Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Visita à Delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga - Golegã

Visita à Delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga - Golegã

Delegação de Azinhaga
Largo das Divisões
Azinhaga
2150-008 Golegã
azinhaga@josesaramago.org
Tel. ( 351) 249 957 032








 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Assinalamos a data! Viva o Dia Mundial do Livro

Fotografia tirada na Fundação José Saramago em Agosto de 2012


Fotografia composta "Levantado do Chão" e alianças

Cartaz alusivo ao Dia Mundial do Livro (de Mariana Rio)


sábado, 18 de abril de 2020

Carta Universal de Deveres e Obrigações dos Seres Humanos

Carta Universal de Deveres e Obrigações dos Seres Humanos

(...) "Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reinvindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor." (...)
José Saramago
#ContinuarSaramago



Palavras expressas por Saramago aquando da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Literatura coincidindo com o 50.° aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos


terça-feira, 2 de outubro de 2018

"Programa - 20 anos do Prémio Nobel a José Saramago" - FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

"Programa - 20 anos do Prémio Nobel a José Saramago"




"No dia 8 de outubro de 1998 José Saramago tornou-se o primeiro, e até agora único, Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa. Agora, passadas duas décadas, uma série de iniciativas pretende recordar esse momento histórico para a literatura lusófona, celebrando o Prémio e o Escritor que o recebeu.
A Fundação José Saramago organiza ou co-organiza várias dessas actividades, tanto em Portugal como noutras partes do mundo. As celebrações arrancam nos dias 6 e 7 de outubro, com uma iniciativa organizada pelo Gabinete do Primeiro-Ministro em conjunto com a Fundação: o Primeiro-Ministro António Costa irá visitar lugares emblemáticos da vida e obra de José Saramago: Lanzarote, Azinhaga e Lisboa. Em Lanzarote, a visita contará com a presença do chefe de governo de Espanha, Pedro Sánchez.

Entre os dias 8 e 10 de outubro, em Coimbra, terá lugar o Congresso Internacional «José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel», coordenado pelo Professor Carlos Reis, que conta com 6 dezenas de comunicações e mais de 300 participantes. No primeiro dia do Congresso será apresentado o livro Último Caderno de Lanzarote (edição da Porto Editora), inédito de José Saramago.

Este livro será depois apresentado em Lisboa, a 12 de outubro, dia em que a Biblioteca Nacional de Portugal inaugura uma exposição documental dedicada a José Saramago. Esta sessão será também de apresentação de Um país levantado em alegria, de Ricardo Viel, que conta os bastidores dos dias que antecederam e que se seguiram ao anúncio do Prémio.

A 15 de dezembro, encerrando as comemorações, o Grande Auditório da Culturgest será palco da estreia mundial da sinfonia Memorial, composta por António Pinho Vargas, baseada em três romances de José Saramago e de celebração também dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Além de Lisboa, no Porto, em Madrid, Guadalajara, Belém do Pará, Vigo, Lanzarote, Azinhaga e em muitos outros cantos do mundo, José Saramago e a língua portuguesa serão celebrados.

A todas as entidades, públicas e privadas, que colaboram com a Fundação José Saramago neste programa, deixamos uma palavra de agradecimento.

Abaixo, deixamos a agenda das iniciativas já programadas para a celebração dos 20 anos do Nobel. No decorrer das próximas semanas, avançaremos mais detalhes sobre cada uma das iniciativas:

Agenda 20 anos Nobel

6 e 7 de outubro, Lanzarote, Azinhaga e Lisboa
“Lugares de Saramago”, um roteiro com o Primeiro-Ministro António Costa por  lugares marcantes da vida e obra de José Saramago
Uma iniciativa do Gabinete do Primeiro-Ministro e da Fundação José Saramago

8 a 10 de outubro, Convento São Francisco, Coimbra
Congresso Internacional “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”

12 de outubro, Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa
Apresentação dos livros Último caderno de Lanzarote, de José Saramago, e Um país levantado em alegria, de Ricardo Viel, e abertura de uma exposição em homenagem a José Saramago 

25 de outubro, Fundação César Manrique, Lanzarote (Espanha)
Apresentação do livro Último caderno de Lanzarote, de José Saramago

29 de outubro, Biblioteca Almeida Garrett, Porto
Apresentação de Último Caderno de Lanzarote, de José Saramago, e Um país levantado em alegria, de Ricardo Viel

31 outubro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com Ana Margarida Carvalho sobre os contos de José Saramago

7 de novembro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com António Mega Ferreira sobre a poesia de José Saramago

14 de novembro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com Jorge Vaz de Carvalho sobre a música na obra de José Saramago

5 de dezembro, Fundação José Saramago, Lisboa
Sessão com Carlos Reis sobre o romance saramaguiano

10 de dezembro (data a confirmar), Torreão Poente da Praça do Comércio, Lisboa
Abertura da exposição «A Rebeldia de Nobel», com fotografias e textos de mais de duas dezenas de escritores vencedores do Prémio Nobel de Literatura
Organização da Câmara Municipal de Lisboa e da Fundação José Saramago, com o apoio da Embaixada da Suécia em Portugal

14 de dezembro, no Museu do Estado do Pará (Belém do Pará, Brasil)
Inauguração da exposição «Saramago - os pontos e a vista», cuja curadoria e de Marcello Dantas

15 de dezembro, Grande Auditório da Culturgest, Lisboa
Estreia mundial da sinfonia Memorial, de António Pinho Vargas, num concerto de celebração dos 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos."


"Um dia após ser galardoado com o Prémio Nobel de Literatura, José Saramago aguarda no aeroporto de Frankfurt pelo avião que o levará a Madrid. O escritor tem no colo um exemplar de um jornal alemão que publica, na primeira página, o seu rosto. A foto foi feita pelo jornalista e escritor Juan Cruz, na altura editor de José Saramago."

terça-feira, 14 de agosto de 2018

"Aquilo que não foi esquecido continua vivo e presente" - José Saramago (in Revista Blimunda #74 - Julho de 2018)



Link da edição #74 da Revista Blimunda (Julho de 2018)

Páginas 61 a 70

"Em 1998, meses antes de receber o Prémio Nobel, José Saramago concedeu ao jornal italiano Liberazione uma extensa entrevista a propósito do romance Todos os Nomes, que acabara de ser publicado em Itália. A Blimunda publica as respostas que o escritor enviou ao jornalista Marco Romani, por fax, no dia 30 de agosto. 
As perguntas, embora não estejam reproduzidas por José Saramago, deduzem-se da leitura das respostas enviadas.

1) A vida do Sr. José funcionário duma conservatória de Registo Civil nada tem que ver com a minha. Nunca vivi só, estou casado pela terceira vez, tenho uma filha e dois netos. Também não assaltei escolas nem falsifiquei documentos. O facto de o Sr. José ter esse nome resulta apenas do facto de eu ter pretendido dar-lhe um nome banal que estivesse de acordo com a insignificância do personagem. Não encontrei nome mais banal que o meu próprio... Não é este o primeiro romance em que os personagens não têm nome. Já em Ensaio Sobre a Cegueira isso sucedia. Nesse caso foi a exepcionalidade da situação criada – uma cidade de cegos, um mundo de cegos – que me fez compreender como são frágeis os nomes que usamos, como facilmente deixam de ter significado quando o indivíduo se dissolve no grupo, no bando, na multidão. Nos campos de concentração não se tatuavam nomes, mas números, e as sociedades em que hoje vivemos parecem mais interessadas em conhecer o número do nosso cartão de crédito do que em saber como nos chamamos. O caso de Todos os Nomes é diferente. Pessoas diferentes têm o mesmo nome, dizer o nome não é suficiente para «dizer» a pessoa. O Sr. José sabe como se chama a mulher desconhecida, mas isso é o mesmo que nada saber. 

2) Não afirmo que procurar uma coisa seja o «único» significado que ela tem, mas, tratando-se do «outro», o caminho que nos deveria levar a ele não tem ponto de chegada. Iremos aproximando-nos cada vez mais, mas nunca poderemos dizer: «Conheço-te». O Sr. José tem consciência dessa impossibilidade (uma consciência difusa, mas que está presente em todos os seus actos), por isso semeia de obstáculos o seu caminho. Vencer esses obstáculos é mais importante para ele do que
encontrar o objecto da busca.

3) Ponhamo-nos no lugar do Sr. José, ou talvez não seja preciso tanto. Na vida de cada um de nós houve pelo menos um momento em que tivemos de «inventar» uma razão para mudar a vida, uma razão maior que nós, uma razão capaz de transportar-nos aonde não nos levaria a rotina do quotidiano. O que o Sr. José fez foi «inventar» uma ilha desconhecida e lançar-se ao mar à procura de si mesmo, que é o que realmente fazemos quando procuramos o «outro»...

4) A ordem hierárquica dos funcionários da Conservatória pode ser interpretada com a ordem de uma História em que todos os factos, datas e nomes tivessem os seus lugares marcados e fixados de uma vez para sempre. O Sr. José irá perturbar esta fixidez, primeiro procurando alguém a quem não deveria procurar e sem para tal estar autorizado, depois, pouco a pouco, fazendo desaparecer a linha que separa a morte da vida, ou a vida da morte, segundo se prefira. O Sr. José, se se me permite a ousadia, é uma espécie de Orfeu...

5) Da colecção de notícias do chefe da Conservatória não chegamos a saber nada. Sabemos apenas que ele tem conhecimento de tudo o que se vai passando. Aproxima-o do Sr. José precisamente o carácter «subversivo» das acções deste, e essa aproximação torna-se em cumplicidade quando o chefe compreende que a humanidade autêntica é o conjunto dos mortos e dos vivos, confundidos uns com os outros no ontem e no hoje, inseparáveis no agora e no sempre.

6) Na Conservatória estão os papéis da vida e da morte de todos os seres humanos nascidos, no Cemitério estão os restos dos que já não pertencem à vida mas pertencem invisivelmente à História. Assim, Cemitério e Conservatória são complementares, nenhum deles poderia existir sem o outro. No fundo são uma coisa só.

7) Penso que comentemos um erro grave quando esquecemos os nossos mortos, crendo que essa é a maneira de negar a morte. Também tentamos negar a velhice quando retiramos os velhos da vida afectiva e social. Nesse momento começamos a esquecê-los. Como em Todos os Nomes está escrito, só o esquecimento é a morte definitiva. Aquilo que não foi esquecido continua vive e presente.

8) Essa declaração é feita por um dos personagens do romance, e não por mim... Mas é verdade que a metáfora nos aparece como uma iluminação das coisas diferente, como uma luz rasante que iluminasse o releve de uma pintura. A metáfora é um pressentimento do saber total. Quanto ao dever e ao fim da literatura, recordemos que os seus fins e os seus deveres foram diversos e nem sempre concordantes ao longo do tempo. Como não foram iguais e muitas vezes foram opostos os deveres e os fins das sociedades humanas, de que a literatura é, ao mesmo tempo, reflexo e reflector.

9) O fim do milénio é um mero acidente de calendário. O que está a acabar, de facto, é uma civilização. Paulo Valéry não imaginava a que ponto tinha razão quando escreveu: «Nós, civilização, sabemos agora que somos mortais.» Já antes o deveríamos ter sabido se fôssemos capazes de aprender com o passado. O tipo humano que começou a definir-se na época do Iluminismo está a extinguir-se. Não sei o que virá depois dele. Penso, contudo, que não haveria lugar para mim nos tempos que se aproximam...

10) A pergunta não deveria ser «que é que existe ainda da esquerda?», mas sim «que foi o que abandonámos da esquerda?». Nesse caso direi que muitos (muitíssimo) abandonaram o que chamo um «estado de espírito de esquerda» para passar-se, fosse por ambição, oportunismo, ou cobardia moral, ao outro lado, mesmo quando fingem contestá-lo. Contra todas as aparências, a questão central do nosso tempo não é a globalização da economia, mas a ética. Espero que a esquerda (a que ainda resta) o descubra a tempo...

11) A mesma Europa que gastou séculos e séculos para conseguir formar cidadãos, só precisou de vinte anos para transformá-los em clientes. Sócrates tornaria a pedir o vaso de cicuta...

12) A cultura «europeia» não existe como tal. E se alguma vez vier a existir, temo que não seja «europeia» no sentido de uma síntese mais ou menos lograda das suas diversas culturas nacionais, mas sim o resultado do predomínio de uma dessas culturas sobre as outras. A globalização, seja ela mundial ou apenas europeia, é um totalitarismo." 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Edição online da revista "Blimunda" Julho de 2018 #74

Pode ser descarregada e consultada aqui

"A caleidoscópica série de fotografias do sul-africano Pieter Hugo, expostas no Museu Berardo, em Lisboa, é um dos destaques do número 74 da Blimunda. Como são os avós retratados nos livros para os miúdos? É este o tema da secção infantil e juvenil da revista. A Saramaguiana recupera uma entrevista que José Saramago deu ao jornal italiano Liberazione, meses antes de lhe ser concedido o Prémio Nobel de Literatura. «Só o esquecimento é a morte definitiva. Aquilo que não foi esquecido continua vivo e presente», afirmou o escritor ao diário. A Blimunda de julho fala ainda de Saviano e de Trump, e sobre a foto que marcou a Mundial da Rússia.

Boas leituras e boas férias!" 
(Via página da FJS)





sexta-feira, 29 de junho de 2018

11.º aniversário da Fundação José Saramago



Declaração de Princípios

Os objectivos da Fundação José Saramago, nesta data criada, estão enunciados com toda a clareza nas disposições estatutárias pelas quais deverá reger-se. Não têm, portanto, que ser repetidos aqui em Declaração de Princípios. Contudo, pareceu-me apropriado, na circunstância, expressar de modo pessoal umas quantas vontades (ou desejos) que em nada contradizem os referidos objectivos, antes os poderão enquadrar num todo harmonioso e familiarmente reconhecível. Não me dou como exemplo a ninguém, porém, revendo a minha vida, distingo, ora firme, ora trémula, uma linha contínua de passos que não projectei, mas que, de maneira consciente ou não tanto, me fizeram perceber que nenhuma outra poderia servir-me, ao mesmo tempo que se me ia tornando cada vez mais claro que uma das minha obrigações vitais seria servi-la eu a ela. Ter conhecido Pilar, viver ao seu lado, só viria confirmar-me que tal direcção era a correcta, tanto para o escritor como para o homem. A direcção dos grandes valores, sim, mas também a direcção das pequenas e comuns acções que deles decorrem no quotidiano e que lhes darão a melhor validez das experiências adquiridas e das aprendizagens que não cessam. O paradoxo da existência humana está em morrer-se em cada dia um pouco mais, mas que esse dia é, também, uma herança de vida legada ao futuro, que o futuro, longo ou breve seja ele, deverá assumir e fazer frutificar. Nem por vocação, nem por opção nasceu a Fundação José Saramago para contemplar o umbigo do autor.

Sendo assim, entre a vontade e o desejo, eis as minhas propostas:

a ) Que a Fundação José Saramago assuma, nas suas actividades, como norma de conduta, tanto na letra como no espírito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em Nova Iorque no dia 10 de Dezembro de 1948.

b) Que todas as acções da Fundação José Saramago sejam orientadas à luz deste documento que, embora longe da perfeição, é, ainda assim, para quem se decidir a aplicá-lo nas diversas práticas e necessidades da vida, como uma bússola, a qual, mesmo não sabendo traçar o caminho, sempre aponta o Norte.

c) Que à Fundação José Saramago mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo.

Bem sei que, por si só, a Fundação José Saramago não poderá resolver nenhum destes problemas, mas deverá trabalhar como se para isso tivesse nascido.

Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo.

Lisboa, 29 de Junho de 2007

José Saramago

A presente declaração de principios que orientam a Fundação José Saramago pode ser consultada aqui em https://www.josesaramago.org/declaracao-de-principios/

https://www.youtube.com/watch?v=F-KKemLlRH8

"No dia 29 de junho de 2007, a meio da tarde, numa casa perto da Praça de Londres, assinava-se a acta de constituição da Fundação José Saramago. Nesse dia, ganhava estatuto legal a aventura, iniciada uns meses antes, de pôr de pé uma casa aberta, múltipla, interveniente, combativa, com objectivos definidos pelas palavras plasmadas na Declaração de Princípios que nos orienta. No final desse documento, o Prémio Nobel português, afirmava: «Como se vê, não vos peço muito, peço-vos tudo». Hoje, passados dez anos, o tudo que se conseguiu, deixa-nos com a certeza de para isso termos trabalhado. Com a mágoa diária de não o termos connosco, levamos o seu legado em cada acção que realizamos, seja na Casa dos Bicos, que desde 2012 nos acolhe, noutros locais espalhados pelo mundo, ou na «infinita página da Internet». Para trás, ficam algumas centenas de iniciativas realizadas, organizadas a sós ou em parceria com outras entidades, fica o trabalho de acolhimento a quem nos visita diariamente a partir dos quatro cantos do mundo, fazendo muitas vezes desta Casa o primeiro espaço a visitar em Lisboa, fica a emoção que observamos nos olhos dos leitores de Saramago. Fica também o justo agradecimento a todos os que, directa ou indirectamente, contribuem para que a Fundação seja uma realidade sólida no espaço cultural português e internacional. E, por fim, fica a certeza de que a estes dez anos muitos mais se somarão. Porque enquanto não se cumprir o «tudo» a que as palavras que José Saramago nos obrigam, o «muito» que se faça será sempre pouco. A todos os que nos visitam, virtual ou fisicamente, o nosso obrigado."
Via Fundação José Saramago

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Faleceu Júlio Pomar artista plástico e homens das artes

Fotografia de Rui Gaudêncio

Em 11 de Janeiro de 2013, a Fundação José Saramago publicava o texto que se segue, e pode ser recuperado e consultado aqui

"Júlio Pomar já tem o seu Atelier-Museu em Lisboa. E já os amantes da pintura poderão gozar da obra deste grande artista português, amigo de José Saramago, autor do cartaz que anunciava a ópera Blimunda, baseada no romance Memorial do Convento, para o Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. Júlio Pomar e José Saramago não foram apenas amigos, foram também cúmplices na oposição à ditadura de Salazar e juntos celebraram a democracia e contaram Portugal em diferentes partes do mundo. A primeira gravura que José Saramago pôde comprar na sua vida é de autoria de Pomar e pode ser vista na Fundação José Saramago, na reprodução do escritório que se exibe no primeiro andar da Casa dos Bicos, no final da exposição A Semente e os Frutos.

Parabéns, Júlio Pomar por este Atelier-Museu que a partir de abril deverá ser visitada como uma jóia principal da cidade de Lisboa.


No dia em que completou 87 anos, Júlio Pomar recebeu finalmente a prenda que lhe estava prometida desde 2000 pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), através do então presidente João Soares: um espaço para instalar um atelier-museu dedicado à sua obra. Depois de anos de complicações e burocracias, avanços e paragens, a obra de reconstrução do velho armazém na Rua do Vale, perto de São Bento, assinada pelo arquitecto Álvaro Siza, está concluída e abre portas já em Abril. Hoje foi por isso dia de se celebrar. “Finalmente está feito.” Chama-se Rua do Vale mas podia bem ser a Rua Júlio Pomar. É uma rua estreita, com passeios apertados e de apenas um sentido. Típico bairro lisboeta, onde já é habitual ver o pintor. É aqui que vive e é aqui que trabalha, ou não fosse o atelier em sua casa. E agora é também aqui que a sua obra vai passar a estar exposta, no número 7 dessa rua, no Atelier-museu Júlio Pomar. A longa fachada branca com várias janelas serve quase de caixa-forte do que o interior guarda. Lá dentro, num espaço pensado e projectado por Álvaro Siza, estará todo o espólio do pintor pertencente à Fundação Júlio Pomar. Entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas, quase 400 obras. Já há exposições programadas e também colaborações institucionais, com museus e universidades, em curso. Em Abril vamos saber mais porque quinta-feira o dia foi de festa. Pomar faz anos e as obras acabaram. “É um presente de amigos”, diz, não poupando elogios a Siza, arquitecto que escolheu para este projecto. “Este espaço parece-me magnífico, parece-me uma grande lição dada pelo Siza, que é o menos fantasista dos arquitectos que conheço, tudo o que ele faz é pensado e sentido”, acrescenta, lamentando no entanto as burocracias e problemas que a obra levantou ao longo do tempo e que levou a constantes adiamentos.


Desde que João Soares deliberou que o edifício seria para Júlio Pomar que mais três presidentes (Carmona Rodrigues, Santana Lopes e António Costa) passaram pela CML, tal foi a quantidade de avanços e recuos. O projecto inicial, que seria a criação de um atelier, foi abandonado à medida que os anos foram passando. Hoje, Pomar tem um museu. “Porque tem mais lógica”, diz. “O que não quer dizer que não faça os seus desenhitos, mas acredito que trabalhará muito melhor, no seu atelier mesmo aqui em frente e ao qual já está habituado”, conta Siza, explicando que o pintor em nada interferiu na projecção da obra. Se alguma influencia existiu na idealização do espaço foi a amizade entre os dois, que “deu um ar de felicidade ao interior”. “Isto assim como está é o que faz mais sentido”, garante o pintor, não escondendo a gratidão também perante António Costa, o actual presidente da Câmara.

“Porque é que uma ideia leva 12 anos a ser concretizada?”, questiona-se Costa, que entregou simbolicamente a chave do edifício a Pomar, que imediatamente fez questão de a passar a Sara Antónia Matos, a directora do Atelier-Museu. “Não é obvio que um barracão que estava abandonado devia ser transformado em algo como aquilo que temos aqui hoje? Não é óbvio que é um privilégio para Lisboa ter no seu território uma obra de Siza? Não é óbvio que Júlio Pomar é um artista extraordinário?”, continua o presidente, queixando-se da regulamentação “muito pesada e que complica muito”. Por tudo isto, a obra, paga na sua totalidade pela Câmara, ficou em cerca de 900 mil euros, valor que podia ter sido mais baixo se se tivesse levado menos tempo, explica Costa.

Nas paredes para já está apenas um quadro, Praça do Comércio, de 2007. A escolha é simbólica, explica a directora. Além de ter sido a última doação à Fundação, apenas há dias, foi a mulher do pintor que ofereceu. “Agora é preciso que chegue Abril para o espaço ganhar vida.”

sexta-feira, 4 de maio de 2018

"Revista Blimunda" Edição #71 - Abril 2018

"Para ler e descarregar a revista aceda: 

"Que Lisboa estamos a construir para o futuro? Essa é a pergunta que permeia boa parte do número #71 da revista Blimunda. Conversámos com especialistas, procurámos textos de José Saramago sobre a cidade e terminamos a edição com mais perguntas do que respostas. Objetivo cumprido.

Nesta edição também se fala sobre uma mostra de cartazes políticos, sobre ciúme, sobre o trabalho do ilustrador Isidro Ferrer, e sobre outros vários temas.

Bem-vindos a mais uma edição da Blimunda. Boas leituras e boas reflexões!"

 "A epígrafe da Revista Blimunda #71"


"Que Lisboa queremos para o futuro, 
pergunta o editorial da Revista Blimunda."

segunda-feira, 23 de abril de 2018

"Encontros com o Património" da TSF (Manuel Vilas-Boas) programa dedicado à Fundação José Saramago e Casa dos Bicos (21/04/2018)

"Encontros com o Património"
TSF - Sábados, às 12h10, com repetição domingo, depois da 01h00
Programa de Manuel Vilas-Boas


Nesta edição vamos conhecer a Fundação José Saramago, instalada na Casa dos Bicos, em Lisboa.


Convidados
João Santa Rita, arquitecto
Sérgio Machado Letria, director da Fundação José Saramago
Ana Matos, curadora



quinta-feira, 19 de abril de 2018

"20/04: Lola Dueñas e Pilar del Río apresentam «O Lagarto», em Madrid" Via Fundação José Saramago

Informação aqui 
em https://www.josesaramago.org/20-04-lola-duenas-e-pilar-del-rio-apresentam-o-lagarto-em-madrid/

"Na sexta-feira (20), às 18h, na Livraria Alberti, em Madrid, será apresentada a edição espanhola do livro «O Lagarto», que une as palavras de José Saramago e as ilustrações do artista brasileiro J.Borges.

Publicado em Espanha pela Editorial Lumen, «El Lagarto» será apresentado por Pilar del Río, autora da tradução do conto para o espanhol, e pela atriz espanhola Lola Dueñas."


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Edição #70 Março 2018 da "Revista Blimunda" Via Fundação José Saramago

 Capa da edição #70 - Março de 2018

A presente edição, e todas as anteriores, podem ser consultadas e descarregadas, aqui 
em https://www.josesaramago.org/blimunda-70-marco-de-2018/

Sinopse de apresentação
"A Blimunda #70 dedica várias das suas páginas à memória da vereadora Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março. Além do editorial e das leituras do mês, a parlamentar brasileira é recordada também na coluna de Andréa Zamorano.
A revista tem ainda como destaque um texto da escritora Lídia Jorge em homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, uma crónica sobre o Festival Rota das Letras, uma entrevista à ilustradora Catarina Sobral e um artigo sobre a exposição Saramago – os pontos e a vista, inaugurada no dia 3 de março em São Paulo.
Boas leituras!"




A epígrafe da revista Blimunda, publicação mensal, 
digital e gratuita da Fundação José Saramago 
Disponível para download

O editorial da Revista Blimunda #70




sábado, 3 de março de 2018

"À mesa com a ficção de José Saramago: casa onde não há pão, todos ralham (quase) sempre com razão" de Ana Paula Arnaut

Recuperação do trabalho de Ana Paula Arnaut, publicado em edição electrónica pela Fundação José Saramago no dia em que se assinalaram os 10 anos do seu aniversário.
Pode ser descarregada aqui

"No dia em que se cumpre o 10.º aniversário da Fundação José Saramago, publicamos em edição electrónica, de acesso livre, o livro À mesa com a ficção de José Saramago: casa onde não há pão, todos ralham (quase) sempre com razão, de Ana Paula Arnaut:

Partindo de vários romances de José Saramago, propomo-nos verificar o modo como a inscrição da temática da comida na tessitura narrativa permite aumentar o seu grau de credibilidade, criando o efeito de real de que fala Roland Barthes, e, em concomitância, pretendemos avaliar a forma como se põem em cena intenções ideológicas precisas, relativas à denúncia das diferenças sociais e à tentativa de alertar o leitor para a necessidade de colaborar na construção de um mundo mais justo e fraterno."
Via FJS, 29/06/2017

(...) Sardinhas, mas agora salgadas e sobre “pão grosseiro e
duro”, mais “uma fritada de ovos” e uma “infusa de água”, são a ceia
partilhada pelo mesmo Baltasar com Blimunda Sete-Luas e com o
em breve proscrito padre Bartolomeu Lourenço (p. 171). Em outras
ocasiões, juntam-se às sardinhas “as couves e o feijão da horta” ou
“um pedaço de carne enquanto foi tempo dela” (p. 209). Sardinhas,
fritas desta vez, mas sempre acompanhadas apenas por um pedaço
de pão (que, em Caim, também será dado por abraão ao filho de
adão, para que mate a fome na jornada, depois de lhe ter sido servido
vitelo, manteiga e leite (p. 94), levará Baltasar no alforge na sua
última inspeção à Passarola (p. 334). Do farnel de Sete-Sóis, tornado
“sardinha ressequida” e “côdea duríssima” (p. 343), alimentar-se-á
Blimunda quando for o tempo de por ele procurar. Antes disso,
porque ainda existia caridade, ocasiões houve em que puderam
contar com as sobras do açougue em que trabalhava Baltasar: “um
pé de porco, uma franja de dobrada, e, querendo Deus e o humor do
açougueiro, a apara de vazia, de alcatra ou pojadouro, embrulhados
numa crespa folha de couve (p. 69) (...)
Página 7
.



quinta-feira, 1 de março de 2018

Já está online a edição #69 da revista "Blimunda" (Fevereiro 2018)

A edição pode ser descarregada e consultada gratuitamente, aqui
em https://www.josesaramago.org/blimunda-69-fevereiro-2018/

Capa da presente edição

Sinopse de apresentação
"A Blimunda esteve em Madrid para visitar a exposição «Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura» e conversar com João Fernandes, diretor do Museu Reina Sofía e um dos curadores da mostra. Nesta edição # 69 da revista, Fernando Pessoa também é assunto da Saramaguiana, numa entrevista de José Saramago ao jornal La Vanguardia, em 1987, para falar sobre o autor do Livro do Desassossego.
Esta edição da Blimunda traz ainda: cinco títulos para atravessar a China; literatura para adolescentes de ontem e de hoje; a crónica de Andréa Zamorano e as habituais secções Estante, Leituras do Mês e Agenda.
Boas leituras!"

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"São Paulo recebe exposição sobre a vida e a obra de José Saramago" Via Fundação José Saramago

Apresentação e anúncio da exposição, através da Fundação José Saramago, aqui

"A vida, a produção literária e o pensamento de José Saramago orientam a exposição “Saramago – os pontos e a vista” que abre ao público no dia 6 de março na cidade de São Paulo. A mostra, que conta com o apoio da Fundação José Saramago, estará patente no espaço Farol Santander, no centro da cidade, até ao próximo dia 3 de junho.

A curadoria da exposição é de Marcello Dantas e a produção dos vídeos que a integram é de responsabilidade de Miguel Gonçalves Mendes. Além de um vasto material audiovisual, o visitante poderá ver alguns objetos pessoais do escritor, como o computador com o qual escreveu Ensaio sobre a Cegueira e a cama dos seus avós, que viajou da sua terra natal, Azinhaga. Sobre ela, José Saramago afirmou no seu discurso ao receber o Prémio Nobel de Literatura em 1998: “No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama”.

A exposição poderá ser visitada de terça a domingo, das 9h às 19h. A entrada é livre."

(Cartaz da exposição)

"SARAMAGO – OS PONTOS E A VISTA"

“É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós…” (O Conto da Ilha Desconhecida)

A proposta para a exposição Saramago, os pontos e a vista, se baseia no uso inédito de um rico acervo de materiais audiovisuais, criando uma vivência singular do ponto de vista de José Saramago em primeira pessoa.

A exposição pretende olhar para as diferentes dimensões de José, ampliando a compreensão que o público brasileiro tem sobre o autor português, um dos maiores legados da literatura contemporânea.

Saramago é popularmente conhecido pelas opiniões polêmicas, mas ao nos aproximarmos de seu universo podemos entender que suas opiniões vêm de uma reflexão profunda sobre as condições humanas e as relações de poder. É a força que carrega como cidadão, que permeia sua criação literária com um interesse genuíno pelo mundo e pelo ser humano.

Antes de se tornar escritor, José exerceu diversas atividades que o permitiram experimentar a vida a partir de diferentes pontos de vista. Esse acúmulo de perspectivas ajudou a formar seu modo único de enxergar o mundo.

Marcello Dantas
Curador



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

"A outra razão de Alonso Quijano" de José Saramago (FJS, 22/09/2009)

O texto publicado e que consta na página da Fundação José Saramago, pode ser consultado e recuperado aqui
em https://www.josesaramago.org/a-outra-razao-de-alonso-quijano/

"A outra razão de Alonso Quijano"

"Todos sabemos como a história começa: naquele lugar de La Mancha cujo nome nunca viremos a conhecer, vivia um fidalgo pobre chamado Alonso Quijano que, um dia, em consequência do muito ler e do muito imaginar, passou do juízo à loucura, tão simplesmente como quem abre uma porta e a torna a fechar. Assim o quis Cervantes, acaso porque à mentalidade do seu tempo repugnasse aceitar que um homem em posse plena das faculdades mentais, mesmo sendo apenas uma personagem de romance, decidisse, por um acto de vontade, deixar de ser quem tinha sido para converter-se em outro: graças à loucura, a rejeição das regras do chamado comportamento racional torna-se pacífica, não problemática, uma vez que permitirá desprezar qualquer aproximação ao louco que não proceda em conformidade com as vias que têm a cura como objectivo. Do ponto de vista dos contemporâneos de Cervantes e das personagens do livro, Quijote é louco porque Quijano enlouqueceu. Em momento algum se insinua a suspeita de ser Quijote, tão-somente, ou, pelo contrário, de supremo modo, o outro de Quijano. Não obstante, Cervantes tem uma visão muito precisa da irredutibilidade das consequências da mudança de Quijano, tanto assim que reforma e reorganiza de alto a baixo o mundo em que vai entrar essa entidade nova que é Quijote, mudando os nomes e as qualidades de todos os seres e coisas: a estalagem torna-se castelo, os moinhos são gigantes, os rebanhos exércitos, Aldonza transforma-se em Dulcinea, para não falar de um mísero cavalo promovido a épico Rocinante e de uma bacia de barbeiro alçada à dignidade de elmo de Mambrino. Já Sancho, tendo embora de viver as aventuras e as imaginações de Quijote, não precisará nunca de enlouquecer nem de mudar de nome: mesmo quando o proclamarem governador de Bartaria continuará a ser, no físico e no moral, mas sobretudo na sólida identidade que sempre o definiu, Sancho Panza. Nada mais, mas também nada menos.

Que nos diz Cervantes da vida de Alonso Quijano antes que a suposta loucura tivesse transformado o mal favorecido e infatigável cavaleiro a quem as derrotas nunca diminuirão o ânimo, antes parecerá encontrar nelas o alento para o combate seguinte, infinitamente perdido e infinitamente recomeçado? Cervantes, dessa vida enigmática, nada nos quis dizer. E, contudo, Alonso Quijano frisava já os cinquenta anos de idade quando Cervantes o plantou inteiro na primeira página do Quijote. Mesmo numa aldeia perdida de La Mancha, tão perdida que nem o seu nome se achou, um homem de cinquenta anos teria tido, por força, uma vida, acidentes, encontros, sentimentos vários. Seus pais, quem foram? De que irmão ou irmã lhe veio a sobrinha? Não teve Alonso Quijano filhos, um varão, por exemplo, que por não ter nascido à sombra do santo sacramento do matrimónio foi deixado ao deus-dará? E a mãe desse filho, quem teria sido? Uma moça de aldeia, barregã por uns tempos, ou apenas tomada de ocasião em tarde de calor, no meio da seara ou atrás de um valado? Conhecemos tudo da vida de D. Quijote de La Mancha, porém nada da vida de Alonso Quijano, no entanto o mesmo homem, primeiro dotado de razão, depois deixado dela, senão, como me parece hipótese mais sedutora, deixada ela por ele, conscientemente, para que Alonso Quijano pudesse, sob a capa de uma loucura que passaria a justificar tanto o sublime como o ridículo, ser enfim outro, para como outro poder viver em outros lugares e fazer da labrega Aldonza (quem sabe se antes mãe de filhos que não foram reconhecidos?) uma puríssima e inalcançável Dulcineia, mudando assim, como numa operação alquímica, o chumbo cinzento em ouro resplandecente.

É neste ponto, segundo entendo, que deparamos com a questão crucial. Se Alonso Quijano foi o mero invólucro físico de um delírio mental produzido pelo muito ler o pelo muito imaginar, então não haveria grandes diferenças entre ele e aqueles outros loucos que, dois ou três séculos mais tarde, se tomaram por Napoleão Bonaparte só porque dele ouviram falar, ou acerca dele leram, como capitão, general e imperador. Quanto a mim, prefiro acreditar que, em um dia da sua insignificante vida, Alonso Quijano decidiu ser outra pessoa, e, tendo, por isso mesmo, que colocar-se contra o seu tempo, onde só a pessoa Quijano tinha lugar, optou por fazer aquilo que então já ninguém ousaria: restabelecer a ordem da cavalaria andante, pondo ao seu serviço, por inteiro, alma e corpo. Se falasse francês, Quijano poderia ter antecipado, naquele seu momento fundador, o dito célebre de Rimbaud: la vraie vie est ailleurs. Pelo menos, imaginemos que, ao deixar a tranquilidade e a segurança da sua casa, grotescamente armado, montado na esquelética cavalgadura, teria proferido, no seu castelhano manchego, estas palavras, postas aqui também na língua de Rimbaud para manter o paralelismo, e que seriam, ao mesmo tempo, uma divisa e um programa: Le vrai moi est ailleurs. E foi assim que começou a caminhar, já outro, e portanto à procura de si mesmo.

Este jogo entre um eu (Quijano) que se torna em um outro (Quijote), ponto forte, se posso atrever-me a dizê-lo, desta interpretação, encontra uma simetria recente no conhecido sistema de espelhos, cientemente organizado por Fernando Pessoa, que é constelação heteronímica. Sendo os tempos diferentes, Pessoa não necessitou enlouquecer para se tornar nesses outros Napoleões que são o Álvaro de Campos da Tabacaria, o Alberto Caeiro do Guardador de Rebanhos, o Ricardo Reis das Odes, ou o Bernardo Soares do Livro do Desassossego. Curiosamente, porém (tanto pode, afinal, a suspeita social que pesa sobre aqueles que, de modo directo ou indirecto, aspiraram a retirar-se da humana convivência), o próprio Fernando Pessoa, para dar do seu caso uma explicação que não relevasse da simples vontade de ser outro (ou, mais complexamente, necessidade de não ser quem era), diagnosticou-se a si mesmo como histero-neurasténico, por esta maneira transitando, com perturbador à-vontade, das auras poéticas ao foro psiquiátrico. Isso lhe servirá para explicar os seus heterónimos, atribuindo-se a si mesmo uma «tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação». (Falar de «despersonalização», neste caso, não de uma despersonalização – situação, suponho, em que o poeta, no mesmo instante em que deixa de ser ele próprio, assiste à ocupação do vazio por uma nova entidade poética, tornando portanto a ser alguém, na medida em que havia podido tornar-se outro).

É interessante observar, repito, como Pessoa nos quer fazer crer na «origem orgânica» dos seus heterónimos, aliás em total e flagrante contradição com a descrição que faz do «nascimento» deles, que mais parece corresponder a uma sequência de lances de um jogo dentro de outro jogo, como caixas chinesas saindo de caixas chinesas: «lembrei-me de inventar um poeta bucólico», «aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir uns discípulos», «arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente», «de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo (Álvaro de Campos)»… É de supor que o aparecimento dos outro heterónimos, ou semi-heterónimos, que foram António Mora, Vicente Guedes ou Bernardo Soares, tenha percorrido caminhos mentais similares e modos de elaboração e definição paralelos. Para fazer um Quijote, Cervantes tinha de levar Quijano à loucura, ao passo que Fernando Pessoa, que já levava dentro de si a tentação de mil vidas diferentes, e que, de alguma maneira, já era personagem de si mesmo, não podendo enlouquecer deveras e tornar-se, nessa loucura, outro, criou para seu uso e nossa mistificação uma fingida histero-neurastenia, ao abrigo da qual se poderia permitir quantas multiplicações o seu espírito fosse capaz de suportar. Parece claro, pois, que a ironia pessoana se vai exercer em duas direcções distintas: a o leitor, obrigado pelo poder compulsivo de uma expressão artística invulgar a tomar a sério o que é pura mistificação, e a do próprio Pessoa, agente e objecto conscientes dessa mesma mistificação.

Ou muito me engano, ou não é este o caso de Cervantes. É verdade que ele, com aparente frieza e indiferença, parece querer expor, primeiro Quijano e depois Quijote, à irrisão familiar e pública, mas esse homem uno e duplo, Janos bifronte, cabeça de duas caras, de quem o leitor se rirá mil vezes, também será capaz mil vezes de despertar no nosso espírito os mais subtis sentimentos de compaixão e solidaridade, e, como se tal fosse pouco, criar em nós o desejo profundo e irresistível de identificação com alguém como esse Quijote – personagem incorpórea de romance, criatura feita de tinta e papel –, em verdade desprovido de tudo, menos de ansiedade e de sonho. Ainda que não o queira confessar, todo o leitor, no segredo de seu coração, desejaria ser D. Quijote. Talvez pelo facto de ele não ter consciência de seu ridículo e nós vivermos sujeitos a ela em todas as horas lúcidas, mas sobretudo, creio, porque na aventura risível do Cavaleiro da Triste Figura está presente, sempre, o sentido mais dramaticamente interiorizado e mascarado da existência humana: o da sua finitude. Sabemos de antemão que nenhuma das aventuras de Quijote será mortal ou sequer realmente perigosa, que, pelo contrário, cada uma delas será motivo de novas gargalhadas, mas, em contradição com esta tranquilizadora certeza, que resulta do pacto estabelecido com o Autor desde as primeiras páginas, percebemos que, afinal, Quijote encontra, a cada passo que dá, em permanente risco, como se, em vez de ali ter sido posto por Cervantes para meter a ridículo os romances de cavalaria, fosse a premonitória representação do homem moderno, sem toga nem coturnos, armado de uma razão desfalecente, incapaz de chegar ao outro por não poder conhecer-se a si mesmo, dividido tragicamente entre ser e querer ser, entre ser e ter sido.

Essa razão, porém, a que chamei desfalecente, como um fio que constantemente se parte e cujas pontas dilaceradas constantemente vamos tentando atar, é o único vademecum, possível, quer para Quijote quer para esse Sancho/Quijote que é o leitor. Razão de regras instáveis, por certo, mas razão trabalhando em estado de plenitude, ou razão de loucura, se aceitarmos o jogo de Cervantes, mas, tanto num caso como no outro, razão ordenadora, capaz de sobrepor leis novas ao universo das leis velhas apenas por uma introdução metódica de contrários. Pessoa dispersou-se noutros e nessa dispersão, porventura, se reencontrou. Quijano substituiu-se a si mesmo por outro enquanto a morte não chegava para fazer voltar tudo ao princípio, ao primeiro enigma e à primeira tentação: ser alguém que não fosse ele, estar num lugar que não fosse aquele.

Vítima de uma loucura simplesmente humana ou agente de uma vontade sobre-humana de mudança, Quijote procura recriar o mundo, fazê-lo nascer de novo, e morre quando compreende que não bastou ter mudado ele para que o mundo mudasse. É a última derrota de Quijano, a mais amarga de todas, a que não terá salvação. A vontade esgotou-se, não há tempo para enlouquecer outra vez.

José Saramago"
22/09/2009

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Revista "Blimunda" edição #67 (12/2017)

A presente edição está disponível para consulta e download através dos links aqui publicados,


Capa da edição #67

Página do Facebook da "Blimunda" https://www.facebook.com/revistablimunda/

Apresentação da revista
"Com o novo ano quase à porta, chega a edição 67 da Blimunda. Este mês a revista visitou a It´s a book, livraria nascida há um ano em Lisboa que aposta na “curadoria” dos livros que tem disponíveis como o seu principal diferencial. A Blimunda esteve também com Duarte Pereira, um jovem livreiro que leva a sua livraria, a Snob, a todo o país.
Merece ainda destaque neste número a publicação de «Comer Beber», de Filipe Melo e Juan Cavia, um livro ilustrado que tem a memória como tema central.
Como no número anterior, a Blimunda dá espaço para um autor britânico inédito em português. Este mês a revista publica um excerto de The Bone Readers, de Jacob Ross, traduzido por Carla Fernandes.
A Saramaguiana vasculhou o arquivo de Gabriel García Márquez para recuperar um episódio em que ele, José Saramago e outros grandes nomes da literatura mundial se uniram para apoiar a Orhan Pamuk.
A fechar 2017, a nossa e vossa Blimunda deixa o desejo de um Bom 2018."

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Apresentação pública da "Rota do Memorial do Convento" (FJS - 11/12/2017)




Assinalamos a apresentação do projecto "Rota do Memorial do Convento" iniciativa cultural que pretende através da identificação de lugares e imagens recriadas por José Saramago na obra que dá suporte à iniciativa, promover não só a dinâmica e vida literária do Memorial - já com 35 anos da data da sua publicação -, como identificar o património histórico e arquitectónico que se estende aos três municípios aderentes à iniciativa - Lisboa, Loures e Mafra. 



Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago na apresentação deste programa a desenvolver em 2018, recordava aquilo que considera o momento que permitiu a José Saramago abraçar este caminho de produção literária, a realização do livro "Viagem a Portugal" (1981). 
Aqui terá sido o momento impulsionador! 


Com a apresentação de mais dados e novidades sobre este circuito literário, iremos aqui dando mais informações e dicas de passagens referentes aos lugares identificados.