Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Castelo de São Jorge (Lisboa) - Programa de "Leituras de Inverno"


"História do Cerco de Lisboa" de José Saramago
4/11/2018 - 2/12/2018 - 6/01/2019 - 3/02/2019 (16 horas)
Castelo de São Jorge - Lisboa 
Informações e contactos em http://castelodesaojorge.pt/pt/






domingo, 16 de julho de 2017

"A importância de dizer não, segundo José Saramago" de Maria João Caetano (DN 05/07/2017)

Recuperação da notícia da estreia da peça de teatro baseada na obra de José Saramago, via DN por Maria João Caetano (05/07/2017) aqui
em http://www.dn.pt/artes/interior/a-importancia-de-dizer-nao-segundo-jose-saramago-8612698.html

"Quatro companhias portuguesas juntaram-se para adaptar "História do Cerco de Lisboa", do Nobel. Espetáculo estreia hoje no Teatro Municipal Joaquim Benite, no Festival de Almada.

Raimundo Silva, revisor numa editora, solteiro, de 50 anos, é um homem apagado, daqueles funcionários que cumpre as suas tarefas sem dar muito nas vistas. Porém, ao ler uma obra intitulada História do Cerco de Lisboa, ele tem vontade de fazer uma alteração: introduzir um "não". Essa simples palavra iria implicar uma enorme mudança na história pois significaria que os Cruzados não teriam ajudado Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros, em 1147. Descoberto, Silva mete-se em apuros na editora. No processo, o revisor apaixona-se pela sua supervisora, Maria Sara, ao mesmo tempo que pensa como há de recontar a história do cerco num novo livro. A conquista amorosa desenrola-se a par da conquista dos portugueses aos mouros."

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

"Esta é, em traços largos, a História do Cerco de Lisboa, contada por José Saramago no livro de 1989, e que a dupla espanhola José Gabriel Antuñano (dramaturgia) e Ignacio García (encenação) transformou em espetáculo numa megaprodução de quatro companhias de teatro: ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, Companhia de Teatro de Almada, Companhia de Teatro de Braga e Teatro dos Aloés.

No palco, além das personagens da história, está também o próprio José Saramago, o narrador que no romance se revela em alguns momentos mas que aqui tem protagonismo: não só lhe ouvimos a voz inconfundível (são excertos de entrevistas) como ganha um corpo e uma presença constante com o ator Jorge Silva. "Interessou-me muito a sobreposição de planos - e esta é uma característica de muitos dos romances de Saramago", explica Ignacio García. "É como um conjuntos de matrioskas, as bonecas russas: Saramago escreve um romance sobre duas personagens, das quais uma é um romancista que está a escrever um livro e que tem as suas próprias personagens, Há um jogo de reflexos, histórias que se desenrolam em paralelo, em diferentes níveis, e que tanto no livro como no espetáculo vão lutando para captar a atenção do leitor/ espectador."

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

 Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

"José Saramago é uma personagem que fala com todas as personagens, de todos os planos, e também fala com o público", explica José Gabriel Antuñano, responsável pela adaptação da obra do escritor português. E vai mais longe na interpretação: "As personagens não pertencem a um único mundo, pois estão todas na cabeça dos escritores (Saramago e Silva). Por um lado, são criadas pelo escritor, por outro, também influenciam o autor, esse jogo acontece aqui permanentemente."

Quem está na plateia tem oportunidade ver todos os planos. No cenário povoado por livros, imaginado por José Pedro Castanheira, o palco fica aberto, mostrando a teia de iluminação e os chariots, nas laterais, onde estão pendurados os figurinos, vemos os atores entrar e sair de cena, trocar de roupa, fazer a maquilhagem, beber água quando precisam de beber água e até comentarem as cenas. "Todas as decisões do espetáculo tentam ser fiéis a Saramago", justifica o encenador. "Ele incluiu-se a si mesmo no romance e nós incluímo-lo no espetáculo. Saramago brinca com o que significa escrever um romance e nós, aqui, fazemos piadas sobre o teatro e a representação. O público vê os atores a fazerem personagens, vê o truque, a mentira." E explica: "Há uma frase de Saramago de que gosto muito: 'o passado é o reino dos fragmentos'. Isto inspirou-me muito. Numa mentira muito grande vemos fragmentos de verdade, é o que se passa neste espetáculo."

Que todo este jogo meta literário não nos desvie daquilo que Saramago queria dizer com o seu livro, sublinha o encenador: "Há que ler de uma maneira crítica e dialética, não se pode acreditar em tudo o que se lê. Num momento como este em que vivemos em que estamos todos acostumados a acreditar em tudo o que vemos - na televisão, no twitter... - Saramago propõe uma atitude crítica, ler sim mas ter uma opinião e ser capaz de dizer que não àquilo que não está certo ou que não é aceitável." A importância de dizer não - às injustiças, às ditaduras, às mentiras - é reforçada à medida que nos aproximamos do final do espetáculo. José Gabriel Antuñano sublinha essa ideia "de que um simples não pode mudar tudo".

E faz mais uma interpretação: "Este é também um livro sobre a condição do ser humano; como uma pessoa triste, como é o revisor (e como era Saramago) quando decide ter um ato de rebeldia transforma-se numa pessoa criativa e feliz, que sai de si mesmo e que encontra o amor, essa é a história de Silva mas também é a história de saramago com Pilar." José Saramago e Pilar casaram-se em 1988, na altura em que ele estaria a escrever História do Cerco de Lisboa.

O espetáculo estreia no Festival de Almada mas regressará, em setembro, com uma carreira longa que irá passar pelos vários teatros envolvidos, num esforço que Rodrigo Francisco, diretor do festival, vê como "um verdadeiro serviço público". No palco, juntam-se Elsa Valentim, Jorge Silva e José Peixoto (Aloés), Rui Madeira (Braga), Luís Vicente e Tânia Silva (ACTA), João Farraia, Pedro Walter (Almada) e ainda Ana Bustorff."

terça-feira, 11 de julho de 2017

Saramago reescribe en el Festival de Teatro de Almada su «Historia del cerco de Lisboa» (via ABC, 09/07/2017)

Se estrena con éxito la adaptación de José Gabriel Antuñano dirigida por Ignacio García

Notícia via ABC, publicada em 09/07/2017, aqui em
http://www.abc.es/cultura/teatros/abci-saramago-reescribe-festival-teatro-almada-historia-cerco-lisboa-201707090150_noticia_amp.html

"ABC |Adaptación teatral de «Historia del cerco de Lisboa» de Saramago"

"Era un reto arriesgado y difícil: trasladar al teatro el texto de una colosal novela sin diálogos, la «Historia del cerco de Lisboa» de José Saramago. El ensayista, pedagogo y adaptador español José Gabriel Antuñano lo ha llevado a cabo con éxito a juzgar por la salva de aplausos con que se cerró el pasado miércoles el estreno del montaje dirigido por otro español, Ignacio García, en el Teatro Municipal Joaquim Benite de Almada, dentro de la programación del 34º Festival de Teatro de esa localidad portuguesa que contempla el bello perfil de Lisboa desde la orilla sur del estuario del Tajo.
Fue Pilar del Río, la esposa granadina del Nobel portugués, quien hace un par de años sugirió a Antuñano y García que trabajaran sobre ese texto de su marido. Tras bastantes meses de tarea, el texto resultante ha cuajado en las tablas como un espectáculo redondo, reflexivo y divertido en el que se exploran las relaciones entre realidad y ficción, se cuestionan las verdades históricas y se desarrolla una atractiva historia de amor.

RELACIONADA

El Festival de Almada dramatiza el cerco de Lisboa
Quienes leyeron en su día la estupenda novela de 1989, recordarán que el protagonista es el corrector editorial Raimundo Silva, que, aburrido de su trabajo mientras repasa las pruebas de una convencional historia sobre la reconquista de Lisboa por parte de los cristianos portugueses en 1147, decide añadir un no en el texto, eliminando con esta corrección la decisiva ayuda prestada por caballeros templarios de la Segunda Cruzada en la victoria sobre los ocupantes musulmanes de la hoy capital portuguesa, según la versión histórica comúnmente aceptada. Como alternativa al despido decidido por el director de la editorial, María Sara, la directora literaria amada secretamente por Silva, propone que el imaginativo corrector escriba una novela sobre su personal versión del cerco de Lisboa y demuestre su tesis de que «la Historia no es una ciencia: es una ficción… Y una tentativa de reconstruir la realidad mediante una selección de materiales», como dice el personaje en la función.

Una escena de la adaptación teatral de «Historia del cerco de Lisboa»- ABC

"El proceso creativo de la novela es la columna vertebral del espectáculo, en el que aparece José Saramago como un personaje más que asesora a Silva en su tarea y va opinando sobre lo que sucede. De esta forma, hay varios niveles argumentales que confluyen de manera simultánea: las tribulaciones del corrector, los debates entre los guerreros situados en la circunstancia histórica de 1147 y el cerco amoroso que enlaza a Silva con María Sara. El rey Alfonso Henriques, el caballero Enrique de Borgoña y su barragana Ouroana, el soldado portugués Mogueime y los moros sitiados se codean sobre el escenario con María Sara, Silva, la empleada doméstica Marta, Jorge Costa, director de la editorial, y el mismísimo Saramago en una entretenida y muy bien equilibrada propuesta metaficcional que logra concentrar el espíritu de la novela sin traicionarlo a la vez que se consolida como magnífico artefacto dramático.
La dirección de Ignacio García, también responsable de la música de la función, da alas escénicas a la notable adaptación de Antuñano y tiene momentos formidables y muchos hallazgos, como la escena en que los musulmanes cercados comparecen como personajes de guiñol. La limpia e imaginativa escenografía de José Manuel Castanheira, que hace años firmó la imponente del «San Juan» de Max Aub dirigido por Juan Carlos Pérez de la Fuente en el Teatro María Guerrero, y la meticulosa iluminación de Guilherme Frazão se unen al buen trabajo de los nueve actores que interpretan el montaje, procedentes de las cuatro compañías que lo coproducen: Teatro de Almada, Teatro de Braga, Teatro del Algarve y Teatro dos Aloés. Luis Vicente encarna al sensible y desencantado Silva, Elsa Valentim compone una encantadora María Sara, Jorge Silva es Saramago redivivo y Ana Bustorff recauda las risas del respetable como Marta, todos bien secundados por el resto del reparto."

"História do Cerco de Lisboa" A partir de José Saramago - Dramaturgia de José Gabriel Antuñano Encenação de Ignacio García (34.º Festival Almada)

A notícia pode ser consultada aqui via página do Teatro Municipal Joaquim Benite - Festival de Almada, aqui em 

(Fotografias na página de apresentação no link indicado)

"Quatro companhias do teatro independente reúnem-se para uma realização rara de serviço público cultural: criar um espectáculo a partir de um romance do Prémio Nobel da Literatura português – História do Cerco de Lisboa – que será apresentado, após a estreia em Almada, em Braga, na Amadora e em Faro, num total de 37 representações. Para Ignacio García, o romance de Saramago consiste sobretudo na história de um “não”, e numa reflexão sobre os mecanismos da criação literária. Para além das personagens principais do romance, para a dramaturgia de José Gabriel Antuñano é também convocado o próprio José Saramago, que estabelece um diálogo com o revisor Raimundo, o protagonista desta história – que também é de amor."



"Formado pela Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid, Ignacio García foi adjunto do director artístico do Teatro Español. É director artístico do Festival Dramafest, no México, e tem desenvolvido uma carreira como encenador de teatro e ópera na Europa, na Ásia e na América Latina."



"José Gabriel Antuñano é professor de Dramaturgia e Ciências Teatrais na Escola Superior de Artes Dramáticas de Castelae Leão. É membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro e do Instituto de Teatro de Madrid. É ainda o director do Mestrado de Estudos Avançados de Teatro da Universidade Internacional de Rioja."



FICHA TÉCNICA
Intérpretes
Ana Bustorff, Elsa Valentim, João Farraia, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Vicente, Pedro Walter, Rui Madeira, Tânia Silva
Cenografia
José Manuel Castanheira
Figurinos
Ana Paula Rocha
Luz
Guilherme Frazão
Som
Miguel Laureano
Assist. de Encenação
Marco Trindade

Duração
1h30
Classificação
M/12

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"História do Cerco de Lisboa" a partir de José Saramago com dramaturgia de José Gabriel Antuñano e encenação de Ignacio García (TMJB Almada Outubro 2017)

A sinopse de apresentação da peça e respectivo prospecto para a temporada 2017, estão disponíveis para consulta aqui em http://www.ctalmada.pt/images/programa_2017.pdf
Toda a informação através do site do Teatro Municipal Joaquim Benite de Almada, aqui

Imagem alusiva ao cerco de Lisboa

COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA
CO-PRODUÇÃO: ACTA – A COMPANHIA DE TEATRO DO ALGARVE, COMPANHIA DE TEATRO DE ALMADA, COMPANHIA DE TEATRO DE BRAGA E TEATRO DOS ALOÉS

"HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA
a partir de José Saramago | dramaturgia de José Gabriel Antuñano
encenação de Ignacio García

A capacidade de dizer “não” é um dos temas abordados por Camus no seu Homem revoltado. E colocar um “não” onde estava escrito um “sim” é o que faz Raimundo Silva, o revisor que protagoniza a História do Cerco de Lisboa. Só que a afirmação (pela negação) desta personagem Sara Maguiana servirá de ponto de partida para a criação: no caso, a escrita de uma História do Cerco de Lisboa na qual os cruzados “não” auxiliem D. Afonso Henriques na conquista da cidade. E deste “não” surgirá também uma história de amor, entre o revisor e a directora literária Maria Sara – plasmada, de certo modo, nas personagens do soldado Mogueime e da barregã Ouroana. A adaptação de José Gabriel Antuñano vai ao encontro (e vai além) do tema central do romance de Saramago: a fronteira entre a realidade e a ficção, bem como a redenção pelo amor.

Formado pela Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid, Ignacio García foi adjunto do director artístico do Teatro Español. É director artístico do Festival Dramafest, no México, e tem desenvolvido uma carreira como encenador de teatro e ópera na Europa, na Ásia e na América Latina. Entre os autores que tem levado à cena encontram-se nomes como Kataiev, Juana Inés de la Cruz, Rodriguez Méndez, Ernesto ou Dario Fo.


Intérpretes Ana Bustorff, Elsa Valentim, João Farraia, Jorge Silva, José Peixoto, Luís Vicente, Pedro Walter, Rui Madeira e Tânia Silva
Cenografia José Manuel Castanheira
Figurinos Ana Paula Rocha
Luz Guilherme Frazão
Som Miguel Laureano

12 OUTUBRO a 03 NOVEMBRO, 2017
Qua a Sáb às 21h | Dom às 16h
SALA PRINCIPAL | M/12

CONVERSAS COM O PÚBLICO Sáb 14, 21 e 28 OUTUBRO às 18h"





domingo, 21 de agosto de 2016

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira em "O Mirante" (13/06/2016) em alusão ao papel do revisor na "História do Cerco de Lisboa"

"O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente. Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa."

Texto de opinião sobre a importância e rudeza do trabalho de um revisor, por Eliezer Moreira, para "O Mirante" - Cartas do Brasil (13/06/2016), aqui
em http://omirante.pt/cartas-do-brasil/2016-06-13-Revisao-de-texto-uma-penitencia

(Capa da edição do Circulo de Leitores - 1990)

"O paulista Monteiro Lobato (1882-1948) não foi apenas um grande escritor, foi também um editor pioneiro no Brasil com a Cia. Editora Nacional, portanto, uma autoridade em matéria de livros, dominando desde a concepção do texto até o produto acabado na prateleira. Invoco sua figura para falar da coisa mais banal e nem por isso menos dramática quando se trata de escrever e publicar: o erro de revisão. Duas semanas atrás quase perdi o sono ao deixar sair aqui uma crônica com quatro sacis gritantes – quatro erros de digitação que o paginador Fábio Oliveira, assim que solicitado, me fez o imenso favor de eliminar. Falando certa vez a respeito dessa tragédia também conhecida como gralha ou pastel e que, no seu tempo, ainda se chamava erro tipográfico, Lobato assim se manifestou: “A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar”.

Se é assim com o livro, produto de elaboração demorada que comumente é lido e relido muitas vezes e por muitos olhos antes de ser impresso, o que dizer do texto jornalístico, que hoje se escreve e se publica quase simultaneamente no meio digital? Embora em geral curto, o texto de jornal nem por isso está menos sujeito ao acúmulo de gralhas. Algum tempo atrás, ao falar da obrigação de rever a própria escrita em sua coluna em O Globo, Elio Gaspari empregou o advérbio perfeito ao dizer que lera e relera aquele trabalho “piedosamente” antes de autorizar sua publicação. O termo supõe a ideia de penitência, daí sua exatidão, porque se o trabalho de escrever pode ser penoso ou gratificante, rever o próprio texto é sempre uma penitência. E uma penitência cada vez mais inevitável, já que a figura do revisor parece fadada a desaparecer das redações, se é que já não desapareceu.

E não é somente grande pena que esse animal indispensável esteja em risco de extinção, o seu fim seria também a consumação de uma eterna injustiça, porque injustiçado ele tem sido desde sempre. Falo com a autoridade de quem já reviu muito texto alheio durante muito tempo. O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente.

Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa. Tendo passado uma vida inteira num trabalho apagado e obscuro, um belo dia Raimundo Silva resolve acrescentar uma simples palavra – “não” – ao texto que está a revisar, e com isso muda completamente os rumos de toda uma história. Bem feito."

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira publicado em "O Mirante" (13/06/2016)

"Revisão de texto: uma penitência" de Eliezer Moreira
Publicado em "O Mirante" (13/06/2016), e pode ser recuperado aqui
em http://omirante.pt/cartas-do-brasil/2016-06-13-Revisao-de-texto-uma-penitencia

"O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente. Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa."

"O paulista Monteiro Lobato (1882-1948) não foi apenas um grande escritor, foi também um editor pioneiro no Brasil com a Cia. Editora Nacional, portanto, uma autoridade em matéria de livros, dominando desde a concepção do texto até o produto acabado na prateleira. Invoco sua figura para falar da coisa mais banal e nem por isso menos dramática quando se trata de escrever e publicar: o erro de revisão. Duas semanas atrás quase perdi o sono ao deixar sair aqui uma crônica com quatro sacis gritantes – quatro erros de digitação que o paginador Fábio Oliveira, assim que solicitado, me fez o imenso favor de eliminar. Falando certa vez a respeito dessa tragédia também conhecida como gralha ou pastel e que, no seu tempo, ainda se chamava erro tipográfico, Lobato assim se manifestou: “A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar”.

Se é assim com o livro, produto de elaboração demorada que comumente é lido e relido muitas vezes e por muitos olhos antes de ser impresso, o que dizer do texto jornalístico, que hoje se escreve e se publica quase simultaneamente no meio digital? Embora em geral curto, o texto de jornal nem por isso está menos sujeito ao acúmulo de gralhas. Algum tempo atrás, ao falar da obrigação de rever a própria escrita em sua coluna em O Globo, Elio Gaspari empregou o advérbio perfeito ao dizer que lera e relera aquele trabalho “piedosamente” antes de autorizar sua publicação. O termo supõe a ideia de penitência, daí sua exatidão, porque se o trabalho de escrever pode ser penoso ou gratificante, rever o próprio texto é sempre uma penitência. E uma penitência cada vez mais inevitável, já que a figura do revisor parece fadada a desaparecer das redações, se é que já não desapareceu.

E não é somente grande pena que esse animal indispensável esteja em risco de extinção, o seu fim seria também a consumação de uma eterna injustiça, porque injustiçado ele tem sido desde sempre. Falo com a autoridade de quem já reviu muito texto alheio durante muito tempo. O revisor é aquele profissional que acerta milhões de vezes, sem merecer um único elogio, mas no dia em que deixa passar um só erro ele é prontamente chamado de incompetente.

Deve ser por isso que José Saramago, certamente um bom conhecedor das agruras da profissão, criou a figura impagável daquele revisor chamado Raimundo Silva no romance História do cerco de Lisboa. Tendo passado uma vida inteira num trabalho apagado e obscuro, um belo dia Raimundo Silva resolve acrescentar uma simples palavra – “não” – ao texto que está a revisar, e com isso muda completamente os rumos de toda uma história. Bem feito."


terça-feira, 3 de maio de 2016

Recuperação da entrevista de Francisco José Viegas a José Saramago (Abril de 1989) - Revista LER #6

(Capa da edição)

Revista "Ler Livros & Leitores" - N.º 6 - Primavera de 1989
Entrevista de Francisco José Viegas
Fotografias de Luís Ramos

"Com a publicação de História do Cerco de Lisboa (Editorial Caminho), José Saramago conta sete romances. Nesta entrevista, o autor de Memorial do Convento e de O Ano da Morte de Ricardo Reis fala de alguns deles. E da forma como a vida continua a surpreendê-lo."


É uma máquina de escrever, esta que está junto de nós enquanto fala-mos: teclado hcesar, de ferro, marca Hermes. No lugar que ela acaba de deixar, sobre a mesa onde José Saramago escreve, está agora um computador (processador de texto). E curioso saber, agora, que Blimunda e Baltasar, antes de conhecerem as páginas impressas do Memorial do Convento, se namoraram primeiro nestas teclas de bater antigo. E que o primeiro olhar, o matinal, de Blimunda, fora antes decidido neste teclado já gasto. Interrompeu-se um ciclo, com esta mudança para o visor com letras verdes do ecrã do computador, abandonando a imagem da página em branco, de papel A/4? «Não creio. A única questão que eu coloco é a de saber se serei capaz de escrever o próximo livro com este novo material...» Soubessem o Padre Gusmão desta novidade, ou Ricardo Reis, assim entregues à escrita de Saramago. A ver o que diriam. 

Fotografia de Luís Ramos

"Ao fim de alguns anos, sobretudo de-pois do Memorial do Convento, o seu nome é uma referência fundamental para se falar sobre a literatura portuguesa contemporânea. Como encara, agora, esse facto? 
— Sinceramente, não me sinto nada uma figura de proa da literatura portuguesa no estrangeiro. Sinto-me é como alguém que está a fazer os seus livros e que os livros que essa pessoa faz são bem recebidos. 

Mas o Memorial do Convento tem registado um êxito muito grande em todo o lado... 
— Sim, o Memorial do Convento é o livro que está mais divulgado e traduzido e eu sinto-me contente por isso, evidentemente. É um livro entre outros que, por circunstâncias que têm a ver com algumas características do próprio livro... 

...Com o tipo de escrita e com a temática?... 
— ...sim, sim, talvez. Com essas características principalmente. Bom, o livro teve êxito. E outro dos factores é extremamente simples: é que, às vezes, a gente entra em boa hora... O que eu acho é que, de um lado estão os livros que eu escrevi e, do outro, o destino desses livros. São coisas distintas que, por um feliz acaso, se conjugaram no bom caminho. 

Está surpreendido? 
— Sim, mas é muito difícil dizer por que é que me sinto surpreendido. É como se tivesse de olhar para o lado, para ver se esse êxito todo não pertence a outra pessoa. Talvez isso se explique pelo auto-equilíbrio que eu tenho. Evidentemente que somos humanos e que gostamos do êxito, mas não tiro daí a conclusão de que sou uma espécie de representante da literatura portuguesa no estrangeiro ou onde quer que seja... 

Olhe, na última Feira de Frankfurt, perguntavam por si no pavilhão português. Numa tarde, um italiano, um americano e um africano, creio que do Benin, entraram pelo pavilhão dentro e queriam falar consigo. Mas você não estava... 
— Bom, mas eu recebo muitas cartas, de todo o lado. Não recebo tantas cartas como a Madonna [risos], claro, mas recebo muitas cartas a falar dos meus livros... Há coisas que tocam mais as pessoas, e eu creio que isso tal-vez se deva ao facto de eu contar histórias extremamente simples. Para lá da imaginação, da fantasia, do fantástico, o que está na base de tudo é sempre uma história muito simples onde as pessoas estabelecem uma relação com outras pessoas e onde há um certo ar de surpresa diante das coisas e da vida. Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim, na vida. Na literatura também. Mas aquilo que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu olho as coisas pela primeira vez e poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez. Veja o caso da Viagem a Portugal... Aquilo que o distingue é justamente a surpresa do novo, a imagem do novo que o autor talvez consiga traduzir naquilo que vai escrever. Quando falo do amor, ou de uma cidade — aquilo que o narrador consegue exprimir passa ao leitor, ou talvez ele sinta que aquilo tem a ver com ele próprio, para além das tais diferenças. O lado bom do livro está no facto de ter a ver com o leitor ou de o leitor ter a ver com o livro. 

Esse olhar pela primeira vez é só nos livros ou é seu, na vida? 
— É o meu, e tem uma razão de ser biológica. Tenho 66 anos mas, apesar disso, sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada. É como se tivesse vivido em dois planos: um, biológico; outro, não direi propriamente intelectual ou cultural, mas que tem a ver com isso, e que me fez entrar pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente. Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. Um olhar não habituado. Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados. 

Faz algum esforço para as coisas acontecerem assim? 
— Não. Não é um método nem uma técnica. Tem a ver comigo mesmo, é uma coisa que aconteceu e que continua a acontecer, felizmente. Eu sei que já se viu tudo muitas vezes, na vida, mas a verdade é que as coisas que vejo continuam a surpreender-me. Neste livro, na História do Cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado fenómeno — passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado. E isso faz o tal olhar não habituado. Isso passa-se em relação a Lisboa, também. Alguns críticos estrangeiros transformaram-me no escritor de Lisboa. Não penso isso. Penso é que escrevi sobre Lisboa de outra maneira... 

Com O Ano da Morte de Ricardo Reis... 
— Sim. Foi um livro que me levou a reparar em Lisboa de outra maneira. E a escrita do próprio livro também, porque cada um de nós é a visão que tem. 

Por isso é que a Blimunda do Memorial era muitas coisas... Mas, voltando a Lisboa, como é a sua relação com a cidade? 
— Em primeiro lugar, não sou um escritor de Lisboa. Talvez o seja de uma certa Lisboa, antiga, de recantos, de almas dispersas. Não conheço nada da vida nocturna de Lisboa, além de um bar onde vou por vezes. Claro que gosto da cidade, mas não sou um fanático nem caio nessas expansões líricas sobre a Lisboa maltratada, ofendida ou magoada. Não tenho essa paixão moderna por Lisboa, embora saiba que é um privilégio viver nesta cidade —não me refiro a coisas práticas (tudo tão depauperado, os transportes, as ruas estragadas, etc.) mas à topografia, ao céu, ao rio... 

"Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, 
como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, 
já foi feito há muito tempo, antes de nós, 
Tudo é assim, na vida, Na literatura também."

De qualquer modo, não é muito visto na cidade, nos lugares públicos... 
— Não. Não sou. Mas não é por misantropia, nem para tornar-me interessante («ah, ele nunca aparece, está a escrever, não se dá...»). O que acontece é que gosto das pessoas mas não tenho muitos amigos (não tenho nem deixo de ter pena). Os que tenho são bons. Nem tenho essa necessidade de aturdimento social, de ir de festa em festa, de cocktail em cocktail. 

Mas viaja muito... 
— Viajo muito para o estrangeiro. Mas, se eu lhe disser que a minha primeira viagem para o estrangeiro (quase tudo me aconteceu tarde...) aconteceu quando eu tinha 47 anos... Claro que, ultimamente, tenho viajado muito. 

"Sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada, 
Entrei pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente, 
Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. 
Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados a isso."

O sucesso dos seus livros (e do seu nome) começou há uns anos atrás, sobretudo depois do Memorial do Convento, que marcou o seu trabalho como escritor de forma definitiva. Há uma data determinada? 
— Há uma data, que é 1980, com o Levantado do Chão, que é um livro inseparável da Viagem a Portugal. A história desses livros é bastante curiosa e tem a ver com o facto de eu ter ficado desempregado em finais de 1975 (até hoje...). Bom, eu pensei «vamos lá a ver o é que eu vou viver agora; ainda não sei ar sou escritor; mas se tiver de ser é agora ou maca». Ou arranjava um emprego para fazer qualquer coisa, o que não era interessante mas mão me deixava sem dinheiro ao fim do mês, ou arriscava... Escrevi então o Levantado do Chão depois de, em 1976, ter estado no Alentejo. Três anos depois, em 1979, o livro saiu e coincidiu com o convite que o Círculo de Leitores me fez para escrever a Viagem a Portugal. Ninguém sabia o que iria sair dali, nem eu nem o editor. Esse convite possibilitou-me duas coisas: a transformação do meu próprio modo de escrever e, claro, as condições materiais para escrever. Eu, que entre 1975 e essa data tinha vivido de traduções, pude (e não digo isto para ser agradável a ninguém) encontrar uma estabilidade e uma segurança económica que me permitia a tranquilidade necessária para aprofundar o trabalho que tinha começado com o Levantado do Chão. A Maria Alzira Seixo disse um dia, e com toda a razão, que a Viagem a Portugal e a Bagagem do Viajante são dois livros de passagem, que fazem a viragem para os que vêm a seguir. Qualquer olhar mais atento, qualquer crítico, não devia ignorar o papel desempenhado quer pela Viagem quer pelo livro de crónicas, A Bagagem do Viajante. Claro que se pode entender o meu trabalho actual sem ler as crónicas, mas eu penso que esse livro é fundamental. 

Depois, vem o Memorial do Convento... 
— O Levantado do Chão é a rampa de lançamento e o Memorial é o míssil... E um livro que não pára de surpreender-me, dizem-me coisas bem agradáveis de ouvir. 

É esse o livro de que mais gosta? 
— O livro de que mais gosto é a História do Cerco de Lisboa [risos]. Para convencer os leitores risos]... 

Dos já publicados... 
— O livro de que mais gosto, aquele que estai mais dentro de mim, é O Ano da Morte de Ricardo Reis. Gosto do Memorial do Convento, que mexe muito com as pessoas, mas O Ano da Morte de Ricardo Reis talvez seja aquele que ainda hoje me emociona mais, talvez por falar de uma época que nós vivemos há pouco tempo. E que eu apanhei a parte inicial desse tempo. Em 1936 eu tinha 14 anos... 

Quando o livro saiu, em 1984, um crítico acentuou, especialmente, o facto de se tratar de uma imagem de fim de século. 
— Bom, mas o século XIX entrou, em Portugal, pelo século XX dentro, até à década de cinquenta. É uma imagem de fim de século no que se refere a um mundo que está a acabar, a uma espécie de letargia, de povo que acaba, de uma vida real que está em contradição com o folclore fascista. Porque a vida era outra e não tinha nada a ver com os foguetes do Estado Novo: era mais triste, difícil, sem sentido... 

Como é que se deu esse encontro com Fernando Pessoa? 
— Era um encontro que tinha de se dar. É natural que nós nos encontrássemos um dia, mas o que é interessante foram as circunstâncias em que esse encontro se deu. Eu estava a acabar o meu curso de serralheiro-mecânico na Escola Industrial de Afonso Domingues e, aí, havia uma biblioteca que, não funcionando muito bem, à semelhança de todas as bibliotecas portuguesas, possuía coisas tão bizarras como a revista Athena (veja-me com dezassete anos, em 1939...). Folheio ao acaso e dou com aquelas odes de um senhor chamado Ricardo Reis. Que era Ricardo Reis e não outro qualquer. Qual Fernando Pessoa! Nessa altura, em que eu já gostava de ler e começava a comprar livros, fiquei deslumbrado com as odes e lembro-me de ter feito de uma delas uma espécie de divisa, que é aquela onde se lê «para ser grande, sê inteiro...» [Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui./ /Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ /No mínimo que fazes./Assim em cada lago a Lua toda/Brilha, porque alta vive.]. Depois, mais tarde, soube que Ricardo Reis era Fernando Pessoa. 

"O livro de que mais gosto, 
aquele que está mais dentro de mim, 
é O Ano da Morte de Ricardo Reis. 
É aquele que me emociona mais."

Ficou desiludido? 
— Não. A contradição fascinava-me, e compreendia-a. Nesta mesma ode, aliás, a contradição está presente. 

É Ricardo Reis o heterónimo de que mais gosta? 
— Gosto muito de Ricardo Reis, por razões históricas. Pessoais, claro, que têm a ver com esta minha relação com a sua poesia. De resto, divido-me muito entre o Caeiro e o Campos. Mas aquele de que menos gosto é o próprio Fernando Pessoa... 

Depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis aparece a surpresa do título A Jangada de Pedra. 
— Sim, a seguir é A Jangada de Pedra... 

Que não se chamava assim... 
— Pois não. O Memorial do Convento estava para se chamar só O Convento, mas nessa altura a Agustina Bessa-Luís publicou O Mosteiro. Foi por isso que se chamou Memorial do Convento... A Jangada de Pedra foi o livro mais difícil quanto ao título. Ainda pensei em O Mar Aberto, ou A Grande Pedra do Mar, ou só A Jangada. Mas havia um título assim do Romeu Correia. Portanto, retomei A Jangada e... pus-lhe a Pedra. 

Foi então que se falou em iberismo... 
— O iberismo entrou muito no vocabulário político entretanto. Mas a ideia do livro era a de soltar toda a península do resto da Europa. Um todo? Talvez, mas isso não tem nada a ver com a questão iberista entre nós. Um crítico espanhol, aliás, viu a história muito melhor, e escreveu uma coisa muito inteligente ao dizer que mais do que ler esse fenómeno de separação da península como separação em relação ao continente, deve entender-se como deslocação para o sul, arrastando a Europa para o sul... Mas, nisso, o problema é o da unidade política de Espanha, como se sabe. Se não houvesse uma unidade política tão vincada, seria possível estabelecer melhores relações, de tipo multilateral, entre Portugal e as várias zonas de Espanha... Aqui vivemos muito no medo de a Espanha nos devorar...
 
Porquê? 
— Nós, portugueses, não sabemos por que pensamos coisas que achamos que pensamos... 

Sente-se fascinado pela Espanha? 
— Não propriamente fascinado. Mais no sentido da surpresa e do maravilhamento... A minha mulher é espanhola, tenho muitos amigos espanhóis, por aí fora. Mas, de resto, o que é fascinante é a Espanha, não a minha relação com a Espanha... 

"Esta crise no PCP traduz o conflito entre opiniões diferentes. 
Entre o que foi, o que é e o que será. 
E sobre isso, há duas saídas para o problema, 
Uma, que é estagnar, girar volta de si próprio, 
Outra, que é avançar em circunstâncias e exigências novas, 
colocadas pelos tempos e pela capacidade de entender os novos tempos."

O que é fascinante em Espanha? 
— Sobretudo a diversidade, os mundos que cabem naquele país. Estão hoje, em virtude dessa diversidade, perfeitamente justificadas as autonomias, com aquela enorme diferença de caracteres. E isto não é um lugar-comum: as pessoas são realmente diferentes, um andaluz é completamente diferente de um galego, um galego de um catalão, um castelhano de outro qualquer... Viajar em Espanha é surpreendente porque se está, permanentemente, a passar de um mundo a outro e isso sim é fascinante...
 
Bom, agora é a História do Cerco de Lisboa... Creio que se trata de um dos cercos de Lisboa mas, também, de outro cerco, provavelmente... 
Talvez sim... Ou seja, é e não é, porque, de facto, há um cerco de Lisboa, histórico, no passado, embora isto não seja razão para se falar de romance histórico. O Memorial não é um romance histórico, e História do Cerco de Lisboa é ainda menos histórico que o Memorial. Tem é uma história que se passa em dois planos temporais: o dia de hoje e o tempo desse cerco... 

Qual? 
— Vem no livro... É um dos dois cercos de Lisboa... 

Ao longo dos seus livros construiu dezenas de personagens, mas nota-se sempre uma ternura maior pelos personagens femininos. Está de acordo? 
— Sim, sim. No caso dos meus romances, os personagens femininos são aqueles que eu mais quero, que eu prefiro. Os homens, nesses romances, são sempre, ou quase sempre, não diria pobres diabos, mas gente menor... No Levantado do Chão os homens têm ainda força (talvez devido a uma espécie curiosa de machismo alentejano que vai desaparecendo em favor de uma força crescente das mulheres, de geração para geração). No Memorial do Convento, repare, à frente da Blimunda, não há Baltasar que se aguente [risos]... O Ricardo Reis, ao pé da Lídia é, apenas, um pobre heterónimo [risos]... 

E no caso da História do Cerco de Lisboa? 
— Aí, a força está nas mulheres... Claramente nas mulheres. Isto não é uma atitude feminista — deve-se ao facto de eu crer que elas são realmente fortes, que têm muito para dar. E porque eu gosto muito delas... Acho que, para não cair na frase (coitadas das frases...) do Aragon, aquela famosa da femme est l'avenir de Thomme» — que é uma coisa mais vazia do que à primeira vista se possa pensar ou dizer —, eu penso que elas têm mais autenticidade e mais generosidade que nós. Valem mais que nós, homens. Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, aprendi pouco com homens e aprendi muito com as mulheres. Não por idealizações. É o ser humano inteiro, aquilo que elas são... Bom, algumas, eu sei, não são nada disto... 

"Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, 
aprendi pouco com os homens e muito com as mulheres. 
É o ser humano inteiro, o que elas são..."

O que se passou, em si, entre o Levantado do Chão e História do Cerco de Lisboa? 
— Passou-se tudo de forma bastante simples, normal, tranquila. Fica-se contente pela atenção que as pessoas deram ao que escrevi, pela atenção que deram ao escritor. Se tudo isso me tivesse chegado mais cedo, poderia acontecer que eu me tivesse imbuído de um sentimento de.importância até chegar àquele lado lamentável da vida em que já se tem o título de mestre [risos]... Como tudo isto me aconteceu tarde, na altura em que já se sabe estar tranquilo, então não olho para estes anos de escritor com olhar céptico. Disfruto aquilo que vivo. Gosto de que as pessoas não separem em mim o homem do escritor. Vivo isto tudo muito discretamente, não me sinto a tal figura de proa. Mas também tenho consciência de que o meu trabalho literário já significa alguma coisa. Mas não sei o quê... 

Não está a ser modesto demais? 
— Não. Não, nada disso... Repare. Lembra-se do Carlos Manuel a marcar aquele golo no jogo de Estugarda, contra a Alemanha, que nos deu a passagem para a fase final do campeonato do mundo de futebol? Veja se hoje ainda alguém se lembra. O escritor é um pouco isso, em termos de prestígio, nos dias de hoje. Escritor é jogador de futebol. Olhe o caso da Rosa Mota. Depois de ela ter ganho uma série de provas decisivas, houve um dia em que desistiu, e um jornal escreveu na primeira página Rosa Mota: derrocada em tal sítio... Mas esse jornal tinha embandeirado em arco algum tempo antes... Bastou que a atleta tivesse sido forçada a desistir para que a situação mudasse radicalmente de um dia para o outro... Com o escritor é quase a mesma coisa. Como um jogador de futebol. Amanhã há um deslize e pronto... 

Mas há outra dimensão no trabalho literário... 
— Esta coisa de ter prestígio hoje em dia é muito complicada porque... quem me garante que esse período não vai ser curto? 

Mas, não acredita no seu trabalho? 
— Acredito no meu trabalho da mesma forma que outras pessoas acreditam no seu trabalho, mas não se pode estar convencido de que o trabalho literário, hoje em dia, e infeliz-mente, é olhado pelas pessoas de uma forma transcendente, metafísica... Você veja: o que se escreve hoje sobre o Rodrigues Miguéis? Nada. Sobre o José Gomes Ferreira? Nada. Não acho que devamos estar sempre a gabar, a contribuir para o deleite das nossas letras, mas o facto é que em Portugal esquecemo-nos muito. Não só dos escritores. De quase tudo o que fomos amando. O Raul Brandão — de quem somos devedores, porque ele era muito grande — morreu e, algumas semanas depois, o Castelo Branco Chaves publica na Seara Nova um artigo, demolindo-o. Parece-me mal. É um pouco o que aconteceu agora com um artigo publicado no Expresso sobre o Fernando Namora... Eu acho que se deve contestar, claro, e a rebeldia literária só tem dado bons frutos. Mas também penso que esta malta nova devia começar por estudar mais um pouco as coisas que vão passando. Senão, passa-se de moda em moda... 

Tem-se dito que o Prémio APE está permanentemente contra si... 
— Isso diverte-me muito, porque já são três livros meus publicados desde o prémio APE e a situação é essa, de as pessoas me considerarem o eterno candidato. Mas candidato é aquele que se candidata, e eu não me candidatei. Os livros estão aí, e o júri é que pode entender escolhê-los ou não... Mas há coisa divertidas nisso do prémio APE, não nego. Uma delas foi a declaração de voto de um membro do júri do prémio que dizia que A Jangada de Pedra era um ensaio... Outra foi uma outra declaração em que se dizia que eu já escrevo para o mundo... Portanto, como você vê, nada de prémios nacionais. Havia ainda uma pessoa muito respeitável que escreveu que «por circunstâncias infelizes» o prémio ainda não me tinha sido atribuído... Ora a única circunstância infeliz era, para mim ter havido livros melhores que o meu. A não ser que haja outras circunstâncias que eu desconheço... Mas isso não tem importância nenhuma. As pessoas até acham divertido que, depois de o Memorial do Convento não ter sido premiado, os outros livros continuem a merecer a mesma atenção... 

Mas, sente que há outras razões? Que há uma perseguição... 
Não! Que ideia absurda! O júri gosta mais de outros livros. É só isso... 

Você é o autor comunista que as pessoas de direita também lêem... 
— Se eu quisesse auto-lisonjear-me, diria que isso é uma prova do bom-gosto das pessoas... O Eduardo Prado Coelho dizia, com muita graça, e a propósito, que com o Memorial do Convento eu tinha alargado a minha base social de apoio... Mas lembro-me de uma conhecida jornalista da nossa terra (jornalista, não... colaboradora da imprensa...) se ter recusado a ler o Levantado do Chão porque o autor era comunista. Acho que tudo isso se pode resumir em duas frases, separadamente: «ele é comunista mas é bom» e «ele é bom mas é comunista»... 

Mas, o facto de ser comunista tem tido influência na recepção dos seus livros? 
— Não sei se tem. As pessoas não me lêem mais pelo facto de eu ser comunista... Apesar da nossa vida democrática (coitadinha...), esteve aqui ontem um jornalista do Corriere della Sera durante uma hora e tal, e confessou-me que várias pessoas a quem ele disse que tinha um encontro marcado comigo o informaram, espantados, dizendo «mas olhe que ele é comunista.» O jornalista dizia-me, claro, que em Itália é muito diferente... Claro que é. Lembro-me, já agora, de que foi espalhado por certos espíritos maledicentes que o êxito do Levantado do Chão se deve ao facto de o romance ter o Alentejo por cenário — e de os militantes do meu partido terem recebido ordem para comprar o livro... Sob outro ponto de vista, claro que todo o trabalho literário também é um trabalho político e não poderá deixar de o ser a menos que o autor seja inerte e mentalmente incapaz. Quanto a isto não há dúvidas por parte do leitor. Ninguém poderá é dizer que utilizo a literatura para fazer política... 

Ultimamente, o seu partido, o Partido Comunista Português, tem atravessado uma crise política. Preocupa-o, a situação no PCP? 
— Claro que me preocupa a situação no partido. E preocupa-me no sentido em que eu me preocupo com a vida do meu partido. Estes últimos acontecimentos têm um significado bastante especial e traduzem algumas divergências, conflitos de opinião sobre o que deve ser o partido e a sua política. Repare, também, que eu disse que me preocupava e não que me inquietava. Nada de estar com inquietações muito profundas, nada disso. O meu partido está a viver uma crise — e esta é uma ocasião para usar a palavra crise porque em relação às crises diz-se que «esta é uma crise mas vamos vencê-la» — esta, claro, será resolvida. O partido não vai deixar de ser o que é. Além do mais, desde que temos em Portugal uma vida democrática, todos os par-tidos já tiveram as suas crises, mais ou menos dramáticas, mais ou menos significativas... 

Esta crise, que o PCP atravessa, traduz a oposição entre o novo e o velho no interior do partido? 
— Traduz o conflito entre opiniões diferentes. Entre o que foi, o que é e o que vai ser. E, sobre isso, há duas saídas para o problema. Uma, que é estagnar, girar à volta de si próprio, perecer. Outra, que é avançar, em circunstâncias e exigências novas, colocadas pelos tempos e pela capacidade de entender os novos tempos, sem renunciar àquilo em que se acredita. Fundamentalmente, um corpo que não se transforma é um corpo que não cresce e que não se desenvolve. A história está cheia desses exemplos, de relações de conflito entre a autoridade e a liberdade com vista a ponderar a necessidade de transformação. Às vezes a autoridade entende, outras não entende. O que se verifica no interior do PCP é o que se verifica em toda a parte. Aconteceu, agora, no interior do PCP, e ainda bem. 

Acabou este livro, História do Cerco de Lisboa. Sente-se feliz com o seu trabalho até agora? Com a sua vida? 
— Eu poderia ser felicíssimo como homem e ter uma pouca sorte danada como escritor. No meu caso, sinto-me em paz com o meu trabalho, sei o que quero fazer e julgo que faço aquilo que quero. Uma obra que se pensa fazer é sempre um destino que se inicia. Mas os livros não me têm decepcionado. Nem este, porque tenho uma boa relação com aquilo que escrevo. 

E consigo próprio? 
— Como homem posso dizer de mim mesmo que sou um homem feliz...


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Novidades teatrais para 2017!! Vamos acompanhar



Consta que a Companhia de Teatro de Almada poderá levar ao palco em 2017, a encenação de duas obras de José Saramago. O romance "História do Cerco de Lisboa" (1989) e "Objecto Quase", livro de contos lançado em 1978.

Vamos acompanhar este dado com especial atenção, e aqui daremos futuramente mais informações.

De recordar que a Companhia de Teatro de Almada, através de Joaquim Benite, na temporada de 2007/2008, apresentou a peça de teatro "Que farei com este livro?" (1980)

Aqui, mais informação e sinopse de apresentação da obra, 

"Para assinalar o início da comemoração dos trinta anos de presença da CTA em Almada, o TMA apresenta uma peça de José Saramago: Que farei com este livro?. A escolha deste texto tem um significado especial, uma vez que foi a Companhia de Teatro de Almada quem o estreou, em 1980. Na altura a peça Que farei com este livro? foi escrita expressamente para a Companhia, no seguimento do êxito obtido com A noite: a estreia absoluta de Saramago no teatro, também em Almada. Que farei com este livro? relata a luta de Camões pela publicação de Os Lusíadas, a epopeia renascentista que é uma das obras basilares da Literatura portuguesa. Após a carreira em Almada o espectáculo será apresentado no Teatro Nacional D. Maria II e no Teatro Municipal de Faro.

José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, a 16 de Novembro de 1922. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não tinha três anos. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades económicas. No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor e jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance (Terra do pecado), em 1947. Colaborou como crítico literário na revista Seara Nova. Entre 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do Diário de Notícias. A sua obra, que abarca a poesia, a crónica, o teatro e o romance tem sido distinguida com vários prémios em Portugal e no estrangeiro, entre os quais o Prémio Nobel da Literatura, em 1998.

Intérpretes Alberto Quaresma, Bruno Martins, Carlos Santos, Catarina Ascensão, Celestino Silva, José Martins, Luís Ramos, Luís Vicente, Maria Frade, Maria José Paschoal, Miguel Martins, Nuno Góis, Paulo Matos, Pedro Walter e Teresa Gafeira
Cenário Manuel Graça Dias e Egas José Vieira
Figurinos Sónia Benite
Luz José Carlos Nascimento"

Vídeo de apresentação da peça, via YouTube, aqui




sábado, 12 de março de 2016

"Qual é a verdadeira História do cerco de Lisboa?" em entrevista de Clara Ferreira Alves - Expresso (22/04/1989)



"Os problemas do erro e da verdade, ou da verdade e da mentira, são uma constante de todos os meus livros. E lembro que num diálogo entre o Scarlatti e o Bartolomeu de Gusmão (em Memorial do convento), um deles - não me lembro agora qual - diz que acredita nas virtudes do erro. O terreno vago entre o sim e o não é tão largo que nele podemos andar à vontade. E neste livro (História do cerco de Lisboa) chega-se ao fim sem saber que história escreveu o revisor sobre o cerco de Lisboa.
Uma é a história do livro, esse objeto, outra a do historiador, outra a do narrador e outra a literalmente ignorada e sobre a qual o narrador supostamente terá trabalhando, a do revisor. Qual é a verdadeira História do cerco de Lisboa? Nenhuma. A do historiador tem erros, a do revisor está inquinada de um vício fundamental, um não que contradiz os fatos históricos, e a do narrador é subjetiva. Tão pouco é a História do cerco de Lisboa a que vai aparecer nas livrarias, porque essa em si mesma não é coisa nenhuma."
“O cerco a José Saramago”
Clara Ferreira Alves entrevista José Saramago 
Expresso - 22 de Abril de 1989 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês - Tammi (editora)

Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/primeira-edicao-de-historia-do-cerco-de-lisboa-em-finlandes/

"Primeira edição de “História do Cerco de Lisboa” em finlandês

Acaba de dar à estampa, e pela primeira vez na Finlândia, a tradução de História do Cerco de Lisboa, com a chancela da Tammi. Este é o terceiro título publicado por esta editora depois de A Viagem do Elefante e O Ano da Morte de Ricardo Reis, renovando, assim, o interesse em levar José Saramago aos leitores fínicos. A tradução deste romance é da responsabilidade de Antero Tiittula.
O livro já se encontra na Biblioteca da Fundação José Saramago, em Lisboa, gentilmente oferecido por 2 leitores finlandeses, admiradores profundos da obra de Saramago."

(Capa de "O Ano da morte de Ricardo Reis")

Mais informação da editora, aqui

(Capa de "A Viagem do Elefante")

sexta-feira, 27 de março de 2015

Citador #36 ... Oh, Meu Amor... um Revisor que mudando a "história" acrescentou algo à sua estória

Citador #36
... Oh, Meu Amor...
"História do Cerco de Lisboa
Caminho, 2.ª edição
Página 295

Um Revisor que mudando a "história" acrescentou algo à sua estória.

(...) quando todas as comportas do dilúvio se abriram sobre a terra e as águas da terra, e depois a calma, o largo estuário do Tejo, dois corpos lado a lado vogando, de mãos dadas, um diz Oh, meu amor, o outro, Que nada no futuro seja menos do que isto, e de repente ambos tiveram medo do que disseram e abraçaram-se, o quarto estava escuro, Acende a luz, disse ela, quero sabes se isto é verdade. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

O olhar, ver e reparar... uma constante na obra de José Saramago

“Se podes olhar, vê. 
Se podes ver, repara”

Epígrafe imortalizada na obra "Ensaio sobre a Cegueira"



A famosa epígrafe, que consta já imortalizada na obra "Ensaio sobre a Cegueira", em que José Saramago, com precisão cirúrgica, desmonta estas semelhantes formas de ver, onde o ver, enquanto objecto e veículo de recepção de imagens, é tão só, ou o muito que possa representar, um estágio de profunda interpretação e descodificação do conhecimento. Olhar, ver e reparar...  
Em a "História do Cerco de Lisboa", datada de 1989, este já antecipa e interpreta neste excerto, a futura epígrafe, inscrita, quase de forma metafórica, no "Ensaio sobre a Cegueira" de 1995. 
Aqui fica em detalhe.


"Olhar, ver e reparar são maneiras distintas de usar o órgão da vista, cada qual com a sua intensidade própria, até nas degenerações, por exemplo, olhar sem ver, quando uma pessoa se encontra ensimesmada, situação comum nos antigos romances, ou ver e não dar por isso, se os olhos por cansaço ou fastio se defendem de sobrecargas incómodas. Só o reparar pode chegar a ser visão plena, quando num ponto determinado ou sucessivamente a atenção se concentra, o que tanto sucederá por efeito duma deliberação da vontade quanto por uma espécie de estado sinestésico involuntário em que o visto solicita ser visto novamente, assim se passando de uma sensação a outra, retendo, arrastando o olhar, como se a imagem tivesse de produzir-se em dois lugares distintos do cérebro com diferença temporal de um centésimo de segundo, primeiro o sinal simplificado, depois o desenho rigoroso, a definição nítida, imperiosa de um grosso puxador de latão amarelo, brilhante, numa porta escura, envernizada, que subitamente se torna presença absoluta. Diante desta porta, muitas e muitas vezes, tem Raimundo Silva esperado que lha abram de dentro, o ruído de disparo que faz o trinco eléctrico, e nunca como hoje teve uma consciência tão aguda, assustadora quase, da materialidade das coisas, um puxador que não é a sua simples superfície luzidia, polida, mas um corpo de cuja densidade pode aperceber-se até ao encontro com essa outra densidade, a da madeira, e é como se tudo isto fosse sentido, experimentado, palpado dentro do cérebro, como se os seus sentidos, agora todos eles, e não só a visão, reparassem no mundo por terem finalmente reparado num puxador e numa porta. O trinco estalou, os dedos empurraram a porta, dentro a luz parece fortíssima, e não o é, mas Raimundo Silva sente-se como se vogasse num espaço sem referências, tal essas atmosferas saturadas de claridade agora em moda nos filmes de sobrenatural ou de aparições de extraterrestres, com dispêndio excessivo de vóltios, espera que a telefonista dê um grito de terror ou caia em transe extático se pelo lado de fora de si próprio se manifesta, numa proliferação de tentáculos sensitivos ou numa irradiação de beleza suprema, a vibração caleidoscópica em que, por um instante que já se extingue, se tornou a sua sensibilidade."

em a "História do Cerco de Lisboa"
Caminho, 2.ª edição
Páginas 166 e 167

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

"História do Cerco de Lisboa” que PODERIA ter sido inspirada na obra de Dino Buzatti, “O Deserto dos Tártaros”

Será possível conhecer a obra e o legado de um homem, baseado no estudo e conhecimento do que produziu e deixou aos seus, enquanto resultado final?
Neste caso, nesta área de acção - a escrita - e numa alusão algo simplista, um escritor deixa livros publicados ou rascunhos que poderiam ter dado lugar a algo mais substancial. Dessa obra que deixou e que pode sobreviver à morte do autor, serão traçadas as linhas caracterizadoras do seu pensamento; poucas linhas servirão para descrever quem foi "fulano de tal", que morreu na tal data, e que "abaixo se transcreve a sua bibliografia". Isto é o mundanamente vulgar que se inscreve, todos os dias, nos anais da história da literatura.

Daí a pergunta inicial, que cada um poderá dar a sua resposta, com base na experiência própria ou da sua percepção sobre o que é, o que pensa ser, o que gostaria de ser, e também, do que pensa que os outros entendem sobre si.
José Saramago, e na percepção do que eu assumo como meu pensamento principal, é a negação à resposta da minha pergunta.

A minha leitura da extraordinária conversa, entre a jornalista Ana Sousa Dias e José Saramago (Verão de 2006 em Lanzarote), acrescentou ao meu conhecimento mais alguns detalhes sobre a pessoa, o escritor e o intervencionista inquieto e desassossegado, que caracterizaram o autor. Neste caso, mostro-me maravilhado, pelo pormenor revelado sobre a via inicial com que a "História do Cerco de Lisboa", poderia ter sido conduzida pelo punho de Saramago, em eventual analogia à obra de Dino Buzatti, "O Deserto dos Tártaros". 
Qual a importância deste facto? Relevância ou mera curiosidade? Talvez um pouco de cada, mas depois de ter lido estas linhas, perguntei-me: 
«Poderíamos ter perdido e passado ao lado de Raimundo Silva? 
Poderíamos ter perdido a discussão filosófica do peso do "não" e do "sim"? 
O que seria deste quadro histórico se a linha de escrita tivesse sido outra?»

José Saramago, o seu legado, a extensão do seu "mundo", continuam hoje a provar, que, ele enquanto figura inicial e génese da filosofia "Saramaguiana", transcendem toda a sua obra publicada. Não é possível conhecer uma pessoa, só pelo que ela deixou realizado, e, neste caso transmitido em obras devidamente catalogadas. Não só, é obrigatório incluir as obras publicadas, mas também, tudo o que gira à volta do homem e das suas referências, sendo disto exemplo, as crónicas e textos realizados ao longa da vida e que muitas publicações deram disso testemunho, como objecto de reflexão sobre os dias e a história desses tempos passados - refiro-me aos livros de crónicas de teor político e social. Também não poderá faltar, a incursão pela sua poesia; poemas que continuam a ser musicados e cantados por homens e mulheres que sentem a mesma urgência inicial com que o autor os escreveu. Disto, e de entre alguns, são testemunhas Barata Moura, Manuel Freira, Mísia, Luis Pastor.
O intervencionista, o manifestante, a incursão pelos meandros da politica, o agitador de consciências, o homem social, o confronto com os pilares corrompidos da "igreja", a luta pela liberdade, a luta contra as várias formas de censura, as guerras que "comprou" e as em que foi envolvido, fizeram de Saramago, um ícone social, diria até, exterior e independente da obra produzida. O homem que lutou pela causa dos Zapatistas em Chiapas; na defesa do meio ambiente, que inscreveu nos Princípios da Fundação José Saramago; na intervenção conjunta com Sebastião Salgado; ou no apelo feito em defesa da activista e resistente Saharaui Aminatou Haidar; na posição pública perante a causa palestiniana; na oposição frontal a Guantanamo e a G.W.Bush, são momentos de intervenção cívica, que embora não retratados nos romances, não deixam de ficar imortalizados na história em memória daqueles que foram terrivelmente assassinados e oprimidos.  

Saramago, é também conhecido, como tendo sido entusiasta e estudioso de outras áreas das artes e expressões artísticas. Melómano e apreciador de musica clássica, da pintura e cinema, de onde as suas obras disso fazem menção expressa; rapidamente nos lembramos do violoncelista em "As Intermitências da Morte", o espaço cénico e musical sempre presente no "Memorial do Convento", o retratista crítico de si, no "Manual de Pintura e Caligrafia", os barros e artes populares em "A Caverna", e toda a arte na sua forma do retrato que é (foi) Portugal através da "Viagem a Portugal". O seu interesse pela arte, é transportado para dentro dos seus livros e transmitido sob a forma de conhecimento.

José Saramago, foi também a solidariedade e amizade com aqueles que muito prezava e respeitava, dizia-se um solitário cheio de gente à sua volta; as multidões para o ouvir nas inúmeras conferências que realizou, deixava-o de boca aberta, as longas e intermináveis filas de autógrafos que tinha de estoicamente resistir, são exemplos do homem que era mais do que os livros escritos, e que lhe trouxeram a obrigação social de se manter disponível. Após a atribuição do Nobel, percorreu o mundo, deu voltas a Portugal e a muitos lugarejos, mais mundo teria percorrido se lhe fosse humanamente possível. 
Foi com este humanamente impossível, e aqui relembro a visita que efectuou em cadeira de rodas, manifestamente debilitado, à exposição "A Consistência dos Sonhos", que ele involuntariamente ao longo dos tempos alcança uma imagem de força, resistência e tenacidade. 
Ultrapassar o impossível e a alcançar o possível. A urgência de retribuir. O agradecimento. O homem que se sentia reconhecido, e a bondade com que, em forma de romance viveu os seus dias. 
Será Pilar a responsável?

Miguel de Azevedo 




"Depois vem um livro estranho que é a “História do Cerco de Lisboa”. A primeira ideia era na linha de “O Deserto dos Tártaros” do [Dino] Buzzati. Um cerco em que não se percebia muito bem quem cercava nem quem era cercado. Usemos a palavra: um pouco kafkiano. Isso andou na minha cabeça durante uma quantidade de anos até que me dispus a escrever o livro já com um objectivo completamente diferente. Em princípio, toda a gente parte do cerco de 1385, mas não, os cercados são os mouros. E entre as figuras simpáticas do livro algumas delas são mouros."

Extracto da entrevista de Ana Sousa Dias


(Dino Buzatti, 1906/1972)

Pequena referência biográfica do escritor Dino Buzatti,

"Dino Buzzati Traverso (San Pellegrino di Belluno, 16 de outubro, 1906 — Milão, 28 de janeiro, 1972) foi um escritor italiano, bem como jornalista do Corriere della Sera. Sua fama mundial é principalmente devido ao seu romance Il deserto dei Tartari, traduzido para português como O Deserto dos Tártaros, de 1940. Dino Buzzati detém um estilo inconfundível, que não obedece a modas e etiquetas, explorando sempre uma visão fantástica e absurda do real. A sua obra está traduzida em inglês, francês, alemão e espanhol e difundida largamente em todo o mundo.
Dino Buzzati nasceu perto de Belluno em uma pequena propriedade rural de sua família. Sua mãe, veterinária, era veneziana e seu pai, professor universitário, era de uma arntiga família de Belluno. Buzzati foi o segundo dos quatro filhos do casal. Desde muito jovem manifestou as que iam ser as aficções de toda sua vida: escrevia, desenhava, estudava violino e piano, além da paixão pela montanha à que dedicou sua primeira novela, Bárnabo das montanhas (Bàrnabo delle montagne) (1933).
Em 1924 ele entrou para a faculdade de direito da Universidade de Milão, onde seu pai já ensinara. Quando já estava para terminar seu curso de direito, aos 22 anos, tornou-se jornalista do jornal milanês Corriere della Sera, onde permaneceria até a sua morte. Não começou como repórter, onde só depois trabalharia como correspondente especial, ensaista, editor e crítico de arte. É comum dizer que sua profissão como jornalista teve forte influência sobre seus escritos, emprestando mesmo para seus contos mais fantásticos uma aura de realismo. Frequentou o Liceo Classico Parini di Milano e laureou-se em jurisprudência com uma tese La natura giuridica del Concordato.
O sucesso obtido com sua primeira novela, a já citada Bárnabo das montanhas, não se repetiu com a seguinte O segredo do Bosque Velho (Il segreto do Bosco Vecchio) (1935), que foi acolhida com indiferença.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Buzzati serviu na África, como jornalista da Marinha italiana. Após o fim da guerra, publicou sua obra-prima, O Deserto dos Tártaros, alcançando fama mundial e tendo grande sucesso de crítica.
Desde 1936 escreveu numerosos relatos para o Corriere della Sera e outros jornais, posteriormente recopilados em Os sete mensageiros e outros relatos (I sette messaggeri) (1942), Paura alla Scala (1949), Il crollo della Baliverna (1954), Sessanta racconti (1958, prêmio Strega), Esperimento dei magia (1958), Il colombre (1966), As noites difíceis e outros relatos (Lhe notti difficili) (1971).
Em 1960 saiu O grande retrato (Il grande ritratto), quase um experimento de novela]] de ciência ficção]], onde entra em cena o universo feminino, que até então tinha explorado muito pouco. Três anos depois, em Um amor (Um amore) relatou a história de Antonio Dorigo, um homem que encontra o amor aos cinquenta anos: apresenta prováveis rasgos autobiográficos, já que aos sessenta Buzzati casou-se com Almerina Antoniazzi.
Também elaborou roteiros de cinema, como o de Il viaggio de G. Mastorna, colaborando com Federico Fellini, além de libretos de ópera. Entre vários outros, venceu o prêmio jornalístico Mario Massai (1970) pelo artigo publicado no Corriere della Sera nell'estate (1969), sobre a descida do homem à Lua.
Em 1972 morre em decorrência do câncer, após uma prolongada luta contra a doença, na clínica La Madonnina de Milão."

(Capa da obra de Dino Buzzati)


Sinopse da obra, via Wikipédia, em http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Deserto_dos_Tártaros

"O Deserto dos Tártaros é uma romance escrito pelo escritor italiano Dino Buzzati em 1940, que gerou um filme - homónimo em 1976
A necessidade humana de dar sentido à vida e o desejo de imortalidade através da glória são o tema, sobre o qual circulam as alegorias desta obra. O enredo se desenrola sobre a narração da espera feita ao longo da vida do personagem Drogo, um militar de carreira, que vive se preparando para uma grande guerra na qual ele acredita que sua vida e existência serão postas à prova.
Drogo ainda jovem, é designado a uma remota fortaleza, localizada defronte a um deserto desolado, fronteiriço ao território tártaro. Nela, ele gasta sua carreira esperando e se preparando para uma invasão tártara, sempre temida em renovados rumores, alimentados pelo próprio Estado a que serve.
Só muito tarde, Drogo vai percebendo que ao longo dos anos em sua estadia no forte, ele deixou passar anos e décadas e que, apesar de seus velhos amigos, tanto os da cidade, como os militares que passaram pelo forte, terem tido filhos, casado, e vivido uma vida plena, ele em sua longa e paciente vigília veio acabar com nada, excepto a camaradagem militar.
Quando finalmente o ataque dos tártaros está para ocorrer de verdade, com as tropas inimigas à vista da fortaleza pela primeira vez em todos os seus anos, Drogo já velho e doente é dispensado pelo novo comandante do forte. Em seu caminho de volta à civilização, Drogo morre solitário em uma pousada."