Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Helder Macedo e os poemas sobre o libertino Dom João (que remete para a obra "Os Poemas Possíveis" de 1966)

"Os Caminhos do amor: Dom João a Caim"

(...) "Ao representar as mulheres - simultaneamente idealizadas e realisticamente caracterizadas - como agentes ativos correspondentes ao princípio do desassossego na análise social marxista, Saramago recupera o conceito originário de «liberdade» para o entendimento de um «libertino» que não seja apenas um amador de mulheres mas também, por amor delas, um amante da humana liberdade a todos devida. Foi dessa perspetiva libertária que escreveu três poemas (não menos transpostamente autobiográficos do que várias passagens dos seus romances) na persona do arquetipal libertino Dom João. Os poemas intitulam-se «Orgulho de D. João no Inferno»«Lamento de D. João no Inferno» e «Sarcasmo de D. João no Inferno»

"Orgulho de D. João no inferno"

"Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu."
in, "Os poemas possíveis"
A 1.ª edição foi publicada em 1966, pela Portugália Editora
Porto Editora, 1994, página 97

--*--

«Lamento de D. João no Inferno» 

"Das ameaças do céu me não temi
Quando da terra as leis desafiei:
O lugar dos castigos é aqui,
Do céu nada conheço, nada sei.
O cilício do Diabo não me cinge,
Ném a mercê de Deus aqui me segue:
A chama mais ardente é a que finge
Este cheiro de mulher que me persegue."
in, "Os poemas possíveis"
A 1.ª edição foi publicada em 1966, pela Portugália Editora
Porto Editora, 1994, página 98

--*--

«Sarcasmo de D. João no Inferno»

"Contra mim, D. João, que pode o inferno,
Que pode o céu e todo o mais que houver?
Nem Deus nem o Diabo amaram nunca
Desse amor que junta o homem e a mulher:
De pura inveja premeiam ou castigam,
Acredite, no resto, quem quiser."
in, "Os poemas possíveis"
A 1.ª edição foi publicada em 1966, pela Portugália Editora
Porto Editora, 1994, página 99

(Nota de edição: 
Os presentes versos são referidos pelo autor do texto, 
e aqui junto para acompanhamento da leitura)

No primeiro, D. João celebra o seu modo de amar perenemente renovado «no sangue da mulher». No segundo, caracteriza a ausência física da mulher como sendo «a chama mais ardente» do inferno por ser um fingimento que o persegue. No terceiro, afirmando que «nem Deus nem o Diabo amaram nunca / desse amor que junta homem a mulher», conclui que só por isso «de pura inveja premeiam ou castigam». São poemas que recuperam a velha tradição do «inferno dos namorados», derivada de Dante e patente, por exemplo, no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Mas, partindo de uma perspetiva autoral não-teológica, caracterizam o inferno como a carência da sexualidade que torna a humanidade humana, numa aliás característica transposição de metáforas religiosas para a significação laica que lhes subjaz. Saramago, leitor de Camões, também desejaria que o «amor ardente» vivido na terra pudesse perpetuar-se no «assento etéreo» (ou não assim tão etéreo) que houvesse depois da morte." (...)

de Helder Macedo
Texto "Os Caminhos do amor: Dom João a Caim"


Inserido na obra de Óscar Aranda
"Aprende, aprende o meu corpo. Sobre o amor na obra de José Saramago"
Fundação José Saramago, páginas 13 e 14

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

De Óscar Aranda “Aprende, aprende o meu corpo. Sobre o amor na obra de José Saramago”, novo livro da Fundação José Saramago


(Capa da edição original publicada na "revista española de sexologia")

A sinopse da edição pode ser consultada, aqui

"LECTURA SEXOLÓGICA DE LA OBRA DE SARAMAGO"

Por Oscar Aranda

"Preliminares  

Este ensayo reúne la aportación sexológica de José Saramago a través de, sobre todo, sus novelas. En sus libros podemos encontrar infinidad de ejemplos, de situaciones, de citas, de aforismos, que nos hablan del hecho sexual humano de una manera tan cálida, tan verdaderamente humana y con tanta lucidez que merecía reunirlas en un solo texto.  

Y ese ha sido el propósito de estas líneas. Descubrir la obra de Saramago desde otro punto de vista, del lado de la sexualidad, del erotismo, del amor y de las relaciones sexuales entre los hombres y las mujeres.  

En cada capítulo centro las miradas en un hecho concreto, desde la manera tan propia que tienen sus personajes de seducir y ser seducidos hasta la manera de amar y ser amados. Del beso como entidad propia y fusionadora. De la visión que tienen del amor y del enamoramiento y el papel que juegan en este juego amoroso hombres y mujeres. De cómo viven el deseo, de cómo se materializa en un cuerpo concreto, de la importancia de la belleza y del ars amandi o el arte del acto sexual y sus peculiaridades. De cómo trata el fenómeno de la prostitución a través de los siglos y de la crítica feroz que hace a las agresiones hacia las mujeres. También me detengo en las rupturas, en las infidelidades y en la falta de amor.  

En definitiva un compendio de las habilidades del autor por acometer algo tan importante como reflejar, interpretar y posicionarse ante algo tan humano como el cuerpo sexuado. Cuerpo sexuado que se materializa en María de magdala y Jesus, en el pintor de cuadros, Adelina, Olga, la familia Maltiempo, Bilmunda y Baltasar, Marta y Marcial, Cipriano e Isaura, Tertuliano Máximo Afonso, Don José, la mujer del médico y tantos otros que llenan los párrafos de todas sus obras de una manera exquisita, de una manera vitalista que nos hace creer en sus personajes porque en todos ellos y ellas encontramos una parte, pequeña o grande, de nuestra propia biografía sexual.  

La estructura de cada capítulo se resuelve reflejando con grandes entrecomillados cada situación que merece la pena comentar, a modo de ejemplo, siguiendo todas y cada una de las novelas que escribió el autor. Se mantiene la estructura gramatical del autor en los diálogos y en su peculiar manera de escritura. En ocasiones, el mero ejemplo, sin interpretar, sirve para contextualizar, desde un ejercicio sexológico, las ideas y posicionamientos ante un hecho concreto. Porque partimos de la idea que, en gran parte de sus novelas, José Saramago, mantiene unos mismos esquemas, propios y originales, de entender el hecho sexual humano. 

INDICE GENERAL 
Preliminares 
I. La seducción
II. Los deseos, las fantasías y otros anhelos
III. El cuerpo, el pudor y la belleza
IV. El ars amandi
V. Algunas observaciones sobre los besos
VI. Sobre el amor
VII. Rupturas, infidelidades y faltas de amor
VIII. Violencias y otras brutalidades
IX. Sobre la prostitución
X. Los hombres y las mujeres"

(Capa da edição a ser lançada - FJS)


Notícia via Fundação José Saramago, que pode ser aqui consultada
em http://www.josesaramago.org/aprende-aprende-o-meu-corpo-sobre-o-amor-na-obra-de-jose-saramago-novo-livro-da-fundacao-jose-saramago/

"Aprende, aprende o meu corpo. Sobre o amor na obra de José Saramago é o título do próximo livro com chancela da Fundação José Saramago, que estará disponível na livraria da FJS a partir da segunda quinzena de fevereiro, antes de chegar às livrarias portuguesas.

Para além do ensaio de autoria de Óscar Aranda, com tradução de António Costa Santos, esta edição conta com um prefácio de Helder Macedo e um posfácio de Teresa Cristina Cerdeira.

Sobre o autor: Óscar Aranda nasceu em maio de 1974 em Ermua (Biscaia) e trabalha como sexólogo e técnico para a igualdade em diferentes localidades do País Basco. 
Da sua profissão e da admiração pela obra de Saramago nasce este texto onde se juntam o amor, os sentimentos, os desejos e o encontro entre sexos que o narrador procura e que faz palpitar homens e mulheres.

A frase que dá título ao livro foi retirada de O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago."