Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

"La caverna, de José Saramago, es el libro protagonista de Léeme 10"

A Fundação José Saramago, através da sua página do Facebook em https://www.facebook.com/fjsaramago/ deu a conhecer a apresentação da obra "A Caverna", realizada pela Léeme 10, e que deixo os seus links para melhor conhecer este magnífico trabalho.

"Un mes más, ¡volvemos con otro capítulo de Léeme!
¿Crees que vives en la verdadera realidad? ¿Estás seguro de que lo que ves es lo que hay?
José Saramago no estaba muy seguro de que la realidad fuera igual a lo que nuestros sentidos perciben cada día. En el año 2000, el escritor portugués desempolvó el mito de la caverna de Platón y, basándose en las sombras y en los prisioneros que las contemplan, escribió una novela que, más que respuestas, sembrará muchas preguntas en tu mente.
Esta novela se llama "La caverna" y es la protagonista de Léeme 10. Para contártela, nos fuimos a Lisboa a grabar el episodio y entrevistamos a Pilar del Río, traductora y esposa de José Saramago. Todo esto y mucho más, como siempre, al otro lado del click :)"

"Un programa lleno de preguntas…
Al acabar de grabar este programa, no podíamos parar de pensar en la cantidad de preguntas que quedan en el aire con él, y por supuesto con La caverna, la novela que lo ha inspirado.
Preguntas sobre el futuro de la humanidad, sobre la responsabilidad que tenemos como ciudadanos, sobre el progreso, sobre nuestra conciencia…
Por eso, lo mejor que podemos hacer aquí es abrir el micro y preguntarte a ti: ¿Qué reflexiones te ha suscitado este Léeme 10? ¿Has sacado alguna conclusión, o, como José Saramago, prefieres seguir cuestionándotelo todo?
Cuéntanos en los comentarios 🙂 ¡Muchas gracias por estar ahí una vez más!
Y aquí va… pequeño álbum de fotos de Lisboa"

Mais trabalhos desta estupenda equipa, aqui 

O trabalho pode ser recuperado e consultado via YouTube, aqui

"En el año 2000, justo antes del cambio de siglo, el escritor portugués José Saramago publicó una novela que te enfrentará contigo mismo: con todo lo que crees y valoras y con todo lo que das por bueno. ¿Consumimos demasiado? ¿Estamos progresando descontroladamente? ¿Todo esto puede hacernos realmente felices? Éstas son sólo algunas de las preguntas que te surgirán cuando leas "La caverna", de José Saramago. ¿Te vienes con nosotros a Lisboa?

Léeme 10 incluye una entrevista a Pilar del Río, traductora y esposa de José Saramago y actual presidenta de la Fundación Saramago.

Presentado y guionizado por Irene Rodrigo.
Director artístico e ilustrador: Nacho Vergara.
Cabecera: Sumaya Barber."

terça-feira, 15 de março de 2016

"A Caverna" - J.J. Armas Marcelo entrevista José Saramago (TVE2 - 10/01/2001)

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui

Juan Jesús ("Juan José") Armas Marcelo entrevista a José de Sousa Saramago 
(Premio Nobel de Literatura en 1998) con motivo de la publicación de su libro “La Caverna”.
Emitido el miércoles 10 de enero de 2001.

domingo, 28 de dezembro de 2014

"A Caverna" a moldagem, criação das peças e pintura... depois as suas sortes

Imagem encenada para recriação de um momento vivida na Olaria Algor, em "A Caverna"
Imagem cénica, criada por Odin Santos, com elaboração de peças de gesso, secagem e pintura.
Homenagem a Cipriano da Olaria Algor, à sua filha Marta de esperanças 
e a Marçal, que também ele desceu à caverna.

(...) "No segundo dia o oleiro viajou à cidade para comprar o gesso cerâmico destinado aos moldes, mais o carbonato de sódio, que foi o que encontrou como desfloculante, as tintas, uns quantos baldes de plástico, teques novos de madeira e de arame, espátulas, vazadores. A questão das tintas havia sido objecto de vivo debate durante e depois do jantar do dito primeiro dia, e o ponto controverso foi se as peças deveriam ser levadas ao forno depois de pintadas, ou se, pelo contrário, eram pintadas depois de cozidas e ao forno não voltavam mais. Num caso, as tintas tenham de ser umas, no outro, as tintas teriam de ser outras, portanto: a decisão tinha de ser tomada imediatamente, não podia ficar para a última hora, já de pincel na mão, É uma questão de estética, defendia Marta, É uma questão de tempo, opunha Cipriano Algor, e de segurança, Pintar e levar ao forno dará mais qualidade e brilho à execução, insistia ela, Mas se pintarmos a frio evitaremos surpresas desagradáveis, a cor que usarmos, é a que permanecerá, não estaremos dependentes da acção do calor sobre os pigmentos, tanto mais que o forno às vezes é caprichoso. Prevaleceu a opinião de Cipriano Algor, as tintas a comprar iriam ser, portanto, as que se conhecem no mercado da especialidade pelo nome de esmalte para louças, de aplicação fácil e secagem rápida, com uma grande variedade de coloridos, e quanto ao diluente, indispensável porque a espessura original da tinta é, normalmente, excessiva, se não se quiser usar um diluente sintético, serve mesmo o petróleo de iluminação, ou de candeeiro. Marta voltou a abrir o livro da arte, procurou o capítulo sobre a pintura a frio e leu, Aplica -se sobre Peças Já cozidas, a peça será lixada com lixa fina, de modo a eliminar qualquer rebarba ou outro defeito de acabamento, tornando a sua superfície mais uniforme e permitindo uma melhor adesão de tinta nas zonas em que a peça tenha ficado excessivamente cozida, Lixar mil e duzentos bonecos vai ser o cabo dos trabalhos, Terminada esta operação, continuou Marta a ler, há que eliminar todos os vestígios do pó produzido pela lixagem, usando um compressor, Não temos compressor, interrompeu Cipriano Algor, Ou, embora mais moroso, mas preferível, uma trincha de pêlo duro, Os velhos processos ainda têm as suas vantagens, Nem sempre, corrigiu Marta, e prosseguiu, Como sucede com quase todas as tintas do género, o esmalte para louças não se mantém homogéneo dentro da lata por muito tempo, por isso há que mexê-lo bem antes da aplicação, Isso é elementar, toda a gente sabe, passa adiante, As cores poderão ser aplicadas directamente sobre a peça, mas a sua aderência melhorará se se começar por aplicar uma subcapa, normalmente de branco fosco, Não tínhamos pensado nisso, é difícil pensar quando não se sabe, Discordo, pensa-se precisamente porque não se sabe, Deixe essa apaixonante questão para outra altura, e ouça-me, Não faço outra coisa, A base de subcapa pode ser dada a pincel, mas poderá haver vantagem em aplicá-la à pistola a fim de se conseguir uma camada mais lisa, Não temos pistola, Ou por meio de mergulho, Essa é a maneira clássica, de toda a vida, portanto mergulharemos, Todo o processo se desenrolará a frio, Muito bem, Uma vez pintada e seca, a peça não deve nem pode ser sujeita a qualquer tipo de cozedura, Era o que eu te dizia, o tempo que se poupa, Ainda traz outras recomendações, mas a mais importante é de que se deve deixar secar bem uma cor antes de aplicar a seguinte, salvo se se desejarem efeitos de sobreposição e mistura, Não queremos efeitos nem transparências, queremos rapidez, isto não é pintura a óleo, Em todo o caso, a cabaia do mandarim mereceria um tratamento mais cuidado, lembrou Marta, repare que o próprio desenho obriga a maior diversidade e riqueza de cores, Simplificaremos. Esta palavra fechou o debate, mas esteve presente no espírito de Cipriano Algor enquanto fazia as suas compras, a prova é que adquiriu à última hora uma pistola de pintar." (...)

"A Caverna"
Caminho, páginas 154 a 155

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Citador #21 ... o cão Achado e o oleiro Cipriano Algor ... as lágrimas presentes

... o cão Achado e o oleiro Cipriano Algor 
... as lágrimas presentes
... um que as chora, o outro que as seca

Citador #21
em, "A Caverna"
Caminho
Página 263


(...) "Do que Cipriano Algor pensou não merece a pena falar porque já o tinha pensado em outras ocasiões e desse pensar se deixou informação mais do que suficiente. Se algo de novo aqui aconteceu foi ele ter deixado escorregar pela cara abaixo umas quantas custosas lágrimas, há um ror de tempo que elas andavam lá represadas, sempre vai não vai a ponto de se derramarem, afinal estavam prometidas para esta hora triste, para esta noite sem lua, para esta solidão que não se resignou. O que realmente não foi nenhuma novidade, porque já tinha sucedido uma outra vez na história das fábulas e dos prodígios da gente canina, foi ter-se chegado o Achado a Cipriano Algor para lhe lamber as lágrimas, gesto de consolação suprema que, em todo o caso, por muito comovente que nos pareça, capaz até de tocar os corações menos propensos a manifestações de sensibilidade, não nos deveria fazer esquecer a crua realidade de que o sabor a sal que nelas estão tão presente é apreciado em grado sumo pela generalidade dos cães." (...) 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Citador #19 ... em "A Caverna" - Cipriano Algor e o "segredo da abelha"

Citador #19
Cipriano Algor e o suposto "segredo da abelha"


(...) "E quando isso acontece, que fazem, perguntou Cipriano Algor por perguntar, ao que o subchefe respondeu em tom condescendente, Meu caro senhor, suponho que não está à espera que eu lhe vá descobrir aqui o segredo da abelha, Sempre ouvi que o segredo da abelha não existe, que é uma mistificação, um falso mistério, uma fábula que ficou por inventar, um conto que podia ter sido e não foi, Tem razão, o segredo da abelha não existe, mas nós conhecem-lo. Cipriano Algor retraiu-se como se tivesse sido vítima de uma agressão inesperada. O subchefe sorria, insistia complacente que a ideia era boa, mesmo muito boa, que ficava à espera da primeira entrega e que depois já lhe daria notícias. Oprimido, sob uma inquietante impressão de ameaça, Cipriano Algor entrou na furgoneta e saiu do subterrâneo." (...)

em, "A Caverna"
Caminho
Páginas 239 e 240

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Cipriano Algor e Marta, das viscosidades da barbotina

Cipriano Algor, oleiro de outras tarefas, e sua filha Marta, estão no preciso momento em que estudam a forma de tornar prático e rápido o fabrico em série de bonecos. Depois, do encarregado das compras do Centro, ter mandado recolher todo o stock de peças de barro, armazenadas umas, rejeitadas outras, outras não vendidas por eventual defeito, e a consequente imediata interrupção das relações comerciais, conseguiram uma promessa de venda de duzentos bonecos de seis moldes diferentes. São eles, a enfermeira, o assírio de barbas, o mandarim, o bobo, o esquimó e o palhaço.
Saltou-me a interrogação, tal como, Cipriano Algor o fez - Gallenkamp, «Quem é esse Senhor».

Aqui, neste link, numa linguagem científica, explica-se a modelagem e fluidez da barbotina. Não há dúvida, que esta explicação mostra, as dificuldades que Cipriano Algor provou, nos dias seguintes ao início dos trabalhos.
Em, http://www.ebah.pt/content/ABAAAehK8AE/apostila-colagem

"As qualidades de uma barbotina irão determinar a qualidade do produto formado. Este deve apresentar boa resistência à verde e homogeneidade em sua constituição, o que significa a ausência de bolhas de ar, de ondulações, de aglomerados e de retração excessiva, a qual implicaria em distorções ou empenamento no item. No entanto, além de se obter um bom produto, é desejável também que a barbotina possua certas características operacionais. Entre estas se destacam a estabilidade da barbotina que significa a possibilidade de uma barbotina ser utilizável por um longo período com um mínimo de ajuste de suas propriedades. A fluidez necessária ao manuseio da barbotina no âmbito industrial. Certa robustez que significa a tolerância a pequenas variações de temperatura, composição química, etc. Baixo consumo de aditivos. Por fim, constância, ou seja, a obtenção da repetição de parâmetros ou rotina operacional.
Como resultado, o controle das propriedades das barbotinas passa a ser um sistema complexo, contemplando vários campos da físico-química, como propriedades dos fluidos, sedimentação, filtração, difusão, absorção, propriedades dos colóides, como capacidade de trocas iónicas e forças electrostáticas entre partículas, etc."


Em, "A Caverna"
Caminho
Páginas 150 e 151

(...) "É o que aqui vem explicado, disse Marta, Lê lá, então, Sobre a densidade, a ideal é um vírgula sete, por outras palavras, um litro de barbotina deve pesar mil e setecentos gramas, à falta  de um densímetro adequado, se quiser conhecer a densidade da sua barbotina use uma proveta e uma balança, descontando, naturalmente, o peso da proveta. E quanto à fluidez, Para mediar a fluidez usa-se um viscosímetro, há-os de vários tipos, cada um delas dando leituras assentes em escalas fundamentadas em diferentes critérios, Não ajuda muito, esse livro, Ajuda, sim, dê atenção, Dou, Um dos de uso mais frequente é o viscosímetro de torção cuja leitura se faz em graus Gallenkamp, Quem é esse senhor, Aqui não consta, Continua, Segundo esta escala a fluidez ideal situa-se entre os duzentos e sessenta e os trezentos e sessenta graus, Não encontras por aí nada ao alcance da minha compreensão, perguntou Cipriano Algor, Vem agora, disse Marta, e leu, No nosso caso usaremos um método artesanal, empírico e impreciso, mas capaz de, com a prática, dar uma indicação aproximada, Que método é esse, Mergulhar a mão profundamente na barbotina e retirá-la, deixando a barbotina escorrer pela mão aberta, a fluidez será tida como boa quando, ao escorrer, formar entre os dedos uma membrana como a dos patos, Como a dos patos, Sim, como a dos patos. Marta pôs o livro de lado e disse, Não adiantámos muito, Adiantámos alguma coisa, ficámos a saber que não podemos trabalhar sem desfloculante e que enquanto não tivermos membranas de pato não teremos barbotina de enchimento que sirva, Ainda bem que está do bom humor," (...)

domingo, 7 de dezembro de 2014

Citador #18 ... da fealdade segundo o cão Achado, em "A Caverna"

Citador #18
... da fealdade segundo o cão Achado
"A Caverna"
Caminho, página 143



(...) "embora deva observar-se que esta opinião não a formulou o Achado, isso de feio e bonito são coisas que não existem para ele, os cânones de beleza são ideias humanas, Mesmo que fosses o mais feio dos homens, diria o cão Achado do seu dono se falasse, a tua fealdade não teria nenhum sentido para mim, só te estranharia realmente se passasses a ter outro cheiro ou passasses doutra maneira a mão pela minha cabeça." (...) 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Citador #16 ... não seremos todos descartáveis... em "A Caverna"

Citador #16
... não seremos todos descartáveis... em "A Caverna"



(...) Depois, falando lentamente, como se tivesse de arrastar atrás de si cada palavra, disse, Desculpa-me, não queria ofender-te, não queria ser desagradável contigo, às vezes não o posso evitar, parece ser mais forte do que eu, e não vale a pena que me perguntes porquê, não te responderia, ou dir-te-ia mentiras, mas há razões, se as procurarmos encontramo-las sempre, razões para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo não sendo as certas, são os tempos que mudam, são os velhos que em cada hora envelhecem um dia, é o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais do que isso." (...)

em, "A Caverna"
Caminho, 2000
Páginas 106 e 107

Palavras de Cipriano Algor, para Marçal Gacho, seu genro. 
Um acabado de descer à terra, outro com o sonho de subir ao topo do centro.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Citador #13 ... do tempo que passa... as horas e os dias... em "A Caverna"

Foi vulgar, não no sentido da pequenez da reflexão, mas no sentido da constante evocativa, a questão do significado do "tempo", ou da temporalidade das acções.
Nesta simples citação, o dia que passa, os dias que passam de forma diversa, o dia que nunca é igual ao seguinte ou semelhante ao anterior que o fez nascer; Saramago aponta aqui, de forma vincada o desassossego e ansiedade na voz de Marta, a filha do oleiro Cipriano. Tão simples e tão curta esta convocatória do "tempo", mas que depara-se profundamente carregada com mais peso que os ombros destas duas personagens pensaram carregar. 
Este momento, é transversal na obra de José Saramago, e ao percorre-la conseguimos perceber que a vida dos dias e das horas, podem ter um significado diferente que o simples deixar passar luas e sois... Pode-se mesmo ousar, invocando exemplos, onde o decorrer do tempo ficou em suspenso ou regredindo, não no sentido em que os ponteiros do relógio andam para trás, mas no peso em que a acção funciona contra-natura. O menino que se esquece do tempo de regresso a casa e alimenta a flor, renovando a vida do campo em contraponto com industrialização da cidade, em "A Maior Flor do Mundo"; a mulher do médico, em "Ensaio sobre a Cegueira", que esquece o tempo que a sua vida lhe traria e acompanha o marido na descida a um inferno onde os dias parecem pausados em que a tortura da "animalidade" humana não tem fim; a senhora morte, nas "As Intermitências da Morte", onde o violoncelista sem o saber rapta com a sua musicalidade a eterna morte que o deixa de ser, dando-se por vencida e entregando-se aos braços do amor; ou... em "Todos os Nomes", onde um funcionário de uma conservatória pretende resgatar do tempo a vida de uma mulher que não a conhecendo, sentia-lhe a vida mas ela já não estava; isto sem falar de, em "O Homem Duplicado", onde o tempo pára, porque o tempo do professor de história pode não ser o dele, mas do vulto duplicado que o sendo, também poderia ser o seu original, e desta feita haveria um tempo copiado.
Saramago que recusando o epíteto ou etiqueta de romancista histórico, porque ao tempo de outras eras ele não buscava a sua explicação, mas antes, o entendimento sobre os acontecimentos do passado que se repercutem no presente e empurram consequências até ao presente/futuro, tratando esta temática com profunda reflexão. 
Não há dúvida que não é fácil dizer coisas tão simples e lineares, mas ao mesmo tempo com tanto peso e profundidade. 
As pessoas são o que carregam ou a forma como carregam a vida. José Saramago, tentou entrar na interpretação do "eu", do "eu e os outros que rodeiam", e do "nós, enquanto seres colectivos e comunitários" para construir o homem.   


(...) "Os dias são todos iguais, as horas é que não, quando os dias chegam ao fim têm sempre as vinte e quatro horas completas, mesmo quando elas não tiveram nada dentro, mas esse não é o caso nem das suas horas nem dos seus dias, Marta filósofa do tempo, disse o pai, e deu-lhe um beijo na testa. (...)

Citador #13
...as horas... os dias
em "A Caverna"
Caminho, pág. 52




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Citador #11 e as "frases de efeito" em A Caverna

Citador #11
"frases de efeito"
A Caverna
Caminho, página 71


"Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse sempre a ponta visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, de uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida." (...)

domingo, 23 de novembro de 2014

"A Caverna" de um centro comercial em construção, nasce uma obra filosófica...

A alegoria da Caverna de José Saramago, é inspirada na acelerada mutação da sociedade agrícola e mais rudimentar, numa vivência industrializada baseada na criação da produção em massa, intensiva, global e asfixiante, em que o homem enquanto ser social consome de foram viciada e dependente sem questionar.
Este espaço comercial em construção, à entrada da cidade de Lisboa (capital e alusão a uma metáfora superior no espaço e tempo de uma sociedade), pela sua brutal dimensão e oferta de produtos e serviços ao dispor dos visitantes, foi o mote para a reflexão que Saramago propôs construir.
A co-relação entre a alegoria proposta por José Saramago, com uma vincada índole consumista e política, da alienação do homem social aos ditames de interesses corporativos sobre as massas, faz a ponte com a milenar e original metáfora de Platão, na "República", "Livro VII" - "Alegoria da Caverna". 
Aqui, Platão, à luz da sociedade organizada da antiga Grécia, preocupava-se em teorizar sobre a "prisão" do ser humano, enquanto ser pensante e eventualmente auto-exilado em si. 
Platão conjuntamente com os seus discípulos, alerta e debate sobre a capacidade do homem de então, poder pensar por si e com os seus (outros) em comunidade. Pensar, discutir, propor, decidir e acima de tudo poder questionar. 
Saramago, adopta e assume este princípio de Platão (e outros seguidores, desde então até esta data, assumindo esta capacidade filosófica com muitas centenas de anos) e acrescenta à metáfora a consciência política e económica de Marx e Engels. O homem que sob o trabalho escravo, sob a miséria das relações laborais, perde a sua condição pessoal e social de independência; ao mesmo tempo, não questiona, não assume a ruptura em conjunto com os seus demais, e deixa-se subjugar.
Acima de tudo, "A Caverna" é o espelho da viciação do ser humano. 




(...) Um dia, à entrada de Lisboa, aonde regressava vindo do norte, vi, ao lado da estrada, um grande cartaz que anunciava a próxima abertura de um novo centro comercial. Imediatamente, a imaginação desenhou na minha mente uma escavação profunda, da qual se levantava um edifício de dimensões enormes, de muros potentes, como uma fortificação gigantesca. Acabava de nascer "A Caverna", que é a visão de um mundo possível, onde os seres humanos quererão habitar no interior dos mesmos espaços comerciais que lhes vendem o que necessitam ou creem necessitar. É uma metáfora da vida nos países desenvolvidos ou que, não o sendo, se enganam a si mesmos em virtude de uma prosperidade apenas aparente, e é também uma alegoria: "A Caverna" retoma o mito platónico e por isso a epígrafe que abre o livro e diz. «Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós». O que "A Caverna" faz é perguntar ao leitor: 



«Seremos nós como os prisioneiros da Caverna de Platão que acreditavam que as sombras que se moviam na parede eram a realidade?
Estamos vivendo num mundo de ilusões?
Que temos feito do nosso sentido crítico, da nossa exigência ética, da nossa dignidade de seres pensantes»? (...)

em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 40


sábado, 22 de novembro de 2014

Epígrafe na obra "A Caverna" - Saramago coloca a menção a Platão

"A Caverna"
Caminho


"Que estranha cena descreves e que
estranhos prisioneiros, São iguais a nós."

Platão, República, Livro VII


Informação sobre a "Alegoria da Caverna", 

A alegoria da caverna, também conhecido como parábola da caverna, mito da caverna ou prisioneiros da caverna, foi escrito pelo filósofo grego Platão e encontra-se na obra intitulada A República (Livro VII). Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade, onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.
Imaginemos todos os muros bem altos separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.1 Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Imagine que um dos prisioneiros seja libertado e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.
Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras.
Platão não buscava as verdadeiras essências na simples Phýsis, como buscavam Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se liberte, correria como Sócrates o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é como se você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, e então vem alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos, totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na existência humana, comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo, inertes em suas poucas possibilidades.
A partir da leitura do Mito da Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação de texto.

O diálogo de Sócrates e Glauco[editar | editar código-fonte]
Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco — É bem possível.

Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco — Sim, por Zeus!

Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco — Assim terá de ser.

Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco - Concordo.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão. A República. Livro VII)

Interpretação da alegoria
O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância,1 isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade.
Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, do conhecimento abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e o domínio das ideias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das ideias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau da apreensão de imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são perfeitas como as coisas no mundo das ideias e, por isso, não são objetos suficientemente bons para gerar conhecimento perfeito.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Citador #6 - Marçal Gacho e o seu uniforme de guarda do Centro



Citador #6
«A Caverna»
Caminho
Página 14

(...) "Conhecesse-a Marçal Gacho, que talvez fizesse valer perante o sogro o peso da autoridade que a farda lhe conferia, conhecesse-a Cipriano Algor, que talvez passasse a falar ao genro com menos irónica condescendência. É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe." (...)


(desenho de homens escravizados)