Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 18 de janeiro de 2020

12 a 17 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

12 de Janeiro
(...) "Primeira participação no programa da RDP O Mundo de..., para que Adelino Gomes me convidou em Novembro do ano passado. Voltarei de cinco em cinco semanas,decidido, como sempre, a não dizer o que não penso..."

13 de Janeiro
"Pastelaria Versalhes. Enquanto almoço, entretenho-me a pensar nos enredos do livro que ando a ensinar a andar, este Todos os Nomes por enquanto bastante inseguro de pernas, quando uma palavra repetidamente dita numa mesa próxima começou a romper a muralha de abstracção em que me tinha envolvido e a empurrar o estaleiro do romance para fora da área dos cuidados imediatos. A palavra era «universo»" (...)

17 de Janeiro
"Hoje, em Lanzarote, lendo o jornal, enquanto tomava o sol no terraço, tive noticias do Universo, aquele cujo nome costumamos escrever com a letra inicial maiúscula para não fazer confusão com o da Pastelaria Versalhes. Dois cientistas da Universidade do Michigan, Fred Adams e Greg Laughlin, afirmam que acabará dentro de um numero de anos definido por 154 zeros (...) Pressinto que não viverei tanto..." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

6 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"Tenho trabalhado com disciplina e louvável pontualidade em Todos os Nomes. Hoje decidi fazer uma pausa na obrigação de passar a estes Cadernos, como diários de bordo que também têm sido, alguns apontamentos, uns anteriores a 24 de Outubro do ano passado, que foi quando comecei a escrever o livro, outros do próprio dia em que lancei ao papel o princípio do romance.
Eis as primeiras  notas:
1. «Dando tempo às coisas, as coisas, em geral, resolvem-se. Em Amherst vi a história de que precisava para Todos os Nomes. (...)
 «Na repartição, ao ler, uma vez mais, o registo da pessoa, encontra um averbamento feito quinze dias antes por um colega: o registo do falecimento da mulher." (...) 
2.«Outra vez a questão dos nomes. À primeira vista, por contraste com o Ensaio, onde nenhuma personagem tem nome, aqui, com este título, parece que deveriam aparecer todos os nomes, que deveria haver mesmo a preocupação de fazê-los sobressair, de jogar com eles. Simplesmente, isso repugna-me. O nome das pessoas é demasiado intrigante para ser banalizado.» (...)
Eis outros apontamento: (...)

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Capa da recente edição da Porto Editora


sábado, 28 de janeiro de 2017

"O presente é uma linha ténue" Recuperação da entrevista de Carlos Câmara Leme a José Saramago (Público, 25/10/1997)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/todosOsNomes.htm

"Público" de 25 de Outubro de 1997
"O presente é uma linha ténue"
Por Carlos Câmara Leme

Epigrafe da obra 
"Conheces o nome que te deram, não o nome que tens" 
do "Livro das Evidências"

"Todos os Nomes", o último livro de José Saramago, é um ensaio sobre a existência, com contornos policiais. Um ensaio pessimista. "Nada no mundo tem sentido", diz a personagem central do romance. A única que tem nome: José.

O novo romance de José Saramago mistura muitas coisas: uma história, um ensaio - de foro filosófico - e algo de novo na sua obra. Saramago está cada vez mais descrente do futuro da humanidade, e do homem. Ou seja, mais pessimista. Os lugares centrais do livro passam por uma Conservatória Geral e por um cemitério, onde todos nós, mortos e vivos, se confundem. Resta-nos viver o presente... É pouco. Se calhar é a única coisa que nos resta. A obra é lançada pela Caminho nos próximos dias e será apresentada a 3 de Novembro, em Lisboa, por Eduardo Lourenço. O PÚBLICO já leu o livro e entrevistou o autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

O que é "Todos os Nomes"? Um romance com muitos traços de um policial? Mais um ensaio sobre a existência? Sobre a procura da identidade?
Para haver romance policial são precisos, pelo menos, um criminoso e um polícia. Nada disso existe em "Todos os Nomes". Mas é verdade que o livro descreve uma procura, uma busca, que há nele uma investigação. A grande e decisiva diferença está no facto de que a pessoa procurada não sabe que a procuram e a pessoa que procura não tem a certeza de querer encontrar o objecto da sua busca. Que este romance possa ser entendido como um ensaio sobre a existência - talvez. Julgo que todos os livros o são, que escrevemos para saber o que significa "viver", e não já para tentar encontrar resposta às famosas perguntas: quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? 
Que o livro possa ser visto como uma indagação sobre a identidade, sim, mas não sobre a identidade própria. O que aqui se procura é o "outro".

O Sr. José - a personagem central do livro - é uma daquelas pessoas que levam a vida a coleccionar coisas, diz-se no início do livro - "talvez por não conseguirem suportar a ideia do caos como regedor único do universo". O Sr. José não se identifica desta maneira com o romancista José Saramago enquanto criador de mundos aos quais procura imprimir um sentido?
Não sou o Sr. José, embora lhe tenha dado o meu nome. E não me reconheço em nenhum dos seus comportamentos e características. Não temos o mesmo "modo de ser". Salvo essa ideia de que talvez seja possível pôr alguma ordem no que a não tem, ou, por outras palavras, resignar-se ao caos desde que seja possível traçar nele ao menos uma linha que una dois pontos. O que faço como romancista é tentar atar uns quantos fios soltos, deixar atrás de mim um pouco de sentido. Mesmo que não seja mais que o tão caluniado sentido comum...

"Não há nada que mais canse uma pessoa", diz o narrador, "que ter que lutar com o próprio espírito, com uma abstracção." Esse também é o trabalho do escritor? Como é que surgiu esta ideia de baralhar a vida dos mortos com a vida dos vivos? É a procura da natureza da fronteira que separa a vida da morte? Afinal, como se discute no último capítulo do livro, o que é mais sagrado: a vida ou a morte?
Todo o romance precisa de uma "história", mas um romance que não se tenha proposto mais que contar "essa história" interessa-me pouco. A explicação disto, provavelmente, encontra-se numa declaração que algumas vezes tenho feito, a de ser em ensaísta falhado que escreve romances porque não teve quem lhe ensinasse a escrever ensaios... Precisei sempre, para trabalhar, de uma ideia forte, ou de uma abstracção, se se quiser chamar-lhe assim. Mas as ideias, sejam elas fortes ou fracas, só da realidade é que podem nascer, os dados da imaginação são também dados de realidade. "Todos os Nomes" não existiria se eu não tivesse tido que procurar, investigar, como fui relatando ao longo dos "Cadernos de Lanzarote - IV", as circunstâncias do falecimento do meu irmão Francisco, em 1924. Nada dessa busca passou para o romance, mas o livro alimenta-se da minha própria vivência de Sr. José durante os meses que levei a procurar um garotinho que morreu com quatro anos no hospital de Lisboa. 
Quanto ao que é mais sagrado, se a morte, se a vida, respondo que a vida. Mas nem toda a gente estará de acordo: a prova é que dar um pontapé a um vivo não suscitará qualquer advertência sobre o sagrado da vida, ao passo que tê-lo dado a um morto provocaria logo o protesto: "Tenha vergonha! A morte é sagrada!..."

Essa questão coloca-nos, de novo, perante a questão da identidade. Todos os nomes podem ser um só? O do Sr. José, perseguindo o destino de uma mulher e o seu próprio, não se confunde connosco? Com todos os josés do mundo?
Remeto para o "Ensaio sobre a Cegueira". Em certa altura a rapariga dos óculos escuros diz: "Há dentro de nós uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." Comentando esta frase, escrevi há tempo: "Talvez o desejo mais profundo do ser humano seja poder dar-se a si mesmo o nome que lhe falta." Portanto todos somos uma espécie de senhores josés a quem anda a faltar o resto do nome.

Na epígrafe do livro lê-se: "Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens." Quem diz o nome não pode dizer a vida? "Em rigor", diz de novo o narrador, "não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós." O acaso tem uma força imensa...
Torno à rapariga dos óculos escuros. A frase dita por ela e a epígrafe deste romance são complementares, encaixam perfeitamente uma na outra. Isto mostra, ao menos, que há alguma coerência nas ideias do autor... Quanto à "vida", não me parece que possa ocupar aqui o lugar do "nome". Quem sou eu? Um "ser humano" a quem deram o nome de "José Saramago". E isso que significa? Que significa ser-se "ser humano"? Que significa ser-se "José Saramago"? São apenas nomes que "me deram", não são o nome "que tenho". Também damos o nome de "acaso" a algo que nos dicionários se define assim: "Efeito resultante de um grande número de pequenas causas, independentes entre si, e funções de leis ignoradas ou mal conhecidas." Por outras palavras: o acaso não existe...

O ser no tempo

Reunir, como faz o chefe da conservatória, os papéis da vida e da morte não é demasiado borgiano? Não será esse o tema central do romance e a essência da busca do Sr. José?
Nunca nada será demasiado borgiano. Creio que os três escritores que melhor definem este século são Kafka, Pessoa e Borges, o que quer dizer que também nunca nada será "demasiado" pessoano ou kafkiano... O tema central do romance, como disse antes, é a procura do "outro", independentemente de estar vivo ou morto. Por isso o Sr. José continuará a "procurar" a mulher desconhecida, mesmo depois de saber que já não a poderá encontrar. Juntar os papéis dos vivos e dos mortos significa juntar toda a humanidade. Nada mais. Ou tudo isso.

À imagem do que acontece na esmagadora maioria dos seus livros, o problema do tempo, dos tempos, está também presente em "Todos os Nomes". Porquê essa obsessão?
Porque todas as outras obsessões não passam de meros afluentes desse mar.

Qual é o principal objecto da sua ficção: o tempo ou o ser? "O mais importante", lê-se, "era precisamente isso, o que o tempo faz mudar, e não o nome, que nunca varia"...
Não o ser por si só, não o tempo por si só, mas o ser no tempo. Parece uma frase de filósofo, peço perdão pelo atrevimento... Mas às vezes penso que o direito à filosofia deveria ser incluído entre os direitos humanos...

Ao contrário do que acontece com outras personagens femininas que criou - as mulheres fantásticas de "Memorial do Convento", de "Jangada de Pedra" ou de "Ensaio sobre a Cegueira" -, em "Todos os Nomes" não parece ser reconhecida à mulher e ao amor uma força tão excepcional. Porquê? Mas ainda há aqui, veladamente, uma história de amor?
É uma história de amor, ou melhor, uma história que poderia vir a ser de amor. A ansiedade do Sr. José é já uma ansiedade amorosa, embora ele não saiba ao princípio. Quanto à força, a tal força feminina que de facto está patente em outros romances, creio que ela também se encontra em "Todos os Nomes", na senhora do rés-do-chão direito. A diferença é que, desta vez, não se trata duma mulher nova, mas duma mulher de 70 anos. As outras mulheres são, de certo modo, "sobre-humanas", esta é "humana" simplesmente. A força, porém, está lá...

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a existência de várias vozes que aqui e ali vão aparecendo. Uma delas chega a ser o tecto que dá conselhos ao Sr. José (como noutras obras eram os misteriosos cães que iam dando uns palpites). Qual é a importância dessas vozes? Até que ponto a sua introdução não é sinal de uma alteração na sua técnica narrativa? 
Isso a que chama "vozes" já vem de "Levantado do Chão". São como projecções da consciência, ecos de um dizer ou de um pensar que se tornaram dialécticos ao expressar-se, neste caso ainda mais justificados pelo facto de o Sr. José ser um homem só. "Falar com as paredes" é uma expressão coloquial corrente, portanto o Sr. José não inventou nada quando fez do tecto da sua casa um interlocutor.

Além da conservatória, há um outro espaço fundamental e similar, em "Todos os Nomes": o do Cemitério Geral; espaços onde a vida e a morte se confundem. Porquê essa similitude? O narrador diz que o Cemitério Geral é "um catálogo perfeito, um mostruário (...) um inventário de todos os modos de ver, estar e habitar existentes até hoje", "o próprio coração do tempo". Porquê? 
Uma conservatória única e um cemitério único, como são os deste romance, contêm logicamente, por essa mesma unicidade, todos os nomes. Quando cito aquela frase de Croce que diz que "toda a História é História contemporânea", quero dizer, à minha maneira, que tudo o que sucedeu está a suceder, que todos os mortos estão vivos, que não somos nada sem eles. O presente é uma linha ténue que se desloca ininterruptamente para o que chamamos futuro, ou talvez um "eixo" móvel sobre o qual o tempo vai rolando, segundo a segundo. Ou página a página.

Se, como escreve, "contra a morte não se pode fazer nada", por que é que "um Cemitério é como uma espécie de biblioteca onde o lugar dos livros se encontrasse ocupado por pessoas enterradas"?
É certo que, objectivamente, nada podemos contra a morte. Mas a memória, a memória "sobrevivente", faz pairar, sobre a morte, a vida. Muitas vezes se chamou a uma biblioteca não consultada cemitério de livros. É a primeira vez, suponho, que alguém teve a ideia de chamar a um cemitério biblioteca de pessoas. Tudo está em consultar ou não a biblioteca, qualquer que ela seja. A memória, quero dizer.

Por que razão o Sr. José escolhe "a verdade pela mentira", quando troca a tabuleta da mulher desconhecida por uma outra? Na vida, como na morte, tudo é relativo? Não há fio de Ariadne que nos norteie?
Quando o Sr. José troca a tabuleta, ela já tinha sido trocada antes. Talvez a nova troca tenha recolocado a tabuleta no seu lugar, talvez não. De todo o modo ele não o saberá. O importante não é perguntar "Onde estás?", mas sim "Quem foste?".

"Todos os Nomes" é uma busca ontológica? Ou é uma subversão das fronteiras entre verdade e mentira, vida e morte? Nada no mundo tem sentido, como murmura, no final do livro, o Sr. José?
Busca ontológica, sim. Mas sem mais pretensão que chegar aonde alcançasse, nesses domínios, o meu curto braço. Quanto ao sentido que a vida tenha, já não seria pouco que conseguíssemos ser, cada um de nós, o nosso próprio fio de Ariadne... 

domingo, 8 de maio de 2016

"Todos os Nomes" e o mistério sobre a morte do irmão Francisco na inspiração desta obra ("Cadernos de Lanzarote Diário IV - 1996)

Sinopse da obra apresentada na página da Fundação José Saramago, e que pode ser aqui consultada, em http://www.josesaramago.org/todos-os-nomes/
"O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro."

Capa da edição grega (1999)

27 de Agosto (de 1996) 
"Prossegue o mistério da morte de meu irmão Francisco. Julgava eu, recordando o que tantas vezes ouvi dizer a minha mãe, que ele tinha sido internado, sofrendo de difteria, no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, onde viria a falecer, mas o Instituto, depois de buscar nos arquivos, informa-me de que nenhum Francisco Sousa filho dos nossos pais deu ali entrada. Teria, afinal, morrido em casa? Se assim foi, como é possível não ter eu conservado qualquer recordação do lutuoso acontecimento, por muito criança que fosse então? Teria ido morrer a outro hospital? É mais do que duvidoso, uma vez que o tratamento de casos clínicos daquela natureza tinha como lugar próprio (e talvez mesmo obrigatório) o Instituto Câmara Pestana. É certo que o desconhecimento destes e outros privilégios da civilização lisboeta, compreensível em quem só há poucos anos viera da bisonha Azinhaga para a cidade, poderia ter levado os meus pais a descuidar da gravidade do mal, acabando-se-lhes, por assim dizer, o filho nos braços. De todo o modo, não creio: meu pai estava na Polícia de Segurança Pública, com certeza falou da doença do filho aos colegas, e algum destes, ou um superior, não deixariam de encaminhá-lo caridosamente aonde convinha. Seja como for, porém, morresse onde morresse o mano Francisco, como é que o registo do seu falecimento não consta na Conservatória da Golegã? Que passo deverei dar agora? Pedir a alguém que percorra por mim os labirintos arquivísticos dos cemitérios de Lisboa, à procura de um Francisco Sousa que parece não querer aparecer? É que não é a mesma coisa requerer a um funcionário o favor de pesquisar uns poucos de livros antigos numa conservatória de província ou os registos de um estabelecimento hospitalar especializado, e esquadrinhar as infinitas, as vertiginosas listas mortuárias desses lugares aonde toda a vida vai parar..."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 207 (27/08/1996)

Cada da edição brasileira - Companhia das Letras (1997)

21 de Setembro (de 1996) 
"Esta manhã, ainda deitado na cama, entre as névoas do primeiro despertar, tal como se na minha frente fossem flutuando peças soltas de um mecanismo que, por si mesmas, procurassem os seus lugares e se encaixasssem umas nas outras, comecei a distinguir, de um extremo a outro, o desenvolvimento do enredo de Todos os Nomes, esse romance cujo título nasceu, em Janeiro, num avião que descia para Brasília, e que, para mostrar-se (definitivamente?), precisou que um outro avião me trouxesse a Amherst. Estava a pensar, de um modo vago, sonolento, nos esforços que tenho feito para encontrar a pista do meu irmão, e de repente, sem qualquer relação aparente, começaram a desfilar-me na cabeça as personagens, as situações, os motivos, os lugares de uma história que não chegaria a existir (supondo que a virei a escrever) se o óbito do Francisco de Sousa tivesse sido registado na Conservatória da Golegã, como deveria..." 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 222 (21/09/1996)



sexta-feira, 6 de maio de 2016

"El cementerio fractal de Saramago" de Juan Manuel Ruiz (El País - 16/06/1999) via Fundação José Saramago

José Ovejero e Pilar del Río, numa conversa moderada por Ricardo Viel 
sobre os livros "A Invenção do Amor" e "Todos os Nomes" (05/05/2016 - FJS)

"De 1999, um artigo do El País sobre o Cemitério Geral de "Todos os Nomes", de José ‪#‎Saramago‬, e a sua relação com a teoria fractal. Mais logo, às 18h30, este será um dos dois livros que serão abordados na conversa com José Ovejero e Pilar del Río."
Publicado pela Fundação José Saramago na sua página do Facebook, aqui

"El cementerio fractal de Saramago" de Juan Manuel Ruiz (El País - 16/06/1999) via Fundação José Saramago

Publicado no "El País" e que pode ser recuperado e consultado aqui,

"La imagen de un cementerio la asociamos a una pequeña estructura cuadrada en la ladera próxima al pueblo, más amplia en las ciudades, con límites definidos, a veces tapiados, a veces abiertos como en los umbríos parques sajones, pero siempre una estructura fría, poligonada. El lugar donde se guarda lo inanimado ha de tener, en nuestra sociedad, ese sereno encanto de lo exacto propio de la geometría euclidiana. En un delicioso capítulo de su novela Todos los nombres (Alfaguara, 1997), José Saramago se inventa un cementerio que rompe ese canon de siglos: El Cementerio General. Contra lo establecido, el Cementerio General no es una estructura euclidiana sino fractal. Las estructuras fractales se caracterizan por no tener una medida definida. Un ejemplo es el de la frontera entre España y Portugal ¿Cuánto mide? Pues depende de la escala que utilice. Si lo hace sobre su atlas obtendrá unos determinados kilómetros. Sobre su mapa de carretera, de escala algo mayor, la frontera será más larga porque existen entrantes y salientes que habrá medido ahora y que no aparecían en su atlas. Y si, como el excéntrico emperador chino que nos recreó Borges, utiliza un mapa de escala 1/1, es decir, si recorre paso a paso la frontera, no le quepa duda que la caminata será mucho más larga de lo previsto. Las fronteras naturales tienen la geometría propia de la naturaleza, la geometría fractal. Así también el Cementerio General.

Según Saramago, el Cementerio General comenzó con un núcleo inicial, un recinto cuadradito donde el conservador tenía tiempo de organizar, con euclidiano espíritu, el lento acúmulo de muertes del pequeño pueblo. Cuando se necesitó más espacio, se trasladaron algunas de las primitivas tapias para seguir con el tedioso ordenamiento. Todo cambió cuando el encargado, agobiado por el rápido incremento de decesos de la ciudad, sucumbe ante la imposibilidad de disponer las sepulturas según el orden prescrito y opta por derribar las paredes dejando tan sólo la fachada principal. Desbordada la lenta planificación por el vertiginoso flujo de enterramientos, el cementerio comienza a crecer por diversos puntos, inicialmente protuberancias que se convierten más tarde en dedos, en ramas que se extienden, sin que nadie las guíe, probablemente hacia los valles más accesibles entre las colinas aledañas. Algunas de esas ramas topan con las urbanizaciones que aparecieron en los alrededores. Sorteando esos obstáculos, el cementerio avanza por las zonas de mínima presión urbanística, creando bifurcaciones de las primeras ramas de las que a su vez nuevas y nuevas bifurcaciones aparecerán, dando lugar, por un proceso de autoorganización a una estructura dendrítica con incontables entrantes y salientes, de dimensión fraccionaria. Un cementerio que "observado desde el aire, ... parece un árbol tumbado, enorme, con un tronco corto y grueso, constituido por el núcleo central de sepulturas, de donde arrancan cuatro poderosas ramas, contiguas en su nacimiento pero que después, en bifurcaciones sucesivas se extienden hasta perderse de vista, formando ... una frondosa copa en la que la vida y la muerte se confunden".

Condición imprescindible para generar esta estructura, como el propio Saramago genialmente intuye, es que la agregación sea continua e irreversible, es decir, que en el Cementerio General estén todos los nombres, pues de otra manera, la fría geometría se hubiera perpetuado al reemplazar, como hacemos nosotros, los viejos por los nuevos difuntos.

El Cementerio General está acorde con la entrañable historia de subversión que relata esa novela. Ciertamente, cuando el flujo de las ideas, de los avances sociales o técnicos (o de las defunciones) es tan rápido que no puede ser asimilado por el orden establecido, la salida es revolucionaria. Algunos dirán, caótica. Sólo que ahora ese caos comenzamos a entenderlo y, como muestra el ejemplo de Saramago, un nuevo tipo de estructura resulta de la auto-organización, discutible en su eficacia, pero desde luego bella.

Juan Manuel García Ruiz es geólogo."

"Este articulo apareció en la edición impresa del Miércoles, 16 de junio de 1999"

terça-feira, 16 de junho de 2015

Kjell Espmark é mencionado no Blog/Livro "O Caderno 2", no post "Todos os nomes" (19/11/2008)

Pode ser consultado e lido, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/12775.html

(Imagem da capa da obra realizada por Kjell Espmark, 
sobre a atribuição dos prémios Nobel da literatura - 2012)

"Todos os nomes"

"A dedicar exemplares de “A Viagem do Elefante” na editora durante uma boa parte da manhã. Na sua maioria irão ficar em Portugal como um recado para os amigos e companheiros de ofício dispersos nas lusitanas paragens, mas outros viajarão a terras distantes, como sejam o Brasil, a França, a Itália, a Espanha, a Hungria, a Roménia, a Suécia. Neste último caso, os destinatários foram Amadeu Batel, nosso compatriota e professor de literatura portuguesa na Universidade de Estocolmo, e o poeta e romancista Kjell Espmark, membro da Academia Sueca. Enquanto dedicava o livro para Espmark recordei o que ele nos contou, a Pilar e a mim, sobre os bastidores do prémio que me foi atribuído. O “Ensaio sobre a Cegueira”, já então traduzido ao sueco, havia causado boa impressão nos académicos, tão boa que ficou praticamente decidido entre eles que o Nobel desse ano, 1998, seria para mim. Acontece, porém, que no ano anterior tinha publicado outro livro, “Todos os Nomes”, o que, obviamente, em princípio, não deveria constituir obstáculo à decisão tomada, a não ser uma pergunta nascida dos escrúpulos dos meus juízes: “E se este novo livro é mau?” Da resposta a dar encarregou-se Kjell Espmark, em quem os colegas depositaram a responsabilidade de proceder à leitura do livro no seu idioma original. Espmark, que tem certa familiaridade com a nossa língua, cumpriu disciplinadamente a missão. Com o auxílio de um dicionário, em pleno mês de Agosto, quando mais apeteceria ir navegar entre as ilhas que enxameiam o mar sueco, leu, palavra a palavra. a história do funcionário Sr. José e da mulher a quem ele amou sem nunca a ter visto. Passei o exame, afinal o livrinho não ficava nada atrás do “Ensaio sobre a Cegueira”. Uf."

em "O Caderno 2"
Caminho, 19 de Novembro de 2008

(Kjell Espmark, no momento do 
discurso de apresentação)

A apresentação do Prémio Nobel, na cerimónia de entrega, lida por Kjell Espmark, pode ser consultado e lido, aqui

"Your Majesties, Your Royal Highness, Ladies and Gentlemen,"

"There is one type of writer who, like a bird of prey, circles time and again over the same territory. Book succeeds book, in progress towards a coherent picture of the world. José Saramago belongs to the opposite category, writers who repeatedly seem to want to invent both a world and a style that is new. In his novel The Stone Raft, he makes the Iberian peninsula separate and drift out into the Atlantic, an opening that provides a wealth of possibilities for a satirical description of society. But in his next book, The History of the Siege of Lisbon, no trace of this geological catastrophe is to be found. In Blindness: a Novel, the epidemic that deprives people of their sight is confined between the covers of the work. In his next novel All the Names, at the Population Registration Office nothing has been heard of any rampant spread of blindness, nor in previous works has there been anything to suggest the existence of this chillingly all-embracing agency. It is not Saramago's ambition to portray a coherent universe. On the contrary, he seems every time to be trying out a new model to apprehend an evasive reality, fully aware that each model is a crude approximation that could permit other approximate values, indeed one that requires them. He explicitly condemns anything that claims to be "the only version"; it is merely "another version among many". There is no overriding truth. Saramago's apparently contradictory images of the world have to be placed alongside each other to provide their own alternative accounts of an existence that is fundamentally protean and unfathomable.

In each and every one of these versions, the rules of common sense are suspended in some way. This is not uncommon in recent fiction. But here we are dealing with something different from narrative in which anything can happen - and does so all the time. Saramago has adopted a demanding artistic discipline which allows the laws of nature or common sense to be violated in one decisive respect only, and which then follows the consequences of this irrationality with all the logical rationality and exact observation it is capable of. In his novel The Year of the Death of Ricardo Reis, he makes a flesh and blood character of a figure that has only existed in the imaginary world, one of the guises adopted by the poet Pessoa. But this miracle gives rise to a masterfully realistic picture of Lisbon in the 1930s. Again, the severance of the Iberian peninsula that allows it to drift off into the Atlantic is a one-off violation of the natural order; what follows is a hilariously precise description of the consequences of this absurd aberration. In The History of the Siege of Lisbon the accepted order of things is subverted more discreetly. A proof-reader introduces a "not" into a book about the war of liberation against the Moors, thus altering the course of history. As penance he is made to write an alternative history that delineates the consequences of his amendment; this is once again a version that denies any claim to be the only valid one. In the same spirit, Saramago has also published a new, wonderful version of the narrative of the gospels, a version in which the contravention of the expected order is to be found in God's petty hunger for power so that the role of Jesus is redefined as one of defiance. Perhaps the greatest scope allowed to the fantastic is in Baltasar and Blimunda where the clairvoyant heroine gathers up the wills of the dying - energy that makes the aerial voyage in the book possible. But she too and her love are placed in an objectively described historical process, in this case the construction of the convent at Mafra that cost so much human suffering.

This rich work, with its constantly shifting perspectives and constantly renewed images of the world, is held together by a narrator whose voice is with us all the time. Apparently he is a story-teller of the old-fashioned omniscient variety, a master of ceremonies standing on the stage next to his creations, commenting on them, guiding their steps and sometimes winking at us across the footlights. But Saramago uses these traditional techniques with amused distance. The narrator is also adept in the contemporary devices of the absurd and develops a modern scepticism when faced with the omniscient claim to be able to say how things stand.The result is literature characterised at one and the same time by sagacious reflection and by insight into the limitations of sagacity, by the fantastic and by precise realism, by cautious empathy and by critical acuity, by warmth and by irony. This is Saramago's unique amalgam.


Dear José Saramago,

Anybody who tries in a few minutes to portray your work will end up articulating a series of paradoxes. You have created a cosmos that does not want to be a coherent universe. You have given us ingenious versions of a history that will not allow itself to be taken captive. You have taken the stage as the kind of narrator we feel we have long been familiar with - but with all of our contemporary liberties at your fingertips and imbued with contemporary scepticism about definite knowledge.Your distinguishing mark is irony coupled with discerning empathy, distance without distance. It is my hope that this award will attract many people to your rich and complex world. I would like to express the warm congratulations of the Swedish Academy as I now request you to receive this year's Nobel Prize for Literature from the hands of His Majesty the King."

10 de Dezembro de 1998
Versão portuguesa, publicada no Diário de Notícias, a 11/12/1998

"Há escritores tipo ave predadora, que descrevem círculos repetidos sobre o mesmo território, de livro para livro, buscando um retrato coerente do mundo". (...) "[Saramago] pertence a uma categoria contrária, a dos escritores que parecem querer sempre inventar um mundo e um estilo novos". [Assim, se a Península Ibérica fica à deriva em A Jangada de Pedra, não há traços dessa catástrofe geológica na História do Cerco de Lisboa; tal como a epidemia que é descrita em Ensaio sobre a Cegueira não deixa traços em Todos os Nomes.]

"[Na realidade], a ambição de Saramago não é retratar um universo coerente. Pelo contrário, parece, de cada vez, tentar criar um novo modelo de apreensão de uma realidade evasiva, consciente de que cada modelo é uma aproximação crua que pode admitir outros valores aproximados, na realidade um que os exige a todos. Ele condena explicitamente tudo que proclame ser "a única versão", é apenas "uma versão entre muitas".

"Em cada uma destas versões, as regras do senso comum estão suspensas de alguma forma. Isto não é invulgar na ficção recente. Mas aqui estamos a lidar com algo diferente da narrativa em que tudo pode acontecer - e acontece constantemente. Saramago adoptou uma exigente disciplina artística que autoriza as leis da natureza e do senso comum a serem violadas apenas num aspecto decisivo e que então segue as consequências desta irracionalidade com toda a racionalidade lógica e observação exacta de que é capaz." [A propósito, Espmark citou os casos de O Ano da Morte de Ricardo Reis, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento.]

"Esta obra rica, com as suas perspectivas constantemente mutáveis e renovadas imagens do mundo, recebe a sua unidade de um narrador cuja voz está sempre connosco. Aparentemente é um contador de histórias da velha espécie omnisciente, um mestre de cerimónias de pé no palco, comentando-as, guiando os seus passos. Mas Saramago usa esta técnica tradicional com divertida distância. O narrador desenvolve um moderno cepticismo quando confrontado com a omnisciente proclamação de ser capaz de dizer em que pé estão as coisas. O resultado é uma literatura caracterizada, simultaneamente, por uma sagaz reflexão e por uma visão interior dos limites da sagacidade, pelo fantástico e por um realismo preciso, por uma empatia cautelosa e por uma acuidade crítica, pelo calor e pela ironia. Essa é a amálgama, única, de Saramago."

[Dirigindo-se directamente ao laureado, e usando o português] "Caro José Saramago, quem tentar, em poucos minutos, retratar a sua obra acaba por articular uma série de paradoxos. Criou um cosmos que não quer ser um universo coerente. Deu-nos versões engenhosas de uma história que não se deixa aprisionar. Entrou no palco como o género de narrador com que há muito nos familiarizámos - mas com todas as nossas liberdades contemporâneas nos seus dedos e imbuído de um cepticismo actual acerca do conhecimento definitivo. A sua marca distinta é a ironia associada a uma simpatia, distância sem distanciação. Espero que este prémio atraia muitas pessoas para o seu mundo rico e complexo. Desejo exprimir as felicitações da Academia Sueca ao mesmo tempo que lhe peço que receba o Prémio Nobel da Literatura das mãos de Sua Majestade o Rei."

Professor Kjell Espmark, membro da Academia Sueca e presidente do Comité Nobel

Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998"

domingo, 24 de maio de 2015

Citador #38 ... do tempo do Sr. José, em "Todos os Nomes"

Citador #38
... do tempo do Sr. José
"Todos os Nomes"
Caminho, páginas 46 e 47

(Capa da edição italiana de 1997)

(...) «O tempo pusera-se a contar os dias desde o princípio, agora usando a tábua da multiplicação para recuperar o atraso, e com tanto acerto o fez que o Sr. José já tinha outra vez cinquenta anos quando chegou a casa. Quanto à criança lacrimosa, essa só estava uma hora mais velha, o que demonstra que o tempo, ainda que os relógios queira convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente.» (...)

domingo, 17 de maio de 2015

«Todos os Nomes» de José Saramago ... do Sr. José e o início




(...) «O verbete é de uma mulher de trinta e seis anos, nascida naquela mesma cidade, e dele constam dois averbamentos, um de casamento, outro de divórcio. Como este verbete há de certeza centenas no ficheiro, senão milhares, portanto não se compreende por que estará o Sr. José a olhar para ele com uma expressão tão estranha, que à primeira vista parece atenta, mas que é também vaga e inquieta, possivelmente é este o modo de olhar de quem, aos poucos, se desejo nem recusa, se vai desprendendo de algo e ainda não vê aonde poderá deitar a mão para tornar a segurar-se.» (...)

em "Todos os Nomes"
Caminho, página 37


segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Todos os Nomes" Adaptação por Margaret Jull Costa - "All the Names" no Quantum Theater Pittsburgh (Pensilvânia EUA)

Via Facebook, página "Blimunda" e "Fundação José Saramago"

"Depois de um tributo no Iberian Suite, em Washington, e da estreia da ópera "As Intermitências da Morte" em San Francisco, é a vez de "Todos os Nomes" chegar a um palco nos Estados Unidos. A partir de 10 de abril, no Quantum Theater, em Pittsburgh (Pensilvânia). 
Todas as informações, aqui:"
http://www.quantumtheatre.com/season/allthenames

"Adaptation based on José Saramago's book, translated by Margaret Jull Costa
Devised by Karla Boos, Chris Evans, Cindy Limauro, Barbara Luderowski, Sarah Pickett, Megan Monaghan Rivas, Joe Seamans, and Narelle Sissons
April 10–May 2, 2015
Location: The Original Carnegie Free Library of Allegheny"





"World premiere adaptation based on José Saramago's Nobel Prize winning book, translated by Margaret Jull Costa

A team of collaborators and a fascinating premise: make José Saramago’s Nobel Prize-winning novel a three-dimensional, theatrical experience.  Devised by: Karla Boos, Chris Evans, Cindy Limauro, Barbara Luderowski (Co-Director of the Mattress Factory), Sarah Pickett, Megan Monaghan Rivas, Joe Seamans, and Narelle Sissons.  What results might look like theatre from one perspective, but installation art from another, allowing Luderowski’s love of architecture, sculpture, and assemblage to contribute in a fundamental way, and asking patrons to forget everything they know about the traditional theater experience and become completely immersed in José Saramago's beautiful story, about Senhor José, a lowly clerk in the Central Registry of an unnamed city, obsessed with collecting and on a journey to find a mysterious woman who has slipped through the cracks of Kafka-esque categorization.

World Premiere"




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Richard Eder (The New York Times) apresenta a obra "Todos os Nomes" (04/10/2000)

Na obra de João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago" (Porto Editora, página 295), é recuperada o espanto pela orientação política de Saramago, muito escrutinada nestas referências. Na tradução, inserida em rodapé, o crítico Richard Eder do "The New York Times" refere: «Que o Sr. Saramago seja comunista - comunista muitíssimo raro porque é um grande escritor em todos os sentidos - é provavelmente significativo. É certo que não há nada ideologicamente programado na sua ficção, mas as suas personagens populares conseguem prevalecer sobre aquilo que as oprime. É mais importante o facto de ser ateu (decididamente um ateu católico romano, com problemas frequentes com a igreja)».
Esta análise resume em grande parte a envergadura transversal que atravessa toda a obra do escritor. A bandeira política ou a religiosa, não é imposta pelo autor como trâmite ou veículo da mensagem, antes porém, uma manifestação natural da vida que as suas personagens assumem. José Saramago, comunista para espanto dos críticos, ateu transgressor com confrontos contra os edifícios e estruturas organizacionais da igreja, manifestou-se como um elemento social, inquieto e sempre desassossegado, confuso e visceralmente crítico pela tamanha falta de bondade e justiça no mundo.
Mostra-se de particular importância, observar e enquadrar na análise da sua obra, estes testemunhos críticos, que permitem criar/justificar uma zona de distância e independência de Saramago enquanto escritor, e que por tal arte foi distinguido ao mais alto nível literário, do seu outro Saramago, enquanto agente social e gerador das suas ideias e filosofia de vida.

Miguel de Azevedo     

"Todos os Nomes", 1997, aqui capa do "Circulo de Leitores"


Sinopse apresentada no site da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/todos-os-nomes/

"1997 - O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro."


"All the Names" tradução de Margaret Jull Costa - Harcourt - 238 páginas


No "The New York Times, Richard Eder, apresenta a crítica à obra "Todos os Nomes" (All the Names), na secção "Books of the Times".

A peça crítica pode ser lida e consultada aqui,
em http://www.nytimes.com/2000/10/04/books/books-of-the-times-rising-out-of-dust-a-glimmer-of-hope.html

"Rising Out of Dust, a Glimmer of Hope"

"The dismal registry where Senhor Jose works is a labyrinth of choked passageways lined with soaring banks of files, dusty and draped in cobwebs. They contain, in one wing of the dank building, the birth and marriage records of Portugal's living. In the other wing, whose outer wall needs periodically to be extended, are the yellowing records of the dead.

''The fate of all paper, from the moment it leaves the factory, is to begin to grow old,'' observes Senhor Jose, the downtrodden and upward-persisting protagonist of Jose Saramago's ''All the Names.'' It is an early hint of connection between the registry and the human condition. The faint perfume of rose and chrysanthemum that drifts through, evoked by what is written on the paper, is another signal.

An infrangible bureaucratic hierarchy runs the place. At the bottom are the clerks, furiously active as they fill out the forms and file or transfer them. Over them are the senior clerks, spared by their subordinates' efforts from any such grueling labor. Above these are the deputies, more leisured still; and finally, the registrar himself. He is a grand personage who arrives long after the others, who never touches a file, whose sporadic orders filter down through the ranks and who, to all appearances, does nothing but think and frown.

Like the maze of Kafka's ''Castle'' and the disembodied machineries of ''The Trial,'' the registry is a mythical embodiment of the human spirit, entrapped. Mr. Saramago, a recent Nobel Prize winner, is Portuguese, though, not Central European. Fog, not bleakness, regulates his lighting.

There is a blurring effect in his great novel-parables; a kind of mercy. His protagonists are caught as Kafka's are caught, but not permanently. It is not that they escape from the web but that the web loses itself.

That Mr. Saramago is a Communist -- the very rare Communist who in all senses is a great writer -- is probably significant. Certainly there is nothing ideologically programmed in his fiction, but his little people, unlike K. or Joseph K., manage to prevail over what binds them. That he is an atheist is more important (a decidedly Latin Catholic atheist, frequently in trouble with the Church).

His various versions of God -- the registrar in ''All the Names,'' actual God in ''The Gospel According to Jesus Christ'' -- are tested, rebuked and sometimes persuaded by his lowly heroes. Jesus, in fact, in ''The Gospel''; and here, the clerk Senhor Jose. Middle-aged and solitary, Jose can't accept a humanity defined by the bare facts entered on the files. This meekly servile man sneaks into the registry at night to borrow certain cards and take them back to his shabby apartment next door. He enters them in a scrapbook of newspaper clippings about the 100 most famous Portuguese (something of a numbers stretch, he admits). It is a way of expanding the pinched definitions -- only this is life, only this is death -- in the registry's universe.

Then one night he finds he has picked up the birth, marriage and divorce file card of an unknown woman by mistake. There are no clippings to work a surrogate enlargement. Only life can do it. In fear and trembling, at comically heroic cost, this mouse grows wings and teeth (both chafe) and ventures out into the world to find her.

It is the beginning of a quest worthy of Don Quixote. Senhor Jose lacks a horse; he must use his own spindly shanks and once in a while, when it is raining especially hard, and at unaffordable expense, a taxi. His Dulcinea is worse than romantically enhanced; when he finally tracks her down, she is dead -- depressively, by her own hand.

Yet the quest is the opposite of depressive. Oddly, and in a fashion too complex to expound here (but recognizable to those familiar with Mr. Saramago's brand of secular and hard-earned miracles) it succeeds, transforming in practical ways those it touches.

Senhor Jose goes to the address listed in the last entry on his quarry's card, at the time of her divorce years earlier. He questions an old neighbor who had known her from childhood. Lives spill out: the neighbor had carried on an affair with the woman's father. She gives him the location of the school the woman attended as a girl.

The search grows mythical while remaining entirely down-to-earth and modestly absurd. Senhor Jose buys lard, a towel and a glass cutter. At night, in pouring rain, he uses them to cut a hole in a window and break into the school. He spends a miserable, soggy night and day -- it is the weekend -- searching for her files. He helps himself to the contents of the school refrigerator and takes naps in the director's office.

All he comes away with is a half-dozen yearly reports, each with its photograph. Nothing is conclusive, nor is his further search: talking with shopkeepers, her parents and, finally, visiting the cemetery where she was buried after her suicide just days before.

His travels alternate with erratic appearances at his job. Strangely, his absences, meticulously noted, are not rebuked. To the contrary, the icy registrar takes an increasingly solicitous interest in his clerk, sending medicine, food and a doctor when he catches cold. The reason remains hidden; it is revealed in a final two pages that instead of closing the story, open it out.

''All the Names'' is a lesser work than some of Mr. Saramago's others: ''Gospel,'' ''The Stone Raft,'' ''Blindness'' and ''The History of the Siege of Lisbon.'' It is closest to the last. There, a modest proofreader reverses not just an oppressive bureaucracy but history itself, and finds love with a resplendent live woman instead of an elusive dead one. Here and in the other books there is an audacity and energy in the governing conceit that ''All the Names,'' occasionally as dusty as its registry, doesn't quite manage.

Mr. Saramago's unpunctuated sentences, bundling together a statement, an objection, a qualification and a digression, need a lot of narrative detonation to keep them moving. The quieter ''Names'' bogs dozily down from time to time; periodically roused, though, by the lilting surprises of this intensely mischievous and intensely humane writer."


sábado, 22 de novembro de 2014

Citador #10 - em "Todos os Nomes"

Citador #10
da razão de "Todos os Nomes"
"A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 38 e 39

(...) Desta história familiar nada passou ao romance, mas "Todos os Nomes" não existiria se eu não tivesse investigado os dados da breve vida do meu irmão Francisco. (...)