away from the rest of the population. Chaos ensues both inside and outside the camps as more people turn blind. Only one person doesn’t go blind, and she is both witness to the atrocities and guide to her small group of friends. Her words become the group’s maxim: “If we cannot live entirely like human beings, at least let us do everything in our power not to live entirely like animals.” This is a story about power, greed and courage and how individuals and governments respond to crisis. It is, at its core, about what makes us human.

WHO WROTE IT?
Saramago, the grandson of pig farmers, was born in 1922 into a peasant family. A curious fact about his birth: The village clerk, possibly drunk when filling out the birth certificate, wrote “Saramago” instead of the true family name, de Sousa. Saramago means “wild radish” in Portuguese, which in retrospect seems apt for someone who came from a poor peasant background, published his first book only in his fifties and then went on to win the Nobel Prize in literature. Perhaps the wild radish also says something about the sharpness of Saramago’s character — he was known as a prickly personality, a staunch atheist and a lifelong member of the Portuguese Communist party.

WHAT’S NOT TO LIKE?
First, some readers of Blindness claim the book is insensitive to blind people, portraying them as a metaphor for moral depravity. Others (including the author when he was alive) refute this critique, saying that it’s about a population that fears the blindness and what happens in the chaos that ensues. There’s also a problem of punctuation or, rather, the lack thereof in the book. Punctuation to Saramago was like traffic signs: “Too much of it distracted you from the road on which you traveled.” To which some critics have wondered, Sure, but too little and you wind up hopelessly lost.

THE CHAOTIC AND POSTAPOCALYPTIC WORLD 
THAT IS CURRENTLY BEING PORTRAYED IN 
MANY BOOKS AND TV SERIES IS WHAT SARAMAGO 
GOT RIGHT MANY YEARS EARLIER.

WHY NOW?
The world may not have witnessed a plague of blindness, but illnesses such as Ebola and Zika have triggered panic reactions akin to those described in Blindness. The chaotic and postapocalyptic world that is currently being portrayed in many books and TV series is what Saramago got right many years earlier. Blindness speaks to our world today, in which societies realign themselves and rules are dramatically changing. And the blindness referred to in this novel is not just a physical one. As one of the characters remarks: “I don’t think we did go blind, I think we are blind, Blind but seeing, Blind people who can see, but do not see.” Issues pertaining to the abuse of power, whether in the political realm or otherwise, are as pertinent today as they always have been. Whether in Los Angeles or Lagos, we still turn a blind eye to predatory and misogynistic behavior; we still see (and don’t see) the use of sexual assault and rape as weapons of war; and we still pretend not to see, all around us, the glaring injustices that are hiding in plain sight. This is a book that tackles tough subjects and gives us complicated and flawed characters that defy simplistic right and wrong, bad and good, judgments."

“Blind. The apprentice thought, ‘We are blind,’ and he sat down and wrote Blindness to remind those who might read it that we pervert reason when we humiliate life, that human dignity is insulted every day by the powerful of our world, that the universal lie has replaced the plural truths, that man stopped respecting himself when he lost the respect due to his fellow creatures.”
José Saramago in his Nobel Lecture, 1998


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

"O génio de Saramago INquieta a Chamusca" sobre a representação de "Ensaio sobre a Cegueira" (via Rede Regional - 24/01/2017)

Imagem de ensaio via site "Rede Regional" (24/01/2017)

A reportagem pode ser consultada e recuperada aqui 

"Uma adaptação do “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, é a próxima peça que a Companhia de Teatro do Ribatejo (CTR) vai apresentar no antigo centro regional de artesanato da Chamusca, no âmbito do ciclo cultural “INquieto”.

Depois do sucesso do espetáculo de estreia, “Minha querida Anne Frank”, que esgotou por completo o espaço, a obra do Prémio Nobel da Literatura português vai subir ao palco esta sexta-feira, 27 de janeiro, a partir das 21h30.

“E se fossemos todos cegos?” é a pergunta de partida de Saramago para construir um dos seus mais fascinantes romances, em que a cegueira é representada através de inúmeras metáforas.

O génio do autor, nascido no concelho da Golegã, cria um impressionante quadro de figuras humanas, onde se perde, na ausência da visão, todos os sentimentos de solidariedade e respeito, numa guerra cega de valores, que nos faz a todos repensar sobre o sentir humano."

CTR Companhia Teatro do Ribatejo apresenta a peça baseada na obra de José Saramago "Ensaio sobre a Cegueira" inserida no "Ciclo Cultural INquieto" (Chamusca, 27/01 - 21h30m)


27 Janeiro | 21h30 | Ciclo Cultural INquieto | Ensaio sobre a Cegueira 

O site do Município da Chamusca apresenta o evento e pode ser consultado aqui 

"O Município da Chamusca no âmbito da agenda cultural de janeiro e fevereiro, com periodicidade quinzenal, realiza o ciclo cultural INquieto, que estreou no dia 13 Janeiro com Minha querida Anne Frank, que esgotou por completo o Antigo Centro Regional de Artesanato, numa noite em que o público fez silêncio, num momento de grande emoção, onde se viveram os horrores do Holocausto, com produção da Companhia de Teatro do Ribatejo – CTR.

INquieto volta a cena no próximo dia 27 janeiro, pelas 21h30, no Antigo Centro Regional de Artesanato, com Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.

E se fossemos todos cegos? Foi com esta pergunta simples que o Nobel da Literatura partiu para um dos seus mais fascinantes romances, em que a cegueira descrita é representada através de inúmeras metáforas. Já no início da narrativa as personagens são acometidas pelo chamado "mal branco", impossível de ser diagnosticado como um dos tipos já conhecidos de cegueira. Considerando a cegueira como metáfora, ao longo deste romance Saramago tenta explicar como as pessoas vão se tornando cegas no mundo contemporâneo, como inexplicavelmente ocorreu com o primeiro cego, primeira personagem apresentada na narrativa, que cegou quando conduzia o seu automóvel: de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta.

O génio de Saramago, cria assim um impressionante quadro de figuras humanas, onde se perde, na ausência da visão, todos, os sentimentos de solidariedade e respeito, numa guerra cega de valores, que nos faz a todos repensar sobre o sentir humano. Do romance saltam figuras inesquecíveis na sua fragilidade e intolerável maldade que pode existir em cada ser humano.

O Município da Chamusca lança o repto para que no próximo dia 27 de janeiro todos se juntem à Inquietude que se espera no Antigo Centro Regional de Artesanato num espetáculo que será uma viagem desconcertante da alma humana através das palavras escritas por um dos grandes autores universais."

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Abismo" curta-metragem baseada na obra "Ensaio Sobre a Cegueira" (UFERSA - Brasil)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui 

"Abismo é um curta-metragem brasileiro do gênero drama, adaptado do romance Ensaio Sobre a Cegueira do José Saramago. A obra é resultado de umas das atividades de conclusão da disciplina Ciência Política, ministrada pela Profa. Ma. Gilmara Medeiros, no curso de Direito da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA)."

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma leitura de o "Ensaio sobre a Cegueira" do blogger Elenilson Nascimento (Brasil)

É sempre uma enorme satisfação poder divulgar o trabalho dos Saramaguianos espalhados pelo mundo, aqui deixo mais uma prova de uma opinião e análise sobre o "Ensaio sobre a Cegueira". 
E o Brasil sempre tão perto e acarinhando o legado de José Saramago.
Um enorme agradecimento ao Elenilson Nascimento!

A análise do blogger Elenilson Nascimento, aqui em 

"Minha resenha sobre o livro "Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago. "Talvez, ainda hoje, o preconceito com a obra de Saramago seja por causa do gesto de total lucidez, mesmo na loucura, a rejeição sumária a todo o sistema do mais do mesmo que ai está. Pode-se concordar ou não. A questão nos seus livros não é ideológica, mas literária. Uma curiosidade: ao longo de sua vida, Saramago resistira em ceder os direitos sobre seus livros para o cinema." Confira aqui: http://cabinecultural.com/2016/10/20/literatura-ensaio-sobre-a-cegueira-jose-saramago/ 
fonte: Cabine Cultural/UOL
#LiteraturaClandestina #Saramago"

“O autor português expressa os valores sociais que quer condenar como a crueldade, o egoísmo, a indiferença, o consumismo e a competição, que fazem com que os cegos estejam “sempre em guerra”, mas exalta os valores que pretende que prevaleçam como o respeito ao outro, a dignidade, a coragem, a solidariedade, e a convivência…”

Por Elenilson Nascimento

Sempre tive as minhas dificuldades com Saramago, autor português comunista que, quando vivo (*faleceu em 2010), era atuante, incentivador de cultura e voraz leitor, mas não pelo seu trabalho, afinal sempre achei eficaz as suas descrições do caráter humano, porém até hoje não gosto da maneira como ele organizava os seus textos: parágrafos gigantes, sem pontuação, sem travessões para separar os diálogos e afins. Contudo, a minha admiração com relação à sua vida foi bem maior do que as minhas limitações e preconceitos. Sim, eu tinha muitos preconceitos com relação ao que eu achava ser uma falta de cuidado com o texto, mas que, com o tempo, aceitei como sendo uma técnica de escrita bem particular do autor. Lembrando que se fosse eu que enviasse um livro assim para os editores brasileiros, na sua maioria excludentes e corporativistas, todos me reprovariam sem pensar duas vezes e ainda iriam me chamar de analfabeto. Pois bem…

“Ensaio Sobre a Cegueira” é um livro difícil para quem não está acostumado com o português de Portugal, além das barreiras já citadas, mas a história é fascinante e eu já tinha lido “História do Cerco de Lisboa”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Caim”, três livros maravilhosos da obra do autor. Aí abrir o “Ensaio…” em uma página qualquer e me deparei com a frase: “O medo cega… são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”. Pensei: “Tenho que comer logo este livro!”. Mesmo porque eu queria fazer algum tipo de comparação com o filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. E tudo começa quando um homem, a caminho do trabalho, dentro de um carro, parado em um sinal de trânsito, espera pacientemente o sinal ficar verde. Sua espera é interrompida por uma “nuvem branca” que cobre toda a sua visão. Este é o primeiro que fica cego. No meio do desespero, ele é levado para casa por um desconhecido que, aproveitando da sua incapacidade física, rouba o seu carro. Tudo indica ser um vírus desconhecido transmitido pelo ar, pois, mais tarde, a mulher deste primeiro cego se contamina; e Saramago começa a apresentar ao leitor os demais personagens: a rapariga de óculos escuros que quando fazia um programa se vê “dentro de um pote de leite”; o médico, oftalmologista para ser exato; a mulher do médico; o velho da venda preta; o farmacêutico que cantou a rapariga de óculos escuros na farmácia; o rapazinho estrábico, além do ladrão do carro do primeiro cego. E queria ressaltar também um personagem pouco citado e que só apareceu quase no final da história, mas que achei muito pertinente: o cão das lágrimas.

Jorge Amado e José Saramago na porta da Fundação Jorge Amado, 
Pelourinho, Salvador – BA: o português daria o Nobel ao brasileiro 
(foto: divulgação/Fundação José Saramago)

Engraçado como Saramago optou em não citar nomes, mas adjetivá-los. No decorrer da trama, a tal “cegueira branca” vai se espalhando pelo mundo inteiro, sem controle e sem nenhuma explicação, atingindo todas as pessoas, sem distinção de raça, idade, crença religiosa, opção sexual. Mas a única isenta de tal sofrimento é a mulher do médico – sem nenhuma explicação aparente por parte do autor, vale ressaltar. Diante da epidemia sem controle, o governo resolve colocar em quarentena todas as pessoas que ficaram cegas, sob condições subumanas. Uma vez lá dentro, não há nada o que fazer a não ser tentar sobreviver. Para isso, os protagonistas se unem e tentam sobreviver em um lugar onde pessoas mais se parecem com animais. “Mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”, escreveu Saramago. Na camarata, como o autor chama a prisão, que na verdade é um velho sanatório, o ser humano se rebaixa ao nível de um animal irracional. Fazem suas necessidades em qualquer lugar, matam sem saber exatamente o motivo, estupram mulheres apenas pelo prazer de comandar alguém ou alguma coisa (*uma das cenas mais chocantes), comem a carne de seus amigos mortos… Enquanto isso, do lado de fora, cada vez mais pessoas vão ficando cegas. Os governadores, os presidentes, os funcionários públicos, os mendigos, os religiosos… todos. E o caos se forma no mundo!

Porém, num incêndio, sem explicações mais detalhadas, os cegos se vêem livres daquela prisão, descobrem que todo o mundo – isso mesmo, o mundo todo está cego. Não há mais quem enxergue nada, há não ser o “mar de leite”. “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”. Fora da prisão, o desafio agora é sobreviver do lado de fora da quarentena. A mulher do médico, a única que pode ver e guiá-los, descreve as cenas aterradoras: corpos em estágio avançado de putrefação espalhados pela cidade em meio a fezes, ratos, lixo e pessoas vivas brigando pelos motivos mais diversos. A luta agora não é por um emprego, por dinheiro ou por sucesso, e sim por comida. “As ruas estão cheias de cegos que andam à cata de comida. Entram e saem das lojas, de mãos vazias entram, de mãos saem quase sempre, depois discutem entre eles (…) O lixo nas ruas, que parece ter-se duplicado desde ontem, os excrementos humanos, meio liquefeitos pela chuva violenta os de antes, pastosos, saturam de fedor a atmosfera, como uma névoa densa através da qual só com grande esforço é possível avançar”.

Impossível não se impactar com a cena. Não existe meio de transporte, telecomunicação ou qualquer coisa do tipo. Nem energia elétrica. As casas agora não são de ninguém, e sim de quem invadir primeiro. É o degrau mais baixo que um ser humano pode chegar. “A cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. Quando enfim, o grupo consegue um abrigo na casa do primeiro cego, que já estava ocupada por um escritor, Saramago parece querer mostrar a vergonha dos seres humanos perante suas próprias imperfeições. A cena dos cegos tirando suas roupas sujas para tomar banho e mesmo cegos com vergonha de se despirem na frente uns dos outros ficou simplesmente perfeita. “Se quiserem, posso pôr cada um de vocês numa parte da casa”, respondeu ironicamente a mulher do médico. “A cegueira é a providência dos feios…”

Anotação enviada por Saramago aos amigos mais próximos, na tarde de 8 de agosto de 1995, anunciando que tinha acabado de escrever “Ensaio sobre a Cegueira”. 
(imagem: divulgação/Fundação José Saramago)

Saramago também brinca com a importância dos livros: “Agora ninguém os pode ler, portanto é como se não existissem…” O autor neste “Ensaio Sobre a Cegueira” nos faz refletir sobre nós mesmos. Sobre nossos medos, nossas vergonhas, nossas inseguranças, nossos preconceitos. Através de uma cegueira física, ele ilustra a cegueira da nossa própria alma. Como se os nossos corações estivessem como aquela cidade, como se estivéssemos nos transformando, cada vez mais rápido, a um estado social caótico. Mas o autor também sinaliza para uma solução: “Organizando-se, organizar-se já é, de certa maneira, começar a ter olhos” – exatamente como o grupo de protagonistas no livro. “O mundo está cheio de cegos vivos (…) Morremos de doenças, de acidentes, de acasos. Morreremos de cegueira e de cancro, de cegueira e de tuberculose, de cegueira e de sida (AIDS?), de cegueira e de enfarte… (…) O único milagre que podemos fazer será o de continuar a viver…”

Quase no final do livro, o médico e a sua mulher chegam numa igreja onde a mulher do médico diz que parecia ter alucinações, pois o homem pregado na cruz tinha uma venda branca nos olhos, além de todas as outras imagens de santos também tinham vendas nos olhos: um homem com um livro aberto com um menino pequeno sentado, um velho de barbas compridas com três chaves nas mãos, um homem com o corpo cravejado de flechas e todos os outros santos tinham os olhos tapados. Só havia uma mulher que não tinham os olhos tapados porque já os levava arrancados numa bandeja de prata. “A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”.

O final do livro não vou contar aqui. Mas garanto é surpreendente. E como todo bom livro, “Ensaio Sobre a Cegueira” também deu origem à um roteiro cinematográfico, cujo diretor, como já foi citado, foi um brasileiro que pegou toda a essência do livro. Em suma, pegue o livro e depois veja o filme. Ou o oposto, pois esse é um dos melhores livros da minha estante e acredito que vai arrebatar qualquer um. “É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”. Estou louco agora para pegar o “Ensaio Sobre a Lucidez”, que também começa com um evento insólito. Num dia eleitoral, a maioria da população sai de casa para abarrotar as urnas com votos em branco. O sistema político entra em colapso, mas dessa vez o que se segue não é uma queda na loucura e na bestialidade. Ao contrário em o “Ensaio Sobre a Cegueira”, as pessoas neste livro são tomadas uma inquebrantável sensatez, que lhes permite manter as engrenagens funcionando.

Talvez, ainda hoje, o preconceito com a obra de Saramago seja por causa do gesto de total lucidez, mesmo na loucura, a rejeição sumária a todo o sistema do mais do mesmo que ai está. Pode-se concordar ou não. A questão nos seus livros não é ideológica, mas literária. Uma curiosidade: ao longo de sua vida, Saramago resistira em ceder os direitos sobre seus livros para o cinema. No entanto, em 2008, com a adaptação do “Ensaio Sobre a Cegueira”, ele ficou tão feliz com o resultado que ficou muito emocionado na pré-estreia – procure no YouTube. O filme obteve mundialmente críticas mistas, dividindo opiniões. O escritor disse a Meirelles “estar tão feliz de ter visto o filme como estava quando acabou de escrever o livro”. Em outra declaração, Saramago disse que “agora conhecia a cara de suas personagens”. Em suma, Saramago escreveu uma obra maravilhosa, não foi à toa que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por este livro. (“ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA”, de José Saramago, romance, 310 págs, 19 edição, Cia. das Letras – 2001)

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


do "Ensaio sobre a Cegueira" - a nota diz tudo

de Elenilson Nascimento 

Anotação enviada por Saramago aos amigos mais próximos, na tarde de 8 de agosto de 1995, anunciando que tinha acabado de escrever “Ensaio sobre a Cegueira”. 
(imagem: Fundação José Saramago)