Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 9 de maio de 2020

"Uma pessoa da família" publicado em 1986 na revista "Status" e agora recuperada na edição #75 da revista "Blimunda" (Agosto de 2018)

O presente texto pode ser consultado e recuperado aqui

"Em 1986, a extinta revista brasileira Status publicou um texto de José Saramago sobre a relação de Portugal com a literatura brasileira e vice-versa. Naquela altura o escritor mantinha na mencionada publicação uma coluna intitulada Notas do Ultramar. Em 1998, dias após José Saramago ser proclamado Prémio Nobel de Literatura, a também brasileira revista Bravo! recuperou a citada crónica e publicou-a. Agora, 20 anos após essa segunda vida do texto cujo título é «Uma pessoa da família», chegou a vez da Blimunda divulgá-lo."

Revista Blimunda - Capa da edição # 75 - Agosto de 2018

"Dizia-me aquele português em São Paulo, ou, por maior rigor, de São Paulo, pois aí vive e trabalha e daí não pensar retirar-se, dizia-me ele sorrindo com a amizade que guarda e a ironia que ao acaso lhe parecia adequada. “Sabe você como já chama os brasileiro a Fernando Pessoa?”. Levantei um sobrolho perplexo e inquisitivo, esperei o fim da pausa retórica que, pelos vistos, o meu amigo queria prolongar, enfim acedi a entrar no jogo: “Chamam-lhe Fernando Pessoa, suponho”. O tom provocador que eu dera à resposta não lhe apagou o sorriso, e as palavras seguintes vieram tocadas por um certo ar de comiseração que ainda mais afiava a ironia: “Chamam-lhe grande poeta da língua portuguesa, pois então”. Compreendi onde ele queria chegar: “Não dizem grande poeta português?” E ele, empurrando a faquinha: “Cada vez se vai dizendo menos”.
Confesso que não gostei. O meu patriotismo literário ofendia-se com a ligeireza, a sem-cerimónia dos irmão brasis, ou primos, que, não pensando, obviamente, em discutir ou ignorar a grandeza do poeta, decidem escamotear-lhe a nacionalidade, tomando como fundamental, quem sabe, a própria sentença de Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Disse ao amigo que a atitude configurava forte abuso, que realmente o Brasil sofria de vertigem imperial e que, por esse andar, acabariam por levar-nos o próprio Luís de Camões, ou o Eça de Queiroz, e a Deus, graças por dos mais escritores portugueses conhecerem tão pouco. Exprimi um mau humor nacionalista porventura louvável, mas, logo o percebi, culturalmente pueril.
As coisas são o que são, serem-no é a sua irrefragável força, e a nós cabe-nos tentar compreendê-las, ajeitá-las, se possível, à oportunidade e ao interesse da ocasião, mas respeitando-as sempre, evitando sobretudo cair na tentação da avestruz, o que, na circunstância, seria fingir que as coisas, afinal, são outra coisa. Não estou a brincar com as palavras, pelo menos não mais do que o gosto de ordená-las ao longo de um pensamento para tentar exprimi-lo com a maior clareza possível. Se os brasileiros chamam a Fernando Pessoa de grande poeta da língua portuguesa é porque o admiram e respeitam, porque o desejariam seu. Bom proveito, então, lhes faça tanto mais que Fernando Pessoa é bastante grande para satisfazer dois países e povos, e ainda sobejar Pessoa. também eu desejaria que Manuel Bandeira fosse meu como igualmente desejaria que o fosse Antonio Machado, nascido aqui ao lado, em Espanha, e esse, provavelmente, é o único caso em que uma coisa dividida se tornará tanto maior quanto mais dividida estiver. Tomem pois os brasileiros, para si, a Fernando Pessoa, que não ficaremos mais pobres por isso. Pelo contrário. A cultura a que Fernando Pessoa pertence é a cultura da fala e da escrita portuguesa, aquela pátria única que ele, em palavras brevíssimas e lapidares, como convinha, definiu de uma vez para sempre.
Mas seria mais útil que nos entendêssemos quanto ao resto. Essa cultura de que a língua portuguesa é o veículo e o instrumento não principiou no dia 7 de setembro de 1822, quando a independência do Brasil foi proclamada. Para trás não ficavam o caos, o tempo das trevas, a brutalidade da ignorância. Para trás ficava, sim, um formigueiro cultural com quase 700 anos de trabalho miúdo e algumas grandes empresas. Usando a metáfora mais luminosa, de ar livre e céu aberto, a parte visível da cultura que diremos brasileira emerge e assenta, como parte visível de um iceberg, sobre a massa profunda da história e da cultura portuguesa. 
A cultura brasileira tem uma pré-história, e essa, dêem-lhe as voltas que entenderem é, e não pode deixar de ser, a cultura portuguesa. Levem-nos o Fernando Pessoa, mas não julguem que levam tudo com ele. Compete aos brasileiros, claro está, responder se proclamaram o nascimento de sua cultura na mesma data em que proclamaram a independência nacional, ou se reconhecem como também seu aquele remoto ano em que uma palavra se descobriu portuguesa, para, sendo história, começar a ser cultura.
Tranquilizai-vos, porém. Cuido saber dos fatos da vida o suficiente para não ceder à ingenuidade, senão à estupidez, de considerar as culturas brasileira e portuguesa como meramente e mutuamente complementares de um só corpo cultural, o que, por caminho tão vicioso, equivaleria a querer meter num saco de conflitos todas as culturas de língua portuguesa, a pretexto de uma história em parte comum, ainda que sombria e sangrenta, como tantas vezes o foi. Sou pouco de impérios, velhos ou novos. O Brasil e Portugal vão, cada um por seu pé, aonde tiverem de ir, chegarão onde puderem chegar, felizes ou apenas resignados. E não creio que, nas horas más, um possa ajudar o outro: hoje ninguém ajuda ninguém. Mas somos gente de uma imensa família, de uma mesma língua, de uma cultura que é, embora diferentemente, mesma. Se os brasileiros se recusam a aceitar essa evidência, se o dia 6 de setembro de 1822 é, para eles, anterior à criação do mundo, então façam o favor de nos devolver Fernando Pessoas."



sábado, 18 de abril de 2020

"A humanidade não merece a vida" José Saramago ao Folha de São Paulo - Brasil (29/11/2008)

Pode ser recuperado aqui


"JOSÉ SARAMAGO
A humanidade não merece a vida

Prêmio Nobel português se define como um "comunista hormonal" e afirma que os instintos servem melhor aos animais do que a razão aos homens

O ESCRITOR português José Saramago, 86, disse ontem que "a história da humanidade é um desastre" e que "nós não merecemos a vida". O autor, vencedor do Nobel de Literatura em 1998, participou de sabatina da Folha em celebração dos 50 anos da Ilustrada. O debate, assistido por 300 pessoas em um Teatro Folha lotado, teve como mediador o secretário de Redação do jornal Vaguinaldo Marinheiro. Participaram também, como entrevistadores, o crítico Luiz Costa Lima, a repórter da Ilustrada Sylvia Colombo e Manuel da Costa Pinto, colunista do caderno.

DA REPORTAGEM LOCAL

HUMANIDADE
A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar... Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinqüentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.

MARXISMO HORMONAL
Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo está errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa idéia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.

CRISE ATUAL
Marx nunca teve tanta razão quanto agora. O trabalho constrói, e a privação dele é uma espécie de trauma. Vamos ver o que acontece agora com os milhões de pessoas que vão ficar sem emprego. A chamada classe média acabou. Ou melhor: está em processo de desagregação. Falava-se em dois anos [para a recuperação da economia depois da crise financeira]; agora já se fala em três. Veremos se Marx tem ou não razão.

DEUS E BÍBLIA
Por que eu teria de mudar [a concepção de Deus após a doença]? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus não existe. Salvo na cabeça das pessoas, onde está o diabo, o mal e o bem. Inventamos Deus porque tínhamos medo de morrer, acreditávamos que talvez houvesse uma segunda vida. Inventamos o inferno, o paraíso e o purgatório. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle, não tanto das almas, porque à igreja não importam as almas, mas dos corpos. O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos. A Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos...

RELAÇÃO COM PORTUGAL
Espalham por aí idéias sobre minha relação com meu país que não estão corretas. Saímos [Saramago e sua mulher, Pilar] de Lisboa [para a ilha de Lanzarote] em conseqüência de uma atitude do governo, não do país nem da população. Mas do governo, que não permitiu que meu livro ["O Evangelho Segundo Jesus Cristo"] fosse inscrito num prêmio da União Européia. Nunca tive problemas com o meu país, mas com o governo, que depois não foi capaz de pedir desculpas. Nisso, os governos são todos iguais, dificilmente pedem desculpas. Fomos para lá e continuamos pagando impostos em Portugal. Agora temos duas casas. Mudei de bairro, porque o vizinho me incomodava. E o vizinho era o governo português.

ACORDO ORTOGRÁFICO
Em princípio, não me parecia necessário. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a idéia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontecem que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Perderíamos muito com a idéia de que o português é nosso, nós o tornaríamos uma língua que ninguém fala. Quando acabou o "ph", não consta que tenha havido uma revolução.

LITERATURA BRASILEIRA
Houve um tempo em que os autores brasileiros estavam presentes em Portugal, e em alguns casos podíamos dizer que conhecíamos tão bem a literatura brasileira quanto a portuguesa. Graciliano Ramos, Jorge Amado, os poetas, como João Cabral [de Melo Neto], Manuel Bandeira, essa gente era lida com paixão. Para nós, aquilo representava a voz do Brasil. Agora, que eu saiba, não há nenhum escritor brasileiro que seja lido com paixão em Portugal. Culpo a mim, talvez, por não ter a curiosidade. Mas também não temos a obrigação de descobrir aquilo que nem sabemos se existe.

LEITOR
O leitor me importa só depois que escrevi. Enquanto escrevo, não importa, porque não se escreve para um leitor específico. Há dois tempos, o tempo em que o autor não tinha leitores e o tempo em que tem. Mas a responsabilidade é igual, é com o trabalho que se faz. Agora, eu penso nos leitores quando recebo cartas extraordinárias. É um fenômeno recente. Ninguém escreveu a Camões, mas hoje há essa comunicação, essa ansiedade do leitor.

"Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir", disse alto, ao final da sabatina, uma integrante da platéia, enquanto Saramago terminava de falar."



sexta-feira, 4 de maio de 2018

1.º Colóquio de Estudos Saramaguianos (UFRN Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil de 13 e 15 de Junho)

Que enorme satisfação em divulgar todos os eventos e trabalhos realizados pelos "criadores" e Académicas e Académicos brasileiros, estudiosos da obra de José Saramago.

Bem Hajam estes nobres "Saramaguianos" que não deixam a obra e o autor "morrer"!!!!!



"Estão abertas as inscrições para o 1o Colóquio de Estudos Saramaguianos, que a UFRN vai sediar entre os dias 13 e 15 de junho. O evento marca os 20 anos da atribuição do Prêmio Nobel de Literatura a José Saramago. A conferência de abertura será da professora Teresa Cristina Cerdeira da Silva, da UFRJ. Informações e inscrições em




quinta-feira, 29 de março de 2018

Pilar del Río: "Cultura e feminismo são indissociáveis" ao "Portal Vermelho" (São Paulo - Brasil, 12/03/2018)

A entrevista de Verônica Lugarini para o "Portal Vermelho" (São Paulo - Brasil) de 12/03/2018 a Pilar del Río, pode ser recuperada e consultada aqui

"Companheira de anos do escritor português José Saramago, a jornalista, tradutora e presidenta da Fundação Saramago, Pilar Del Río conversou com o Portal Vermelho em sua passagem por São Paulo. Com opiniões fortes, Pilar falou sobre sua relação com a literatura: “Sou admiradora da generosidade sem limites que têm os escritores e as escritoras porque compartilham sua intimidade com os leitores”. E foi por essa admiração entre leitor e escritor que conheceu Saramago."

Pilar del Río: "Cultura e feminismo são indissociáveis"
Fotografia de Eduardo Zappia

"A presença de Pilar del Río no Tucarena em São Paulo tomou o espaço. Quando Pilar se levantou para falar, o silêncio e admiração se fizeram presentes. O evento aconteceu nesta última sexta-feira, 8 de março no Dia das Mulheres.

A voz suave e aveludada da companheira do já falecido escritor José Saramago (1922 – 2010) contrasta com as palavras fortes que carregam um discurso tanto político quanto poético. 

Com bom humor, começou dizendo o motivo pelo qual opta por falar apenas em espanhol, apesar de ter a tradução como ofício e ter vivido durante 22 anos com um português.

“Sou tradutora de português para espanhol, mas há uma maldição: os falantes de português nunca falarão espanhol e os falantes de espanhol nunca vão falar português. É impossível porque somos muito próximos e, portanto, sendo duas línguas tão próximas, é melhor que falemos nossas próprias línguas”, explicou Pilar.

Muitas vezes tratada como “viúva de Saramago” por jornalistas, Pilar é incisiva ao falar que viúva é uma palavra horripilante e que "não vivia com Saramago, vivia com o José".

A forma como Pilar e José se conheceram está à altura de romances, onde a escrita une dois amores que apenas esperavam pelo momento do encontro. 

A vida do casal rendeu o documentário intitulado José e Pilar (2010), onde Saramago conta: “Um dia de junho de 1986 telefona para minha casa em Lisboa, onde eu então vivia, uma senhora que dizia chamar-se Pilar del Río, de profissão jornalista, leitora minha e que queria, uma vez que viajaria a Lisboa, gostaria, se eu tivesse tempo, de conhecer-me. E eu disse que sim senhor".

Pilar o procurou porque gostava muito do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e queria agradecer o prazer da leitura. Entre um café e uma visita ao túmulo de Fernando Pessoa a conexão estava feita e ela não seria rompida até a morte do escritor. Ainda hoje o vínculo é forte, pois Pilar preside a Fundação Saramago, mantendo a obra e as lembranças do escritor para a posteridade. 

Este ato de agradecimento que a fez conhecer Saramago é característico da tradutora e foi lembrado durante a entrevista ao Portal Vermelho quando questionada sobre sua ligação com a literatura. 

“Na literatura o que sou é leitora e admiradora. Sou uma pessoa que toda manhã quando acordo sempre digo: ‘Cinco razões para ver’. Preciso encontrar razões para ir além. Como leitora sou admiradora da generosidade sem limites que têm os escritores e as escritoras porque compartilham sua intimidade com os leitores. Me situo como leitora simplesmente, não sou uma produtora de literatura”, afirmou.

Indissociável da vida do escritor desde que se conheceram, Pilar sempre esteve conectada a vida e obra de Saramago. Pilar traduziu os livros do autor do português para o espanhol e neles, Saramago sempre se referiu a Pilar forma carinhosa, deixando claro que a aguardava para “sentir a quarta dimensão do amor”. 

Em sua dedicatória do livro As Pequenas Memórias (2006), por exemplo, ele escreveu: " A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

Desde 1986, ano em que se conheceram, Saramago publicou 10 romances durante sua vida e em mais da metade deles as dedicatórias são para Pilar. Em A viagem do elefante (2008) ele diz: “A Pilar, que não deixou que eu morresse” e em Caim, último livro publicado em vida (2010), ele escreve: “A Pilar, como se dissesse água”.

"Imagem do documentário "José e Pilar", 
do diretor Miguel Gonçalves Mendes (2010)"

Espanhola nascida em Sevilha em 1950, Pilar é feminista, comunista e ateia e se expressou com fervor em uma data que representa as mulheres e a luta por igualdade de direitos.

“Se nós mulheres pararmos, o mundo para. Para seguir sua órbita, o mundo precisa da força das mulheres(...). Queria dizer que precisamos do feminismo, precisamos de educação e precisamos de cultura porque é isso que somos. Somos uma voz que não se pode silenciar porque estamos estudando e porque sabemos que nossas armas não são os tanques, os fuzis, ou as armas, mas a cultura. Pois, com a cultura podemos ir mais longe”, disse aos ouvintes. 

Ao Vermelho Pilar explicou mais sobre essa reflexão:

“Todos nós, e todas as mulheres, sabemos que temos a obrigação e o dever de nos instruir, pois uma pessoa instruída é menos manipulável. E nós, mulheres, não fabricamos filhos para a guerra, nem para morrer. Queremos filhos que tenham cada vez mais capacidade de defesa. Por isso, acredito que a cultura e o feminismo são indissociáveis”. 

Questionada sobre como vê o papel da escritora nesse ambiente cultural de empoderamento feminino que levou ao aumento de publicação de livros de mulheres, Pilar citou Virginia Woolf (1882 – 1941), escritora inglesa que trabalhou questões políticas, sociais e feministas em suas obras.

“Virginia Woolf escreveu uma conferência, já publicada, que nos ensina: ‘Se a mulher não tiver um quarto próprio [em referência ao livro Um teto todo seu], dificilmente poderá escrever’. Porque a história da literatura passada não é uma história que respeitou as mulheres. As mulheres não podiam escrever, ou seja, a escrita não era feita para elas, assim como a música, a pintura, a escultura e não nos era permitido pensar e também não éramos filósofas”. 

“Ultimamente, nós mulheres, estamos ocupando o espaço. Efetivamente, a literatura é algo que se faz entre o papel e a pessoa, logo [as mulheres] têm muito mais dificuldade para publicar e quando publicam, a crítica faz muito menos caso. As escritoras estão piores colocadas e isso não é uma opinião, isso é um dado constatado. Ainda assim, nós mulheres, estamos ocupando um espaço, estamos escrevendo considerações e reflexões. E eu acho isso fantástico porque faz com que saibamos que vamos navegando contra a corrente. Ser mulher continua sendo muito difícil, mas a cada dia [estamos] mais conscientes de quem somos e nos movemos mais”.

Ainda no universo da literatura, Pilar citou escritoras que admira e novamente apareceu o nome de Virginia Woolf.

“Virginia Woolf, que citei agora mesmo, por exemplo. Outro livro é Americanah que é absolutamente maravilhoso [da autora Chimamanda Ngozi Adichie] e estão aparecendo muitas mulheres portuguesas como Lídia Jorge e Agustina Bessa-Luís. Também gosto de Lygia Fagundes Teles. Há escritoras mulheres que são muito interessantes porque têm sempre uma perspectiva distinta”.

Política 

Ainda em seu discurso para o público, na maioria mulheres, Pilar destacou o papel das mulheres latino americanas.

"Pilar del Río durante seu discurso no Tucarena em 8 de março de 2018"

“Uma coisa que se repetia na manifestação e na passeata era: A América Latina será feminista. Por que até agora, as mulheres participaram pouco na construção deste continente e, talvez por isso, esse continente esteja mal. (...) Está tão mal porque sempre houveram elites que governavam (...), elites que não deixaram as mulheres governarem”.

E citou mulheres que hoje estão na política como Michelle Bachelet, presidenta do Chile e Cristina Kirchner, ex-presidenta da Argentina e Dilma Rousseff, ex-presidenta do Brasil que sofreu um impeachment, que chegou ao poder com a proposta de dar continuidade à eficácia do serviço público. Entretanto, ser mulher e ter características femininas pesaram na hora do impeachment.

“Minhas queridas, somos o futuro e temos direitos, todos, mas também temos uma obrigação que é salvar os nossos países porque temos que salvar a humanidade e precisa ser agora, não depois de amanhã. Vamos acabar já com o poder patriarcal”. 


terça-feira, 6 de março de 2018

HOJE!!!! INAUGURAÇÃO DA Exposição "Saramago os pontos e a vista" no "Farol Santander" São Paulo / Brasil


Mais informações aqui,

"OS PONTOS E A VISTA
Por José Saramago
De 06.03 a 03.06 de 2018 
Terça a Sábado das 9h00 às 19h00

Domingo das 9h00 às 17h00

19º e 20º andar
A proposta para a exposição SARAMAGO - Os Pontos e a Vista, se baseia no uso inédito de um rico acervo de materiais audiovisuais, criando uma vivência singular do ponto de vista de José Saramago em primeira pessoa.

A exposição pretende olhar para as diferentes dimensões de José, ampliando a compreensão que o público brasileiro tem sobre o autor português, um dos maiores legados da literatura contemporânea.

Saramago é popularmente conhecido pelas opiniões polêmicas, mas ao nos aproximarmos de seu universo podemos entender que suas opiniões vêm de uma reflexão profunda sobre as condições humanas e as relações de poder. É a força que carrega como cidadão, que permeia sua criação literária com um interesse genuíno pelo mundo e pelo ser humano.

Antes de se tornar escritor, José exerceu diversas atividades que o permitiram experimentar a vida a partir de diferentes pontos de vista. Esse acúmulo de perspectivas ajudou a formar seu modo único de enxergar o mundo.

A exposição é composta e estruturada por 15 vídeos, e sua expografia se desenvolve de forma modular, com uma pequena ambiência para cada vídeo.

Cada módulo é composto de um objeto cênico, uma vídeo-projeção e um pequeno texto explicativo, que vão costurando um panorama das diferentes dimensões do autor."

quinta-feira, 1 de março de 2018

"Alunos brasileiros criam jornal a partir de “As Intermitências da Morte”" Colégio Pró-Uni em Campos dos Goytacazes (Rio de Janeiro - Brasil 23/05/2017)

O trabalho pode ser recuperado e consultado através da página da Fundação José Saramago, aqui em
https://www.josesaramago.org/alunos-brasileiros-criam-jornal-partir-as-intermitencias-da-morte/

"Alunos brasileiros criam jornal a partir de “As Intermitências da Morte” (23/05/2017)

"Um grupo de alunos do colégio Pró-Uni, em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, criou um jornal a partir da leitura de «As Intermitências da Morte», de José Saramago. A atividade foi desenvolvida pelo professor Wendel Vasconcelos, da disciplina de redação e argumentação, e envolveu 12 alunos da Turma 101, do primeiro ano do ensino médio.

“O trabalho consiste em relatar o universo fictício da obra com verosimilhança, fazendo parecer com um verdadeiro jornal impresso. Todos os elementos apresentados no trabalho são baseados no livro e são de cunho exclusivamente escolar, sem intenções ou compromissos com a verdade”, explica Maria Clara Menezes, editora-geral do jornal criado pelos alunos.

O periódico editado pelos adolescentes brasileiros tem o nome de “Folha Lusa”, está dividido em secções como Opinião, Entrevistas, Segurança, Social, Entretenimento e Cartas, e pode ser descarregado aqui."









sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O Teatro Molière (Salvador da Bahia - Brasil) apresentou "Em Busca da Ilha Desconhecida" inspirado em José Saramago (Outubro 2017)

Chegaram relatos da apresentação da peça de teatro "Em Busca da Ilha Desconhecida" baseada no conto de José Saramago.

Foi apresentada a peça no passado mês de Outubro e pode ser recuperada informação através do portal "bahia.ba", (05/10/2017) aqui
em http://bahia.ba/entretenimento/moliere-recebe-peca-em-busca-da-ilha-desconhecida-para-dia-das-criancas/

"Molière recebe ‘Em Busca da Ilha Desconhecida’ para dia das crianças
Inspirado em José Saramago, musical traz o laço cultural entre Nordeste e a Europa Ibérica"



"Hoje tem Teatro para crianças inspirado em conto de Saramago! 
Programa para toda a familia!!! #embuscadailhadesconhecida
#teatromolieresalvador #teatroparacriancas #culturadainfacia "

Foto: Ives Padilha

"O feriado do dia das crianças se aproxima e os pais em busca de um programa alternativo podem encontrar no Teatro Molière, da Aliança Francesa, um refúgio. O palco dará espaço à peça “Em Busca da Ilha Desconhecida”, texto de José Saramago (“Ensaio Sobre A Cegueira”) para o público infantil.

O espetáculo leva o público para embarcar em busca da “ilha desconhecida”, pedaço de terra além do alcance dos geógrafos de um reino remoto. Com o uso de canções originais, a encenação é um olhar para a cultura iberonordestina. O texto já foi montado no Teatro Vila Velha e no Sesc Senac Pelourinho."

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Aquisição da edição #4 da revista "Calibán" (2001 - Brasil)


Cláudio Aguiar entrevista José Saramago


Fica o testemunho dos principais assuntos, desta espécie de entrevista a que oportunamente voltarei!

"Imaginação e Estética
Como repensar o passado
Os destinatários da obra literária
As influências herdades
Os anos perdidos
A farsa absurda da desordem
Primeiro viver, depois escrever?"


sábado, 13 de agosto de 2016

"Pilar del Río diz estar no Brasil por ‘dever cívico’" - Entrevista por ocasião da visita à FLIP em Paraty (01/07/2016)

Em Paraty pela primeira vez, viúva de Saramago prepara edição ilustrada por J. Borges

SC - EXCLUSIVO - PARATY RJ - FLIP 2016 - 01/07/2016 - Pilar del Río na Casa Cais. 
Foto: Barbara Lopes | Agencia O Globo - Agência O Globo

Recuperação da entrevista concedida ao "O Globo", aqui 
em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/pilar-del-rio-diz-estar-no-brasil-por-dever-civico-19631863

PARATY - Pilar del Río, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”, como escreveu certa vez numa dedicatória o português José Saramago (1922-2010), seu marido nos últimos 22 anos de vida, tardou a chegar, é bem verdade, não só à vida do escritor, como à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Apesar dos inúmeros convites da organização do evento e da homenagem da festa feita ao escritor no ano da sua morte, em 2010, a jornalista e “presidenta” da Fundação Saramago nunca havia conseguido ir a Paraty. Esta é a primeira vez, e Pilar participa da programação da Casa Cais, que neste ano funciona como uma embaixada afetiva da língua portuguesa na cidade, idealizada e dirigida pela compositora Luana Carvalho.

Com a participação de nomes como o escritor angolano José Eduardo Agualusa, o artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos, o escritor e professor de Letras da PUC-Rio Fred Coelho, o cineasta português Miguel Gonçalves Mendes e os cantores Marina Lima e Pedro Luís, o espaço vai abrigar debates e apresentações gratuitas até amanhã. Pilar conversa hoje com a jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro, às 15h30m, e depois exibe o filme “José e Pilar”, de Gonçalves Mendes.

Ao GLOBO, Pilar conta que está envolvida num projeto especial: um grande encontro, póstumo e inédito, “entre os dois Josés”, Saramago e o artista brasileiro José Francisco Borges. Ideia de um editor argentino radicado em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, a crônica fantástica “O lagarto”, escrita por Saramago em 1972 (texto em que o autor vislumbra uma flor vermelha caída no Chiado, e a Revolução dos Cravos só aconteceria em Portugal dois anos depois), ganhou xilogravuras exclusivas do artista pernambucano, que, aos 81 anos, abriu uma exceção para fazer esse trabalho, “que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.

É a sua primeira vez na Flip, apesar de convites e homenagens em edições anteriores. Por que vir só agora?
Este é um ano muito particular. Vir ao Brasil, estar com pessoas que respeito e que não querem retroceder em direitos adquiridos, na educação, na cultura, nos valores partilhados, na liberdade, em suma, considero-o um dever cívico. Uma festa de cultura não pode viver arredada da realidade. Luana Carvalho e a Casa Cais convidaram-me a participar, e decidi aceitar. Será uma ocasião para voltar a falar de José Saramago e da necessidade que temos de continuar a ler os seus livros.

De que forma é possível aproximar ainda mais as literaturas de Portugal e Brasil? Apesar de compartilharem a língua, por que ainda há muitas lacunas de conhecimento entre ambas?
Os cidadãos, os leitores, nós, somos aqueles que aproximam as duas culturas, literaturas, formas de lidar com o idioma. É obrigação dos estados mostrar o que se vai fazendo, abrir as portas. Mas as pontes são construídas por nós, peça a peça, livro a livro, palavra a palavra. Lacunas... Muitas vezes devem-se a processos empresariais, editoriais, mais do que tudo.

A aproximação Brasil-Portugal permite uma infinidade de livros. Como “O lagarto”, que refresca a crônica de José Saramago com xilogravuras exclusivas de J. Borges. Como surgiu a ideia do livro?
Surgiu por proposta de um editor argentino, que vive há muitos anos em Barcelona, Alejandro García Schnetzer, que já havia feito um livro com um texto de Saramago e ilustrações de Manuel Estrada chamado “O silêncio da água”. A ideia foi pegar um texto publicado anteriormente, que tivesse autonomia e que permitisse ser ilustrado. Ficamos muito contentes com a resposta positiva do J. Borges, que abriu uma exceção e aceitou ilustrar esse texto de José Saramago, e pensamos que é um diálogo muito enriquecedor o que se estabeleceu entre os dois “Josés”.

Quando deve ser publicado no Brasil?
Não consigo adiantar uma data para já, isso depende da Companhia das Letras, editora que publica a obra de José Saramago deste lado do Atlântico, mas pensamos que será muito em breve. Em Portugal, haverá uma exposição com as xilogravuras em Óbidos. A apresentação mundial será feita no contexto do Folio, o festival literário de Óbidos, em setembro. Aparecerá então uma primeira edição do livro, que sairá em várias línguas nos próximos meses.

O que há de especial nesse texto?
É um texto publicado em 1972 no livro “A bagagem do viajante”, que pode ser lido por jovens e adultos e que, tal como outros textos de José Saramago, encontra ainda hoje, mais de 40 anos depois da sua publicação, novas leituras atuais. Tal como, por exemplo, em “A maior flor do mundo”, trata-se de um José Saramago que não faz concessões facilitistas e cria um texto em que dialoga com o universo dos contos de fadas, com o fantástico, a partir da história de um lagarto que passeia pelas ruas do Chiado, em Lisboa.

O que a senhora gostaria de fazer em Paraty: tem alguma mesa de debates em que está especialmente interessada, algum autor que queira conhecer, algum passeio que queira fazer?
A minha vontade é ser apanhada pela surpresa. O que implica o risco de não gostar. Ou seja, mais do que procurar os autores que gosto de ler, procurarei aqueles que ainda não li ou cujo pensamento conheço menos bem. Mas confesso que tenho uma especial curiosidade em relação às vozes femininas, tantas vezes esquecidas, descuradas... Além de imergir na poesia da homenageada deste ano (Ana Cristina Cesar), quero sentir a força de mulheres não recatadas, que fazem do mundo inteiro o seu lar, na cultura e na sociedade.

domingo, 7 de agosto de 2016

Cia dos Náufragos estreia ‘A Ilha Desconhecida’, baseada em conto de José Saramago - Campinas SP Brasil (5 e 6 Agosto)

A notícia pode ser recuperada e acedida, aqui
em http://cartacampinas.com.br/2016/08/cia-dos-naufragos-estreia-a-ilha-desconhecida-baseada-em-conto-de-jose-saramago/



"Nos próximos dias 5 e 6 de agosto, sexta e sábado, a Cia dos Náufragos estreia seu novo espetáculo de teatro de rua “A Ilha Desconhecida”, baseado no conto homônimo do autor José Saramago, na Estação Cultura de Campinas.

O espetáculo reconta através de uma trupe de atores/marinheiros uma simples história: um Homem vai à procura da Ilha Desconhecida, com a convicção de que só se conheceria quando na ilha estivesse. Também é a história de uma Mulher que, por intermédio do destino, têm sua vida entrelaçada à do Homem. Uma inusitada jornada repleta de diversos obstáculos, um rei despótico e sua política de favores, ferozes burocratas, marinheiros incrédulos e uma inesperada companheira de viagem.

Uma alegoria da nossa busca pelo sentido do mundo e uma sátira da situação do mesmo. Livremente inspirada na obra de José Saramago.

A Cia dos Náufragos foi criada em 2012 na cidade de Campinas pelos atores formados no curso de Arte Cênicas da Unicamp Cristiane Taguchi, Miguel Damha, Renan Villela e pelo violonista, percussionista e compositor Rodrigo Lima. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Ficha Técnica
A ILHA DESCONHECIDA, Cia dos Náufragos
DRAMATURGIA: O grupo, livremente inspirado no “Conto da Ilha Desconhecida” de José Saramago e A invenção de Ulisses, de Jorge de Lima
DIREÇÃO : Moacir Ferraz
ELENCO: Cristiane Taguchi, Miguel Damha, Renan Villela, Rodrigo Lima
PREPARAÇÃO VOCAL : Renan Villela
TRILHA ORIGINAL: Rodrigo Lima e Renan Villela
FIGURINO: Laura Françozo
CENOGRAFIA: Thalita Castro
CENOTECNICA: Erico Daminiele
ARTE GRAFICA: Renan Villela
FOTOGRAFIA: Maycon Soldan

A Ilha Desconhecida, Cia dos Naufragos
Data: 05/08 às 20h, 06/08 às 17h
Local: Estação Cultura – Praça Mal Floriano Peixoto, Campinas – SP
Entrada gratuita"

sábado, 6 de agosto de 2016

José Saramago e o titulo Doutor Honoris Causa pela UFMG - 1999 (via Revista de Estudos Saramaguianos)

Créditos da imagem para a Revista de Estudos Saramaguianos
Via conta Twitter em https://twitter.com/saramaguianos

"Rara brochura com discurso de José #Saramago de quando recebeu o 
Doutor Honoris Causa pela UFMG em 1999." 

O titulo Doutor "Honoris Causa" foi proposto pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e atribuído em 29/04/1999

"Saramago recebe título de Doutor Honoris Causa"

"Num auditório lotado por cerca de 400 pessoas, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, recebeu, no dia 29 de abril, das mãos do reitor Sá Barreto, o título de Doutor Honoris Causa da UFMG, a mais importante honraria concedida pela instituição. "Não é ao Prêmio Nobel que queremos homenagear, mas ao autor do Memorial do Convento, do Evangelho Segundo Jesus Cristo e de Todos os Nomes, à pura voz da dignidade humana em língua portuguesa", disse o Reitor, na abertura da solenidade realizada no auditório da Reitoria. 
A cerimônia foi prestigiada pelo cônsul de Portugal em Minas Gerais, Silvino Ferreira Leite, pela secretária de Estado da Educação em exercício, Maria José Vieira Félix, representando o governador Itamar Franco. Participaram também o secretário de Governo da Prefeitura de Belo Horizonte, Paulo Lott, o ex-reitor da UFMG, Aluísio Pimenta, o secretário municipal de Cultura, Arnaldo Godoy, e o estadual, Angelo Oswaldo. A vinda do escritor José Saramago a Belo Horizonte foi viabilizada pelo Projeto Sempre Um Papo, coordenado pelo jornalista Afonso Borges. 
Sá Barreto disse que a vinda de Saramago à Universidade marca um dos momentos mais significativos da Agenda Brasil 500 Anos, lançada em janeiro pela UFMG para comemorar os cinco séculos do descobrimento do país: "José Saramago dela participa portando a mais legítima e poderosa das armas, a de seu testemunho humanístico e literário, que passou à condição de patrimônio comum dos homens".

Momento dos discursos elogiosos na atribuição do titulo  

Desejo 
O escritor foi saudado pelo professor da Faculdade de Letras e diretor da Editora UFMG, Wander Melo Miranda. Ele lembrou que a outorga do título de Doutor Honoris Causa ao autor, proposta pela Congregação da Faculdade de Letras, traduz o desejo da comunidade universitária que ama seus livros, "companheiros no sempre renovado ofício de aprender e ensinar - de viver, em suma". 
Pontuado por trechos de livros do escritor, o discurso de Melo Miranda lembrou que a obra de Saramago, em especial Todos os Nomes, representa uma indagação aos limites da solidão humana e sua capacidade de superá-la. 
"É por ter-se dedicado a avançar, com tanta paixão e rigor, no escuro e no claro de todos nós, que lhe rendemos esta necessária e justa homenagem", justificou, ao final da saudação. 
Em sua explanação, marcada por uma reflexão sobre o papel do autor, Saramago disse estar profundamente grato pela honra de ser acolhido pela UFMG e afirmou que procurará ser digno dela e não desmerecer jamais "do vosso bom juízo, graças ao qual se me abriram as portas desta casa, que a partir de agora considerarei também minha", finalizou.

Imagem da plateia repleta

Música 
Um dos destaques da cerimônia foi a apresentação do quinteto de metais Itarratan, da Escola de Música. O grupo executou os hinos nacionais do Brasil e de Portugal. Uma particularidade, ignorada pela maioria dos participantes da cerimônia, marcou a apresentação do hino de Portugal: a ausência da partitura. 
"Conseguimos a melodia na Biblioteca da Música e ouvimos um CD-ROM que continha o hino português para conhecermos os arranjos e fazer uma adaptação mais próxima do original. Acho que nos saímos bem", afirma o professor Anor Luciano Júnior, coordenador do quinteto. 
Após a cerimônia, a Faculdade de Letras ofereceu coquetel para 200 pessoas, no 4º andar da Reitoria."

O boletim da UFMG, elaborou vários artigos de destaque à atribuição deste titulo. 

"Pessimismo marca obra do escritor"
"Aos 76 anos, Saramago tornou-se o primeiro escritor de Língua Portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Ele é um pessimista confesso, traço que marca toda a sua obra. "Sou feliz num mundo triste e pessimista, onde os otimistas são poucos. Eles estão contentíssimos porque acreditam que o mundo é tão bom que não precisa de mudança", disse o escritor, em outubro do ano passado, ao saber de sua escolha para o prêmio da Academia Sueca. 
Filho e neto de agricultores pobres, José Saramago de Souza nasceu na aldeia portuguesa de Azinhaga, no Ribatejo, em 1922. Mudou-se com a família para Lisboa dois anos depois. Por falta de condições financeiras, abandonou a escola para trabalhar como mecânico. Foi desenhista, editor, tradutor e jornalista sem jamais ter freqüentado uma universidade. 
Em mais de 50 anos de carreira, Saramago publicou 25 livros, entre romances, poesias, crônicas e contos. Seu primeiro livro, Terra do pecado, foi lançado em 1947, mas somente em 1980, quando publicou Levantado do Chão, o escritor começou a ganhar notoriedade. Em 1982, o best-seller Memorial do Convento o projetou para além das fronteiras de Portugal. O êxito internacional se firmou em 1986, com Jangada de Pedra, uma parábola sobre as relações de Portugal e Espanha com o resto da Europa. 
Nos anos 90, Saramago se consagra definitivamente como um dos maiores escritores contemporâneos ao lançar O Evangelho segundo Jesus Cristo, versão romanceada da vida de Cristo, e Ensaio sobre a cegueira, um libelo contra a intolerância. O conjunto da sua obra já foi traduzido para 25 idiomas.

Militante 
Em seu parecer para a Comissão de Legislação do Conselho Universitário, o relator Célio Celso destaca inúmeras honrarias que atestam o reconhecimento internacional da obra literária de Saramago, entre elas a de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras Francesas e os títulos de Doutor Honoris Causa das universidades de Turim (Itália), Sevilha (Espanha) e Manchester (Inglaterra). 
Intelectual engajado nos movimentos de esquerda, Saramago é militante histórico do Partido Comunista Português. "Serei sempre comunista", costuma dizer toda vez que indagado sobre a sua opção ideológica. Há dois anos, abraçou a causa dos sem-terra brasileiros ao prefaciar um livro co-editado pelo fotógrafo Sebastião Salgado e pelo músico Chico Buarque.

Drummond disse ter sido alvo de "honraria indevida"
O escritor Carlos Drummond de Andrade foi protagonista de uma verdadeira novela em torno da entrega do título de Doutor Honoris Causa. Por unanimidade, Drummond foi indicado pelo Conselho Universitário para receber o título em março de 1973. O então reitor Marcelo Vasconcellos Pinheiro encaminhou ofício ao escritor, sugerindo que ele escolhesse a data da homenagem. 
No mês seguinte, Drummond enviou uma resposta na qual já demonstrava certa resistência a receber o título: "Devo confessar que o propósito manifestado por essa nobre instituição cultural despertou em mim a sensação de ser alvo de uma honraria indevida". 
E justificou: "Nenhuma falsa modéstia inspirou esta afirmação. Ela é antes motivada pela concepção, que tenho, da importância e especificidade da missão universitária". Ao final da mensagem, pediu à UFMG que aguardasse "ocasião propícia" para formalizar a entrega, alegando que sua saúde o impedia de viajar a Minas naquele momento. 
Em 1987, por ocasião das comemorações dos 60 anos da UFMG, o então reitor Cid Veloso pretendia enviar ao Rio de Janeiro uma comissão especial do Conselho Universitário para, enfim, entregar o diploma a Drummond. Mas a morte do escritor, em agosto daquele ano, impediu que a novela tivesse final feliz.

Ao lado de Drummond e Niemeyer
Da ilha de Lanzarote, na Espanha, onde mora, José Saramago enviou um fax ao reitor Sá Barreto aceitando o convite para ser o próximo Doutor Honoris Causa da UFMG. No texto de oito linhas, datado de 12 de março, o escritor manifestou satisfação por figurar ao lado de Drummond e Niemeyer na seleta lista de agraciados com o título: 
Não preciso sublinhar quanto me honra a atribuição do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Minas Gerais. Saber que o meu nome vai ficar ao lado dos nomes de Carlos Drummond de Andrade (de quem tão injustamente a Academia Sueca não se lembrou para o Nobel...) e de Oscar Niemeyer (de quem sou amigo e a quem tanto admiro) é algo que nunca esteve entre as minhas mais ousadas esperanças. Devo ao Reitor e ao Conselho Universitário da UFMG essa profunda alegria. Espero poder corresponder sempre, em dignidade e em fidelidade, à honra que se me faz."

domingo, 24 de julho de 2016

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" de Isabel Coutinho (jornal Público - 22/07/2016)

"Uma casa portuguesa na FLIP de Paraty?" - de Isabel Coutinho (jornal Público, 22/07/2016)

"Na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, 
com os portugueses que estiveram na última edição, lançaram-se ideias para o futuro."

O artigo de Isabel Coutinho, publicado no jornal Público, pode ser recuperado e consultado aqui em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/uma-casa-portuguesa-na-flip-de-paraty-1739162

A sessão na FLIP em que participou Ricardo Araújo Pereira
Fotografia: Walter Craveiro / FLIP

"A ideia de propor que o escritor homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) seja, no próximo ano, o Prémio Nobel português José Saramago (1922- 2010) ou, caso isso não seja concretizável, conseguir pelo menos que haja uma Casa Portuguesa José Saramago durante o evento em Paraty, foi anunciada na sessão Depois da Flip – uma conversa sobre a festa literária de Paraty, que no final da tarde de quinta-feira decorreu na Fundação José Saramago, em Lisboa, e reuniu alguns dos portugueses que estiveram na 14.ª edição do festival, no final de Junho.

“Era bom até que ao mais alto nível se montasse uma estratégia para se ter uma embaixada na FLIP e ali apresentarmos a nossa cultura”, lançou Paulo Ferreira, consultor editorial da Booktailors, que pediu permissão a Pilar del Río, da Fundação Saramago, para revelar ali a ideia que tinham tido em Paraty, onde estiveram pela primeira vez na festa literária que é a referência nos festivais de língua portuguesa e não só. “Uma casa José Saramago que sirva de montra do que se faz na literatura portuguesa" e que ajude à relação entre os dois países, acrescentou Tito Couto, também da Booktailors.

José Saramago nunca participou na FLIP,  apesar de ter sido convidado para ir a Paraty. Mais tarde, no ano em que morreu, em 2010, a festa literária brasileira homenageou-o numa das suas mesas, apresentando em estreia excertos do documentário José & Pilar e uma conversa com o realizador Miguel Gonçalves Mendes. Nessa altura Pilar voltou a ser convidada mas considerou que “era demasiado cedo” e não foi.

Este ano a presidente da Fundação Saramago participou na programação paralela da FLIP a convite da Casa Cais, da cantora e produtora brasileira Luana Carvalho. Tal como participaram a jornalista Anabela Mota Ribeiro e o escritor José Eduardo Agualusa, que estiveram no evento na condição de curadores do Folio- Festival Literário Internacional de Óbidos, que vai ter a sua segunda edição de 22* de Setembro a 2 de Outubro. O festival português estabeleceu uma relação com a Casa Cais que virá depois ao Folio com uma embaixada que trará Luana Carvalho e ainda a poeta carioca Alice Sant'Anna, o músico Pedro Sá e uma exposição do músico e artista visual Domenico Lancellotti que estava na casa em Paraty.

"Foi estupendo ter ido este ano", disse Pilar del Río que mesmo antes de partir já entendia a FLIP como algo muito português, não só pela cobertura na imprensa, como pelos relatos das pessoas que por lá passavam. " Paraty parecia profundamente português, embora estivesse do outro lado do Oceano. Era como se fosse algo nosso." No entanto foi uma surpresa. "Por um lado reúnem-se milhares de pessoas por causa da literatura. Por outro, é um projecto económico, cultural, um projecto de moda" com o qual podemos  aprender muito e ver como promover literatura ou produtos culturais em Portugal.

A editora da Tinta-da-China Bárbara Bulhosa, que já assistiu a cinco edições da festa, todos os anos contrata algum autor que descobriu em Paraty. A editora, que está também a publicar no Brasil, acaba de lançar especialmente para aquele país a colecção Grandes Escritores Portugueses, que se iniciou com Os Passos em Volta, de Herberto Helder, Breviário do Brasil, de Agustina Bessa-Luís, e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Antero de Quental. E outros autores, como Eduardo Lourenço, se seguirão. O projecto é financiado pelo Instituto Camões, pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, e pelo Turismo de Portugal, o que lhe permite não perder dinheiro. 

“Enquanto editora, foi fundamental a ida à FLIP, porque no primeiro ano em que abri a Tinta-da-China Brasil a Dulce Maria Cardoso foi a autora portuguesa convidada. Vendemos muitos livros e foi muito importante para a editora”, explica. Seguiram-se Almeida Faria, Alexandra Lucas Coelho, Matilde Campilho (que no Brasil tem outra editora) e, este ano, Ricardo Araújo Pereira. Apesar de a festa concentrar naqueles dias grande parte da elite intelectual brasileira, Bárbara lembrou que é composta de "público que lê" e de "público que sabe que há ali uma festa". “A organização não é elitista” e “somos sempre muito bem recebidos”.

Tito Couto lembrou que “falamos da FLIP como se fosse um festival”, mas na realidade “são 15 festivais”, além “da programação oficial com espaço próprio, a Tenda dos Autores, com centenas largas de pessoas e cá fora outras tantas a assistir pelos ecrãs”, e “na própria cidade há umas quinze casas” geridas por editoras, jornais ou associações de editoras que também têm programação de manhã à noite, com debates sucessivos. “As casas estão cheias com plateias de 40 a 50 pessoas, é-se completamente submerso em ofertas de debates do mais variado tipo. A própria atitude de quem vai para a FLIP está mais próxima do ambiente dos Santos [populares] do que de um festival literário.”

Ricardo Araújo Pereira como convidado deste ano, entre a Prémio Nobel da Literatura, Svetlana Alexievich e o norueguês que vendeu milhões de livros, Karl Ove Knausgård, achou que é bizarro estar lá ao lado deles. Apesar de Anabela Mota Ribeiro que moderava a conversa ter dito que o humorista português “deu show de bola”, como diriam os brasileiros, este sentiu-se como se estivesse num daqueles puzzles que na Rua Sésamo se costumava apresentar às crianças com uma banana, uma laranja, um sapato e a pergunta: “O que está mal aqui?”: “A minha experiência é ser o sapato em todos os sítios em que estou”, fez rir a plateia Ricardo Araújo Pereira.

Mas é isso que atrai em Paraty, além de aquele lugar ser extraordinariamente bonito. “Há também uma coisa em Paraty que não encontrei em mais nenhum sítio, a expectativa de que as mesas, mais do que uma conversa entre autores que estão a falar das coisas que escrevem, seja uma performance: há a expectativa, no público e até nos jornalistas, de no fim se decidir quem é que cortou duas orelhas e um rabo, quem saiu vitorioso de uma espécie de contenda", diz o humorista.

 “Os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, sentimos isso também com as vendas que conseguimos”, diz Tito Couto. A empresa, que organiza acontecimentos literários, faz agenciamento de escritores e tem uma área de consultadoria para editores, está há cerca de um ano e meio com a estratégia de colocar os seus autores no mercado brasileiro, tendo conseguido a publicação de 13 autores portugueses naquele país, num total de 25 obras já lançadas ou a lançar durante o ano de 2017.

Na Companhia das Letras será publicado o Prémio José Saramago 2015, Bruno Vieira Amaral, com o romance As Primeiras Coisas bem como uma nova tradução de Frederico Lourenço - sabe-se apenas que se trata de uma das mais importantes obras da História - que será anunciada em breve, saindo primeiro em Portugal e depois no Brasil. Também Teolinda Gersão vai ver A Cidade de Ulisses e Os Anjos, na editora carioca Oficina Raquel, que já publicou Maria Teresa Horta, e onde Mário Cláudio irá também editar Retrato de Rapaz e O Fotógrafo e a Rapariga. Luís Aguilar, com Mourinho Rockstar, na Grande Área, e Jogada Ilegal, na Gryphus, editora que tem publicado vários livros de José Eduardo Agualusa. E Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida, na Rovelle. Noutras editoras serão publicadas ainda obras de Ana Cristina Silva, Maria Conceição Caleiro, Miguel Real, Joel Neto, Miguel Miranda e Pedro Vieira.

Corrigidas as datas em que se vai realizar o Folio, é a 22 de Setembro que se inicia o festival e não a 28"

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"O nariz de Saramago" de Marcelo Lazzaratto (Ilustríssima - Folha de São Paulo / Brasil - 08/05/2016)


(Foto de Marcelo Lazzaratto - Elenco da Companhia do Elevador do 
Teatro Panorâmico com a companhia de José Saramago, 
aquando da encenação da peça de teatro "A Ilha Desconhecida", 
no Teatro TBC (São Paulo / 2001) 


Pode ser recuperada e consultada, aqui 
em http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/05/1768527-o-nariz-de-saramago.shtml?cmpid=compfb

De Marcelo Lazzaratto (08/05/2016)

"Ah! as convergências! O teatro, por ser uma arte coletiva, é um terreno fértil para elas. Momentos de convergência geralmente são contundentes e intensos. Às vezes são felizes. Outras não.

Em 2000, minha companheira, então grávida, me mostrou "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago.

Li esse pequeno grande livro naquele mesmo dia e, como por encanto, visualizei/imaginei/senti toda a encenação de um espetáculo teatral para crianças.

A cidadela, o castelo, as portas, a população, o porto e o barco; a movimentação dos atores, a dinâmica da narrativa, tudo se materializava em minha mente com muita clareza. Inspiração e êxtase se fundiam em meu corpo.

Àquela altura, acabava de criar, junto de atores que iniciavam sua carreira profissional, a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, e nos colocáramos como uma de nossas metas a criação de um espetáculo infantil. É claro que propus a eles que montássemos o conto do Saramago. Outras ótimas ideias, outros temas, outros livros apareceram e, depois de avaliações e debates, Saramago venceu.

Optamos por assumir o risco de trazer aos palcos um texto não dramatúrgico de um autor consagrado mundialmente, porém direcionado às crianças. Um risco enorme para uma grupo de teatro que dava seus primeiros passos. Se errássemos a mão, poderíamos ser tachados de pretensiosos e inconsequentes.

Escrevemos rapidamente um projeto, pois havia um edital aberto para temporada na sala pequena do Teatro Sérgio Cardoso, e fomos aprovados. Mas, quando soubemos, só tínhamos um mês para realizar o espetáculo. Não tínhamos verba para produção. Não tínhamos nenhum apoio cultural. Tínhamos o desejo e a vontade imperiosa de fazer teatro: românticos e pertinazes. Tínhamos um belo tema nas mãos e queríamos trazê-lo a público do nosso jeito: alegres e metidos!

Desde o início, trazia a certeza de que a nossa adaptação não facilitaria a linguagem de Saramago visando o universo infantil. Sentia que deveríamos preservar a linguagem e as construções filosóficas ricamente por ele sintetizadas. Não as "traduziríamos" previamente às crianças.

Já estávamos em 2001 e, em meio, a todo processo de produção nasce nossa filha Chiara. Em três semanas, mão no bolso-dinheiro na mão, empenho e criação, estreia "A Ilha Desconhecida". Sem nenhuma divulgação, formadores de opinião e críticos compareceram no primeiro fim de semana e já na semana seguinte começam a surgir críticas e comentários extremamente favoráveis à montagem.

A primeira temporada se encerra. Optamos por assumir outro risco: resolvemos alugar a Sala Assobradado do TBC acreditando no dinheiro da bilheteria. E surpreendentemente tínhamos casa cheia em uma sala com o dobro de lugares. Mas outra agradável surpresa nos aguardava.

Soubemos que Saramago estaria em São Paulo. Entramos em contato com ele e o convidamos, temerosos e ao mesmo tempo destemidos, para assistir ao espetáculo. Ele, muito cortês, aceitou.

Fomos buscá-lo no hotel. Com Chiara no colo, vejo Saramago sair do elevador e, a passos largos, se aproximar de nós. Um "olá" meio sem jeito e, de repente, eis que a bebê, com sua mãozinha de sete meses, aperta o nariz de Saramago. Pronto. Sorrisos. Derretimento, a sem-gracice se foi. O afeto venceu. Como na ilha.

Chegamos ao TBC. A conversa fluía solta, os atores se preparavam, comoção geral, coração na boca. Saramago nos assistiria.

Na plateia, sentado a seu lado, mal me lembro do que pensava, do que sentia. Estava em pura suspensão e suava em bicas.

Durante a peça, fazia força para perceber o que ele estava achando, mas não queria dar na cara.

A peça termina. No meio do aplauso, Saramago de pé, levanta os braços e pede um instante de silêncio. Todos se sentam. Grande expectativa, os atores no palco, eu ao lado dele, o público calado e ele no meio da plateia, diz a todos: "Penso que, por ter assistido a essa pequena maravilha, valeu a pena ter escrito o conto".

"MARCELO LAZZARATTO, 49, é diretor artístico da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico e professor de artes cênicas da Unicamp. Dirige a peça "Sala dos Professores", em cartaz no Espaço Elevador, em São Paulo, até 29/5."